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1.5.11

O agonizante Bahrein

 
O terrorismo de Estado agrava-se no Bahrein

Ações noturnas, ataques a manifestações pacíficas em plena luz do dia, prisões em massa, sequestros em veículos sem identificação e uma forte censura à imprensa levam rapidamente o Bahrein ao abismo da impunidade, afirmam os analistas. A Anistia Internacional informou que a crise no Bahrein atingiu um nível de extrema gravidade. A organização também exortou os governos do Ocidente, que intervieram no caso da Líbia, a agirem rapidamente também no Bahrein, se não quiserem ser acusados de seletividade política e de hipocrisia.

Kanya D’Almeida

O regime sunita do rei Hamad bin Issa Al Khalifa realiza há semanas uma severa repressão contra um movimento opositor de maioria xiita.

A população barenita vê de perto o rosto sinistro de uma monarquia desesperada para manter o poder no meio da onda de levantes populares árabes. O Conselho de Cooperação do Golfo colaborou com o regime enviando mais de 1.500 solados para reprimirem os manifestantes.

“O que vivemos hoje no Bahrein é igual ao que os Estados Unidos viveram durante a década de 1950 com o macartismo” (caça às bruxas liderada pelo senador Joseph McCarthy), disse Muneera Fakhro, líder do partido esquerdista barenita Wa’ad, a jornalistas, ativistas e políticos reunidos no Instituto da Paz dos Estados Unidos, com sede em Washington.

Ao falar por teleconferência, no dia 26, desde o Bahrein, Fakhro – cuja casa foi atacada duas vezes desde que começaram os protestos – informou que 30 pessoas morreram e quase 500 estão detidas e há centenas de desaparecidos. “Precisamos deter imediatamente essas atrocidades com a ajuda de organizações internacionais”, afirmou.

Após enviar no começo deste mês um grupo de especialistas a Manama, a Anistia Internacional informou na semana passada que a crise no Bahrein atingiu um nível de extrema gravidade. A organização também exortou os governos do Ocidente, que intervieram no caso da Líbia, a agirem rapidamente também no Bahrein, se não quiserem ser acusados de seletividade política e de hipocrisia.

Por outro lado, no seu relatório Perspectiva Econômica Regional para o Oriente Médio e a Ásia Central (Meca), divulgado ontem, o Fundo Monetário Internacional expressou a sua esperança de que a economia exportadora petroleira barenita cresça 4,9% este ano. Ao apresentar o informe em Dubai, o director do departamento do Meca do FMI, Masood Ahmed, disse que, no longo prazo, os levantes populares poderão “forçar as economias da região a fixarem uma agenda de crescimento mais inclusiva, melhorando a governança e proporcionando oportunidades maiores e mais igualitárias para seus jovens”.

Entretanto, parece claro para a maioria dos observadores que, a menos que o regime barenita atenda as demandas mais básicas de sua impaciente população, há poucas possibilidades de estabilidade ou de crescimento, particularmente à luz da última onda de repressão. Desde que as forças do rei expulsaram os manifestantes da Praça Pearl (o equivalente barenita à legendária Praça Tahrir, no Cairo) o uso de balas de borracha, gás lacrimogêneo e às vezes munição real foi substituído por prisões arbitrárias, perseguição e elaboração de uma lista negra de opositores.

No dia 14 de Março, o rei declarou o estado de emergência, justamente quando a Arábia Saudita enviava tropas para colaborar. Desde então, os barenitas estão expostos a um poder arbitrário que inclusive criou tribunais especiais para julgar “inimigos do Estado”. Grupos de direitos humanos alertaram para crescentes ataques contra trabalhadores qualificados e a classe média, em geral, não apenas activistas ou estudantes. Agora, também médicos, advogados, empresários, acadêmicos e jornalistas são presos ou vigiados pelo aparato de segurança do regime.

Um representante da Federação Geral de Sindicatos do Bahrein informou na semana passada que das 1.200 demissões de profissionais ocorridas nos últimos dias, mais de 920 foram por motivos políticos. Entretanto, porta-vozes do regime afirmam que os empregados em questão “não cumpriam os seus deveres”.

Segundo o jornal The Washington Post, professores foram detidos e encapuzados na frente dos alunos, e os que passaram por interrogatório sofreram maus-tratos. A organização Médicos para os Direitos Humanos documentou a prisão de mais de 30 profissionais da saúde, enquanto a Amnistia Internacional informou que, até o dia 12, o Ministério da Educação havia demitido quase 120 funcionários.

“Não compararia isto com o macartismo, que era mais uma caça às bruxas. Creio que o que vivemos no Bahrein é uma tática política antiquada, que é muito pior”, disse à IPS o analista Gregory Gause, professor de Ciência Política na Universidade de Vermont. “Talvez, a perda do emprego por convicções políticas seja o que lembre a comparação com o macartismo, mas me parece que isto vai mais além. Quantos alvos de McCarthy acabaram na prisão?”, perguntou Gause, autor do livro “The International Relations of the Persian Gulf” (As Relações Internacionais do Golfo Pérsico).

Por seu lado, organizações de direitos humanos pressionam os governos do Ocidente para que acabem com a impunidade e defendam a população civil barenita. O presidente da Federação Norte-Americana do Trabalho e Congresso de Organizações Industriais, Richard Trumka, escreveu na semana passada ao secretário da Defesa, Robert Gates, exigindo uma “urgente intervenção política para evitar que o Bahrein se transforme numa ditadura”. Trumka acrescentou que os sindicatos barenitas eram essenciais para uma sociedade saudável e pluralista.

Considerando que esse país do Golfo é base da Quinta Frota dos Estados Unidos, Trumka insistiu que Washington deveria exortar Manama a pôr fim à “repressão extraordinária que ocorre nos limites de uma das maiores instalações militares norte-americanas. Qualquer resposta menor a esta crise mina a nossa autoridade moral”, alertou.

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