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31.1.11

Notícias de uma Revolução VIII - Egito : gritos de dor




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Euforia, banho de sangue e caos no Egito

Robert Fisk* Cairo


Os tanques egípcios, os manifestantes sentados sobre eles, as bandeiras, as 40 mil pessoas que choravam e alentavam os soldados na Praça da Liberdade, enquanto rezavam ao redor deles os irmãos da Irmandade Muçulmana, sentados entre os passageiros dos tanques. Seria o caso de comparar isso com a liberação de Bucareste? Sentado sobre um dos tanques de fabricação dos EUA, só podia recordar aquelas cenas cinematográficas maravilhosas sobre a liberação de Paris. Uns dois metros dali, a polícia de segurança de Hosni Mubarak, com seus uniformes pretos ainda disparava contra os manifestantes que estavam próximos do Ministério do Interior. Era uma celebração de uma vitória selvagem e histórica: os mesmos tanques de Mubarak estavam liberando a capital de sua própria ditadura.

Na pantomima do mundo de Mubarak – e de Barack Obama e de Hillary Clinton, em Washington -, o homem que ainda se autoproclama presidente do Egito realizou a eleição mais absurda de um vice-presidente para acalmar a fúria dos manifestantes. O eleito foi Omar Suleiman, chefe dos negociadores egípcios com Israel e um antigo agente da inteligência, um homem de 75 anos, com vários anos de visitas a Tel Aviv e a Jerusalém, assim como com vários infartos que os provam. Como este funcionário enfrentará a raiva e o desejo de libertação de 80 milhões de egípcios fica a cargo da imaginação. Quando contei aos que estavam ao meu redor no tanque sobre a designação de Suleiman, começaram a rir.

As tropas, em roupas esgarçadas, rindo e até aplaudindo, não manifestaram qualquer intenção de borrar a grafitagem que a multidão tinha pintado nos tanques: “Fora Mubarak” e “Teu regime está acabado, Mubarak”, aparecia em cada um dos tanques que percorriam as ruas do Cairo. Em um dos tanques que davam a volta ao redor da Praça da Liberdade estava um dos Irmãos Muçulmanos, Mohamed Beltagi. Mais cedo tinha passado perto um comboio de veículos blindados que estavam a postos próximo ao subúrbio de Garden City, enquanto as pessoas abriam o caminho entre as máquinas e levavam laranjas aos soldados, aplaudindo-os como patriotas egípcios.



Mais do que a tresloucada eleição do vice-presidente de Mubarak e do que a designação de um convescote num governo sem poder, as ruas do Cairo demonstraram que os líderes dos EUA e da União Europeia (UE) não entenderam nada. Acabou-se. Os débeis intentos de Mubarak, ao declarar que se deve terminar com a violência, quando sua própria segurança policial foi responsável, nos últimos cinco dias pelos atos mais cruéis, incendiou ainda mais a fúria daqueles que passaram 30 anos sob uma ditadura sanguinária. Prova disso são as suspeitas de que muitos dos saques estão sendo levados a cabo por policiais civis, assim como o assassinato de 11 homens numa área rural há 24 horas, para destruir a integridade dos manifestantes que estão tentando tirar Mubarak do poder.

A destruição de um número importante de centros de comunicações por parte dos homens com rostos tapados, que devem ter sido coordenados de alguma maneira, também levantou o alerta e veio a ideia de que os responsáveis seriam os agentes da civil que tinham golpeado os manifestantes. Mas os incêndios de delegacias de polícia no Cairo, em Alexandria e Suez, assim como em outas cidades foram obra dos policiais civis. Quase à meia noite de sexta para sábado, multidões de homens jovens atiçaram fogo ao longo da auto estrada de Alexandria.

Infinitamente mais terrível foi o vandalismo no Museu Nacional do Egito. Depois de a polícia abandonar o lugar, os saqueadores arrombaram a porta do edifício pintado de vermelho e destruíram estátuas faraônicas de quatro mil anos, múmias egípcias e impressionantes botes de madeira originariamente talhados para acompanhar os reis em suas tumbas. Mais uma vez, deve-se dizer, circularam rumores de que a polícia tinha causado esses atos de vandalismo antes de ter abandonado o museu na sexta à noite. Tudo parece recordar o que se passou no museu de Bagdá em 2003. O saque não foi tão grave como o do Iraque, mas o desastre arqueológico é pior. Os manifestantes se reuniram à noite, em círculo, na Praça da Liberdade, para rezar.


E também houve promessas de vingança. Uma equipe da cadeia de televisão Al Jazeera encontrou um depósito com 23 cadáveres em Alexandria, aparentemente assassinados pela polícia. Muitos tinham seus rostos horrorosamente mutilados. Outros onze mortos foram descobertos num depósito no Cairo. As famílias, que se congregaram ao redor de seus restos ensanguentados, prometiam represálias contra os policiais.

O Cairo agora oscila da euforia à mais sombria cólera em questão de minutos. Ontem pela manhã cruzei a ponte do rio Nilo para ver as ruínas do quartel do partido de Mubarak. Em frente, seguia de pé um pôster que promovia as bondades do oficialista Partido Nacional Democrata (PND), as promessas que Mubarak, não pôde cumprir em 30 anos. “Tudo o que queremos é a saída de Mubarak, novas eleições e nossa liberdade, e honra”, disse-me um psiquiatra de 30 anos.

A denúncia de Mubarak de que essas manifestações seriam parte de um “plano sinistro” é o núcleo de seu pedido de reconhecimento internacional. De fato, a resposta de Obama foi uma cópia exata de todas as mentiras que Mubarak está usando durante três décadas, para defender seu regime. O problema é o de sempre: as linhas do poder e as da moralidade não se unem quando os presidentes estadunidenses tem de tratar com o Oriente Médio. A liderança moral dos Estados Unidos desaparece quando se trata de confrontar os mundos israelense e árabe. E o exército egípcio é parte dessa equação. Recebe 1,3 milhões de dólares de ajuda estadunidense. O comandante dessas forças armadas e amigo pessoal de Mubarak, o general Mohamed Tantawi estava em Washington, no momento em que a polícia tratava de reprimir com violência os manifestantes. O final pode ser claro. A tragédia ainda não terminou.


*Robert Fisk é correspondente do jornal britânico The Independent no Oriente Médio. Artigo originalmente publicado no Página 12 e republicado pela Carta Maior.

30.1.11

Mathieu Bernard - Reymond



Mathieu Bernard-Reymond, Exxon Mobil 9am to 11am, 2005

© Mathieu Bernard-Reymond

Augusto Comte




Auguste Comte: o fundador da sociologia ou física social


A maioria dos seres humanos, por ser dominada pela afetividade, poderia ter sua existência moldada conforme as exigências da doutrina social do “progresso dentro da ordem”.

Lelita Oliveira Benoit

Seduzido pela personalidade do nobre decadente Henri de Saint-Simon (1760-1825), Auguste Comte aceitou ser, a partir de 1817, seu secretário particular por uma quantia mensal de 300 francos. Contudo, logo após o início da colaboração, começou a se desenhar o desentendimento entre o mestre e o discípulo. O jovem secretário tinha como tarefa transformar em textos o pensamento do mestre. No entanto, começou a desenvolver ideias próprias, entrecruzando-as com aquelas que deveria reproduzir. É dessa época a primeira e mais sintética fórmula positivista: “Tudo é relativo, eis o único princípio absoluto”.

As raízes contraditórias do positivismo

Foi também nesses anos de juventude que Comte escreveu um texto, até hoje pouco conhecido, intitulado A Indústria (1817). Não era um texto qualquer. O jovem escritor Comte, em estilo límpido, desenhou o projeto esperado pelo mestre Saint-Simon. Acreditava que somente aprofundadas reflexões políticas, seguidas da elaboração de um plano de “reorganização social”, poderiam erradicar a anarquia que, tendo começado em 1789, com a Revolução Francesa, permanecera até o início do século 19. A Indústria deveria se tornar a primeira pedra do edifício de uma nova e grande Enciclopédia destinada a guiar a reorganização social futura em bases não anarquistas. Em A Indústria, encontram-se reflexões que anunciam a doutrina socialista posterior (como o projeto do planejamento da economia), entrecruzadas a conceitos já propriamente do relativismo positivista. Esse projeto foi abandonado por Comte logo em 1819, mas iniciava-se ali a autêntica história da filosofia positivista.

Ainda naqueles anos de juventude, Comte escreveu outro ensaio, bem mais célebre, no qual são desenvolvidos princípios positivistas. Intitulava–se Plano dos Trabalhos Científicos Necessários para Reorganizar a Sociedade (1822) ou, simplesmente, Opúsculo Fundamental. Desenha-se, nesse ensaio, um vasto plano para reorganizar a sociedade francesa mergulhada na crise e na anarquia posteriores à Revolução Francesa. Após aprofundadas reflexões sobre a natureza espiritual da crise europeia, Comte procura se fazer escutar pelos cientistas que, conforme pensava, constituíam a única autoridade respeitada na Europa decadente, sendo o único poder capaz de dirigir a reorganização social, para convencê-los a tomar em mãos o poder social ou, nas palavras de Comte, ensinar-lhes “a tratar a política de maneira positiva”.

Elabora então Comte, pela primeira vez, o mais célebre de todos os seus conceitos, a teoria ou lei dos três estados. Segundo o positivismo, o espírito humano necessariamente se desenvolveu no decorrer de três fases ou estados: o teológico, o metafísico e o positivo. A expressão “o espírito humano” significa, bem restritamente, “conhecimento científico”. Assim sendo, ao se referir aos três estados do espírito humano, Comte nos remete, acima de tudo, a certas fases da história das ciências. A lei dos três estados, assim concebida, seria um conceito filosófico “compreensível para os cientistas”. De forma sintética, Comte expõe-lhes a história do espírito humano, como se segue: “Pela própria natureza do espírito humano, cada ramo de nossos conhecimentos está necessariamente obrigado, em sua marcha, a passar sucessivamente por três estados teóricos diferentes; o estado teológico ou fictício; o estado metafísico ou abstrato; enfim, o estado científico ou positivo”.

O estado teológico permaneceu enquanto a humanidade, por meio de seus sábios, fazia poucas observações realmente positivas, ou seja, fundadas em observações efetivas dos fenômenos naturais. Como então os fatos conhecidos eram poucos, somente era possível ligá-los por meio de “fatos inventados”. Desse modo, naquele estágio inicial das ciências, para explicar as leis que regem os fenômenos naturais, os sábios recorreriam a “agentes sobrenaturais”. Mas, de qualquer modo, ao menos provisoriamente, as explicações teológicas ajudaram a inteligência humana a sair do estado de torpor e debilidade, próprio da ignorância primitiva, e se aventurar em novas observações, em busca de novos conhecimentos.

O segundo momento ou estado do desenvolvimento das ciências é chamado pelo positivismo de “metafísico” e teria um “caráter bastardo”. Aliás, a palavra “bastardo” parece bastante adequada para qualificar o estado metafísico: diz-se que é bastardo aquilo que é híbrido, que resulta, como nos conhecimentos metafísicos, de enunciações que entrecruzam ideias teológicas com ideias positivistas. Na história do espírito humano, o estado metafísico teria ocorrido quando a ciência fazia tentativas de ligar os fatos por meio de ideias que não são completamente sobrenaturais, mas que não são inteiramente naturais e que são causados por “entidades ou abstrações personificadas”. Por exemplo, para explicar os fenômenos observados no mundo físico, orgânico e bruto, os sábios metafísicos recorrem à natureza, ou seja, a uma espécie de entidade metafísica ou abstração personificada, relativa ao conjunto dos fatos físicos. Na verdade, escreve Comte, o espírito humano, quando no estágio metafísico, se bem que procurando limitar a absurda pretensão de tudo conhecer, restringindo-se aos fatos observáveis, ainda assim tem injustificáveis ambições de conhecer “pelas causas absolutas”.

