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26.4.11

A morte ronda a América

 
 
OEA: mais de 130 mil pessoas foram mortas nas Américas em 2010


Região tem mais de dois terços de todos os sequestros do mundo e onde ocorre um homicídio a cada três minutos.


WASHINGTON - Mais de 130 mil pessoas foram assassinadas em 2010 nas Américas, região que registra mais de dois terços de todos os sequestros do mundo e onde ocorre um homicídio a cada três minutos, informa nesta segunda-feira, 25, a Organização dos Estados Americanos (OEA).

Os dados foram divulgados pelo secretário de Segurança Multidimensional da OEA, Adam Blackwell, na sessão inaugural do 8º Fórum Hemisférico da Sociedade Civil, realizado para abordar o tema da próxima Assembleia Geral do organismo, "Segurança Civil nas Américas".

"O crime e a violência matam em nossa região mais pessoas do que a aids ou qualquer outra epidemia conhecida, e destroem mais famílias que qualquer crise econômica que tenhamos sofrido", afirmou Blackwell.

"A situação chegou a tais extremos que hoje devemos reconhecer que a falta de segurança não só afeta diretamente a integridade física, a tranquilidade e o patrimônio das pessoas, mas representa também uma ameaça à estabilidade, ao fortalecimento democrático, ao estado de direito e ao desenvolvimento de todos os países das Américas", acrescentou.

O secretário-executivo da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), Santiago Canton, lembrou que, de acordo com as estatísticas, a América Latina e Caribe é a segunda região do mundo com piores dados de homicídios.

O secretário de Relações Externas da OEA, Alfonso Quiñónez, afirmou que, oito anos depois da adoção da Declaração sobre Segurança nas Américas, a violência continua sendo uma das principais preocupações que o continente enfrenta.

Fonte: http://www.estadao.com.br/noticias/internacional,oea-mais-de-130-mil-pessoas-foram-mortas-nas-americas-em-2010,710804,0.htm

25.4.11

Rodchenko vive.











 Alexander Rohenko: O dever de experimentar


Mariana Carrillo

Suas obras e influências continuam vivas nos dias de hoje. Alexander Rodchenko era um mutante. Fotógrafo, escultor, pintor, designer. Sua versatilidade expressa bem o que foi a época em que viveu: uma conturbada cena política e social. Mesmo anos após a sua morte, podemos encontrá-lo por todo o lado: de capas de álbum a campanhas presidenciais.

“Nosso dever é experimentar”. Este era seu slogan. Figura central do construtivismo russo, ganhou notoriedade pelo uso da composição diagonal na fotografia, com ângulos extravagantes, muito de baixo ou muito de cima, jogos de sombra e luz. Imagens perturbadoras da sociedade soviética, numa altura em que 70% da população não sabia ler nem escrever e a fotografia se tornou um meio poderoso. Um viés crítico à estética do realismo socialista. Ora retratados com louvor, ora com certa ironia.

Antes do construtivismo nenhum movimento da arte moderna tinha colocado a função social da arte como uma questão política de forma tão explícita. Os construtivistas defendiam que a arte deveria ter um papel prático, socialmente útil, como uma faceta da produção industrial. A produção de máquinas, a engenharia arquitetônica e os meios gráficos e fotográficos estavam muito ligados ao construtivismo, que acreditava que o artista podia contribuir para suprir as necessidades físicas e intelectuais da sociedade.

O termo construtivista foi introduzido pela primeira vez por Kazimir Malevich (pintor abstrato e mentor do suprematismo, que teve grande influência nas primeiras obras de Rodchenko) para descrever o trabalho do artista. Sua proposta inovadora teve repercussões em toda a arte moderna.

Rodchenko trabalhou com a pintura durante anos. Até que as fotomontagens dos dadaístas alemães chamaram sua atenção, a ponto de ele começar suas próprias experiências e dar início à sua jornada na produção gráfica para cartazes, livros e filmes. Seus incomuns trabalhos publicitários e comerciais foram o estopim para uma era de inovação gráfica.

Em sua obra publicitária, Rodchenko teve parceiros importantes, com Dziga Vertov, cineasta e jornalista precursor do cinema direto – um gênero documental que visa tratar a realidade tal qual como é. E também Vladimir Mayakovsky, de quem ilustrou um poema. Destes trabalhos resultou uma parceria revolucionária no design e no layout de jornais.

Certa vez, Rodchenko declarou: “Parece que somente a câmara é capaz de refletir a vida contemporânea” e, assim, assumiu a arte da fotografia. Suas primeiras fotos não passaram do casual: uma pequena casa de madeira no meio rural, retratos de seus amigos... Mas os anos passaram e ele ficou obcecado por ângulos.

Artisticamente suas imagens eram um trunfo, mas politicamente eram mal julgadas. No início dos anos 30, as autoridades soviéticas deixaram de precisar de uma personalidade. Queriam pessoas que fossem direcionadas. Disse Olga Sviblova, curadora de algumas exposições de Rodchenko pelo mundo: “ele insistia em fotografias individuais de forma individual”, recusando se encaixar naquela categoria.

“Quero fazer fotos incríveis, nunca feitas, da própria vida, absolutamente reais, fotografias simples e complexas ao mesmo tempo, que espantarão e arrebatarão as pessoas. Preciso realmente fazer isso. Assim valerá a pena trabalhar e lutar pela fotografia como uma forma de arte”, escreveu Rodchenko em seu diário em 14 de março de 1934.

Sua primeira exposição de fotografias, na Rússia, e o primeiro passo para restabelecer sua reputação como fotógrafo só vieram em 1957, um ano após a sua morte. Mestre em sua arte, Rodchenko acabou sendo perseguido pelo sistema, acusado de formalismo e enfrentando dificuldades financeiras. Só 50 anos depois de sua morte Sviblova presenteou o mundo e o próprio Rodchenko com sua primeira exposição individual.

Ainda hoje as artes e a propaganda recuperam esse legado de Rodchenko. Dois exemplos: o retrato mais divulgado na campanha de Barack Obama para presidente em 2009 - um pôster com seu rosto nas cores vermelha, azul e branca, da autoria Shepard Fairey - tem uma iconografia com influência clara do construtivismo de Rodchenko. E a banda Franz Ferdinand tem duas capas inspiradas em seu trabalho, para além de o vídeo do single “Take me out” trazer ícones famosos do movimento construtivista.  
 
Pesquise sobre Alexander Rodchenko (1891-1956). Este texto não terá espaço suficiente para contar tudo. Você verá coisas como “Rodchenko mudou a fotografia”, “Depois de Rodchenko a arte moderna não mais foi a mesma”, “O design gráfico antes e depois de Rodchenko”. Leia cada notícia. Valem a pena. Rodchenko realmente mudou o espaço da arte.
 
Rodchenko vive.


Fonte: Obvious

Líbia - Guernica revisitada

JORNALISTAS MORTOS NA LÍBIA


Guernica, em cores, ao vivo

Por Alberto Dines


A morte na quarta-feira (20/4) de dois famosos fotógrafos, um inglês e outro americano, vitimados por um violento ataque do exército de Muamar Kadafi em Misrata, trouxe de volta às primeiras páginas a "estratégia do terror" empregada pelo ditador líbio contra os rebeldes que tentam derrubá-lo.

A nefasta expressão foi usada pela primeira vez há quase 74 anos, na Guerra Civil espanhola, pelos generais franquistas apoiados pela Alemanha nazista para arrasar cidades e vilas em regiões que resistiam ao seu avanço. Um dos primeiros alvos da aviação nazi-fascista foi uma cidadezinha do País Basco, Guernica, de seis mil habitantes, em 26 de abril de 1937. Calcula-se que foram mortos três quartos da sua população.

Revoltado com a desumanidade, o pintor Pablo Picasso, então exilado em Paris, produziu o seu famoso mural, Guernica, réquiem em preto e branco convertido em protesto contra a guerra. A estratégia do terror passou no teste e foi largamente empregada por Adolf Hitler a partir de 1939 para aniquilar a Polônia e apossar-se de grande parte da Europa.

Contra a parede

O ditador líbio está impedido pela Otan de usar a sua aviação e seus mísseis, mas não os mercenários dos países vizinhos com o poderoso arsenal de armas russas que acumula há décadas. Está com as mãos livres para quebrar o ânimo dos rebeldes que sonham com a liberdade e tentam derrubá-lo há mais de dois meses.

O fotógrafo e documentarista inglês Tim Hetherington, indicado para o Oscar deste ano por Restrepo, e o fotógrafo americano Chris Hondros, ganhador do Pulitzer de 2004, ambos de 41 anos, estavam em Misrata para documentar a implementação da política de terra arrasada ordenada por Kadafi. Não poderiam supor que as suas mortes tirariam do banho-maria um dos conflitos da zona do Mediterrâneo condenados a eternizar-se pelo cansaço.

A sociedade da informação funciona na base de choques e espasmos intensos, não suporta alongamentos, precisa de desfechos rápidos, nítidos. Os déspotas regionais ora confrontados apostam justamente na volatilidade e na volubilidade da audiência mundial, certos de que a firmeza da resposta pode adiar indefinidamente os desenlaces.

Ao contrário do ocorrido na Tunísia e Egito, a insurreição contra Kadafi desenvolve-se num estado precário, fluido, sem estruturas muito definidas que precisam ser assaltadas e dominadas individualmente. Nessas condições, a vitória só pode ser alcançada pela conquista territorial, sempre dependente de recursos humanos e materiais, principalmente da pressão política mundial.

A morte dos dois jornalistas e os ferimentos em dois outros atingidos pelos morteiros de Kadafi colocou seus flagrantes de guerra na rede mundial, reacendeu o conflito e encostou o governo líbio na parede.

Câmeras e pincéis

Por força do calendário e da geografia (a Líbia foi cenário das mais sangrentas batalhas de blindados da Segunda Guerra Mundial), Misrata tirou Guernica do esquecimento. Juntas, reforçadas – apesar das sete décadas de intervalo – lembram a bestialidade guerreira contra civis.

