Lugar de Pensar

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31.3.11

Quem tem medo da verdade?


 
 
Quem tem medo da verdade?
 
Passar à resistência clandestina era a opção de colocar a própria integridade física em risco. Mas essa foi a opção de milhares de brasileiros. Nada menos que 479 pessoas foram eliminadas, 163 das quais se tornaram desaparecidos políticos. Denominar a ditadura de “ditabranda” é piada de péssimo gosto. Pior ainda é a insistência de alguns comandos militares de comemorar o 31 de março como uma “revolução democrática”, em desafio à cúpula militar que retirou esta data do calendário de efemérides.
 
Nilmário Miranda (*) 
Especial para Carta Maior

Eu não tinha 17 anos quando veio o golpe, destruindo meus sonhos das grandes reformas de base. Morava na então pequena Teófilo Otoni (MG). Os ferroviários da lendária Estação de Ferro Bahia-Minas cruzaram os braços. Foi o único e solitário protesto (no ano seguinte a EFBM foi extinta).

Em poucos dias nada menos que 74 pessoas foram presas pelos “revolucionários” e levados ao QG dos golpistas em Governador Valadares. Ferrovias, comerciários, bancários, estudantes, militantes da Igreja, do Partidão, do PTB, pequenos comerciantes – dentre eles meu pai, uma pessoa pacata, educada, incapaz de fazer mal a ninguém, uma alma gentil.

Chocou-me também a prisão de Dr. Petrônio Mendes de Souza, ex-prefeito, médico dos pobres, figura hierática. Lá pelos dias encontrei-me com o filho do ferroviário Nestor Medina, carismático, inteligente, autodidata, homem de grande dignidade. Desde aquela noite fiz juras de por todos os dias enquanto durasse, combateria a ditadura, o que realmente aconteceu.

No ano seguinte mudei para Belo Horizonte para estudar e participar da resistência. 1968 foi o ano do crescimento da oposição à ditadura. A Marcha dos Cem Mil no Rio; as duas greves (Contagem e Osasco) desafiando a rigorosa legislação anti operária; a fermentação no meio cultural; a Frente Ampla que uniu o impensável (a UDN de Carlos Lacerda, o PSD de JK, o PTB de Jango); as primeiras ações da resistência armada. A recusa da Câmara de conceder a licença para processar Márcio Moreira Alves foi um pretexto para a edição do AI-5 em 13 de dezembro, instituindo o Terror de Estado.

Eu respondia a processo pelo LSN depois da prisão por 32 dias após a greve de Contagem; vi-me em um dilema: sair do país, para o exílio; ou cair na clandestinidade. Estudava Ciências Econômicas na UFMG. Optei pela resistência na clandestinidade, aos 21 anos. Todas as portas foram fechadas; os espaços para a oposição foram extintos.

Desde as prisões em Ibiúna de mais de 700 estudantes de todo o país, as odiosas listas negras para os trabalhadores rebeldes, a “aposentadoria” forçada de três ministros do STF como recado para amordaçar a Justiça, a censura prévia na imprensa, o fim do habeas corpus. A polícia política tinha dez dias de prazo para apresentar o detido ao juiz militar, e a criação de centros de detenção e tortura na prática era a institucionalização da tortura.

Passar à resistência clandestina era a opção de colocar a própria integridade física em risco. Mas essa foi a opção de milhares de brasileiros. Nada menos que 479 pessoas foram eliminadas, 163 das quais se tornaram desaparecidos políticos.

Denominar a ditadura de “ditabranda” é piada de péssimo gosto. Pior ainda é a insistência de alguns comandos militares de comemorar o 31 de março como uma “revolução democrática”, em desafio à cúpula militar que retirou esta data do calendário de efemérides.

Aprovar e instalar a Comissão Nacional da Verdade, confiando à sete pessoas idôneas, probas e éticas a tarefa de passar os 21 anos da ditadura à limpo dá uma interpretação fiel ao que se passou no país para constar dos livros e currículos escolares, inclusive das academias militares. É mais uma grande e importante etapa na construção de nossa democracia, incorporando o direito à verdade.

(*) Nilmário Miranda é jornalista, Presidente da Fundação Perseu Abramo, ex Ministro da Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República (SEDH).

30.3.11

Notícias de uma Revolução XIII - Egito

 
 
Egito: Movimentos sociais, a CIA e a Mossad


por James Petras


'Tenho de sacrificá-lo', pensava Obama. Por um lado, os movimentos sociais demonstraram a sua capacidade para mobilizar centenas de milhares, se não milhões, numa luta constante e com êxito que culminou no derrube do ditador de um modo que os partidos da oposição e personalidades anteriormente existentes foram incapazes ou relutantes em fazê-lo.

Por outro lado, na falta de qualquer liderança política nacional, os movimentos não foram capazes de tomar o poder político e realizar as suas exigências, permite ao alto comando militar de Mubarak tomar o poder e definir o processo "pós Mubarak", assegurando a continuidade da subordinação do Egipto aos EUA, a protecção da riqueza ilícita do clã Mubarak (US$70 mil milhões) e as numerosas corporações da elite militar assim como a protecção da classe superior. Os milhões mobilizados pelos movimentos sociais para derrubar a ditadura foram efectivamente excluídos pela nova junta militar pretensamente "revolucionária" da definição das instituições e políticas, muito menos a reformas sócio-económicas necessárias para atender às necessidades básicas da população (40% vive com menos de US$2 por dia, o desemprego entre a juventude vai a mais de 30%). O Egipto, como no caso dos movimentos sociais de estudantes e de populares contra a ditadura da Coreia do Sul, Formosa, Filipinas e Indonésia, demonstra que a falta de uma organização política nacional permite a personalidades e partidos da "oposição" neoliberal e conservadora substituírem o regime. Eles prosseguem no estabelecimento de um regime eleitoral que continue a servir os interesses imperiais e a depender e defender o aparelho de estado existente. Em alguns casos substituem velho capitalistas de compadrio por outros novos. Não é por acaso que os mass media louvam a natureza "espontânea" das lutas (não as exigências sócio-económicas) e apresentam um ponto de vista favorável acerca do papel dos militares (desprezando os seus 30 anos de defesa da ditadura). As massas são louvadas pelo seu "heroísmo", a juventude pelo seu "idealismo", mas nunca são propostas como actores políticos centrais no novo regime. Uma vez caída a ditadura, os militares e a oposição eleitoralista "celebrou" o êxito da revolução a actuou suavemente para desmobilizar e desmantelar o movimento espontâneo, a fim de abrir caminho para negociações entre os políticos liberais-eleitorais, Washington e a elite militar dominante.

Se bem que a Casa Branca possa tolerar ou mesmo promover movimentos sociais na remoção ("sacrifício") de ditaduras, ela tem toda a intenção de preservar o estado. No caso do Egipto o principal aliado militar estratégico do imperialismo estado-unidense não era Mubarak e sim os militares, com quem Washington antes já estava em constante colaboração, durante e após o derrube de Mubarak, assegurando que a "transição" para a democracia (sic) garantisse a continuada subordinação do Egipto aos EUA e à política e interesses israelenses no Médio Oriente.

A revolta do povo: os fracassos da CIA e da MOSSAD

A revolta árabe demonstra mais uma vez vários fracassos estratégicos nas muitos louvadas polícia secreta, forças especiais e agências de inteligência dos EUA e do aparelho de estado israelense, nenhum dos quais antecipou, muito menos interveio, para impedir a mobilização com êxito e para influenciar a sua política de governo em favor dos governantes clientes sob ataque.

A imagem que a maior parte dos escritores, académicos e jornalistas projectam da invencibilidade da Mossad israelense e da omnipotência da CIA foram severamente testada pelo seu fracasso admitido em reconhecer o âmbito, profundidade e intensidade do movimento com muitos milhões de membros para derrubar a ditadura Mubarak. A Mossad, orgulho e alegria de produtores de Hollywood, apresentada como um "modelo de eficiência" pelos seus colegas sionistas organizados, não foi capaz de detectar o crescimento de um movimento de massa num país ao lado do seu. O primeiro-ministro Netanyahu ficou chocado (e consternado) pela precária situação de Mubarak e pelo colapso do seu mais eminente cliente árabe – devido ao fracasso de inteligência da Mossad. Da mesma forma, Washington estava totalmente despreparada pelas 27 agências de inteligência dos EUA e pelo Pentágono, com as suas centenas de milhares de operacionais pagos e orçamentos de muitos milhares de milhões de dólares, quanto ao surgimento de levantamentos populares maciços e a emergência de movimentos.
Cabem várias observações teóricas. A noção de que governantes altamente repressivos e que recebem milhares de milhões de dólares de ajuda militar dos EUA e com quase um milhão de homens entre forças policiais, militares e paramilitares são a melhor garantia de hegemonia imperial demonstrou-se falsa. A suposição de que ligações em grande escala e a longo prazo com tais governantes ditatoriais salvaguarda os interesses imperiais estado-unidenses foi refutada.

A arrogância israelense e a presunção da superioridade organizacional, estratégica e política judia sobre "os árabes" foram postas em causa severamente. O estado israelense, seus peritos, operacionais encobertos e académicos da Ivy League permaneceram cegos a realidades em desdobramento, ignorantes da profundidade da insatisfação e impotentes para impedir a oposição em massa para o seu mais valioso cliente. Publicistas de Israel nos EUA, que não conseguem resistir à oportunidade de promover o "brilhantismo" das forças de segurança de Israel, seja o assassínio de um líder árabe no Líbano ou no Dubai, ou o bombardeamento de uma instalação militar na Síria, ficaram temporariamente emudecidos.

A queda de Mubarak e a possível emergência de um governo independente e democrático significaria que Israel poderia perder o seu principal "polícia de serviço". Um público democrático não cooperará com Israel na manutenção do bloqueio de Gaza – esfaimando palestinos para romper a sua vontade de resistir. Israel não será capaz de contar com um governo democrático, para apoiar as suas violentas tomadas de terra na Cisjordânia e o seu regime palestino fantoche. Nem tão pouco podem os EUA contar com um regime democrático no Egipto para apoiar as suas intrigas no Líbano, as suas guerras no Iraque e no Afeganistão, as suas sanções contra o Irão. Além disso, o levantamento egípcio serviu de exemplo para movimentos populares contra outras ditaduras clientes dos EUA na Jordânia, Iémen e Arábia Saudita. Por todas estas razões, Washington apoiou a tomada de poder militar a fim de moldar uma transição política de acordo com os seus gostos e interesses imperiais.

O enfraquecimento do principal pilar do poder imperial dos EUA e do poder colonial israelense na África do Norte e no Médio Oriente revela o papel essencial de regimes colaboradores. O carácter ditatorial destes regimes é um resultado directo do papel que desempenham na sustentação dos interesses imperiais. E os grandes pacotes de ajuda militar que corrompem e enriquecem as elites dominantes são os prémios por serem colaboradores aquiescentes de estados imperiais e coloniais. Dada a importância estratégica da ditadura egípcia, como explicarmos o fracasso das agências de inteligência estado-unidenses e israelenses em anteciparem os levantamentos?