O que caracterizaria o último estado teórico – o estado positivo – seria que, em sua vigência, os sábios passam a admitir que há limites intransponíveis para a capacidade humana de conhecimento. Imbuídos de tal genuíno espírito positivo, explica-nos Comte, os sábios pretendem, no exercício da ciência, apenas conhecer o que está dado – os fatos e suas leis positivas –, sem se preocupar com a explicação pelas causas e os fins últimos. Desse modo, o conhecimento científico não poderia avançar além de limites claramente estabelecidos, ou seja, nada se poderia conhecer senão as leis de coor-
denação e sucessão dos fenômenos naturais, deduzidas dos fenômenos observáveis.

Segundo Comte, o estado positivo seria o definitivo; tendo-o atingido, o espírito humano não alcançaria patamar mais elevado. Aliás, a história do desenvolvimento progressivo das ciências seria ela própria um fato positivo e observável na história interna de cada ciência. Teria sido com base nessas observações epistemológicas que o positivismo pôde estabelecer a própria lei dos três estados.

Portanto, os estados do espírito humano reduzem-se a modos ou métodos de conhecimento, e a lei dos três estados da ciência foi pensada por Comte, antes de tudo, como uma categoria epistemológica, ou seja, relativa à filosofia das ciências. Como veremos a seguir, é sobre esse fundamento epistemológico que é pensada e construída a física social ou sociologia, nas páginas da obra mais importante de Comte, publicada em quatro volumes, o Curso de Filosofia Positiva (1830-1842).

As raízes biológicas da doutrina positivista do “progresso dentro da ordem”
 
Refletindo sobre a filosofia positivista, Herbert Marcuse, em seu livro Razão e Revolução, observa que, do ponto de vista da filosofia ocidental, desde os gregos, a expressão “filosofia positivista” não passa de uma contradição nos termos, pois nela desaparece o conteúdo negativo que sempre foi o cerne da filosofia ocidental. Nesse sentido, física social ou sociologia nada mais são do que a continuidade da filosofia positivista; as três palavras recobrindo um único significado: a afirmação daquilo que é, sem sombras negativas, sem obscuridades. Portanto, podemos dizer que o Curso de Filosofia Positiva concretiza o plano filosófico destinado aos cientistas da Europa, sendo ao mesmo tempo a exposição da física social e da sociologia. Já em sua juventude, Comte tinha lido e discutido o célebre livro Esboço para um Quadro Histórico dos Progressos do Espírito Humano, escrito por seu antecessor e inspirador, o teórico e ativista da época do Iluminismo Marie Jean Antoine Nicolas de Caritat, marquês de Condorcet (1743-1794).

Com base nos conceitos condorcetianos, vinha construindo uma das pedras fundamentais do abrangente campo teórico do positivismo, o conceito de desigualdade. Mas o olhar comtiano, de qualquer modo, manifestava a gênese do declínio do século 18. Segundo comenta Comte, seria necessário abandonar as teses revolucionárias de Condorcet sobre o desaparecimento da desigualdade, por meio de novas revoluções, posteriores à Revolução Francesa. Na verdade, escreve Comte, os seres humanos são, entre si, naturalmente desiguais e assim deve permanecer a sociedade por eles formada, em todas as épocas.

Mas esse “natural”, que determina o caráter de imutabilidade da desigualdade, é muito mais a manifestação de um dado fisiológico do que uma constatação pura e simples de uma realidade social. Na verdade, para Comte, a desigualdade tem sua fonte na natureza fisiológica do homem e assim se torna objeto privilegiado de uma nova ciência. Até agora, existiu uma “física dos corpos brutos” (ou seja: a astronomia, a física propriamente dita, e, em certo sentido, a química) e uma “física dos corpos organizados” (ou seja, a biologia, como história natural, fisiologia e anatomia). Contudo, no século 19, transpassado por permanente anarquia política, se colocava uma física social como estudo das leis imutáveis da sociedade, ou seja, as “leis do progresso dentro da ordem”.

Em outras palavras, isso quer dizer que, como totalidade orgânico-biológica, a sociedade deve ser objeto de uma ciência positiva e ser estudada com a mesma objetividade e neutralidade com que os astrônomos, físicos, químicos e biólogos tratam seus respectivos objetos. Contudo, somente a partir de 1830, com os quatro volumes do Curso de Filosofia Positiva (1830-1842), esse vínculo entre a desigualdade-cérebro se revela nos textos de Comte com peso determinante.

Naqueles anos de juventude de Comte, viajava pelo Europa um famoso médico e anatomista austríaco, Franz Joseph Gall (1758-1828), ministrando aqui e ali cursos de fisiologia e anatomia e chegando a certas conclusões que eram consideradas contrárias à religião cristã. Em suas aulas, Gall demonstrava que as funções fisiológicas do cérebro podem ser descritas como sendo a sede das faculdades intelectuais e morais. A cranologia e sua “teoria das localizações”, que mais tarde serão chamadas de frenologia por Forster e Spurzheim, foi inteiramente desenvolvida por Gall. Ironicamente comentou Hegel, na Fenomenologia do Espírito (1806), que os frenólogos, entre os quais Gall, pensavam que “a razão é um osso”. Recomenda Hegel que os frenólogos abrissem seus próprios crânios para verificar a veracidade de tais afirmações! Ironia à parte, Comte entusiasmou-se com a frenologia, expondo uma versão particular dessa doutrina no Curso de Filosofia Positiva. A frenologia aparece ali como fundamento da classificação social ou da ordem social.

Na “Lição 45” do Curso de Filosofia Positiva, Comte expõe a teoria frenológica de Gall, que considera de valor decisivo para o progresso da biologia. A frenologia, como nos explica Comte, era uma tentativa de estudar, do ponto de vista positivo, “a inteligência humana”. De fato, segundo Gall, as faculdades intelectuais e morais teriam origem orgânica, devendo, por conseguinte, ser objeto dos estudos fisiológicos.

É fácil imaginar o escândalo causado então pela frenologia. De acordo com os ensinamentos de Gall, não existiria, propriamente falando, o “eu”, a “consciência”, a “alma” ou qualquer outra forma de subjetividade humana. Cada capacidade intelectual ou sentimento moral seria, segundo Gall, de natureza puramente fisiológica, constituindo diversos “órgãos cerebrais” contíguos, mas distintos entre si. A unidade a que chamamos “eu”, “alma”, “consciência” seria, portanto, uma ilusão ou tão somente fantasmas metafísicos. Na verdade, tais unidades metafísicas nada têm de misteriosas, sendo explicáveis como sendo o resultado da participação conjunta, nos nossos atos morais e pensamentos, de diversos órgãos cerebrais.

Desde a juventude, nas cartas ao amigo Valat, Comte manifestou grande entusiasmo pela obra de Gall e acreditou que, com o advento da teoria frenológica, começava se apagar o último vestígio da metafísica ocidental, de Descartes em diante. Com as descobertas frenológicas, também o estudo das faculdades intelectuais e morais do homem teria chegado ao seu estado positivo, escreveria Comte nas obras de maturidade, ou seja, no Curso de Filosofia Positiva e também no Prefácio do Sistema de Política Positiva (1851-1854).

Havia, contudo, divergências entre os frenólogos, a principal delas aquela relativa às “localizações das faculdades humanas”. O próprio Comte toma partido em uma dessas polêmicas, sobre a existência de um “órgão do roubo”. O desejo inato de se apropriar das coisas alheias – escreve Comte – “é uma aberração do sentimento da propriedade, este sim, verdadeiramente natural ao homem”. De qualquer modo, Comte acreditava que, no futuro, quando as análises anatômicas do cérebro fossem mais precisas e sofisticadas, com certeza poderíamos então definir exatamente a localização fisiológico-cerebral dos sentimentos morais e das capacidades intelectuais humanas.

De acordo com os estudos anatômicos de Gall, tinha sido possível saber, sobretudo, que as faculdades propriamente humanas – as faculdades intelectuais –, se comparadas ao restante da escala animal, seriam as mais fracas entre todas. Segundo a frenologia, como nos explica Comte, a porção mais volumosa e animal do cérebro humano localiza-se na parte posterior do crânio. Ora, exatamente como ocorreria nos outros animais superiores, aquela parte maior do cérebro seria o simples prolongamento da coluna vertebral. Com essa descoberta frenológica, seria possível concluir que, nos seres humanos, como ocorre nos outros animais superiores, a sede dos sentimentos morais ou afetividade localiza-se na região cerebral posterior e mais volumosa. Em contrapartida, a parte do cérebro “mais humana”, que se localizaria na região frontal do crânio, além de menos volumosa, seria também, segundo a expressão de Comte, a menos enérgica. Segundo Gall e seu discípulo Comte, naquela região cerebral de menor extensão e de atividade mais fraca é que estariam localizadas as faculdades intelectuais superiores.

A estática sociológica ou teoria positiva da ordem
 
Fundamentando-se em tais questionáveis descobertas da teoria frenológica das localizações cerebrais, Comte desenvolveu conceitos centrais da estática sociológica (ou teoria positiva da ordem). No Curso de Filosofia Positiva, ele afirma que a maioria dos seres humanos jamais desenvolverá a parte frontal – e mais humana – do cérebro e, além disso, sede das faculdades intelectuais superiores. A maioria ficará limitada eternamente aos desenvolvimentos da afetividade e dos sentimentos morais, cujos órgãos estão localizados na região cerebral posterior, mais volumosa e mais animal.

Esse estado pouco definido entre a animalidade e a humanidade, no qual se encontraria a quase totalidade dos seres humanos, não era, contudo, segundo Comte, algo que devesse causar preocupações. Do ponto de vista da harmonia, ou seja, da ordem social, na verdade, era bom que assim fosse. A maioria dos seres humanos, por ser dominada pela afetividade, poderia ter sua existência moldada conforme as exigências da doutrina social do “progresso dentro da ordem”. Por outro lado, a “elite da humanidade”, constituída pelo número reduzido daqueles que teriam desenvolvido a parte frontal do cérebro, deveria se dedicar às atividades intelectuais do raciocínio, vez ou outra fornecendo à sociedade “novos Sócrates, Homeros ou Arquimedes”.

Não é estranho, portanto, que, pouco a pouco, entrelaçando verdades positivas desse e de todo tipo, a sociologia comtiana tenha se transformado em religião da humanidade, nos anos posteriores a 1848. O começo contraditório abandonado afinal se relacionou com o fim dogmático, ou como escreveu Alfred de Vigny, o poeta predileto de Comte: “O que é uma grande vida? É um pensamento da juventude realizado na idade madura”.

"Varrer Mubarak e o imperialismo".

Egito: varrer Mubarak e o imperialismo

A emergência das massas árabes, primeiro na Tunísia, agora no Egito, fez mover o tabuleiro político no Oriente Médio. Há sinais de luta popular também no Marrocos, na Argélia, na Jordânia e no Iêmen. No Líbano, em situação distinta, também ocorrem abalos institucionais. A queda do governo de Hariri, aliado dos Estados Unidos e a subseqüente designação de um governo polarizado pelo Hezbollah permitem antever um quadro de dificuldades para os aliados dos EUA e de Israel na região.

No Egito os protestos iniciados no dia 25 de janeiro fazem vacilar uma das piores ditaduras apoiadas pelos EUA no Oriente Médio. Maior e mais populoso país árabe, o Egito paga a conta de ajustes neoliberais feitos sob o figurino do FMI e do Banco Mundial e, hoje, 90% dos jovens (que formam dois terços da população) estão desempregados e 40% da população vegeta abaixo da linha de pobreza.

A ditadura dirigida por Hosni Mubarak dirige o país desde 1981 quando o presidente Anuar Sadat, do qual o tirano era vice-presidente, foi morto a tiros pela própria guarda presidencial durante um desfile militar no Cairo. Sadat, que desde 1979 reconhecia o estado de Israel e havia se aliado aos EUA, era encarado como um traidor da causa árabe e foi morto cinematograficamente diante das câmaras de televisão que cobriam a solenidade militar da qual participava.

