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24.3.11

24 de março da Argentina

 
Esperando o 24 de março


O julgamento daqueles que incitaram o golpe é uma fatura pendente na Argentina. Apesar de todas as ações articuladas para tentar deter o golpe militar – entre elas o lançamento da fórmula Cámpora-Alende para frear o avanço castrense -, a decisão de grandes grupos econômicos – os Rocca, Bulgheroni, Pagani, Perez Companc, Bunge Born e Soldati entre outros – tornou-o inevitável. No dia 24 de março, a Casa Rosada foi ocupada por militares genociadas, apoiados por esses empresários. O artigo é de Manuel Justo Gaggero.

Manuel Justo Gaggero - Argenpress.info

Corria o ano de 1975, o bando paraestatal Aliança Anticomunista Argentina, a Triple A, semeava de cadáveres de militantes políticos, sociais, sindicais e estudantis o país, com a impunidade garantida pelo governo de Isabel Martínez de Perón. Os empresários reunidos no Conselho Empresarial Argentino (CEA), os grupos econômicos mais concentrados, em aberta oposição ao governo, estimulavam a interrupção da ordem constitucional, que era discutida nos quartéis.

Em junho, o movimento sindical de base e os sindicatos mais combativos manifestam sua oposição ao plano econômico anunciado pelo flamante ministro da Economia, Celestino Rodrigo, e forçam a burocracia sindical a convocar uma greve geral e uma mobilização na Praça de Maio, que provoca a queda do mencionado ministro e de José López Rega, na época ministro de Bem-Estar Social e cérebro da Triple A.

Nestes dias a direção do Partido Revolucionário dos Trabalhadores recebe a informação, obtida pelo setor de inteligência, que a cúpula militar – Videla, Massera e Agosti – preparava o golpe para a última semana de março. Frente a isso, decide propor a todos os setores democráticos a organização de uma Frente Democrática Antigolpista, ao mesmo tempo em que o Exército Revolucionário do Povo (ERP) oferece uma trégua à presidenta, exigindo a libertação dos presos políticos e a revogação da legislação repressiva.

Organizamos diferentes entrevistas com dirigentes políticos – Alfonsin, Alende, Sueldo, Alberte, Balbín, entre outros, e, ao mesmo tempo, nos reuníamos na clandestinidade com Augustín Tosco que se somou entusiasticamente à ideia e viajou com esse propósito para Buenos Aires.

O Conselho Empresário Argentino, presidido por Alfredo Martínez de Hoz, integrava o Council of the Americas, e, como já assinalamos, estimulava a quartelada militar. O que era esse organismo?

Ele nasce em 1965, impulsionado por David Rockfeller, cabeça do império financeiro norteamericano, e é composto por grandes corporações que operam no continente. Seus objetivos, como assinala a sua declaração de princípios, é promover a livre empresa, a abertura das economias, a liberdade de movimentos de capitais, a integração econômica, a defesa da propriedade privada e a não intervenção estatal na economia.

Em uma palavra, como assinala seu fundador, o “Conselho das Américas trata de promover o triunfo dos princípios econômicos liberais frente às ideias estatistas e nacionalistas que se difundiram no continente seguindo o exemplo da Revolução Cubana”.

Uma de suas subsidiárias é a The Americas Society, fundada em 1967, que se ocupa especialmente das atividades culturais e políticas dos países latino-americanos. Relacionado com meste Conselho surge na Argentina o Conselho Empresário Argentino (CEA), liderado por Adalbert Kieger Vasena, que ocupava o cargo de ministro da Economia da ditadura militar de Onganía.

É interessante levar em conta a estreita relação entre David Rockfeller e Alfredo Martínez de Hoz, idealizador do plano econômico posto em marcha com o terrorismo de Estado em 1976. O primeiro era dono do todo poderoso Chase Manhattan Bank e o “orelhudo” era um de seus assessores na Argentina.

Neste contexto se decidiu que editaríamos uma revista quinzenal para propagandear a unidade democrática e, ao mesmo tempo, gerar um meio de expressão que desse apoio às organizações operárias de base, que na grande Buenos Aires se expressavam por meio do “movimento das coordenadoras”. Assim nasceu uma etapa de “Novo Homem”, revista que em diferentes épocas foi dirigida por seu fundador Jarito Walter, por Alicia Eguren, Silvio Frondizi e Rodolfo Mattarollo.

Ficou acertado que a equipe de redação seria clandestina, não seriam emitidas notas para evitar represálias e que só apareceria o nome do diretor que eu ocupava, já que estava clandestino. As normas que regulam as distribuidoras exigiam um responsável, para evitar problemas legais.

Assim se formou um grupo de jornalistas extraordinários coordenado por Enrique Raab e integrado, entre outros, por Susana Viau, Edgardo Silverskarten, Roberto Jacoby, Héctor Demarchi, Oscar Martínze Zemborain e Alberto Zpumberg. Osvaldo Acosta, um advogado que havia se destacado na defesa de presos políticos, se encarregava da relação com os distribuidores e de resolver todos os problemas relacionados com a impressão.

A ideia era fazer uma revista diferente das revistas políticas da época. Por isso tínhamos distintas seções – espetáculos, esportes, vida cotidiana e, inclusive, receitas de cozinha. O PRT, que financiava o quinzenário, não colocou nenhuma condição, razão pela qual pudemos utilizar toda a imaginação desse grande companheiro que era Enrique Raab, uma pena excelente, que havia integrado a equipe de “A opinião” em sua melhor época.

Entre outras notas das quais me lembro está uma feita por Susana Viau comentando a esperada morte do ditador espanhol Francisco Franco, e a triste cobertura que Héctor Demarchi teve que fazer, em novembro desse ano, do sepultamento de Augustín Tosco.

Em algum momento faremos uma nota sobre esta experiência. Recordamos que vários destes companheiros foram sequestrados-desaparecidos. Héctor e Enrique entre outros, Susana, el Chino e este que vos escreve tomamos o caminho do exílio. Osvaldo Acosta esteve preso na Escola de Mecânica da Armada durante três anos e foi uma das principais testemunhas no julgamento das Juntas Militares em 1983. O resto permaneceu no país, numa espécie de exílio interno.

No dia 23 de março de 1976 saiu o último número da revista, um dia antes da Casa Rosada ser ocupada pelos militares genocidas.

Mas, apesar de todas as ações articuladas – entre elas o lançamento da fórmula Cámpora-Alende para frear o avanço castrense -, a decisão dos grupos econômicos concentrados – os Rocca, Bulgheroni, Pagani, Perez Companc, Bunge Born e Soldati entre outros – tornou-o inevitável.

Soa neste momento, 35 anos depois daquele fatídico dia, a frase de um jurista norteamericano nos julgamentos dos criminosos nazistas em Nuremberg que, ao se referir aos grupos econômicos que apoiaram Hitler, afirmou: “a civilização não pode se permitir nenhum compromisso com as forças sociais que adquiriram nova potência se nós trabalhamos de modo ambíguo e indeciso com os homens que asseguraram a sobrevivência destas forças”.

O julgamento daqueles que incitaram o golpe é uma fatura pendente na Argentina.

(*) Manuel Justo Gaggero é advogado, ex-diretor das revistas “Novo Homem” e “Dezembro 20”.
Tradução: Marco Aurélio Weissheimer

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