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8.1.11

Costa do Marfim, à beira da guerra civil

Costa do Marfim, à beira da guerra civil

As eleições resultaram em dois candidatos que se autoproclamam presidentes e um rastro de mortes violentas
Piervincenzo Canale
Africanews.it *

Costa do Marfim está à beira de uma nova guerra civil. As reuniões da Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (Ecowas, por sua sigla em inglês) foram retomadas na primeira semana de 2011. Enquanto isso, crescem as dificuldades para todo o povo costa-marfinense, seja qual for sua ideologia política. Também cresce o número de pessoas que cruzam a fronteira do país para a Libéria e outros países vizinhos. Muitas organizações humanitárias denunciam a falta de comida e água, e pedem à comunidade internacional que envie ajuda.

Agora o país está partido em dois: uma metade segue Alassange Outtara e a outra apóia a Laurent Gbagbo, presidente em exercício até as eleições. [Nas eleições, ocorridas em novembro de 2010, Outtara foi considerado vencedor pela Organização das Nações Unidas (ONU) e pela União Africana, tendo 54,1% dos votos contra 45,9 % de Gbagbo, que se recusa a deixar o governo do país africano]. O paradoxo político que serve de cenário a esta situação é que antes das eleições de novembro ambos candidatos haviam declarado querer trabalhar para a unidade do país e para superar as divisões que existem na Costa do Marfim desde a guerra que ocorreu entre 2002 e 2004. Em uma entrevista conjunta realizada pelo France 24 e pelo canal costa-marfinense RFI antes do segundo turno eleitoral, os dois candidatos haviam assegurado comprometer-se com o processo de pacificação do país africano. “Um discurso de reconciliação e de paz para o país é fundamental”, havia declarado Outtara, em referência a suas prioridades no caso de ser eleito.

“Deve-se abandonar esta linguagem violenta que sempre faz convocações ao ódio e levantar um governo composto por todos os partidos políticos, obviamente o movimento político dos Houphouëtistas para a democracia e a Paz [RHPD, por sua sigla em francês] e integrantes da Frente Popular Marfilena”, disse. Outtara havia prometido a criação de uma comissão para a “reconciliação e a verdade” para começar uma “nova Costa do Marfim”.

Laurent Gbagbo respondeu às perguntas dos jornalistas declarando que se comprometia a organizar eleições legislativas, assim como a abrir um diálogo com a Comissão Eleitoral Independente (CEI). Gbagbo disse que prorrogaria o desarmamento até depois das eleições legislativas e que esperava “começar com a verdadeira ação governamental”.
 
Manifestações pró-Outtara

Nos dias 16 e 17 de dezembro de 2010 os partidários de Outtara realizaram manifestações nas cidades mais importantes do país em um clima muito tenso. De fato, não faltaram confrontos entre manifestantes e forças policiais, o que resultou em 20 vítimas segundo fontes governamentais, e 30 segundo os outtarianos.

Enquanto os dois candidatos autoproclamados presidentes se mantém entrincheirados em seus quartéis, a situação se complica ainda mais. No dia 26 de dezembro, os costa-marfinenses da dispersão fizeram uma manifestação em frente ao Tribunal Constitucional de Paris para apoiar a Gbagbo. Segundo alguns deles, entrevistados pelo site Africanews, Laurente Gbagbo seria o presidente que todos os costa-marfinenses querem, porque foi eleito pelo povo e porque tem trabalhado sempre na legalidade e no respeito às leis.

Em particular, um deles disse ao Africanews que “com Alassane Outtara querem impor um candidato que ninguém quer, que não conhece a África, um fantoche”. “Como quando nos impuseram a Houphouët-Boigny”, acrescentou, em referência ao primeiro presidente da Costa do Marfim, eleito pelo governo francês em 1959. “Que fazemos na Europa? Enquanto estamos aqui, os estrangeiros nos impõem seus homens e os fazem chefes de Estado de nossos países. Queremos voltar para a África, a nosso país, e trabalhar para seu desenvolvimento”, declara outro manifestante em Paris.

Compra de armas

Apesar do que possa parecer depois da primeira vista, nem todos na Costa do Marfim estão tão comprometidos. Uma comentarista africana escreveu que não entende “como se pode fazer o nosso país cair em uma guerra civil depois de tudo o que temos vivido. Já não temos as reservas alimentícias que tínhamos antes. Agora estão condenando a morrer de fome a nossos filhos. Os políticos estão prontos para cortar postos de trabalho, serviços, dizem sempre que não há dinheiro, mas quando a questão é comprar armas não duvidam em fazê-lo”.

Depois das reuniões de janeiro, a comunidade internacional poderia planejar o envio de forças militares a Costa do Marfim. Em uma carta aberta, muitos intelectuais africanos e europeus pediram que se evite a possibilidade, ressaltando que a intervenção militar no país “serviria só para piorar uma situação já trágica e para arrasar o país inteiro”.

*Texto traduzido do francês para o espanhol por Daniele Grasso/Roma (Italia) do Diagonal.web

Tradução para o português: Michelle Amaral / Brasil de Fato

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