Nestas três últimas décadas, o Egito foi o maior aliado americano no mundo árabe – o outro grande aliado, a Arábia Saudita, com um terço da população do Egito: 28 milhões, contra os mais de 80 milhões do país mediterrâneo – e o segundo maior destino da “ajuda” militar e econômica dos EUA. O primeiro, lógico, é Israel.

Nestas condições, mais do que no Líbano (com toda a sua importância histórica e política) ou na pequena Tunísia, é nas ruas das cidades egípcias que está sendo jogado, hoje, o destino das alianças políticas e militares dos EUA e Israel. Uma mudança de regime no Cairo pode ter um enorme poder de desestabilização regional.

Mas o quadro ainda é pouco claro sobre os rumos que a rebelião popular pode tomar. Há uma certeza inescapável: a ira das massas contra ditaduras aliadas aos EUA e a Israel e que não suportam mais governos como o de Mubarak. A imprensa internacional e o Departamento de Estado, dirigido por Hillary Clinton, se esforçam para influir num desdobramento que parece inevitável, a queda de Mubarak, e preparam a imagem de Mohamed El Baradei como um substituto aceitável. Ele, que foi Diretor da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), tem um extenso currículo de serviços prestados ao imperialismo e sua ascensão ao governo egípcio seria uma garantia de que mudam os nomes mas permanecem as alianças e a fidelidade aos EUA e a Israel.

Seria um desdobramento frustrante para um levante popular tão extenso e de custos materiais e em vidas humanas tão elevado. As nações árabes precisam avançar para a democracia, com soberania nacional e avanços sociais, o que só pode ocorrer com a ruptura com o imperialismo e seus aliados. O primeiro passo é, no caso do Egito, como foi na Tunísia, a derrubada do ditador.
Editorial site Vermelho

Notícias de uma Revolução VII - O Povo nas ruas

Notícias de um Revolução VI - O silêncio no Egito

Egito proíbe rede 'Al Jazeera' de operar em seu território


O ministro da Informação do Egito, Anas El Feki, proibiu a rede de televisão Al Jazeera, do Catar, de operar no Egito. A rede fazia uma ampla cobertura das manifestações contra o regime do presidente Hosni Mubarak, anunciou a agência oficial Mena.

O satélite egípcio Nilesat, administrado pelo Estado, foi o responsável por suspender a transmissão dos programas da Al Jazeera, anunciou hoje a emissora.

O ministro "ordenou que a Al Jazeera na República Árabe do Egito feche as portas, que sejam canceladas suas autorizações e que sejam retirados os crachás de imprensa de seus funcionários a partir de hoje (domingo)", afirmou a Mena. A Al Jazeera continuava transmitindo imagens do Egito no momento do anúncio da proibição.

Egípcios desafiam governo Mubarak
A onda de protestos dos egípcios contra o governo do presidente Hosni Mubarak, iniciados no dia 25 de janeiro, tomou nova dimensão na última sexta-feira. O governo havia tentado impedir a mobilização popular cortando o sinal da internet no país, mas a medida não surtiu efeito. No início do dia dia, dois mil egípcios participaram de uma oração com o líder oposicionista Mohama ElBaradei, que acabou sendo temporariamente detido e impedido de se manifestar.

Os protestos tomaram corpo, com dezenas de milhares de manifestantes saindo às ruas das principais cidades do país - Cairo, Alexandria e Suez. Mubarak enviou tanques às ruas e anunciou um toque de recolher, o qual acabou virtualmente ignorado pela população. Os confrontos com a polícia aumentaram, e a sede do governista Partido Nacional Democrático foi incendiada.

Já na madrugada de sábado (horário local), Mubarak fez um pronunciamento à nação no qual ele disse que não renunciaria, mas que um novo governo seria formado em busca de "reformas democráticas". Defendeu a repressão da polícia aos manifestantes e disse que existe uma linha muito tênue entre a liberdade e o caos. A declaração do líder egípcio foi seguida de um pronunciamento de Barack Obama, que pediu a Mubarak que fizesse valer sua promessa de democracia. O governo encabeçado por Ahmed Nazif confirmou sua renúncia na manhã de sábado.

A Voz das Arábias

A temida voz dos árabes

Rogério Simões

Os ventos revolucionários da Tunísia chegaram ao Egito. Depois da derrubada do regime do tunisiano Zine Al-Abidine Ben Al, que desfrutou de poder quase absoluto por 23 anos, a fúria das chamadas "ruas árabes" se dirige agora contra o líder egípcio. No controle da terra dos faraós há 29 anos, Hosni Mubarak é o alvo da revolta e desejo de mudança da população local. As cenas de caos em vários pontos do país, especialmente no Cairo, sugerem uma nação transformada. De forma espontânea, sem necessariamente ligação com grupo político algum, cidadãos das mais diferentes tendências e ideologias tomaram as ruas para dizer "basta" a um regime autoritário. Mas, ao contrário dos protestos que derrubaram o comunismo na Europa na virada da década de 80 para a de 90, no exterior os movimentos populares árabes geram tanto otimismo quanto preocupação.

O regime de Mubarak é um dos principais aliados dos Estados Unidos no mundo árabe. Recebe de Washington quase US$ 2 bilhões anuais em ajuda econômica e militar, ficando atrás apenas de Israel. Nos últimos anos os Estados Unidos vêm dizendo que essa ajuda precisa ser acompanhada de abertura política e econômica, mas Mubarak nunca sinalizou intenção de mudar as regras do jogo. Pelo contrário: aos 82 anos, o líder egípcio vinha indicando sua intenção de passar o poder para seu filho, Gamal, repetindo o ritual dinástico de nações como Síria ou Jordânia.

Os Estados Unidos nunca condenaram abertamente o modelo político do Egito nem os planos de Mubarak para o país, e o presidente Barack Obama tem sido cauteloso ao defender o direito da população de se manifestar. Obama e seus antecessores nunca esqueceram as circunstâncias em que Mubarak chegou ao poder, em 1981. Ele ocupava a vice-Presidência quando o presidente, Anwar Sadat, que dois anos antes havia assinado o histórico e polêmico acordo de paz com Israel, foi assassinado. Fundamentalistas usaram granadas e metralhadoras contra o presidente e convidados durante uma parada militar. Outras 11 pessoas morreram, e o próprio Mubarak foi ferido. Já na Presidência, Mubarak enfrentou um ressurgimento das ações de fundamentalistas, especialmente nos anos 90, quando um grande atentado em Luxor deixou mais de 50 turistas estrangeiros mortos. A resposta de Mubarak foi um regime cada vez mais fechado, sem direito a dissidências ou manifestações, comandado por truculentas forças de segurança sobre as quais sempre houve a suspeita do uso sistemático da tortura.

A receita sempre foi tolerada por Washington, que teme as consequências para a região da derrubada de regimes autoritários, mas aliados ao Ocidente. Exemplos passados aumentam tal preocupação. Em 1991, as eleições na Argélia foram vencidas no primeiro turno pelo partido islamista, a Frente Islâmica de Salvação, o que levou as autoridades a cancelar a segunda votação. O Exército assumiu o poder, o que levou a uma guerra civil marcada por massacres de civis e um saldo de 200 mil mortos. As eleições palestinas de 2006 resultaram na vitória do Hamas e a consequente divisão política da Palestina, com a Faixa de Gaza nas mãos do grupo religioso e a Cisjordânia sob controle da Autoridade Nacional Palestina. No próprio Iraque, onde uma tentativa de democracia foi imposta militarmente pelos Estados Unidos, a situação interna segue muito mais instável e violenta do que nos tempos de Saddam Hussein.

Com os recentes aumentos de preços dos alimentos, que impôs dificuldades extras a populações já sofrendo com a estagnação econômica, tornou-se ainda mais difícil para regimes autoritários árabes controlarem seus cidadãos. Depois de Tunísia e Egito, protestos foram registrados também no Iêmen. Somada a décadas de frustração e repressão, uma realidade de desemprego e inflação solapa as estruturas do tradicional modelo político local. Estados Unidos, Israel e líderes de outras autocracias locais acompanham os acontecimentos no Cairo com apreensão. Mas sabem que barrar os ventos de mudança é missão quase impossível, e a única opção parece ser ajustar a direção para a qual eles sopram. Isso se não estivermos diante de um verdadeiro furacão.

28.1.11

As luzes de Thomaz Farkas









Thomaz Jorge Farkas (Budapeste, 17 de outubro de 1924) foi um dos pioneiros da moderna fotografia do Brasil.

Alguns dos motivos pelos quais o Brasil não é ainda aquele que merece ser. Por Mino Carta

 Madres de Mayo

O fantasma fardado e outras histórias


Mino Carta
(28 de janeiro de 2011)

A presidenta Dilma Rousseff parte dia 31 para uma visita a Buenos Aires e está previsto seu encontro com as “mães da Plaza de Mayo”, as valentes cidadãs argentinas cujos filhos foram assassinados ou desapareceram durante a ditadura. Hoje elas frequentam a Casa Rosada, recebidas pela presidenta Cristina Kirchner, em um país que puniu os algozes, a começar pelos generais ditadores.

Há quem diga e até escreva que Dilma se expõe ao risco de uma “saia-justa” (não aprecio a enésima frase feita frequentada pelos nossos perdigueiros da informação, mas a leio e reproduzo) ao encontrar as mães da praça. Quem fala, ou escreve, talvez funcione como porta-voz de ambientes fardados. Ocorre, porém, que a reunião foi solicitada pela própria presidenta do Brasil, e ela sabe o que faz.

No discurso de posse, Dilma mostrou-se orgulhosa do seu passado de guerrilheira e homenageou os companheiros mortos na luta. Conta com o aplauso de CartaCapital. Foi o primeiro sinal de um propósito claro do novo governo: aprofundar o debate em torno das gravíssimas ofensas aos Direitos Humanos cometidas ao longo dos nossos anos de chumbo. O encontro de Buenos Aires confirma e sublinha a linha definida pela presidenta, a bem da memória do País.

Cada terra tem suas características, peculiaridades, tradições. O Brasil não é a Argentina. Ambos foram colônias. Nós padecemos, contudo, três séculos de escravidão. A independência não veio com a rebelião contra a metrópole e sim graças aos humores contingentes de um jovem príncipe brigado com a família. A república foi proclamada pelos generais. A resistência e a luta armada na Argentina tiveram uma participação bem maior do que se deu no Brasil, e nem por isso o terror de Estado deixou de ser menos feroz aqui do que no Prata.

Já li mais de uma vez comparações entre o número de mortos e de desaparecidos brasileiros e argentinos, de sorte a justificar que a nossa foi ditabranda. Bastaria um único assassinado. A violência, de todo modo, foi a mesma, sem contar que os nossos torturadores deram aulas aos colegas de todo o Cone Sul, habilitados por sua extraordinária competência. Se a repressão verde-oliva numericamente matou, seviciou e perseguiu menos que a argentina foi porque entendeu poder parar por aí.

Fernando Henrique Cardoso disse na terça-feira 25 ao Estadão ser favorável à abertura dos arquivos da ditadura. Surpresa. Foi ele, antes de deixar a Presidência, quem referendou a proposta do general Alberto Cardoso, que comandava seu gabinete da Segurança Institucional, de manter indevassável a rica documentação por 50 anos. No elegante português que o distingue, FHC agora declara: “Aquilo ocorreu no meu último dia de governo e alguém colocou um papel para eu assinar lá”. Deu para entender que alguém pretendia enganá-lo e que o presidente assinava sem ler. Resta o fato de que, ao chegar ao poder, o príncipe dos sociólogos recomendou: “Esqueçam o que eu disse”. Dilma teve um comportamento de outra dignidade. E não há como duvidar que saberá dar os passos certos na realização da Comissão da Verdade.

Certos significa também cautelosos, sempre que necessário. E sem o receio da “saia-justa”. Adequados a tradições que, infelizmente, ainda nos perseguem. Colonização predatória, escravidão etc. etc. As desgraças do Brasil. E mais, daninha além da conta, o golpe de 64 a provar no País a presença insuportável de um exército de ocupação, pronto a executar os planos dos Estados Unidos com a inestimável colaboração da CIA e a servir às conveniências dos titulares do privilégio e seus aspirantes. Os marchadores com Deus e pela liberdade. Que Deus e que liberdade é simples esclarecer.

