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22.1.11

Emiliano José, "Jornalismo de Campanha e a Constituição de 1988"







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Em dois artigos, do Prof. Albino Rubin e do Jornalista Oldack Miranda, os autores falam do novo livro do Prof. Emiliano José. Leitura recomendada.

Artigo 1

Imprensa e neoliberalismo

Antonio Albino Canelas Rubim *


Paul Krugman publicou recentemente um artigo em The New York Times, reproduzido pelo jornal A Tarde, intitulado “Quando os zumbis vencem”. O premiado economista discute o “estranho triunfo das idéias fracassadas” ao analisar a circunstância norte-americana e o complicado governo Obama. Ele afirma que “Os fundamentalistas do livre mercado estavam errados acerca de praticamente tudo e, ainda assim, eles agora dominam a cena política mais amplamente que nunca”. No texto, Krugman busca respostas para tal predomínio depois de tantos fracassos neoliberais. A avassaladora crise mundial nascida em 2008 continua destroçando países e pessoas. A Irlanda, antes louvada pelos arautos do neoliberalismo como modelo, é o mais recente exemplo deste amontoado de fiascos. Entretanto, estas idéias mantêm impressionante vigência.

Uma das explicações para a hegemonia – afinal trata-se do tema anunciado por Antonio Gramsci – nos EUA, conforme Paul Krugman, é que “...as pessoas que deveriam estar tentando exterminar as idéias zumbis ao invés disto tentam chegar a um acordo com elas”. Para o autor, “isto é especialmente verdade (...) em relação ao presidente (Obama)”. Cabe lembrar que a potência da hegemonia neoliberal nos anos 80 e 90 era tal que se falava mesmo em “pensamento único”. O “pensamento único” foi construído de modo articulado, através de governos dos países centrais – em especial, a Inglaterra de Margaret Thatcher e os EUA de Ronald Reagan –, das agências internacionais – como o banco Mundial, o FMI etc. – a da grande mídia transnacional.

O interessante artigo demonstra de modo vigoroso a atualidade do mais novo livro de Emiliano José. Ele se inscreve no que em outros tempos poderia, sem mais, ser denominado luta ideológica. Mas atenção: hoje a palavra “ideologia” está esquecida e parece ter sido banida do pensamento “respeitável”. Aliás, a hegemonia neoliberal conseguiu colocar sob suspeita muitas das idéias críticas e dos ideais emancipadores. Em lugar da cena pública de tensões e contradições imanentes à vida social e política, o neoliberalismo entroniza a sociedade competitiva, logo “moderna”. Os excluídos – pessoas e países – habitam as ruínas do brutal processo, intitulado “modernização”. Eles são destituídos de lugar no mundo, na vida e no pensamento. Desconsiderados, tornam-se párias, sem direito sequer à existência pública.

Emiliano José enfrenta corajosamente questões vitais da atualidade mundial e brasileira. Ele retorna a um tema caro na sua trajetória de estudioso e escritor: as preocupantes conexões entre jornalismo e política no Brasil. Desta vez, tais enlaces são perscrutados através do olhar atento à acentuada partidarização da mídia brasileira como oráculo do pensamento neoliberal.

O livro trata do jornalismo de campanha e das várias tentativas de desconstrução da Constituição de 1988, sob a ótica neoliberal, ensejadas nos governos Collor, Itamar e especialmente FHC, quando ocorrem as maiores desfigurações da Constituição Cidadã. Para isto, Emiliano José produz amplas revisões históricas: do neoliberalismo no mundo e no Brasil; dos processos constituintes e da própria atuação da imprensa brasileira recente.

A situação do Brasil, felizmente, não se assemelha a circunstância norte-americana, mas a persistência das “idéias fracassadas” é enorme no país. Elas estão presentes cotidianamente em falas de empresários, políticos, acadêmicos; em jornais, revistas semanais, programas de rádio e de televisão e, em especial, nas colunas vigentes na mídia.

Livros como o de Emiliano José são muito bem-vindos para superar o nefasto neoliberalismo que nos ameaça. Ele assume uma atitude vital ao se posicionar e lutar a favor de novos valores sociais, que nos ajudam a imaginar e a construir outro mundo possível: mais justo, democrático, solidário e intercultural.

* Professor da UFBA e Secretário de Cultura do Estado da Bahia.

