Lugar de Pensar

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Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome. Clarice Linspector
“Não somos seres humanos vivendo uma experiência espiritual, somos seres espirituais vivendo uma experiência humana.” Teilhard de Chardin
A solidão não existe! Tenho um mundo inteiro dentro de mim.
Seja bem-vindo.

28.5.11

a arte de John Loengard











John Loengard, fotógrafo, New York-E.U. - 1934

Mino Carta e o Partido dos Trabalhadores



O PT esqueceu os trabalhadores

Mino Carta



A posição da mídia nativa em relação ao Caso Palocci intriga os meus inquietos botões. Há quem claramente pretenda criar confusão. Outros tomam o partido do chefe da Casa Civil. Deste ponto de vista a Veja chega aos píncaros: Palocci em Brasília é o paladino da razão e se puxar seus cadarços vai levitar.

Ocorre que Antonio Palocci tornou-se um caso à parte ao ocupar um cargo determinante como a chefia da Casa Civil, mas com perfil diferente daqueles que o precederam na Presidência de Lula. José Dirceu acabou pregado na cruz. Dilma foi criticada com extrema aspereza inúmeras vezes e sofreu insinuações e acusações descabidas sem conta. A bem da sacrossanta verdade factual, ainda no Ministério da Fazenda o ex-prefeito de Ribeirão Preto deu para ser apreciado pelo chamado establishment e seu instrumento, a mídia nativa. 

As ações de Palocci despencaram quando surgiu em cena o caseiro Francenildo, e talvez nada disso ocorresse em outra circunstância, porque aquele entrecho era lenha no fogo da campanha feroz contra a reeleição de Lula. Sabe-se, e não faltam provas a respeito, de que uma contenda surda desenrolava-se dentro do governo entre Palocci e José Dirceu. Consta que o atual chefe da Casa Civil e Dilma não se bicavam durante o segundo mandato de Lula, o qual seria enfim patrocinador do seu retorno à ribalta.

E com poderes largos, como grande conselheiro, negociador junto à turma graúda, interlocutor privilegiado do mercado financeiro e do empresariado, a contar com a simpatia de amplos setores da mídia nativa. Um ex-trotskista virou figura querida do establishment, vale dizer com todas as letras. Ele trafega com a devida solenidade pelas páginas impressas e nos vídeos, mas é convenientemente escondido quando é preciso, como se envergasse um uniforme mimético a disfarçá-lo na selva da política.

Murmuram os botões, em tom sinistro e ao mesmo tempo conformado: pois é, a política… Está claro que se Lula volta à cena para orquestrar a defesa de Palocci com a colaboração de figuras imponentes como José Sarney, o propósito é interferir no jogo do poder ameaçado e garantir a estabilidade do governo de Dilma Rousseff, fragilizado nesta circunstância. 

A explicação basta? Os botões negam. CartaCapital sempre se postou contra a busca do poder pelo poder por entender que a política também há de ser pautada pela moral e pela ética, igual a toda atividade humana. Fatti non foste a viver come bruti, disse Dante Alighieri. Traduzo livremente: vocês não foram criados para praticar, embrutecidos, a lei do mais forte. Nós de CartaCapital poderemos ser tachados de ingênuos, ou iludidos nesta nossa crença, mas a consideramos inerente à prática do jornalismo.

 No tempo de FHC, cumprimos a tarefa ao denunciar as mazelas daqueles que Palocci diz imitar, na aparente certeza de que, por causa disso, merece a indulgência plenária. Luiz Carlos Mendonça de Barros, André Lara Rezende, e outros fortemente enriquecidos ao deixarem o governo graças ao uso desabrido da inside information, foram alvo de CartaCapital, e condenados sem apelação. Somos de coerência solar ao mirar agora em Antonio Palocci.

Em outra época, os vilões foram tucanos. Chegou a hora do PT, um partido que, alcançado o poder, se portou como os demais, clubes armados para o deleite dos representantes da minoria privilegiada. Devo dizer que conheço muito bem a história do Partido dos Trabalhadores. A primeira reportagem de capa publicada por uma semanal sobre a liderança nascente de Luiz Inácio da Silva, dito o Lula, remonta a começos de fevereiro de 1978. IstoÉ foi a revista, eu a dirigia. Escrevi a reportagem e em parceria com Bernardo Lerer entrevistei o então presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo e Diadema, na vanguarda de um sindicalismo oposto ao dos pelegos. 

Dizia a chamada de capa, estampada sobre o rosto volitivo do jovem líder: Lula e os Trabalhadores do Brasil. Já então sabia do seu projeto, criar um partido para defender pobres e miseráveis do País. Acompanhei a trajetória petista passo a passo e ao fundar o Jornal da República, que nasceu e morreu comigo depois de menos de cinco meses de vida, fracasso esculpido por Michelangelo em dia de desbordante inspiração, passei a publicar diariamente uma página dedicada ao trabalho, onde escreviam os novos representantes do sindicalismo brasileiro. Ao longo do caminho, o partido soube retocar seu ideário conforme tempos diferentes, mas permaneceu fiel aos propósitos iniciais e como agremiação distinta das demais surgidas da reforma partidária de 1979, marcado por um senso de honestidade e responsabilidade insólito no nosso cenário.

Antonio Palocci é apenas um exemplo de uma pretensa e lamentável modernidade, transformação que nega o passado digno para mergulhar em um presente que iguala o PT a todos os demais. Parece não haver no Brasil outro exemplo aplicável de partido do poder, é a conclusão inescapável. Perguntam os botões desolados: onde sobraram os trabalhadores? Uma agremiação surgida para fazer do trabalho a sua razão de ser, passa a cuidar dos interesses do lado oposto. Não se trataria, aliás, de fomentar o conflito, pelo contrário, de achar o ponto de encontro, como o próprio Lula conseguiu como atilado negociador na presidência do sindicato. 

Há muito tempo, confesso, tenho dúvidas a respeito da realidade de uma esquerda brasileira, ao longo da chamada redemocratização e esgotadas outras épocas em que certos confrontos em andamento no mundo ecoavam por aqui. Tendo a crer, no momento, que a esquerda nativa é uma criação de fantasia, como a marca da Coca-Cola, que, aliás, o mítico Che Guevara bebia ironicamente às talagadas na Conferência da OEA, em 1961, em Punta del Este. Quanto à ideologia, contento-me com a tese de Norberto Bobbio: esquerdista hoje em dia é quem, aspirante à igualdade certo da insuficiência da simples liberdade exposta ao assalto do poderoso, luta a favor dos desvalidos. Incrível: até por razões práticas, a bem de um capitalismo necessitado de consumidores.

Nem a tanto se inclina a atual esquerda verde-amarela, na qual milita, digamos, o ultracomunista Aldo Rebelo, disposto a anistiar os vândalos da desmatação. E como não anistiar o ex-camarada Palocci? Lula fez um bom governo, talvez o melhor da história da República, graças a uma política exterior pela primeira vez independente e ao empenho a favor dos pobres e dos miseráveis, fartamente demonstrado. CartaCapital não regateou louvores a estes desempenhos, embora notasse as divergências que dividem o PT em nome de hipócritas interpretações de uma ideologia primária.

Na opinião de CartaCapital, e dos meus botões, não é tarefa de Lula defender o indefensável Antonio Palocci, e sim de ajudar a presidenta Dilma a repor as coisas em ordem, pelos mesmos caminhos que em 2002 o levaram à Presidência com todos os méritos.


Mino Carta é diretor de redação de CartaCapital. Fundou as revistas Quatro Rodas, Veja e CartaCapital. Foi diretor de Redação das revistas Senhor e IstoÉ. Criou a Edição de Esportes do jornal O Estado de S. Paulo, criou e dirigiu o Jornal da Tarde. 

Desafios e oportunidades para o PT



Desafios e oportunidades para o PT


No atual momento, o melhor apoio possível ao terceiro mandato presidencial passa pelo resgaste ideológico e programático do PT. Nessa etapa de profundas transformações na ordem global e nacional o PT precisa pensar a si próprio e ao Brasil de forma estratégica e no longo-prazo.


William Nozaki


Pragmatismo e programa

O PT passa, atualmente, por um momento decisivo de sua trajetória como partido transformador.

Historicamente, o PT emergiu como força de oposição ao autoritarismo brasileiro e ao totalitarismo internacional, combinando as ideias e ações de trabalhadores organizados, movimentos sociais, comunidades eclesiais de base, militantes de esquerda e intelectuais. 

Diante da reunião desse amplo leque de forças progressistas, o PT construiu-se como um partido com fortes relações com os movimentos sociais e com um forte impulso para a construção de uma pauta político-eleitoral transformadora. Dessa forma, a tensão e as contradições entre a possibilidade de transformação da sociedade e a necessidade do acesso ao Estado para realizá-las estão inscritas na gênese do Partido. Os desafios engendrados por essa combinação ambígua foram se clarificando, sobretudo, a partir da última década.

A chegada ao poder, em âmbito federal, canalizou os esforços e as ações do Partido para as tarefas, legítimas, de defesa do governo e de execução das funções de Estado. Mas, essa mesma chegada ao poder, explicitou os impasses relativos à como se deve ocupar o Estado que se pretende transformar. 

Por um lado, essa nova etapa trouxe resultados incontestavelmente positivos: o reconhecimento do projeto petista como uma experiência fundamental para a esquerda nacional e internacional em crise; a construção de dois mandatos presidenciais sólidos que realmente alteraram os padrões de crescimento, desenvolvimento, inserção externa e democratização da sociedade brasileira, donde sua ampla aprovação pela população com garantia de continuidade pelo Partido em um terceiro mandato presidencial; além da consagração de uma liderança política com projeção nacional e internacional; para não mencionar o peso simbólico das eleições de um operário e de uma mulher para o cargo máximo da República.

Mas, por outro lado, essa nova fase apresentou contradições importantes com as quais o Partido teve que se defrontar: o financiamento inadequado, quando não ilícito, de campanhas eleitorais; a composição de coligações partidárias ancoradas no estrito pragmatismo e em algumas vezes pouco afeitas ao projeto transformador do partido; a imbricação entre enriquecimento privado e privilégios públicos de algumas figuras; além da adesão ou do recuo, em certos momentos e em determinados setores, em favor de pautas de políticas econômicas avizinhadas de princípios liberais.

As novas responsabilidades relacionadas à transformação do PT de força de oposição em força de governo impuseram ao Partido duas tarefas de difícil, mas necessária, compatibilização: a função de formular um projeto programático pautado pelo princípio da promoção da igualdade, tarefa que envolve reorientar e relembrar constantemente ao governo para onde deve se guiar sua ação transformadora; e a função de implementar um conjunto de políticas que sejam capazes de atender àqueles princípios levando adiante um projeto de desenvolvimento, tarefa que envolve defender e resguardar o governo de forças oposicionistas ou aliadas que podem descaracterizá-lo.