Tanto a CIA como a Mossad trabalhavam em estreita ligação com agências de inteligência egípcias e confiavam nelas para a sua informação, confiando nos seus relatórios em causa própria de que "estava tudo sob controle": os partidos da oposição eram fracos, dizimados pela repressão e infiltração, seus militantes mofavam nas prisões, ou sofriam "ataques de coração" fatais devido a "técnicas de interrogatório" duras. As eleições eram falsificadas para eleger clientes dos EUA e Israel – sem surpresas democráticas no imediato ou no horizonte do médio prazo.

As agências de inteligência egípcias são treinadas e financiadas por operacionais israelenses e estado-unidenses e são receptivas aos desejos dos seus mestres. Elas foram tão dóceis na entrega de relatórios que agradassem aos seus mentores que ignoraram quaisquer informações de inquietação popular crescente ou de agitação na Internet. A CIA e a Mossad estavam tão incorporadas no vasto aparelho de segurança de Mubarak que foram incapazes de assegurar qualquer outra informação das bases, descentralizada, movimentos que floresciam independentemente da tradicional oposição eleitoral "controlada".

Quando movimentos de massa extra-parlamentares estouraram, a Mossad e a CIA confiaram em que o aparelho de estado de Mubarak os controlaria através da típica operação da cenoura e do bastão: concessões simbólicas transitórias e convocação do exército, polícia e esquadrões da morte. Quando o movimento cresceu das dezenas de milhares para centenas de milhares, par milhões, a Mossad e os principais apoiantes de Israel no Congresso dos EUA instaram Mubarak a "aguentar-se". A CIA foi reduzida a apresentar-se na Casa Branca com perfis políticos de responsáveis militares confiáveis e personagens políticos "de transição" flexíveis, desejosos de seguir as pegadas de Mubarak. Mais uma vez a CIA e a Mossada demonstraram a sua dependência do aparelho de inteligência de Mubarak quanto ao que pode ser uma alternativa "viável" (pró EUA/Israel), ignorando as exigências elementares das massas. A tentativa de cooptar a velha guarda eleitoralista da Irmandade Muçulmana através de negociações com o vice-presidente Suleiman fracassou, em parte porque a Irmandade não estava no controle do movimento e porque Israel e os seus apoiantes dos EUA fizeram objecções. Além disso, a ala juvenil da Irmandade pressionou-os a retirarem-se das negociações.

O fracasso da inteligência complicou os esforços de Washington e Tel Aviv no sentido de sacrificar o regime ditatorial para salvar o estado: a CIA e a Mossad não desenvolveram laços com qualquer dos novos líderes emergentes. Os israelenses não podiam encontrar qualquer "novo rosto" com apoio popular desejoso de servir como um estúpido colaborador da opressão colonial. A CIA havia estado empenhada totalmente na utilização da polícia secreta egípcia para torturar suspeitos de terrorismo ("exceptional rendition") e para policiar países árabes vizinhos. Em consequência tanto Washington como Israel consideraram e promoveram a tomada de poder militar para prevenir nova radicalização.

Finalmente, o fracasso da CIA e da Mossad em detectar e prevenir a ascensão do movimento democrático popular revela as bases precárias do poder imperial e colonial. No longo prazo não são as armas, os milhares de milhões de dólares, a polícia secreta e as câmaras e tortura que decidem a história. Revoluções democráticas ocorrem quando a vasta maioria de uma povo se levanta e diz "basta", ganha as ruas, paralisa a economia, desmantela o estado autoritário, exige liberdade e instituições democráticas sem tutela imperial e subserviência colonial.


Este artigo encontra-se em http://resistir.info/

Sarkozy X Líbia

Por que Sarkozy vai à guerra na Líbia



Reginaldo Nasser/Carta Maior


O presidente francês passou cinco anos como ministro do Interior construindo a imagem de um combatente radical da criminalidade e da imigração (em áreas relacionadas às pessoas de origem muçulmana). Ao que tudo indica Sarkozy quer repetir a estratégia política da campanha de 2007 quando procurou seguir o conselho de Karl Rove (estrategista de Bush). Em vez de tentar construir uma maioria é mais eficaz promover questões polêmicas como imigração, identidade, criminalidade e islamismo que podem provocar a fragmentação das oposições.

Além do petróleo (85% das exportações) e da importação de armas (1 bilhão de dólares) o tema da imigração aparece com uma das principais preocupações da Comunidade Européia em relação aos recentes acontecimentos na Líbia e norte da África.

Uma das palavras mais utilizadas pelos diplomatas europeus, nos últimos dias, para se referir à ação de Kadafi é "inaceitável". No entanto, nos últimos anos, tem sido perfeitamente aceitável para os governos da Comunidade Europeia terceirizar a proteção de suas fronteiras a esse mesmo ditador. Há mais de três anos o aparato policial da Líbia é usado para manter os imigrantes longe do sagrado solo europeu. “Estamos extremamente preocupados com a evolução da situação no Norte de África” - disse a porta-voz do Comissariado Europeu para Assuntos Internos -, Michele Cercone, que visitou a Líbia ano passado para a realização de acordos de cooperação, com a promessa de uma ajuda de 5 bilhões de euros anuais em troca da colaboração do coronel Kadafi que alertou: “Amanhã, talvez a Europa não seja mais europeia, mas sim negra”.

Há dois anos foi celebrado um acordo entre a Itália e Líbia que permitiu à marinha italiana interceptar os "boat people" e devolvê-los para a Líbia, uma das principais rotas de entrada na Europa por sua proximidade com o sul da Itália. Assim, estima-se que, enquanto em 2008, mais de 32 mil imigrantes ilegais entraram na Itália via Líbia, em 2009, após o acordo, apenas 7 mil imigrantes chegaram ao seu destino. Aqueles que não conseguiram entrar na Europa ficaram detidos em campos de refugiados na Líbia que apresenta casos graves de discriminação e xenofobia em relação a imigrantes africanos. De acordo com o governo italiano, a Líbia já interceptou mais de 2,5 milhões de imigrantes, nos últimos cinco anos. Os refugiados que não têm a possibilidade de pedido de asilo ou acesso a qualquer recurso efetivo correm o risco de serem forçados a regressar aos países de origem onde eles podem enfrentar a perseguição ou tortura.

Em contraste com a sua resposta inepta às revoltas na Tunísia e no Egito, Sarkozy, não apenas condenou o regime de Kadafi, mas foi o primeiro a reconhecer o provisório Conselho Nacional de Transição, em Benghazi, e tomar a iniciativa de aprovar a resolução na ONU dando inicio aos ataques aéreos. Avaliou que seria uma excelente oportunidade para se mostrar como alguém superior às politicagens nacionais, ser arrojado internacionalmente e colocar a França no “panteão das grandes nações”. com objetivo de aumentar sua popularidade. Além disso, a intervenção na Líbia é uma forma de reafirmar sua posição na Europa e, sobretudo, como contrapeso ao poder econômico e político da Alemanha na União Européia. É uma mensagem que diz que se a Europa pretende ser levada a sério como uma potência mundial o poder militar francês é um de seus esteios.

Em mensagens no rádio e televisão o presidente francês tenta, desesperadamente, melhorar sua imagem manchada por sua proximidade com regimes ditatoriais e corruptos ( Marrocos, Egito, Tunísia e Líbia), saudando a "grande esperança" trazida pelas revoltas árabes. Dominique Paille, Presidente do Serviço francês de Imigração e Integração, observou “Há semanas estávamos assistindo o trem passar pela história, já estava na hora de tornarmo-nos uma das locomotivas”. Por sua vez, Claude Guéant, ministro do Interior e da Imigração, homem de confiança do presidente, querendo competir no terreno ideológico da extrema direita (a nova líder da Frente Nacional, Marine Le Pen, aparece em primeiro lugar nas pesquisas) declarou que “por causa da imigração descontrolada, os franceses, por vezes, têm a sensação de que não estão mais em casa.”

Não podemos esquecer que Sarkozy passou cinco anos como ministro do Interior construindo a imagem de um combatente radical da criminalidade e da imigração (em áreas relacionadas às pessoas de origem muçulmana).
Ao que tudo indica Sarkozy quer repetir a estratégia política da campanha de 2007 quando procurou seguir o conselho de Karl Rove (estrategista de Bush). Em vez de tentar construir uma maioria é mais eficaz promover questões polêmicas como imigração, identidade, criminalidade e islamismo que podem provocar a fragmentação das oposições. O resultado, no longo prazo, é um maior nível de dissenso social ou de violência. A diferença, e isso é muito mais grave, é que agora esse foco da lei e da ordem doméstica está intimamente conectado à política externa francesa e européia. Em certo sentido, a França quer repetir seu papel do século XIX, quando as potências coloniais européias estavam à procura de projetar poder e proteger seus interesses fora do continente europeu.

(*) Professor de Relações Internacionais da PUC (SP) e do Programa de Pós-Graduação San Tiago Dantas (Unesp, Unicamp e PUC-SP).

28.3.11

fotos de Duda Bairros - Cidade de São Salvador Bahia




Lolly Jane Blue - White Swan - Sil van der Woerd

Mário Quintana

Que esta minha paz e este meu amado silêncio
Não iludam a ninguém
Não é a paz de uma cidade bombardeada e deserta
Nem tampouco a paz compulsória dos cemitérios
Acho-me relativamente feliz
Porque nada de exterior me acontece...
Mas,
Em mim, na minha alma,
Pressinto que vou ter um terremoto!



Mário Quintana

A luta por um Brasil solidário, Emir sader

A luta por um Brasil solidário

Emir Sader

A visão mercantilista que acompanhou a ascensão da hegemonia neoliberal invadiu o mundo. A sofisticação do consumo elevou o acesso a bens a requintes inimagináveis há pouco tempo, enquanto a grande maioria da humanidade continua sem acesso a bens elementares que garantam minimamente uma sobrevivência digna.

O acesso a bens que as politicas sociais do governo brasileiro promoveu ao longo dos últimos anos tem permitido uma democratização social que nunca havíamos assistido. Tem permitido que bens essenciais possam chegar a quem vivia marginalizado do mercado e de condições de vida minimamente aceitáveis.

No imenso universo dos que apoiaram o governo Lula, - permitindo que, como nunca um presidente tivesse unificado um país tão diverso social e geograficamente, - se congregaram contingentes diferentes. Antes de tudo a imensa massa pobre, desconhecida por outros governos, que os mantinha preventivamente à margem, temerosos, discriminadores. Esses pobres se tornaram o principal contingente de apoio a Lula e a Dilma, os principais beneficiários dos complexos e contraditórios processos de transformação porque passa o Brasil.

Se juntaram a eles os beneficiários da bonança econômica de uma politica que soube captar o potencial do novo cenário internacional com as possibilidades não aproveitadas do Brasil, para promover um circulo virtuoso que beneficia a todos. Contingentes que não tem simpatia pela esquerda e por Lula, mas que conviveram harmoniosamente com o progresso que o país vive e o prefere a incertezas de mudança.