Ao reafirmar, na véspera do Dia de Tiradentes, o seu compromisso com a defesa dos direitos humanos, a presidente Dilma Rousseff recolocou o país no campo oposto das tiranias, da violência, do fanatismo e das guerras legitimadas por ideologias.

Ao vivo e em cores, Misrata combina-se ao luto de Guernica. Picasso com os seus pincéis, Heterington e Hondros com as suas câmeras, gravaram para sempre o repúdio universal à estratégia do terror.


 Versão ampliada de artigo publicado originalmente no Diário de S.Paulo, 24/4/2011

24.4.11

Enquanto isso...na Líbia

EUA confirmam primeiro ataque com avião não-tripulado na Líbia


BBC

Aviões podem destruir pequenos alvos a quilômetros de distância
As Forças Armadas dos Estados Unidos confirmaram neste sábado que realizaram o primeiro bombardeio com aviões não-tripulados Predator na Líbia, como parte das operações da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) no país.

Militares americanos não deram mais detalhes a respeito do ataque deste sábado. Os Estados Unidos esperam que o uso destes aparelhos possa reduzir o número de mortes civis, por serem mais eficientes e precisos do que os caças convencionais.

A coalizão internacional realiza bombardeios na Líbia contra as forças do regime do coronel Muamar Khadafi, em cumprimento à resolução do Conselho de Segurança da ONU, aprovada em março, que autorizou ataques no país para proteger os civis.

Os aviões Predator têm a capacidade de localizar e destruir pequenos alvos a quilômetros de distância, sendo ideais para ações em áreas urbanas e povoadas. Estas aeronaves já foram utilizadas no Paquistão e no Afeganistão.

Especialistas dizem que o uso destas aeronaves nos bombardeios é sinal de um maior envolvimento dos americanos na Líbia, depois de terem entregue o comando das operações à Otan.

Tribos

O vice-chanceler líbio, Khaled Kaim, indicou neste sábado que tribos leais a Khadafi poderão assumir o lugar do Exército e combater os rebeldes na cidade portuária de Misrata, no oeste do país, caso os militares não tenham sucesso em sua ofensiva.

Misrata vem sendo fortemente atacada pelas forças de Khadafi há semanas. Agências de ajuda afirmam que a cidade já enfrenta uma crise humanitária. Grupos de direitos humanos estimam que mais de mil pessoas já tenham morrido nos combates.

"Foi colocado um ultimato para o Exército líbio. Se ele não resolver o problema em Misrata, então o povo da região (...) tomará a iniciativa", disse o vice-chanceler.

Segundo o vice-chanceler, as tribos reclamam que as vidas de seus integrantes estão prejudicadas devido aos combates em Misrata, que interromperam o tráfego na principal estrada costeira da região e impedem o comércio.

De acordo com Kaim, as tribos tentariam primeiramente persuadir os rebeldes a deixar suas armas, mas caso isto não funcione, eles deverão agir. Nesta situação, os militares ficariam onde estão, disse o vice-chanceler.

No entanto, o coronel Ahmed Bani, porta-voz militar dos insurgentes na cidade de Benghazi, disse que Khadafi está "jogando".

"Ele não é estúpido e não vai permitir que as suas forças deixem Misrata", disse Bani, de acordo com o correspondente da BBC em Benghazi Peter Biles.

O editor de Oriente Médio da BBC, Jeremy Bowen, que está em Trípoli, afirma que, segundo o regime, a razão pela qual Khadafi está relativamente seguro no oeste líbio é que as principais tribos - que possuem muito poder e influência no país - estão do seu lado.

No entanto, o governo já usou a perspectiva de uma guerra civil tribal como um aviso aos líderes rebeldes e à Otan. Assim, segundo Bowen, é possível que o vice-chanceler estivesse não fazendo uma ameaça, mas sim retratando a realidade da situação das tribos.

O regime está se vendo cada vez mais isolado e está torcendo para algum tipo de solução diplomática, afirma o editor da BBC.

Trípoli

Enquanto isso, as forças da Otan realizaram mais bombardeios em Trípoli neste sábado. O governo líbio afirma que três pessoas morreram nos ataques.

Jornalistas estrangeiros foram levados por representantes do regime a um bunker de concreto que sofreu dois ataques, próximo ao complexo de Bab al-Azizia, principal centro de proteção de Khadafi na capital. Autoridades afirmam que a área possui civis.

Sexta-Feira Santa e Sangrenta - Síria

 
 
Revolta Árabe: um final de semana sangrento na Síria

A escalada de violência na Síria alcançou sexta-feira um novo apogeu. As forças de segurança leais ao presidente Bashar al-Assad abriram fogo sobre as centenas de milhares de manifestantes pro-democracia, matando mais de 100 pessoas. Neste sábado, os militares abriram fogo contra milhares de pessoas que compareceram aos funerais de manifestantes mortos durante protestos contra o governo ocorridos na sexta. Relatos indicam que pelo menos mais nove pessoas morreram.

Esquerda.net

Apesar de Bashar al-Assad ter declarado a suspensão da lei de emergência, imposta pelo seu partido – o Baath, quando este tomou o poder através de um golpe de Estado há 48 anos, na sexta-feira as forças de segurança sírias utilizaram munição real e bombas de gás lacrimogêneo para conter os protestos anti-governamentais realizados por todo o país. Foram mortos mais de 100 manifestantes e há relatos de centenas de feridos.

O decreto assinado na quinta-feira por Assad, que veio levantar a lei de emergência, é visto pela oposição como pouco mais que simbólico, já que se mantêm outras leis que dão amplos poderes às forças de segurança.

A dimensão do protesto agendado para a “Grande Sexta-Feira” de 22 de Abril espelha a manutenção do descontentamento do povo sírio. Foram registadas manifestações em várias cidades.

Em Kisweh, perto de Damasco, as pessoas clamavam por liberdade. Na cidade mediterrânea de Banias, os manifestantes exigiam a queda do regime. Em Damasco, as forças de segurança montaram controles de acesso à cidade e nas principais artérias do centro e a família do presidente foi o alvo da ira dos manifestantes. Homs, Moadamia Daraa, Douma, Zamalka, Deir al-Zor, Qamishli, Hama, Izraa, Daraa, Raqqa, Zeinab Sayda, Harasta, Barzeh, Tartous, Latakia, Ras Al-Ayn, Amouda, e al- Hassakeh também foram palco de protestos.

Na sua primeira declaração conjunta, citada pelo Guardian, os auto-denominados "comitês locais de coordenação", que representam as províncias de toda a Síria, afirmaram que "os slogans de liberdade e dignidade não podem ser alcançados senão por uma mudança democrática pacífica".

Barack Obama condenou, em comunicado, "esse uso abusivo da violência para reprimir os protestos” e acusou al-Assad de recorrer à ajuda iraniana em reprimir os cidadãos”

Império em Apuros - Oriente Médio

Oriente Médio: retrato do Império em apuros


Por Immanuel Wallerstein*

Nos últimos cinquenta anos, a política dos Estados Unidos no Oriente Médio tem sido construída em torno de relações muito próximas com três países: Israel, Arábia Saudita e Paquistão. Em 2011, porém, Washington está em desacordo com os três, e de maneira fundamental. Também é público a divergência com Reino Unido, França, Alemanha, Rússia, China e Brasil sobre as políticas na região. Parece que quase ninguém concorda com os Estados Unidos ou segue sua liderança. Pode-se ouvir a frustração agonizante do presidente, do Departamento de Estado, do Pentágono e da CIA – todos veem a situação saindo do seu controle.

O motivo de os Estados Unidos terem criado uma aliança tão forte com Israel é ponto para muito debate. Mas é claro que, por muitos anos, o relacionamento tem ficado cada vez mais sólido, e segue cada vez mais os termos de Israel. O país tem contado com apoio financeiro e militar dos EUA, e a certeza do veto infalível no Conselho de Segurança da ONU.

O que ocorreu agora é que tanto as políticas israelenses quanto suas bases de apoio nos EUA têm se movido rapidamente para a direita. Israel aferra-se a duas coisas: o adiamento eterno de negociações sérias com a Palestina e a esperança de que alguém irá bombardear o Irã. Obama tem se movido em direção contrária, ao menos tanto quanto a política interna dos Estados Unidos lhe permite. As tensões são fortes e o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu está rezando – se é que ele reza – para uma vitória dos republicanos na eleição presidencial em 2012. O desfecho da crise pode, porém, vir antes, quando a Assembleia Geral da ONU votar para reconhecer a Palestina como um Estado-membro. Os Estados Unidos irão se encontrar na posição perdedora de lutar contra isso.

A Arábia Saudita manteve um relacionamento confortável com Washington desde que o presidente Franklin Roosevelt encontrou-se com o rei Abdul Aziz em 1943. Juntos, tinham a capacidade de controlar a política de petróleo em todo o mundo. Colaboraram em assuntos militares e os Estados Unidos contaram com a ajuda do aliado próximo para apoiar outros regimes árabes em cheque. Porém, hoje o regime saudita sente-se muito ameaçado pela segunda revolta árabe. Também ficou totalmente desconcertado com a decisão dos Estados Unidos de reconhecer o destronamento de Mubarak pelo seu exército; e pela crítica de Washington à intervenção saudita no Bahrain, por mais que a crítica tenha sido leve. As prioridades dos dois países são bastante diferentes agora.

Durante a Guerra Fria, quando os Estados Unidos consideravam a Índia próxima demais da União Soviética, o Paquistão obtinha total apoio norte-americano (e da China), qualquer que fosse o seu regime. Os dois países trabalharam conjuntamente para auxiliar os mujahedins no Afeganistão e forçaram a retirada das tropas soviéticas. Eles provavelmente trabalharam juntos para conter o crescimento da al Qaeda. Duas coisas mudaram. No período pós-Guerra Fria, os Estados Unidos desenvolveram relações mais próximas com a Índia, para a frustração do Paquistão. E o Paquistão e os Estados Unidos encontram-se em extremo desacordo sobre como lidar com a força crescente da al Qaeda e do Talibã no Paquistão e Afeganistão.

