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16.5.11

A Ilha do Desejo

 
 
                                                                  A Ilha do Desejo
 
 
 
Norte-africanos se endividam, desafiam o mar e morrem aos punhados em sua odisseia para Lampedusa, a atual porta do sonho europeu

José Luis Toledano



Na cama número 21 do hospital de Zarzis, cidade turística no sul da Tunísia, Mohamed Dhifallah recupera-se de esgotamento. Com o corpo ainda impregnado pelo medo, dolorido pelo esforço extremo e entumecido pela umidade e o frio, ele aguarda a certidão que lhe permitirá abandonar o centro hospitalar e regressar à casa da familia em Tataouine, no interior. O jovem de 21 anos é o último dos companheiros de aventura que ainda permanece hospitalizado por desmaio e hipotermia depois da fracassada travessia para a ilha italiana de Lampedusa. Enquanto aguarda a alta médica, seu irmão Aiman e Omar, um amigo comum, se esforçam para estimular a mobilidade de suas pernas com massagens e flexões.

O hospital é um reflexo do estado de precariedade de que padece o sistema sanitário público tunisiano. A pintura desbotada das paredes dos quartos, os metais enferrujados das camas, os lençóis sujos e o instrumental cirúrgico escasso e obsoleto contrastam com a gentileza e o afeto com que o pessoal médico atende os pacientes. Mohamed divide quarto com três anciãos convalescentes de achaques da idade. Eles observam fascinados e ouvem atônitos a odisseia do jovem.

Mohamed chegou a Zarzis proveniente de Tatouine, sua cidade natal, a 200 quilômetros, na mesma noite em que embarcou. Ele se dirigiu à praia onde se reuniu com o resto dos companheiros de viagem e, às 10 da noite, aproveitando a escuridão, os traficantes os trasladaram para botes, de oito em oito, até a embarcação ancorada a uma distância prudente da costa. Quatro horas depois, carregado, o barco partia rumo noroeste. Para Lampedusa. A maioria dos passageiros era jovem, mas alguns passavam dos 50 anos. Todos partilhavam a mesma obsessão: chegar à Europa para escapar da falta de oportunidades, do desemprego e da pobreza.

Quando partiram, soprava uma ligeira brisa favorável e o mar estava calmo. Assim eles navegaram durante 12 horas. Ao chegar a águas italianas, a duas horas de Lampedusa, o tempo mudou bruscamente. O vento começou a soprar a mais de 40 nós e o mar jogou a seu capricho com a embarcação onde Mohamed e uma centena de emigrantes se amontoavam. Muitos enjoaram, desmaiaram até. Achavam que a qualquer instante o barco viraria. “Perdemos a esperança de sobreviver. Pensamos que, de um momento para outro, tudo acabaria. Nos abraçamos e começamos a rezar”, conta Mohamed com voz tênue e fatigada, recostado sobre a cama.

O capitão tentou tranquilizá-los, elevar o ânimo apesar do pânico e do abatimento. Com o motor funcionando, ele deixou que a força da marulhada impelisse a embarcação. Navegou suavemente, evitando investir de proa e ser engolido pelas ondas. Ordenou que atirassem toda bagagem ao mar, distribuiu os passageiros de pé pelo convés para equilibrar melhor o peso e pôs um grupo para retirar a água da cabine do motor e evitar que ele parasse. Assim ficaram por três dias e três noites, sem dormir, com as roupas encharcadas, esgotados, transidos de frio, mortos de medo e enjoados. Depois de navegar em círculos, chegaram a águas líbias e dali se voltaram à costa de Zarzis. “Conseguimos sair do inferno, salvar a vida e regressar à terra”, relata Mohamed, ainda angustiado.

A taxa de desemprego desproporcional, principalmente entre a juventude, foi uma das principais causas que motivaram a insurreição popular tunisiana que acabou com o regime autoritário de Zini al-Abidine Ben Ali, meses atrás. Num país onde 40% da população tem menos de 25 anos e três quartos dos desempregados são menores de 30, a falta de perspectivas de trabalho e o desencanto social depois da revolução empurram milhares de pessoas a se lançarem ao mar e tentar burlar as blindadas fronteiras europeias.