Um novo Brasil, econômica e socialmente, foi surgindo – sobre isto não há dúvida. Temos agora, além de terminar com a miséria – objetivo prioritário do governo Dilma -, que trabalhar, com todos os meios possíveis, para a construção de um Brasil solidário, humanista, com valores que correspondam à sociedade mais justa que começamos a construir.

O elemento de maior força do mundo em que tudo tem preço, tudo se vende, tudo se compra, tudo é mercadoria, em que os direitos não contam, conta o poder do dinheiro – é sua concepção de mundo. Esta – conhecida como o modo de vida norteamericano – se fundamenta na luta de todos contra todos pelo acesso aos bens no mercado, na busca individual do sucesso, não importando a situação dos demais e, até, lutando para os que demais se deem mal, para que alguns poucos se deem bem. É isto que provoca os sentimentos ruins do “os aeroportos estão parecendo rodoviárias”, dos que, ao invés de se contentarem que setores populares estão tendo acesso ao que era até aqui reservado para uma minoria, deixam despertar em si os piores sentimentos de privilégio, de discriminação, até mesmo de racismo.

O acesso ao consumo é um direito fundamental para uma vida digna, negada à grande maioria dos brasileiros até recentemente. Mas esse acesso não garante, por si só, que seja acompanhado da consciência da justiça social que impulsiona as politicas que tornaram possível esse acesso e essa democratização social que torna o Brasil menos injusto.

Constituem ainda uma minoria os que estiveram com Lula e estão com Dilma porque o Brasil se torna menos injusto, menos desigual, com seus governos. A maioria, provavelmente, - inclusive seus maiores beneficiários, os pobres – os apoia pelos benefícios – reais, justos – a que tem tido acesso.

Essa nova maioria social e politica que foi se gerando no Brasil – e que permitiu três vitórias consecutivas contra as elites tradicionais, da direita – só poderá se consolidar ao nível da consciência social, se essa ascensão social for acompanhada por novos valores, não os da ascensão individual no mercado, mas os da solidariedade. Somente quanto se disseminar, da mesma forma que os benefícios das politicas do governo, os sentimentos de indignação contra as injustiças, contras as arbitrariedades, contra a fragilidade dos mais desprotegidos diante da violação dos seus direitos – somente aí estaremos realmente vivendo em um Brasil novo, solidário, humanista.

Para isso, as políticas de educação, de cultura, de direitos humanos, de luta contra as discriminações, dos direitos das mulheres, de comunicação – e tantas mais – têm que se articular para ajudar a promover novos valores. Valores que façam com que ninguém seja plenamente feliz, enquanto sobrevivem injustiças, violências, violações de direitos elementares da cidadania. Enquanto não formos todos cidadãos, conscientes do que vive o Brasil e dos objetivos que temos que alcançar, para sermos econômica, social e culturalmente uma sociedade justa e solidária.

26.3.11

Lastro de meu tempo

(imagem lungstruck)


Lastro de meu tempo

Qual a medida do sentir
se você não está aqui para presenciar?
qual a medida de viver
se você não está aqui para vivenciar?
qual a medida do meu tempo?
do meu lastro: peso e equilíbrio
que resume os contornos do meu pensar?
me pergunto.
eu que temia tanto seu olhar nunca encontrar
temia a história passar e me levar
e nunca ver seu sorriso,
sua imagem inteira
ou suas sombras alcançar .
o que um dia foi um rumo de vida triste
hoje, enfim, sabe que há algo solto no ar
vem trazido pelo Outono,
esse Tempo
que já não vive só de sonhar.

della

24.3.11

Egito X EUA

 
A conexão Cairo-Madison
 

As trajetórias das lutas dos trabalhadores no Egito e nos Estados Unidos estão dirigindo-se para direções opostas: para um ganho de direitos no Egito; e para um enorme ataque nos EUA. A propaganda culpa os professores e outros trabalhadores da função pública pelos seus grandes salários e pensões exorbitantes. Enquanto isso, os causadores da crise nadam em dinheiro. O Goldman Sachs acabou de pagar 17,5 bilhões de dólares em compensações no ano passado, diz a imprensa financeira, e o diretor executivo do banco, Lloyd Blankfein recebeu um bônus de 12,6 milhões. A culpa, é claro, é dos professores. O artigo é de Noam Chomsky.

Noam Chomsky


No dia 20 de fevereiro, Kamal Abbas, líder sindical egípcio e figura proeminente do movimento 25 de Janeiro, enviou uma mensagem aos “trabalhadores do Wisconsin”: “Estamos convosco da mesma forma que vocês estiveram conosco.” Os trabalhadores egípcios desde há muito que lutam pelos direitos fundamentais negados pelo regime de Mubarak apoiado pelos EUA. Kamal tem razão ao invocar a solidariedade que desde sempre tem sido a força por detrás do movimento operário mundial, e ao comparar as suas lutas pelos direitos laborais e pela democracia. Estes estão intimamente ligados. Os movimentos operários têm estado na linha da frente para proteger a democracia e os direitos humanos, e a expansão dos seus domínios, é uma razão pela qual representam a 'cruz' dos sistemas de poder, tanto públicos como privados.

As trajetórias das lutas operárias no Egito e nos EUA estão dirigindo-se para direções opostas: para um ganho de direitos no Egipto; e para um enorme ataque nos EUA.

Os dois casos merecem maior atenção.

A revolta do 25 de Janeiro foi detonada pelos jovens astutos do Facebook pertencentes ao movimento 6 de Abril, que surgiu na Primavera de 2008 em “solidariedade com a greve dos trabalhadores de Mahalla”, declara a analista Nada Matta.

A violência do Estado esmagou a greve e as ações de solidariedade, mas Mahalla era “o símbolo da revolta e da mudança de regime”, acrescenta Matta. A greve tornou-se particularmente ameaçadora para a ditadura quando as exigências dos trabalhadores se estenderam para além das preocupações setoriais de um salário mínimo para todos os egípcios.

Os comentários de Matta são confirmados por Joel Beinin, uma autoridade norte-americana nos assuntos trabalhistas do Egito. Depois de muito anos de luta, diz Benin, os trabalhadores estabeleceram laços e conseguem mobilizar-se prontamente. Quando os trabalhadores se juntaram ao movimento do 25 de Janeiro, o impacto foi decisivo e o comando militar mandou Mubarak embora. Foi uma grande vitória para o movimento democrático egípcio, embora permaneçam muitas barreiras, internas e externas.

A barreiras externas são claras. Os EUA e os seus aliados não conseguem tolerar uma democracia que funcione no mundo árabe.

Para provar isto, vejam-se as sondagens da opinião pública do Egito e por todo o Médio Oriente. Por largas maiorias, o público vê os EUA e Israel como as maiores ameaças, não o Irã. De fato, a maior parte pensa que a região estaria melhor se o Irã tivesse armas nucleares.

Podemos antecipar que Washington vai manter a sua política tradicional: democracia é tolerável apenas quando é conforme aos seus objetivos. A fábula norte-americana do “anseio pela democracia” está reservada a ideólogos e à propaganda. A democracia nos EUA tomou um rumo diferente. Depois da II Guerra Mundial, o país gozou de um crescimento sem precedentes, em grande medida igualitário e acompanhado de legislação que beneficiava quase toda a gente. Isto continuou durante os anos de Nixon e só acabou com a era liberal.

A reação contra o impacto democrático do ativismo dos anos 60 e da traição classista de Nixon não tardou: um incrível crescimento do lobby para moldar a legislação, em estabelecer centros de opinião de direita para capturar o espectro ideológico, e muitas outras medidas.

A economia também mudou para um rápida financeirização e deslocalizações de produção. A desigualdade alastrou-se, primeiro devido à exponencial fortuna de 1% da população – ou uma fração ainda menor, em grande parte limitada a directores executivos, gestores de fundos financeiros e outras funções similares.

Para a maioria, o salário real estagnou. Muitos decidiram trabalhar mais horas, recorreram à dívida e à inflação de bens. Depois surgiu a bolha imobiliária de 8 trilhões de dólares que a Reserva Federal e a maioria dos economistas não previu, pois estavam em transe com os dogmas da eficiência dos mercados. Quando a bolha rebentou, a economia colapsou, quase atingindo níveis da Grande Depressão para os trabalhadores industriais e muitos outros.

A concentração de riqueza confere poder político, o qual por sua vez, conduz a legislação que beneficie ainda mais os super-ricos: medidas fiscais, desregulação, normas de gestão empresarial e outras mais.

Ao longo deste ciclo vicioso, os custos da campanha aumentaram fortemente, conduzindo ambos os partidos a ir atrás do setor empresarial – os Republicanos, como é costume, e os Democratas (que agora são muito similares ao Republicanos moderados de anos anteriores) seguiram de perto.

Em 1978, à medida que o processo se iniciava, o presidente do sindicato dos trabalhadores do setor automóvel – United Auto Workers – Doug Fraser, condenou os líderes das empresas por terem “escolhido iniciar uma guerra de classes neste país – uma guerra contra os trabalhadores, os desempregados, os pobres, as minorias, os jovens e os velhos, e mesmo muitos da nossa classe média,” e terem também “quebrado e ignorado o acordo tácito que existiu antes durante um período de progresso e crescimento.”

À medida que a classe trabalhadora ganhava direitos nos anos 30, os líderes empresariais avisaram contra “o perigo que os industriais enfrentavam perante o surgimento do poder político das massas,” e apelaram a medidas urgentes para rebater a ameaça, de acordo com o que diz o intelectual Alex Carey em “Taking the Risk Out of Democracy”. Compreenderam tão bem como Mubarak que os sindicatos são uma força indispensável na conquista de direitos e da democracia. Nos EUA, os sindicatos são uma contra-força à tirania corporativa.

Por agora, os sindicatos do setor privado foram severamente enfraquecidos. Os sindicatos do setor público têm estado sob ataque da direita que explora cinicamente a crise econômica causada, em primeiro lugar, pela indústria financeira e os seus associados no governo.

A raiva popular tem de ser desviada dos agentes da crise financeira que estão a lucrar com isso; por exemplo, o Goldman Sachs “acabou de pagar 17,5 bilhões de dólares em compensação no ano passado,” diz a imprensa financeira, e o diretor executivo, Lloyd Blankfein recebeu um bônus de 12,6 milhões enquanto o seu salário base triplicou para 2 milhões.

Em vez disto, a propaganda culpa os professores e outros trabalhadores da função pública pelos seus grandes salários e pensões exorbitantes – tudo uma fabricação, uma cópia de um modelo demasiado familiar. Para o governador do Wisconsin, Scott Walker, para outros Republicanos e muitos Democratas, o slogan é que a austeridade deve ser partilhada – com algumas exceções.

A propaganda tem sido eficiente. Walker poderá pelo menos contar uma boa minoria para apoiar o seu esforço de destruir os sindicatos. Invocar o déficit como uma desculpa é pura farsa. De formas diferentes, o destino da democracia está em jogo tanto em Madison como na Praça Tahrir.

