Lugar de Pensar

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Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome. Clarice Linspector
“Não somos seres humanos vivendo uma experiência espiritual, somos seres espirituais vivendo uma experiência humana.” Teilhard de Chardin
A solidão não existe! Tenho um mundo inteiro dentro de mim.
Seja bem-vindo.

28.2.11

A lente de German Lorca









German Lorca (São Paulo SP 1922). Fotógrafo. Forma-se em ciências contábeis pelo Liceu Acadêmico, em 1940. Em 1949, participa do Foto Cine Clube Bandeirantes - FCCB, associação de fotógrafos que introduzem novas tendências na fotografia, como José Yalenti, Thomaz Farkas (1924) e Geraldo de Barros (1923 - 1998). Nessa época produz imagens que se tornam muito conhecidas, como Malandragem, 1949, À Procura de Emprego, 1951, e Apartamentos, 1952. Registra a paisagem da cidade de São Paulo, em especial os locais da região central, como a praça da Sé. Abre estúdio próprio em 1952. Em 1954, é o fotógrafo oficial das comemorações do IV Centenário da Cidade de São Paulo. A partir dessa data, dedica-se com exclusividade à fotografia, atuando principalmente na área de publicidade, em que conquista prêmios como o Prêmio Colunistas, concedido pela revista Meio & Mensagem, em 1985 e 1989. Sua produção da época do FCCB é comentada no livro A Fotografia Moderna no Brasil, de Helouise Costa, publicado em 1995, pela editora da Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ.

Mundo Árabe: o navegar da democracia

A rua árabe é hoje a vanguarda de todo o mundo”
 
A grande revolta árabe de 2011, com razões específicas em cada país, definitivamente não tem a ver com religião (como afirmaram Mubarak, Kadafi e Hamad), mas essencialmente com a inquietude da classe trabalhadora provocada pela crise global do capitalismo. O choque de civilizações, o fim da história, a islamofobia e outros conceitos estão mortos e enterrados. As pessoas querem seus direitos sociais e navegar pelas águas da democracia política e da democracia social. Neste sentido, a rua árabe é hoje a vanguarda de todo o mundo. Se os al-Khalifa da vida não compreenderem isso, vão cair. O artigo é de Pepe Escobar.
Pepe Escobar - Ásia Times Online

Um fantasma percorre o Golfo Pérsico: a democracia.

Na última terça-feira, pelo menos 20% da população de Bahrein se reuniu na rótula Lulu, em Manama, na maior manifestação contra a monarquia feudal intimamente relacionada com a grande revolta árabe de 2011. Toda uma mostra representativa da sociedade bareiní – professores, advogados, engenheiros, suas esposas e filhos – saiu às ruas em uma ampla e contínua coluna de vermelho e branco, as cores da bandeira nacional.

Na quarta-feira, houve motivos para crer que a revolta chegava finalmente ao Santo Gral, ou seja, a Casa de Saud, quando 100 jovens apareceram nas ruas de Hafar al-Batin, no noroeste da Arábia Saudita, pedindo o fim da monarquia feudal empapada em petróleo. O extraordinário é que tenha ocorrido enquanto o “guardião das mesquitas sagradas”, o rei saudita Abdullah, de 85 anos, voltava para casa três meses depois de sua operação nos EUA e de sua convalescência no Marrocos – em meio à massiva propaganda do regime, completada com toques orientalistas enquanto homens com túnicas brancas realizavam tradicionais danças beduínas da espada sobre tapetes especiais.

Para a Casa de Saud, a revolta é o pesadelo máximo: como todo o mundo já sabe, o ínfimo Bahrein de maioria xiita faz fronteira com as regiões produtoras de petróleo da Arábia Saudita, de grande maioria xiita. Portanto, não surpreende que o rei Abdullah, mal colocou os pés sobre os tapetes e já realizou uma ação preventiva para sufocar toda possível atividade ansiosa de democracia mediante um programa de 35 bilhões de dólares que inclui um ano de seguro desemprego para jovens desempregados, e um fundo de desenvolvimento nacional para ajudar as pessoas a comprarem casas, estabelecerem negócios e casarem-se.

Em tese, a Arábia Saudita prometeu pelo menos 400 bilhões de dólares até o fim de 2014 para melhorar a educação, a saúde e a infraestrutura. O economista chefe do Banco Sadi Fransi, John Sfakianakis, descreveu a iniciativa com um eufemismo: “o rei trata de criar um melhor efeito de filtração da riqueza na forma de prestações sociais”.

Invariavelmente os eufemismos terminam quando se trata da política. Não há nenhum sinal de que o rei vá investir nas aspirações políticas de seus súditos – como liberdade para partidos políticos e sindicatos – e os protestos ainda são totalmente proibidos. Não há evidência, tampouco, de que se mostre inclinado a encarar os imensos problemas sociais – desde a repressão governamental á intolerância religiosa – que o obrigaram a anunciar estra multimilionária estratégia do “filtrado”.

E quem esteve presente para saudar o rei Abdullah e discutir o código da “crise” para a Grande Revolta Árabe de 2011? Correto – seu vizinho, o monarca feudal sunita, rei Hamad al-Khalifa, de Bahrein.
Matando-os suavemente com nossa canção

A narrativa urdida na Disneylândia ocidental de que o rei Hamad “favorece a reforma”, que se interessa pelo “progresso da democracia” e pela “preservação da estabilidade”, foi totalmente desbaratada quando seu exército mercenário disparou munição de guerra por meio de canhões antiaéreos instalados em transportes blindados contra manifestantes que levavam flores, ou utilizou helicópteros Bell estadunidenses que perseguiam a população e disparavam contra ela.

Uma mensagem no twitter da jornalista bareiní Amira al-Hussein resumiu tudo: “Amo Bahrein. Sou bareiní. Meu sangue é bareiní e hoje vi como meu país morria nos olhos de seus filhos”.

A rebelião xiita contra a dinastia al-Khalifa de mais de 200 anos, invasores procedentes do continente, por certo vem se desenvolvendo durante décadas e inclui centenas de prisioneiros políticos torturados em quatro prisões dentro e ao redor de Manama por “conselheiros” jordanianos e um regime cujo exército é composto em sua maioria por soldados punjabis e balúchis paquistaneses.

Demorou bastante, mas por fim um telefonema estratégico desde Washington garantiu que os al-Khalifa ao menos fizessem com que a matança fosse realizada com um pouco mais de sentido comum.

A história de como a política externa dos EUA se adaptou agilmente à grande revolta árabe de 2011 deixa algumas lições. O presidente deposto do Egito, Hosni Mubarak, e o rei Hamad, do Bahrein, são “moderados” e certamente não “malévolos”; além de qualquer coisa foram e são, respectivamente, pilares da “estabilidade” no Oriente Médio e Norte da África (MENA).

Por outro lado, Muamar Kadafi, da Líbia, e Bashar al-Assad, da Síria, são verdadeiramente maus, porque não se submetem aos ditames de Washington. A escala moral que condiciona a reação dos EUA está diretamente determinada pelo grau no qual o ditador/monarca feudal em questão é um sátrapa estadunidense.

Isso explica a imediata reação estadunidense (do Departamento de Estado, e ainda na quarta-feira do próprio presidente Barack Obama) ante o bombardeio ordenado por Kadafi contra seu próprio povo, enquanto os meios de comunicação corporativos e números analistas dos think tanks se apressaram para ver quem encontraria os adjetivos mais estudados para crucificar este último. Não há nada melhor do que denunciar um ditador que não se ajusta ao modelo de lacaio de Washington.

Enquanto isso, do outro lado de MENA, houve apenas um olhar quando o aparato repressivo de Hamad – importado em parte da Arábia Saudita – matou seus próprios cidadãos na rótula Perla. Bom, o terrorista reabilitado Kadafi sempre foi um lunático, enquanto a Bahrein outro mantra se aplica: Bahrein é um “estreito aliado” dos EUA, “uma nação pequena, mas valiosa do ponto de vista estratégico”, base da Quinta Frota, essencial para assegurar o fluxo de petróleo pelo Estreito de Ormuz, um bastião contra o Irã, etc.

Em todo caso, mesmo depois do massacre, Jeque Ali Salman, líder do maior partido opositor xiita, al Wefaq, assim como Ebrahim Sharif, líder do partido secular Wa’ad, e Mohammed Mahfood, da Sociedade de Ação Islâmica, concordaram em se reunir com o príncipe herdeiro Salman bin Hamad al-Khalifa para um diálogo proposto pela monarquia.

Husain Abdullah, diretor do grupo Estadunidenses pela Democracia e os Direitos Humanos no Bahrein, não está convencido: “Não estou seguro de que a própria família governante seja séria com respeito a algum diálogo sério porque, quando se olha a televisão de Bahrein, não se vê outra coisa que ataques sectários contra os que permanecem na praça Lulu”. Segundo Abdullah, o que ocorre na verdade é que “cada vez mais gente pede abertamente a derrubada do regime, mediante meios pacíficos, e que o Bahrein seja governado pelo povo. Além disso, há um chamado sério à desobediência civil total (não parcial, como é atualmente) no país para obrigar a família governante a abandonar o país tal como ocorreu na Tunísia e no Egito”. Não é surpreendente, portanto, que a Casa Saudita esteja assustada.

O levante dos 70% xiitas no Bahrein, além de muitos sunitas – o mantra do protesto é “nem xiitas, nem sunitas, só bareinís” – começou como um movimento por direitos civis. É melhor que o príncipe herdeiro cumpra as reivindicações rapidamente, ou esse movimento se converterá em uma revolução concreta. No momento, há muita retórica sobre “estabilidade”, “segurança”, “coesão nacional” e nada sobre uma reforma eleitoral e constitucional séria.

Há motivos para acreditar que Salman – seguindo os conselhos sauditas – possa estar agindo como Mubarak, fazendo promessas vagas para um futuro distante. Todos sabemos como terminou na Praça Tahrir.