Desde o princípio do ano, cerca de 400 barcos e mais de 25 mil pessoas chegaram à ilha italiana de Lampedusa. Dessas, mais de 23 mil são imigrantes tunisianos que partiram das costas de Djerba e Zarzis. Vários naufrágios, dezenas de mortos e desaparecidos não deterão esse fluxo de clandestinos que está azedando as relações entre os governos da Itália e da França e atiçando a xenofobia e o populismo. “Queremos trabalhar como qualquer pessoa do mundo”, assegura Mohamed. “Em Tatouine eu era um desempregado, e como eu há muitos mais de todas as idades. Por isso queria partir para a Itália, encontrar um futuro.”

Tatouine é uma cidade poeirenta e quente, de ruas amplas e animadas, rodeada por uma paisagem árida. Os cafés estão cheios de jovens ociosos que discutem política e futebol enquanto assistem à vida passar sem entusiasmo. Na ideia de quase todos está a Europa, e muitos conseguirão os 800 necessários para embarcar como clandestino e cruzar os 120 quilômetros que separam Lampedusa da costa tunisiana. “Depois da revolução nada mudou, nada melhorou. Dos que têm trabalho, aumentaram os salários para acalmá-los, mas para os desempregados, que foram os que realmente fizeram a revolução, não deram nada”, queixa-se Mohamed.

Enquanto um médico ausculta Mohamed, Aiman, seu irmão, de 28 anos, diz que os pais sofreram muito até saber que ele estava vivo. “Está tudo bem. Você pode sair”, confirma o médico. Mohamed se levanta com esforço, calça as sandálias novas que o irmão trouxe (ele perdeu as suas na travessia) e sai do quarto depois de se despedir afetuosamente do pessoal do centro médico e dos companheiros de quarto e seus familiares. Todos lhe desejam sorte. Todos sabem que ele voltará a tentar. Na porta do hospital, antes de nos despedirmos, eu lhe pergunto ingenuamente se depois de tudo que passou ele tornará a partir. Sua resposta é toda uma declaração de intenções: “Se a Itália fechar suas portas, iremos para a Alemanha, se a Alemanha fechar as suas, iremos para a França. Continuaremos sendo clandestinos”.

O turismo, que representa 8% do PIB da Tunísia, um dos motores econômicos e imagem de modernidade do país, está reduzido ao mínimo desde o triunfo da revolução. O temor dos turistas com a insegurança deixaram os complexos turísticos de Hammamed, Sousse, Djerba e Zarzis com menos de 15% de ocupação. Apenas um punhado de franceses, ingleses ou alemães desfruta de grandes e luxuosos hotéis quase vazios. Muitos estabelecimentos fecharam e despediram seus empregados, enquanto outros baixaram as tarifas ao mínimo para atrair visitantes estrangeiros. Isso tudo só agravam a precariedade salarial e o desemprego.

É meio-dia. O céu está claro e límpido. Dois jovens pescadores tiram as algas das redes sobre uma pequena embarcação puxada para a margem. Ninguém sabe onde estão nem de onde partem os barcos carregados de clandestinos. Um dos jovens garante que quase não sobram grandes barcos de pesca. Todos foram vendidos para traficantes ou são utilizados pelos próprios pescadores para a travessia de emigrantes. Não longe dali, a poucos metros dos limites de uma praia reservada aos clientes de um hotel, uma choupana de madeira com telhado de sapé, que habitualmente serve para os pescadores guardarem seus apetrechos, abriga uma vintena de emigrantes que se protege do calor à espera de que a noite caia para partir.