Publicado em Noam Chomsky's ZSpace Page

Tradução de Sofia Gomes para o Esquerda.net

24 de março da Argentina

 
Esperando o 24 de março


O julgamento daqueles que incitaram o golpe é uma fatura pendente na Argentina. Apesar de todas as ações articuladas para tentar deter o golpe militar – entre elas o lançamento da fórmula Cámpora-Alende para frear o avanço castrense -, a decisão de grandes grupos econômicos – os Rocca, Bulgheroni, Pagani, Perez Companc, Bunge Born e Soldati entre outros – tornou-o inevitável. No dia 24 de março, a Casa Rosada foi ocupada por militares genociadas, apoiados por esses empresários. O artigo é de Manuel Justo Gaggero.

Manuel Justo Gaggero - Argenpress.info

Corria o ano de 1975, o bando paraestatal Aliança Anticomunista Argentina, a Triple A, semeava de cadáveres de militantes políticos, sociais, sindicais e estudantis o país, com a impunidade garantida pelo governo de Isabel Martínez de Perón. Os empresários reunidos no Conselho Empresarial Argentino (CEA), os grupos econômicos mais concentrados, em aberta oposição ao governo, estimulavam a interrupção da ordem constitucional, que era discutida nos quartéis.

Em junho, o movimento sindical de base e os sindicatos mais combativos manifestam sua oposição ao plano econômico anunciado pelo flamante ministro da Economia, Celestino Rodrigo, e forçam a burocracia sindical a convocar uma greve geral e uma mobilização na Praça de Maio, que provoca a queda do mencionado ministro e de José López Rega, na época ministro de Bem-Estar Social e cérebro da Triple A.

Nestes dias a direção do Partido Revolucionário dos Trabalhadores recebe a informação, obtida pelo setor de inteligência, que a cúpula militar – Videla, Massera e Agosti – preparava o golpe para a última semana de março. Frente a isso, decide propor a todos os setores democráticos a organização de uma Frente Democrática Antigolpista, ao mesmo tempo em que o Exército Revolucionário do Povo (ERP) oferece uma trégua à presidenta, exigindo a libertação dos presos políticos e a revogação da legislação repressiva.

Organizamos diferentes entrevistas com dirigentes políticos – Alfonsin, Alende, Sueldo, Alberte, Balbín, entre outros, e, ao mesmo tempo, nos reuníamos na clandestinidade com Augustín Tosco que se somou entusiasticamente à ideia e viajou com esse propósito para Buenos Aires.

O Conselho Empresário Argentino, presidido por Alfredo Martínez de Hoz, integrava o Council of the Americas, e, como já assinalamos, estimulava a quartelada militar. O que era esse organismo?

Ele nasce em 1965, impulsionado por David Rockfeller, cabeça do império financeiro norteamericano, e é composto por grandes corporações que operam no continente. Seus objetivos, como assinala a sua declaração de princípios, é promover a livre empresa, a abertura das economias, a liberdade de movimentos de capitais, a integração econômica, a defesa da propriedade privada e a não intervenção estatal na economia.

Em uma palavra, como assinala seu fundador, o “Conselho das Américas trata de promover o triunfo dos princípios econômicos liberais frente às ideias estatistas e nacionalistas que se difundiram no continente seguindo o exemplo da Revolução Cubana”.

Uma de suas subsidiárias é a The Americas Society, fundada em 1967, que se ocupa especialmente das atividades culturais e políticas dos países latino-americanos. Relacionado com meste Conselho surge na Argentina o Conselho Empresário Argentino (CEA), liderado por Adalbert Kieger Vasena, que ocupava o cargo de ministro da Economia da ditadura militar de Onganía.

É interessante levar em conta a estreita relação entre David Rockfeller e Alfredo Martínez de Hoz, idealizador do plano econômico posto em marcha com o terrorismo de Estado em 1976. O primeiro era dono do todo poderoso Chase Manhattan Bank e o “orelhudo” era um de seus assessores na Argentina.

Neste contexto se decidiu que editaríamos uma revista quinzenal para propagandear a unidade democrática e, ao mesmo tempo, gerar um meio de expressão que desse apoio às organizações operárias de base, que na grande Buenos Aires se expressavam por meio do “movimento das coordenadoras”. Assim nasceu uma etapa de “Novo Homem”, revista que em diferentes épocas foi dirigida por seu fundador Jarito Walter, por Alicia Eguren, Silvio Frondizi e Rodolfo Mattarollo.

Ficou acertado que a equipe de redação seria clandestina, não seriam emitidas notas para evitar represálias e que só apareceria o nome do diretor que eu ocupava, já que estava clandestino. As normas que regulam as distribuidoras exigiam um responsável, para evitar problemas legais.

Assim se formou um grupo de jornalistas extraordinários coordenado por Enrique Raab e integrado, entre outros, por Susana Viau, Edgardo Silverskarten, Roberto Jacoby, Héctor Demarchi, Oscar Martínze Zemborain e Alberto Zpumberg. Osvaldo Acosta, um advogado que havia se destacado na defesa de presos políticos, se encarregava da relação com os distribuidores e de resolver todos os problemas relacionados com a impressão.

A ideia era fazer uma revista diferente das revistas políticas da época. Por isso tínhamos distintas seções – espetáculos, esportes, vida cotidiana e, inclusive, receitas de cozinha. O PRT, que financiava o quinzenário, não colocou nenhuma condição, razão pela qual pudemos utilizar toda a imaginação desse grande companheiro que era Enrique Raab, uma pena excelente, que havia integrado a equipe de “A opinião” em sua melhor época.

Entre outras notas das quais me lembro está uma feita por Susana Viau comentando a esperada morte do ditador espanhol Francisco Franco, e a triste cobertura que Héctor Demarchi teve que fazer, em novembro desse ano, do sepultamento de Augustín Tosco.

Em algum momento faremos uma nota sobre esta experiência. Recordamos que vários destes companheiros foram sequestrados-desaparecidos. Héctor e Enrique entre outros, Susana, el Chino e este que vos escreve tomamos o caminho do exílio. Osvaldo Acosta esteve preso na Escola de Mecânica da Armada durante três anos e foi uma das principais testemunhas no julgamento das Juntas Militares em 1983. O resto permaneceu no país, numa espécie de exílio interno.

No dia 23 de março de 1976 saiu o último número da revista, um dia antes da Casa Rosada ser ocupada pelos militares genocidas.

Mas, apesar de todas as ações articuladas – entre elas o lançamento da fórmula Cámpora-Alende para frear o avanço castrense -, a decisão dos grupos econômicos concentrados – os Rocca, Bulgheroni, Pagani, Perez Companc, Bunge Born e Soldati entre outros – tornou-o inevitável.

Soa neste momento, 35 anos depois daquele fatídico dia, a frase de um jurista norteamericano nos julgamentos dos criminosos nazistas em Nuremberg que, ao se referir aos grupos econômicos que apoiaram Hitler, afirmou: “a civilização não pode se permitir nenhum compromisso com as forças sociais que adquiriram nova potência se nós trabalhamos de modo ambíguo e indeciso com os homens que asseguraram a sobrevivência destas forças”.

O julgamento daqueles que incitaram o golpe é uma fatura pendente na Argentina.

(*) Manuel Justo Gaggero é advogado, ex-diretor das revistas “Novo Homem” e “Dezembro 20”.
Tradução: Marco Aurélio Weissheimer

22.3.11

A inquietante arte de Paula Rego









(foto de quadros da artista plástica Paula Rego)

Entre os nervos e o sangue
 
Rosane Pavam*


Como o personagem Brás Cubas na obra do escritor Machado de Assis, a artista plástica portuguesa Paula Rego é governada pelos nervos e pelo sangue, muito mais do que pelas orações. Sua arte, que evoluiu do surrealismo, nos anos 50 do século XX, à inspiração renascentista, a partir da década de 80, não esconde a própria indignação contra os totalitarismos políticos, sexuais ou eclesiásticos do Ocidente. Artista de diminuta compleição física, apaixonada, contudo, pelas representações em grande dimensão, ela apresenta ao Brasil sua primeira retrospectiva. O evento não contará com sua presença, já que a pintora, aos 76 anos, sofre atualmente com fortes dores de coluna e episódios de depressão. Mas a mostra levará à Pinacoteca do Estado de São Paulo, entre os dias 19 de março e 5 de junho, 137 dos trabalhos representativos da artista, entre pastéis, óleos, litografias, desenhos e esboços, todos exibidos em 2010 também no Museo de Arte Contemporáneo de Monterrey, no México.

Conhecida dos brasileiros apenas por ter integrado a seção portuguesa das bienais internacionais em São Paulo de 1969 e 1975, e da seção inglesa do mesmo evento, em 1985, Paula diz, em uma rara entrevista concedida em 2007 ao curador da retrospectiva, Marco Livingstone, não se imaginar inscrita na história da arte. Contudo, ela que intitula o museu Casa das Histórias Paula Rego, em Cascais, Portugal, e já expôs em diversas ocasiões por toda a Europa, é, sem concessão ou favor, uma das maiores pintoras de seu país. A curiosidade é que os britânicos também a vejam como um dos seus grandes nomes contemporâneos, algo que evoca o acontecido com o poeta Fernando Pessoa, talento de língua portuguesa afeiçoado à língua inglesa, morto naquele 1935 em que nasceu Paula em Lisboa, filha única de um casal abastado.

Foi o pai quem julgou necessário liberar a menina do grande mal que proporcionava a ditadura de Salazar a seus cidadãos subjugados, especialmente as mulheres, impedidas de exercer a cidadania com plenitude. Em fuga, a família se baseou em Londres, onde, aos 17 anos, Paula se viu inscrita na Slade School of Art. A escola lhe providenciou formação até 1956, ano em que conheceu o futuro marido, o pintor inglês Victor Willing, com o qual teve três filhos. Em 1962, ela obteve da Fundação Calouste Gulbenkian uma bolsa que viabilizou a continuidade de seu trabalho.

Naquele momento, depois dos passos iniciais pela pintura vanguardista, galgados em pequenos óleos e pastéis a evocar Miró e Jean Dubuffet, entre outros artistas, Paula propunha à instituição lisboeta uma série de ilustrações para narrativas clássicas conhecidas. Começava, então, a expor seus fantasmas e evocações de infância, mas em um formato de colagem que ela recusaria depois. Até hoje Paula veta a exibição desse trabalho para a Gulbenkian, realizado até 1979. No período, a artista assistiu à morte do pai e viu progredir a esclerose múltipla do marido. E ela ainda não libertara seu desenho de muitos fragmentos.

O pesquisador e curador Livingstone imagina um dia poder mostrar ao público o trabalho que originou as gravuras de Paula para narrativas clássicas britânicas, como Peter Pan, de J. M. Barrie, e Jane Eyre, de Charlotte Brontë. Mas, por enquanto, conforme diz em entrevista a CartaCapital, ele se contenta que o brasileiro possa assistir à produção recente da pintora, que compõe a grande maioria desta exposição. “Paula foi muito mais prolífica na plenitude da vida, ao contrário do que ocorre à maioria dos artistas, e nesse momento se revelou capaz da reinvenção, ao realizar o pastel em telas com 3 metros de altura.” Livingstone, especialista em sua obra, não fala português, tampouco estranha o fato. Para ele, Paula, a artista madura, é tão inglesa como Lucian Freud, Francis Bacon ou Michael Andrews, representantes, para efeito curatorial, da chamada “escola de Londres” de pintura.