Os manifestantes começaram a pedir um primeiro ministro eleito, uma monarquia constitucional e um fim à discriminação contra os xiitas. Agora, Matar Ibrahim, um dos 18 membros xiitas no Parlamento, disse que a brecha entre os manifestantes na praça Perla e a oposição política oficial que fala com o príncipe herdeiro se converteu em um abismo. O grito máximo unificador na rua é: “Abaixo, abaixo Khalifa!”.

Milhares de trabalhadores na imensa fábrica de alumínio Alba já garantiram um movimento industrial e sindical muito poderoso em apoio aos manifestantes de maioria xiita. O líder do sindicato da Alba, Ali Bin Ali – sunita – já advertiu que os trabalhadores podem entrar em greve há qualquer momento.

"Queremos nossos direitos sociais'

Caso ocorra uma mudança pacífica e democrática de regime no Bahrein, os mega-perdedores serão a Arábia Saudita e os Estados Unidos. O Bahrein é um caso clássico do império de bases dos EUA, em aliança com uma repugnante monarquia/ditadura feudal. Naturalmente, o Estado Maior conjunto dos EUA preferem a “ordem e estabilidade” estabelecidos por uma ditadura, assim como a antiga potência colonial Grã Bretanha: os massacres de civis no Bahrein e na Líbia foram perpetrados pela academia militar Sandhurst e sistemas da British Aerospace.

O rei Hamad graduou-se na Escola de Comando e Pessoal Geral do Exército dos EUA, em Fort Leavenworth, Kansas, e “tem um papel dirigente na direção da política de segurança do Bahrein”, segundo um telegrama vazado por Wikileaks. Ele foi ministro da Defesa de 1971 a 1988 e é um grande entusiasta do armamento pesado estadunidense.

Por sua parte, o príncipe herdeiro, “muito ocidental em sua atitude”, é graduado em uma escola do Departamento de Defesa do Bahrein e na Universidade de Washington (EUA). Tradução: dois vassalos com mentalidade do Pentágono estão encarregados de fazer as reformas democráticas no Bahrein.

O centro bancário internacional de Bahrein – com um Produto Interno Bruto per capita um pouco inferior a 20 mil dólares – também está muito acima, juntamente com a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos, na escala de oligarquias enriquecidas na base do trabalho escravo, o proverbial grande “pool” de trabalhadores migrantes que fornece mão de obra barata. Foi gasta uma fortuna promovendo-se o “Bahrein, amigo dos negócios”. Na semana passada, soou mais como “Bahrein, amigo das balas”.

A grande revolta árabe de 2011, com razões específicas em cada país, definitivamente não tem a ver com religião (como afirmaram Mubarak, Kadafi e Hamad), mas essencialmente com a inquietude da classe trabalhadora provocada pela crise global do capitalismo. O choque de civilizações, o fim da história, a islamofobia e outros conceitos estão mortos e enterrados. As pessoas querem seus direitos sociais e navegar pelas águas da democracia política e da democracia social. Neste sentido, a rua árabe é hoje a vanguarda de todo o mundo. Se os al-Khalifa da vida não compreenderem isso, vão cair.

Pepe Escobar é autor de “Globalistan: How the Globalized World is Dissolving into Liquid War” (Nimble Books, 2007) e “Red Zone Blues: a snapshot of Baghdad during the surge”. Seu último libro é “Obama does Globalistan” (Nimble Books, 2009). pepeasia@yahoo.com.

Tradução: Katarina Peixoto

27.2.11

Entendendo os protestos no mundo árabe

Protestos no mundo árabe em 2010-2011

Os protestos no mundo árabe em 2010-2011 são uma série de grandes manifestações e protestos em países do Norte da África e do Oriente Médio, que compõe o chamado "Mundo Árabe". Os protestos ocorrem na Tunísia, Egito, Iêmen, Barein, Argélia, Líbia e Jordânia, com pequenos incidentes ocorridos na Mauritânia, Arábia Saudita, Omã e Sudão.[1][2][3][4][5] As manifestações populares começaram em 18 de dezembro de 2010 com o levante na Tunísia, que foi seguido por protestos no Egito, na Argélia, na Líbia, no Iêmen e Jordânia.[6][7] No dia 17 de janeiro de 2011, cerca de 200 manifestantes marcharam em Omã exigindo um aumento dos salários e a redução dos custos de vida.

O primeiros dos movimentos foi na Tunísia (a Revolução de Jasmim), quando o ex-presidente Zine El Abidine Ben Ali fugiu para a Arábia Saudita. Mais tarde, a atenção do mundo focou-se no Egito, onde ocorreram protestos maciços desde 25 de janeiro de 2011. Após quatro dias de protestos, o presidente Hosni Mubarak propôs reformas, mas ainda não renunciava, o que levou a mais protestos que continuaram por 18 dias, com a pressão internacional e a pressão interna, Mubarak desiste e cede o Governo à SFME - Suprema Força Militar Egípcia. Os protestos no Egito ganharam bastante atenção e preocupação de todo o mundo, o motivo era uma aliança que existia entre Mubarak e o Ocidente, visto que Mubarak era um importante aliado na Guerra ao Terror[8]. Além disso, devido às semelhanças político-econômicas e culturais, o movimento foi de grande influência nos outros países árabes a iniciarem uma guinada democrática.[9]

Esta série de protestos a favor da democracia contrasta com um silêncio pasmoso da União Europeia e com um apoio relativamente grande dos Estados Unidos às manifestações.[10]


Causas

A revolução democrática árabe é considerada a primeira grande onda de protestos laicistas e democráticos do mundo árabe no século XXI. Os protestos, de índole social e, no caso de Túnis, apoiada pelo exército, foram causados por condições de vida duras promovidas pelo desemprego, ao que se aderem os regimes corruptos e autoritários[11] revelados pelo vazamento de telegramas diplomáticos dos Estados Unidos divulgados pelo Wikileaks. Estes regimes, nascidos dos nacionalismos árabes dentre as décadas de 1950 e 1970, foram se convertendo em governos repressores que impediam a oposição política credível que deu lugar a um vazio preenchido por movimientos islamistas de diversas índoles.[11] Outras causas das más condições de vida, além do desemprego e da injustiça política e social de seus governos, estão na falta de liberdades, na alta militarização dos países e na falta de infraestruturas em lugares onde todo o beneficio de economias em crescimento fica nas mãos de poucos e corruptos.[12]

Estas revoluções não puderam ocorrer antes, pois, até a Guerra Fria, os países árabes submetiam seus interesses nacionais aos do capitalismo estadunidense e do comunismo russo. Com poucas exceções, até a Guerra Fria, maiores liberdades políticas não eram permitidas nesses países. Diferentemente da atualidade, a coincidência com o amplo processo da globalização, que difundiu as ideias do Ocidente e que, no final da primeira década do terceiro milênio, terminaram tendo grande presença as redes sociais, que em 2008 se impuseram na internet. Esta, por sua vez, se fez presente na década de 2000, devido aos planos de desenvolvimento da União Europeia.[13] A maioria dos protestantes são jovens (não em vão, os protestos no Egito receberam o nome "Revolução da Juventude"), com acesso a Internet e, ao contrário das gerações antecessoras, possuem estudos básicos e, até mesmo, graduação superior.

Por último, a profunda crise do subprime de 2008 na qual foi muito sentida pelos países norte-africanos, piorando os níveis de pobreza, foi um detonador para a elevação do preço dos alimentos e outros produtos básicos.[13]

A estas causas compartilhadas pelos países da região se somam outras particulares. No caso da Tunísia, a quantidade de turistas internacionais e, em especial, os europeus que recebiam promoveu maior penetração das ideias ocidentais; ademais, O governo da Tunísia é o menos restritivo.[13]


Referências

   1. ↑ Thousands in Yemen Protest Against the Government
   2. ↑ Protest spreads in the Middle East - The Big Picture - Boston.com
   3. ↑ http://www.leparisien.fr/flash-actualite-monde/mauritanie-mecontent-du-regime-un-homme-s-immole-par-le-feu-a-nouakchott-17-01-2011-1231257.php
   4. ↑ http://www.bbc.co.uk/news/world-middle-east-12260465
   5. ↑ http://www.presstv.ir/detail/160998.html
   6. ↑ UPDATE 1-Egypt, Algeria, Jordan risk political unrest -S&P | Reuters
   7. ↑ Inspired by Tunisia and Egypt, Yemenis join in anti-government protests
   8. ↑ http://www.vancouversun.com/news/Unrest+across+Arab+world/4178175/story.html
   9. ↑ CHAVES-SCARELLI, Thiago. "Guinada democrática no Egito seria grande exemplo para mundo árabe, dizem analistas" (em português). UOL Notícias. 29 de janeiro de 2011. (página da notícia visitada em 29 de janeiro de 2011)
  10. ↑ Valenzuela, Javier; El País: Europa y la revolución democrática árabe, 29 de janeiro de 2011 (consultado no mesmo dia).
  11. ↑ a b Fuentes, Pedro; Túnez: El significado de la primera revolución democrática árabe del Siglo XXI (Consultado em 30 de janeiro de 2011).
  12. ↑ Goytisolo, Juan; El País: Revolución democrática en el Magreb. (Consultado em 30 de janeiro de 2011).
  13. ↑ a b c Historia de Ahora; La revolución de Túnez y su expansión por los países “árabes”. 28 de janeiro de 2011 (consultado em 30 de janeiro de 2011).


Veja aqui a Linha do Tempo:

http://pt.wikipedia.org/wiki/Protestos_no_mundo_%C3%A1rabe_em_2010-2011

26.2.11

Outros Egitos...

