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10.3.11

O bom cinema uruguaio

 
 
Cinema uruguaio: 10 anos depois, muitos prêmios e um dilema

 
No panorama recente do cinema latino-americano, o Uruguai ocupa uma posição no mínimo intrigante: produz-se pouco, impressiona-se muito. Como faz um país de pouca tradição cinematográfica e cerca de três milhões habitantes, sem público suficiente para pagar sozinho seus próprios filmes, para emplacar obras quase sistematicamente em festivais de primeira linha, como o de Berlim e o de Cannes, nos últimos 10 anos? Está aí algo que os próprios uruguaios estão tentando descobrir. Enquanto a resposta não vem, são vários os esforços do governo do Uruguai – e os questionamentos de seus cidadãos – para fazer seu cinema crescer, além de aparecer.

A boa onda uruguaia começa em 2001 com o lançamento de 25 Watts, o primeiro longa-metragem da dupla Juan Pablo Rebella e Pablo Stoll, feito sem maiores pretensões, mas que teve ampla repercussão – certamente muito além da esperada por seus realizadores. Eles queriam fazer um filme “jovem e auto-biográfico”, como declararam na época, sobre a vida tediosa de três adolescentes vivendo em Montevidéu. Para isso, abriram com o produtor Fernando Epstein uma empresa, a Control Z, e chamaram para um dos papéis principais um ator até então desconhecido, Daniel Hendler.

Os dois deram certo: a Control Z virou o centro das atenções do cinema uruguaio, produzindo, co-produzindo e lançando vários dos títulos nacionais contemporâneos mais importantes, e Hendler, apesar de não ter virado uma “estrela uruguaia”, fez carreira internacional depois de protagonizar três filmes do cineasta argentino Daniel Burman (Esperando o messias, O abraço partido e Direito de família). 25 Watts, por sua vez, ganhou vários prêmios em festivais como os de Rotterdam, Buenos Aires (BAFICI), Havana, Lima eGramado, além de estrear comercialmente em vários países.

Em 2002, foi a vez de Coração de fogo ganhar o troféu de melhor filme hispano-americano do Goya, o Oscar espanhol. Escrito e dirigido por Diego Arsuaga, o filme conta com as atuações de dois importantes atores argentinos (Hector Alterio e Federico Luppi), revelando a íntima relação do cinema do Uruguai com a vizinha Argentina, que goza de tradição cinematográfica muito maior.

Mas é em 2004 que Whisky, o segundo trabalho de Rebella (que morre precocemente, suicidando-se em 2006) e Stoll, apresenta ao mundo o cinema uruguaio. O longa tem sua estreia na mostra “Um certo olhar” do Festival de Cannes, onde conquista o prêmio da crítica, e soma mais um Goya à conta do Uruguai, se tornando, junto com outros reconhecimentos, o mais premiado dos filmes uruguaios da década.

Por fim, para ficar apenas na esfera dos grandes reconhecimentos, vem Gigante, vencedor do Urso de Prata no Festival de Berlim de 2009, bastante aplaudido em importantes vitrines do cinema latino, como o Festival de San Sebastián. Seu diretor é Adrián Biniez, um argentino radicado em Montevidéu, que conta a história de um solitário que se apaixona por uma funcionária do supermercado onde trabalha operando câmeras de segurança.


Elementos em comum


Em comum, esses e outros sucessos uruguaios da década passada têm dois fatores principais: são co-produções, o que injeta profissionalismode fora no país,e, esteticamente, seguem a narrativa minimalista que consagrou o “novo” cinema argentino dos anos 1990-2000, salvo raras exceções. “Antes de 2001, o que havia eram iniciativas isoladas. A Control Z, principalmente, e outros poucos realizadores profissionalizaram a produção, pegando carona no sucesso dos filmes argentino”, opina o crítico uruguaio Fernán Cisnero. Fazendo as contas, segundo ele, “quando as pessoas pensam em cinema uruguaio, pensam na estética da Control Z.”

Apesar de hoje imperarem os dramas mínimos e o experimentalismo entre os filmes do Uruguai, é para ver En la puta vida, uma história considerada “comercial”, que os uruguaios mais se deslocaram para ir ao cinema. O filme de Beatriz Flores Silva, uma história sobre prostitutas uruguaias na Espanha, levou 150 mil às salas do país também em 2001. Whisky mobilizou quase 56 mil e 25 Watts, apenas 41 mil. Os números, de fato, não são a parte mais atraente dessa história, já que o país tem hoje poucas telas comerciais(148, aproximadamente) e que somente 21% da população viu pelo menos um filme nacional no cinema.


Influência do Estado

É aí que entra a mão estatal. A lei de fomento ao cinema nacional passa a vigorar no Uruguai a partir de 2007, através do Instituto del Cine y del Audiovisual (ICAU). Com ela, os filmes podem se candidatar ao financiamento do Estado, mas, em grande parte, continuam buscando as co-produções. Tanto é assim, que no fim do ano passado, o ICAU e a Ancine assinaram um acordo para a criação de um fundo comum, que disponibilizará 300 mil dólares para filmes binacionais.

Muito antes do Brasil, Argentina e Espanha se tornaram os maiores parceiros do Uruguai na área. Mesmo vendo as co-produções como uma possível saída, Cisneros é pessimista em relação ao cinema de seu país. “Estamos em uma encruzilhada. De um lado, um cinema comercial que não se vende internamente e, de outro, filmes de festivais nos quais o público nacional não se reconhece”, diz.

Certamente, não é fácil estar no meio do furacão. Mas talvez os caminhos não sejam tão opostos como desenham os uruguaios e, entre eles, seja possível criar não uma, mas algumas saídas. Afinal, mesmo sendo o Uruguai um país especialmente pequeno, que país latino-americano não se vê repetindo o mesmo dilema? Ironicamente, é o principal jornal uruguaio, o El País, que joga luz sobre o problema, ao publicar recentemente um artigo sobre os últimos 10 anos de produção nacional. Ele afirma: “O cinema uruguaio gera cada vez mais trabalho e uma imagem positiva do país no exterior”. Interessante constatação, pelo menos para começar.

Camila Moraes

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