O fantasma brasileiro é fardado e não há cidadão graúdo que não o tema, e também muitos miúdos. Todas as desculpas valem, na hora em que se presume seu iminente comparecimento, para, de antemão, cancelar o debate ou descartar as soluções destinadas a provocá-lo. Nada disso é digno de um país em ascensão e de democracia conquistada. Carta-Capital acredita que a presidenta saberá exorcizar o fantasma sem precipitar conflitos. Saias-justas, se quiserem.

Um leitor escreve diretamente para Wálter Fanganiello Maierovitch. Lamenta a posição dele e de CartaCapital a favor da extradição de Cesare Battisti. Com urbanidade, felizmente. Enaltece a figura de Tarso Genro, louva a decisão que precipitou o caso e cita, para demonstrar seu teo-rema, um livro intitulado Terrorismo e Criminalidade Política, em que o falecido Heleno Fragoso, professor universitário e célebre criminalista carioca, se refere às inúmeras leis de exceção promulgadas na Itália durante os anos de chumbo. Nada disso também é digno do Brasil.

Fragoso não é o único entre os professores brasileiros que ignoram a história recente com toda a solenidade condizente com suas becas. A Itália dos anos 70, entregue ao comando da operação ao general Alberto Dalla Chiesa, venceu o terrorismo sem recurso a leis de exceção. Houve sim leis de emergência, que um Fragoso não poderia confundir com aquelas. Na semana passada publicamos uma entrevista do filho de Dalla Chiesa, que fez menção a outras leis aprovadas illo tempore, entre elas a redução a 36 horas da jornada de trabalho por obra da poderosa atuação do Partido Comunista e dos sindicatos, e a descriminalização do aborto, que aqui é quimera.

Nas eleições políticas de 1976, o PDC teve 36% dos votos e o PCI 34%, enquanto os pleitos administrativos davam aos comunistas a maioria das prefeituras. A  Itália dos anos 70, contudo, não era somente de Aldo Moro e Enrico Berlinguer, mas também de primorosa cultura, representada por figuras como Norberto Bobbio, Italo Calvino, Pasolini, Sciascia, Fellini, De Sica, Montale, Visconti e assim por diante. Não bastaria esta página para nomear a todos, e ninguém era de direita. Um importante colaborador de Berlinguer, Giorgio Napolitano, atual presidente da República italiana, enviou uma carta tocante à presidenta Dilma. Ele renova os cumprimentos pela eleição, mas mira no caso Battisti.

“Não são aceitáveis distorções, negações ou leituras românticas de crimes de sangue”, escreve Napolitano. A negativa à extradição, acentua “significa motivo de desilusão e amargura para a Itália”. “Não foi plenamente compreendida – prossegue – a necessidade de justiça experimentada por meu país e pelos familiares das vítimas de brutais e injustificados ataques armados, bem como dos feridos por aqueles ataques, sobrevividos às duras penas.” E ao cabo lembra que o terrorismo foi derrotado “dentro das regras do Estado de Direito”.

O Brasil no caso não deve satisfações ao governo italiano, o atual, aliás, o pior desde o imediato pós- guerra, e sim ao Estado, que o presidente da República representa. Talvez seja igual a pregar no deserto recomendar uma boa pesquisa sobre os anos de chumbo italianos a políticos, magistrados, jornalistas, irados cidadãos atolados em uma patética patriotada, indigna do país que o Brasil merece ser. Isento o trabalho, aconselhamos, da singular influência da hipocrisia francesa.

Falo deste nosso atual país onde ainda se verificam cenas do faroeste. Na sexta-feira 21, o caminhão que carregava para o Rio o reparte de CartaCapital foi assaltado ao longo da Dutra. Os assaltantes não eram ávidos de boa leitura: a carga não tinha para eles a menor serventia, queriam era o próprio caminhão. Renderam e aprisionaram o motorista, ficaram com o veículo, imediatamente remetido para outro canto do País.

A última edição da revista não circulou no Rio. Na noite da mesma sexta tentamos reunir um número suficiente de exemplares para reabastecer as bancas cariocas. Infelizmente não havia sobras, na manhã de sábado todos os repartes tinham sido distribuídos. Pelo gravíssimo percalço pedimos desculpas muito sentidas aos leitores do Rio. Com uma derradeira observação. Ao recordar os assaltos às diligências dos filmes western, murmurei para meus espantados botões: a presença de bandos armados no trajeto da mais importante rodovia do País não é digna do Brasil que queremos. Os botões me acharam comedido.


*Mino Carta é diretor de redação de CartaCapital. Fundou as revistas Quatro Rodas, Veja e CartaCapital. Foi diretor de Redação das revistas Senhor e IstoÉ. Criou a Edição de Esportes do jornal O Estado de S. Paulo, criou e dirigiu o Jornal da Tarde. redacao@cartacapital.com.br

UM ORIENTE EM CHAMAS


MANIFESTANTES ENFRENTAM  TROPAS E TANQUES DO EXÉCITO  EM CAIRO E SUEZ

Colar de ditaduras e semi-ditaduras obscenas sustentadas pelos EUA e por Israel  no Oriente Médio desmorona sob protestos de massa contra a opressão e o desemprego. No Egito, onde o  desemprego entre os jovens chega a 20%, forças policiais foram incapazes de deter as grandes manifestções.  Apesar da dura represssão,  combinada com censura à internet e  bloqueio da  telefonia celular, o policiamento convencional perdeu o controle da situação. O Exército foi chamado e o país encontra-se sob toque de recolher, mas os enfrentamentos não cessam.  As próximas horas serão decisivas. Já há notícias de mortos e mais de 800 feridos. Pode ocorrer um banho de sangue se o governo falido de Hosni Mubarak, apoiado  e armado pelos EUA, insistir em ignorar a nova realidade das ruas.  Defensores seletivos dos direitos humanos, sempre alertas contra o Irã, Cuba e a Venezuela, tem a palavra. A ver.
 
(Carta Maior, Sábado, 29/01/2011)


A Revolução dos Jasmins contra as autocracias

A Revolução dos Jasmins iniciou na Tunísia com a imolação de um jovem e logo se alastrou para outros países. Agora, a revolta chega ao Egito e ao Iêmen. Em entrevista ao jornal Página/12, o sociólogo e filósofo Sami Naïr, professor de Ciências Políticas na Universidade Paris VIII e presidente do Instituto Magreb-Europa da mesma Universidade, analisa a originalidade e as causas destas revoltas árabes. Autor de ensaios e análises sobre política internacional, Naïr aponta como primeiro fator alimentador da revolta o fato central de que o medo mudou de campo. É o poder que enfrenta agora um povo que perdeu o medo.

Eduardo Febbro


A chamada Revolução dos Jasmins que iniciou na Tunísia há algumas semanas se estendeu como um rastilho de pólvora para vários países árabes, e não os menores. O Iêmen e, sobretudo, o Egito, vivem hoje revoltas que têm características revolucionárias. Trata-se de um fenômeno tanto mais único na medida em que o discurso ocidental sempre tratou os países árabes como incapazes de assumir coletivamente um destino democrático. Tunísia, Argélia, Mauritânia, Iêmen e Egito não só desmentem esses argumentos como também abalam desde a raiz as ditaduras que governam esses países há décadas com mão de ferro e privilégios exorbitantes.

Alguns analistas asseguram hoje que já não se trata de saber que regime cairá primeiro, mas sim qual se salvará dessa onda de aspirações democráticas cujos protagonistas são as classes médias, os setores menos favorecidos e os jovens, que se organizam por meio da internet e das redes sociais. O mais moderno do mundo irrompe como instrumento de comunicação e protesto contra poderes dinossáuricos. Os protestos revelam também a ruptura sem remédio entre autocracias longevas, respaldadas historicamente pelo Ocidente, e a legitimidade popular.

O sociólogo e filósofo Sami Naïr, professor de Ciências Políticas na Universidade Paris VIII, presidente do Instituto Magreb-Europa da mesma Universidade, analisa em entrevista ao jornal Página/12 a originalidade e as causas desta revolução árabe. Autor de ensaios e análises sobre política internacional, Naïr aponta como primeiro fator alimentador da revolta o fato central de que o medo mudou de campo. É o poder que enfrenta agora um povo que perdeu o medo.

A entrevista


A Revolução dos Jasmins iniciou na Tunísia com a imolação de um jovem e logo se alastrou para outros países. Agora, a revolta chega ao Egito e ao Iêmen. Você dizia em uma análise que, assim como ocorreu primeiro na América Latina e depois nos países do leste europeu, certa parte do mundo árabe está despertando para a história.

- Sempre prensei que, ao menos no século XX, o laboratório dos povos foi a América Latina. A Revolução Russa não pode ser entendida sem a Revolução Mexicana. Os latino-americanos inventaram todas as formas de luta possíveis e imagináveis. Na América Latina, se experimentaram as guerrilhas, as lutas políticas, os despotismos, as ditaduras. A partir dos anos 80 e 90, as ditaduras caíram em quase todos os países da América Latina. Esse movimento contra as ditaduras se desenvolveu em outros lugares do mundo, por exemplo, nos países do leste europeu a partir da queda do Muro de Berlim. Agora, esse movimento de fundo que iniciou na América Latina está atingindo todos os países da orla árabe do Mediterrâneo e mesmo além, na península arábica, como está acontecendo no Iêmen.

O problema reside em que, contrariamente ao que ocorreu na América Latina, o movimento que eclodiu nestes países árabes não tem direção, nem organização, nem programa. É um movimento totalmente espontâneo com duas características fundamentais: em primeiro lugar, trata-se de um movimento que destrói definitivamente a ideia de que estas sociedades estão condenadas a viver com o perigo extremista e fundamentalista, por um lado, e, por outro, com a ditadura, que seria uma suposta garantia necessária contra esse perigo fundamentalista. Agora está se demonstrando que o problema é muito mais complexo e que estes países não querem experimentar nem o islamismo nem o fundamentalista, mas sim que, basicamente, desejam a democracia.

O segundo elemento importante, e que pode lembrar o que ocorreu na América Latina, reside no fato de que há uma aliança circunstancial entre as camadas mais pobres e humildes, sem verdadeira inserção social, e as camadas médias empobrecidas nestes últimos anos. Na última década, todos esses países padeceram de um empobrecimento muito importante das classes médias e agora há uma fusão entre esses setores e a base popular, as classes pobres totalmente excluídas do processo de integração dentro da sociedade.

Se essas revoltas forem até o fim nestas autocracias árabes estaríamos vivendo uma autêntica revolução mundial, um giro decisivo na história de nossa concepção dos sistemas políticos mundiais. Sempre se acreditou que os países árabes eram incapazes de assumir uma forma de democracia popular e participativa.

- Isso corresponde a um discurso muito depreciativo construído pelos países ocidentais, pelo capitalismo internacional cuja sede é a Organização de Cooperação e de Desenvolvimento Econômico (OCDE), Estados Unidos e União Europeia. Esses atores querem que haja estabilidade nos países árabes e para isso necessitam de regimes fortes e ditatoriais, porque o que importa a eles são duas coisas: em primeiro lugar que essa gente não emigre e, em segundo, que as fontes de recursos petrolíferos sejam garantidas. Por isso desenvolveram esse discurso em total sintonia com os ditadores que sempre repetiram: “nossos povos carecem de maturidade política e cultural e, por conseguinte, não podem ter acesso à democracia”.

Sabemos que tudo isso é falso, que as aspirações democráticas são muito fortes nesta região do mundo. Creio que o que está acontecendo agora demonstra isso de maneira muito clara. Cada situação é específica. Não se pode misturar o que ocorreu na Tunísia, um país que tem uma tradição laica e elites ilustradas muito fortes, com camadas sociais muito coesas, com a situação do Iêmen, onde impera um sistema tribal baseado na dominação despótica de um clã. A única coisa similar é o grau de dominação e a forma de controle, apoiada na polícia e no exército.