Trata-se de uma tendência realista, figurativa e carnal surgida na segunda metade do século XX, a que a artista portuguesa se filiou. Como Freud, ela passou a levar temas difíceis à representação, mas focalizada em questões femininas. E, ao contrário daquele pintor, evitou trabalhar a partir da pose do personagem retratado, desenhando na tela sobre o chão as imagens que lhe vinham à mente. Em dias recentes, ela, essencialmente desenhista, lamenta não mais ter memória para fantasias. Paula se vale do trabalho de modelos, como seu alter ego Lila Nunes, antiga enfermeira do marido, de baixa estatura e assemelhada fisicamente a ela. Quando pinta a partir de modelos, usa cavaletes. Segundo acredita, o desenho de observação é “incapacitante”.

O aborto, o sofrimento físico e a exploração sexual infantil estão presentes em grande parte de sua produção a partir dos anos 80. Em 1986, no acrílico sobre papel Girl Lifting up Her Skirts to a Dog (Garota levantando a saia para um cachorro), ela inaugurou uma série que anotaria mais uma virada em sua carreira. Nas obras de Mulheres-Cão, a partir de 1994, passaria a representar as figuras retratadas com traços realistas e de pronunciado volume.

O quadro de 1986, no qual uma menina raivosa levanta sua saia para um cachorro indiferente, “mostra a frustração que arde muitas vezes no seio das relações baseadas em dependências, sejam de que espécie forem”, segundo analisa o ensaísta John McEwen. “O cão tem uma expressão vazia, enquanto a menina está zangada. Ela parece espicaçá-lo para que reaja e, ao mesmo tempo, a menosprezá-lo por não ser capaz disso.” Para o crítico, o paradoxo é um dos aspectos centrais na obra de Paula e uma de suas estratégias favoritas. Com a imagem, ela apresenta o “mais doloroso” desses paradoxos: “Fazemos mais mal àqueles que mais amamos”.

Ela se serve de narrativas, mas, como observa o curador do Museu de Arte de Monterrey, Jorge Contreras, talvez a capacidade artística de Paula Rego seja principalmente a de sugerir histórias ao observador do quadro. “Suas obras não contam histórias. Mais propriamente, as histórias acontecem em nossa experiência, quando estamos diante de cada uma delas”, ele sustenta. É o modo que o crítico encontrou de afirmar a universalidade da artista, constantemente reclamada pelos portugueses por sua fase inicial vanguardista e, pelos ingleses, por suas semelhanças com os autores figurativos britânicos do século XX.

Há, contudo, uma outra face a realçar em seu trabalho, que é a do medo. Paula Rego jamais evita representá-lo, como se desejasse expulsar de si mesma um temor real. Essa sensação pode ser particularmente sentida na obra mais recente (2008-2009) a integrar a exposição paulistana, intitulada Oratório. Nela, a artista evoca seus temas prediletos, em torno de vulnerabilidade, solidão, abandono, amor e perda na infância. A obra é um pequeno altar em memória aos meninos de rua, concebido para exposição coletiva no Foundling Museum. A instituição pertence a um hospital homônimo londrino, o primeiro a abrigar abandonados na Grã-Bretanha, em 1793. Em um formato consagrado por esperançosos fiéis católicos, portanto, a artista representa o maior dos pesadelos das crianças, o de que sua infância seja esquecida.


*Rosane Pavam é jornalista, editora de Cultura de CartaCapital . Autora do livro O Sonho Intacto - Nas Palavras de Ugo Giorgetti e do blog Contos Invisíveis.


**Fonte do texto: http://www.cartacapital.com.br/destaques_carta_capital/entre-os-nervos-e-o-sangue

20.3.11

... datas triplas...

. 1 de janeiro de 2001, 1-1-1
· 2 de fevereiro de 2002, 2-2-2
· 3 de março de 2003, 3-3-3
· 4 de abril de 2004, 4-4-4
· 5 de maio de 2005, 5-5-5
· 6 de junho de 2006, 6-6-6
· 7 de julho de 2007, 7-7-7
· 8 de agosto de 2008, 8-8-8
· 9 de setembro de 2009, 9-9-9
· 10 de outubro de 2010, 10-10-10
· 11 de novembro de 2011, 11-11-11
· 12 de dezembro de 2012, 12-12-12

Toda Nudez não Será Castigada


Foto de Terry Richardson.

O modelo brasileiro Alex Schultz apareceu completamente nu numa campanha publicitária da grife Tom Ford, 2008.

19.3.11

Filosofia

A filosofia na mira do mercado


Livro do filósofo José Arthur Giannotti, que convida a um mergulho no pensamento ocidental, sai no momento em que as editoras redescobrem esse filão - e preparam lançamentos de peso.



Embora ostente como título Lições de Filosofia Primeira, o recém-lançado livro do filósofo paulista José Arthur Giannotti não é apenas uma introdução ao pensamento no sentido convencional do termo, mas a obra de quem se impôs uma tarefa de demolir ideias feitas num mundo em que a filosofia já começa a ser confundida com negócio. O lançamento do livro de Giannotti coincide com um movimento convergente de editoras - grandes e pequenas - em busca de um novo modo de publicar filosofia no Brasil, deixando de lado livros de consumo fácil para abarcar obras densas. Dois exemplos do investimento pesado das editoras na área são as coleções das obras completas de Aristóteles - 75 livros que a WMF/Martins Fontes começa a publicar em maio - e a de René Girard, o mais ambicioso projeto da É Realizações, que comprou os direitos e está traduzindo 60 títulos do filósofo francês. Girard, autor da teoria do desejo mimético como forma contagiosa que leva à violência, ganha cada vez mais adeptos num território minado de pensadores cooptados - e corrompidos - pelo poder político.

Um deles, o filósofo alemão Martin Heidegger (1889-1976), ameaça a supremacia de Nietzsche na lista dos best-sellers de filosofia - o criador de Zaratustra ainda lidera o ranking, segundo editores consultados pelo Sabático. Nos últimos tempos, Heidegger tem recebido tanta atenção das editoras que a Academia Brasileira de Filosofia decidiu promover um seminário sobre ele em abril, antes de encaminhar ao governo federal sugestão de projeto de lei que obrigue suas obras publicadas no País a estampar na capa a seguinte advertência: "Este livro tem conteúdo nazista". O presidente da Academia, o professor carioca de Filosofia João Ricardo Moderno, e Giannotti fazem a mesma pergunta: como um pensador do porte de Heidegger pôde se associar ao nazismo? Giannotti vai dar sua resposta no livro que prepara como segundo volume da série iniciada com Lições de Filosofia Primeira. A obra tem o sintético título de Contraponto: Heidegger/Wittgenstein.

O filósofo Peter Sloterdijk, estrela absoluta do catálogo da Estação Liberdade, que publica seus livros no Brasil, já se manifestou há alguns anos a respeito de Heidegger no polêmico Regras Para o Parque Humano. Nele, o alemão denuncia a herança nietzschiana e heideggeriana do pastoreio e domesticação dos homens com possíveis resultados catastróficos em nossa era antropotecnológica de reforma genética. Seu mais recente manifesto chama-se Ira e Tempo e está no prelo. Nele, Sloterdijk trata da ira como forma de energia psicopolítica capaz de promover a autoafirmação humana num mundo polarizado entre fundamentalistas e liberais. "Todos os seus livros venderam muito bem", garante o diretor editorial Angel Bojadsen, prometendo para breve o primeiro volume da trilogia Esferas, opus magnum de Sloterdijk que estuda a nova experiência do espaço no interior das macroesferas sociais. O filósofo alemão, professor em Karlshue, já ameaça o "espaço" dos pensadores franceses, revela Bojadsen, atestando que o interesse pelo desconstrucionista Derrida diminuiu consideravelmente nos últimos meses.

"Hoje em dia vejo mais historiadores de filosofia do que propriamente filósofos", comenta Giannotti, acrescentando ser a crítica à sociedade contemporânea feita pelos pensadores, de modo geral, "abstrata e pessimista", tendendo a imputar a culpa ao capital por tudo o que há de errado no mundo. Se a democratização do acesso à filosofia é um fato - como prova a profusão de novos títulos nas estantes -, por outro lado, segundo o filósofo, há uma tendência a "dissociar a prática filosófica das grandes questões que hoje nos atingem". Nietzsche seduz, segundo ele, não só porque escrevia bem como pela ilusão da ideia de potência que dá ao leitor (Vontade de Potência, aliás, acaba de ganhar edição da Vozes). "Nietzsche não é um filósofo da pacificação", diz Giannotti. "Ele pensa como um martelo", conclui, não poupando seguidores como Heidegger, leitura perigosa para quem ignora que seu discurso nazista aparece travestido na forma visceral de seu transe filosófico.

"Insisto na advertência do selo nas capas, denunciando o conteúdo da filosofia de Heidegger, porque propaganda nazista é crime no Brasil", justifica-se João Ricardo Moderno. A exemplo de outros filósofos europeus, ele lembra a simpatia de Heidegger pela SA de Röhm e as organizações estudantis que ela controlava. A filosofia dele, argumenta Moderno, é ainda mais perigosa por ter apoiado Hitler - Heidegger convocou o povo alemão às urnas para voltar no Führer, em 1933 - e ter sobrevivido à queda do Terceiro Reich, influenciando neonazistas e simpatizantes de regimes totalitários.

"As editoras, naturalmente, melhoraram muito o nível de suas traduções e o mercado se profissionalizou, mas a publicação de Heidegger obedece a uma lógica comercial, enquanto há obras clássicas, fundamentais, que são esquecidas por vender mal", observa Moderno. O fundador da Editora É, Edson Manoel de Oliveira Filho, pretende dar sua contribuição, publicando brevemente a coleção Grandes Comentadores de Platão e Aristóteles, organizada pelo professor Carlos Nougué, seis volumes que vão de um comentário à metafísica aristotélica por Alexandre de Afrodísias aos estudos de Santo Tomás de Aquino sobre a obra do filósofo - complementando, de forma indireta, a coleção de obras completas de Aristóteles, a ser publicada pela WMF/Martins Fontes. Esta começa com Os Econômicos em maio e a Retórica no segundo semestre. Segundo o editor Alexandre Martins Fontes, que publicou os cursos de Foucault e Barthes (seus maiores êxitos comerciais), 15% do seu catálogo (de 2 mil títulos) são dedicados à filosofia.

A Editora É mantém ainda uma coleção de títulos considerados de difícil comercialização, mas de fundamental importância para o entendimento do pensamento contemporâneo, a Filosofia Atual. Nela foram publicados 15 títulos, todos eles acompanhados de um DVD explicativo sobre a obra de filósofos como o canadense Bernard Lonergan (1904-1984), o espanhol Xavier Zubiri (1898-1983), o metafísico francês Louis Lavelle (1883-1951) e o alemão Eric Voegelin (1901-1985). "Temos apostado nos estudantes de pós-graduação, mas não me preocupo muito com as vendas quando gosto de um filósofo", diz o editor da É, que vai dobrar até 2012 o número de livros de seu catálogo atual (130 títulos), apostando no boom editorial de livros filosóficos no Brasil. Outra estratégia da editora é a publicação de obras completas, como a do filósofo brasileiro Vicente Ferreira da Silva e do francês René Girard, sobre quem organiza em setembro um seminário internacional, lançando nada menos do que 22 títulos de e sobre o filósofo.