Oportunidades

Ao longo dos dois mandatos do Presidente Lula, o Partido vivenciou o difícil equilíbrio entre essas duas funções. Nesse primeiro mandato da Presidente Dilma, o Partido pode e deve repensar os métodos de combinação dessa dupla-tarefa. Pois, no atual momento, o melhor apoio possível ao terceiro mandato presidencial passa pelo resgaste ideológico e programático do PT. Nessa etapa de profundas transformações na ordem global e nacional o PT precisa pensar a si próprio e ao Brasil de forma estratégica e no longo-prazo.

Esse é um passo necessário para o Partido reafirmar seu projeto hegemônico em um cenário no qual a ordem econômico-financeira passa por profundas mudanças, deixando, inclusive, seu eco indireto sobre o quadro partidário brasileiro. Afinal, destituído de seu receituário liberal, os setores conservadores da sociedade brasileira tem passado por uma crise de idéias, de liderança e de projeto, que tem contribuído para sua fragmentação. Entretanto, a despeito das sucessivas derrotas eleitorais do projeto neoliberal, os setores de centro e direita continuam apresentando-o como um caminho viável, em discursos e iniciativas que partem tanto da oposição quanto de certos setores aliados.

Nesse momento, é fundamental que o PT reassuma seu papel de principal partido socialista democrático da esquerda. Isso significa que o Partido tem a responsabilidade de oxigenar e superar o pensamento burocrático em benefício de um pensamento estratégico que seja capaz de repensar, não apenas de forma retórica e sim de modo efetivo, qual projeto ideológico e programático pode ocupar o espaço aberto pela crise econômico-financeira internacional e pela mudança partidário-ideológica nacional.

Em outras palavras, trata-se de da difícil tarefa de conviver com o pragmatismo de Estado e com a promoção de reformas sem perder de vista o sentido e o significado transformador e emancipador que deve informar ambos: a luta pela igualdade.

Desafios

Nesse sentido, é fundamental que o Partido realize dois movimentos a fim de reavivar sua identidade programática e ideológica:

(1) É fundamental que se realize um balanço crítico dos dois mandatos do governo Lula, através de um confronto entre os conteúdos programáticos construídos historicamente pelo PT e as realizações empreendidas pelo governo e pela coalização que a ele deu suporte.

As interpretações acerca do Governo Lula têm convergido para caracterizá-lo como um governo social-democrata. Sendo assim, avaliar e sistematizar os avanços e recuos do governo é uma forma de estabelecer conexões e marcar posições entre a “social-democracia” do governo e o “socialismo democrático” do Partido.

(2) É importante que se realize uma discussão sobre o sentido e o significado do projeto de “novo desenvolvimentismo” que se vem construindo a partir das realizações dos governos petistas.

As análises acerca do novo desenvolvimentismo têm apontado para a construção de um modelo de desenvolvimento ancorado em bases macroeconômicas sólidas, com crescimento, estabilidade e distribuição. Por tudo isso, é possível afirmar que o Governo Lula realizou, e que o Governo Dilma está realizando, parte do programa histórico do PT. 

Mas é importante que haja uma reflexão sistemática sobre os modos como a constituição de um mercado interno de massas, ampliado pela melhoria nos salários, pelo avanço dos programas sociais e pelas facilidades de acesso ao crédito, trazem também consigo valores individualistas de competição e concorrência entre iguais.

Ao reavivar a reflexão sobre si próprio o PT pode ajudar o país a repensar que tipo de sociedade e que formas de sociabilidade são desejáveis para a constituição de uma nação mais justa e inclusiva.


(*) Professor de Economia Política da UFSCar, doutorando em Desenvolvimento Econômico (IE/UNICAMP), bacharel em Ciências Sociais (FFLCH/USP).

26.5.11

AUTO-HEMOTERAPIA - O valor do sangue






Auto-Hemoterapia. Dr. Luiz Moura


Quem já teve oportunidade de ver, na íntegra, o vídeo que Ana Martinez produziu com o Dr. Luiz Moura sobre o tema denominado "auto-hemoterapia" provavelmente observou o objetivo deles em favorecer melhor saúde das pessoas, além de observar também a boa fé que motivou esta ação. 

O Dr. Luiz Moura, baseado principalmente nos inúmeros resultados bem sucedidos que teve com a "auto-hemoterapia" em sua extensa prática clínica, pretende com este vídeo difundir uma técnica simples, de custo financeiro viável, e com abrangência sobre diversas patologias. E, mais que isto, instigar o interesse por parte de pesquisadores da área para, eventualmente, produzirem evidência científica e a conseqüente literatura técnica para embasar ou rejeitar esta prática. 

No vídeo, o Dr. Luiz Moura reconhece e informa sobre a não existência ainda de respaldo científico para o que ele denomina "auto-hemoterapia". 

Cita e divulga apenas duas publicações: 

- Dr. Jesse Pandolpho Teixeira (Cirurgião Toráxico), que em 1940, produziu um texto sobre "Autohemotransfusão, complicações pulmonares pós-operatório";

- Dr. Ricardo Veronesi (Professor emérito da Faculdade de Medicina da USP, consultor da Organização Mundial de Saúde OMS, presidente Honorário e fundador da Sociedade Brasileira de Infectologia, autor do livro "Doenças infecciosas e parasitárias") que, em março de 1976, publicou o texto "Imunoterapia: O impacto médico do século". 

No final do mês de março de 2007, a Sociedade Brasileira de Hematologia e Hemoterapia (SBHH) "Frente a inúmeros questionamentos recebidos, tanto por parte de profissionais médicos como não médicos, relacionados à suposta prática denominada 'auto-hemoterapia' ", divulgou um COMUNICADO contra. 

No dia 13 de abril de 2007, a ANVISA que "Considerando os questionamentos recebidos pela Gerência de Sangue e Componentes – GGSTO/ANVISA, sobre a prática denominada de 'auto-hemoterapia' ", divulgou uma NOTA TÉCNICA, também contra. 

Portanto, com o objetivo de prevenir e evitar "possíveis efeitos colaterais e complicações desta prática", que "pode colocar em risco a saúde dos pacientes a ela submetidos", de acordo com a SBHH, e, também, como afirma a nota técnica da ANVISA, "Este procedimento não foi submetido a estudos clínicos de eficácia e segurança, e a sua prática poderá causar reações adversas, imediatas ou tardias, de gravidade imprevisível" está proibida a prática de "auto-hemoterapia" por médicos e são passíveis de punição aqueles profissionais que a praticarem. 

O item 7 da Nota Técnica a ANVISA informa: "O procedimento 'auto-hemoterapia' pode ser enquadrado no inciso V, Art. 2º do Decreto 77.052/76, e sua prática constitui infração sanitária, estando sujeita às penalidades previstas no item XXIX, do artigo 10, da Lei nº. 6.437, de 20 de agosto de 1977". 

Acatando, sem qualquer questionamento a posição da SBHH e da ANVISA, continuaremos, no entanto, apresentando o link público para o vídeo sobre "auto-hemoterapia" disponível no Google Video, assim como o endereço do Dr. Luiz Moura e o endereço da produtora do vídeo sobre "auto-hemoterapia" com o mesmo objetivo principal do Dr. Luiz Moura, ou seja, desejando despertar a atenção e o interesse de pesquisadores para que seja produzida, brevemente, evidências científicas refutando ou aprovando definitivamente esta prática denominada "auto-hemoterapia".



Fonte:
http://www.orientacoesmedicas.com.br/auto_hemoterapia.asp

25.5.11

changement...

Com sede de mudança, jovens franceses se organizam para renovar a esquerda

Luiza Duarte, de Paris


A um ano das eleições presidenciais francesas, novos atores políticos já começaram a entrar em cena. O movimento L’appel du 21 avril (ou O Chamado de 21 de abril, em português), é um coletivo que convoca a mobilização da sociedade civil para a renovação do quadro político do país. São, em sua maior parte, jovens partidários dos ideais de esquerda que querem evitar a repetição do resultado do primeiro turno das eleições de 21 de abril 2002, que resultou em um duelo entre os candidatos à presidência da direita, representada pelo presidente Jacques Chirac (da UMP, União por um Movimento Popular), e da extrema-direita, Jean-Marie Le Pen (da Frente Nacional).

O objetivo é, por um lado, garantir uma esquerda sólida, com um candidato forte para disputar as eleições e, de outro, impedir a ida ao segundo turno de Marine Le Pen, da extrema-direita, que vem seduzindo as classes populares e apresentando bons resultados nas pesquisas de intenção de votos.

O recente escândalo envolvendo o diretor-gerente do FMI (Fundo Monetário Internacional), Dominique Strauss-Kahn, que responde a um processo de abuso sexual em Nova York torna a necessidade do movimento ainda mais urgente. Afinal, embora Strauss-Kahn nem sempre seja apontado como um político de esquerda, o ainda pré-candidato socialista era, segundo pesquisas de opinião, o nome mais viável para derrotar Nicolas Sarkozy e a direita em 2012.


Nem partido, nem sindicato, o L’appel du 21 avril é uma rede de ação cidadã que pretende usar a internet como sua maior arma. Site, twitter e página facebook convidam os internautas a se unirem aos dois mil signatários do grupo. Ações em universidades, manifestações artísticas e encontros mensais também estão previstos para sensibilizar cada vez mais pessoas.

Criado em outubro de 2010, ela se inspira na midiática organização liberal norte-americana MoveOn, que apoiou a candidatura de Barack Obama nos Estados Unidos com seus cinco milhões de membros.

“A gente não terá o apoio de um partido, mas é provável que nós venhamos a apoiar um candidato. Queremos sim a adesão de personalidades às ideias”, revela Bruno Laforestrie, diretor da rádio Générations FM e fundador do coletivo.

Além de Nicolas Hulot, pré-candidato às eleições pelo partido Europa Ecologia, e de Laurianne Denniaud, presidente do Movimento dos Jovens Socialistas, o grupo é formado por estudantes, artistas, jornalistas, moradores dos subúrbios e jovens empreendedores.

Esquerda unida

A maior das batalhas do coletivo é convencer os principais partidos chamados de esquerda do país – PS (Partido Socialista), PCF (Partido Comunista Francês) e Europa Ecologia – a realizarem primárias abertas para definir um candidato único para as eleições de 2012.

“Assim, haverá uma verdadeira aliança em torno de um projeto”, garante Baki Youssoufou, presidente da CNEF (Confederação Nacional de Estudantes Franceses). “Quem ganhar escolherá a melhor equipe para realizar esse projeto mas, se a aliança é feita depois, ela não será sobre o projeto e sim sobre a vitória, quer dizer, como querem ganhar, vão buscar votos com determinados partidos que vão impor o que querem ter em troca no governo. Nós preferimos que isso se decida antes,” insiste.