Novos Egitos virão

As raízes da revolta árabe não se limitam a problemas regionais como autoritarismo e corrupção, mas envolvem os efeitos sociais perversos da globalização capitalista

 Igor Fuser

O panorama internacional apresenta ao menos quatro tendências importantes:


1 - A queda da influência dos EUA
 
A derrubada das ditaduras na Tunísia e no Egito representa um novo marco no declínio da capacidade do imperialismo estadunidense em definir as questões mundiais conforme a sua vontade. A derrota se mostra mais grave por ter como cenário o Oriente Médio, região estratégica onde se situam dois terços das reservas petrolíferas. Os EUA tratam de reduzir o prejuízo manobrando para que os novos governantes daqueles dois países permaneçam sob o controle de Washington. O fato é que os EUA terão mais dificuldade em impor suas preferências. Lideranças novas e velhas buscarão maior autonomia em política externa a fim de diluir a imagem de submissão aos EUA. O perdedor mais direto é Israel, que vê sua margem de ação drasticamente diminuída.

2 - Persistência da crise econômica mundial
 
A recuperação nos EUA é modesta e insuficiente para compensar os empregos perdidos. Na Europa e no Japão, o quadro é ainda mais sombrio. A falta de consenso entre as elites dirigentes globais estimula a guerra cambial entre as potências econômicas. O único ponto comum na reação à crise é a retomada da ofensiva neoliberal contra a classe trabalhadora e os benefícios sociais.

3 - Alta dos preços dos alimentos e da energia

As causas são a especulação financeira, o aumento do consumo nos países "emergentes" e as catástrofes climáticas ligadas ao aquecimento global. Como resultado, agravam-se as condições de vida em boa parte do planeta, criando um terreno propício a rebeliões populares como no norte da África. Ao mesmo tempo, intensifica-se a compra de terras em países periféricos por empresas estrangeiras. O preço do petróleo também está aumentando, o que tornará mais difícil o fim da recessão.

4 - Ascenso das mobilizações populares

As raízes da revolta árabe não se limitam a problemas regionais como autoritarismo e corrupção, mas envolvem os efeitos sociais perversos da globalização capitalista. Trata-se, pois, de um movimento que se articula com a onda de protestos contra as políticas neoliberais em boa parte do mundo, sobretudo na Europa. Vivemos um novo ciclo de lutas sociais em escala internacional. Novas “surpresas” devem surgir, em outros pontos do planeta.

24.2.11

Internet Power

 
Será a internet capaz de domar governos?

 
Por Borje Ljunggren em 22/2/2011

Reproduzido do Estado de S.Paul
(tradução de Augusto Calil)
 
Enquanto o mundo acompanhava atentamente a revolta na Praça Tahrir, no centro do Cairo, e o papel desempenhado pelas novas mídias, a China silenciosamente removeu a palavra "Egito" da lista de termos que podem ser acessados na rede do país. O Egito colocou em evidência os desafios que devem ser enfrentados pela próxima geração de líderes chineses, igualmente preocupada com os rumos do futuro.

Uma piada atualmente popular na China fala de um piloto que diz aos passageiros ter boas e más notícias: "A boa notícia é que estamos adiantados; a má notícia é que estamos perdidos." Para esta potência econômica em rápido crescimento, os desafios abrangem desde o reequilíbrio da economia e a superação do abismo entre a China rural e a China urbana, até as medidas contra a mudança climática e a redistribuição atual do poder global. De acordo com um número cada vez maior de relatos, o maior destes desafios pode ser o efeito, no longo prazo, o das crescentes complexidades do relacionamento entre o partido-Estado e a sociedade civil, catalisadas principalmente pela mídia cibernética.

Segundo muitos observadores, o fenomenal crescimento da sociedade civil na rede foi, até o momento, bastante favorável ao Partido Comunista, e não à sociedade civil. A China tornou-se um Estado autoritário interligado no qual o partido monitora, controla e determina a opinião pública valendo-se de recursos ilimitados em termos de mão-de-obra – incluindo-se aí os mecanismos humanos de busca – e de tecnologia, empreendendo um esforço de mineração de dados que atinge as profundezas da sociedade.

A melhor foto jornalística

Uma vasta literatura sobre o tema veio à tona com livros excelentes, como The Power of the Internet in China - Citizen Activism Online (O poder da internet na China - ativismo cidadão na rede), publicado em 2009 por Guobin Yang e, mais recentemente, After the Internet, Before Democracy - Competing Norms in Chinese Society and Media (Depois da internet, antes da democracia - normas conflitantes na sociedade e na mídia da China), publicado em 2010 por Johan Lagerkvist, e Changing Media Changing China (Mídia em mutação alterando a China), de Susan Shirk (2010).

Em muitos casos ocorridos desde 2004, a internet alterou dramaticamente o rumo dos acontecimentos, obrigando o partido a manobrar entre resposta e repressão. Tomemos como exemplo o caso do oficial Li Gang, da polícia provinciana, e a morte de uma estudante, atropelada por um carro dirigido por seu filho embriagado. Depois de ser flagrado por pedestres, o filho se gabou: "Duvido que ousem registrar a ocorrência. Meu pai é Li Gang." Logo as palavras de Li Júnior estavam em blogs de toda a China, incorporadas à história das cinco mansões de luxo do pai, tão comentada na internet. Tornou-se inevitável levar Li Júnior a julgamento. O caso também levou o partido ao banco dos réus. Em 30 de janeiro, Li foi sentenciado a seis anos de prisão.

Outro caso, envolvendo as irmãs Zhong, recebeu menos atenção internacional, mas consiste num exemplo mais significativo. Em setembro, o governo estava pronto para demolir o lar da família Zhong, na província de Jiangxi, quando uma das filhas, a mãe e um tio atearam fogo a si mesmos. O tio morreu por causa dos ferimentos. Quando duas das irmãs tentaram embarcar num voo para Pequim com o objetivo de contar sua história num programa de TV, representantes do governo local as ameaçaram no aeroporto. As jovens fugiram para o banheiro e telefonaram para um jornalista de sua confiança. Em questão de minutos, o caso estava no microblog mantido pela sina.com. Jornalistas de Pequim telefonaram para as irmãs no banheiro e transmitiram a conversa ao vivo pela internet. O incidente tornou-se notícia em toda a China e uma foto da irmã que sofreu graves queimaduras sentada no colo de outra das irmãs ganhou o prêmio chinês de Melhor Foto Jornalística de 2010.

Expansão da mídia

As autoridades não tiveram escolha senão dialogar com a família. Oito funcionários do governo estão sob investigação. A equipe do sina.com, sob intensa pressão, apagou do blog todas as reportagens e comentários sobre o incidente. Mas a história se espalhou, tornando-se um marco na história da internet na China. Os microblogs tornaram-se plataformas para opiniões críticas sobre a corrupção e das injustiças sociais – e diz-se que milhões de mensagens sobre estes temas são publicados todos os dias.

Estes dois casos individuais fazem parte de um dramático avanço nas comunicações. Os livros de Lagerkvist e Susan apresentam um contexto analítico, trazendo um riquíssimo material sobre como a indústria chinesa da mídia está crescendo e como o partido-Estado tenta lidar com isso e controlar este processo. Lagerkvist concentra-se na internet, enquanto Susan se dedica a uma abordagem mais ampla da mídia num volume que traz contribuições de estudiosos chineses e personalidades da mídia como Hu Shuli, fundador da revista Caijing, e Zhan Jiang, um reformador da mídia. Em ambos os livros, a internet constitui para o partido a mídia mais ameaçadora.

As estatísticas da expansão quantitativa da mídia na China são impressionantes: mais de 400 milhões de usuários da internet, 220 milhões de blogs, 800 milhões de assinantes da telefonia celular, mais de 2 mil jornais e 9 mil revistas, cerca de 2.200 emissoras de TV e – o mais incrível – tudo isso cada vez mais comercializado. Ainda assim, o partido continua no controle.

"Opiniões e informações mais livres"

Em termos quantitativos, tanto Lagerkvist quanto Susan descrevem uma situação de concorrência cada vez mais acirrada entre normas sociais já estabelecidas e as normas emergentes, bem como os desafios crescentes enfrentados pelo partido-Estado. Em seu livro, Susan – que ganhou reconhecimento internacional com sua obra sobre a China enquanto superpotência frágil – aprofunda-se mais do que Lagerkvist, sugerindo que o partido se vê agora obrigado a ceder parte do controle e, como diz em seu capítulo Xiao Qiang, do China Digital Times, um reequilíbrio de poder estaria ocorrendo na sociedade chinesa.

Lagerkvist mostra-se preocupado diante do grau de influência do otimismo nas teorias ocidentais sobre a China. Ele diz que o partido-Estado chinês "é bastante robusto, confiante e capaz de suportar instabilidades no curto prazo", "pluralizando a internet em proveito próprio" e enchendo a mídia de "idiotenimento" imobilizante. Mas ele afirma na sequência que há "uma erosão se aprofundando no poder do partido-Estado por conta da ação da sociedade civil", transmitindo a ideia de um ativismo crescente e da formação de novas normas e valores da sociedade, tanto na rede quanto fora dela.

Lagerkvist analisa transformações observadas dentro do partido entre funcionários do Estado burocrático, conforme eles mesmos passam horas na internet quando não estão trabalhando, diante de telas em seus próprios lares. Eles também são cidadãos da rede e as normas sociais seguidas por eles acompanham essas transformações. Lagerkvist escreve que "o golpe final contra o vasto regime de censura do partido-Estado se dará como resultado da maior sensibilidade despertada nestes atores em relação a temas como a liberdade pessoal, a privacidade online e a necessidade de uma disseminação de opiniões e informações mais livre".

A quinta geração

A censura é uma parte orgânica do partido-Estado e sem dúvida continuará a ser uma arma crucial, mas seu uso é cada vez mais denunciado conforme a sociedade chinesa na internet ganha consciência do quanto os interesses do partido determinam os limites do seu acesso à informação. Como consequência, a ideia de um "direito a saber" está tomando forma na sociedade civil online chinesa, em rápido crescimento, e isso poderia, na análise de Susan, tornar-se "o grito de guerra da próxima revolução chinesa".

Apesar de estarmos longe de uma declaração de liberdade para a internet na China, com o tempo a sociedade civil e as novas tecnologias vão empurrar os limites para além das fronteiras axiomáticas definidas pelo partido-Estado. Nas palavras de Lagerkvist, o momento crítico chegará quando a demanda por mudanças fora da rede se tornar forte o bastante para mudar o jogo.