A explosão social no Egito tem matizes inéditos. No Egito o exército desempenha um papel central, onde o presidente, Hosni Mubarak, pertence a ele e onde quem está chamado a substituí-lo, seu filho Gamal Mubarak, é um liberal que não é bem visto pelas forças armadas.

O caso egípcio é muito particular, em primeiro lugar porque o país é um velho Estado de direito. Provavelmente seja o Estado de direito mais antigo do mundo. O Estado de direito moderno foi constituído por Mohamed Ali entre o final do século XVIII e início do XIX, ou seja, antes que nós na Europa soubéssemos o que era isso. Mas esse Estado foi destroçado pelos ingleses no século XIX. Em todo o caso, o filho de Mubarak, Gamal, não representa a democracia. Gamal Mubarak é o elemento chave da nomenclatura que domina o país em sua vertente mais liberal. A questão do liberalismo não pode ser concebida unicamente como liberalismo econômico, salvo se se trata de comparar o Egito com a China. Na China temos um despotismo político neocomunista e um liberalismo selvagem que encarna na verdade a dominação de uma elite burocrática. No Egito, é diferente. É impossível que se possa organizar um sistema liberal sem democratização da sociedade. É indispensável evitar que o Egito se transforme em uma república hereditária onde o pai ditador nomeia seu filho como futuro ditador liberal. As pessoas estão buscando outra coisa.

Querem a democratização da sociedade para que a sociedade civil possa escolher por meio de um debate democrático transparente. O filho de Mubarak é como seu pai. As pessoas não o querem porque já tem o exemplo da Síria, onde o filho substituiu o pai e terminou instaurando um sistema mais ou menos liberal, mas com a mesma ditadura.

Você assinala que o que começou a ocorrer na Tunísia e logo se espalhou para outros países é que o medo mudou de lado. O medo acabou.

- Isso foi muito importante neste processo. Eu estava na Tunísia quando tudo isso começou e vi como o medo mudava de campo. A revolta tunisiana estourou na localidade de Sidi Bouzid, com a imolação do jovem Mohamed Bouazizi. A partir dali, tudo se transtornou. Até esse momento, o regime tunisiano estava baseado no temor. Mas a morte de Mohamed Bouazizi mudou essa situação, sobretudo pela atitude do então presidente Bem Alí, que foi visitar a família da vítima. As pessoas se deram conta que quem tinha medo era o poder. O mesmo está ocorrendo no Egito. O mais importante nestas revoltas é a vitória do imaginário que significa que transformaram a relação com o poder: agora são os ditadores que devem temer os povos. Isso não significa que amanhã vamos ter uma revolução em todas as partes. Não. O movimento pode avançar, pode recuar, não sabemos o que vai acontecer. Mas o que sabemos, e isso já foi percebido pela população, é que os poderes podem mudar quando os povos querem mudar suas condições de vida e ousam enfrentar o poder para escolher seu próprio destino.

Por isso penso que estamos diante de uma onda que terá desdobramentos. Estamos na mesma história que os povos da América Latina abriram nos anos 80. Logo se seguiram os povos do Leste europeu nos 90 e agora estamos vendo isso acontecer com estes povos árabes. Não podemos esconder que o que está ocorrendo é também uma consequência da globalização. A globalização é má socialmente, mas tem algo bom, que é a globalização dos valores democráticos nas sociedades civis.

Tradução: Katarina Peixoto

Notícias de uma Revolução V - O Patrimônio Egípcio e a crise política


Patrimônio histórico do Egito corre risco com crise política, diz egiptólogo brasileiro

Thais Romanelli | Redação

O agravamento dos protestos no centro de Cairo, no Egito, pode ameaçar o patrimônio histórico do país, armazenado em museus da cidade. Nesta sexta-feira (28/01), pelo menos uma pessoa morreu e várias ficaram feridas em manifestações nas proximidades do Museu Nacional do Cairo, o mais importante do Egito.

Segundo a rede de televisão Al Jazeera, os conflitos começaram em uma praça próxima ao museu e à sede do NDP (Partido Nacional Democrático), atualmente está no poder. Uma hora depois, um incêndio nas proximidades do museu assustou os manifestantes, que fizeram uma corrente humana em volta do edifício, de acordo com a emissora.

"O Museu Nacional do Cairo é o maior e mais antigo museu egípcio, um eventual acidente como um incêndio seria extremamente prejudicial não apenas para a cultura do país, mas para todo o patrimônio da humanidade", disse o egiptólogo Antonio Brancaglion Jr ao Opera Mundi.

O museu, que abriga 100 mil objetos em exposição, possui múmias dos mais importantes faraós, papiros e objetos considerados símbolos do país, como o tesouro de Tutancâmon, um dos faraós mais famosos da história egípcia.

"Costumamos dizer que ele tem a pior exposicão dos mais lindos tesouros do mundo e esse é seu principal problema: o próprio edifício", conta Brancaglion, em referência à estrutura do prédio. Para o egiptólogo, a idade do do museu e sua localização são extremamente prejudiciais no caso de um eventual incêndio como o desta tarde.

Central e próximo a sede do partido que ocupa o governo do país, o Museu Nacional do Cairo está em uma "área de risco" no que diz respeito aos riscos que as manifestações podem trazer. Já com relação a possíveis saques e contrabando de peças, Brancaglion não demonstra preocupação.

"Um incêndio próximo ao museu ou no próprio museu seria muito prejudicial não apenas pelo fato de ele abrigar um acervo inimaginável, mas também por não ter estrutura para amenizar os danos em um acidente deste tipo", afirmou.

O egiptólogo conta que há dez anos um atentado ocorreu na frente do Museu Nacional do Cairo, o que fez com que governantes reavaliassem as medidas de segurança. A partir daí, o prédio foi equipado com câmeras de segurança e outros recursos para evitar a entrada de pessoas não autorizadas e furtos.

"O edifício, porém, é muito antigo e sem dúvida não tem uma estrutura eficaz contra incêndio", explicou. "O risco que se corre é exclusivamente em relação a esse tipo de agressão pelo fato deste museu estar próximo à principal área de manifestações. Quanto a roubos e contrabando, não acho que nenhum museu egípcio corra este risco, já que a própria população tem consciência da importância destes lugares e muitos inclusive dependem da atividade turística para sobreviver", disse Brancaglion.

Para ele, o fato de os manifestantes terem feito uma corrente humana em volta do museu ilustra a relação dos egípicios com os tesouros do país. "Isso não acontece apenas com o Museu Nacional do Cairo, mas também com o Museu do Papiro, o complexo das Pirâmides de Gizé, a Esfinge, a Necrópole de Saqqara e etc. Todos sabem da importância destes patrimônios, principalmente no Cairo, onde a principal atividade econômica é o turismo", afirmou.

Medidas

A ameaça, porém, ainda não demanda a intervenção da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) ou de outras organizações, na opinião de Brancaglion.

"O máximo que pode ser feito, pelo menos por enquanto, são campanhas por parte da Unesco e da própria imprensa reiterando a importância dos museus do país e mensurando o tamanho da perda caso algum destes lugares seja danificado. Mesmo assim realmente acredito que a própria população tem consciência desta importância e irá zelar por isso, a não ser que futuros acidentes aconteçam durante os protestos, como foi o caso desta tarde", concluiu.

Notícias de uma Revolução IV - Sexta-feira no Cairo




Egito impõe toque de recolher e envia militares às ruas

Tariq Saleh

Enviado especial da BBC Brasil ao Cairo

O governo do Egito impôs nesta sexta-feira um toque de recolher e enviou militares às ruas para conter as manifestações que se alastram pelo país.

A TV estatal egípcia anunciou que o toque de recolher entraria em vigor entre as 18h desta sexta e as 7h do sábado na capital, Cairo, em Alexandria e em Suez. Segundo o comunicado, os militares trabalharão em conjunto com os policiais para reforçar a ordem.

Espera-se que o presidente Hosni Mubarak, que está no poder desde 1981 e não foi visto em público desde o início das manifestações, faça um pronunciamento nas próximas horas.

As manifestações desta sexta-feira - de proporção sem precedentes na história do Egito - se seguem a três dias de protestos pela saída de Mubarak, em que ao menos oito pessoas morreram e mais de mil foram presas.

As ações foram inspiradas em uma onda de protestos populares que culminou com a queda do presidente da Tunísia Zine al-Abidine Ben Ali, há duas semanas.

No Cairo, policiais entraram em confronto com milhares de manifestantes nas ruas, usando bombas de gás lacrimogêneo e canhões d'água para dispersar a multidão, que respondeu atirando pedras, queimando pneus e montando barricadas.

Oposição

Nesta sexta-feira, a secretária de Estado americana, Hillary Clinton, exortou as autoridades egípcias a permitir protestos pacíficos. "Estamos profundamente preocupados com o uso da violência pela polícia e força de seguranças egípcias contra manifestantes", disse Hillary.

"Ao mesmo tempo, os manifestantes devem evitar a violência e se expressar de forma pacífica", afirmou.



Pontes e estradas foram tomadas por manifestantes. Em Suez, um grupo invadiu uma delegacia de polícia, roubou armas e ateou fogo ao prédio. Choques também foram registrados na cidade de Alexandria.

Há relatos de que centenas de líderes da oposição foram presos durante a madrugada. Ao menos dez pertenceriam à organização Irmandade Islâmica, banida pelo governo.

Outros relatos dão conta de que o líder da oposição e Nobel da Paz Mohamed ElBaradei estaria sendo mantido em prisão domiciliar, mas a versão não foi confirmada oficialmente.

ElBaradei, ex-diretor da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), chegou ao Cairo na última quinta-feira para se juntar às manifestações. Nesta sexta, segundo a imprensa local, alguns de seus partidários foram espancados pela polícia em uma praça no bairro de Gizé ao tentar protegê-lo.

Confrontos

Após as rezas de sexta-feira, milhares de pessoas atenderam a um chamado da oposição e se juntaram a protestos no centro do Cairo e de outras cidades egípcias para pedir o fim dos 30 anos do governo Mubarak, aos gritos de "abaixo Mubarak" e "o povo quer que o regime caia".

Manifestantes também se reuniram em frente à mesquita Al-Azhar e perto de uma das residências do presidente na capital. O governo francês citou relatos de que quatro jornalistas franceses foram presos em meio aos protestos.

Os protestos paralisaram parte do Cairo, especialmente no centro e arredores. No comércio local, poucas lojas abriram as portas, e as ruas estavam praticamente desertas ainda antes das manifestações começarem.

Em Suez, um dos principais focos dos protestos nos últimos dias, o repórter da BBC Rupert Wingfield-Hayes afirmou que havia choques de grandes proporções entre forças de segurança e milhares de manifestantes, que se reuniram no centro da cidade, também após as preces de sexta-feira.

Havia relatos também de choques em Alexandria, Mansoura e Assuã, assim como Minya, Assiut, Al-Arish e na Península do Sinai.

Na noite de quinta-feira, sites como Facebook ou Twitter começaram a apresentar problemas no país, assim como o envio de mensagens por celular.

Um internauta do Cairo, que pediu para não ter o nome revelado, disse à BBC que as mensagens de celular não estavam sendo recebidas.

A operadora de celulares Vodafone Egypt disse em nota: "Todas as operadores de celular no Egito foram instruídas a suspender seus serviços em áreas selecionadas. De acordo com a legislação egípcia, as autoridades têm o direito de emitir tal ordem e nós somos obrigados a cumpri-la".

Diálogo

O governo do Egito quase não dá espaço a posições contrárias, e manifestações da oposição são frequentemente proibidas.

Na quinta-feira, Safwat el-Sherif, secretário-geral do Partido Nacional Democrático, mesma agremiação de Mubarak, disse: "O PND está pronto para o diálogo com o público, a juventude e os partidos legais. Mas a democracia tem suas regras e seus processos. A minoria não pode forçar seu desejo sobre a maioria".