O líder estudante diz não querer escolher entre uma pessoa ou outra e sim entre diferentes visões da sociedade “Dessa vez, nós queremos ações que acompanhem as palavras, “argumenta.

Ele afirma que os partidos veem com bons olhos o fato de haver mobilização, mas que não escondem incômodo e desconfiança ao não controlarem essas decisões que são tomadas fora de seus núcleos partidários. Uma candidatura única da esquerda ainda está longe de se tornar realidade, já que poucos estão dispostos a fazer as concessões necessárias. Youssoufou reconhece, por exemplo, a improvável adesão da extrema-esquerda, representada pelo Novo Partido Anti-Capitalista.

Gerações em conflito

“Nós somos pela dupla alternância, mudança de governo, mas também cultural e de geração,” revela Laforestrie. Além da renovação pela chegada da esquerda ao poder, o coletivo assina um pacto, que denuncia um conflito de interesses entre as gerações e um desejo de maior representatividade e participação da parte dos jovens.

Em um país onde o voto não é obrigatório, a ida deles às urnas será decisiva. Embora na última eleição presidencial os nascidos na década de 70 tenham apresentado uma taxa de abstenção de 15,7%, em 2002, a taxa atingiu 36,3% entre esses eleitores e é apontada como a causa da chegada da extrema-direita ao segundo turno. “Se a juventude não se mobilizar nas próximas eleições, levando em conta a estrutura etária da França, será um voto conservador, em favor dos mais velhos,” acredita.

Preocupado com a sociedade francesa, o fundador do grupo acredita que ela está “à beira de um terremoto”. Ele considera que há risco real de um conflito entre as gerações, “entre os jovens que estão cada vez mais sob pressão, mais pobres e sem um sistema de educação performático, além de terem problemas para encontrar emprego, e uma geração que, em breve, estará aposentada. São os “baby boomers”, nascidos no período pós-guerra, e que beneficiaram de todo o sistema econômico e que hoje não entraram em relação, em termos de transmissão, com as gerações anteriores, “diz.

Inspiração das Américas

“Vocês foram mais rápidos no Brasil do que na França na compreensão da miscigenação. No Brasil, mesmo se nas instituições isso demore a mudar, não se suspeita de que alguém não é brasileiro pela sua cor da pele. Na França, é preciso ainda justificar que se é francês, mesmo depois de várias gerações,” acrescenta Youssoufou. Para ele, o problema da não representatividade envolve também a negação da imagem da nova sociedade francesa e de seus filhos de imigrantes.

A palavra de ordem deles é mudança. O ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva e o atual presidente americano Barack Obama são citados como exemplos das mudanças que eles querem para a França. Políticos que sejam símbolo de uma sociedade que se transformou e quer ser mais representativa.

“Será que a gente quer criar uma Europa como Mônaco, onde haverá apenas ricos, brancos e velhos, ou como o Brasil, onde haverá muitos jovens e mestiçagem, que é a realidade agora? No entanto, nossos dirigentes continuam no mesmo modelo, formados nas mesmas escolas e vindos dos mesmos clãs,” questiona.

Não será necessariamente proposto um candidato da juventude, o coletivo também diz não querem opor jovens e velhos. A ideia é forçar a participação e reconhecimento de novas camadas da sociedade dentro do debate político. Querem outra cara para o país, “para que, quando olharmos a Assembleia Nacional francesa, ela se parece com a França de hoje”, argumenta Youssoufou.

Misha Gordin



24.5.11

Guitiérrez, animal literário

 
 
 
A crônica suja de um politicamente incorreto


Leonardo Calvano



"Alguns escritores não descrevem o sexo porque têm medo. Acho que existe um sentido muito extenso neles do pecado", diz Pedro Juan Gutiérrez a Leonardo Calvano

Pedro Juan Gutiérrez é sem dúvida um animal literário. Brindou o 3º Congresso Internacional de Jornalismo, no Sesc Vila Mariana, com seu bom humor e simplicidade.

Depois, nos deu a honra de uns tragos no botequim literário mais conhecido de São Paulo. Lá conversamos sobre literatura, viagens e política mundial. Hoje com 61 anos, vive entre Madri, Tenerife e Havana.

Bebe bem menos do que antes, como era de costume no auge da sua criação, e admite que o rum e o tabaco foram o motor para escrever algumas das suas principais obras, como Trilogia Suja de Havana, O Rei de Havana e Animal Tropical.

“Nunca pensei em escrever por dinheiro, era uma catarse para sair um pouco da realidade nos difíceis anos que foram os de 1990 em Cuba (por causa da crise econômica). Ou escrevia ou tomava uma garrafa de rum e me matava”.

O escritor cubano nos adiantou que escreve um novo livro, ainda sem prazo de lançamento, que contará a história de um exilado em Madri e Tenerife. E diz ser fã assumido de Cortázar e Kafka. “Comecei a ler Metamorfose aos 13 anos, mas não terminei, achei muito perturbador. Consegui terminar só depois dos 40”, conta.

É notório na sua produção literária que os seus escritores preferidos não interferiram em nada. “Nós amamos os deuses, mas não os imitamos. É melhor que imitemos os demônios”.

Seu estilo é próprio, fruto de experiências e do olhar observador que colocou sobre a decadência urbana que vivia Havana naqueles anos. “Vivia na rua e encerrava no quarto, era uma espécie de masturbação romântica quando criava personagens e os dava vida. Observava o Malecón, a zona portuária, as prostitutas, conversava com travestis e com os boêmios”.

Toda aquela decadência fez emergir um gênio da literatura latino-americana, um politicamente incorreto, que deplora o correto, a que chama de hipócrita, e descreve o sexo como poucos, sem culpa.

“Alguns escritores não descrevem o sexo porque têm medo. Acho que existe um sentido muito extenso neles do pecado. Isso incomoda, porque nós somos mamíferos. Nós não somos caracóis, nem peixes”.

Para ele salvam-se poucos, como Enrique Vila e Michel Houllebeq.

Hoje, adepto do budismo, está mais reflexivo do que imediatista e parece deixar para trás o realismo sujo que o tornou conhecido. “Minha vida sempre foi muito intensa, mas é um imperativo da natureza. Aos poucos você vai se tranquilizando, vai controlando um pouco o álcool, o tabaco. Sinto que já não tenho necessidade de escrever cenas sexuais tão carnais.”

Infelizmente, só agora seus livros começam a ser publicados em Cuba, mas já são conhecidos de muitos pelas vias clandestinas. Antes tarde do que nunca. Reclama dos EUA, onde alguns de seus romances não são traduzidos. “Não se atrevem a me publicar, são muito puritanos, ficam ofendidos com minhas histórias”, conta, sorrindo.

22.5.11

Língua Brasileira

 
 
 
 
Falsa questão
Lívia Perozim

Mais uma vez um livro didático foi alvo de polêmica. Uma notícia divulgada pelo portal IG, por meio do blog Poder On Line, afirmou: o MEC comprou e distribuiu um livro que “ensina a falar errado”. Em jornais, emissoras de tevê e meios eletrônicos o livro, seus autores e o próprio MEC foram crucificados. Colunistas renomados esbravejaram. É um livro “criminoso”, atestou Clóvis Rossi, na Folha de S. Paulo. Dora Kramer, no Estadão de terça-feira, aproveitou para atacar Lula: “Tal deformação tem origem na plena aceitação do uso impróprio do idioma por parte do ex-presidente Lula, cujos erros de português se tornaram inimputáveis, por supostamente simbolizarem a mobilidade social brasileira.” Poderíamos nos perguntar o que Glorinha Kalil pensa do assunto, mas vamos nos ater aos fatos.

O livro em questão é o Por Uma Vida Melhor e faz parte da coleção Viver, Aprender, organizada pela Ação Educativa, uma ONG que há 16 anos promove debates e atua em projeto de melhoria educação e políticas para a juventude. Foi distribuído para 4.236 escolas e é destinado, frise, para alunos da Educação de Jovens e Adultos (EJA) – mais para frente ficará claro o porquê. Seus autores são Heloísa Ramos, Cláudio Bazzoni e Mirella Cleto. Os três, professores de língua portuguesa, autores de livros didáticos e estudiosos do tema variação linguística.

A polêmica midiática partiu da reprodução de trechos como: “Você pode estar se perguntando: ‘Mas eu posso falar os livro?’. Claro que pode. Mas fique atento porque, dependendo da situação, você corre o risco de ser vítima de preconceito linguístico”. Reproduzidos assim, descolados de um contexto, parece mesmo que a orientação era mandar às favas a língua portuguesa. Mas não é bem isso. Faltou uma leitura mais atenta, ou, pior, faltou ler a obra. O capítulo em questão, ao menos (clique aqui para ler).

Tanto é que foram repercutidas as mesmas poucas frases, retiradas de 1 dos 16 capítulos do livro. Embora o título seja auto-explicativo, Escrever é diferente de falar, vale reproduzir a proposta descrita na introdução: “Neste capítulo, vamos exercitar algumas características da linguagem escrita. Além disso, vamos estudar uma variedade da língua portuguesa: a norma culta. Para entender o que ela é e a sua importância, é preciso conhecer alguns conceitos.” Os trechos pescados pela imprensa estavam no tópico: “A concordância das palavras”. Ali, discute-se a existência de variedades do português falado que admitem que o primeiro termo de um grupo nominal indique se a frase é singular ou plural. O exemplo: “Os livro ilustrado mais interessante estão emprestado.” Em seguida, reescreve-se a frase na norma culta: “Os livros ilustrados mais interessantes estão emprestados”.

Ou seja, os autores do livro mostram aos alunos do EJA, adultos que já carregam uma bagagem cultural construída pela vivência e por suas experiências educativas, que este modo de falar é correto linguisticamente, por se fazer comunicar, mas não é aceito gramaticalmente. Explica-se: a linguística é uma ciência em busca de conhecimentos sobre a língua. A gramática não é cientifica, é um conjunto de normas. É, portanto, uma parte importante, mas não representa todo o saber da língua.

A confusão está, em parte, no fato de se pretender apartar a teoria linguística do ensino da língua, como se a escola devesse parar no tempo e não deixar entrar nenhum avanço científico relativo à língua materna. “Isso sim é uma irresponsabilidade, um crime”, devolve Cláudio Bazzoni, um dos autores do livro.

Não se fala aqui de uma ciência inventada ontem. Com base em estudos antigos, os linguistas mostram que a língua é um sistema complexo, muito maior do que um conjunto de normas, que muda pela história e é determinada por práticas sociais. Sírio Possenti, professor do departamento de lingüística da Unicamp, explica: “Para um linguista, o conceito de certo e errado não tem sentido. Seria como um botânico achar que uma planta está errada. Para ele, a questão é quais são as regras em cada caso”. Posto que as noções de certo e errado têm origem na sociedade, não na estrutura da língua, ele completa: “É certo o que uma comunidade considera certo. E essa avaliação muda historicamente. Um exemplo: a passiva antiga do português se fazia com de: ‘será de mim mui bem servida’. Está na Carta de Caminha. Hoje, se faz com por.”.