Talvez o controle do partido já tenha sido "perdido" e testado, mas isso não significa que ele esteja prestes a desabar em chamas. A quinta geração, que assumirá o governo em 2012, deve tentar formas mais deliberadas de autoritarismo e novas combinações de resposta e repressão enquanto luta para manter seu monopólio de poder numa sociedade que muda rápido demais para ser acompanhada pelo partido.
 
[Publicado com autorização da Yale Global Online, Yale Center for The Study of Globalization.]

Próximo! (assim caminha a fila )



Movimento marca ato para tentar derrubar presidente de Angola


As rebeliões populares no Oriente Médio estimularam a articulação de um movimento, em Angola, para derrubar o presidente José Eduardo dos Santos, há 32 anos no poder. Sucessor de Agostinho Neto, um dos ícones da luta pela Independência, Santos assumiu em 1979 a presidência do País e do MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola). Em 1992, passou por um tumultuado pleito, o qual reacendeu a guerra civil. Com a nova Constituição, a próxima eleição presidencial está prevista para 2012.

O manifesto "A Nova Revolução do Povo Angolano" se espalha nas redes sociais, repercute em jornais online dos países de língua portuguesa e foi amplificado por uma nota da Agência France-Presse. "Em toda Angola, vamos marchar com cartazes exigindo a saída do Ze Du, seus ministros e companheiros corruptos", anunciam. O ato central está marcado para o Largo da Independência, em Luanda, no dia 7 de março.

A combustão pode vingar, mas existe no povo angolano um sentimento de cansaço, depois de uma longa e devastadora guerra civil, encerrada somente em 2002. Terra Magazine procurou ouvir os líderes do movimento e trocou e-mails com "Agostinho Jonas Roberto dos Santos", que se apresenta como principal organizador dos protestos. Ele usa um pseudônimo que agrega os nomes de personagens da história contemporânea de Angola: Agostinho Neto, Jonas Savimbi, Holden Roberto e o próprio José Eduardo dos Santos. Preferiu não se identificar e afirma que não há outros manifestantes por trás do nome. "Eles vão matar alguns de nós, mas no fim não vão conseguir matar-nos todos", diz.

- Entendemos que a mídia e algumas pessoas dentre o povo angolano estão preocupados com a minha cara e eu garanto-lhe que darei a cara no momento propício porque ainda estamos na fase de mobilização das massas.

Assinada por Sergio Ngueve dos Santos, uma carta foi dirigida ao secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, e ao presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, com o pedido de "ajuda e observação". Há divisão entre os opositores angolanos. Em entrevista a uma rádio, o jornalista e ativista Rafael Marques, que mantém um site anti-corrupção, criticou o manifesto e disse que teme "um banho de sangue", pois "os angolanos são profundos praticantes e conhecedores da violência". "É preciso estruturar a sociedade no sentido de se preparar para o pós-Eduardo dos Santos", defendeu Marques.

O líder anônimo, que não se assume como Sergio Ngueve dos Santos, garante que o movimento é composto por membros de todos os partidos políticos do País, mas não possui um caráter político-partidário. No centro das exigências, a realização de eleições periódicas e o fim da era "Zé Du".

- Estamos cansados desta ditadura de quase 32 anos e queremos ser liderados por vários líderes em cada 5 ou 10 anos, o que acreditamos será uma verdadeira democracia, visto que o país será dirigido por diferentes pessoas com visões diferentes para o bem do povo angolano.

O MPLA já se pronunciou contra o movimento, o que sugere a expectativa de uma dura repressão aos anunciados protestos em Luanda e no resto de Angola. Criticado por causa de sua longevidade no poder, além dos casos de corrupção no governo, Santos tem o controle das Forças Armadas e conta com uma força simbólica sobre o País. Nesta entrevista, o líder reconhece o desejo de paz do povo angolano. Entretanto, argumenta que os jovens possuem outra mentalidade:

- Um jovem angolano disse, e com razão, que o povo de Angola já não é aquele povo de 20 anos atrás. Atualmente conhecemos a besta que vamos derrubar e não somos intimidados pelas ameaças mesquinhas do corrupto Dino Matross (secretário-geral do MPLA).

Confira a entrevista.

Terra Magazine - Agostinho Jonas Roberto dos Santos é um nome composto de lideranças políticas angolanas: Agostinho Neto, Jonas Savimbi, Holden Roberto e Eduardo dos Santos. Quantas lideranças estão por trás do atual movimento? Por que a preferência pelo anonimato no manifesto "Nova Revolução Angolana"?

 "Agostinho dos Santos" - O pseudônimo Agostinho Jonas Roberto dos Santos pertence a um só indivíduo que é o lider deste movimento. O movimento foi formado por jovens angolanos. A escolha do nome tem caráter simbólico, baseando-se na sequência de vida e morte dos protagonistas, sem querendo desejar a morte de José Eduardo dos Santos. O MRPLA não pertence a nenhum partido político angolano (lê 'about' em www.revolucaoangolana.webs.com), mas representamos o conjunto do povo angolano pela nossa diversidade provincial, tribal, racial, cultural, e muito mais.

Entendemos que a mídia e algumas pessoas dentre o povo angolano estão preocupados com a minha cara e eu garanto-lhe que darei a cara no momento propício porque ainda estamos na fase de mobilização das massas e seria precoce e perigoso mostrar a cara.

Vocês acham que uma movimento pela substituição do presidente José Eduardo dos Santos, que está há 32 anos no poder, tem as mesmas chances de prosperar que os protestos no Egito, na Tunísia e na Líbia?

Acreditamos na mudança, principalmente porque estamos cansados das injustiças e da falta de interesse dos nossos governantes que para além de perpectuarem a exploração ao povo, perderam o sentido de criatividade e inovação. Estamos cansados desta ditadura de quase 32 anos e queremos ser liderados por vários líderes em cada 5 ou 10 anos, o que acreditamos será uma verdadeira democracia, visto que o país será dirigido por diferentes pessoas com visões diferentes para o bem do povo angolano.

Não existe um cansaço do povo angolano com confrontos políticos, depois de uma longa guerra civil? O desejo de paz não deve enfraquecer o movimento?

De princípio também pensamos assim, mas agora temos uma percepção diferente daquilo que é o nosso povo. Um jovem angolano disse, e com razão, que o povo de Angola já não é aquele povo de 20 anos atrás. Atualmente conhecemos a besta que vamos derrubar e não somos intimidados pelas ameaças mesquinhas do corrupto Dino Matross.

O manifesto do movimento tem sido espalhado, principalmente, pela internet. Mas a penetração da internet não é grande em Angola. Como tem sido feita a mobilização para o ato de 7 de março?

A mobilização em Angola está a ser feita em forma de passe-a-palavra (NR: boca a boca) e debates nos bairros, cidades em todo o pais. Estamos satisfeitos com a campanha que fizemos até agora porque não só no país mas os angolanos na diáspora (Alemanha, Brasil, EUA, Canadá, França, a associação da mulher angolana no Reino Unido (Omal), estão todos ao nosso lado. Os jovens no país são a nossa maior força nesta causa.

Também tenho de realçar que a Constituição que o próprio governo elaborou garante-nos o direito de manifestação em lugares públicos SEM NENHUM AVISO, eu cito "reuniões e manifestações em lugares públicos carecem de prévia comunicação à autoridade competente".

Leia mais: CONSTITUIÇÃO DA REPUBLICA DE ANGOLA Artigo 47.º (Liberdade de reunião e de manifestação) 1. É garantida a todos os cidadãos, a liberdade de reunião e de manifestação pacífica e sem armas, sem necessidade de qualquer autorização e nos termos da lei. 2. As reuniões e manifestações em lugares públicos CARECEM de prévia comunicação à autoridade competente, nos termos e para os efeitos estabelecidos por lei.

Como o movimento avalia o governo de José Eduardo dos Santos?

Este governo gaba-se em ser sócio-democrático mas os seus atos, que foram uma experiência dolorosa para o povo angolano, define a verdadeira face do regime ditador de José Eduardo dos Santos. É um governo que não trouxe nada de melhor, repito, nada de melhor ao povo angolano.

Lideranças do MPLA já defenderam medidas duras contra a manifestação. Vocês temem uma repressão violenta do governo?

Uma repressão violenta é esperada pelo povo angolano, mas a nossa voz falará mais alto e os nossos atos irão remover o regime ditador de José Eduardo dos Santos. Eles vão matar alguns de nós, mas no fim não vão conseguir matar-nos todos. Viva o povo lutador de Angola.

Vocês integram algum agrupamento político-partidário?

Não nos integramos a nenhum agrupamento político-partidário, mas o nosso grupo está composto por angolanos de todos os partidos políticos angolanos. Este grupo não é político, mas sim um movimento de todo o povo de Angola que está a lutar na defesa genuína dos interesses do povo angolano. O movimento do povo apela a todos os militantes e partidos políticos de Angola, incluindo o MPLA, a se juntarem a esta revolução para o bem comum de todos os Angolanos.

Também apelamos aos nossos irmãos da Polícia Nacional e as Forças Armadas Angolanas a se juntarem ao povo porque acreditamos que eles também são vitimas deste regime ditador.

23.2.11

Afeganistão



Adam Ferguson


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Fotografia intitulada “Afghanistan: The Tangi Valley” de autoria de Adam Ferguson mostra um soldado dos EUA usando um aparelho de visão noturna de longo alcance para observar a movimentação Talebã no Afeganistão.

Líbia: sangue e luta

Revolta árabe: o presidente líbio, rumo ao precipício?
 