Artigo 2 

Emiliano José destrincha as vísceras da velha imprensa

Oldack Miranda*

À época em que o professor, escritor, jornalista e agora deputado federal Emiliano José (PT-BA) pesquisou a mídia, a pejorativa expressão Partido da Imprensa Golpista (PIG) sequer existia. Nos arquivos, ele garimpou manchetes e conteúdos da Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, O Globo, Jornal do Brasil, revistas Veja, IstoÉ e Exame, além do Jornal da Tarde e Gazetta Mercantil. Ou seja, a nata da imprensa escrita que, no período pesquisado de 1988 a 1998, fez campanha escancarada pela revisão da Constituição Cidadã e que, mais tarde, iria abertamente fomentar um golpe branco contra o Governo Lula, motivada pelo chamado escândalo do mensalão.

A tese de Doutorado intitulada "A Constituição de 1988, as reformas e o jornalismo de campanha", defendida na Faculdade de Comunicação da UFBA, deu origem à obra "Jornalismo de campanha e a Constituição de 1988", editada pela EDUFBA em parceria com a Assembléia Legislativa da Bahia. O livro será lançado na Bahia no próximo dia 28 de janeiro, às 18h, na Livraria Cultura (Shopping Salvador).

Na ocasião, estará sendo lançada também a 2ª edição do livro "Imprensa e Poder - Ligações Perigosas", pela mesma EDUFBA, baseado em sua dissertação de Mestrado, na mesma linha de pesquisa, em que analisa o comportamento da mídia na CPI do PC Farias e impeachment de Collor. Aqui, o autor critica a complacência do jornalismo brasileiro, de um lado, e celebra o episódio da investigação jornalística que levou ao impeachment de Collor, de outro. Em anexo, estão depoimentos de protagonistas c omo Clóvis Rossi, Bob Fernandes, Gilberto Dimenstein e João Santana Filho.

Em "Jornalismo de campanha e a Constituição de 1988", Emiliano José parte de uma premissa: a imprensa brasileira constituiu-se em elemento essencial, ancorada no seu vasto arsenal discursivo, na caracterização da Constituição de 1988, desde que ela foi promulgada, como um OBSTÁCULO ao desenvolvimento do País. Ou seja, a imprensa foi ator decisivo na desconstrução da Constituição Cidadã, inserida no processo de imposição do projeto neoliberal, com claro programa político, a serviço dos interesses das classes dominantes.

Emiliano caracteriza o jornalismo brasileiro como um dos mais partidarizados do mundo. As famílias oligárquicas que controlam os meios de comunicação monopolizam o discurso político no Brasil. Elas rejeitam, pelo menos nos últimos 50 anos, uma atitude positiva em relação a governos reformistas e democráticos. "Nem é preciso lembrar Vargas, Goulart e as articulações que resultaram no golpe militar de 1964, a conivência com a ditadura. Basta que nos lembremos da rejeição ao presidente operário Lula".

A versão contemporânea do "jornalismo de campanha" pesquisado por Emiliano José começa na Era Collor, assume a ideologia neoliberal, demoniza as empresas estatais, santifica as empresas privadas, o estado mínimo e o deus-mercado, faz um impressionante lobby por reformas anti-trabalhistas e antissociais, como o desmantelamento da Previdência, receitua o enterro do nacional-desenvolvimentismo. Para formar a opinião pública, constrói o cenário do caos e adota a perversão da linguagem: antirreforma significa reforma, privatizar significa modernizar, estatizar é atraso, demissão é enxugamento. O pensamento único instala-se no jornalismo.

Na Nota do Autor, ele futuca a Rede Globo. Prega a ética singular do cidadão comum para o jornalista: não mentir, não inventar, não produzir matérias à base do "testar hipóteses". "Como explicar porque a Rede Globo havia dito que o presidente Lula era CULPADO pela morte de quase 200 pessoas no acidente da TAM?". Testam-se hipóteses, mente-se e se a mentira não colar, a imprensa continua a vida numa boa, sem pedidos de desculpas, repete sempre.

O professor vislumbra mudanças, poucas. Ele destaca o surgimento do jornalismo eletrônico, blogs como os de Paulo Henrique Amorim, agências como Carta Maior, CartaCapital, Caros Amigos. Entidades que mostraram "o outro lado", desmascarando calúnias, mentiras e reportagens plantadas com o objetivo de desestabilizar o presidente-operário, a exemplo do dossiê das ambulâncias. Agora, deputado federal, Emiliano aponta o caminho da democratização das mídias, sem a qual não haverá democracia.

* Oldack Miranda, jornalista.
Artigo publicado no site Terra Magazine (15/01/2011)

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