A sociedade, no caso, os jornalistas – até mais que os normatistas – condenaram um tipo de conteúdo, a variação linguística, que faz parte há mais de quinze anos dos livros didáticos de língua portuguesa disponíveis no mercado, avaliados e aprovados pelo MEC. Estão, portanto, mal informados. Como ressalta o professor da Universidade de Brasília Marcos Bagno, em artigo publicado no site de Carta Capital: “Nenhum linguista sério, brasileiro ou estrangeiro, jamais disse ou escreveu que os estudantes usuários de variedades linguísticas mais distantes das normas urbanas de prestígio deveriam permanecer ali, fechados em sua comunidade, em sua cultura e em sua língua… Defender o respeito à variedade linguística dos estudantes não significa que não cabe à escola introduzi-los ao mundo da cultura letrada e aos discursos que ela aciona. Cabe à escola ensinar aos alunos o que eles não sabem! Parece óbvio, mas é preciso repetir isso a todo momento”.

Pelo visto, nem tudo que parece é óbvio. Possenti resume bem o imbróglio: “Bastaria que se aceitasse que as línguas não são uniformes, o que é um fato notório, bastaria as pessoas se ouvirem”.  Fica aí a dica para quem, como o jornalista Alexandre Garcia, em comentário irado sobre o livro que “ensina a falar errado”, começou a frase com “Quando eu TAVA na escola”…

Palestina e a Resistência

 
 
 
Palestina: fala um líder da resistência pacífica



Em entrevista ao Middle East Channel, Mustafa Barghouti revela bastidores da pacificação Fatah-Hamas, destaca avanço da opção pela não-violência e sugere isolar direita israelense. "Tornou-se evidente para o líder da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas que nada seria jamais conseguido em discussões com o premier israelense, Benyamin Netanyahu. Portanto, o único modo para alterar a situação dependia de nós fortalecermos o nosso lado – o lado dos palestinos", diz Barghouti.

Middle East Channel - Foreign Affairs

Um acordo político assinado no início do mês no Cairo entre os dois partidos políticos palestinos marca a primeira vez, em quatro anos, em que há governo palestino unificado nos territórios (até aqui, o Fatah governava a Cisjordânia e o Hamás, Gaza).

Mustafa Barghouti, participante ativo das negociações que levaram ao acordo, e líder do movimento independente “Iniciativa Nacional Palestina”, que também assinou o acordo, falou do Cairo ao Middle East Channel sobre as implicações do acordo.

Há anos militante pelos direitos dos palestinos e pela resistência não-violenta, Barghouti concorreu como candidato nas eleições presidenciais palestinas em 2005. Obteve o segundo lugar, quando Mahmoud Abbas foi eleito. Logo depois, foi eleito para o Conselho Legislativo Palestino, em 2006; em 2007, foi ministro da Informação do governo da unidade palestina, que teve vida curta.

Por que esse acordo entre Fatah e Hamas, que vem sendo tentado, sem sucesso há anos, aconteceu agora?


Moustapha Barghouti: São vários fatores. Um dos mais importantes, na minha opinião, é o alto grau de frustração dos palestinos, de todos os lados, com a persistente divisão interna. De certo modo, pode-se dizer que seja influência das revoluções árabes na Palestina. No final de janeiro e início de fevereiro começaram as manifestações públicas pelo fim da divisão. E as pessoas mostraram-se suficientemente maduras e prudentes para perceber que ninguém precisava de um terceiro partido, contra os dois existentes; e que, sim, era hora de pressionar na direção da unificação. A pressão das ruas foi muito importante. Fatah e Hamas perceberam que, separados, começariam a perder o apoio popular.

Um segundo fator foi o fracasso do processo de paz e, sobretudo, a intransigência obcecada dos israelenses. Tornou-se evidente para o líder da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas que nada seria jamais conseguido em discussões com o primiê israelense, Benyamin Netanyahu. Portanto, o único modo para alterar a situação dependia de nós fortalecermos o nosso lado – o lado dos palestinos. Abbas fez o que podia ter feito para convencer Netanyahu a aceitar um processo de paz sério e significativo. Até que se convenceu de que Israel não tem interesse algum em fazer a paz. Além do mais, Israel usou o fato de os palestinos estarem divididos, como pretexto para nada fazer. Foi a ideia de que os palestinos não tinham liderança que os representasse.

Um terceiro fator foi, não há dúvidas, as mudanças que houve na região. Acho que o Egito passou a ser mais positivo, mais proativo. Primeiro, os egípcios estimularam a ideia de que os palestinos nos entendêssemos internamente. E os palestinos, com nosso próprio empenho, conseguimos avançar. Os egípcios, então, puderam voltar à cena como mediadores; e, em apenas três, quatro horas, numa única reunião, Fatah e Hamas assinaram o acordo. Como novidade, os mediadores egípcios são hoje menos sensíveis às pressões externas contra a unificação. Os egípcios trabalharam muito firme e empenhadamente a favor do acordo – e essa é mudança muito importante, efeito das outras mudanças pelas quais está passando hoje toda a política egípcia.

Há mais um fator importante. Percebemos que, como palestinos, tínhamos, nós mesmos, que definir o papel que mais nos interessava, que tínhamos de mudar alguns pontos, e que, para fazer isso, tínhamos de alterar a correlação de forças em relação a Israel. Para fazer isso, o primeiro passo, passo vital, tinha de ser a unidade interna. Esse foi o resultado da nossa avaliação, depois do fracasso do processo de paz. Os dois partidos palestinos não têm objetivos essencialmente diferentes: os dois apoiam a solução dos Dois Estados e, hoje, os dois lados convergiram a favor da resistência não-violenta. Hoje todos acreditam mais nas possibilidades da resistência não-violenta. É oportunidade que se configura pela primeira vez, para que haja governo palestino unificado. Em minha opinião, é a primeira boa oportunidade que se cria para uma paz real, duradoura.

Houve outros acordos de unificação, antes, que não deram certo. Quais os principais obstáculos que se podem prever, em relação ao novo acordo?

Moustapha Barghouti: O principal obstáculo é que o acordo não interessa a Israel e, portanto, Israel mobilizará toda sua máquina de propaganda contra a unificação dos palestinos. Foi o que Israel já fez em 2007, quando atacaram, com propaganda, o acordo que havia e a democracia palestina. Já estão tentando fazer o mesmo, outra vez. Claro que ainda temos muito trabalho por fazer. Temos de formar o governo e a liderança interna da OLP. Mas acho que as ações de Israel para boicotar o acordo são o principal obstáculo a enfrentar.

O ministro dos Negócios Exteriores de Israel, Avigdor Lieberman, já reagiu, de forma nada difícil de entender. Disse que Israel prefere que os palestinos continuem divididos, porque divididos são mais fracos e unidos são mais fortes. Foi claramente ao ponto: essa é, exatamente, a posição de Israel. Se Israel tivesse qualquer interesse real na solução Dois Estados – que foi apoiada claramente na assinatura do acordo, tanto pelo presidente Abbas como pelo líder do Hamas, Khaled Meshaal – essa seria a ocasião certa para Israel aceitar um acordo com todos os palestinos, em vez de insistir em negociar só com Abbas, como tem feito. Estamos diante de oportunidade excelente para a paz, mas, infelizmente, Israel preferiria voltar ao passado, antes da união dos partidos palestinos, do que pensar no futuro.

Mas quero chamar atenção para mais um aspecto. É importante ver que o acordo que assinamos não é apenas acordo para voltar a um tempo em que os palestinos viviam sob um único partido. O acordo é, sobretudo, para recuperar o que perdemos com a divisão, porque perdemos, naquela época, toda a democracia que tínhamos e sob a qual vivíamos. O acordo visa, sobretudo, a reconstruir as instituições do estado, que foram destruídas. Visa a revitalizar o parlamento palestino e o conselho legislativo. Trata-se de devolver aos cidadãos o direito de escolher os governantes em eleições limpas e livres, votando democraticamente. Quem se manifeste contra o acordo entre Fatah e Hamas, terá de explicar por que exige democracia na Líbia e na Síria… mas não exige democracia na Palestina.

Considerando-se a resposta do governo de Israel, a resposta até aqui cautelosa do governo Obama e a reação declaradamente negativa do Congresso dos EUA, e, também, o fato de que um governo de unidade não atende às três condições do Quarteto [EUA, Rússia, União Europeia e ONU], por que a unidade dos palestinos deve ser vista como útil à causa da paz?

Moustapha Barghouti: Em primeiro lugar, acho que os EUA devem ficar atentos para não repetir os erros de 2007. Os EUA devem ter posição independente – não devem limitar-se a seguir o que Israel faça. Devem ficar atentos, sobretudo, em não seguir os conselhos de Israel, porque tudo que Israel diga ou faça visa, exclusivamente, a garantir que Netanyahu tenha pretexto para nada fazer a favor da paz e para prosseguir com a política de construir nos territórios ocupados. É altamente desejável que os EUA construam abordagem mais cuidadosa, e que considerem o potencial que o acordo gera, com vistas à paz. Dentre outras coisas, o acordo abre um caminho real para a reconstrução de Gaza, além de ser boa via para que se reconstruam também as instituições em Gaza, e para consolidar o que já foi construído na Cisjordânia. A alternativa é divisão continuada, que se pode tornar irreversível e dificultar ainda mais qualquer solução futura.

Não esqueça que esse acordo não visa a construir governo partilhado entre Hamas e Fatah. Trata-se de um entendimento – o que está bem claramente dito no texto do acordo e nos discursos – segundo o qual Abbas será autorizado, agora por todos os palestinos, inclusive pelo Hamas, a prosseguir nas negociações. Abbas não mudou nenhum dos parâmetros que a OLP aceitou antes, inclusive o reconhecimento de Israel. Há uma única diferença: agora, Abbas está autorizado por todos os palestinos – não só pelo Fatah. O próprio governo da Autoridade Palestina nada terá a ver com as negociações. Sua tarefa é trabalhar no front interno e preparar as eleições. A OLP continuará responsável pelas negociações – com delegação chefiada por Abbas.

Há agora, também, probabilidade real de manter um amplo cessar-fogo – e não só em Gaza – e de menos violência, inclusive na Cisjordânia. O melhor meio de ultrapassar a rejeição e a oposição israelense é a comunidade internacional aceitar o acordo, reconhecendo o direito que os palestinos têm de promover reformas democráticas e, depois, aceitar o futuro governo a ser eleito e dispor-se a negociar com ele.