Um dos principais objetivos da política externa dos EUA, desde o colapso da União Soviética, tem sido evitar que os países da Europa Ocidental desenvolvam políticas autônomas. Mas hoje, os três países principais – Reino Unido, França e Alemanha – estão fazendo isso. Nem a linha dura de George W. Bush, nem a diplomacia suave de Barack Obama parecem ter retardado isso. O fato de a França e o Reino Unido pedirem que os Estados Unidos assumam uma liderança mais ativa na luta contra Kadafi, enquanto Alemanha diz praticamente o oposto é menos importante que os três expressarem essas opiniões muito alto e fortemente.

Rússia, China e Brasil estão usando suas cartas cuidadosamente no que diz respeito às relações com Washington. Os três se opõem às posições dos EUA em quase tudo atualmente. Eles podem não ir até o fim (deixando de usar o veto no Conselho de Segurança) porque os Estados Unidos ainda têm garras que podem usar. Mas eles certamente não estão cooperando. O fiasco da recente viagem de Obama ao Brasil, onde ele pensou que conseguiria obter uma nova abordagem da presidente Dilma Rousseff – mas não conseguiu – mostra quão pouca influência os Estados Unidos têm no presente.

Finalmente, a política interna mudou. A política externa bipartidária caiu na memória histórica. Agora, quando os Estados Unidos entram em guerra, como na Líbia, a opinião pública mostra apenas cerca de 50% de apoio. E políticos dos dois partidos atacam Obama – ou por ser muito belicoso, ou por ser muito pacifista. Estão todos esperando para lançar-se sobre ele, diante de qualquer insucesso grave. O resultado disso pode ser forçá-lo a intensificar o envolvimento dos EUA em todos os lugares e, desse modo, agravar a reação negativa de todos os aliados.

Madeleine Albright chamou os Estados Unidos de “nação indispensável”. O país ainda é o gigante na cena mundial. Mas é um gigante desajeitado, incerto sobre onde e como quer chegar. A medida do declínio dos Estados Unidos é o grau em que os aliados próximos de antes estão prontos para defender seus desejos e manifestar isso publicamente. A medida do declínio dos Estados Unidos é a incapacidade do país em declarar publicamente o que está fazendo, ou a insistência em dizer que tudo está realmente sob controle. Os Estados Unidos efetivamente tiveram que desembolsar uma quantia muito grande de dinheiro para liberar da prisão um simples agente da CIA no Paquistão.

A consequência disso tudo? Muito mais anarquia no mundo. Quem vai lucrar com isso tudo? No momento, é uma questão que está em aberto.

*Imanuel Wellerstein é um sociólogo dos Estados Unidos

Sexta-feira sangrenta na Síria

Síria = Revolução em banho de sangue

 *Curiosamente a Síria, luta sózinha sua revolução. Sem o  "glamour" da revolução egípcia, que encontrou nas redes sociais, em especial, um forte apoio, os sírios vem sendo barbaramente reprimidos...e há um enorme silêncio no mundo*.



Polícia Síria abre fogo sobre manifestantes

A polícia síria abriu fogo sobre a população da cidade de Izra que participava no funeral de 12 vítimas das manifestações de sexta-feira.

Uma possibilidade para a qual as organizações de defesa dos direitos humanos já tinha avisado.

Fontes da oposição dizem que as cargas policiais de sexta-feira mataram 112 civis, números que divergem dos oficiais.

A televisão pública falou de apenas três mortos e 28 feridos.

As principais manifestações ocorreram nas cidades de Daraa, Damasco, a capital, e em duas cidades satélite, Homs e Hama.

Terá sido nestes dois arredores que a violência policial teve maior expressão.

Fontes da oposição dizem que os restantes funerais deste sábado devem provocar novas manifestações e novas cargas policiais.

A França apelou ao presidente Bashar el-Assad apara que inicie um processo de diálogo com a oposição para estancar a esta vaga de violência.

Os acontecimentos de sexta-feira são já considerados os mais graves, desde do começo dos protestos, há um mês.

O regime remodelou o governo e levantou o estado de emergência que vigorava há meio século. Mas isso em nada contribuiu para acalmar a situação.



Repressão policial na cidade síria de Homs

Bashar al-Assad

A contestação na Síria radicaliza-se. As forças de segurança recorreram-se à força para dispersar milhares de pessoas que protestaram contra o regime de Bashar al-Assad, esta noite, em Homs.

Não há informações sobre vítimas.

A violenta repressão dos últimos dias provocou inúmeros mortos e feridos e estará na origem do alargar da contestação no país. Deraa, Homs, Damasco Lattaquié e banias são cidades em que a população reforçou o protesto, apesar das promessas de reformas do chefe de Estado Bachar al-Assad.

As imagens de funerais de vítimas de violência sucedem-se, mas não apenas do lado dos opositores mas também de apoiantes do presidente e dos 40 anos de regime.

Desde o início da contestação já morreram pelo menos 200 pessoas. Ainda de acordo com a Amnistia Internacional, há inúmeros detidos.

Fonte: http://pt.euronews.net

EuropaXCrise

A Europa em seu labirinto

Roberto Savio | Washington


O presidente do Conselho de ministros de Finanças da Europa e primeiro-ministro de Luxemburdo, Jean Claude Junker, ficou famoso por ter declarado: “Todos sabemos o que deveríamos fazer, mas se o fizéssemos perderíamos todas as eleições”. Esta frase, uma declaração de impotência da política, indica o caminho que o continente está seguindo.

O governo de Portugal é a última vítima deste caminho. Todos os mecanismos criados pelas instituições europeias para ajudar seus membros em crise estabelecem como condição eliminar o déficit orçamentário nacional. Mas já temos dados suficiente para saber em que estamos nos metendo.

Grécia, Irlanda e agora Portugal têm acesso a centenas de bilhões de euros de ajuda. Mas trata-se de empréstimos e embora os juros sejam um pouco mais baixos do que cobram os bancos privados, permanecem muito altos. Acumulam-se a cada dia. Para receber tais créditos, os governos comprometem-se a cortar seus orçamentos mais do que seria politicamente aceitável. E no caso de países com alta dependência do gasto público para sua estabilidade e crescimento, cortes drásticos significaram sempre desaceleração econômica, quando não inflação, o que torna ainda mais difícil pagar cada euro da dívida.

Em economia, a isto se dá o nome de “a armadilha da dívida”. O remédio tradicional era desvalorizar a moeda nacional, o que agora é impossível para os 17 países que adotaram o euro como moeda única – ou, então, declarar algum tipo de moratória, igualmente impossível, já que arrastaria todo o castelo europeu. Simon Tilford, economista-chefe do Centro para a Reforma Europeia, de Londres, escreveu: “Há um limite para os cortes de orçamento que um governo pode aplicar e sobreviver politicamente” se não se vê, como luz no fim do túnel, uma perspectiva de crescimento econômico.

Mas sabemos que esta luz não se vê na Grécia, Irlanda ou Portugal. As estatísticas dizem que os Estados não puderam aumentar suas receitas – ao contrário. Em boa medida, porque o déficit social aumenta, com desemprego e redução de investimentos privados e sobretudo públicos. Como observou Antonio Nogueira Leite, economista do Partido Social Democrático português (opositor e à direita do primeiro ministro demissionário José Sócrates): “As probabilidades de que a Grécia tenha de reestruturar sua dívida não são menores que há um ano e os negociadores levarão isso em conta, quando discutirem o tipo de juros que se aplicará aos empréstimos europeus”. E a revista Economist escreveu: “O plano internacional para salvar a Grécia está paralisando o país”.

Como sempre, descobre-se que um fator importante é o sistema financeiro. Os bancos da Alemanha, França, Reino Unido e Holanda, por exemplo, têm uma grande quantidade de bônus da Grécia, Irlanda e Portugal. E se estes últimos não puderem pagar suas dívidas, o sistema de bancos de primeira linha – considerados fortes – enfrentará uma crise grave.

Enquanto isso, a reforma financeira britânica, que deveria introduzir medidas de controle para evitara no futuro os excessos especulativos que causaram a crise atual, produziu resultados muito limitados. Os banqueiros voltaram a cobrar vencimentos desmesurados, sem nenhuma relação com os resultados das operações. Sabemos que o sistema continua tendo em suas carteiras 50% dos papéis “podres” (ou “tóxicos”), apesar dos bilhões de dólares destinados a salvar as instituições.

Neste panorama, os Estados Unidos acrescentam elementos de instabilidade internacional. Sua crise foi simbolizada pela luta do Partido Republicano para cortar o orçamento federal. Ela terminou com uma derrota para o presidente Obama, obrigado a aceitar um corte de 83 bilhões de dólares. E espera-se, para os próximos dias ou semanas, uma batalha muito mais grave: os republicanos querem reduzir dramaticamente todos os gastos sociais e públicos.

A realidade é, desgraçadamente, muito mais simples. A opinião pública norte-americana não aceita que a carga tributária seja maior que 28% do PIB. Para manter o equilíbrio, esta carga deveria subir para 32%. É algo politicamente impossível, a acabou-se o tempo em que os Estados Unidos podiam viver exportando seus problemas para a economia mundial, graças ao status do dólar como moeda de reserva internacional. Há, a cada ano, menos demanda para os bônus do Tesouro norte-americano, o dólar continua a se desvalorizar e a mais recente expansão monetária (quantitative easing), de 60 bilhões de dólares, é provavelmente a última que poderá ser adotada sem causar graves consequências.

Como se vê, também nos Estados Unidos o déficit fiscal prevalece sobre o déficit social. Há alguns dias os eleitores da Islândia votaram contra o uso do dinheiro públicos para saldar as perdas bancárias e os cortes de orçamento. Não seria uma indicação de um caminho alternativo?

* Roberto Savio é fundador e presidente emérito da agência de notícias IPS (Inter Press Service) e publisher de Other News. Publicado em Outras Palavras.

22.4.11

A Verdade está lá fora

Parte 2



Parte 1



Documentário - “The Orion Conspiracy”


“The Orion Conspiracy” é resultado de um trabalho de dois anos do artista francês Seb Janiak, em um roteiro de fundo ecoando as idéias de Picknett and Prince.


http://www.theorionconspiracy.com/

OIL WAR











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Fonte: Patria Latina

http://www.patrialatina.com.br/editorias.php?idprog=06a50e3f66db4a334202d3adfd31c589&cod=7725

Iraque saqueado

 
 
Wikileaks: o saque do petróleo no Iraque

Por Altamiro Borges

Documentos vazados pelo WikiLeaks nesta terça-feira (19) comprovam, mais uma vez, que a "guerra" no Iraque foi uma grande farsa - tramada pelas potências capitalistas e amplificada pela mídia corporativa. Eles mostram que o governo britânico, em conluio com o dos EUA, discutiu a partilha do petróleo do país invadido um ano antes da invasão. A história da existência de armas de destruição em massa foi mais uma mentira abjeta e descarada das nações imperialistas.


Partilha combinada um ano antes
Conforme notícia publicada no jornal inglês The Independent, os documentos vazados pelo WikiLeaks revelam que "os planos para exportar as reservas de petróleo do Iraque foram discutidos por ministros do governo britânio e as principais petroleiras internacionais um ano antes da Grã-Bretanha aceitar, junto com os Estados Unidos, invadir o solo iraquiano".

O jornal lembra que a grave denúncia sobre a existência do plano prévio já havia sido feita em março de 2003. Na época, tanto Shell com a BP negaram que tivessem se reunindo às escondidas em Downing Street, sede do governo britânico, para discutir a partilha do petróleo. O primeiro-ministro na época, o capacho Tony Blair, também qualificou as denúncias de "totalmente absurdas".


Saqueadores e criminosos


Agora, porém, os documentos vazados pelo WikiLeaks confirmam a trama e desmascaram os mentirosos - que deveriam ser processados pela morte de milhares de pessoas no Iraque. Os memorandos publicados no The Independent, datados de outubro e novembro de 2002, dão detalhes sobre as reuniões.


Num deles, de cinco meses antes da invasão, Elizabeth Symons, ministra de Comércio, afirma à BP que o governo queria que as companhias energéticas britânicas recebessem parte dos enormes benefícios do petróleo e do gás do Iraque como recompensa pela ajuda militar dada por Blair aos Estados Unidos para a mudança do regime iraquiano.


Fonte:http://www.patrialatina.com.br/editorias.php?idprog=06a50e3f66db4a334202d3adfd31c589&cod=7725

18.4.11

"Hoje, 94 brasileiros morrerão depois de receber um disparo de arma de fogo".


Revólveres, pistolas e fuzis: as verdadeiras armas de destruição em massa
 
 
João Paulo Charleaux | Santiago
 
 Hoje, 94 brasileiros morrerão depois de receber um disparo de arma de fogo. É como se a tragédia ocorrida há uma semana na Escola Municipal Tasso da Silveira, em Realengo, no Rio de Janeiro, se repetisse oito vezes por dia. Todos os dias.

Por não compor um enredo comovente, esta hecatombe a granel passa para os registros sorrateiramente – não há cartas de psicopatas suicidas, nem há vídeos no Youtube mostrando parentes gritando na rua e estudantes fugindo. Não é notícia. E, por isso, os 60 milhões de brasileiros que foram contra a proibição do comércio de armas no Brasil, no referendo de 2005, não se sentem responsáveis por nada disso.

Agora, uma nova iniciativa parlamentar pretende convocar mais um referendo sobre o tema, provavelmente, para o dia 2 de outubro. A proposta, apresentada pelo senador José Sarney depois da tragédia de Realengo, já está na CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) do Senado e deve ir a plenário na sequência. Com sorte, os brasileiros terão uma segunda chance de decidir sobre um assunto vital e negligenciado.

Em todo o mundo, a produção, o comércio e o tráfico de pequenas armas de fogo e munição constituem um dos aspectos mais obscuros, menos regulados e mais cinicamente ignorados pela opinião pública.

O Brasil é um grande produtor de armas. Três empresas privadas continuam produzindo a cluster bomb, um tipo de munição altamente letal e imprecisa, proibida pela Convenção sobre Munições em Cacho, da qual o Estado brasileiro não é signatário.

O país é também um grande produtor de revólveres e pistolas. Por dia, são produzidas aqui 2.800 armas de cano curto, das quais 320 ficam no País e o restante é exportado. De cada dez armas apreendidas pela polícia no Brasil, oito são de fabricação nacional. E 70% das mortes por armas de fogo registradas aqui em 2010 foram provocadas pelo uso de armas que entraram legalmente no mercado, ou seja, entraram nas ruas pelas mãos de “pessoas de bem”.

Os assassinos, aliás, também são, na maioria dos casos, “pessoas de bem”. Pesquisadores norte-americanos e australianos realizaram uma pesquisa sobre o perfil dos crimes com armas de fogo em seus países e chegaram à conclusão de que em apenas 15% dos casos as vítimas não conheciam os assassinos. Na maioria das cidades brasileiras, os homicídios também ocorrem entre pessoas que se conheciam, em finais de semana, em brigas de bar ou de família e por motivos fúteis.

Um dos entraves para frear esse massacre é o lobby das empresas produtoras de armas. No referendo brasileiro de 2005, a Taurus doou 2,8 milhões de reais para a campanha do “não” e a CBC (Companhia Brasileira de Cartuchos) doou outros 2,7 milhões de reais. A soma corresponde quase à totalidade do custo da vitoriosa campanha do “não”.

No plano internacional, não é diferente. Grandes empresas e governos poderosos lucram com o comércio de armas – principalmente de fuzis baratos e outras armas menores. O documento que deveria regular o setor, o ATT (Arms Trade Treaty) usa termos como “deveria, quando apropriado e levar em consideração” para referir-se às obrigações dos Estados de não vender armas para beligerantes de contextos onde sabidamente cometem-se crimes de guerra. As exigência de respeitar a lei são cênicas, frouxas e escassas. O comércio e o tráfico proliferam nas brechas.

Frequentemente, o Conselho de Segurança das Nações Unidas aprova resoluções impondo embargo de armas a ditadores e autorizando o uso da força para proteger a população civil, mas não pode fazer nada por essas vítimas cotidianas de baixo perfil. Os EUA movem sua máquina militar contra o Iraque, alegando combater a ameaça de “armas de destruição em massa”, mas nenhum arsenal tem provocado mais mortes do que estas pequenas armas espalhadas pelo mundo. Neste caso, nem o Exército mais poderoso de todos tem o poder que um voto pode ter num novo referendo.


João Paulo Charleaux é correspondente do Opera Mundi no Chile.






Fonte: http://operamundi.uol.com.br

Dia de la Lucha Campesina - Abril Vermelho

Zona Crítica


Fonte: http://www.youtube.com/watch?v=3fIrgPqVPBw&feature=player_embedded#at=15

O ataque euro-americano à Líbia nada tem a ver com 'proteção de civis'

 
 
A CIA por trás da rebelião: O ataque euro-americano à Líbia nada tem a ver com 'proteção de civis'

por John Pilger

O ataque euro-americano à Líbia não tem nada a ver com a proteção de ninguém; só os irremediavelmente ingênuos acreditam nesse disparate. É a reação do Ocidente aos motins populares em regiões estratégicas, ricas em recursos e o início de atividades hostis contra o novo rival imperialista, a China.

O presidente Barack Obama já assegurou o seu lugar na História. É o primeiro presidente negro da América a invadir a África. O ataque à Líbia é chefiado pelo Comando África dos EUA (US África Command), instituído em 2007 para assegurar os lucrativos recursos naturais do continente, roubando-os às populações empobrecidas e à influência comercial da China, em crescimento rápido. A Líbia, juntamente com Angola e a Nigéria, é a principal fonte de petróleo da China. Enquanto os aviões americanos, britânicos e franceses vão incinerando líbios 'maus' e 'bons', assiste-se à evacuação de 30 mil trabalhadores chineses, provavelmente de forma permanente. As afirmações de entidades ocidentais e dos meios de comunicação de que 'um coronel Kadafi criminoso e enlouquecido' está a planear o 'genocídio' contra o seu próprio povo, continuam a carecer de provas. Isto faz recordar as afirmações fraudulentas que exigiram a 'intervenção humanitária' no Kosovo, o desmembramento final da Jugoslávia e a instalação da maior base militar americana na Europa.

Os pormenores também são conhecidos. Segundo se diz, os 'rebeldes pró-democracia' líbios são comandados pelo coronel Khalifa Haftar que, segundo um estudo da Fundação Jamestown americana, montou o Exército Nacional Líbio em 1988 "com forte apoio da CIA". Nos últimos 20 anos, o coronel Haftar tem vivido não muito longe de Langley, Virginia, o lar da CIA, que também lhe fornece um campo de treino. Os mujihadeen, que deram origem à al-Qaida, e o Congresso Nacional Iraquiano, que forjaram as mentiras de Bush/Blair sobre o Iraque, foram patrocinados por Langley, da mesma forma aceite por toda a gente.

Os outros líderes 'rebeldes' incluem Mustafa Abdul Jalil, ministro da Justiça de Kadafi até Fevereiro, e o general Abdel-Fattah Younes, que chefiou o ministério do Interior de Kadafi: ambos com estrondosas reputações de repressão brutal de dissidentes. Há uma guerra civil e tribal na Líbia, que inclui a rejeição popular contra a atuação de Kadafi em relação aos direitos humanos. Mas o que é intolerável para o ocidente não é a natureza do seu regime, é a independência da Líbia, numa região de vassalos; e esta hostilidade pouco mudou em 42 anos, desde que Kadafi derrubou o rei feudal Idris, um dos tiranos mais odiosos apoiados pelo ocidente. Kadafi, com os seus modos beduínos, hiperbólicos e bizarros, há muito que personaliza o 'lobo feroz' ideal (Daily Mirror), exigindo agora que os heróicos pilotos americanos, franceses e britânicos bombardeiem áreas urbanas em Trípoli, incluindo uma maternidade e um centro de cardiologia. O último bombardeamento americano em 1986 conseguiu matar a sua filha aditiva.

O que os americanos, os britânicos e os franceses têm esperança de conseguir é o oposto da libertação de um povo. Ao sabotar os esforços dos genuínos democratas e nacionalistas da Líbia para libertarem o seu país de um ditador e dos corrompidos pelas exigências estrangeiras, o som e a fúria de Washington, de Londres e de Paris conseguiram turvar a memória dos dias de esperança de Janeiro em Tunis e no Cairo e desviar muitos dos que tinham criado esperanças da tarefa de assegurar que as suas conquistas não fossem roubadas furtivamente. A 23 de Março, as forças militares egípcias, apoiadas pelos EUA, emitiram um decreto proibindo todas as greves e manifestações. Isto praticamente não foi notícia no ocidente. E agora, com Kadafi identificado com o demônio, Israel, o verdadeiro cancro, pode continuar a sua espoliação de terras e expulsões. O Facebook, sob pressão sionista, removeu uma página apelando a um levantamento em grande escala na Palestina – uma 'Terceira Intifada' – a 15 de Maio.

Nada disto nos deve surpreender. A história exibe o tipo de maquinação revelado por dois diplomatas seniores nas Nações Unidas, que falaram ao Asia Times. Quando pretenderam saber por que é que as Nações Unidas nunca ordenaram uma missão de avaliação dos fatos à Líbia, em vez de um ataque, disseram-lhes que já muita coisa tinha sido feita entre a Casa Branca e a Arábia Saudita. Uma 'coligação' dos EUA iria 'eliminar' o recalcitrante Kadafi se os sauditas abafassem o levantamento popular no Bahrein. Este último já foi concretizado e o sangrento rei do Bahrein vai ser um dos convidados às bodas reais em Londres.

A personificação desta reação é David Cameron [NT], cuja única verdadeira tarefa tem sido como homem de relações públicas de Michael Green, o oportunista da indústria da televisão. Cameron esteve no Golfo a vender armas aos tiranos inventados pelos britânicos quando a população se levantou contra Abdullah Saleh do Iêmen; a 18 de Março, o regime de Saleh assassinou 52 manifestantes. Cameron não disse nada de jeito. O Iêmen é 'um dos nossos', conforme o Foreign Office britânico gosta de dizer. Em Fevereiro, Cameron desmascarou-se num ataque ao que ele chamou de 'estado de multiculturalismo' – um código para muçulmanos. Disse, "Precisamos de muito menos tolerância do que nos últimos anos!" Foi aplaudido por Marine Le Pen, líder da Frente Nacional fascista de França. "É exatamente este tipo de declarações que nos isolou da vida pública durante 30 anos", disse ela ao Financial Times. "Só posso felicitá-lo".

Num dos seus momentos mais exploradores, o império britânico produziu Davids Camerons aos montes. Contrariamente a muitos dos 'civilizadores' vitorianos, os atuais guerreiros sedentários de Westminster – através de William Hague [NT], Liam Fox [NT] e do traidor Nick Clegg [NT] – nunca foram atingidos pelo sofrimento e banho de sangue que, à custa das diferenças culturais, são as conseqüências dos seus discursos e ações. Com o seu ar mais ou menos informal, sempre altivos, são uns cobardes no estrangeiro, visto que ficam sempre em casa. As suas prendas são a guerra e o racismo e a destruição da democracia social duramente conquistada da Grã-Bretanha. Lembrem-se disso quando forem para a rua às centenas de milhares, conforme é vosso dever.
 
NT
David Cameron: primeiro-ministro do Reino Unido, líder do Partido Conservador
William Hague: político britânico conservador; secretário dos Estrangeiros e primeiro secretário de David Cameron.
Liam Fox: político do Partido Conservador britânico; secretário da Defesa do Reino Unido
Nick Clegg: Líder do Partido Liberal Democrata; vice-primeiro-ministro do Reino Unido, na coligação com o Partido Conservador e presidente do Conselho.



Tradução de Margarida Ferreira.


O original encontra-se em www.johnpilger.com
Este artigo encontra-se em http://resistir.info/

10.4.11

México - Guerra sem Fim

 
 
México: 5.397 desaparecidos durante governo Calderón


Desde 2006 até hoje, ou seja, desde que o presidente Felipe Calderón declarou sua "guerra ao narcotráfico", 5.397 pessoas estão desaparecidas no México. Deve-se agregar a este número 25 mil assassinados a partir do momento que o governo decidiu pela intervenção do exército. Ao todo, já são cerca de 40 mil vítimas de uma guerra negada de nosso tempo. As desaparições têm a mesma função codificada que tinham na Operação Condor: tortura permanente dos familiares, advertência, terror. É uma advertência que se estende à toda a sociedade civil: um terrorismo no qual não é fácil identificar a linha divisória entre as organizações criminosas e o terrorismo de Estado propriamente dito. O artigo é de Gianni Minà.

Gianni Minà

Dan Jeremeel Fernández era um contador de 35 anos, sem antecedentes penais nem nenhum outro problema em particular. No dia 19 de dezembro de 2008 saiu em seu automóvel para se reunir com sua mãe para as festas de Natal em Torreón, estado de Coahuila, no norte do país. Nunca chegou. Desde então, sua mãe Yolanda Morán está procurando-o. Durante sua busca teve que passar por múltiplas vicissitudes comuns a todas as mães de desaparecidos do continente: levantar de ombros, explicações insultuosas, extorsões.

Milhares de mães do México que não interessam aos meios de comunicação internacionais encontram-se como Yolanda. Quem afirma é a Comissão Nacional de Direitos Humanos (CNDH), o organismo público financiado pelo Estado que se ocupa da violação dos direitos humanos, frequentemente criticada por sua cumplicidade com a política oficial, mas sem dúvida um passo adiante. Desde 2006 até hoje, ou seja, desde que o presidente Felipe Calderón declarou guerra ao narcotráfico, onde, segundo a maior parte dos observadores, o exército atua como uma das partes em conflito, 5.397 pessoas teriam simplesmente desaparecido no México. Deve-se agregar a este número 25 mil assassinados a partir do momento que o governo decidiu pela intervenção do exército. Ao todo, já são cerca de 40 mil vítimas de uma guerra negada de nosso tempo.

Pelos desaparecidos mexicanos – dois terços homens, quase sempre jovens, e um terço mulheres – ninguém jamais pediu resgate. São pessoas desaparecidas no nada em uma série de circunstâncias diferentes, mas que podem ser reduzidas a algumas poucas categorias típicas. Parte delas foi sequestrada na rua. Alguns, mas certamente não todos, tinham provavelmente um papel menor em algum cartel. Outros simplesmente desapareceram e a quantidade de jovens trabalhadores sem nenhum vínculo conhecido com organizações criminosas, sobre os quais ninguém tem notícia, vem apresentando forte aumento.

O destino de quase todos eles foi a morte, mas nega-se o luto a seus familiares. Yolanda, assim como provavelmente tantas outras mães, prefere imaginar que seu filho esteja trabalhando para os cartéis do que tenha simplesmente desaparecido. Em 2009, um membro do cartel dos irmãos Arellano Felix confessou que havia dissolvido em ácido pelo menos a 300 pessoas. Em outros casos foram encontradas fossas comuns, como a descoberta em Taxco, estado de Guerrero, com 55 corpos de pessoas assassinadas pelos cartéis. Em um país onde fazer com que se encontre o cadáver do inimigo assassinado, frequentemente após horríveis torturas, é parte da política dos carretéis, o desaparecimento de pessoas é uma variação sobre o mesmo tema.

As suas desaparições têm a mesma função codificada que tinham na Operação Condor: tortura permanente dos familiares, advertência, terror. É uma advertência que se estende à toda a sociedade civil: um terrorismo no qual não é fácil identificar a linha divisória – que, no entanto, existe – entre as organizações criminosas e o terrorismo de Estado propriamente dito. A ONU apoia as estimativas de várias organizações não governamentais que consideram que um número crescente de desaparecidos está na conta do exército federal.

Com 50 mil homens ocupando militarmente muitos estados do país, quase sempre participando ativamente do tráfico de drogas, além de extorqui-lo, praticar estupros e outros crimes é fácil pagar com a vida por uma palavra equivocada, uma propina não paga, ter visto algo que não se deveria ter visto. A CNDH teria poder de investigar todos os casos de violação dos direitos humanos nos quais se suspeita de envolvimento de órgãos do Estado, incluindo a polícia e o exército. A falta de fundos, o medo e a falta ou desaparição de provas, fazem com que tal poder seja somente virtual.

Fonte: http://www.giannimina-latinoamerica.it/archivio-notizie/658-messico-da-quando-calderon-e-presidente-5397-desaparecidos

Tradução: Katarina Peixoto

WIKILEAKS

6.4.11

Como respeitar a inteligência do leitor

EL PAÍS - Como respeitar a inteligência do leitor

Por Washington Araújo

Entre 7/4/2001 e 31/3/2011, o jornal espanhol El País publicou nada menos de 3.085 matérias em que o Brasil é protagonista ou em que é referido, seja por suas políticas públicas, seja por sua cultura, sua economia, seja por seus eventos e também por seus desafios. Publicou editoriais sobre os êxitos do país no campo da mobilidade social, festejou os triunfos de o país ser escolhido para sediar a Copa do Mundo de Futebol de 2014, além de não deixar ao sereno a escolha da cidade do Rio de Janeiro para receber os Jogos Olímpicos de 2016 – batendo não apenas Tóquio e Chicago, mas também Madri. E acompanhou com notável interesse a trajetória política de Luiz Inácio Lula da Silva, em especial nos meses que antecederam sua eleição de presidente do Brasil.

Relativamente novo – surgiu em 4 de maio de 1976, com 180 mil exemplares de tiragem –, El País pode festejar não sua longevidade, sua história em lustrosos números redondos (50, 60, 70, 100, 150 anos), mas, sim, seu apurado faro para a notícia, para dar furos, para levar a sério conceitos basilares do jornalismo, conceitos que em outras publicações – como, infelizmente, em grande parte dos jornais brasileiros – nada mais são que chavões, slogans publicitários, tema de campanha para angariar novos assinantes. Começou, portanto, a circular e a construir sua fama como celeiro de bons jornalistas ao mesmo tempo em que a Espanha fazia sua transição do regime ditatorial para o democrático.

Compromisso pétreo com o leitor

El País vê a si mesmo como "um jornal global, independente, de qualidade e defensor da democracia pluralista". O jornal espanhol se caracteriza pelo grande destaque a informações de âmbito internacional, de cultura e de economia e, obviamente, sobre a Espanha. E não apareceu na cena editorial para ser apenas mais um. Foi além, sendo o primeiro jornal a adotar um Manual de Redação (por eles chamado Libro de Estilo) e implantou o cargo de Defensor do Leitor – que aqui no Brasil achamos melhor cognominar com uma palavra mais simples e próxima da língua de Camões, ombudsman.

Poderia ficar por aqui, mas é importante destacar que El País aprovou um documento chamado Estatuto da Redação, com a missão de regulamentar as relações profissionais entre a redação, a direção do jornal e também a empresa editorial que o sustenta. Abdicou logo cedo de ser uma ilha editorial para ser fonte e caixa de ressonância de vários continentes ao firmar projetos de colaboração com jornais de prestígio em seus países, como Le Monde (França), La Reppublica (Itália), Süddeutsche Zeitung (Alemanha), The Daily Telegraph (Reino Unido), The International Herald Tribune e The New York Times (EUA).

Mas nem sempre a história de um jornal pode ser construída apenas pela adoção de atitudes e posições consideradas corretas em seu tempo. Alternar sol e chuva, calmaria e tempestade, concede a um jornal o direito de saborear isso que chamamos de fonte de autoridade moral. Com El País não foi diferente.

Pois bem, foi durante a tentativa de golpe de 23 de fevereiro de 1981, levado avante pelo tenente-coronel da Guarda Civil Antonio Tejero, aproveitando a instabilidade política e as incertezas que cercavam o país. Com os tanques do exército nas ruas de Valência e com o governo e todos os membros raptados no Congresso, antes mesmo que a TV espanhola conseguisse divulgar a mensagem do rei Juan Carlos condenando o golpe, El País chegou às ruas com uma edição especial com a manchete "El País com a Constituição". E foi o primeiro jornal a marcar posição pela democracia, convocando a população a seguirem juntos. Tais compromissos com a democracia levaram El País a contribuir para a vitória espetacular do PSOE nas eleições de 1982, oferecendo completo apoio ao governo de Felipe González.

Desde então, o jornal vem conquistando admiradores (não apenas leitores ou assinantes) mundo afora. A forma como faz seu leitor entender que seus compromissos estatutários foram redigidos para serem levados a sério, e que estes não estão no balcão de negócios a conectar a área editorial com a comercial, tem sido clara, muito clara. El País é o jornal que com maior propriedade atualmente pode dizer que tem compromisso pétreo com o leitor, compromisso sagrado e sempre acima das lealdades circunstanciais aos governos de plantão, ao empresariado melhor aquinhoado nas Bolsas de Valores.

Para formar opinião própria

Há que se ter em mente que El País inundou seus títulos e suas manchetes com o nome "Lula" no período eleitoral. El País percebeu, ainda em 2002, que o metalúrgico Lula tinha tudo para ser notícia porque representava um vigoroso contraponto da esquerda em um mundo com forte tendência para a direita. E, é obvio, por ser Lula dono de uma história no mínimo incomum, singular – rara, enfim. Há quem realce também a predileção pela publicação do nome de Lula na imprensa espanhola e na francesa devido à sonoridade que carrega, facilitando rapidamente sua imediata repetição nas chamadas jornalísticas.

El País – e grande parte da vistosa imprensa internacional – cobriu com generosos espaços a vitória de Lula nos dois turnos da eleição presidencial de 2002. Registro aqui algumas das manchetes escolhidas por El País naquele outubro a novembro de 2002 e aproveito para citar manchetes de primeira página do jornal Folha de S.Paulo, nas mesmas datas, de forma que o leitor possa formar sua própria opinião sobre o tema deste artigo:

** 1º de outubro

El País: Lula está a um só ponto de ganhar no 1º. turno no Brasil

Folha de S.Paulo: Dólar cai 3%, mas mercado ganha – FHC alerta para "passo no escuro"

** 3 de outubro

El País: Lula revive seus tempos de líder sindical – Trabalhadores e empresários vestem Lula

Folha de S.Paulo: Lula mantém 49%, Serra vai a 22%

** 4 de outubro

El País: Lula promete manter a autonomia ante os EUA para defender os interesses do Brasil – O guerrilheiro que pôs a gravata em Lula

Folha de S.Paulo: Indústria prevê pior ano desde 99 – Serra é mais atacado que Lula no debate

** 6 de outubro

El País: Lula põe à prova sua nova imagem de moderação – O esquerdista Lula, favorito nas eleições de hoje

Folha de S.Paulo: Garotinho disputa com Serra 2º lugar; Lula segue na frente

** 7 de outubro

El País: Lula conseguiu maioria absoluta

Folha de S.Paulo: Lula X Serra – Projeção aponta segundo turno

** 8 de outubro

El País: Lula: Tivemos a maior vitória de um partido de esquerda na América Latina" e "Lula busca aliança com seus rivais para ganhar no 2º turno do Brasil

Folha de S.Paulo: Oposição sai fortalecida das urnas

** 9 de outubro

El País: A esquerda de Lula ganhou em 24 dos 27 estados do Brasil

Folha de S.Paulo: Eleitor troca 47% dos deputados


Concisão e faro jornalístico

Acredito que foi uma amostragem significativa do quanto a palavra Lula abriu a maioria das manchetes – tenhamos em conta que estas foram publicadas antes, durante ou depois do primeiro turno. No segundo turno de 2002, El País enveredou pelo mesmo caminho. Estas são algumas das principais manchetes dos dois jornais:

** 28 de outubro

El País: Lula arrasa com 61,2% dos votos

Folha de S.Paulo: Lula Presidente – Metalúrgico é o primeiro líder de esquerda a ser eleito no país

** 3 de novembro

El País: O que Lula tem que fazer

Folha de S.Paulo: Dívida infla investimento no Brasil

** 8 de novembro

El País: Lula, outro Allende?

Folha de S.Paulo: Pacto começa com crítica à falta de agenda e elogios

** 9 de novembro

El País: Lula anuncia pacto nacional contra a pobreza, a inflação e a corrupção

Folha de S.Paulo: Bush vence e ONU ameaça Iraque


O encadeamento cronológico das manchetes de El País conta uma história com início, meio e fim. As próprias manchetes são exemplos de concisão e faro jornalístico. Algumas colocam em apenas três palavras parte da angústia de quem analisa o processo democrático na América Latina: "Lula, outro Allende?"

Ridicularizando presidentes

O jornal espanhol é, certamente, o melhor jornal a escrever sobre o Brasil. E qualquer estudante de Jornalismo que se proponha pesquisar o olhar da imprensa sobre o Brasil no período 2003/2010 não poderá, em hipótese alguma, deixar de pesquisar os arquivos de El País. É que o periódico espanhol, beneficiado com olhar de quem se encontra longe geograficamente mas próximo jornalisticamente, conseguiu publicar extensas reportagens sobre o Brasil com regularidade, se não diária ao menos semanal e ao longo de período – em termos jornalísticos – tão longo.

Por outro lado é curioso (a palavra que achei!) notar que a recíproca não é verdadeira: a imprensa brasileira dificilmente encontra algum valor-notícia em que o presidente do governo espanhol, José Luiz Rodrigues Zapatero, esteja envolvido. Não obstante seu, vamos dizer, ostracismo na imprensa brasileira, é fato que Zapatero tomou medidas bastante impactantes não apenas para a sociedade espanhola mas também para a cena internacional: deu início ao "processo de paz com o ETA", autorizou a retirada das tropas espanholas do Iraque, enviou tropas ao Afeganistão, promoveu a articulação pela formação da "Aliança de Civilizações", procedeu a legalização do matrimônio entre homossexuais, aprovou a lei "antitabaco", propôs uma nova regulamentação para os imigrantes e fez a reforma de "Estatutos de Autonomia", como o a Catalunha.

A invisibilidade de Zapatero deve-se ao fato de que para nossa grande imprensa notícia mesmo é o que tem os Estados Unidos como protagonista, seu presidente (sejam os anteriores, Bush pai e Bush filho, seja Barack Obama), suas ações de governo em geral. China, França e Reino Unido também estão sempre nas graças de nossas editorias internacionais. A Argentina entra pela porta da cozinha porque é nosso principal vizinho geográfico. A Venezuela e a Bolívia frequentam nosso noticiário pelo viés de que, se há de ridicularizar alguém, por que não presidentes como o coronel Hugo Chávez e o ex-cocaleiro Evo Morales?

O melhor jornal da atualidade

Ah... e tem o Irã. O país persa só passou a ser pautado quando caiu nas graças do Itamaraty, Lula visitou Teerã e Ahmadinejad visitou Brasília. Historicamente um país dado a violar os direitos humanos de suas minorias – como é o caso dos 300 mil bahá’ís que lá vivem –, a imprensa pauta o Irã apenas como forma de espinafrar a política brasileira para relações exteriores adotada desde 2003.

O grau de independência conquistado por El País é também temido pelo país dos aiatolás iranianos. É que em 31 de dezembro de 2010 o Irã bloqueou o acesso à página na internet de El País. Motivo? El País reproduziu no dia anterior (30/12) um telegrama da embaixada dos Estados Unidos no Azerbaijão, datado de 11 de fevereiro de 2010 e divulgado pelo WikiLeaks, no qual o diplomata Rob Garverick dá conta de contatos com uma fonte iraniana, cuja identidade é protegida. O telegrama informa que o chefe dos Guardas da Revolução, Mohamed Ali Jafari, deu uma bofetada em Ahmadinejad depois de uma discussão "quente" no Conselho Supremo de Segurança Nacional, em janeiro de 2010, sobre como lidar com os protestos que se seguiram às polêmicas eleições de junho de 2009. Durante a reunião, segundo o relato da fonte iraniana, Ahmadinejad surpreendeu os outros membros do Conselho ao assumir "uma posição surpreendentemente liberal", afirmando que "as pessoas sentem-se sufocadas" e defendendo que a solução para reduzir a tensão podia passar por conceder mais liberdades, "incluindo mais liberdade de imprensa".

Não nos consta nem aqui nem alhures que o site de jornal brasileiro tenha sido honrado com o bloqueio ao acesso de suas páginas por parte do ditador iraniano. Mas o do El País foi.

Há muito deixei de ser mero leitor do jornal espanhol. Hoje sou mais que isso, sou admirador do jornalismo ali praticado. Vasculho suas páginas sempre predisposto a encontrar ótimos textos, excelentes artigos de opinião, boa diagramação, notável acervo fotográfico. O que me conquistou não foi, com absoluta certeza, quaisquer de suas campanhas publicitárias. Foi esse sentimento de ter em mãos e ao alcance dos olhos um jornal que respeita a inteligência do leitor, que se abstém das questiúnculas e das miudezas da política cada vez mais paroquial levada às folhas de nossos principais jornais (e revistas semanais) que me fez referi-lo como o melhor jornal da atualidade.

Bom mesmo será o dia em que tivermos acesso diário a uma caprichada edição em português de El País. Enquanto isso... contentemo-nos com o que temos: uma vista d’olhos e não mais que isso e já passamos a ter a impressão de que lemos o jornal pelo período de toda uma semana.

Fonte: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=636IMQ002

Crimes econômicos

 
 
 
É hora de julgar os crimes econômicos contra a humanidade?

 
Por Lourdes Benería e Carmen Sarasúa*, do El País

Tradução de Katarina Peixoto

Da mesma forma que se criaram instituições e procedimentos para julgar os crimes políticos contra a humanidade, é hora de fazer o mesmo com os crimes econômicos. Este é um bom momento, dada sua existência difícil de refutar. É urgente que a noção de “crime econômico” se incorpore ao discurso cidadão e se entenda sua importância para construir a democracia econômica e política. No mínimo, isso nos fará ver a necessidade de regular os mercados para que, como diz Polanyi, eles estejam a serviço da sociedade e não o contrário.

Segundo a Corte Penal Internacional, crime contra a humanidade é “qualquer ato desumano que cause graves sofrimentos ou atente contra a saúde mental ou física de quem o sofre, cometido como parte de um ataque generalizado ou sistemático contra uma população civil”. Desde a Segunda Guerra Mundial estamos familiarizados com este conceito e com a ideia de que, não importa qual tenha sido sua magnitude, é possível e necessário investigar estes crimes e punir os culpados.

Situações como a gerada pela crise econômica tem feito com que se comece a falar de crimes econômicos contra a humanidade. O conceito não é novo. Já nos anos 1950, o economista neoclássico e prêmio Nobel, Gary Becker, introduziu sua “teoria do crime” em nível microeconômico. A probabilidade de que indivíduo cometa um crime depende, para Becker, do risco que assume, do possível botim e do possível castigo. Em nível macroeconômico, o conceito foi usado nos debates sobre as políticas de ajuste estrutural promovidas pelo Fundo Monetário Internacional e pelo Banco Mundial durante os anos oitenta e noventa, que acarretaram gravíssimos custos sociais à população da África, América Latina, Ásia (durante a crise asiática de 1997-1998) e Europa do leste. Muitos analistas apontaram esses organismos como responsáveis especialmente o FMI, que perdeu muito prestígio após a crise asiática.

Hoje são os países ocidentais que sofrem os custos sociais da crise financeira e de emprego, e dos planos de austeridade que supostamente lutam contra ela. A perda de direitos fundamentais, como o trabalho e a habitação e o sofrimento de milhões de famílias que veem em perigo sua sobrevivência são exemplos dos custos aterradores desta crise. Os lares que vivem na pobreza estão crescendo sem parar. Mas quem são os responsáveis? Os mercados, lemos e ouvimos todos os dias.

Em um artigo publicado na Businessweek, no dia 20 de março de 2009, intitulado “Wall Street’s economic crimes against humanity”, Shoshana Zuboff, antiga professora da Harvard Business School, sustentava que o fato de os responsáveis pela crise negarem as consequências de suas ações demonstrava “a banalidade do mal” e o “narcisismo institucionalizado” em nossas sociedades. É uma mostra da falta de responsabilidade e da “distância emocional” com que acumularam somas milionárias e que agora negam qualquer relação com o dano provocado. Culpar só o sistema não era aceitável, argumentava Zuboff, assim como não seria culpar, pelos crimes nazistas, só as ideias e não aqueles que os cometeram.

Culpar os mercados é efetivamente ficar na superfície do problema, Há responsáveis e são pessoa e instituições concretas: são aqueles que defenderam a liberalização sem controle dos mercados financeiros; os executivos e empresas que se beneficiaram dos excessos do mercado durante o boom financeiro; aqueles que permitiram suas práticas que permitem agora com que saiam imunes e fortalecidos, com mais dinheiro público, em troca de nada. Empresas como Lehman Brothers ou Goldman Sachs, bancos que permitiram a proliferação de créditos podres, empresas de auditoria que supostamente garantiam as contas das empresas, e pessoas como Alan Greenspan, chefe do Federal Reserve norteamericano durante os governos de Bush e Clinton, opositor ferrenho da regulação dos mercados financeiros.

A Comissão do Congresso norteamericano encarregada de investigar as origens da crise foi esclarecedora neste sentido. Criada pelo presidente Obama, em 2009, para investigar as ações ilegais ou criminais da indústria financeira, entrevistou mais de 700 especialistas. Seu informe, tornado público em janeiro passado, conclui que a crise financeira poderia ter sido evitada. Assinala falhas nos sistemas de regulação e supervisão financeira do governo e das empresas, nas práticas contábeis e de auditorias, e na transparência nos negócios. A Comissão investigou o papel direto de alguns gigantes de Wall Street no desastre financeiro, por exemplo, no mercado de subprimes, e das agências encarregadas do ranking de bônus. É importante entender os distintos graus de responsabilidade de cada ator deste drama, mas não é admissível a sensação de impunidade sem responsáveis.

Quanto às vítimas dos crimes econômicos, na Espanha um desemprego de 20% há mais de dois anos significa um enorme custo econômico e humano. Milhares de famílias sofrem as consequências de terem acreditado que pagariam hipotecas com salários mileuristas (1): 90 mil execuções hipotecárias em 2009 e 180 mil em 2010. Nos EUA, a taxa de desemprego é metade da espanhola, mas envolve cerca de 26 milhões de pessoas sem trabalho, o que implica um tremendo aumento da pobreza em um dos países mais ricos do mundo. Segundo a Comissão sobre a Crise Financeira, mais de quatro milhões de famílias perderam suas casas, e quatro milhões e meio estão em processo de despejo. Cerca de 11 bilhões de dólares de “riqueza familiar” desapareceram com a desvalorização se patrimônios, incluindo casas, pensões e poupanças. Outra consequência da crise é seu efeito sobre os preços dos alimentos e outras matérias primas básicas, setores para os quais os especuladores estão desviando seus capitais. O resultado é a inflação de seus preços e o aumento ainda maior da pobreza.

Em alguns casos notórios de fraudes como o de Maddof, o autor está na prisão e o processo judicial contra ele continua porque suas vítimas têm poder econômico. Mas em geral aqueles que provocaram a crise não só obtiveram lucros fabulosos, como também não temem castigo algum. Ninguém investiga suas responsabilidades nem suas decisões. Os governos os protegem e o aparato judicial não os persegue.

Se tivéssemos noções claras de que se trata de um crime econômico e se existissem mecanismos para investigá-los e persegui-los muitos dos problemas atuais poderiam ter sido evitados. Não é uma utopia. A Islândia oferece um exemplo muito interessante. Em vez de resgatar os banqueiros que arruinaram o país em 2008, a promotoria abriu uma investigação penal contra os responsáveis. Em 2009, o governo inteiro teve que renunciar e o pagamento da dívida foi suspenso. A Islândia não socializou as perdas como estão fazendo muitos países, incluindo a Espanha, mas decidiu aceitar que os responsáveis fossem castigados e que seus bancos quebrassem.

Da mesma forma que se criaram instituições e procedimentos para julgar os crimes políticos contra a humanidade, é hora de fazer o mesmo com os crimes econômicos. Este é um bom momento, dada sua existência difícil de refutar. É urgente que a noção de “crime econômico” se incorpore ao discurso cidadão e se entenda sua importância para construir a democracia econômica e política. No mínimo, isso nos fará ver a necessidade de regular os mercados para que, como diz Polanyi, eles estejam a serviço da sociedade e não o contrário.

Nota
(1) O neologismo “mileurista” (surgido a partir de “mil euros”) se aplica para definir a uma pessoa pertencente à geração nascida entre 1965 e 1985, na Espanha, que possuem uma renda que não supera a casa de 1.000 euros/mês.

*Lourdes Benería é professor de Economia na Universidade de Cornell. Carmen Sarasúa é professora de História Econômica na Universidade Autônoma de Barcelona. Artigo publicado originalmente no jornal El País, no dia 29 de março de 2011.

3.4.11

O Nó do Oriente: Síria

 
 
A Síria, muito mais que a Líbia, é o nó

Clóvis Rossi

Por mais que a Líbia esteja monopolizando as atenções no momento, o fato é que a grande mudança no xadrez do Oriente Médio, com repercussões muito mais profundas e abrangentes, se dará na Síria, se e quando houver por lá o mesmo tipo de movimento que sacudiu Egito, Tunísia e a própria Líbia.

Patrick Seale, autor britânico especializado em Oriente Médio, escreve para o número mais recente da revista "Foreign Policy", que "a Síria fica no centro de uma densa rede de relações no Oriente Médio, e a crise naquele país provavelmente terá um grande impacto nas estruturas regionais de poder".

De fato, a Síria fez do Líbano, para começar, uma espécie de protetorado, do qual cuidou diretamente até retirar suas tropas, deixando, no entanto, o Hizbollah (Partido de Deus), movimento político-social-militar xiita, como representante poderoso no vizinho.

O Hizbollah acaba de indicar Nagib Mikati para ser o primeiro-ministro, no lugar que vinha sendo de Saad Hariri, líder do "Movimento do Futuro", essencialmente sunita, criado pelo seu pai, Rafiq.

Rafiq foi assassinado supostamente por militantes do Hizbollah e sua morte levou à manifestações de massa que estiveram na origem da retirada das tropas sírias, em 2005, depois de 29 anos de ocupação.

Se a Síria tiver que dedicar esforços --e tropas-- para encaminhar a crise interna, pesará menos no Líbano. Pode até, no limite, facilitar uma reaproximação com Israel, já que são justamente Síria e Líbano os dois vizinhos, dos quatro que Israel tem, ainda tecnicamente em guerra com o Estado judeu.

Mas se pode haver esse movimento positivo, o paradoxo é que a fronteira sírio-israelense é a mais tranquila hoje em dia para Israel. A Síria desistiu de fazer a guerra a Israel, apesar de persistir a ocupação israelense das colinas do Golã, pertencentes à Síria. Reina, portanto, uma paz armada, por dizer de alguma maneira, menos incômoda do que a fronteira com o Líbano, país do que partem regularmente foguetes contra o território de Israel.

Não é só. Seale, o autor britânico, escreve também que "o eixo Teerã/Damasco/Hizbollah --do qual a Síria é o pivô-- tem sido visto há muito tempo, por muitos líderes na região como o solitário baluarte contra a hegemonia israelense e norte-americana".

Prossegue: "Com a Síria enfraquecida por problemas internos, a viabilidade de todo o eixo está em perigo, o que poderia encorajar comportamentos perigosos e arriscados de seus aliados na medida em que tentam conter presumíveis ganhos dos Estados Unidos e Israel".

É uma alusão ao fato de que a Síria é a única aliada de fato do Irã no Oriente Médio, além de ser o primeiro país em conflito com os Estados Unidos envolvido agora na onda de rebeliões na região.

Seus problemas internos podem afetar indiretamente outro movimento islamita, o Hamas, que hoje controla a faixa de Gaza e é o grande inimigo de Israel. Além de ser inimigo também do presidente palestino Mahmoud Abbas, que governa a outra parte do território palestino, a Cisjordânia.

Damasco ofereceu abrigo ao chefe do escritório político do Hamas, Khaled Mashal, o que indica o nível de ligação entre a Síria e o grupo palestino, que figura na lista de movimentos terroristas tanto da União Europeia como dos Estados Unidos.

É evidente que é cedo demais para supor que a Síria passará pelo mesmo tipo de revolução que derrubou os presidentes do Egito e da Tunísia e sitia agora Gaddafi, na Líbia.
Mas, se e quando houver algo parecido, a grande incógnita é quem estará à frente.

Joshua Landis, diretor do Centro para Estudos do Oriente Médio da Universidade de Oklahoma, em entrevista para o Council on Foreign Relations, diz que a "pergunta de um milhão de dólares" é exatamente essa: quem é a oposição síria?

"De certa forma, não há um líder oposicionista ao qual as pessoas possam se dirigir. Cada sírio está se perguntando qual é a alternativa para este regime --e eles não sabem a resposta".

O quebra-cabeça sírio é, pois, bem mais formidável do que o líbio ou o tunisiano.

Triste Fado

Crise política empurra Portugal para mais perto do FMI




Vitor Sorano | Lisboa

Sem um déficit tão descontrolado quanto o da Grécia nem um sistema bancário fragilizado como o da Irlanda, Portugal é mais um membro da União Europeia próximo a receber intervenção externa para sanar sua crise financeira. A principal razão para ter chegado a esse ponto foi a falta de consenso político.

Da queda do governo socialista até o anúncio de novas eleições nesta última quinta-feira (31/03), o país acompanhou cortes sucessivos no rating de sua dívida. A Comissão Europeia, que antes elogiava o modo como o país geria a crise, já avisou que o dinheiro está disponível. Mas a crise política portuguesa fez com que ninguém possa assumir a responsabilidade de fazer o pedido.

O governo do Partido Socialista, minoritário no parlamento, caiu no último dia 23, após não conseguir aprovar o Plano de Estabilidade e Crescimento – um planejamento anual exigido a todos os países da zona euro que, no caso português, previa novas medidas de austeridade. Logo em seguida à decisão legislativa, a Standard & Poor's e a Fitch cortaram o rating da dívida.

Menos de uma semana depois, a S&P fez novo rebaixamento, sem culpar diretamente a crise política. Na sexta-feira (31/03), um dia depois de o presidente Cavaco Silva aceitar o pedido de demissão do premiê José Sócrates e convocar novas eleições, a Fitch rebaixou novamente a avaliação.  Agora, em ambas agências os papéis portugueses estão com a cotação BBB-, apenas um nível acima da categoria especulativa – ou lixo – da qual faz parte a Grécia.

O argumento da Fitch é que, como as eleições só ocorrem em 5 de junho, o resgate a Portugal – dado como inevitável – deve demorar. Como o pedido de demissão foi aceito, o governo agora argumenta que não tem legitimidade para pedir a intervenção ao Fundo Europeu de Estabilidade Financeira e ao FMI, como fizeram Grécia e Irlanda.

Falta de comando

Embora as contas portuguesas estejam longe de ser consideradas boas, a situação não é tão ruim quanto nesses outros dois países. O déficit, mesmo com uma derrapagem de 1,8 ponto percentual para cima em comparação com as previsões do governo, fechou em 8,6% no ano passado, em razão da inclusão das dívidas de algumas empresas públicas e de dois bancos.


Para João Sousa Andrade, professor de Economia da Universidade de Coimbra, a elevação não tem impacto “Quem está informado sobre o mercado da dívida pública já tinha isso em consideração”, diz. Bruxelas, por sua vez, veio a público esclarecer que a alteração decorre do fato de Portugal estar implementando as regras estatísticas comunitárias, assim como todos os países devem fazer.

Por fim, Portugal não teve uma bolha imobiliária como a Espanha, nem desconfia-se que os bancos estejam tomados por ativos podres, como na Irlanda. Assim, apesar da queda no financiamento externo ao sistema financeiro português, há poucas dúvidas sobre a solvência das instituições. Segundo a Associação Portuguesa de Bancos, a inadimplência continua em níveis baixos.

O problema é a falta de comando. “O país pode ser sustentável, desde que haja suporte político. O problema é que não há governo”, diz o húngaro Zsolt Darvas, economista e pesquisador do think tank Bruegel, de Bruxelas. Até que o novo governo tome posse, o país fica impossibilitado de adotar medidas abrangentes para evitar o resgate. “O risco é que o yield (retorno esperado pelo investidor na dívida pública) continue a aumentar, o que cria  uma dor de cabeça ainda maior para os bancos portugueses, que são muito mais saudáveis que os gregos e irlandeses”, pondera o inglês Marc Ostwald, estrategista da Monument Securities.  Quando os juros exigidos ao governo sobem, os oferecidos aos bancos também.

“Pode haver um resgate ou um calote, mais cedo ou mais tarde. Espero que, se tiverem de escolher, que escolham o programa de resgate”, torce Darvas.

Consequências


Em 11 março, Sócrates havia conseguido aplausos de Bruxelas ao seu Programa de Estabilidade e Crescimento (PEC) 2011. Mas, com a medida barrada internamente, o país perdeu cacife para negociar apoios comunitários que não passassem por um resgate aos moldes aplicados à Grécia e à Irlanda.

A provável entrada do pacote FMI/UE em cena deve tornar o ajuste interno mais intenso. “Qualquer pacote de resgate FMI/UE (como foi feito com os outros dois países) vai demandar tanto quanto, se não mais, em termos de reformas e austeridade”, diz Ostwald.

“Claro que com o FMI vai ser mais duro, porque são eles que vêm aplicar. Vão terminar com todas as obras públicas, inclusive o TGV (trem de grande velocidade), com as Parcerias Público-Privadas”, diz Sousa Andrade. Haverá racionalização na oferta de serviços públicos e extinção de administrações, além de aumento de impostos. O líder dos social-democratas (PSD), Pedro Passos Coelho – que pode assumir a vaga de Sócrates – já afirmou considerar a última hipótese. As más condições das contas das empresas públicas de transporte devem levar a reestruturações que devem ter como consequência aumento nas tarifas para os usuários.

Para Darvas, as condições do pacote de resgate serão semelhantes às aplicadas aos casos anteriores. “O parlamento terá de aprovar algumas condições e haverá um monitoramento bimestral para liberar o dinheiro.” As melhores condições da economia portuguesa, porém, podem levar com que a intervenção resulte em uma maior credibilidade de Portugal, ao contrário do que ocorreu com Grécia e Irlanda.

A expectativa de Sousa Andrade é que o crescimento da economia internacional permita que a situação portuguesa melhore em consequência de maiores exportações, e não só do ajuste. Com isso, objetivos estabelecidos pelo FMI poderiam ser cumpridos mesmo que as regras de ajuste não fossem seguidas à risca. A estratégia funcionou no passado – Portugal já foi alvo de outras duas intervenções do FMI, nos anos 80.

“Com fado, que é mais triste”

Para alguns portugueses, haverá pouca diferença na substituição do PS, outrora de centro-esquerda, pelo PSD, de direita, cenário mais provável segundo as últimas pesquisas de intenção de voto. As semelhanças entre os dois países deve aumentar com a necessidade de o país cumprir imposições decorrentes de um resgate.

Eleitor dos socialistas, o vendedor de seguros Nuno Figueira de 49 anos irá votar no CDS (Centro Democrático Social), o mais à direita do espectro político português. Sem esperança em tempos melhores. “Qualquer que seja a solução política, já estamos em recessão. Vamos nos tornar o Brasil de 30 anos atrás. E com fado, que é mais triste”, diz.

“Nada de bom”, diz a porteira Maria Silva, de 50 anos, que manterá seu voto em Sócrates. “Há muita instabilidade e não acredito que outros façam melhorar.” Para o estudante Rui Figueiredo, de 24 anos, a queda dos socialistas era inevitável. “O povo está descontente. Mas é indiferente. Quem quer que venha, socialistas ou sociais-democratas, Portugal está frito”.