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6.5.11

Enquanto isso...no Oriente Médio

 
 
Cenário Líbio para a Síria: 
 
 
Estarão os Estados Unidos e OTAN preparando uma “intervenção humanitária” contra a Síria?


Por Rick Rozoff

A Casa Branca emitiu uma ordem executiva e criando novas e mais rigorosas sanções contra a Síria e apelou para que a OTAN fizesse o mesmo, declarou-se em 29 de abril. Numa carta ao parlamento americano Obama anunciou que tinha determinado que os abusos dos direitos humanos pelo governo da Síria constituíam uma incomum, mesmo uma extraordinária ameaça à segurança nacional e a política externa dos Estados Unidos, assim como à economia do país e que portanto ele tinha autorizado a imposição de sanções adicionais à Síria.

Obama deveria estar a referir-se entre outras coisas a acontecimentos relacionados com um irmão e um primo do presidente Bashar al Assad, o irmão Mais e o primo Até Nagib. Obama acrescentou que dessa maneira objetivos mais abrangentes também se conseguiriam em relação à Guarda Revolucionaria do Irã (por muito que essa seja uma conclusão demasiada dependendo de muitos supostos elos de ligação). Obama concluiu afirmando que apesar da retórica do governo iraniano reclamando para si mesmo solidariedade com os povos de toda a região, essa retórica deveria ser vista à luz das ações do país em suporte ao regime da Síria o que colocava o Irã em oposição à vontade do povo sírio.

Imediatamente após essa declaração já um funcionário oficial da Casa Branca dizia, por sua vez, que o próprio presidente Assad poderia ser o próximo a ser atingido pelas sanções.

Obama emitiu uma comparável, em verdade uma ordem executiva quase nas mesmas palavras contra a Líbia, isso dez dias depois dos protestos anti-governamentais terem lá começado, significando então três semanas antes que os mísseis e bombas americanos atingissem o solo do país. A emissão da ordem executiva deu-se em 25 de fevereiro.

Obama usou o mesmo molde, no qual só os nomes próprios tiveram de ser mudados em relação à Síria:- “Eu, Barack Obama, Presidente dos Estados Unidos, entendo que o Coronel Muamar Kadafi, seu governo, e seus associados próximos têm tomado medidas extremas contra o povo da Líbia... As circunstancias constituem um risco sério à estabilidade do país, constituindo um incomum, mesmo uma ameaça extraordinária à segurança nacional e a política externa dos Estados Unidos e eu pela presente declaro como caso de urgência nacional o agir contra essas ameaças.”

Washington confiscou ao meio tempo um valor aproximado de $32 bilhões de dólares de bens da Líbia nos Estados Unidos e pôs uma ênfase especial nos bens pertencentes “a qualquer pessoa determinada pela Secretaria das Finanças (the Secretary of the Tresury) em consulta com o Secretário do Estado (the Secretary of State)... seja essa pessoa um oficial do governo” ou “seja essa um filho do Coronel Muamar Kadafi.”



Vinte e dois dias após a declaração oficial começaram as missões de bombardeamento e os ataques de mísseis contra a Líbia, inicialmente abaixo do Comando Africano dos Estados Unidos [AFRICOM] na operação denominada “O Amanhecer de Odisseu” seguida então a 31 de março pela denominada “Operação Protetor Unificado” da OTAN, agora na sua sétima semana.



A Líbia e a Síria são as únicas duas nações do Mediterrâneo e os únicos remanescentes Estados Árabes não subordinados aos projetos de controle dos Estados Unidos e da OTAN para a Bacia do Mediterrâneo e para o Meio Oriente.

Nenhum dos dois países participou alguma vez nas operações da OTAN (de quase dez anos, a denominada “Operation Active Endeavor”, em português aproximadamente “Esforço Ativo”). Essas operações incluíam patrulhas marítimas e exercícios navais no mar Mediterrâneo. Nenhum dos dois países é um membro da associação militar “Diálogo Mediterrâneo” da OTAN, associação essa que inclui a maior parte dos países da região: Israel, Jordânia, Egito, Tunísia, Argelia, Marrocos e Mauritânia. Ressalta-se aqui que o Líbano foi sujeito a um bloqueio naval e a um bloqueio interno em suas fronteiras com a Síria, bloqueio esse dirigido por países integrantes da OTAN.