Pelo acordo assinado, o Hamas passa a ser parte da OLP [Organização para a Libertação da Palestina]?

Moustapha Barghouti: O Hamas será parte da OLP – bem como todos os grupos que estavam fora da OLP e que agora também assinaram o acordo, inclusive o movimento do qual participo, a Iniciativa Nacional Palestina. Tudo isso significa que haverá um liderança de transição que não substitui nem se sobrepõe ao papel que hoje cabe à comissão executiva da OLP e nada muda nos compromissos da OLP. A nova estrutura de transição trabalhará para preparar eleições livres e democráticas para o Conselho Nacional Palestino da OLP, que há 25 anos não realiza eleições. Na prática, o acordo fortalece a OLP e lhe garante representatividade, sem alterar os atuais compromissos, e abre a porta para ampla participação democrática, de todos.

Como se conectam o acordo e a possibilidade de a OLP comparecer à ONU, em setembro, para requerer reconhecimento internacional para o estado palestino?

Moustapha Barghouti: Acho que o acordo ajuda a fortalecer essa ideia. O comportamento de Israel nos tornou mais determinados do que nunca, e daremos andamento a esse projeto. Agora, os palestinos podem apresentar-se como frente unida, ante a comunidade internacional, para requerer que o estado palestino seja reconhecido, o que inclui, evidentemente, o fim da ocupação.

Houve quem levantasse a possibilidade de os EUA suspenderem o financiamento que dão à Autoridade Palestina, por causa desse acordo. Como o senhor analisa essa possibilidade e que impacto teria para os palestinos?

Moustapha Barghouti: Esperemos que não aconteça, mas, se acontecer, será um problema a ser enfrentado. O mais importante é que os EUA não deem início à prática de sanções contra nós, ou pressionem outros governos, como fizeram em 2007, para que implantem sanções contra os palestinos.

Há, nesse acordo, uma oportunidade – há consenso entre os palestinos em torno da solução Dois Estados; e todos estamos dispostos a nos abster de qualquer prática violenta. Nossa mensagem é: os palestinos estão prontos para fazer a paz.

Por outro lado, há um risco. Se Israel preferir pressionar a Autoridade Palestina – e os EUA apoiarem Israel e, por sua vez, pressionarem a comunidade internacional contra os palestinos –, o efeito será um só: o colapso total da Autoridade Palestina e de todo o projeto construído até aqui. Que escolham: se escolherem a oportunidade, ela levará à paz; se escolherem o risco, ele levará ao desastre.

E o que será feito das forças de segurança palestina? O Hamás manterá suas milícias armadas?


Moustapha Barghouti: Concordamos que, nessa primeira etapa, tudo ficará como está – o status quo será mantido na Cisjordânia e em Gaza. Os arranjos vigentes não serão alterados e adiante, aos poucos, enfrentaremos gradualmente essa e outras questões, depois de o governo estar reconstituído e operando. Será formado um comitê de supervisão formado por profissionais que planejarão e executarão a unificação e a despartidarização de todo o aparelho de segurança. De tal modo que, quando tivermos eleições, devemos estar organizados para que os corpos eleitos possam assumir a responsabilidade pelas forças de segurança.

Há quem diga que, ao fazer esse acordo, a OLP adotou a cartilha do Hamas. Como o senhor reage a esse argumento?

Moustapha Barghouti: Perdoe a franqueza, mas isso é bullshit. Lixo, mentiras, intrigas. O que aconteceu é que o Hamás adotou a cartilha da OLP. Se você ler o discurso de Khaled Meshaal, lá está dito que o Hamás aceitou a solução Dois Estados. Meshaal disse muito claramente que o Hamás subscreve proposta a favor das fronteiras de 1967, capital em Jerusalém, estado soberano e democrático; que é a favor de eleições e que o Hamás respeitará o resultado de eleições livres e democráticas. O que mais querem de nós? Melhor fariam todos se não engolissem, tão cegamente, a propaganda de Netanyahu. É o caminho errado, que leva a nada de bom e promove o atraso.

Tradução: Vila Vudu

Cinema Palestino

A Palestina já existe no cinema

Durante os últimos dez anos, uma nova onda de cineastas palestinos projetou na tela uma identidade nacional específica.

Sabah Haider



Durante os últimos dez anos, uma nova onda de cineastas palestinos projetou na tela uma identidade nacional específica. Está relacionada mais especificamente com a política do que outras representações anteriores sobre vidas e histórias dos palestinos.

Enquanto a segunda Intifada (que começou em setembro de 2000) estava em seu apogeu máximo em Israel e nos territórios palestinos ocupados, a película "Intervenção divina" ("Divine Intervention") (2002), do cineasta Elia Suleiman, nascido em Nazaré, foi apresentada na Academia de Artes e Ciências Cinematográficas como indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro. A Academia o rechaçou porque a "Palestina não é um país". Em 2006, quando o filme do cineasta palestino Hany Abu-Assad "Paradise Now" (2005) foi indicado para a mesma categoria, a Academia o validou e identificou seu país como "a Autoridade Palestina".

O estudioso Edward Said escreveu na introdução do livro sobre o cinema palestino Dreams of a Nation [Sonhos de uma Nação]: "Toda a história da luta palestina tem a ver com o desejo de ser visível". Este desejo é o que tem guiado a nova onda de filmes palestinos na última década. O cinema palestino se reinventou muitas vezes nos últimos 40 anos, mas os filmes feitos desde a segunda Intifada, que começou no ano 2000, são os que têm recebido atenção internacional. E não porque existam, mas porque representam uma afirmação social, cultural e política sem precedentes.

Nos últimos dez anos, milhares de partidários da causa palestina em todo o mundo - não somente palestinos - têm recorrido às câmeras, com a ajuda de uma tecnologia digital, para fazer filmes sobre a Palestina e a urgente situação atual dos palestinos. Seu cinema se caracteriza pelo uso de fatos históricos e sociais comuns para documentar a luta dos palestinos, a ocupação israelense e a identidade cultural.

Os destacados estudiosos do cinema palestino Nureth Gertz e Michel Khleifi identificaram quatro períodos diferentes em seu livro Palestinian Cinema: Landscape, Trauma and Memory [Cinema Palestino: Paisagem, Trauma e Memória]. O primeiro se estende entre 1935 e 1948, ano da nakba (catástrofe, termo utilizado para designar o êxodo dos palestinos em 1948). O segundo, "a época do silêncio", compreende de 1948 a 1967, em que não se produziram películas. O terceiro abarca os filmes do período revolucionário entre 1968 e 1982 - provocado pela ocupação da Cisjordânia e Gaza depois da Guerra dos Seis Dias - que foram realizadas sobretudo pela Organização para a Libertação da Palestina (OLP) e outras organizações palestinas no exílio no Líbano. No quarto período, que começou em 1982 depois da invasão israelense do Líbano e do massacre de Sabra e Chatila, continua até a atualidade.

Nação sem Estado

A doutora Lina Khatib, especialista em cinema árabe e professora da Universidade de Stanford na Califórnia, afirma que a relação de um filme com a história é subjetiva. Acrescenta que o conflito árabe-israelense é o exemplo mais claro de um mesmo fato histórico ao qual se dá "diferentes interpretações, muitas vezes contraditórias" em Hollywood e nos filmes árabes. Ela opina que as verdades construídas por cada uma das partes se produzem por determinados e diferentes contextos históricos e que refletem tais diferenças.

Os filmes palestinos da nova fase estão inerentemente ligados à política. São construções cinematográficas que tratam da resistência específica do período posterior a 2000. A segunda Intifada é um acontecimento-chave na luta palestina, ponto no qual se desenvolve a construção da identidade nacional definida pelos fatos históricos e sociais que ocorreram. Os filmes anteriores, com uma voz palestina como alternativa ao discurso dominante israelense sobre o conflito, constituem esse novo momento.

O cinema palestino é realmente um cinema nacional sem estado, que representa 9,7 milhões de palestinos social, econômica e geograficamente espalhados por todo o mundo - aproximadamente 74% dos palestinos são refugiados. Nos territórios ocupados, os palestinos quase não têm acesso a cinema: durante a primeira Intifada, Israel fechou todos os centros de entretenimento, incluindo os cinemas. O estado israelense paralisou as pessoas e asfixiou seus esforços culturais, e também proibiu as manifestações públicas e encontros culturais.

Definir o cinema palestino não é fácil. Em um ensaio, o cineasta Omar al-Qattan, nascido em Beirute e educado na Grã-Bretanha, levanta questões sobre o que o torna um diretor de cinema palestino, além de ser filho de pais palestinos. Afirma que sua relação com a Palestina é um imperativo ético para o qual está equipado devido ao patrimônio histórico e cultural de sua família e a amizades com outros palestinos. Al-Qattan se mantém firme no fato de considera "palestina qualquer película comprometida com a Palestina, e não limita o nome às estreitas fronteiras nacionalistas". Adotando a definição de Qattan, entende-se que "A porta do Sol" ("Bab el Shams") seja considerado um filme palestino, apesar de ter um diretor egípcio e financiamento francês.

Esperança e desespero

Hamid Dabashi, editor de Dreams of a Nation [Sonhos de uma Nação], escreveu: "A simples proposta do cinema palestino marca a disposição traumática de sua origem e originalidade. O mundo do cinema não sabe muito bem como abordar o cinema palestino, precisamente porque surge como um cinema sem estado com sérias consequencias em nível nacional". Isso aparece talvez bem refletido na nova produção de Elia Suleiman "O tempo que resta” (“The Time That Remains”) (2009), o último da trilogia palestina (os outros dois que compõem a trilogia são "Crônica de um desaparecimento" (“Chronicle of a Disappearance”) (1996) e “Intervenção divina” (“Divine Intervention”), em que afirma que os espectadores têm que considerar o fato de que, simplesmente, "o tempo se acaba".

Os filmes palestinos da nova geração acreditam em ações sociais comuns, como a ocupação, a ausência de um estado e a luta pelo direito de retorno para construir uma identidade nacional que transcenda a diáspora fragmentada. A ocupação israelense e a opressão são representadas por meio da descrição dos postos de controle, bloqueios de estradas e cartões de identificação. A contínua ausência de um estado e a aspiração de ter uma pátria se mostram como esperança e desesperança - a esperançada busca de uma nação soberana; os que carecem de esperança, como os personagens dos filmes de Elia Suleiman, sofrem frustração e desespero. O direito ao retorno que aparece em todos esses filmes pretende eliminar a causa do sofrimento e voltar a um estado de paz e segurança.

