Lugar de Pensar

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Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome. Clarice Linspector
“Não somos seres humanos vivendo uma experiência espiritual, somos seres espirituais vivendo uma experiência humana.” Teilhard de Chardin
A solidão não existe! Tenho um mundo inteiro dentro de mim.
Seja bem-vindo.

28.6.11

Parágrafo 175 do Código Penal Alemão




Parágrafo 175 é um documentário LGBT, que descreve as vidas de vários homens e muheres que foram aprisionados pelos Nazis acusados de serem homossexuais.O Parágrafo 175 do Código Penal Alemão, considerava as relações homossexuais como crime.
Entre 1933 e 1945, 100.000 homens foram presos. Alguns foram enviados para campos de concentração, esses prisioneiros eram identificados com um triângulo rosa. Somente 4.000 sobreviveram.Em 2000, estavam vivos menos de dez desses sobreviventes. Cinco tiveram a coragem de descrever as suas histórias pela primeira vez para este documentário.


 Fonte: Youtube
http://www.youtube.com/watch?v=zJU2oiOxd-g&feature=player_embedded


27.6.11

País sem Chápeu


imagem de Christian Cravo

 
 
O irreal em miniatura


Expoente da literatura caribenha, o haitiano Dany Laferrière tem pela primeira vez uma obra traduzida no Brasil


Fernanda Paola
Na década em que Dany Laferrière nasceu, o ditador François Duvalier – o Papa Doc – assumia o poder no Haiti. E, por causa dele, seu pai teve de sair de Porto Príncipe, a capital, para um exílio na Itália que duraria a vida inteira. Mas Dany Laferrière, 58, sofreu mesmo com as atrocidades do filho de Papa Doc, Jean-Claude Duvalier, o Baby Doc, que assumiria a Presidência em 1971, após a morte do pai.

Ele escrevia no jornal da cidade, Le Nouvelliste, quando seu colega e melhor amigo foi assassinado pelo regime do ditador. Quase ao mesmo tempo, o escritor fugiu para Montreal, no Canadá, resgatado pela organização internacional Juventude Canadá Mundo.

Em País sem Chapéu, primeiro livro dele traduzido no Brasil, o autor narra a volta para a casa, em Porto Príncipe, após 20 anos de ausência. Recebido pela mãe e pela tia – a presença feminina é forte em sua vida –, sensações, gostos e cheiros trazem-lhe o passado de volta. “Foi um livro escrito para apagar a distância entre o Haiti e mim”, diz o autor em entrevista à CULT.

CULT – Seu livro País sem Chapéu é um registro autobiográfico de seu retorno ao Haiti após 20 anos. As sensações, cheiros, conversas, tudo que acontece você registra em forma de diálogo. Quanto do livro é inspirado na natureza e nos costumes da população haitiana?

Dany Laferrière – Quis estar o mais próximo possível dessa natureza. Foi um livro escrito para apagar a distância entre o Haiti e mim. Mas um livro é sempre artificial, o que não quer dizer necessariamente que os ingredientes não sejam naturais. Exatamente como a cozinha, que é a arte mais próxima do romance: você coloca em uma caldeira os elementos mais díspares, que, uma vez misturados, resultam em um gosto particular. Traçar todos os elementos de inspiração haitiana é uma meta impossível, já que tudo está imerso nessa cultura. Ao mesmo tempo, isso não é apenas o Haiti – para mim, o Haiti é o mundo em miniatura.

Você sofreu alguma influência do “realismo mágico”?

Não muito. No entanto, li bastante García Márquez, Jorge Amado (Gabriela, Cravo e Canela é meu livro sul-americano preferido) e, sobretudo, Borges – que é um ser à parte. Pode-se estar interessado em um estilo sem que ele o influencie. País sem Chapéu tem alguns traços de realismo mágico, mas não passa disso. Meus outros livros são mais realistas, mas um realismo atravessado pela poesia.

Gosto de variar o cardápio, ir de obras que são comentários sobre a vida de um jovem exilado nas grandes cidades norte-americanas às crônicas provincianas, que contam minha infância até a reflexão sobre a identidade.