Salah é o passador-traficante encarregado do grupo. Moreno e robusto, com a cabeça raspada, uma camiseta verde sem mangas e uma tatuagem no antebraço ? proibida no Islã ?, ele combina a pesca tradicional com esse negócio, sem dúvida mais lucrativo. Seu trabalho é rápido e simples: “Primeiro, procuro um capitão com um barco, depois gente querendo partir para Lampedusa. Quando tenho um grupo numeroso, eu o entrego ao capitão e ele me paga. E aí eles partem para a Itália”, explica com frieza. “Me pagam 100 dinares ( 50) por pessoa. O capitão fica com 1.500 a 2 mil dinares (entre 750 e 1.000) por emigrante.” Que tipo de gente vai para a Itália? “Gente sem nada para viver aqui. Homens jovens, adultos, mulheres com bebês, até grávidas.” Não sente remorso por enviá-los para uma travessia perigosa? “Usamos os melhores barcos. Em Zarzis, conhecemos bem o mar e a Itália não fica longe. Nunca houve acidentes”, ele garante. O negócio é lucrativo? “Não faço isso o tempo todo, só quando preciso de dinheiro. O capitão é quem mais se beneficia. E os clandestinos também. Vão para a Europa ganhar em euro. A vida lá é fácil. Eles pagam um pouco, partem e chegam a salvo.”

Salah confirma uma versão muito disseminada entre os emigrantes. “Os guardas costeiros tunisianos não vigiam as costas. Para eles, dá no mesmo, não ligam.” Por quê? “Não sei, talvez tenham medo.” E você não tem medo? “Até o presidente da república Ben Ali partiu. Depois de sua fuga eu não tenho medo de mais ninguém. Não tenho nada a perder. Aqui, o único direito que você tem é de respirar. Eu não tenho nem carteira de identidade nem documento algum que diga que sou tunisiano. Só quero ganhar meus 100 dinares para poder viver.”

A jornalista tunisiana Mabrouka Khedir acompanhou de perto tanto as revoltas que ocorreram em seu país como o drama migratório. Ela não acredita, embora as remessas que os imigrantes enviam da Europa signifiquem ingressos importantes para o erário do país, que essa avalanche migratória sirva de válvula de escape. “É um problema sério, é claro, mas o atual governo tem assuntos muito mais urgentes a resolver. Por exemplo, lutar contra a falta de segurança, a preparação das eleições para a Assembleia Constituinte em julho, ou buscar medidas para conter a crise econômica que afeta toda a sociedade.”

Rayab tem 17 anos e cara de menino, embora conserve poucos traços de inocência. Ele veste uma camisa do Barcelona. Chegou da capital, Túnis, e aguarda pacientemente que as condições meteorológicas sejam favoráveis para poder embarcar à noite para Lampedusa. Pagou 1.800 dinares ( 900), que juntou graças a empréstimos e “alguns trambiques”. Apesar da juventude, participou das manifestações revolucionárias em dezembro e janeiro, e em mais de uma ocasião acabou preso. “Que revolução? “Não acredito nos enganos da revolução”, assegura com firmeza. “Eu já estou morto.” Agachado na beira de umas rochas borrifadas pelo mar, ele diz que faz tempo que tenta ir para a Itália e procurar um trabalho por lá. “Quando vejo, em cada verão, os tunisianos que voltam do estrangeiro com seus carros e dinheiro para gastar, me sinto complexado. Quero partir e fazer como eles, ser um homem livre. Na Tunísia, não tenho possibilidade de prosperar. Larguei o colégio muito cedo, nunca encontrei trabalho e acabei na miséria. Estou farto de ser um desempregado.”

Ao cair da noite, as praias desertas que banham os complexos turísticos se convertem no cenário onde se representa o penúltimo ato da imigração ilegal. Numerosos veículos repletos de clandestinos rasgam a escuridão com seus faróis. Eles os depositam ao pé do mar. Dali, são transportados em pequenos barcos de pesca a motor até a embarcação ancorada a centenas de metros da praia. A escassa presença policial facilita que o negócio siga seu curso. O grande cais do porto de Zarzis também é um cenário onde os barcos de pesca que realizarão a travessia carregam emigrantes. Os traficantes, alguns deles armados, fecham a passagem com seus veículos e vigiam o lugar para o caso de surgirem intrusos durante a operação. Não querem testemunhas e muito menos imprensa. Em um par de horas, a embarcação repleta de clandestinos esperançosos cruza o canal do porto rumo a Lampedusa e se perde na escuridão.

Tradução de Celso Paciornick

José Luis  Toledano  É JORNALISTA E DIRETOR DA REVISTA DIGITAL ESPANHOLA FRONTERAD

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