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4.12.10

Escritos Sobre a História - Hobsbawm

Ao contrário de muitos historiadores brilhantes e consagrados da sua geração, Eric J. Hobsbawm não é estranho ao mundo editorial português e parte substancial da sua obra já se encontra traduzida. Esta espécie de excepção em que consiste a atenção que lhe é atribuída, aliada às inúmeras leituras que lhe são dedicadas tanto na academia como fora dela, são sintomáticas da pertinência e actualidade do seu trabalho e devem igualmente bastante à qualidade e acessibilidade da sua escrita. Escritos Sobre a História, que nos chega agora pela Relógio D’Água, ilustra exemplarmente estas características.

O historiador marxista já não justifica grandes apresentações. É uma classificação traiçoeira e geralmente de uso fácil, sempre à mão das nossas preferências, mas a vasta obra de Hobsbawm, o seu papel de intelectual militante, com presença permanente na praça pública, e a absolutamente incontornável marca e contributo que deixou para a historiografia, diria mesmo para as ciências sociais no geral, tornam inegável o seu estatuto de um dos historiadores mais importantes do século XX e um dos intelectuais vivos mais influentes.

Escritos Sobre a História, uma selecção de alguns dos ensaios originalmente compilados em On History (1997), retrata o melhor deste equilíbrio no percurso do historiador: o seu papel de intelectual marxista, persistente na crítica social, e o seu trabalho na história e nas ciências sociais. Nesta obra, encontramos um conjunto de textos dispersos, escritos no decorrer de um período de três décadas e saídos nas mais diversas publicações – na imprensa ou em revistas académicas –, assim como diversos textos inéditos até à sua publicação em On History, fruto de conferências e palestras dadas pelo mundo fora durante o referido período.

Dificilmente podemos destacar uma tese que atravesse o livro duma ponta à outra, dada a enorme abrangência dos temas referidos. Hobsbawm toca numa parte substancial das discussões teóricas e metodológicas mais profícuas ou populares das últimas décadas da prática historiográfica: os usos sociais do passado nas sociedades contemporâneas e a importância do conhecimento desse passado (em especial em “O Sentido do Passado” e “Que Pode a História Dizer-nos Sobre a Sociedade Contemporânea?” ou ainda “A Curiosa História da Europa”), o binómio subjectividade/objectividade e o pós-modernismo (e.g. “O Partidarismo” e “A História da Identidade não é Suficiente”), a importância de Marx para a história, a relação da história com as restantes ciências sociais, ou, entre outros exemplos, as áreas mais confinadas da história oral e da história “a partir de baixo” (“Sobre a História a Partir de Baixo”), da história contra-factual (“Podemos Escrever a História da Revolução Russa?”), da história económica ou da cliometria. Uma das maiores qualidades deste livro, sem dúvida ao alcance de poucos, é a de juntar na perfeição o melhor de dois mundos: a preocupação em divulgar a História para lá das fronteiras da disciplina académica e, em simultâneo, a discussão séria e rigorosa sobre alguns dos problemas associados à construção do seu conhecimento e que por vezes deviam ser objecto de uma preocupação mais acesa entre os historiadores, nomeadamente no que concerne a algumas questões teóricas e epistemológicas tantas vezes desprezadas ou minoradas.

São precisamente os ensaios com essa preocupação epistemológica mais presente aqueles que se destacam nesta compilação – textos como “Progressos da História?”, “Os Historiadores e a Ciência Económica” (I e II), “O Partidarismo”, “Que Devem os Historiadores a Karl Marx?” ou ainda “A História da Identidade Não é Suficiente”. Apesar de escritos em diferentes períodos e com distintos propósitos, alguns deles com apontamentos que até podemos considerar datados, são, apesar disso, textos com enorme relevância para o panorama actual das ciências sociais por consistirem em reflexões sérias e profundas sobre tópicos que ocupam a mesa de discussão há décadas. Além disso, a consciência de Hobsbawm da indissociabilidade das ciências sociais e da sociedade em que existem, sublinhada recorrentemente, torna os textos facilmente perceptíveis e dão-lhe uma amplitude que podemos considerar extra-científica, na medida em que reflectem com clareza problemas na ordem do dia das sociedades contemporâneas.

Nesta linha, devem ser enfatizados os dois textos “Os Historiadores e a Ciência Económica”, até então inéditos, apresentados em 1980, em duas conferências, na Faculdade de Economia da Universidade de Cambridge. Em grande medida, porque, tal como sublinha Hobsbawm, as questões que tentou suscitar nestas conferências continuam por resolver e a verdade é que a solução ou, no mínimo, a necessidade de reflectir sobre elas assume num período de crise económica uma urgência muito particular. A abstracção da teoria económica e o seu carácter a-histórico, sustento do mito da sua independência em relação ao social e do privilégio que confere à dimensão racional-individual, são os principais alvos do exercício do historiador que procura sublinhar, mais do que a importância da economia para a história, a importância inolvidável da história para a economia (por exemplo, como antídoto para alguns dos maiores riscos da cliometria, “a escola que transforma a história económica em econometria retrospectiva”, p. 92). A arguição faz-se com base na história enquanto disciplina, mas assinale-se que esta assume aqui um papel que poderia caber a qualquer outra ciência social e humana empenhada em confrontar a insustentabilidade da hegemonia das principais premissas da economia liberal na sociedade e nas ciências sociais, enquanto modelo explicativo ineficaz para as acções humanas. A demissão da tarefa explicativa das ciências sociais, substituída pela mera análise, também não fica esquecida nestes textos e é outro dos tópicos que percorre, mesmo que nem sempre de forma declarada, a maior parte dos ensaios que compõem o livro.