O presidente americano, Barack Obama, descreveu os protestos como o resultado de "frustrações reprimidas" e disse que várias vezes sugeriu a Mubarak realizar reformas. O Egito é um dos mais importantes aliados dos Estados Unidos no mundo árabe.

Em nota sobre as manifestações em curso no Egito, na Tunísia e no Iêmen, outro país árabe que tem vivenciado turbulências, o governo brasileiro expressou sua "expectativa de que as nações amigas encontrarão o caminho de uma evolução política capaz de atender às aspirações da população em ambiente pacífico e sem interferências externas, de modo a dar suporte ao desenvolvimento econômico e social em curso".

Fonte: BBC

Notícias de uma revolução III Egito

27.1.11

O despertar do Egito

The PALESTINE PAPERS




"Esse jogo feio e sem fim do processo de paz está encerrado".

Os documentos obtidos pela TV Al Jazeera e divulgados pelo jornal inglês The Guardian sobre os bastidores das negociações entre autoridades israelenses e palestinas mostram que essa política é um fracasso absoluto, trazendo ruína para os palestinos e beligerância crescente ao completamente desimpedido, agressivo e errático Estado de Israel, atualmente praticando uma forma de apartheid contra os palestinos. A postura fraca e incompetente das lideranças palestinas é o oposto de uma representação nacional digna e honrada, e prova sua inutilidade descartável. O artigo é de Karma Nabulsin.

Karma Nabulsin - Guardian

O processo de paz é uma vergonha. Os palestinos devem rejeitar seus líderes e reconstruir seu movimento.

Acabou. Dada a natureza chocante, extensa e o detalhe dessas revelações medonhas por trás das portas fechadas do processo de paz do Oriente Médio [nos documentos revelados segunda-feira pelo jornal The Guardian], esse jogo feio e que parece sem fim do processo de paz está finalmente encerrado. Nenhum dos vilões do lado palestino pode sobreviver a isso. Com alguma sorte, o horror total dessa denúncia de como os EUA e a Grã Bretanha facilitaram e até implementaram, secretamente, a expansão militar israelense – enquanto criavam uma oligarquia para administrá-la – pode ter superado os interesses entrincheirados e a venalidade que capturaram o processo de paz em curso. Um pequeno grupo de homens que profanaram a esfera pública palestina com suas atividades privadas agora está exposto.

Para nós, palestinos, essas denúncias detalhadas da rendição secretamente negociada de cada um de nossos direitos fundamentais, segundo o direito internacional (o de retorno de milhões de palestinos refugiados, contra a anexação da Jerusalém árabe, contra os assentamentos ilegais) não são surpresa. Trata-se de algo que todos sabíamos – a despeito dos protestos oficiais dizendo o contrário – porque nós sentimos os efeitos destrutivos dessas coisas diariamente. O mesmo é verdade para o papel vergonhoso dos EUA e da Grã Bretanha, ao criarem um "bantustão" de segurança, arruinando com nossa vida comunitária e com nosso espaço político. Nós já sabíamos, porque sentimos seus efeitos fatais.

Para a esmagadora maioria dos palestinos, a política oficial palestina ao longo das décadas passadas tem sido a antítese de uma legítima, ou representativa ou mesmo coerente estratégia para obter nossa liberdade negada há tanto tempo. Mas essa consideração sóbria do nosso atual estado de coisas, acompanhada pelos protestos em massa da sociedade civil, de campanhas tocadas por cidadãos palestinos tem sido insuficientes até agora para nos libertar dessa situação.

A publicação desses documentos é um acontecimento histórico tão importante porque destrói os últimos traços de credibilidade desse processo de paz. Tudo o que resta a fazer repousa no seguinte axioma: que cada iniciativa nova ou série de negociações com os israelenses, que toda política ou programa (inclusive a criação de instituições não democráticas sob ocupação militar) devem se apresentar como operando em boa fé, sob condições rígidas: devem ser necessárias para a paz e a serviço de nossa causa nacional. Políticos de ambos os lados jogaram um papel duplo com os palestinos. Agora está registrado que eles traíram, mentiram e trapacearam com diretos básicos, enquanto, ao mesmo tempo, diziam-se merecedoras da confiança do povo palestino.

Essa alegação da capacidade representativa – e, pior, a afirmação de que estavam representando os interesses dos palestinos em sua luta por liberdade – se tornou cada vez mais fraca nos últimos 15 anos. A alegação de que estavam agindo de boa fé caiu absolutamente por terra com as publicações desses documentos (24/01/2011), e com as informações a serem reveladas ao longo desta semana. Qualquer que seja a inclinação política dos poderosos, ninguém, nem os estadunidenses, nem os britânicos, as Nações Unidas e especialmente não os dirigentes palestinos podem afirmar que a negociata toda não é outra coisa que um processo brutal de subjugo de todo um povo.

Por que se chegou tão longe, a um custo tão alto? E por que os palestinos também não foram capazes de criar uma representação democrática tão urgentemente necessária para o avanço de sua causa? Israel, juntamente com aqueles que partilham de sua visão de mundo diriam que o problema repousa nos próprios palestinos, sendo parte da cultura política árabe que só gera governos autoritários ou terroristas. E isso que aquilo que esses documentos relevam é a extensão de uma não democrática, autoritária, colonial e francamente aterradora coerção que os EUA, a Grã Bretanha e outros governos ocidentais tem imposto aos palestinos, através dessa liderança inconsequente.

O poder ilimitado dos EUA, a superpotência global que tem (agora documentadamente e em detalhes repugnantes) tomado um partido nesse conflito pode ser visto em cada página. Todos estão implicados, do presidente ao secretariado de estado, dos generais, que criaram as forças de segurança para implementarem essas políticas à equipe da embaixada envolvida na sua execução diária.

Os documentos mostram que essa política é um fracasso absoluto, trazendo ruína para os palestinos e beligerância crescente ao completamente desimpedido, agressivo e errático Israel, atualmente praticando uma forma de apartheid dos palestinos que dominam pela força.

Esse desequilíbrio de poder só pode ser corrigido eficazmente da mesma maneira que todo movimento de liberação nacional o fez, no passado: através da força inexpugnável de um mandato popular. Ho Chi Minh sentando com os franceses para conversar, ou Nelson Mandela negociando com o regime do apartheid, incorporando essa legitimidade popular, e na verdade se comprometendo com seus princípios e negociando posições a partir deles.

Do lado positivo, essas negociatas eventualmente vindo à tona fariam com que os palestinos compreensivelmente as rejeitassem. Mas a pior traição tem sido aquilo que essa hipocrisia legou para as gerações mais jovens de palestinos. Esses governantes levaram uma nova geração a acreditar que a participação na esfera pública é uma maneira de se dar bem na vida e que se juntar a qualquer partido político é o método menos viável de se chegar ao poder e gerar mudança.

Embora seu exemplo danoso, eles alienaram os jovens palestinos de sua própria história de resistência à dominação colonial e militar, de modo que agora eles acreditam que dezenas de milhares de imaginativos, brilhantes e extraordinários palestinos bravos nunca existiram ou, pior, lutaram e morreram por nada. Isso lhes custa a capacidade de levar a cabo qualquer método e técnicas de mobilização de que se podem dispor hoje – os mecanismos democráticos e coletivos que são mais necessários do que nunca. Eles deram à juventude a ideia de que não há virtude na organização coletiva, o mecanismo por meio do qual a mudança democrática popular é feita e mantida.

A cada vez mais popular visão de que a revolução palestina fracassou desde o começo, de que sempre foram corruptos, dirigidos a partir de cima, nunca a partir dos de baixo, é falsa – mas esse diagnóstico ganhou credibilidade através das ações do atual regime. O comportamento dos atuais governantes quase apagou o registro da história da contribuição dada por dezenas de milhares de palestinos comuns que, com toda sua força e devoção à vida pública lutaram por princípios e criaram uma auto representação real e democrática, sob as piores condições. Esta é a nossa mais valiosa liberdade, pela qual vale muito a pena lutar: a publicação desses documentos devastadores pavimenta o caminho da sua restauração.

(*) Karma Nabulsi é acadêmica em Oxford e ex-membro da Organização pela Libertação da Palestina - OLP

(*) Tradução: Katarina Peixoto

The Guardian

Notícias de uma Revolução II Egito

Violência aumenta nos protestos contra Mubarak; 6 morrem e pelo menos 800 são detidos

Os confrontos entre manifestantes e policiais se intensificaram nesta quarta-feira (26/01) no Cairo, no segundo dia de protestos contra o regime político do presidente Hosni Mubarak, com um resultado de dezenas de feridos e centenas de detidos.

Após a trégua que as forças de segurança deram na terça-feira (25/01) durante a maior parte do dia aos participantes dos protestos, a situação nesta manhã levou os policiais a usarem a violência contra os manifestantes, que começaram a se reunir nos arredores da Corte Suprema e do Sindicato de Jornalistas às 15h30 (11h30 de Brasília), entre fortes medidas de segurança.

As primeiras mobilizações foram registradas na sede do Sindicato dos Jornalistas, onde dezenas de pessoas, na maioria jovens, gritavam palavras de ordem contra o presidente Mubarak, no poder desde 1981.


Os enfrentamentos se intensificaram uma hora depois quando os participantes bloquearam a via principal e as forças de segurança usaram gás lacrimogêneo e balas de borracha. Após o ataque da polícia, que perseguiu os manifestantes com paus e jatos de água, muitos correram para se refugiar na estação de metrô mais próxima, Nasser, cujo nome presta homenagem ao ex-presidente Gamal Abdel Nasser.

Pouco depois, em uma avenida próxima, os manifestantes tacaram pedras e garrafas vazias na Polícia, também queimaram um carro e vários pneus. Quanto aos detidos, os números ainda não são precisos, mas fontes dos serviços de segurança disseram à agência de notícias Efe que, nos últimos dois dias, mais de 800 pessoas foram presas, 300 delas só na terça-feira.

Ao todo, seis pessoas morreram desde terça-feira nos confrontos. Nesta quarta-feira, de acordo com o serviço de segurança, um manifestante e um policial morreram em um bairro central do Cairo.

Denúncia

Nesta manhã, várias organizações defensoras dos direitos humanos e movimentos opositores denunciaram o "sequestro de centenas" de manifestantes pela polícia durante os protestos.

De acordo com a Efe, policiais vestidos à paisana levaram presos dezenas de manifestantes, que se concentravam entre o Ministério da Informação e o Hotel Ramsés Hilton.

A denúncia foi feita hoje quando se confirmou uma quarta vítima, um civil, que morreu em um hospital da localidade de Suez por causa dos ferimentos recebidos nos protestos de terça-feira. Com este caso, já são três civis e um policial os mortos até agora.

Ativistas e mais 30 ONGs, denunciaram em comunicado que a polícia mantém centenas de detidos em "centros da Segurança Central e nas províncias". No comunicado, garantem que os policiais proibiram os advogados de várias ONGs de entrarem em contato com alguns feridos, alguns dos quais em estado grave, segundo os signatários.

Além disso, as autoridades cortaram as linhas de telefones celulares de alguns ativistas durante o protesto, acrescentaram.

Em reunião mantida nesta manhã no centro pró-direitos humanos Hisham Mubarak vários ativistas opositores de distintas correntes prepararam uma demanda para exigir às autoridades que anunciem o paradeiro dos detidos e que sejam libertados.


Fonte: Operamundi

A Tunísia e a Nova Era

A queda do muro da Tunísia
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Por Nadia Marzouki, Middle East Report     
Tradução do coletivo Vila Vudu

Em termos de simbologia política, a revolução tunisina é equivalente, para o mundo árabe, ao que foi para o Ocidente a queda do muro de Berlim, em 1989.