Outra editora que aposta em filósofos pouco divulgados é a carioca Contraponto, a exemplo da Perspectiva, Zahar e as universitárias. Ela tem 120 títulos no catálogo e vai ampliar a oferta das obras do alemão Hans Jonas (1903-1993), do inglês John Burnett (1863-1926) e do austríaco (naturalizado inglês) Karl Popper (1902-1994), pioneiro racionalista que tematizou a ciência. O editor César Benjamin garante que Popper é o carro-chefe da Contraponto, apostando num catálogo permanente de long-sellers, como a WMF/ Martins Fontes, ou seja, títulos essenciais que vendem a longo prazo - e garantem o prestígio das editoras.

Fonte: http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20110319/not_imp694018,0.php

A visita de Obama

 

 

WikiObama: como é conduzido o governo dos EUA

Em documentos revelados pelo WikiLeaks tomamos conhecimento de ações do governo norte-americano e seus lobbies para combater a lei do pré-sal e que a Casa Branca pressionou autoridades ucranianas para obstaculizar o desenvolvimento do projeto conjunto Brasil-Ucrânia de implantação da plataforma de lançamento dos foguetes. Portanto, já é hora pararmos com essa ladainha de visita simbólica ou de início de uma nova parceria estratégica. O artigo é de Reginaldo Nasser.

Qual é o real significado, em termos de política externa, da visita do presidente da república imperial? Até que ponto devemos levar em consideração a sua fala? Em 2009, Obama fez o famoso discurso do Cairo que deverá entrar para a história da diplomacia como um dos mais importantes exercícios de retórica, pois o apoio aos ditadores e a Israel continuou como nunca. Como esquecer da carta que enviou ao Presidente Lula instando o Brasil a trazer o Irã para a mesa de negociação e dias depois condenar a “aproximação” dos dois países? Nesse sentido, creio ser apropriado relembrar os ensinamentos do sociólogo alemão, Max Weber, em texto publicado no início do século XX. Weber advertia que aquele que realmente quisesse encontrar o verdadeiro poder do Estado, não deveria dar tanta relevância para os discursos parlamentares ou para as falas dos presidentes, mas sim observar a forma como é conduzida a administração rotineira do Estado.

Que tal uma passada de olhos sobre os acontecimentos dessa semana e verificar a “rotina imperial” ( 12 a 19 de março)?

Após a derrubada de Mubarak, Obama disse que "era a força moral da não-violência, e não a violência, a força moral que dobrou o arco da história para a justiça”. Entretanto o Pentágono e o lobby da indústria de armas dobraram o arco da história contra os manifestantes pró-democracia no Bahrein. Pode ser mera coincidência, mas é curioso constatar que, após viagem do Secretário de Defesa, Robert Gates, ao Bahreim no dia 11 de Março a Arábia Saudita enviou tropas para aquele pais dando maior consistência ao processo contra-revolucionário com extrema violência.

Os seis Estados membros do Conselho de Cooperação do Golfo (Bahrein, Kuwait, Omã, Qatar, Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos) têm fortes ligações com o Pentágono desde os anos 1990. Receberam dos EUA nos últimos quatro anos grandes quantidades de material militar (veículos blindados, aviões, metralhadora e munições) no valor de US $ 70 bilhões. O circulo de poder entre a indústria militar, os Estados do Golfo e o Pentágono inclusive asseguraram uma mudança da doutrina de “mudança de regime ", como no Egito ou Tunísia, para “alteração de regime” a fim de garantir o atual governo.

No dia 18 de março o Center for Constitutional Rights (Fundado em 1966 por ativistas dos direitos civis nos EUA) divulgou um relatório solicitando a administração de Obama a passar da retórica à ação, e a urgência em adotar medidas concretas para cumprir com as suas obrigações internacionais dos direitos humanos. As denúncias versam sobre questões que vão desde a discriminação racial, execuções extrajudiciais até a prática de tortura no Iraque, Afeganistão e Guantamo (lembram-se da promessa em início de mandato?).

No dia 17 de março em matéria do The Guardian ficamos sabendo que os militares dos EUA estão desenvolvendo um software que permitirá secretamente manipular os meios de comunicação com falsos nomes para influenciar e espionar as redes sociais com o objetivo de combater as “ideologias extremistas”. O porta-voz Centcom, orgão gerenciador do projeto, esclareceu, sem meias palavras que nenhuma das intervenções será feita em língua inglesa porque seria ilegal!

Na política doméstica, esta cada vez mais claro que Washington perdeu o interesse pelo problema do desemprego. O governo Obama foi derrotado na “guerra de idéias”. Em recente pesquisa de opinião pública, a maioria dos americanos, com razão, já não nota diferença significativa entre democratas e republicanos no que se refere ao debate sobre o deficit. (Paul Krugman The Forgotten Millions, 18/03/ 2011 The New York Times).

Em documentos revelados pelo WikiLeaks tomamos conhecimento de ações do governo norte-americano e seus lobbies para combater a lei do pré-sal e que a Casa Branca pressionou autoridades ucranianas para obstaculizar o desenvolvimento do projeto conjunto Brasil-Ucrânia de implantação da plataforma de lançamento dos foguetes. Portanto, já é hora pararmos com essa ladainha de visita simbólica ou de início de uma nova parceria estratégica.

(*) Professor de Relações Internacionais da PUC (SP) e Programa de Pós-Graduação San Tiago Dantas (Unesp, Unicamp e PUC-SP)

18.3.11

Vigiar e Punir

Com a palavra, Maria da Conceição Tavares

"Obama foi anulado pelo conservadorismo de bordel dos EUA"


Em entrevista exclusiva à Carta Maior, a economista Maria da Conceição Tavares fala sobre a visita de Obama ao Brasil, a situação dos Estados Unidos e da economia mundial. Para ela, a convalescença internacional será longa e dolorosa. A razão principal é o congelamento do impasse econômico norte-americano, cujo pós-crise continua tutelado pelos interesses prevalecentes da alta finança em intercurso funcional com o moralismo republicano. ‘É um conservadorismo de bordel’, diz. E acrescenta: "a sociedade norte-americana encontra-se congelada pelo bloco conservador, por cima e por baixo. Os republicanos mandam no Congresso; os bancos tem hegemonia econômica; a tecnocracia do Estado está acuada”.

Quando estourou a crise de 2007/2008, ela desabafou ao Presidente Lula no seu linguajar espontâneo e desabrido: “Que merda, nasci numa crise, vou morrer em outra”. Perto de completar 81 anos – veio ao mundo numa aldeia portuguesa em 24 de abril de 1930 - Maria da Conceição Tavares, felizmente, errou. Continua bem viva, com a língua tão afiada quanto o seu raciocínio, ambos notáveis e notados dentro e fora da academia e esquerda brasileira. A crise perdura, mas o Brasil, ressalta com um sorriso maroto, ao contrário dos desastres anteriores nos anos 90, ‘saiu-se bem desta vez, graças às iniciativas do governo Lula’.

A convalescença internacional, porém, será longa, adverte. “E dolorosa”. A razão principal é o congelamento do impasse econômico norte-americano, cujo pós-crise continua tutelado pelos interesses prevalecentes da alta finança em intercurso funcional com o moralismo republicano. ‘É um conservadorismo de bordel’, dispara Conceição que não se deixa contagiar pelo entusiasmo da mídia nativa com a visita do Presidente Barack Obama, que chega o país neste final de semana.

Um esforço narrativo enorme tenta caracterizar essa viagem como um ponto de ruptura entre a ‘política externa de esquerda’ do Itamaraty – leia-se de Lula , Celso Amorim e Samuel Pinheiro Guimarães - e o suposto empenho da Presidenta Dilma em uma reaproximação ‘estratégica’ com o aliado do Norte. Conceição põe os pingos nos is. Obama, segundo ela, não consegue arrancar concessões do establishment americano nem para si, quanto mais para o Brasil. ‘Quase nada depende da vontade de Obama, ou dito melhor, a vontade de Obama quase não pesa nas questões cruciais. A sociedade norte-americana encontra-se congelada pelo bloco conservador, por cima e por baixo. Os republicanos mandam no Congresso; os bancos tem hegemonia econômica; a tecnocracia do Estado está acuada”. O entusiasmo inicial dos negros e dos jovens com o presidente, no entender da decana dos economistas brasileiros, não tem contrapartida nas instâncias onde se decide o poder americano. “O que esse Obama de carne e osso poderia oferecer ao Brasil se não consegue concessões nem para si próprio?”, questiona e responde em seguida: ‘Ele vem cuidar dos interesses americanos. Petróleo, certamente. No mais, fará gestos de cortesia que cabem a um visitante educado’.

O desafio maior que essa discípula de Celso Furtado enxerga é controlar “a nuvem atômica de dinheiro podre” que escapou com a desregulação neoliberal – “e agora apodrece tudo o que toca”. A economista não compartilha do otimismo de Paul Krugman que enxerga na catástrofe japonesa um ponto de fuga capaz, talvez, de exercer na etapa da reconstrução o mesmo efeito reordenador que a Segunda Guerra teve sobre o capitalismo colapsado dos anos 30. “O quadro é tão complicado que dá margem a isso: supor que uma nuvem de dinheiro atômico poderá corrigir o estrago causado por uma nuvem nuclear verdadeira. Respeito Krugman, mas é mais que isso: trata-se de devolver o dinheiro contagioso para dentro do reator, ou seja, regular a banca. Não há atalho salvador’.

Leia a seguir a entrevista exclusiva de Maria da Conceição Tavares à Carta Maior.

CM- Por que Obama se transformou num zumbi da esperança progressista norte-americana?

Conceição - Os EUA se tornaram um país politicamente complicado... o caso americano é pior que o nosso. Não adianta boas idéias. Obama até que as têm, algumas. Mas não tem o principal: não tem poder, o poder real; não tem bases sociais compatíveis com as suas idéias. A estrutura da sociedade americana hoje é muito, muito conservadora –a mais conservadora da sua história. E depois, Obama, convenhamos, não chega a ser um iluminado. Mas nem o Lula daria certo lá.

CM- Mas ele foi eleito a partir de uma mobilização real da sociedade....

Conceição - Exerce um presidencialismo muito vulnerável, descarnado de base efetiva. Obama foi eleito pela juventude e pelos negros. Na urna, cada cidadão é um voto. Mas a juventude e os negros não tem presença institucional, veja bem, institucional que digo é no desenho democrático de lá. Eles não tem assento em postos chaves onde se decide o poder americano. Na hora do vamos ver, a base de Obama não está localizada em lugar nenhum. Não está no Congresso, não tem o comando das finanças, enfim, grita, mas não decide.