 
Há alguns dias, enquanto o coronel Kadafi enfrentava a ira do seu povo, ele se reuniu com um velho conhecido árabe e passou 20 minutos de quatro horas perguntando-lhe se conhecia um bom cirurgião plástico para levantar as bochechas. É – tenho que dizê-lo tratando-se deste homem ? – uma história verdadeira. O ancião não tinha um bom aspecto, com o rosto inchado. Parecia a face de um louco, um ator de comédia que entrou na tragédia em seus últimos dias, desesperado pela última maquiagem, a chamada final para a porta do teatro. O artigo é de Robert Fisk.
Robert Fisk 

Então também o velho, paranoico e lunático zorro da Líbia – o pálido, infantil ditador nascido em Sirte, dono de sua própria guarda pretoriana feminina e autor do ridículo Livro Verde, que uma vez anunciou que chegaria com seu cavalo branco a uma cúpula dos não alinhados em Belgrado – vai cair por terra. Ou já caiu. Na noite de segunda, o homem que vi pela primeira vez há mais de três décadas, saudando com solenidade uma falange de homens rãs uniformizados de preto que marchavam derretendo as nadadeiras no pavimento ardente da praça Verde em uma noite tórrida de Trípoli, durante um desfile militar de sete horas, parecia estar a caminho do fim, perseguido – como os ditadores da Tunísia e do Egito – por seu próprio povo enfurecido.

As imagens no Youtube e no Facebook relatam a história com um realismo granulado e opaco, a fantasia trocada por incêndios e quartéis de polícia em chamas em Bengasi e Trípoli, por cadáveres e homens armados, por uma mulher que se inclina com a pistola na mão desde a porta de seu automóvel, por uma multidão de estudantes – seriam leitores da literatura do tirano? – fazendo em pedaços uma réplica de seu espantoso livro. Tiros, chamas e gritos pelo celular: o epitáfio de um regime o qual todos apoiamos de quando em quando.

E aqui, só para focar nossa mente no cérebro de um desejo excêntrico, vai uma história verdadeira. Há alguns dias, enquanto o coronel Kadafi enfrentava a ira do seu povo, ele se reuniu com um velho conhecido árabe e passou 20 minutos de quatro horas perguntando-lhe se conhecia um bom cirurgião plástico para levantar as bochechas. É – tenho que dizê-lo tratando-se deste homem ? – uma história verdadeira. O ancião tinha um mau aspecto, com o rosto inchado, simplesmente a face de um louco, um ator de comédia que entrou na tragédia em seus últimos dias, desesperado pela última maquiagem, a chamada final para a porta do teatro.

Nesta hora, Saif al-Islam Al-Kadafi, fiel recriador de seu pai, teve que entrar em cena enquanto Bengasi e Trípoli ardiam e ameaçar com caos e guerra civil se os líbios não voltassem para a casa. Esqueçam-se do petróleo, do gás, anunciou este bobalhão abastado. Haverá guerra civil. Acima da cabeça do amado filho na televisão estatal, um Mediterrâneo verde parecia emanar de seu cérebro. É um bom obituário, se pensamos bem, para quase 42 anos de governo de Kadafi.

Não é exatamente como o rei Lear, quando ameaçava fazer tais coisas - sejam quais forem, não sei -, e que serão o terror da terra, mas sim como outro ditador em um bunker diferente, convocando exércitos diferentes que o salvaram em sua capital e colocando a culpa de sua própria calamidade nos ombros de seu povo. Mas esqueçam-se de Hitler: Kadafi seguiu uma carreira solo: Mickey Mouse e profeta, Batman e Clark Gable, Anthony Quinn no papel de Omar Mukhtar, em “O Leão do Deserto”, Nero e Mussolini (versão 1920) e, ao fim, inevitavelmente, o maior ator de todos: Muammar Kadafi.

Escreveu um livro intitulado “Fuga do inferno e outros contos”, muito apropriado para as infelizes circunstâncias atuais, e exigiu uma solução de um só Estado para o conflito palestino-israelense, que seria chamado de Israeltina.

Pouco depois expulsou a metade dos palestinos residentes na Líbia e disse a eles para marchar na direção de sua terra perdida. Abandonou ruidosamente a Liga Árabe por considerá-la irrelevante – um breve momento de sensatez, é preciso admiti-lo – e chegou a uma cúpula no Cairo confundindo deliberadamente a porta de um banheiro com a do salão de conferências até que o califa Mubarak o conduziu com um sorriso que denunciava sofrimento.

Se o que testemunhamos é uma verdadeira revolução na Líbia, logo poderemos – se os empregados das embaixadas ocidentais não chegarem antes e cometerem um pouco de pilhagem séria e desesperada – procurar nos arquivos de Trípoli e ler a versão líbia sobre o atentado contra o vôo 722 da UTA, em Lockerbie, sobre as bombas na discoteca de Berlim, em razão dos quais muitos civis árabes e a própria filha adotiva de Kadafi morreram nos ataques vingativos dos Estados Unidos, em 1986; sobre o fornecimento de armas para o IRA e os assassinatos de opositores dentro e fora do país; sobre o assassinato de um policial britânico; sobre a invasão ao Chade e as negociações com magnatas petroleiros britânicos (recaia a desgraça sobre nós neste ponto); a verdade acerca da grotesca deportação de Al Megrahi, o suposto autor do atentado em Lockerbie, demasiado doente para morrer, que talvez pudesse hoje revelar alguns segredos que o zorro da Líbia – junto com Gordon Brown e o procurador geral da Escócia , porque todos são iguais no cenário mundial de Kadafi – prefeririam que não soubéssemos.

Tradução: Marco Aurélio Weissheimer

A imaginação do mundo de Ben Goossens

para uma amiga, quase egípcia, de admirável imaginação.











22.2.11

Ditaduras na África e no Oriente Médio? Que surpresa!

Ditaduras na África e no Oriente Médio? Que surpresa!

Graças às revoltas árabes, o Ocidente acaba de descobrir com grande assombro que o Bahrein não é só esse exótico lugar onde voam os bólidos da Fórmula 1 e onde amarram os porta-aviões da Quinta Frota. Qual será a próxima tirania que descobriremos no Oriente Médio ou África? A da Guiné? A de Marrocos, que possui uma "relação privilegiada" com a União Europeia? Que grande contrarieddade para o cinismo da realpolitik! O artigo é de Ignacio Escolar.

O país que os Estados Unidos apresentava como exemplo para a região acaba por ser retratado também como uma brutal ditadura, capaz de colocar o Exército na rua com ordem de disparar contra o povo. Que terrível e inesperada notícia! Que grande contrariedade para o cinismo da realpolitik! Qual será a próxima tirania que descobriremos no Oriente Médio ou África? A da Guiné? A de Marrocos?

Comecemos por Guiné. “Mais coisas nos unem do que nos separam”, ressaltou o presidente do Congresso espanhol, José Bono, em recente visita oficial – junto a representantes do PP, PSOE e CiU – Convergência e União. É óbvio o que “nos une”: o petróleo e os interesses comerciais. E o que nos separa? Minúcias: as execuções de opositores políticos, as torturas, a corrupção do regime de Obiang, que não só conta com a cumplicidade tácita do Estado espanhol, como também com seu respaldo público a título de vacina, já que a liberdade é uma enfermidade contagiosa.

Prossigamos com o Marrocos, essa monarquia absoluta com um cenário democrático que pode presumir “uma relação privilegiada” com a União Europeia, nas palavras do comissário de Ampliação e Vizinhança, Stefan Füle. “Seu país pode estar orgulhoso do que conseguiu até hoje”, felicitou Fule não faz muito tempo ao ministro de Relações Exteriores do Marrocos, elogiando as “reformas políticas” que requerem microscópio para serem apreciadas em sua justa dimensão.

E a que vem tanto elogio? Fácil: neste domingo venceu o acordo de pesca com a Europa que terá que ser renegociado. Em cima da mesa, o incômodo assunto do Saara ou os direitos humanos são só outra moeda de troca.

(*) Ignacio Escolar é blogueiro e jornalista espanhol, colunista do jornal “Público”, de Madri (21/02/2011)

Tradução: Katarina Peixoto

21.2.11

Deserção na Líbia

Pilotos líbios desertam e levam caças para Malta, dizem fontes



DA REUTERS, EM VALLETTA
DAS AGÊNCIAS DE NOTÍCIAS



Dois pilotos da Força Aérea da Líbia desertaram na segunda-feira e levaram seus caças para Malta, onde disseram às autoridades que haviam recebido ordens para bombardear manifestantes, segundo fontes do governo maltês.

As fontes disseram que os aviadores --ambos com a patente de coronel-- decolaram de uma base perto de Trípoli. Eles estão sendo interrogados pela polícia local, e um dos dois pediu asilo político.
  
Os dois disseram que decidiram voar para Malta após receberem ordens para atacar manifestantes em Benghazi, segunda maior cidade da Líbia, epicentro dos protestos contra o regime de Muammar Gaddafi.

A polícia maltesa também está interrogando sete passageiros que chegaram da Líbia a bordo de dois helicópteros com matrícula francesa.

Fontes do governo disseram que os helicópteros deixaram a Líbia sem autorização das autoridades locais, e que só um dos sete passageiros -- que afirmam ser cidadãos franceses-- tinha passaporte.

A chancelaria francesa disse que estava analisando o caso.

VIOLÊNCIA

O episódio ocorreu em meio a intensos protestos na Líbia contra Gaddafi e seus 42 anos de governo autoritário. Intensa repressão já deixou ao menos 233 mortos, segundo informou nesta segunda-feira a ONG sediada em Nova York Human Rights Watch. Já a Federação Internacional de Direitos Humanos (FIDH) calcula entre 300 e 400 pessoas foram mortas desde o início da rebelião.

A FIDH relatou ainda que manifestantes antirregime assumiram o controle de cidades líbias e que militares estão desertando.

"Muitas cidades foram tomadas, principalmente no leste. Os militares estão debandando", declarou a presidente da FIDH, Souhayr Belhassen, citando principalmente Benghazi, reduto da oposição, e Syrta, cidade natal do coronel de Gaddafi.

A emissora de TV NTV, citando um trabalhador turco, informou que a cidade de Jalu, localizada cerca de 400 quilômetros ao sul de Benghazi, também foi controlada pelos opositores do regime.

