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27.12.10

Coetzee



autor sul-africano Coetzee

Verão, o último volume da trilogia Cenas da Vida na Província, é mesmo o livro do ano, graças à capacidade do Nobel sul-africano J.M. Coetzee de se expor à radiação de um novo gênero que ameaça a supremacia do romance nesta segunda década do século 21: a autoficção. Verão começa onde termina Juventude (2002), a sequência de Infância (1997). Em Verão, um pesquisador inglês escreve a biografia de John Coetzee consultando suas anotações e entrevistando seus amigos. Detalhe: Coetzee está morto quando o estudioso começa a pesquisa, o que dá liberdade ao vivo Coetzee de fazer um balanço de sua experiência existencial e escrever ficção, adotando a si mesmo como modelo.

Essa tendência de usar a história particular para refletir sobre a vida pública marcou a literatura da primeira década do novo milênio, em especial o livro mais polêmico publicado no período, As Benevolentes, escrito por Jonathan Littel há seis anos – justamente no ano em que nascia o Facebook, website em que a vida privada dá seus últimos suspiros. O autor resume seu livro como um conto moral edificante sobre um personagem sombrio, o de um oficial nazista. O narrador (que se confunde com Littel, escritor judeu) tenta entender a cabeça do carrasco, colocando-se no seu lugar. Coetzee também cria sua persona em Verão, a de um escritor contraditório que, na vida real, não bebe, não fuma, não consome drogas, não come carne e luta contra as injustiças, e que, na autobiografia transformada em ficção, aparece como um autor 40 anos mais jovem, vivendo na década de 1970, acomodado, avesso a mudanças e visto com reservas por seus familiares.

O romance do novo milênio, como se vê, é o do autoconhecimento. Não é impossível que reapareçam famílias como a dos irmãos Karamazov ou adúlteras como Bovary, mas outros exemplos reforçam a tendência de Verão, como o da trilogia (mais uma) Seu Rosto Amanhã, escrita pelo espanhol Javier Marías – hoje o maior autor de seu país, seguido por Enrique Vila-Matas, que em Doutor Pasavento, um dos grandes lançamentos do ano, esgota todas as desgraças do romance numa única história, a de um homem abandonado pela mulher que perde também a filha, morta de overdose, e os pais, que se matam, e ainda tenta desaparecer ao inventar um passado fictício para colegas de ofício. Marías, a exemplo de Littel e Coetzee, usa o alter ego para concluir que a traição move o mundo. Seríamos todos caimitas? Cabe novamente responder com a tese de Littel, a de que todo escritor é, no fundo, seu biógrafo ficcional e se trai, considerando que os papéis de autor e personagem são intercambiáveis. Afinal, não foi Flaubert que dizia ser ele mesmo madame Bovary?

O melhor lançamento do ano, 2666, do chileno Roberto Bolaño (1953-2003), cruza igualmente realidade e ficção. O autor recluso inventado por ele num dos cinco romances interligados por dois dramas no gigantesco livro (quase 900 páginas) tem algo do próprio Bolaño, embora seja um alemão incensado por críticos europeus. Bolaño escrevia para acabar com a automitificação dos escritores – e um exemplo disso é o próprio Archimboldi de 2666, quase uma caricatura do americano Thomas Pynchon, conhecido por sua reclusão. Nessa linha, o francês Pierre Michon assinou também outro grande pequeno lançamento, Senhores e Criados, que reúne biografias fictícias de Goya, Watteau e outros pintores, tentando entender essas vidas maiúsculas a partir de detalhes de suas obras. Cabe registrar, entre os estrangeiros, a mesma fixação do inglês McEwan por personagens de vida minúscula, como do premiado físico de seu romance Solar, cuja fama nada significa para ele.

O mercado editorial brasileiro, agora mais sofisticado, recolocou nas livrarias obras fora de circulação. Dois grandes lançamentos nessa linha foram A Verdadeira Vida de Sebastião Knight, primeiro romance escrito em inglês por Vladimir Nabokov, e O Mestre e a Margarida, de Bulgakóv, dois russos que, por diferentes caminhos, foram vítimas do regime comunista. O aristocrata Nabokov fugiu da extinta URSS. Bulgakóv foi perseguido pelo stalinismo, mas deixou como vingança essa obra-prima, sobre uma visita de Satanás a Moscou, em 1930. Outros lançamentos importantes na linha das obras fora de catálogo foram Sob o Sol de Satã, do francês Georges Bernanos, 28 Contos, do americano John Cheever, e o de Os Chefes/Os Filhotes, primeiros exercícios literários do escritor peruano Mario Vargas Llosa, premiado com o Nobel este ano.

Entre as biografias de verdade destacam-se a do jornalista norte-americano David Remnick, A Ponte – Vida e Ascensão de Barack Obama e a do historiador inglês Ian Kershaw, Hitler. É um gênero que não parece em crise, ao contrário do romance. As narrativas breves parecem atrair mais a atenção dos autores contemporâneos e o ano teve dois bons exemplos disso, o livro Felicidade Demais, que reúne 10 contos da canadense Alice Munro, uma autora incontornável, e Noturnos, do japonês Kazuo Ishiguro, delicada recriação do universo particular dos músicos.

A poesia brasileira registrou bons momentos com Esquimó, de Fabrício Corsaletti, e Monodrama, de Carlito Azevedo. Entre os ficcionistas, destacam-se os escritores Carol Bensimon (Sinuca Embaixo D”Água), Leandro Sarmatz (Uma Fome), J.P. Cuenca (O Único Final Feliz para Uma História de Amor É Um Acidente), Rodrigo Lacerda (Outra Vida), Ronaldo Correia de Brito (Retratos Imorais) e Elvira Vigna (Nada a Dizer).

Antonio Gonçalves Filho – O Estado de S.Paulo
Fonte: http://www.estadao.com.br/noticias/arteelazer,coetzee-brilha-no-ano-da-autoficacao,658673,0.htm

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