CM - O deslocamento de fábricas para a China, a erosão da classe trabalhadora nos anos 80/90 inviabilizaram o surgimento de um novo Roosevelt nos EUA?

Conceição - Os EUA estão congelados por baixo. Há uma camada espessa de gelo que dissocia o poder do Presidente do poder real hoje exercido, em grande parte, pela finança. Os bancos continuam incontroláveis; o FED (o Banco Central americano) não manda, não controla. O essencial é que estamos diante de uma sociedade congelada pelo bloco conservador, por cima e por baixo. Os republicanos mandam no Congresso; os bancos tem hegemonia econômica; a tecnocracia do Estado está acuada...

CM- É uma decadência reversível?

Conceição – É forçoso lembrar, ainda que seja desagradável, que os EUA chegaram a isso guiados, uma boa parte do caminho, pelas mãos dos democratas de Obama. Foram os anos Clinton que consolidaram a desregulação dos mercados financeiros autorizando a farra que redundou em bolhas, crise e, por fim, na pasmaceira conservadora.

CM - Esse colapso foi pedagógico; o poder financeiro ficou nu, por que a reação tarda?

Conceição - A sociedade americana sofreu um golpe violento. No apogeu, vendia-se a ilusão de uma riqueza baseada no crédito e no endividamento descontrolados. Criou-se uma sensação de prosperidade sobre alicerces fundados em ‘papagaios’ e pirâmides especulativas. A reversão foi dramática do ponto de vista do imaginário social. Um despencar sem chão. A classe média teve massacrados seus sonhos do dia para noite. A resposta do desespero nunca é uma boa resposta. A resposta americana à crise não foi uma resposta progressista. Na verdade, está sendo de um conservadorismo apavorante. Forças e interesses poderosos alimentam essa regressividade. A tecnocracia do governo Obama teme tomar qualquer iniciativa que possa piorar o que já é muito ruim. Quanto vai durar essa agonia? Pode ser que a sociedade americana reaja daqui a alguns anos. Pode ser. Eles ainda são o país mais poderoso do mundo, diferente da Europa que perdeu tudo, dinheiro, poder, auto-estima... Mas vejo uma longa e penosa convalescença. Nesse vazio criado pelo dinheiro podre Obama flutua e viaja para o Brasil.

CM – Uma viagem cercada de efeitos especiais; a mídia quer demarcá-la como um divisor de águas de repactuação entre os dois países, depois do ‘estremecimento com Lula’. O que ela pode significar de fato para o futuro das relações bilaterais?

Conceição - Obama vem, sobretudo, tratar dos interesses norte-americanos. Petróleo, claramente, já que dependem de uma região rebelada, cada vez mais complexa e querem se livrar da dependência em relação ao óleo do Chávez. A política externa é um pouco o que sobrou para ele agir, ao menos simbolicamente.

CM – E o assento brasileiro no Conselho de Segurança?
Conceição - Obama poderá fazer uma cortesia de visitante, manifestar simpatia ao pleito brasileiro, mas, de novo, está acima do seu poder. Não depende dele. O Congresso republicano vetaria. Quase nada depende da vontade de Obama, ou dito melhor, a vontade de Obama quase não pesa nas questões cruciais.

CM - Lula também enfrentou essa resistência esfericamente blindada, mas ganhou espaço e poder...

Conceição - Obama não é Lula e não tem as bases sociais que permitiriam a Lula negociar uma pax acomodatícia para avançar em várias direções. A base equivalente na sociedade americana, os imigrantes, os pobres, os latinos, os negros, em sua maioria nem votam e acima de tudo estão desorganizados. Não há contraponto à altura do bloco conservador, ao contrário do caso brasileiro. O que esse Obama de carne e osso poderia oferecer ao Brasil se não consegue concessões nem para si próprio?

CM – A reconstrução japonesa, após a tragédia ainda inconclusa, poderia destravar a armadilha da liquidez que corrói a própria sociedade americana ? Sugar capitais promovendo um reordenamento capitalista, como especula Paul Krugman?

Conceição - A situação da economia mundial é tão complicada que dá margem a esse tipo de especulação. Como se uma nuvem atômica de dinheiro pudesse consertar uma nuvem atômica verdadeira. Não creio. Respeito o Krugman, mas não creio. O caminho é mais difícil. Trata-se de devolver a nuvem atômica de dinheiro para dentro do reator; é preciso regular o sistema, colocar freios na especulação, restringir o poder do dinheiro, da alta finança que hoje campeia hegemônica. É mais difícil do que um choque entre as duas nuvens. Ademais, o Japão eu conheço um pouco como funciona, sempre se reergueu com base em poupança própria; será assim também desta vez tão trágica. Os EUA por sua vez, ao contrário do que ocorreu na Segunda Guerra, quando eram os credores do mundo, hoje estão pendurados em papagaios com o resto do mundo –o Japão inclusive. O que eles poderiam fazer pela reconstrução se devem ao país devastado?

CM – Muitos economistas discordam que essa nuvem atômica de dinheiro seja responsável pela especulação, motivo de índices recordes de fome e de preços de alimentos em pleno século XXI. Qual a sua opinião?

Conceição - A economia mundial não está crescendo a ponto de justificar esses preços. Isso tem nome: o nome é especulação. Não se pode subestimar a capacidade da finança podre de engendra desordem. Não estamos falando de emissão primária de moeda por bancos centrais. Não é disso que se trata. É um avatar de moeda sem nenhum controle. Derivam de coisa nenhuma; derivativos de coisa nenhuma representam a morte da economia; uma nuvem nuclear de dinheiro contaminado e fora de controle da sociedade provoca tragédia onde toca. Isso descarnou Obama.

É o motor do conservadorismo americano atual. Semeou na America do Norte uma sociedade mais conservadora do que a própria Inglaterra, algo inimaginável para alguém da minha idade. É um conservadorismo de bordel, que não conserva coisa nenhuma. É isso a aliança entre o moralismo republicano e a farra da finança especulativa. Os EUA se tornaram um gigante de barro podre. De pé causam desastres; se tombar faz mais estrago ainda. Então a convalescença será longa, longa e longa.

CM – Esse horizonte ameaça o Brasil?

Conceição - Quando estourou a crise de 2007/2008, falei para o Lula: - Que merda, nasci numa crise mundial, vou morrer em outra... Felizmente, o Brasil, graças ao poder de iniciativa do governo saiu-se muito bem. Estou moderadamente otimista quanto ao futuro do país. Mais otimista hoje do que no começo do próprio governo Lula, que herdou condições extremas, ao contrário da Dilma. Se não houver um acidente de percurso na cena externa, podemos ter um bom ciclo adiante.

CM – A inflação é a pedra no meio do caminho da Dilma, como dizem os ortodoxos?
Conceição - Meu temor não é a inflação, é o câmbio. Aliás, eu não entendo porque o nosso Banco Central continua subindo os juros, ainda que agora acene com alguma moderação. Mas foram subindo logo de cara! Num mundo encharcado de liquidez por todos os lados, o Brasil saiu na frente do planeta... Subimos os juros antes dos ricos, eles sim, em algum momento talvez tenham que enfrentar esse dilema inflacionário. Mas nós? Por que continuam a falar em subir os juros se não temos inflação fora de controle e a prioridade número um é o câmbio? Não entendo...

CM - Seria o caso de baixar as taxas?

Conceição - Baixar agora já não é mais suficiente. Nosso problema cambial não se resolve mais só com inteligência monetária. Meu medo é que a situação favorável aqui dentro e a super oferta de liquidez externa leve a um novo ciclo de endividamento. Não endividamento do setor público, como nos anos 80. Mas do setor privado que busca lá fora os recursos fartos e baratos, aumentando sua exposição ao risco externo. E quando os EUA subirem as taxas de juros, como ficam os endividados aqui?

CM – Por que o governo hesita tanto em adotar algum controle cambial?

Conceição - Porque não é fácil. Você tem um tsunami de liquidez externa. Como impedir as empresas de pegarem dinheiro barato lá fora? Vai proibir? Isso acaba entrando por outros meios. Talvez tenhamos que implantar uma trava chilena. O ingresso de novos recursos fica vinculado a uma permanência mínima, que refreie a exposição e o endividamento. Mas isso não é matéria para discutir pelos jornais. É para ser feito. Decidir e fazer.

CM - A senhora tem conversado com a Presidenta Dilma, com Lula?
Conceição - O governo está começando; é preciso dar um tempo ao tempo. Falei com Lula recentemente quando veio ao Rio. Acho que o Instituto dele está no rumo certo. Deve se debruçar sobre dois eixos fundamentais da nossa construção: a questão da democracia e a questão das políticas públicas. Torço para que o braço das políticas públicas tenha sede no Rio. O PT local precisa desse empurrão. E fica mais perto para participar.

A razão e os outros demônios de Obama

 
 
Os fracassos de Obama

A tragédia do homem certo a quem coube se eleger para governar o país errado, na hora errada. 
 
Por Antonio Luiz M. C. Costa/ Carta Capital

O presidente Barack Obama abandonou de vez, ao que tudo indica, o mais simbólico de seus compromissos. Na segunda-feira 7, revogou seu próprio decreto que suspendia os julgamentos dos presos de Guantánamo por tribunais militares, permitindo sua retomada. Ordenou ainda a manutenção dos muitos presos não oficialmente acusados, mas tidos como “ameaças à segurança nacional”. Ficará ao arbítrio de uma comissão militar avaliar dentro de um ano, e depois a cada três anos, se continuam a ser “ameaças”, se devem ser julgados em tribunal militar ou se devem ser liberados.

Durante a campanha eleitoral, o candidato Obama prometeu fechar a famigerada prisão de Guantánamo assim que assumisse o governo. No dia da posse, rea-firmou que a prisão estaria fechada no prazo de um ano, ou seja, até 20 de janeiro de 2010 e vetou os julgamentos pela justiça militar. Passados dois anos e um mês, volta atrás e arquiva a dupla promessa.

Em novembro passado, o tanzaniano Ahmed Ghailani, acusado de atentados às embaixadas dos EUA na Tanzânia e no Quênia, foi levado a julgamento em tribunal civil de Nova York e absolvido da maioria das 285 acusações por falta de provas. A que restou, de “conspiração”, bastou para condená-lo à prisão perpétua, mas não satisfez os republicanos, que usaram o veredicto e a pena “leve” para argumentar que não se pode confiar em civis para julgar “terroristas”. Obama, outra vez, cedeu.

Talvez não seja a concessão mais importante que já fez. Mais séria foi sua capitulação aos interesses de Wall Street, que o documentário Trabalho Interno (Inside Job) recordou e assinalou ao grande público. Mas o fato de não conseguir manter suas posições nem mesmo em questões de pouca importância material, mas simbolicamente marcantes, dá a medida da sua fraqueza. Está à mercê das chantagens da oposição até para manter o governo funcionando semana a semana, dada a recusa dos republicanos a aprovar o orçamento de 2011.