"O controle está totalmente nas mãos da população. Não há forças de segurança, não há polícia. Estamos sujeitos à vontade e ao controle do povo", relatou Mustafa Karaoglu, que trabalha na cidade --de cerca de 3.500 habitantes--, onde um grupo de trabalhadores estrangeiros se mantém reclusos em seus locais de trabalho.

Benghazi, onde os protestos começaram na semana passada após a prisão de um advogado de direitos humanos e onde dezenas de pessoas foram mortas por forças de segurança, está efetivamente sob controle dos manifestantes, de acordo com alguns moradores da localidade.

BOMBARDEIOS

O governo de Gaddafi voltou a reprimir duramente os manifestantes que pedem sua renúncia e atacou, com aviões militares que dispararam munição real, multidões que se reuniram na capital da Líbia, Trípoli, para protestar, informou nesta segunda-feira a emissora de TV árabe Al Jazeera. Segundo especialistas, a ação poderia significar que o regime do ditador está perto do fim.

A informação foi passada por um cidadão líbio, Soula al Balaazi --que se diz um ativista da oposição--, que afirmou à TV por telefone que aviões de guerra da força aérea do país bombardeou "alguns locais de Trípoli".

No entanto, não foi possível confirmar a informação de forma independente.

Um analista da consultoria Control Risks, com sede em Londres, disse que o uso de aviões militares contra seu próprio povo indica que o fim pode estar próximo para Gaddafi.

"Isso realmente parecem ser atos derradeiros, desesperados. Se você está bombeando sua própria capital, é realmente difícil ver como você pode sobreviver", afirmou Julien Barnes-Dacey, analista da consultoria para o Oriente Médio.

"Na Líbia, mais do que em qualquer outro país da região, há um prospecto de violência grave e conflito aberto."

20.2.11

A arte de Eli Reinholdtsen






Eli  Reinholdtsen, fotógrafa norueguesa

Anais Nin


 Eu escolho
um homem
que não duvide
de minha coragem
que não
me acredite
inocente
que tenha
a coragem
de me tratar como
uma mulher.
 

Anais Nin

Nasce uma outra Bolívia

Nasce uma potência plebeia

O livro, de Álvaro García Linera, que acaba de ser lançado pela Boitempo Editorial, faz uma análise política (com visão marxista) e histórica sobre as transformações na Bolívia.

Mouzar Benedito

“Nunca antes neste país…”

Poderia ser o Lula falando do Brasil.

Mas poderia também ser Evo Morales falando da Bolívia. Ou Álvaro García Linera, sociólogo, matemático e vice-presidente boliviano.

Na Bolívia acontecem coisas que o mundo não vê porque não olha para lá. Ou olha com preconceito, até com raiva, pelo fato de um índio – o primeiro a governar aquele país em que a grande maioria da população é indígena – ter chegado ao poder e ousar fazer coisas que os governantes de origem europeia nunca fizeram.

Desde 2006, quando Evo Morales tomou posse, a Bolívia passa por um impressionante e revolucionário processo de transformação, com o povo – especialmente os índios que sempre foram tratados como não cidadãos, praticamente não tinham direitos – sendo beneficiado e assumindo uma autoestima nunca vista.

As minas, entregues ao capital internacional (a mando do FMI) por Victor Paz Estenssoro – o que quebrou a espinha do movimento operário – estão sendo recuperadas, os acordos internacionais estão sendo revistos, com muito ganho para o país, e esse ganho vai para projetos sociais e econômicos eficientes, a cultura dos povos andinos torna-se cada vez mais presente nas cerimônias, festas e atividades políticas de aimaras, quéchuas e outras etnias.

Uma minoria de origem europeia, que não se conforma em ter perdido o poder e tenta até separar a parte do país em que dominam, o leste que hoje é a parte mais rica da Bolívia, mas não tem força, perdeu o bonde da história. A tomada do poder pelos índios, a julgar pela participação indígena nas decisões, parece irreversível.

Mas tudo isso não aconteceu de um dia para o outro. A luta é “antiga”.

O livro A potência plebéia – ação coletiva e identidades indígenas, operárias e populares na Bolívia, de Álvaro García Linera, que acaba de ser lançado pela Boitempo Editorial, faz uma análise política (com visão marxista) e histórica de todo o processo. Tive o prazer de traduzir parte dele e fiquei impressionado. Recomendo.



A potência plebeia - Ação coletiva e identidades indígenas, operárias e populares na Bolívia
Autor: Álvaro García Linera
Prefácio: Pablo Stefanoni
Tradução: Mouzar Benedito e Igor Ojeda
Páginas: 352
Ano de publicação: 2010

Primavera Árabe

19.2.11

Entenda a Onda de Revoltas no Oriente Médio

Número de mortos em protestos na Líbia chega a quase cem


As forças de segurança líbias abriram fogo contra manifestantes neste sábado na cidade de Benghazi --ao menos 15 pessoas foram mortas no confronto de hoje, o que eleva a estimativa de mortes a 99 em cinco dias de confronto no país,  de acordo com a agência Associated Press.

Inspirados no Egito, os protestos têm como objetivo tirar do poder Muammar Gadaffi, que governa o país há 42 anos. As forças governamentais também cortaram o acesso à internet na Líbia.

Os manifestantes voltam às ruas pelo quinto dia, mas Gadaffi vem adotando uma linha dura contra a onda de revoltas que tomou conta do Oriente Médio e da África após a queda dos ditadores do Egito e da Tunísia.

Atiradores dispararam contra milhares de pessoas reunidas em Benghazi, ponto central dos protestos, para manifestar seu luto pela morte de 35 manifestantes atingidos por tiros na sexta-feira, segundo um funcionário de um hospital.

"Agora nós temos jovens vindo ao hospital para doar dinheiro", disse o homem. "Estamos ficando com pouco suprimento." Como muitos líbios que falaram com os jornalistas durante a revolta, o funcionário falou em condição de anonimato por medo de represálias.

Antes da violência deste sábado, a organização Human Rights Watch (HRW) havia estimado que pelo menos 84 pessoas já foram mortas durante os protestos.

A internet no país também foi cortada por volta das 2h da manhã (horário local), retirando uma das poucas maneiras disponíveis para que os líbios divulgassem informações sobre a onda de protestos antigoverno em uma das mais isoladas e repressivas nações da África.

A informação é bastante controlada na Líbia, onde jornalistas não podem trabalhar livremente, e ativistas postaram na internet nesta semana vídeos que foram importantes fontes de imagens da revolta. Outras informações sobre os protestos foram divulgadas por oposicionistas que vivem no exílio.

As autoridades egípcias tentaram cortar a conexão de internet durante a revolta que levou à renúncia de Hosni Mubarak, em 11 de fevereiro, mas não tiveram sucesso. A Líbia, porém, é mais isolada e a internet é uma das únicas ligações com o mundo exterior.

Por volta das 5h (horário local), forças especiais do governo atacaram centenas de manifestantes, incluindo advogados e juízes, acampados em frente ao tribunal de Benghazi, a segunda maior cidade do país.

"Eles jogaram gás lacrimogêneo nas tendas dos protestantes e limparam as áreas depois que muitos fugiram levando os mortos e feridos", disse um manifestante por telefone.

Médicos em Benghazi afirmaram na sexta-feira que 35 corpos foram trazidos ao hospital após os ataques das forças de segurança, apoiadas por milícias, após a morte de mais de 12 pessoas no dia anterior. Uma testemunha afirmou que os ferimentos dos mortos ficavam na cabeça e no tórax.

A população da cidade organizou patrulhas nas vizinhanças neste sábado, após a polícia deixar as ruas. "Nós não vemos nenhum policial nas ruas, nem guardas de trânsito", disse um advogado em Benghazi.

Além disso, o ativista líbio Fathi al-Warfali, baseado na Suíça, afirmou que diversos outros ativistas foram presos, incluindo Abdel-Hafez Gougha, um conhecido manifestante que foi preso após as forças de segurança invadirem sua casa durante a noite.

BAHREIN

Milhares de manifestantes voltaram a ocupar neste sábado a praça da Pérola, em Manama, epicentro da mobilização antigoverno no Bahrein, depois que a polícia e o Exército se retiraram do local em um aparente gesto de conciliação.

Na sexta-feira, pelo menos 50 pessoas ficaram feridas após militares terem disparado contra grupos que tentavam voltar ao local.

A volta dos manifestantes neste sábado ocorreu após o príncipe herdeiro do país, Salman Bin Hamad al-Khalifa, ter ordenado a retirada do Exército das ruas de Manama e sua substituição por forças policiais.

A retirada do Exército era uma das exigências feitas pela oposição para aceitar a oferta de diálogo apresentada na sexta-feira pelo rei Hamad Isa al-Khalifa.

A retomada da praça neste sábado ocorreu apesar de a polícia ter tentado conter os manifestantes com bombas de gás lacrimogêneo e balas de borracha antes de se retirar do local. Segundo alguns relatos, cerca de 60 pessoas ficaram feridas.

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, havia telefonado ao rei Hamad na sexta-feira para pedir comedimento. Obama afirmou que o Bahrein precisa respeitar os "direitos universais" de seu povo e promover "uma reforma significativa".

O Bahrein é um dos principais aliados dos Estados Unidos na região e abriga uma base naval americana.

DJUBUTI

Em Djibuti, um policial e um manifestante morreram neste sábado, durante os violentos confrontos que se seguiram a uma massiva manifestação da oposição, que teve três dirigentes presos, segundo fontes oficiais.

"Duas pessoas, incluindo um policial, morreram após a manifestação organizada na sexta-feira pela oposição, que questiona o atual e legítimo poder e exige o adiamento das eleições presidenciais de 8 de abril", indicou o ministério do Interior em um comunicado.

"Um policial morreu após violentos choques entre as forças da ordem pública e grupos de manifestantes que saquearam, destruíram e queimaram várias propriedades", acrescenta o texto, que não esclarece as circunstâncias da morte do agente das forças de segurança. "A segunda vítima é um manifestante, que foi atropelado por uma viatura da polícia", segundo o ministério do Interior.

