Lugar de Pensar

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Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome. Clarice Linspector
“Não somos seres humanos vivendo uma experiência espiritual, somos seres espirituais vivendo uma experiência humana.” Teilhard de Chardin
A solidão não existe! Tenho um mundo inteiro dentro de mim.
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17.1.11

"Não passam mais", Ary dos Santos



"Não passam mais"

Em nome dos nossos braços/em nome das nossas mãos/em nome de quantos passos/deram os nossos irmãos./Em nome das ferramentas/que nos magoaram os dedos/das torturas, das tormentas/das sevícias dos degredos./Em nome daquele nome/que herdámos dos nossos pais/em nome da sua fome/dizemos: Não passam mais!

E em nome dos milénios/de prisão adicionada/em nome de tantos génios/com a voz amordaçada/em nome dos camponeses/com a terra confiscada/em nome dos Portugueses/com a carne estilhaçada/em nome daqueles nomes/escarrados nos Tribunais/dizemos que há outros nomes/que não passam nunca mais.

Em nome do que nós temos/em nome do que nós fomos/revolução que fizemos/democracia que somos/em nome da unidade/linda flor da classe operária/em nome da liberdade/flor imensa e proletária/em nome dessa vontade/de sermos todos iguais/vamos dizer a verdade/dizendo: não passam mais!

Em nome de quantos corpos/nossos filhos foram feitos./Em nome de quantos mortos/vivem nos nossos direitos./Em nome de quantos vivos/dão mais vida à nossa voz/não mais seremos cativos:/O trabalho somos nós.

Por isso tornos enxadas/canetas frezas dedais/são as nossas barricadas/que dizem: não passam mais!
E em nome das conquistas/vindas dos ventos de Abril/reforma agrária controlo/operário no meio fabril/empresas que são do Estado/porque o seu dono é o povo em nome de lado a lado/termos feito um país novo./Em nome da nossa frente/e dos nossos ideais/diante de toda a gente/dizemos: não passam mais!

Em nome do que passámos/não deixaremos passar/o patrão que ultrapassámos/e que nos quer trespassar./E por onde a gente passa/nós passamos a palavra./Cada rua cada praça/é o chão que o povo lavra/passaremos adiante/com passo firme e seguro./O passado é já bastante/vamos passar no futuro.

José Carlos Ary dos Santos, nasceu em Lisboa, 7 de Dezembro de 1936 — Lisboa, 18 de Janeiro de 1984, foi um poeta e declamador português.

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