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16.5.11

Mahler

 
 
 
 
A morte da vida privada



Meses finais de Gustav Mahler marcaram o fim do respeito da mídia pela privacidade dos famosos

 
Sérgio Augusto – O Estado de S.Paulo

Michael Jackson não foi a maior celebridade de todos os tempos. Nem Elvis Presley. Jesus ainda ganha dos dois. E também de Hitler e de quem mais se arriscar nessa inglória disputa. Antes de Jesus, houve Sócrates e Alexandre (o Grande); e antes de Jackson e Presley, houve Lorde Byron, Sarah Bernhardt, Charles Lindbergh – todos popularíssimos em suas respectivas épocas, com vantagem para o filósofo grego e o monarca macedônio. Todos eles são citados na substanciosa história da fama (The Frenzy of Renown, literalmente O Frenesi da Notoriedade), que há tempos escreveu Leo Braudy, menos Jackson, pois o livro já estava pronto quando o cantor começou a firmar-se como a maior estrela pop do seu tempo.

Outra omissão, esta indesculpável: o compositor e maestro austríaco Gustav Mahler. Na próxima quarta-feira faz cem anos que ele morreu; merecidas homenagens ao seu gênio musical estão programadas em tudo quanto é canto, em salas de concerto, rádios, jornais, revistas, na TV, na internet, acompanhadas de lançamentos e relançamentos de gravações (a caixa de 11 CDs com as Sinfonias de Mahler, regidas por Leonard Bernstein, sai por US$ 46,65 na Amazon) e ensaios biográficos, entre os quais dois do crítico londrino Norman Lebrecht, que foi o único mahleriano até agora a chamar atenção para o fato de a morte do compositor ter auspiciado o nascimento de um fenômeno absolutamente moderno, qual seja o fim do respeito da mídia pela vida privada de uma celebridade.

Circo midiático já não era uma novidade desde novembro de 1910, quando o sumiço de Leon Tolstoi provocou uma épica caçada internacional que só chegaria ao fim depois do tumultuado enterro do escritor, coberto até por cinejornais franceses, mas a frenética invasão da privacidade de Mahler, em seus últimos meses de vida, foi mesmo algo nunca visto até aquela data.

Na primeira década do século passado, Mahler era o maior nome da música erudita no eixo Viena-Nova York. Fizera uma revolução na cultura musical das duas cidades, cortando as asas das divas da Ópera de Viena e abrindo suas portas a outras formas de criação artística, refinando o gosto das plateias americanas, das mais abonadas às menos favorecidas, regendo concertos para estudantes e operários. Contemporâneo do idolatrado Caruso, Mahler também era reconhecido e reverenciado por onde passava, motoristas de táxi o apontavam nas ruas e avenidas de Manhattan. Em fevereiro de 1911, com seu contrato com o Metropolitan Opera House expirando e sob intensa pressão dos americanos para que o renovasse, uma inflamação na garganta o derrubou. Contrariando a recomendação do dr. Joseph Frankel, médico da família, foi reger seu último concerto. Acabou no hospital Mount Sinai. Diagnóstico: endocardite bacteriana, incurável na época.

Informado da gravidade da doença, Mahler pediu para ser levado de volta a Viena. Antes, por sugestão de Frankel, passou por Paris para uma consulta com o bacteriologista André Chantemesse, a última esperança de cura do compositor. Enquanto Mahler era examinado, na sala ao lado, Frankel dava em cima de Alma, a sedutora mulher do maestro, àquela altura mais preocupada em encontrar-se com o amante, o arquiteto Walter Gropius, futuro criador da Bauhaus.

A partir de Paris, a imprensa não largou mais o osso. Foi um assédio sem tréguas, com repórteres fazendo plantão na porta da clínica, abordando quem nela entrava e saía, contrabandeando rumores, indiscrições de enfermeiras e até telegramas. O diário austríaco Neue Freie Presse publicava boletins diários sobre o estado de saúde do compositor, com detalhes sobre sua temperatura, pressão arterial, tipo de alimentação, medicamentos, horas de sono, etc., vazados por Alma, com a colaboração da direção da clínica, interessada em promover seus serviços. Todo mundo tirou sua casquinha: de Bruno Walter, discípulo de Mahler, com bom trânsito na imprensa, a uma marca de leite búlgaro, incluída na dieta de Mahler, que explorou ao máximo o marketing gratuito.

“O bem nutrido frenesi em torno do leito hospitalar de Mahler foi de uma indecência sem precedentes”, escreveu Lebrecht, algo que só voltaria a ser visto em Paris 86 anos depois, com a morte de Lady Di, quando a mídia voltou a eximir-se de responsabilidade moral por fomentar a bisbilhotice e a histeria coletivas.

A viagem de trem até Viena foi outra odisseia. Cobriram-na como se a bordo estivesse, moribundo, o imperador Francisco José I. A cada parada, hordas de jornalistas invadiam a estação, famintos de notícias. Na capital austríaca, de duas em duas horas os editores dos principais veículos ligavam para o sanatório Löw, em que Mahler foi internado. Para compensar a falta de novidades, fantasiavam melhoras e pioras, colhiam depoimentos de amigos e estampavam caricaturas de Mahler “em seu leito de morte”. Fãs, voyeurs e outras modalidades de parasitas inventavam maneiras engenhosas de invadir o hospital.

Arthur Schnitzler e Alban Berg rondaram o sanatório em busca de algum tipo de inspiração para suas obras. Deu em nada. Thomas Mann, mesmo a distância (estava de férias no Adriático), revelou-se mais profícuo, inspirando-se em Mahler para compor o Gustav von Aschenbach da novela Morte em Veneza, cujo desfecho é uma alusão à morte do compositor, que, embora esperada havia quase três meses, também chocou, como a de Aschenbach, o mundo inteiro.

Mahler foi enterrado no cemitério Grinzinger. Queria apenas seu sobrenome na lápide, puseram o nome completo, mas nada além disso. Seu túmulo é austero e discreto, como a mídia de um século atrás, apesar de incipiente, não soube ser – nem aprenderia a ser.

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