Jordânia e Marrocos estão apoiando a guerra da OTAN contra a Líbia e membros de um outro programa de associados da OTAN, a “Iniciativa de Cooperação de Istambul”- Qatar e os Emirados Árabes Unidos, estão fornecendo aviões de bombardeamento (fighter-bombers) para missões de combate na Líbia. Um outro membro dessa associação, Kuwait anunciou, em 24 de abril, que iria conceder $180 milhões para pagar os salários dos empregados dos rebeldes no chamado Conselho de Transição da Líbia. Esforços foram renovados esse ano para incluir “Cyprus” no programa de transição da OTAN. Suécia, como membro, forneceu para ação no Mediterrâneo oito jatos (!) do tipo denominado “Gripen”.

Líbia e Síria, entre todos os ataques e ameaças, podem ser vistos como os últimos postos de independência e não- alinhamento na inteira região do Mediterrâneo.

No domingo de páscoa, no dia 24 de abril, três membros na liderança do “aristocrático” ramo do regime norte-americano, e em efeito “pro-consuls” da era moderna, o senador John McCain, que a pouco tinha retornado de um encontro com os insurgentes em Benghazi, Joseph Lieberman e Lindsey Graham, estiveram num popular programa da CNN.

Lieberman, que os americanos e seus associados no resto do mundo vieram a aceitar como uma personificação da perícia da política externa e da diplomacia internacional, assim como um maduro Homem de Estado, pronunciou-se afirmando que a resolução 1973, do Conselho de Segurança da ONU dava justificação para que OTAN decidisse se desejava ir diretamente ao ataque à Kadafi. A isso Graham acrescentou que sua recomendação para a OTAN e a administração de Obama seria para cortar a cabeça da cobra e que portanto deveria-se bombardear o círculo de Kadafi assim como seus conjuntos habitacionais e seus quartéis generais.

(Quanto à de - fato ilegitimidade da resolução 1973 do Conselho de Segurança da ONU veja referencias em “[1].”)

McCain and Graham são republicanos e Lieberman um autodenominado independente que se alinha com o partido dos democratas no senado. Ele foi o candidato para vice-presidente dos democratas no ano 2000. Esse, que um dia esteve para ser o segundo em comando do que Obama vê como o único super-poder militar do globo, afirmou que “não se podia entrar numa luta com uma perna só” e em um crescendo por conta de sua própria belicosidade e para não ficar atrás de ninguém em fúria ou em nenhum outro aspecto relacionado com o caso, acrescentou que a finalidade era a de se desfazer de Kadafi uma vez por todas, e à americana especificou o que deveria então ser feito para tanto.

De maneira mais oficial especificou depois que acreditava que as pessoas ao redor de Kadafi deviam acordar perguntando-se se esse seria seu ultimo dia em vida e que os comandos militares apoiando Kadafi deviam estar a perguntar, como diz a expressão, se seriam mortificados para castigar o rei.

Lieberman mostrando-se desatisfeito com os resultados da campanha líbia, que logo estará entrando em seu terceiro mês, defendeu a idéia de que, de qualquer maneira, a mesma estratégia usada na Líbia no período inicial deveria ser aplicada à Síria, argumentando para uma confiscação dos bens dos oficiais do governo, assim como para um embargo de armas.  Lieberman fez um esforço, ao que parece fracassado, para ter a Síria relacionada com o Irã. Ele ainda enfatizou que era um momento de imensas oportunidades para a causa da liberdade na Síria e que isso seria de uma significância estratégica enorme para a região.

Lieberman, McCain e Grahan deram a conhecer sua posição conjunta numa declaração no 28 de abril, declaração essa que muito seriamente atacava a Síria. Declarou-se que a escalação da repressão do regime de Bashar al Assad contra o povo da Síria tinha chegado a um ponto decisivo e que essa repressão estava seguindo o mesmo caminho que a de Muamar Kadafi, usando força militar contra demonstrações pacíficas [Lembremo-nos que as demonstrações contra Kadafi foram dirigidas por grupos armados e que entre eles encontravam-se membros da Al-Qaida assim como representantes da polícia secreta do bloco ocidental.]

Argumentaram que Assad e aqueles fiéis a ele tinham perdido a legitimidade ao poder e que os declarantes dessa proposição conjunta insistiam para que Obama expressasse inequivocamente, como ele tinha feito no caso de Kadafi e Mubarack, que agora era hora de Assad deixar o poder. Insistiram em que o Presidente deveria tomar medidas econômicas e diplomáticas palpáveis e tangíveis para isolar e fazer pressão contra o regime de Assad, o que na opinião deles deveria incluir sanções contra Assad pessoalmente, assim como contra outros oficiais responsáveis por abusos contra os direitos humanos.