Assinale-se, porém, que nenhum dos textos é puramente teórico, para além de que mesmo quando Hobsbawm fala de problemas que podem desinteressar à maior parte dos leitores, a sua linguagem nunca cai no hermetismo que o discurso académico muitas vezes tende a assumir. Não é tão pouco o propósito destes ensaios oferecer reflexões profundas e finais sobre os tópicos abordados, mas antes suscitar questões e reforçar a importância da história para pensar os mais diversos problemas relativos às sociedades contemporâneas, mesmo quando estes aparentam não ter qualquer relação com preocupações de índole histórica. “Barbárie: Guia de Instruções” é um dos exemplos que revela esta abrangência do livro, embora também seja, provavelmente, um dos textos menos conseguidos (mas por outros motivos). O ensaio parte de uma reflexão em torno da constação de Hobsbawm de que “após uma tendência secular decrescente ao longo de cerca de 150 anos, a barbárie tendeu a aumentar durante a maior parte do século XX, não havendo qualquer indício que nos sugira que o seu avanço tenha terminado” (p. 228). Mais uma vez, destaca-se aqui outro dos elementos que percorre o livro e reforça a singularidade de Hobsbawm nos nossos dias: a defesa dos valores das Luzes, uma opinião que, como reconhece, não está na moda actualmente mas que defende de acordo com a tese de que é precisamente graças à falência desses valores que “aprendemos a tolerar o intolerável” (p. 242).

Desta edição ficaram de fora alguns dos textos originalmente publicados em On History, sem que no entanto seja esclarecido o porquê ou o critério que assistiu à selecção, ao invés da tradução integral da obra original. Mas deve ser dito que a selecção feita não compromete nem empobrece irremediavelmente esta edição face ao original. Porém, há um texto que lamentavelmente ficou de fora, até por se tratar de um dos textos mais importantes que Hobsbawm escreveu, com significativa repercussão na época da sua publicação, e, em certa medida, um marco da reflexão historiográfica. Falo de “From Social History to the History of Society”, uma crítica à “história hifenizada”, para usar a sua feliz designação, e uma defesa da história como ciência social preocupada em estudar a sociedade como um todo, alheada da falaciosa fragmentação do social em que opera a dita história hifenizada e os modelos das ciências sociais liberais.

A presença de Hobsbawm entre nós tem, entre outras vantagens, o mérito de persistir na defesa sólida de muitos dos valores abandonados nas últimas décadas, em grande medida como resultado do furacão pós-modernista que deixou uma boa parte das ciências sociais em roupa interior (geralmente despoletado por pouco mais do que um deleite erótico gratuito mas de consequências bastante pesadas). No essencial, o historiador permaneceu fiel a alguns dos princípios que guiaram o seu trabalho – muitas vezes correndo o risco de ser acusado de “positivismo”, um prémio fácil para qualquer pessoa que ainda use a palavra “objectividade” – e são precisamente esses princípios que, nos dias de hoje, faz mais sentido que nunca que sejam novamente recuperados para alguns dos debates nas ciências sociais, até porque o “anything goes” da deriva pós-modernista não pode satisfazer ninguém durante muito tempo e o seu fulgor já não é o mesmo dos anos 80 e 90. Neste contexto, o reconhecimento de Hobsbawm de que é possível assegurar o rigor da pesquisa e da análise com o comprometimento social e a “defesa dos valores das Luzes”, sem que estes se condicionem ao ponto da confusão mútua e “a moral se sobreponha à estrutura”, como assinalou Marshall Sahlins noutra ocasião mas a propósito de um tema gémeo, atribui especial importância ao seu trabalho e sublinha precisamente a sua actualidade, ao derrubar algumas das dicotomias mais estéreis que marcaram o passado.

Hobsbawm terá, certamente para muitos, um percurso político que está longe de ser imaculado, marcado por opções ideológicas muitas vezes polémicas – e que pontualmente se reflectiram negativamente em algumas das suas obras –,  mas o que é certo é que tais divergências não devem servir para nos desviar do melhor que o seu trabalho tem para nos oferecer e que, indubitavelmente, se sobrepõe a tudo o resto e é independente das suas idiossincrasias mais discutíveis. A juntar a tudo isto, Escritos Sobre a História é uma excelente janela para o trabalho do historiador, tanto para quem conhece a sua obra como para quem nunca com ela contactou, para além de ser uma leitura bastante agradável e proveitosa.

A tradução ficou a cargo de Miguel Serras Pereira, um dos mais experientes e competentes tradutores na área das ciências sociais e humanas em Portugal, e não merece outro apontamento que não seja o elogio da sua qualidade.

por Diogo Duarte

Escritos sobre a História
Eric Hobsbawm
trad. Miguel Serras Pereira
Relógio D’Água
2010

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