Lugar de Pensar

Se você é um ser que somente consegue ler 140 caracteres... fuja daqui rapidamente.
Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome. Clarice Linspector
“Não somos seres humanos vivendo uma experiência espiritual, somos seres espirituais vivendo uma experiência humana.” Teilhard de Chardin
A solidão não existe! Tenho um mundo inteiro dentro de mim.
Seja bem-vindo.

3.2.11

Mudanças à vista

Cenas de mudanças no mundo árabe sacodem o mundo


Taeco Toma Carignato (São Paulo)

O mundo não pára. O tempo também não. Embora os conceitos de espaço e de tempo também tenham mudado. Aquilo que não esperávamos acontecer, aconteceu: o bloco soviético ruiu; o muro de Berlim caiu; um negro ocupa a presidência dos Estados Unidos; um metalúrgico passou pela presidência do Brasil, com índice de popularidade inimaginável; uma mulher atualmente ocupa o posto que deixou na virada de 2011.

No norte da África, as revoltas populares sacodem o mundo. As cenas que observamos nesta última terça feira eram, até então, inimagináveis no Egito dominado por Hosni Mubarak. O centro de Cairo repleto de populares exigindo a democratização do país. Faz lembrar as massas populares que cobraram as "Diretas-já" nos anos 1980 do Brasil. A semelhança pára aí. Os brasileiros frustraram-se e acataram a democratização "por conta-gotas". Tais movimentos populares, contudo, foram germes de novas lideranças políticas. Ainda é cedo para saber para onde vão caminhar as mudanças árabes. A explosão pegou os países ocidentais desprevenidos, tão ocupados que estavam em salvar suas finanças.

Para o historiador atento, os fatos não são assim tão inimagináveis. Porém, não há bola de cristal na historiografia. Como na psicanálise, a análise histórica é realizada após os acontecimentos. As transformações, de fato, vão ocorrer? Ou as mudanças ocorrerão, como já se observa na Jordânia, apenas para manter tudo como está, com opressões e pobreza seculares? O Egito vai se transformar em outro Irã? Iraque? Afeganistão? Sem dúvida, o futuro dos países revolucionários depende também dos países poderosos que detêm interesses políticos e econômicos na região.

E quais serão os efeitos das rupturas mais convulsivas? As rupturas traumáticas sempre deixam efeitos, positivos ou negativos, dependendo dos processos posteriores de estabilização. As transformações podem avançar, estagnar ou regredir. Uma coisa é certa: o país não será mais o mesmo. No Egito, se as mudanças estruturais efetivas não ocorrerem agora, os efeitos serão nefastos no futuro. Não há como deter o desejo de mudar que explode na população. Homens, mulheres, crianças, jovens, velhos, pobres, pessoas de classe média, xiitas, sunitas, trabalhadores, estudantes, todos se misturam nos protestos massivos.

Essas transformações não podem mais passar despercebidas ao mundo. As comunicações on-line, de todos os níveis, permitem que um acontecimento longínquo nos afete, em qualquer parte do mundo. A figura de uma criança em meio à multidão que acorre às praças para protestos políticos produz reações diversas em diferentes pessoas. Da mesma forma, as expressões, as vestimentas, a multiplicidade das figuras humanas que saíram às ruas. Mais ainda, as violências das repressões. Não dá para ficar indiferente, embora a indiferença seja a reação mais comum quando se julga que o que acontece no "outro lado do mundo" não tem nada a ver conosco.

De fato, a própria indiferença tem os seus efeitos. Efeitos nefastos, digamos, pois a indiferença diante de fatos impactantes que envolvem seres humanos traz o pior dos males: a desumanização interna. Dessa forma diante da multiplicidade de acontecimentos que acontecem simultaneamente - que as mídias nacionais e internacionais selecionam ao dar mais ênfase em suas transmissões - a melhor forma de processar seus impactos é pela própria informação e conhecimento.

Leituras, conversas informais, debates elaborados são meios de elaboração das mudanças políticas, sociais e tecnológicas. O nosso cérebro é plástico. Podemos ser reflexivos e flexíveis para entender o que desejam as populações que nos parecem distantes e diferentes, mas que se encontram muito mais próximos do que julgamos. Quem de nós, brasileiros, não teve ou não tem vizinhos, colegas, conhecidos "árabes", "turcos" ou qualquer denominação que lhes damos por, simplesmente, serem diferentes?


*Taeco Toma Carignato é psicóloga, psicanalista e jornalista. Doutora em psicologia social (PUC-SP) e pós-doutora em psicologia clínica (USP), é pesquisadora do Laboratório Psicanálise e Sociedade (USP) e do Núcleo de Pesquisa: Violência e Sujeito (PUC-SP).

Nenhum comentário: