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25.4.11

Líbia - Guernica revisitada

JORNALISTAS MORTOS NA LÍBIA


Guernica, em cores, ao vivo

Por Alberto Dines


A morte na quarta-feira (20/4) de dois famosos fotógrafos, um inglês e outro americano, vitimados por um violento ataque do exército de Muamar Kadafi em Misrata, trouxe de volta às primeiras páginas a "estratégia do terror" empregada pelo ditador líbio contra os rebeldes que tentam derrubá-lo.

A nefasta expressão foi usada pela primeira vez há quase 74 anos, na Guerra Civil espanhola, pelos generais franquistas apoiados pela Alemanha nazista para arrasar cidades e vilas em regiões que resistiam ao seu avanço. Um dos primeiros alvos da aviação nazi-fascista foi uma cidadezinha do País Basco, Guernica, de seis mil habitantes, em 26 de abril de 1937. Calcula-se que foram mortos três quartos da sua população.

Revoltado com a desumanidade, o pintor Pablo Picasso, então exilado em Paris, produziu o seu famoso mural, Guernica, réquiem em preto e branco convertido em protesto contra a guerra. A estratégia do terror passou no teste e foi largamente empregada por Adolf Hitler a partir de 1939 para aniquilar a Polônia e apossar-se de grande parte da Europa.

Contra a parede

O ditador líbio está impedido pela Otan de usar a sua aviação e seus mísseis, mas não os mercenários dos países vizinhos com o poderoso arsenal de armas russas que acumula há décadas. Está com as mãos livres para quebrar o ânimo dos rebeldes que sonham com a liberdade e tentam derrubá-lo há mais de dois meses.

O fotógrafo e documentarista inglês Tim Hetherington, indicado para o Oscar deste ano por Restrepo, e o fotógrafo americano Chris Hondros, ganhador do Pulitzer de 2004, ambos de 41 anos, estavam em Misrata para documentar a implementação da política de terra arrasada ordenada por Kadafi. Não poderiam supor que as suas mortes tirariam do banho-maria um dos conflitos da zona do Mediterrâneo condenados a eternizar-se pelo cansaço.

A sociedade da informação funciona na base de choques e espasmos intensos, não suporta alongamentos, precisa de desfechos rápidos, nítidos. Os déspotas regionais ora confrontados apostam justamente na volatilidade e na volubilidade da audiência mundial, certos de que a firmeza da resposta pode adiar indefinidamente os desenlaces.

Ao contrário do ocorrido na Tunísia e Egito, a insurreição contra Kadafi desenvolve-se num estado precário, fluido, sem estruturas muito definidas que precisam ser assaltadas e dominadas individualmente. Nessas condições, a vitória só pode ser alcançada pela conquista territorial, sempre dependente de recursos humanos e materiais, principalmente da pressão política mundial.

A morte dos dois jornalistas e os ferimentos em dois outros atingidos pelos morteiros de Kadafi colocou seus flagrantes de guerra na rede mundial, reacendeu o conflito e encostou o governo líbio na parede.

Câmeras e pincéis

Por força do calendário e da geografia (a Líbia foi cenário das mais sangrentas batalhas de blindados da Segunda Guerra Mundial), Misrata tirou Guernica do esquecimento. Juntas, reforçadas – apesar das sete décadas de intervalo – lembram a bestialidade guerreira contra civis.

Ao reafirmar, na véspera do Dia de Tiradentes, o seu compromisso com a defesa dos direitos humanos, a presidente Dilma Rousseff recolocou o país no campo oposto das tiranias, da violência, do fanatismo e das guerras legitimadas por ideologias.

Ao vivo e em cores, Misrata combina-se ao luto de Guernica. Picasso com os seus pincéis, Heterington e Hondros com as suas câmeras, gravaram para sempre o repúdio universal à estratégia do terror.


 Versão ampliada de artigo publicado originalmente no Diário de S.Paulo, 24/4/2011

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