A segunda Intifada permitiu ver os símbolos da sublevação: Yasser Arafat, os postos de controle e bloqueios de estradas, a barreira israelense da Cisjordânia e a expansão dos assentamentos. A maioria dos filmes da nova onda estão ambientados na Cisjordânia, onde os palestinos vivem "atrás do muro" e utilizam os pilares da luta - a falta de pátria, a opressão, a resistência e o direito ao retorno. Desde o bloqueio israelense é difícil rodar filmes na Faixa de Gaza, ainda que no ano passado tenha sido rodada uma película de grande alcance, “Imad Aqel” (2009), que trata de um combatente do Hamas, Movimento de Resistência Islâmico, morto em conflito. Fazer um filme sob ocupação, dentro do bloqueio israelense, em um lugar assolado pela pobreza, era uma façanha, ainda que as manchetes internacionais tenham se concentrado no fato de o filme ter sido financiado e produzido pelo Hamas. Quatro dos atores do filme foram posteriormente assassinados durante e Operação Chumbo Fundido - a guerra israelense em Gaza, que durou 22 dias entre dezembro de 2008 e janeiro de 2009.

Uma arma cultural

A ideia de "conjunturas históricas específicas" de que Khatib fala está vinculada à ideia de identificar os "fatos sociais" essenciais - um termo criado pelo sociólogo francês Emile Durkheim. Segundo ele, os fatos sociais podem ser ao mesmo tempo "objetivos, resistentes e persistentes" e são a chave para entender a vontade coletiva ou a consciência e identidade de um grupo. Durkheim define os fatos sociais como "formas de atuar ou de pensar como a característica peculiar de exercer uma influência coercitiva sobre a consciência individual... Inclusive os símbolos que representam esses conceitos mudam em função do tipo de sociedade"

Nos filmes da nova fase palestina, a relação entre o cinema e a realidade está historicamente e politicamente modulada para construir uma arma cultural que também atue como resistência. Essas películas são textos históricos dos oprimidos.

Poucos hispsters em Londres ou Nova York são conscientes do significado político do lenço palestino kufiya que compram na H&M ou Top Shop. A kufiya se converteu em um símbolo de solidariedade palestina e da resistência palestina em tempos de nakba, de forma não totalmente deliberada. Foi uma coincidência cultural. A Palestina era uma sociedade agrária antes da criação de Israel, e tanto a terra como a agricultura são grande parte desse patrimônio cultural palestino. Durante a nakba, quando os sionistas arrasaram os povos e os palestinos fugiram, os povos rurais foram os primeiros a serem destruídos. Os que fugiram foram os agricultores, que levavam a kufiya para se proteger do sol no verão e do frio no inverno nos campos e plantações de oliva. A kufiya é um símbolo recorrente no novo cinema palestino.

Outros símbolos são o mapa original da Palestina (antes de 1948), a terra e a bandeira palestina. A história demonstra que, como seres humanos, nos apoiamos nos símbolos para projetar nossa identidade quando nossas vozes e ações não podem (na França, o dia da Queda da Bastilha não seria o mesmo sem a bandeira francesa); a bandeira palestina é o símbolo mais importante de solidariedade, resistência e nacionalismo nos filmes da nova fase.

Por exemplo, "Intervenção Divina" (“Divine Intervention”), de Suleiman, e “Paradise Now”, de Abu Assad, relacionam o ambiente da ocupação israelense e a paisagem dos territórios ocupados com as personagens; dá a eles um contexto, convertendo-se também em uma parte da história. Na fantástica sequência de "Intervenção Divina", a noiva do protagonista vai coberta com uma kufiya quando luta contra os soldados israelenses. Sem a kufiya, a sequência poderia ser lida como feminista nas entrelinhas. No entanto, ocultando sua identidade com a kufiya, ela se converte em um símbolo de resistência palestina.

Ambas as películas identificam um objetivo coletivo de retorno à pátria. Mas "Intervenção Divina" pode ser interpretada como uma alegoria do fracasso da aspiração nacional, enquanto que "Paradise Now" pode ser entendida como uma alegoria difundida para alcançar uma determinação. No filme "O sal deste mar" ("Salt of this Sea") (2008) da cineasta palestino-estadunidense Annemarie Jacir, a personagem principal, Soraya, é uma jovem e rebelde estadunidense nascida no Brooklyn, que pertence à terceira geração de refugiados palestinos. Ela vai em busca de sua antiga casa em Jaff (atualmente em Israel) para aceitar sua identidade pessoal e história familiar, e anseia recuperar a casa de sua família. Como disse o historiador Issam Nassar: "O êxodo e a expulsão forçada dos palestinos em 1948 e a construção dos campos de refugiados em todo o Oriente Médio estabeleceram o contexto para a transformação dos antigos locais palestinos e afiliações comuns em nacionalistas".

Os cineastas do novo período conseguiram construir uma identidade nacional palestina que transcende a diáspora fragmentada; tem feito do cinema um meio-chave para a documentação e preservação da história de sua luta. Fundamentalmente, conservam o dialeto árabe-palestino - que não é fácil, tendo em consideração a dispersão geográfica da comunidade. A jornalista árabe-estadunidense Nana Asfour afirma: "O que une os filmes palestinos é o idioma - árabe palestino, o tema - a vida dos palestinos - e o desejo de cada diretor de retratar sua própria visão sobre o significado de ser palestino".

Há pouco tempo conheci Elia Suleiman em Beirute enquanto promovia seu novo filme "O tempo que resta", que estreou em Cannes no ano passado. Sugeriu que vale a pena considerar a multiplicidade de vozes dos cineastas palestinos. "Não sei se o microcosmos do conflito árabe-israelense é um reflexo do mundo, ou se o mundo é um microcosmos da Palestina. Em nível mundial, a Palestina se multiplicou e criou muitas Palestinas. Creio que se fôssemos ao Peru, também encontraríamos ali uma Palestina em estado grave".


Sabah Haider é jornalista e cineasta radicado em Beirute. Realiza oficinas de cinema para jovens palestinos em campos de refugiados na Palestina, Jordânia, Líbano e Síria.

21.5.11

Esperando Madri

 
 
O mundo à espera de Madri


Espanha vai às ruas por uma “sociedade nova que dê prioridade à vida acima dos interesses econômicos e políticos”, inspirando outros movimentos e países. Para um modelo de revolução que levou apenas três meses para cruzar o abismo econômico e social demarcado pelo mar Mediterrâneo, parece um tanto óbvio que espalhar-se dentro das fronteiras da União Europeia é o menor dos saltos. Uma semana depois, poucos duvidam da #revoluçãoespanhola. O artigo é de Wilson Sobrinho.

Wilson Sobrinho, correspondente da Carta Maior em Londres

“Ninguém espera a revolução espanhola”, diz, citando Monty Phython e o formato hashtag consagrado no Twitter, um dos cartazes favoritos na praça Puerta del Sol em Madrid, onde milhares de manifestantes protestam contra o desemprego, a crise econômica e o sistema político espanhol. Embora chamar os acontecimentos atuais no país de “revolução” seja um certo atropelo no momento, a frase sintetiza com alguma precisão o movimento nascido para ser um evento de um dia de duração e que agora causa arrepios na espinha dos políticos ao ameaçar reencenar roteiros vividos em Tunísia, Egito, Iêmen, Barein, Siria, Marrocos, Líbia e outros. Desta vez, à margem norte do Mediterrâneo.

Há, em um relato feito pelo independente Periodismo Humano.com, uma boa pista sobre a gênese do que vem acontecendo no país ibérico. “Tudo isso surge de uma iniciativa espontânea de um grupo de pessoas que decidiu dormir na praça depois de uma manifestação. Era fácil assim! Poderia ter sido eu ou você, mas foram essas 40 pessoas que iniciaram tudo”, disse uma voz anônima em meio aos manifestantes de Madri, na praça-tornada-quartel-general temporário dos descontentes, que agora já somam uma multidão.

No domingo passado, milhares de pessoas foram às ruas do país – uma semana antes das eleições municipais. Convocados pelo movimento Democracia Real Já, sob o slogan “não somos mercadorias nas mãos de banqueiros e políticos”, 130 mil pessoas protestaram em dezenas de cidades espanholas. “Esta mobilização foi o princípio de uma série de longo prazo”, dizia um comunicado publicado na terça-feira, quando os passos levavam a crer que a ocupação das praças seguiria em crescimento. “O que nos move é a firme convicção de aprofundar o caminho que começamos”.

“Somos pessoas que viemos livre e voluntariamente”, reforça outro manifesto publicado em tomalaplaza.net, site que reúne relatos das manifestações através da Espanha e em outros países onde cidadãos espanhóis se solidarizam. O texto, traduzido para mais de uma dezena de línguas por voluntários via internet, defende “uma sociedade nova que dê prioridade à vida acima dos interesses econômicos e políticos. (..) [Queremos] Demonstrar que a sociedade não adormeceu e que seguiremos lutando pelo que merecemos mediante a via pacífica”.

“É uma vitória inquestionável que uma organização criada há três meses seja capaz de mobilizar dezenas de milhares de pessoas em mais de 50 cidades da Espanha sem o apoio de nenhum partido político, de nenhum sindicato e de nenhum grande meio de comunicação”, analisa em seu blog o jornalista Ignacio Escolar, que graças à cobertura do evento que vem fazendo está recebendo 200 mil visitas por hora em seu site (www.escolar.net).

Era quarta-feira à noite quando o El País concedia “um salto de qualidade notável nas manifestações”. Nos primeiros dias, dizia o jornal madrileno “eram os jovens e as pessoas em contato com as redes sociais que foram à Puerta del Sol”. Agora juntam-se à aglomeração os “adultos, gente cuja informação chega através dos meios de comunicação tradicionais”. “A chama dos indignados se mantém viva. E não parece que irá se apagar até domingo. Tudo indica que irá além. Há muita gente que está farta”, reconhece o diário.

Com o crescimento do acampamento, grupos de trabalho foram formados – com voluntários cuidando da limpeza, da alimentação, do fornecimento de sinal de internet e da organização geral. Até uma enfermaria foi montada na praça Puerta del Sol. Além, claro, das discussões políticas.

Entre as ideias defendidas na praça, segundo relato de Periodismo Humano, estão a reforma da lei eleitoral, propondo o fim do financiamento privado das campanhas; maior participação popular na formatação dos orçamentos públicos; reformas trabalhistas, políticas e fiscais, com o aumento do imposto de renda nas camadas mais ricas da população; aumento do salário mínimo e maior controle sobre a atividade dos bancos. Sugestões que se somam a uma carta de propostas exposta pelo Democracia Real Já, que defendem medidas que preservem os serviços públicos de qualidade e reduzam os gastos militares, para ficar em dois exemplos.

Impasse
 
Diante de eleições regionais no domingo, a Junta Eleitoral Central votou pela proibição de manifestações durante o final de semana, sob o argumento de que o resultado das urnas poderia ser influenciado e distorcido pela presença dos manifestantes nas praças do país.