Além disso, a nota oficial informa que "nove policiais ficaram feridos, e um deles está internado em estado crítico".

Por outro lado, três dos principais líderes opositores do país foram detidos neste sábado em represália ao que aconteceu nas passeatas da sexta-feira, indicou a justiça de Djibuti.

Foram presos Aden Robleh Awaleh, do Partido Nacional Democrata, Mohamed Daoud Chehem, do Partido Democrata de Djibuti, e Ismail Guedi Hared, cuja formação, a União pela Alternância Democrática (UAD), organizou a manifestação de sexta-feira.

Os enfrentamentos entre partidários da oposição, que protestam pelo fim do regime do presidente Ismael Omar Guelleh, e membros das forças de segurança recomeçaram neste sábado em um subúrbio popular de Djibuti.

Um dia depois da grande manifestação da oposição na capital, violentamente reprimida, novos choques foram registrados em Balbala, localidade da periferia da cidade. Pequenos grupos de manifestantes perseguiam os policiais, lançando pedras e outros objetos. A polícia, por sua vez, respondia com bombas de gás lacrimogêneo.

Os confrontos ocorriam simultaneamente em vários pontos de Balbala, e com mais intensidade perto do hospital italiano. O número de manifestantes não para de aumentar desde a manhã deste sábado, apesar da ação da polícia.

IÊMEN

A polícia do Iêmen matou um manifestante contrário ao governo e feriu outros cinco neste sábado, quanto o corpo policial abriu fogo em milhares de pessoas que marchavam no 10º dia de protestos no país. O líder do país creditou os protestos a "conspiração estrangeira".

Os manifestantes querem desempossar o presidente Ali Abdullah Saleh, um importante aliado dos EUA em relação ao combate à Al Qaeda. Eles marcharam da Universidade de Saana até o Ministério da Justiça, entoando frases como "as pessoas querem a queda do regime".

Saleh governa o Yemen há 32 anos.

Trata-se do 10º dia de protestos no país, que foram inspirados pelo Egito e pela Tunísia. Desde então, sete pessoas já morreram no país.

Uma fonte médica disse que o homem morto recebeu um tiro no pescoço.

"A nação está diante de uma conspiração estrangeira que ameaça o seu futuro", disse Saleh, sem dar mais detalhes sobre qual seria, exatamente, essa conspiração.

ARGÉLIA

Centenas de policiais nas calçadas e nas ruas próximas à praça Primeiro de Maio, no centro de Argel, capital da Argélia, tentaram impedir neste sábado que a população inicie uma manifestação reivindicando reformas no poder. Ao menos dois manifestantes ficaram feridos.

A polícia argelina tenta dispersar os grupos de centenas de pessoas e impedir que alcancem a praça.

Entre as palavras de ordem dos manifestantes estão "poder assassino", "abaixo a opressão" e outras palavras contra o regime e o presidente da Argélia, Abdelaziz Bouteflika.

Fontes da Liga Argelina de Direitos Humanos informaram que o serviço de trens nos arredores de Argel foi cortado e policiais instalaram controles policiais nas estradas para impedir a chegada de muitos cidadãos à capital.

Fonte: Jornal Folha de São Paulo

17.2.11

Abel, Diego Luna

Tokyo Compression

Tokyo Compression: o inferno urbano visto por Michael Wolf
 




 
A linha de metro mais movimentada de Tóquio foi o cenário escolhido para este projecto do fotográfo alemão Michael Wolf. A sua objectiva captou, durante trinta dias, a realidade contemporânea dos transportes públicos em hora de ponta: uma gigantesca massa anónima que se concentra num mesmo espaço, partilhando muitas vezes empurrões, pisadelas ou até mesmo cheiros desagradáveis.

O metro de Tóquio é um dos transportes mais concorridos do Mundo, onde todos os dias passam cerca de seis milhões de passageiros. Na linha "Odakyu", e apesar de haver uma nova carruagem a cada oitenta segundos, em plena "rush hour" este ritmo de passagem não é suficiente.

Michael Wolf esteve um mês a fotografar esta realidade. Assim que as portas se fechavam, apontava a câmara para as janelas do metro. O objectivo: registar os rostos e as emoções de quem, logo pela manhã, já estava "apertado" entre milhares de desconhecidos.

O fotógrafo alemão, nascido em 1954, é conhecido pela sua tendência "voyeurista". Gosta especialmente de captar momentos do quotidiano que por serem tão banais acabam por passar despercebidos. Mas Michael consegue ir ao detalhe e revelar pormenores surpreendentes.

Em "Tokyo Compression" as fotografias falam por si: a confusão nos vagões que leva a que os passageiros sejam quase espremidos contra as janelas, empurrados, pisados e tenham que suportar o cheiro (por vezes desagradável) dos companheiros de viagem. Muitas pessoas não mostravam qualquer reacção quando se apercebiam de que estavam a ser fotografadas. Os flashes disparados a tão curta distância eram apenas mais uma luz sem qualquer importância. Já outros fechavam os olhos, protegiam a cara com as mãos ou tapavam as janelas, incomodados com a situação. Não há nenhuma imagem de alguém a sorrir e em muitas delas os vidros estão embaciados.

"É o inferno dos transportes suburbanos", afirma Wolf. Esta é uma realidade vivida não só em Tóquio, como em muitas outras metrópoles do mundo. O desconforto e a incapacidade de lutar contra as multidões em plena hora de ponta. A perspectiva abordada pelo fotógrafo transmite essa visão da vida contemporânea nas cidades.

Esta bizarra experiência já se encontra em livro, numa publicação feita pela editora Peperoni Books. E até 20 de Fevereiro as imagens estão expostas no Forum fur Fotografie, em Colônia, na Alemanha.

15.2.11

Steve Duncan - Underground City









Steve Duncan - fotógrafo e historiador urbano.

"Como historiador e fotógrafo urbano, eu tento descascar para trás as camadas de uma cidade para ver o que está embaixo. Do alto das pontes para as profundezas dos túneis de esgoto, estas explorações do ambiente urbano me ajudam a montar a história interligada, multi-dimensional e complexidade das grandes metrópoles do mundo".

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Notícias de uma revolução XII - Ecos de uma democracia

Revolta árabe: Oriente Médio não terá paz sem democracia



Em entrevista à Carta Maior, Mohamed Habib, professor da Unicamp e vice-presidente do Instituto da Cultura Árabe (ICArabe), defende que protestos no Egito e em outros árabes trazem um recado muito importante para os líderes dos EUA, Israel e Europa: só haverá paz e prosperidade no Oriente Médio com democracia e qualidade de vida. “Se Israel for inteligente, se for governada por pessoas inteligentes, tem que perceber que acordos firmados com ditadores não se sustentam", afirma.

Marco Aurélio Weissheimer

“Se Israel for inteligente, se for governada por pessoas inteligentes, tem que perceber que acordos firmados com ditadores não se sustentam. É melhor para Israel viver cercado por países democráticos do que por ditaduras supostamente amigas. É muito mais justo e muito mais duradouro também”. A opinião é do vice-presidente do Instituto da Cultura Árabe (ICArabe) e professor da Unicamp, Mohamed Habib, que, em entrevista à Carta Maior, analisa as causas e possíveis consequências dos levantes populares no Egito e em outros países árabes. Para ele, o principal combustível dos protestos no Egito foram as péssimas condições de vida da maioria da população – mais de 40% vivendo abaixo da linha da pobreza.

O que está acontecendo agora, defende ainda, traz um recado muito importante para os líderes dos EUA, Israel e Europa: só haverá paz e prosperidade no Oriente Médio com democracia e qualidade de vida.

Carta Maior: Qual sua avaliação sobre os recentes acontecimentos no Egito e seus possíveis desdobramentos?

Mohamed Habib: O que aconteceu nas últimas semanas no Egito acabou escrevendo uma nova página na história do Oriente Médio. A queda do presidente Mubarak abre caminho para a democratização da região. As ondas de protestos que estamos vendo agora podem se propagar para outros países de modo mais ou menos pacífico e em ritmos diferenciados. Isso vai depender, em grande parte, da qualidade de vida da população de cada país. Quanto pior for essa qualidade de vida, mais rápida pode ser essa propagação.

O que ocorreu no Egito mostra que as demandas sociais falam muito mais alto do que as questões políticas e ideológicas. O que fez com milhões de pessoas fossem para às ruas não foi o fato de o país ter um ditador há 30 anos no poder, mas sim as condições de vida da maioria da população. A paciência acabou, principalmente entre os estudantes e jovens universitários que não encontram uma perspectiva de futuro.

Carta Maior: Quais são hoje as condições de vida da maioria do povo egípcio?

Mohamed Habib: O Egito tem hoje mais de 40% de sua população vivendo abaixo da linha da pobreza. Ou seja, pessoas vivendo com menos de dois dólares por dia. Esse problema agravou-se muito nos últimos anos. Há quatro ou cinco décadas, uma libra egípcia valia cerca de 4 dólares. Hoje, um dólar compra seis, sete libras. Houve uma desvalorização assustadora da moeda egípcia. Em tempos passados, o Egito não tinha muitos ricos, mas também não havia miseráveis. Hoje, além dos mais de 40% vivendo abaixo da linha da pobreza, temos alguns grandes bilionários, cuja riqueza foi adquirida de modo ilícito por meio da apropriação do poder por um grupo privado bastante pequeno. Esse grupo reúne, entre outros, a família de Mubarak, alguns generais e empresários que fundaram o Partido Nacional como uma fachada. Eles se apropriaram da riqueza do país.

O modelo econômico vigente nestes últimos anos é o neoliberal, com suas práticas de economia aberta. É um capitalismo mais selvagem do que o praticando na América Latina, com muita corrupção. O empobrecimento que atingiu o país é resultado direto da aplicação desse modelo. Um modelo acompanhado de uma ditadura com bem mais do que 30 anos de vida. Com Sadat, é bom lembrar, foram outros 11 anos e Mubarak era vice dele.