Os Estados Unidos e a OTAN, além da Sexta Frota Armada americana contam com a denominada força “Active Endeavor” (Esforço Ativo) da OTAN, forças militares permanentemente estacionadas no Mediterrâneo. Essas forças incluem, entre outros elementos aviões e navios de guerra além de submarinos que agora estão em ação contra a Líbia, mas que poderiam em pouco tempo ser encaminhados à Síria.

A Rússia e a China ao que tudo indica impediram que os Estados Unidos e a OTAN pudessem passar uma resolução contra a Síria semelhante à resolução contra a Líbia no Conselho de Segurança da ONU. Isso foi declarado em 27 de abril. A posição do representante da Rússia no Conselho de Segurança tinha sido a de que a situação atual da Síria não representava uma ameaça à paz e a segurança internacional.

Contudo, apesar de bloqueado no Conselho de Segurança dessa vez, lembreme-nos que o bloco ocidental [colonial-imperialista] já em outras ocasiões usou de expedientes ditos “de coalizão” para conseguir seus objetivos, uns dos quais então sendo as denominadas ordens executivas da administração de Obama.

A Inglaterra, a França, a Alemanha e Portugal fizeram circular um plano para um projeto semelhante à resolução 1973 (sanções contra a Líbia) nos últimos dias de abril.  No meio tempo e também tornado de conhecimento público em 27 de abril, a Inglaterra, a França, a Alemanha, a Itália e a Espanha derem a conhecer que tinham falhado em conseguir que os embaixadores da Síria nesses países europeus concordassem em criticar as ações do governo da Síria.

Sincronizada com as ações dos Estados Unidos em 29 de abril, a União Européia anunciou que tinha planos para impor um extenso número de sanções contra a Síria, incluindo o que agora já se poderia entender como tradicionais medidas de punições, como por ex. a impossibilidade de viagens a certos países, congelamento de bens e embargo de armas. 

O que agora está a se materializar é o antigo projeto da administração Bush para a mudança de regime na Síria, datado de seis anos atrás. Após o assassinato do então primeiro ministro do Líbano, Rafik Hariri e a retirada das tropas militares da Síria do território libanês seguiu-se a retirada do então embaixador americano de Damasco.

Os maiores países do bloco ocidental [leia-se colonial-imperialista] agiram contra a Síria nas Nações Unidas já em 2005 tendo a Rússia e a China bloqueado maiores medidas punitivas do que as que já tinham sido tomadas através da resolução 1636.

Há já seis anos os planos dos americanos para derrubar o governo da Síria através de subversão e agressão militar, ou um conjunto das duas, tinham sido justificados através de pressuposições quanto ao papel da Síria no assassinato de Rafik Hariri, assim como por pressuposições quanto as suas atividades em relação ao regime do Iraque, regime esse cliente dos Estados Unidos.  À lista junta-se apoio à Hezbollah, no Líbano.

Hoje a racionalização para tentar derrubar o regime da Síria é a mesma que a usada na guerra contra a Líbia: a repressão violenta de protestos dentro do país [não importando aqui se esses protestos sejam ou não organizados por grupos armados da Al-Qaeda e com participação da polícia secreta do bloco imperialista.]

As justificações mudam enquanto os objetivos políticos e então muito especialmente os objetivos geopolíticos continuam os mesmos.

Tradução: Anna Malm

O original -  “Libyan Scenario For Syria: Towards a US-NATO “Humanitarian Intervention” directed against Syria?” encontra-se em www.globalresearch.ca e em http://rickrozoff.wordpress.com

REFERENCIAS E NOTAS:

[1] “Muamar Kadafi e o Cinismo Ocidental” de Leonid Ivashov, traduzido por Anna Malm, em www.patrialatina.com.br  em 2011-04-30. O original encontra-se em www.fondsk.ru em russo. Uma versão mais curta em inglês encontra-se em www.strategic-culture.org

http://www.whitehouse.gov/sites/default/files/2011libya.eo_.rel_.pdf

Cyprus:U.S. To Dominate all Europe, Mediterranean Through NATO – em Stop NATO, March 3, 2011 em http://rickrozoff.worldpress.com/2011/03/cyprus-u-s-to-dominate-all-europe-mediterranean-through-nato/  ; Libyan War and Control Of The Mediterranean, Stop NATO,  March 25, 2011-05-03

http://rickrozoff.worldpress.com/2011/03/25/3973/;  http://mccain.senate.gov/public/index.cfm?Fuse Action=PressOffice.PressReleases&ContentRecord_id=9cae435d-f7dd-27c7-bd7d-39e78c5ba2d0

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