Em uma enquete conduzida pelo jornal Público, 95% das pessoas se mostraram contrárias à decisão da Junta Eleitoral. E mesmo pessoas ligadas à polícia – a quem caberá a missão de desalojar os “indignados” (como a imprensa espanhola vem chamado os manifestantes) – já se declararam contrárias à ideia de removê-los. “Seria um erro tremendo, um erro absoluto a polícia desocupar a praça”, disse o vice-secretário da Confederação Espanhola de Polícia, Lorenzo Nebrera, em um texto produzido pela Europa Press na tarde desta sexta-feira.

É improvável, porém, que a decisão desfaça os acampamentos e que os manifestantes voltem para casa. Pelo contrário, uma convocação de mobilização para os primeiros minutos da madrugada de sábado corre a internet, e a hashtags #nonosvamos é uma das favoritas.

“Queremos lembrar que não nos identificamos com nenhum partido político, nenhuma organização sindical ou social”, responderam os manifestantes em um comunicado, para logo em seguira convidar “todas as pessoas que queriam participar, que venham à [praça Puerto del] Sol ou às praças de suas cidades”.

Enquanto os populares cantam e gritam à espera do sábado que os proíbe de estar na rua, sem sinal algum de recuo, um fato inescapável que deve se verificar no decorrer dos próximos dias está exposto na capa do jornal Público. “Ontem era uma tendência. Hoje uma realidade. O movimento cidadão que desde domingo passado se concentra nas praças da Espanha, encontrou eco e vozes em todos os cantos do mundo”, observa o jornal. “De Los Angeles a Sidney passando pela Cidade do México, Helsinki, Budapeste e Roma. São mais de 230 [cidades com manifestações]”.

A maioria das manifestações formadas por cidadãos espanhóis demonstrando apoio aos seus pares. Porém, na Itália já há um embrião formado por italianos dispostos a levar as suas próprias angústias às ruas. “Decidimos unir as nossas convocatórias com as de Democracia Real Já porque a nossa situação não é muito diferente do que a espanhola”, disse um ativista, com manifestações programadas para Roma, Turin, Bolonha, Milão, Bari, Perugia, Trieste, Florença.

Para um modelo de revolução que levou apenas três meses para cruzar o abismo econômico e social demarcado pelo mar Mediterrâneo, parece um tanto óbvio que espalhar-se dentro das fronteiras da União Europeia é o menor dos saltos. Uma semana depois, poucos duvidam da revoluçãoespanhola.

Clique aqui e confira o mapa das manifestações
http://www.thetechnoant.info/campmap/

20.5.11

Rua de sombras e risos.

 
 
Rua de sombras e risos

Quis mais do que fui viajante
o tempo é bem menos largo
se olharmos suas sombras
quis-me aventureiro
no meu lugar agreste
mas lá, o tempo arrastava-se,
reduzia-me o apetite
instância dos meus desejos
todos os caminhos levavam
ao mesmo lugar
pouco adiantava fugir das sombras
mas, havia uma rua
uma rua que nunca dormia
uma rua de implacáveis risos
onde era proibido ir
repleta de personagens
que viviam como lâminas
afiados e prontos para
lutar , viver ou jazer...
muito mais tarde descobri
que lá na rua dos risos
havia muito mais romantismo
e liberdade que jamais
encontrei em outro lugar.
Suas sombras possuíam vidas.
 
Cordda

A Besta.


A primeira Besta de Apocalipse 13 identificada!
Fonte: Youtube
http://www.youtube.com/watch?v=l0LyHdsS5C8&feature=related

site: Worlds Last Chance


16.5.11

Mahler

 
 
 
 
A morte da vida privada



Meses finais de Gustav Mahler marcaram o fim do respeito da mídia pela privacidade dos famosos

 
Sérgio Augusto – O Estado de S.Paulo

Michael Jackson não foi a maior celebridade de todos os tempos. Nem Elvis Presley. Jesus ainda ganha dos dois. E também de Hitler e de quem mais se arriscar nessa inglória disputa. Antes de Jesus, houve Sócrates e Alexandre (o Grande); e antes de Jackson e Presley, houve Lorde Byron, Sarah Bernhardt, Charles Lindbergh – todos popularíssimos em suas respectivas épocas, com vantagem para o filósofo grego e o monarca macedônio. Todos eles são citados na substanciosa história da fama (The Frenzy of Renown, literalmente O Frenesi da Notoriedade), que há tempos escreveu Leo Braudy, menos Jackson, pois o livro já estava pronto quando o cantor começou a firmar-se como a maior estrela pop do seu tempo.

Outra omissão, esta indesculpável: o compositor e maestro austríaco Gustav Mahler. Na próxima quarta-feira faz cem anos que ele morreu; merecidas homenagens ao seu gênio musical estão programadas em tudo quanto é canto, em salas de concerto, rádios, jornais, revistas, na TV, na internet, acompanhadas de lançamentos e relançamentos de gravações (a caixa de 11 CDs com as Sinfonias de Mahler, regidas por Leonard Bernstein, sai por US$ 46,65 na Amazon) e ensaios biográficos, entre os quais dois do crítico londrino Norman Lebrecht, que foi o único mahleriano até agora a chamar atenção para o fato de a morte do compositor ter auspiciado o nascimento de um fenômeno absolutamente moderno, qual seja o fim do respeito da mídia pela vida privada de uma celebridade.

Circo midiático já não era uma novidade desde novembro de 1910, quando o sumiço de Leon Tolstoi provocou uma épica caçada internacional que só chegaria ao fim depois do tumultuado enterro do escritor, coberto até por cinejornais franceses, mas a frenética invasão da privacidade de Mahler, em seus últimos meses de vida, foi mesmo algo nunca visto até aquela data.

Na primeira década do século passado, Mahler era o maior nome da música erudita no eixo Viena-Nova York. Fizera uma revolução na cultura musical das duas cidades, cortando as asas das divas da Ópera de Viena e abrindo suas portas a outras formas de criação artística, refinando o gosto das plateias americanas, das mais abonadas às menos favorecidas, regendo concertos para estudantes e operários. Contemporâneo do idolatrado Caruso, Mahler também era reconhecido e reverenciado por onde passava, motoristas de táxi o apontavam nas ruas e avenidas de Manhattan. Em fevereiro de 1911, com seu contrato com o Metropolitan Opera House expirando e sob intensa pressão dos americanos para que o renovasse, uma inflamação na garganta o derrubou. Contrariando a recomendação do dr. Joseph Frankel, médico da família, foi reger seu último concerto. Acabou no hospital Mount Sinai. Diagnóstico: endocardite bacteriana, incurável na época.

Informado da gravidade da doença, Mahler pediu para ser levado de volta a Viena. Antes, por sugestão de Frankel, passou por Paris para uma consulta com o bacteriologista André Chantemesse, a última esperança de cura do compositor. Enquanto Mahler era examinado, na sala ao lado, Frankel dava em cima de Alma, a sedutora mulher do maestro, àquela altura mais preocupada em encontrar-se com o amante, o arquiteto Walter Gropius, futuro criador da Bauhaus.

A partir de Paris, a imprensa não largou mais o osso. Foi um assédio sem tréguas, com repórteres fazendo plantão na porta da clínica, abordando quem nela entrava e saía, contrabandeando rumores, indiscrições de enfermeiras e até telegramas. O diário austríaco Neue Freie Presse publicava boletins diários sobre o estado de saúde do compositor, com detalhes sobre sua temperatura, pressão arterial, tipo de alimentação, medicamentos, horas de sono, etc., vazados por Alma, com a colaboração da direção da clínica, interessada em promover seus serviços. Todo mundo tirou sua casquinha: de Bruno Walter, discípulo de Mahler, com bom trânsito na imprensa, a uma marca de leite búlgaro, incluída na dieta de Mahler, que explorou ao máximo o marketing gratuito.

“O bem nutrido frenesi em torno do leito hospitalar de Mahler foi de uma indecência sem precedentes”, escreveu Lebrecht, algo que só voltaria a ser visto em Paris 86 anos depois, com a morte de Lady Di, quando a mídia voltou a eximir-se de responsabilidade moral por fomentar a bisbilhotice e a histeria coletivas.

A viagem de trem até Viena foi outra odisseia. Cobriram-na como se a bordo estivesse, moribundo, o imperador Francisco José I. A cada parada, hordas de jornalistas invadiam a estação, famintos de notícias. Na capital austríaca, de duas em duas horas os editores dos principais veículos ligavam para o sanatório Löw, em que Mahler foi internado. Para compensar a falta de novidades, fantasiavam melhoras e pioras, colhiam depoimentos de amigos e estampavam caricaturas de Mahler “em seu leito de morte”. Fãs, voyeurs e outras modalidades de parasitas inventavam maneiras engenhosas de invadir o hospital.

Arthur Schnitzler e Alban Berg rondaram o sanatório em busca de algum tipo de inspiração para suas obras. Deu em nada. Thomas Mann, mesmo a distância (estava de férias no Adriático), revelou-se mais profícuo, inspirando-se em Mahler para compor o Gustav von Aschenbach da novela Morte em Veneza, cujo desfecho é uma alusão à morte do compositor, que, embora esperada havia quase três meses, também chocou, como a de Aschenbach, o mundo inteiro.

Mahler foi enterrado no cemitério Grinzinger. Queria apenas seu sobrenome na lápide, puseram o nome completo, mas nada além disso. Seu túmulo é austero e discreto, como a mídia de um século atrás, apesar de incipiente, não soube ser – nem aprenderia a ser.

A Ilha do Desejo

 
 
                                                                  A Ilha do Desejo
 
 
 
Norte-africanos se endividam, desafiam o mar e morrem aos punhados em sua odisseia para Lampedusa, a atual porta do sonho europeu

José Luis Toledano



Na cama número 21 do hospital de Zarzis, cidade turística no sul da Tunísia, Mohamed Dhifallah recupera-se de esgotamento. Com o corpo ainda impregnado pelo medo, dolorido pelo esforço extremo e entumecido pela umidade e o frio, ele aguarda a certidão que lhe permitirá abandonar o centro hospitalar e regressar à casa da familia em Tataouine, no interior. O jovem de 21 anos é o último dos companheiros de aventura que ainda permanece hospitalizado por desmaio e hipotermia depois da fracassada travessia para a ilha italiana de Lampedusa. Enquanto aguarda a alta médica, seu irmão Aiman e Omar, um amigo comum, se esforçam para estimular a mobilidade de suas pernas com massagens e flexões.

O hospital é um reflexo do estado de precariedade de que padece o sistema sanitário público tunisiano. A pintura desbotada das paredes dos quartos, os metais enferrujados das camas, os lençóis sujos e o instrumental cirúrgico escasso e obsoleto contrastam com a gentileza e o afeto com que o pessoal médico atende os pacientes. Mohamed divide quarto com três anciãos convalescentes de achaques da idade. Eles observam fascinados e ouvem atônitos a odisseia do jovem.