Carta Maior: Como, na sua avaliação, o Egito pode superar esse quadro de pobreza e desigualdade?

Mohamed Habib: Estamos falando de um país que tem um grande peso econômico e muitos recursos para sustentar o seu povo. O Egito tem o Canal de Suez, que liga o Ocidente ao Oriente, que é uma grande fonte de recursos. Tem ainda muito petróleo e gás natural. A atividade turística é fantástica, a maior do Oriente Médio. O país apresenta ainda uma agricultura de qualidade e algumas empresas que sobreviveram a toda essa deterioração. Ou seja, é um país que tem recursos e riquezas. Não é uma tribo africana perdida no meio da selva, como o preconceito de alguns quer fazer acreditar. Nas últimas décadas, milhares de egípcios qualificados deixaram o país. Se regressarem ao Egito, poderão ajudar a reerguer o país.

Carta Maior: O senhor enxerga, portanto, uma boa perspectiva de futuro para o país?

Mohamed Habib: Quando olhamos para os 19 dias de levante popular, iniciado em 25 de janeiro, podemos constatar que foi uma revolta pacífica. O povo saiu pacificamente às ruas, não houve homens bomba ou ataques às instituições. Pelo contrário, quem saiu às ruas sofreu com os ataques das forças paramilitares de Mubarak.

O futuro desse movimento dependerá muito das negociações com o Conselho Superior das Forças Armadas. As demandas apresentadas a este conselho mostram um levante popular muito consciente: banir o atual corpo de ministros; formação de uma nova Constituição a partir de um grupo de intelectuais independentes que assumiria o compromisso de não disputar as eleições de setembro; formação do Conselho Superior de governo com quatro civis e um militar que conduziria o país até as eleições de setembro; dissolução do parlamento atual que perdeu sua legitimidade com a renúncia de Mubarak; banir o Estado de Emergência que vigora desde 1971; libertação de todos os presos políticos; liberdade de criação de partidos políticos; liberdade para os meios de comunicação e acesso à informação; movimento sindical livre; fechamento dos tribunais militares e revogação das sentenças.

Essa é a agenda. Essas propostas, repito, mostram a consciência do movimento que foi para as ruas. O povo egípcio vive há cerca de 40 anos sob Estado de Emergência, que concentra enormes poderes nas mãos do presidente da República, com um Parlamento fantoche e corrupto. O que deve ser discutido agora é a cronologia para a implementação dessas medidas.

Carta Maior: Na sua opinião, a Irmandade Muçulmana é favorita para vencer as eleições de setembro?

Mohamed Habib: Não. A Irmandade Muçulmana não teria hoje nem 5% do Parlamento em um processo de eleições livres e abertas. Essa organização surgiu nos anos de 1920, cabe lembrar, com a intenção de libertar o país do domínio inglês. Esse processo foi concluído em 1954. Mesmo naquela época, quando era fortíssima, não reivindicou o poder. O Egito não é um país religioso e a Irmandade não é um grupo terrorista. Isso foi um fantasma criado por Mubarak e pelos EUA. Aliás o nome correto da organização é Fraternidade Muçulmana. O mundo está vendo agora um lado do Oriente Médio que a grande mídia não exibia. O padrão até aqui foi mostrar o árabe como terrorista.

A história dos EUA ajuda a entender isso. Primeiro foram os índios norteamericanos que foram mostrados como uma subespécie. O projeto de expansão territorial para o Oeste foi acompanhado de uma campanha política de lavagem cerebral. Fomos criados vendo faroestes e batendo palmas para os “mocinhos” que eram os brancos. Depois, o projeto expansionista virou-se para o Sul e os vilões da vez passaram a ser os mexicanos. Depois foram os comunistas. E agora são os árabes.

Carta Maior: A relação do Egito com Israel pode sofrer alguma mudança, na sua avaliação, a partir da queda de Mubarak?

Mohamed Habib: Se Israel for inteligente, se for governada por pessoas inteligentes, tem que perceber que acordos firmados com ditadores não se sustentam. É melhor para Israel viver cercado por países democráticos do que por ditaduras supostamente amigas. É muito mais justo e muito mais duradouro também. Os dirigentes de Israel, dos Estados Unidos e da Europa precisam estar atentos a estes detalhes. Um ditador amigo e corrupto não é sinônimo de paz e prosperidade. Há chances muito melhores para paz se países democráticos estiverem sentados à mesa de negociações.

Minha esperança é que essa nova página que está sendo escrita no Oriente Médio coloque o Estado de Israel e o mundo árabe em melhores condições para negociar e buscar a paz e a prosperidade na região, para construir um Oriente Médio estável e desenvolvido. Na situação atual, com países árabes governados por ditadores, não temos um solo fértil para cultivar a paz.

Carta Maior: Os atuais governos de Israel não parecem muito animados com essa ideia...

Mohamed Habib: Chega uma hora em que a incoerência começa a ter efeitos negativos. Os EUA são um país democrático. Mas, na sua política externa, não aplicam os mesmos conceitos que pregam em sua democracia interna. Essa incoerência acaba desmoralizando o seu discurso frente aos demais países. No caso da revolta no Egito, demoraram muito para abrir a boca e quando abriram foi para apoiar a indicação como vice do chefe de serviço de inteligência de Mubarak durante 18 anos, amigo da CIA e do Mossad. Acharam que os egípcios eram tão burros e ignorantes que aceitariam isso. Mas acabaram se surpreendendo com a reação do povo egípcio. Resultado: os Estados Unidos acabaram se queimando politicamente. Quando o mundo ficou sabendo de tudo isso, os EUA se desmoralizaram. Esse episódio mostra que, para o mundo viver em paz, deve-se buscar a coerência em primeiro lugar: democracia para todos e não apenas no nosso país. Aí poderemos ter um mundo mais justo, com ética e prosperidade.

Uma estabanada reflexão


Conseqüência dessa madrugada de insônia fui ao Facebook - e li em algum lugar esse comentário, acerca de uma postagem sobre o Egito, que reproduzo aqui:

“Temos de enviar um manual de instruções sobre revoluções para o Egito para que não se deixem cair nas mãos de mafiosos nem deixem os gângsteres chegar ao poder de forma a evitarem que se tornem num estado mafioso!”(SIC)

E me pus a pensar... O que se passa na cabeça do autor desta frase? Então "os orgulhosos ocidentais" vão enviar um manual de instruções ao povo egípcio?

Eu diria a esse Senhor, (o autor do comentário) que não se dê ao trabalho e nem gaste tanto dinheiro indo a uma Agência dos Correios para enviar cópias do referido "Manual" aos egípcios, o gasto seria enorme (50 milhões de pessoas) eu sugiro algo mais econômico:

- que tal distribuir numa esquina de Portugal, afinal 60% da população acabou de desperdiçar a poderosíssima "arma”, absolutamente legal, O VOTO, quando se recusou a ir às ruas para retirar de maneira ordeira e constitucional o "incompetente presidente da República" - (nomeadamente assim pelos inúmeros "amigos" facebokianos que tenho em minha página)  permitindo que ele não só se reelegesse como o fizesse com quase 58% dos votos válidos. Desemprego, economia estagnada, recessão, elevadíssimo endividamento, redução de salários, cortes, subida de impostos...é o retrato de Portugal 



- ou quem sabe poderia o mesmo Senhor, enviar alguns manuais numa balsa até a dolce Itália, para o povo italiano derrubar o Berlusconi que manda e desmanda no país numa baderna regada, com direito que vai da pornografia misturada à pedofilia e prostituição ao colo dos mafiosos já existentes - (não vou nem citar a farra do Vaticano)... Os italianos vão às ruas gritam, gritam e voltam pra casa com o rabo entre as pernas e o desmando continua...Berlusconi está lá, firme e ninguém o tira.



- ou quem sabe podia remeter alguns a Ilha Inglesa para ver se acorda os ingleses, que parece não perceber a crise e assim eles exterminem com a suntuosidade medíocre das rainhas, dos reis, dos príncipes e princesas - que decerto não mudaram e não mudarão seus hábitos frugais com crise ou sem crise, porque os "espertos ocidentais ingleses" bancam a conta supérflua da família do palácio de buckingham...

(o despertar aqui vai ser doloroso)


- ou ainda enviá-lo a terra do Tio Sam para dizer aos milhões que foram as ruas votar no Obama - o primeiro negro a presidir o "oásis da liberdade no planeta”, que ele foi eleito justamente para acabar com as invasões nas terras estrangeiras, cuja cultura não é adepta do "way american of life”.  Esses, tratados como culturalmente inferiores, são obrigados a doar suas reservas naturais - com direito a banho de sangue de ambos os lados... e Obama precisa correr , há numerosos pais e mães chorando a morte de seus filhos em terras estrangeiras...

(afora a crise devastadora de uncle Sam)


E tem a Grécia, a Irlanda, a Espanha... e desemprego, fome, miséria, falência...

Quem vai pagar a Conta?

Os países da Eurozona estão à beira da falência.

Não, meu caro Senhor, se tem algo que desejo aos egípcios é que Alá os livre de receber esse tal "manual de instruções sobre revoluções" - pretenso documento da cabeça ocidental...

Um povo que acampa numa praça por dezoito dias e escorraça um ditador de 30 anos do poder não precisa que o "Superior Ocidente" lhe instrua de absolutamente nada.

Estou farta da hipócrita superioridade ocidental européia e estadunidense...  esses não teem  lições a dar a nenhuma cultura, muito menos aos otomanos egípcios. 

Há uma grave crise invadindo boa parte do mundo, diante dos olhos e tudo que eu vejo são portugueses, italianos, ingleses, espanhóis queixosos......... nas ruas do Facebook.

Os últimos 18 dias na Praça Tahrir é o Manual de Instruções.

É o povo que faz a mudança da sua história.

Que Alá tenha piedade do Ocidente e nos abençoe!


(eu não preciso nem contar a história recente do Brasil aqui, ou será que eu preciso?)