Pela primeira vez em décadas, a Tunísia está livre da ditadura de um homem só. Os extraordinários eventos de dezembro de 2010 e janeiro de 2011 são uma revolução política: a consistente pressão da fúria popular obrigou o presidente Zine El Abidine Ben Ali, primeiro, a uma promessa sem precedentes, de deixar o poder; depois, derrubou-o do poder; e finalmente conseguiu impedir uma tentativa de transferência inconstitucional de poder, marcando-se eleições ainda sem data, mas que se devem realizar em médio prazo.

Começou a incerteza pós revolta: três dias depois de Ben Ali ter partido, dia 14 de janeiro, para o exílio na Arábia Saudita, o encarregado do governo Mohammed al-Ghannouchi anunciou a constituição de um gabinete “de unidade nacional” composto de muitos nomes do partido dominante no governo que acabava de ser deposto (Rassemblement Constitutionel Democratique, RCD), que manterá (pelo menos por enquanto) os ministérios do Interior, da Defesa, de Relações Exteriores e das Finanças. Os partidos da oposição aceita como “legal” no governo de Ben Ali também ganharam postos.

O anúncio foi feito depois de uma noite de confrontos e tiroteios em torno do palácio presidencial, nos quarteirões dos partidos de oposição e em áreas próximas dos principais bancos, além de tiros esparsos por toda a capital Tunes. O jornal The Guardian, citando ativistas de direitos humanos, atribuiu os ataques a milícias leais a Ben Ali; e Ghannouchi disse, pela televisão estatal, que “os próximos dias mostrarão quem está por trás deles”.

Muito mais consequentes foram os manifestantes reunidos à frente do palácio presidencial dia 17 de janeiro, que gritavam furiosos contra notícias de que haveria membros do RCD no Gabinete de transição. As manifestações foram dispersadas com canhões de água, mas voltaram às ruas quando foram anunciados nos nomes do Gabinete. Vários membros da oposição, incluídos na relação de nomes do Gabinete de transição, três dos quais ligados à Federação Nacional do Trabalho (a Union Générale des Travailleurs Tunisiens, UGTT), imediatamente renunciaram, o que deu novo impulso às manifestações de “Fora RCD!”.

Para tentar controlar a revolta das ruas, Ghannouchi e outros renunciaram a qualquer filiação ao partido RCD, mas não renunciaram aos cargos no Gabinete de transição. Não há como prever qualquer resultado. Seja como for, não parece haver retrocesso possível na conquista original e extraordinária que os manifestantes tunisinos conseguiram: Ben Ali não voltará.

“Pão, água e sem Ben Ali”

A rápida e completamente surpreendente queda da ditadura na Tunísia começou com o que parecia ser pouco mais que manifestação de jovens famintos e irados. Logo, porém, em movimento espontâneo, as manifestações cresceram e ganharam orientação abertamente política e econômica. Não foram, de modo algum, manipuladas de cima para baixo, por algum partido que visasse implantar alguma agenda política inventada no calor da hora – como o governo tentou pintá-las.

Dia 17 de dezembro, Mohammed Bouazizi, vendedor de rua, de 26 anos, da cidade de Sidi Bouzid, ateou fogo ao próprio corpo, depois de a polícia confiscar a sua mercadoria, sob a alegação de que não tinha licença de vendedor ambulante. O gesto desesperado de um jovem com graduação universitária, condenado ao subemprego, disparou protestos em todo o país. A indignação contra a situação geral da população incendiou cidadãos de várias gerações, categorias profissionais e sensibilidades ideológicas, apesar da dura repressão policial, que fez cerca de 200 mortos. (Dia 19 de janeiro, a ONU declarou que só havia confirmação de 100 mortes, aí contados os 42 prisioneiros que morreram no incêndio de uma prisão, mas esse número parece estar fortemente comprimido.)

O levante começou como movimento contra o desemprego e a carestia, sobretudo contra o preço dos alimentos, mas rapidamente converteu-se em revolução que exigia liberdades civis e a deposição do homem que a população via como responsável por suas tragédias. As multidões gritavam “Pão, água e sem Ben Ali”.

Acostumado a seguir a sua própria agenda, Ben Ali viu-se forçado a discursar três vezes, em 30 dias. Dia 28, na primeira tentativa, tentou atribuir os tumultos, como todos os ditadores, ao trabalho de “extremistas”. Dia 11 de janeiro, já intimidado, prometeu criar 300 mil empregos, tentando esfriar as ruas com a prodigalidade do Estado. Dois dias adiante, afinal, reconheceu o caráter político dos protestos, e prometeu que não concorreria à reeleição em 2014; libertou os manifestantes presos e levantou todas as proibições que cercavam a imprensa. O veredito dos tunisinos foi rápido: muito pouco e tarde demais.

No início da tarde de 14 de janeiro, o primeiro-ministro Ghannouchi anunciou que o presidente estava temporariamente impossibilitado de exercer suas funções e que ele próprio se encarregaria do governo, até que se organizassem novas eleições.

A oposição imediatamente denunciou a violação do artigo 57 da Constituição, segundo o qual caberia ao presidente do Parlamento, não ao primeiro-ministro, assumir a presidência no caso de vacância do cargo. Na manhã de 15 de janeiro, a Corte Constitucional, autoridade máxima do Estado da Tunísia para assuntos de sucessão, declarou “definitivamente vago o cargo de presidente”, o que obrigou Ghannouchi a afastar-se, dando lugar a Fouad Mebazaa, presidente do Parlamento, que prometeu realizar eleições no prazo prescrito pela Constituição, de 45-60 dias. A oposição protestou ferozmente, e quer ampliar o prazo para novas eleições, para de seis a sete meses a partir de Janeiro, de modo a que haja tempo para se organizem eleições limpas e haja campanha eleitoral.

Os eventos da Tunísia, por surpreendentes que tenham sido, não são só explosão de frustração acumulada. Representam, sobretudo, a consequência óbvia de uma fórmula insustentável de falsa estabilidade política e econômica, exatamente a fórmula que políticos ocidentais várias vezes elogiaram como “o milagre tunisino”. Apesar da tragédia, a auto-imolação de Bouazizi (que morreu em consequência das queimaduras) foi apenas o gatilho, não a causa, dos protestos, que têm raízes mais profundas e mais antigas.

Muitos e destacados aliados de Ben Ali várias vezes apresentaram o seu governo como democrático e eficaz. Em abril de 2008, em visita oficial a Túnis, o presidente Nicolas Sarkozy, da França, disse que “alguns têm sido muito duros ao falar da Tunísia, que está construindo aberturas e tolerância em vários campos, e aumentando o espaço das liberdades” [1] – disse ele. Sarkozy apenas repetia as palavras de Chirac que dissera, em visita à Tunísia em dezembro de 2003, que “o primeiro dentre os direitos humanos é o direito à comida (...) Desse ponto de vista, é preciso reconhecer que a Tunísia está muito à frente de outros países”.

Desde o final dos anos 1990, também o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional, vários países europeus e os EUA têm apresentado a Tunísia como exemplo de reforma econômica bem sucedida no Norte da África. Em 2008, por exemplo, o Banco Mundial elogiou a Tunísia como “ reformador regional top” nos processos de facilitar acesso ao crédito; e o perfil que o Banco Mundial oferece do país registra que a Tunísia duplicou a exportação de bens e serviços naquela década. Dominique Strauss-Kahn, presidente do FMI, declarou em novembro de 2008 que “a economia tunisina vai muito bem” e que a Tunísia “é bom exemplo de país emergente.” [2] Nos dois casos, no campo político e no campo econômico, a realidade sempre foi muito diferente e mais sombria.

Depois do golpe de 1987, que tirou do poder o “presidente vitalício” Habib Bourguiba, Ben Ali passou a atacar metodicamente as poucas liberdades políticas e civis que os tunisinos tão penosamente haviam conquistado. Sempre foi mestre no artifício de encenar eleições, nas quais sempre aparecia reeleito com mais de 90% dos votos. Depois de duas dessas encenações eleitorais em 1994 e 1999, alterou a Constituição em 2004 e eliminou a lei que só autorizava duas reeleições consecutivas para a presidência, de modo a poder concorrer a uma 3ª reeleição em 2009.

O partido RCD venceu com grande margem de diferença todas eleições parlamentares que houve nesse período. Servindo-se do aparelho partidário, o governo acompanhava de perto as atividades dos sindicatos, de associações de estudantes, de grupos de militantes pelos direitos das mulheres e pela liberdade de imprensa, e ditava o conteúdo dos eventos culturais. O programa de censura manifestava-se em três níveis: primeiro, os ativistas políticos eram vítimas de campanhas de intimidação e de severa repressão nas mãos da polícia. A Tunísia passou a ser um dos Estados mais fortemente policiais do mundo, com mais de 100 mil homens armados, num país de 10,4 milhões de habitantes. Há documentos que comprovam tortura de prisioneiros, repetidamente denunciadas por organizações nacionais e internacionais de direitos humanos.

Segundo, o partido do presidente construiu sistema complexo e pervasivo para vigiar e monitorizar os cidadãos, que a francesa Béatrice Hibou, especialista em economia política, chama de “dispositif de quadrillage” [NTs: aprox. “grade de controle”]. Um cidadão tunisino tinha de cuidar para não se tornar alvo da ira dos espiões locais do partido RCD, se quisesse poder continuar a viver a sua vida normal. Se, contudo, passasse a ser visto como inimigo do governo, tudo se complicava infinitamente: a admissão à universidade, a aprovação nos exames finais, o casamento, os planos para inaugurar um restaurante, a compra de um apartamento, um parto, conseguir passaporte ou, mesmo, comprar um telefone celular.

Em terceiro lugar, e devido à intrusão desmedida do Estado, a paranóia generalizou-se entre a população. Depois de 23 anos de prática diária, os tunisinos converteram-se em autocensores.

A repressão contudo não é o único fator a explicar a resiliência do regime. A longevidade do governo autoritário é efeito de uma combinação de coerção e consentimento que Hibou, em seu “La Force de l’obéissance” (2006), chama de “um pacto de segurança”. Nos termos desse acordo tácito, em troca de acesso facilitado ao crédito e a bens de consumo, os tunisinos acabavam forçados a conviver com a ausência de liberdades civis e políticas. Crédito e consumo, afinal, são parte importante do “milagre tunisino”.

O regime comprometeu a velha base produtiva da economia, seguindo à risca as recomendações de sempre do FMI e do Banco Mundial, para privatizar indústrias e cooperativas agrícolas do setor público. Em lugar do que antes havia, cresceu uma economia muito mais contingente, de empresas têxteis e call centers operados por investidores estrangeiros, que só ofereciam empregos e subempregos temporários e mal remunerados, e resorts e spas para atrair turistas às ensolaradas praias do país. Turismo e call centers, nos quais os tunisinos trabalhavam como empregados de consumidores ocidentais, são os dois principais itens da lista de exportações recomendada pelo Banco Mundial.

A promessa de crédito, que como noutros lugares do mundo, também ajudaram os tunisinos a iniciar pequenos negócios, logo se revelou promessa efêmera, em parte por causa da corrupção sempre crescente: quem tivesse conexões nos altos escalões do governo colhia para si as melhores oportunidades. No governo de Bourguiba, ainda havia uma classe média dinâmica, com formação acadêmica e profissional e educação para empreender.

A corrupção e o governo incompetente dos anos Ben Ali geraram a pauperização daquela classe média e o crescimento dramático do desemprego, sobretudo entre os que tivessem formação acadêmica. Mas 46% dos jovens egressos das universidades, como Bouazizi, enfrentavam o desemprego ou o subemprego. A ganância do presidente e de parentes da sua esposa, aos poucos espantaram os investidores tunisinos e estrangeiros, que se cansaram de ser exauridos pelas extorsões da família ‘real’, e preferiam aplicar os seus recursos nos países do Golfo. A chamada história de sucesso da Tunísia converteu-se em pesadelo para a população.

Quando começaram os protestos em meados de dezembro, a imprensa referiu-se a eles, inicialmente, como movimentos sociais, “uma revolta contra a miséria e a corrupção” [3] ou, como noticiou o canal Europa 1 de TV por satélite, “uma revolta dos jovens”. Assumiu-se que os protestos fossem motivados exclusivamente pela frustração com os maus resultados da economia e o nenhum avanço social.