Compare-se com Lula: também enfrentou uma crise econômica e financeira no primeiro ano e o terceiro (2005) foi de crise política quase contínua. Mas, se cedia muito (talvez mais que o necessário) para acalmar o mercado financeiro, impunha sua marca com o Bolsa Família, os aumentos reais do salário mínimo e uma diplomacia independente. No início de seu terceiro ano, iniciava a desdolarização da dívida pública e completava o resgate da dívida externa com o FMI e de décadas de dependência. Seu partido, o PT, tivera um bom resultado nas eleições de “meio de mandato”, saltando de 187 para 402 prefeitos. O desemprego caía, e a renda dos mais pobres e da Região Nordeste crescia em ritmo “chinês”. Apesar do alarde da oposição e da imprensa conservadora sobre o suposto “mensalão”, Lula não perdeu a iniciativa e foi reeleito com mais de 60% dos votos válidos e 70% de aprovação.

Tudo indica que será muito mais difícil para Obama dar a volta por cima de maneira comparável. A eleição de meio de mandato foi desastrosa, com a perda de vários senadores e governos estaduais e da maioria da Câmara e a radicalização da oposição de direita. Sua vitória política mais importante, a reforma da Saúde – obtida à custa de muitas concessões e diluições, embora seu Partido Democrata tivesse a maioria absoluta das duas casas do Congresso durante os primeiros dois anos de governo –, está sob ataque cerrado no Legislativo, que lhe nega recursos, no Judiciário, onde vários juízes a declararam inconstitucional, e nos estados governados por republicanos, que reivindicam o direito de rejeitá-la em suas jurisdições.

A reforma da política nacional de imigração foi inviabilizada no Congresso e tem sido substituída por selvagens leis estaduais anti-imigrantes. A política externa só acumulou decepções e fracassos e a guerra no Afeganistão e Paquistão vai de mal a pior. Os planos de investimentos bilionários em ambiente, educação e infraestrutura foram para o lixo: tudo foi bloqueado e as administrações locais cuidam de desmantelar o ensino público, os serviços municipais e estaduais e a legislação ambiental. Sua proposta de reforma política e controle das doações foi rejeitada pelo Congresso e soterrada sob uma decisão da Suprema Corte, que, em nome da “liberdade de expressão, derrubou todas as limitações para as grandes corporações financiarem campanhas eleitorais ou fazerem propaganda política direta.

A política econômica de Obama e do Fed recuperou o setor financeiro e, até certo ponto, o crescimento do PIB. Mas a maioria não se beneficiou disso. O desemprego continua alto, a minoria beneficiada se põe entusiasticamente do lado da oposição e a enxurrada de dólares liberada pela “flexibilização quantitativa” causa ainda mais problemas para a política externa. Por um lado, ampliou os atritos com amigos e inimigos ao deflagrar uma “guerra cambial”. Por outro, ao estimular a especulação com commodities, acentuou a alta internacional dos preços de alimentos e a instabilidade política de países-chave para a estratégia dos EUA. Isso trouxe uma onda de revoltas na África e no Oriente Médio, que, por sua vez, volta a abalar a economia dos EUA pela alta do petróleo. Um efeito borboleta para Eric Bress nenhum botar defeito.

Forças irresistíveis da história, inabilidade política ou simples pé-frio? Um pouco de cada coisa. Obama assumiu os EUA em uma fase estruturalmente desfavorável, de decadência econômica e política relativa. Além disso, em um dos piores momentos possíveis em termos conjunturais, logo após o início da maior crise financeira da história do capitalismo desde 1929. Mas, além disso, Obama fracassou em entender o momento histórico e político e agir de acordo.

Fez campanha para corrigir o rumo de um país no auge da prosperidade no sentido de mais justiça social e bom senso ambiental. Não encontrou o tal país e perdeu completamente a bússola. Preparou-se para governar em um clima de negociação, respeito mútuo, argumentação sensata e racionalidade comunicativa, como diria Jürgen Habermas. Encontrou uma oposição fanatizada e preconceituosa, disposta a seduzir as massas com propaganda passional e teo-rias delirantes, mas continua a apostar em uma negociação política tradicional, como um jogador de xadrez que, lançado num ringue de luta livre, insiste em obedecer a seu próprio livro de regras.

Em nenhum momento, como se queixou repetidamente o economista e colunista liberal Paul Krugman, Obama falou ao povo ou aos próprios democratas sobre o caráter feroz e classista da luta política em curso nos EUA, como um líder disposto a enfrentar a oposição, defender seu lado e seus argumentos, propor medidas ousadas, e denunciar a má-fé dos republicanos e da elite financeira quando estas fossem bloqueadas. Se fizesse isso, talvez não evitasse a crise econômica nem as derrotas no Congresso, mas teria a seu lado um discurso consistente em torno do qual agrupar seus partidários e uma parcela significativa da opinião pública. Em vez disso, com sua disposição a ceder sistematicamente à pressão dos republicanos e defender com as melhores soluções as derrotas que não conseguiu evitar, abandonou pelo caminho uma trilha de ex-entusiastas desiludidos.

Um exemplo foi a questão ambiental: inicialmente, defendeu o investimento em fontes alternativas e a proibição da exploração do petróleo no Golfo do México. Depois, cedeu aos republicanos para liberá-la e promovê-la ao lado de um programa de biocombustíveis. Teve então a má sorte de enfrentar o pior vazamento de petróleo da história do país, voltou atrás e pediu punições à British Petroleum. Mais uma vez ficou com o pior dos dois mundos: o desprezo dos ambientalistas por ter cedido às petroleiras e o ódio dos conservadores por não liberar o capital de todas as restrições.

A razão da pior derrota dos democratas desde 1948 não foi a perda de eleitores para a direita, mas o desânimo de negros, jovens e hispânicos, que, conquistados para as urnas por Obama em 2008, desistiram de votar em 2010. Assim como eleitores anônimos, também muitas personalidades que festejaram a vitória de 2008 se tornaram críticos de Obama, embora, obviamente, não tenham se tornado adeptos do Tea Party. Entre eles, os atores Matt Damon (narrador de Trabalho Interno), Robert Redford e Angelina Jolie, os diretores Michael Moore e Spike Lee e a jornalista Maria Shriver.

Obama cercou-se de assessores identificados com interesses ligados a Wall Street e ao complexo industrial-militar, obviamente, contrários àqueles da maioria de seus eleitores. Entre eles, Lawrence Summers, Robert Rubin e Ben Bernanke – três dos principais vilões de Trabalho Interno – e os secretários da Defesa, Robert Gates, e do Tesouro, Tim Geithner. Caiu desde o início na armadilha de aceitar como técnica e consensual uma postura política conservadora e elitista – que na maioria dos países do mundo seria considerada definidamente direitista – e a partir daí negociar concessões à direita mais radical. Sem deixar, por isso, de ser execrado pelos bancos e transnacionais.

A partir de políticas formuladas por sua equipe, resgatou os grandes bancos dos EUA praticamente de graça, sem exigir contrapartida. Permitiu que seus balanços voltassem a registrar lucros bilionários e que esses fossem distribuídos a seus executi-vos. Combateu a crise com estímulos econômicos ao setor privado e gastos públicos (inclusive militares), apesar da forte queda da arrecadação. Teve de gerar fortes déficits e endividou pesadamente o orçamento da União. Apesar disso, rendeu-se à pressão dos republicanos para prorrogar o corte de impostos dos ricos herdado de Bush júnior – e, ao mesmo tempo, aceitou submeter-se aos cortes das despesas públicas exigidos por esses para “equilibrar” as contas.

Noves fora, isso significou salvar banqueiros e empresários das consequências de seus próprios erros e negociatas e forçar os usuários de serviços públicos – a parte mais necessitada da sociedade estadunidense – a pagar por isso, juntamente com os servidores do Estado. E ainda assim é acusado por grandes empresários de ser “o presidente mais antiempresarial da história”, devido a propostas como a de proteger o consumidor de serviços de saúde e financeiros por meio de regulamentos triviais, muito mais frouxos que os de qualquer outro país civilizado. Apesar de suas promessas de renovar as relações com as nações periféricas, cedeu às pressões dos lob-bies industrial, bélico e sionista, provocou governos da América Latina com pressões econômicas e militares, tentou proteger golpes e ditaduras “amigas” – e mesmo assim é taxado de “anticolonialista” (por Dinesh D’Souza na Forbes, por exemplo).

A elite econômico-financeira dos EUA foi mal-acostumada desde Ronald Rea-gan por taxas de lucro e rendimentos anuais de dois dígitos nas bolsas, resultado de brutal transferência de renda do trabalho para o capital (pela desregulamentação, novas tecnologias e globalização), do resto do mundo para o país (pela globalização dos mercados financeiros e atração de capitais), da classe média para a elite (pela redução de impostos e restrições legais a altos salários) e da elite para a superelite (pelo uso sem limites de bônus, derivativos e inovações financeiras). A concentração de renda aumentou e a mobilidade social diminuiu perigosamente. A própria classe média alta está agora em perigo: mostram as estatísticas que o desemprego trazido por inovação tecnológica e globalização, que nos anos 80 afetava principalmente os menos educados, agora atinge as profissões mais qualificadas.

Com a crise, tudo isso chegou ao limite, se é que já não o tinha ultrapassado muito antes. Como notou Michael Moore ao discursar aos manifestantes de Wisconsin, as 400 famílias mais ricas dos EUA detêm, hoje, metade da riqueza do país, tanto quanto os outros 155 milhões de famílias, somadas. Aos 60% menos ricos, cerca de 93 milhões, cabem 2,3% dos ativos totais.

Fosse uma economia promissora, não sobrecarregada por dívida pública e privada, Obama talvez soasse menos ameaçador ao propor que a elite, após décadas de contínua engorda, contenha o apetite e dê a vez às massas para que tenham sua fatia do crescimento econômico, no interesse do conjunto da sociedade e de sua prosperidade a longo prazo. Mas, na falta de perspectivas imediatas, qualquer gesto de simpatia para com os menos favorecidos soa como radicalismo perigoso. Declarou-se a luta de classes e o jogo de ganha-ganha, do qual Obama gosta de falar, acabou antes de começar. O capital sabe que, hoje, o jogo é de soma zero. Resta a Obama tentar negociar os cordeiros com um lobo que nem sequer se dispõe a esperar que engordem.

A direita Tea Party está decidida a continuar lucrando cada vez mais, haja ou não base material para isso. Na falta desta, a solução é tomar o poder no grito (transmitido pela Fox e financiado pelas transnacionais) para desmantelar os serviços públicos e a previdência social e baixar salários, mesmo que para isso se façam necessárias medidas quase fascistas de proibição da organização sindical e da negociação coletiva. Ao mesmo tempo, Wall Street, com a cumplicidade do Fed e sem nada ter aprendido com 2008, volta a tentar aspirar à poupança do mundo para financiar perigosas jogadas financeiras. Com isso, arrisca-se a matar suas três galinhas dos ovos de ouro: a classe trabalhadora, que deu à sua economia a liderança em produtividade, a classe média, que garantiu o consumo de seus produtos, e o dólar, que deu a seu sistema financeiro o controle da circulação mundial da riqueza. Mas os deuses primeiro enlouquecem a quem querem perder.