Mohamed chegou a Zarzis proveniente de Tatouine, sua cidade natal, a 200 quilômetros, na mesma noite em que embarcou. Ele se dirigiu à praia onde se reuniu com o resto dos companheiros de viagem e, às 10 da noite, aproveitando a escuridão, os traficantes os trasladaram para botes, de oito em oito, até a embarcação ancorada a uma distância prudente da costa. Quatro horas depois, carregado, o barco partia rumo noroeste. Para Lampedusa. A maioria dos passageiros era jovem, mas alguns passavam dos 50 anos. Todos partilhavam a mesma obsessão: chegar à Europa para escapar da falta de oportunidades, do desemprego e da pobreza.

Quando partiram, soprava uma ligeira brisa favorável e o mar estava calmo. Assim eles navegaram durante 12 horas. Ao chegar a águas italianas, a duas horas de Lampedusa, o tempo mudou bruscamente. O vento começou a soprar a mais de 40 nós e o mar jogou a seu capricho com a embarcação onde Mohamed e uma centena de emigrantes se amontoavam. Muitos enjoaram, desmaiaram até. Achavam que a qualquer instante o barco viraria. “Perdemos a esperança de sobreviver. Pensamos que, de um momento para outro, tudo acabaria. Nos abraçamos e começamos a rezar”, conta Mohamed com voz tênue e fatigada, recostado sobre a cama.

O capitão tentou tranquilizá-los, elevar o ânimo apesar do pânico e do abatimento. Com o motor funcionando, ele deixou que a força da marulhada impelisse a embarcação. Navegou suavemente, evitando investir de proa e ser engolido pelas ondas. Ordenou que atirassem toda bagagem ao mar, distribuiu os passageiros de pé pelo convés para equilibrar melhor o peso e pôs um grupo para retirar a água da cabine do motor e evitar que ele parasse. Assim ficaram por três dias e três noites, sem dormir, com as roupas encharcadas, esgotados, transidos de frio, mortos de medo e enjoados. Depois de navegar em círculos, chegaram a águas líbias e dali se voltaram à costa de Zarzis. “Conseguimos sair do inferno, salvar a vida e regressar à terra”, relata Mohamed, ainda angustiado.

A taxa de desemprego desproporcional, principalmente entre a juventude, foi uma das principais causas que motivaram a insurreição popular tunisiana que acabou com o regime autoritário de Zini al-Abidine Ben Ali, meses atrás. Num país onde 40% da população tem menos de 25 anos e três quartos dos desempregados são menores de 30, a falta de perspectivas de trabalho e o desencanto social depois da revolução empurram milhares de pessoas a se lançarem ao mar e tentar burlar as blindadas fronteiras europeias.

Desde o princípio do ano, cerca de 400 barcos e mais de 25 mil pessoas chegaram à ilha italiana de Lampedusa. Dessas, mais de 23 mil são imigrantes tunisianos que partiram das costas de Djerba e Zarzis. Vários naufrágios, dezenas de mortos e desaparecidos não deterão esse fluxo de clandestinos que está azedando as relações entre os governos da Itália e da França e atiçando a xenofobia e o populismo. “Queremos trabalhar como qualquer pessoa do mundo”, assegura Mohamed. “Em Tatouine eu era um desempregado, e como eu há muitos mais de todas as idades. Por isso queria partir para a Itália, encontrar um futuro.”

Tatouine é uma cidade poeirenta e quente, de ruas amplas e animadas, rodeada por uma paisagem árida. Os cafés estão cheios de jovens ociosos que discutem política e futebol enquanto assistem à vida passar sem entusiasmo. Na ideia de quase todos está a Europa, e muitos conseguirão os 800 necessários para embarcar como clandestino e cruzar os 120 quilômetros que separam Lampedusa da costa tunisiana. “Depois da revolução nada mudou, nada melhorou. Dos que têm trabalho, aumentaram os salários para acalmá-los, mas para os desempregados, que foram os que realmente fizeram a revolução, não deram nada”, queixa-se Mohamed.

Enquanto um médico ausculta Mohamed, Aiman, seu irmão, de 28 anos, diz que os pais sofreram muito até saber que ele estava vivo. “Está tudo bem. Você pode sair”, confirma o médico. Mohamed se levanta com esforço, calça as sandálias novas que o irmão trouxe (ele perdeu as suas na travessia) e sai do quarto depois de se despedir afetuosamente do pessoal do centro médico e dos companheiros de quarto e seus familiares. Todos lhe desejam sorte. Todos sabem que ele voltará a tentar. Na porta do hospital, antes de nos despedirmos, eu lhe pergunto ingenuamente se depois de tudo que passou ele tornará a partir. Sua resposta é toda uma declaração de intenções: “Se a Itália fechar suas portas, iremos para a Alemanha, se a Alemanha fechar as suas, iremos para a França. Continuaremos sendo clandestinos”.

O turismo, que representa 8% do PIB da Tunísia, um dos motores econômicos e imagem de modernidade do país, está reduzido ao mínimo desde o triunfo da revolução. O temor dos turistas com a insegurança deixaram os complexos turísticos de Hammamed, Sousse, Djerba e Zarzis com menos de 15% de ocupação. Apenas um punhado de franceses, ingleses ou alemães desfruta de grandes e luxuosos hotéis quase vazios. Muitos estabelecimentos fecharam e despediram seus empregados, enquanto outros baixaram as tarifas ao mínimo para atrair visitantes estrangeiros. Isso tudo só agravam a precariedade salarial e o desemprego.

É meio-dia. O céu está claro e límpido. Dois jovens pescadores tiram as algas das redes sobre uma pequena embarcação puxada para a margem. Ninguém sabe onde estão nem de onde partem os barcos carregados de clandestinos. Um dos jovens garante que quase não sobram grandes barcos de pesca. Todos foram vendidos para traficantes ou são utilizados pelos próprios pescadores para a travessia de emigrantes. Não longe dali, a poucos metros dos limites de uma praia reservada aos clientes de um hotel, uma choupana de madeira com telhado de sapé, que habitualmente serve para os pescadores guardarem seus apetrechos, abriga uma vintena de emigrantes que se protege do calor à espera de que a noite caia para partir.

Salah é o passador-traficante encarregado do grupo. Moreno e robusto, com a cabeça raspada, uma camiseta verde sem mangas e uma tatuagem no antebraço ? proibida no Islã ?, ele combina a pesca tradicional com esse negócio, sem dúvida mais lucrativo. Seu trabalho é rápido e simples: “Primeiro, procuro um capitão com um barco, depois gente querendo partir para Lampedusa. Quando tenho um grupo numeroso, eu o entrego ao capitão e ele me paga. E aí eles partem para a Itália”, explica com frieza. “Me pagam 100 dinares ( 50) por pessoa. O capitão fica com 1.500 a 2 mil dinares (entre 750 e 1.000) por emigrante.” Que tipo de gente vai para a Itália? “Gente sem nada para viver aqui. Homens jovens, adultos, mulheres com bebês, até grávidas.” Não sente remorso por enviá-los para uma travessia perigosa? “Usamos os melhores barcos. Em Zarzis, conhecemos bem o mar e a Itália não fica longe. Nunca houve acidentes”, ele garante. O negócio é lucrativo? “Não faço isso o tempo todo, só quando preciso de dinheiro. O capitão é quem mais se beneficia. E os clandestinos também. Vão para a Europa ganhar em euro. A vida lá é fácil. Eles pagam um pouco, partem e chegam a salvo.”

Salah confirma uma versão muito disseminada entre os emigrantes. “Os guardas costeiros tunisianos não vigiam as costas. Para eles, dá no mesmo, não ligam.” Por quê? “Não sei, talvez tenham medo.” E você não tem medo? “Até o presidente da república Ben Ali partiu. Depois de sua fuga eu não tenho medo de mais ninguém. Não tenho nada a perder. Aqui, o único direito que você tem é de respirar. Eu não tenho nem carteira de identidade nem documento algum que diga que sou tunisiano. Só quero ganhar meus 100 dinares para poder viver.”

A jornalista tunisiana Mabrouka Khedir acompanhou de perto tanto as revoltas que ocorreram em seu país como o drama migratório. Ela não acredita, embora as remessas que os imigrantes enviam da Europa signifiquem ingressos importantes para o erário do país, que essa avalanche migratória sirva de válvula de escape. “É um problema sério, é claro, mas o atual governo tem assuntos muito mais urgentes a resolver. Por exemplo, lutar contra a falta de segurança, a preparação das eleições para a Assembleia Constituinte em julho, ou buscar medidas para conter a crise econômica que afeta toda a sociedade.”

Rayab tem 17 anos e cara de menino, embora conserve poucos traços de inocência. Ele veste uma camisa do Barcelona. Chegou da capital, Túnis, e aguarda pacientemente que as condições meteorológicas sejam favoráveis para poder embarcar à noite para Lampedusa. Pagou 1.800 dinares ( 900), que juntou graças a empréstimos e “alguns trambiques”. Apesar da juventude, participou das manifestações revolucionárias em dezembro e janeiro, e em mais de uma ocasião acabou preso. “Que revolução? “Não acredito nos enganos da revolução”, assegura com firmeza. “Eu já estou morto.” Agachado na beira de umas rochas borrifadas pelo mar, ele diz que faz tempo que tenta ir para a Itália e procurar um trabalho por lá. “Quando vejo, em cada verão, os tunisianos que voltam do estrangeiro com seus carros e dinheiro para gastar, me sinto complexado. Quero partir e fazer como eles, ser um homem livre. Na Tunísia, não tenho possibilidade de prosperar. Larguei o colégio muito cedo, nunca encontrei trabalho e acabei na miséria. Estou farto de ser um desempregado.”

Ao cair da noite, as praias desertas que banham os complexos turísticos se convertem no cenário onde se representa o penúltimo ato da imigração ilegal. Numerosos veículos repletos de clandestinos rasgam a escuridão com seus faróis. Eles os depositam ao pé do mar. Dali, são transportados em pequenos barcos de pesca a motor até a embarcação ancorada a centenas de metros da praia. A escassa presença policial facilita que o negócio siga seu curso. O grande cais do porto de Zarzis também é um cenário onde os barcos de pesca que realizarão a travessia carregam emigrantes. Os traficantes, alguns deles armados, fecham a passagem com seus veículos e vigiam o lugar para o caso de surgirem intrusos durante a operação. Não querem testemunhas e muito menos imprensa. Em um par de horas, a embarcação repleta de clandestinos esperançosos cruza o canal do porto rumo a Lampedusa e se perde na escuridão.

Tradução de Celso Paciornick

José Luis  Toledano  É JORNALISTA E DIRETOR DA REVISTA DIGITAL ESPANHOLA FRONTERAD