Os comentadores, na primeira hora, insistiam que as manifestações estavam desorganizadas, acontecendo sem qualquer plano, estrutura ou comando. Todos diziam também que o movimento não se sustentaria: a maioria dos analistas previa que, sem a liderança de qualquer oposição formal, as manifestações teriam vida curta.

Ainda no dia 11 de janeiro, o jornalista francês Christophe Ayad avaliava a possibilidade de surgir qualquer “alternativa” ao governo de Ben Ali como “difícil”, e explicava que “todas as formações da oposição ao regime, por mais respeitáveis que sejam, são anêmicas, exangues” [4]. Pouco antes, dia 6 de janeiro, a repórter Marie Kostrz definia a oposição na Tunísia como absolutamente “desligada da realidade” e garantia aos seus leitores que “o vácuo político criado por Ben Ali não permite qualquer ilusão: ninguém pode afirmar que o regime cederá numa semana ou num mês.” Em seu artigo, citava análise do cientista político Vincent Geisser, que garantia que “não haverá mudança radical e, se alguma mudança houver, virá de dentro do regime”. [5] Apesar dessas previsões sombrias, o movimento popular não só se manteve; também cresceu e converteu-se em revolta que pôs fim a 23 anos de governo ditatorial brutal.

Estereótipos confrontados

Os eventos dos últimos meses foram impulsionados pela convergência orgânica de várias linhas de descontentamento. Uniram-se rapidamente aos graduados desempregados: estudantes, advogados, blogueiros, artistas, hackers, donas de casa, crianças, médicos, professores, feirantes – cada grupo trazendo seus específicos sofrimentos e usando seu específico vocabulário simbólico, mas todos unidos no objectivo geral. Esses clusters divergentes de protesto reuniram-se muito rapidamente num movimento de resistência civil, que sobreviveu porque se adaptou às tácticas de repressão do regime.

A conversão da “Primeira Família” da Tunísia, como o embaixador dos EUA em Túnis se refere a ela nos telegramas publicados por WikiLeaks, em extraordinário poder predador, é a chave para entender por que se dissolveu tão rapidamente e com tão aparente facilidade, depois de 23 anos, o “pacto de segurança” que Hibou identificou. A classe média e a burguesia profissional liberal (advogados, professores, médicos que se uniram aos protestos de rua) deixaram de aceitar o pacto, na medida em que se ia tornando claro que o governo já não estava empenhado em honrar o seu lado do mesmo pacto.

Pode-se argumentar que, diferente de países como a Síria, onde os Assads e familiares também estão afundados em corrupção, os clãs reinantes da Tunísia tornaram-se de tal modo gananciosos que perderam a capacidade de redistribuir qualquer porção do saque, por pequena que fosse, mesmo entre os seus cúmplices das classes altas. Assim, negligenciaram os deveres de cumplicidade com a burguesia pensante. À parte ter transposto as cisões de classe, três aspectos do levante popular na Tunísia merecem atenção especial.

Primeiro, destacado com euforia pela imprensa ocidental, a ação das redes de informação. A imprensa estatal, claro, sempre fonte de desinformação, e o próprio regime, sempre tiveram poderosa influência no sentido de impedir que os cidadãos soubessem o que, de fato, estava acontecendo. No passado, em várias ocasiões, o Estado conseguiu bloquear os portais e páginas da imprensa estrangeira na Internet e os esforços de comunicação dos cidadãos nas suas redes interpessoais. Intimidação de jornalistas, estrangeiros ameaçados, aconselhados a não se envolver em manifestações de rua e a não sair de casa foram também usados dessa vez, e conseguiram, sim, manter amordaçada a mídia estrangeira.

A principal exceção foi a rede de televisão por satélite Al-Jazeera, com base no Qatar, que abertamente desafiou as ameaças da polícia nas ruas e entusiasmou muitos tunisinos, e não desistiu de cobrir o movimento, chamando-o pelo nome, e desde o primeiro momento. Mas os eventos na Tunísia não foram novo exemplo da ação do poderoso “efeito Al-Jazeera”, porque nem esse nem outro canal de televisão teria o que mostrar, não fosse a ação clara e empenhada dos próprios tunisinos. Desde 2006 não há sucursal oficial de Al-Jazeera na Tunísia, depois que, irritado com a cobertura da rede, Ben Ali retirou de Doha o embaixador da Tunísia. Pelo menos no início do movimento, a rede teve de contar com vídeos amadores, fotos e entrevistas que os próprios manifestantes enviavam, da Tunísia. [6]

Em dezembro e janeiro, grupos de jovens tunisinos conseguiram distribuir informação crítica pelas suas redes, inclusive áudio e vídeo, sobre os desdobramentos reais. Usando plataformas de Web 2.0 como a de nawaat.org e outras mídias sociais, o movimento distribuiu informação fidedigna sobre prisões e sequestros de manifestantes, e resumos do que escreviam analistas e observadores internacionais, além de divulgar locais e horários das manifestações. Os manifestantes também usaram as redes para comparar relatos e comentários sobre como operavam as instituições de segurança, como o exército e as várias unidades policiais, a partir das quais puderam avaliar o enfraquecimento progressivo do aparelho de repressão.
Por tudo isso, os eventos da Tunísia foram chamados de “a primeira revolução Twitter”. No seu último discurso, dia 13 de janeiro, Ben Ali ofereceu o fim da censura ao YouTube e outros meios da Internet, o que provocou resposta rápida. A grande maioria das respostas, pelo Twitter e outras plataformas assemelhadas, podem ser resumidas numa frase: “Não queremos YouTube livre nem democracia virtual. Queremos mudança real de regime. Exigimos que Ben Ali deixe o país e seja julgado. E queremos eleições livres.” Desorientado talvez por muitos anos de reclamações sobre limitações impostas à Internet, Ben Ali parecia acreditar que os manifestantes estivessem nas ruas para obter “liberdade de imprensa” , mais do que mudanças políticas e justiça.

Mas nem só a Internet assistiu aos intensos debates públicos que caracterizaram o mês anterior. Houve debates pelas ruas, transformadas numa espécie de grande café, no qual a excitação ante a liberdade de manifestação recém reconquistada convivia com o medo de uma sempre presente ameaça de violência. Houve centenas de mortos e feridos.

Apesar de tudo, mais forte que a brutalidade e o medo, as ruas encheram-se de falas e risos, felicidade, loquacidade e humor, em cidades como Túnis, Gafsa, Sousse e Sidi Bouzid. Cada um queria contar a sua história dos malfeitos do regime, não só para começar a narrar uma nova história de confronto e sucesso, mas também para propor novas linhas de análise e prever desenvolvimentos futuros. Instituições que foram instrumentos de fato do regime, adaptaram-se muito rapidamente àquele despertar da sociedade civil.

Por exemplo, a grande central sindical UGTT, que apoiou o governo de Ben Ali a partir do final dos anos 1980s, mudou completamente a atitude e os discursos. A partir dos trabalhadores dos Correios e dos professores de escolas primárias, várias subcentrais e sessões regionais da UGTT organizaram debates nas suas bases sobre o curso dos acontecimentos. Emoções liberadas de prazer coletivo partilhado, que brotaram do simples direito de falar livremente e ouvir sem medo, desafiam agora a noção, tão disseminada de que, “a rua” no mundo árabe seria espaço quase absolutamente sem lei, onde sempre reinam ira e ódio difusos.

Surpreendente, e claramente revelada nas demonstrações na Tunísia, é a grande participação das mulheres – outra vez contra outro estereótipo, segundo o qual “a rua árabe” seria imagem viva de espaço público dominado pelos homens.

Todos esses estereótipos estão associados a outros estereótipos que envolvem religião. Ben Ali e vários outros ditadores há muito tempo trabalham para convencer o Ocidente de que, se algum dia for entregue aos cidadãos, a “rua árabe” será tomada por terroristas irados, que imporão a ferro e fogo a lei da Sharia e aprofundarão cada vez mais as desigualdades que separam homens e mulheres, ou, mesmo, também a Jihad.

O que se viu foi que, em manifestações que expulsaram do país o ditador, homens e mulheres marcharam lado a lado, de mãos dadas, cantando a favor de direitos civis para todos, não do Islã. O Hino Nacional, não “Allahu akbar” [NTs], foi o canto que mais se ouviu; e havia mulheres veladas e mulheres sem véu. O tom dos protestos foi mais de reapropriação dos símbolos e da linguagem nacionais históricos: mulheres e homens nas ruas, com os próprios corpos, reaprendendo a soletrar “liberdade” e “fim dos assassinatos”, trabalhando juntos para alcançar e arrancar e queimar os gigantescos retratos de Ben Ali que se viam pelos prédios e esquinas das cidades.

A questão agora é saber como essa confluência de atores sociais responderá à transição, depois de Ben Ali e adiante. Evidentemente, o anúncio, por Ghannouchi, de que o partido RCD conservaria os ministérios chaves no governo de transição foi interpretada, por toda a parte, como atitude de escárnio contra o levante e insulto aos mortos e feridos. Imediatamente as ruas voltaram a ser tomadas pelas multidões, apesar do toque de recolher ordenado pelo exército e pela polícia, cantando palavras-de-ordem pela dissolução do RCD exigindo que o primeiro-ministro e todos os membros do governo de Ben Ali renunciassem.

Agora, parece que o debate se vai estruturando em torno de dois grandes tópicos. Alguns dizem que é crucialmente importante que o governo de transição tenha a possibilidade de organizar-se e buscar alguma estabilidade. A grande massa dos cidadãos nas ruas denuncia a ilegitimidade também desse governo de transição e exige “um novo Parlamento, uma nova constituição e uma nova República”. Esse foi o slogan que reuniu os milhares de manifestantes nas ruas de Túnis dia 19 de janeiro.

A situação permanece incerta. No momento em que encerrávamos este artigo, tudo fazia crer que a balança do poder está a pender a favor dos que se opõem ao governo de transição.

As manifestações continuaram mesmo depois da partida de Ben Ali, o que parece assegurar simbologia importante aos eventos na Tunísia. Em termos de simbologia política, esta revolução é equivalente, para o mundo árabe, ao que foi para o Ocidente a queda do muro de Berlim, em 1989. Ela mostrou, se mais não for, que os muitos ditadores que ainda governam na região não são eternos nem é inevitável tolerá-los até que morram de morte natural ou não.

Aconteça o que acontecer nas próximas semanas e meses, e ainda que seja interrompida, abortada ou “roubada”, a revolução na Tunísia é precedente dramático, que faz ver como pode começar, a qualquer momento e em vários pontos, também no mundo árabe, a democratização de baixo para cima.



Fonte: ViaPolítica/Esquerda.net/Middle East Report Online

Nadia Marzouki é professora da cátedra Jean Monnet, no European University Institute, em Florença, Itália

Middle East Report Online
URL: http://www.merip.org/mero/mero011911.html

Esquerda.net
URL: http://www.esquerda.net/artigo/...

Tradução do coletivo da Vila Vudu

NOTAS
[1] Citado em Marc Semo, “La volte-face tardive de la France,” Liberation, 17/1/2011.
[2] Oumma, 13/1/2011.
[3] Politis.fr, 13/1/2011.
[4] Christophe Ayad, “Autour de Ben Ali, la politique du vide,” Liberation, 11/1/2011.
[5] Marie Kostrz, “Revolution de jasmin: qui pour remplacer Ben Ali en Tunisie,” Rue 89, 6/1/2011.
[6] Le Monde, 19/1/2011.

NTs Béatrice HIBOU, 2006. La force de l'obéissance. Économie politique de la répression en Tunisie. Paris: Ed. La Découverte

NTs “Allahu akbar” [“Deus é grande, Deus é o maior, Deus me protegerá das armadilhas dos meus inimigos”] é hino religioso, adoptado como Hino Nacional em alguns países islâmicos (http://pt.wikipedia.org/wiki/Allahu_Akbar_(hino)).