E o que acha da reação contra ele – no “realismo urbano” de autores como o colombiano Mario Mendoza, de Satanás?

Não me interesso pelas escolas. Simplesmente escrevo. Os rótulos servem para assinalar a presença do escritor nessa selva onde existem tantas pessoas que praticam o mesmo ofício. É bom para os universitários que querem pensar e os livreiros que querem vender. O que acontece é que o cliente (leitor) quer saber que tipo de produto ele tem em mãos. Isso elimina o elemento-surpresa que está no coração da literatura.

Para mim, escrever é como sonhar: a gente se instala em um espaço de liberdade onde não há mais fronteiras, agentes de imigração, polícia, Estado, e onde o ser humano se torna inteiramente responsável por suas ações.

Isso vale também para o ato da leitura, que é tentar compreender os mecanismos da sociedade a fim de inserir aí um pouco de sonho. No caso de País sem Chapéu, vejo-me mais perto de Juan Rulfo (1917-
-1986, mexicano) e seu magnífico Pedro Páramo.

Recentemente, morreu Édouard Glissant, importante escritor caribenho nascido na Martinica e cuja obra tem características similares às da sua. Ele te influenciou de alguma maneira?

Eu o conheci, mas ele não me influenciou por uma razão simples: não li sua obra. Discutimos frequentemente. Não recebi influência de nenhum escritor em particular, pois minhas influências são tão numerosas e tão variadas (sou um leitor voraz) que não saberia rastreá-las.

Em “Haiti”, o músico Caetano Veloso canta “reze pelo Haiti. O Haiti é aqui”, referindo-se à pobreza, à corrupção, à desigualdade, ao racismo que existem no Haiti assim como no Brasil. Essa é uma visão demasiadamente maniqueísta do Haiti (do mesmo modo como os estrangeiros veem o próprio Brasil?)?

As pessoas têm o direito de ver os países como bem entenderem. Mas com frequência aquilo que se diz do Haiti não me parece inteiramente exato. Os fatos são verdadeiros (miséria, corrupção etc.), mas isso não é tudo. É preciso também olhar para a dignidade dessas pessoas e os talentos culturais que explodem em todos os campos: pintura, música, escultura, dança e literatura. Caso contrário, elas já seriam pessoas mortas.

Digo frequentemente às pessoas que analisam o Haiti que o conforto (ele de fato é importante) não é o único valor da vida. Há outros.

Você estava no Haiti em 2010, quando um dos piores terremotos da história matou 150 mil pessoas. Afirmou que o terremoto dilacerou um país que já estava de joelhos, mas que significaria, paradoxalmente, uma chance para discussão. O que houve de lá para cá?

Voltei várias vezes depois e visitei algumas cidades que foram bastante atingidas. Não discuto a ajuda internacional e os progressos ou não da reconstrução; a imprensa faz isso melhor. O que me interessa são as pessoas. Eu imaginava que a amplitude dos prejuízos materiais e a perda de vidas humanas iriam atingir o país em seu estômago e mergulhá-lo em um desespero inominável. Mas vi uma sociedade que se reconstruiu rapidamente. A reconstrução não diz respeito apenas ao material… Os prejuízos emocionais e até espirituais também foram enormes.

E, no entanto, as pessoas estavam lá, cheias de vida, entusiasmadas, por vezes mais cheias de vida do que aqueles que vieram ajudá-las. Mas pouco se fala dessa energia, desse modo de reconstrução. Como escritor, jamais vejo uma multidão, mas sempre as pessoas que a compõem. E, para compreender essa multidão, preciso examinar em profundidade a vida de um indivíduo.

Depois de sair de sua cidade, Porto Príncipe, fugido do regime de Baby Doc, você foi parar em Montreal, uma cidade majoritariamente branca e culturalmente diferente daquela com a qual estava acostumado. Como foi seu processo de aculturação?

Fiquei muito contente de deixar o regime de Baby Doc e também de cair em uma cidade calma e francófona como Montreal. Mas, no final das contas, a pergunta é a mesma para todo mundo: você quer fazer parte do grupo ou não? Há um preço a pagar quando nos afastamos do grupo, e esse combate só termina com a morte.

Mesmo quando vivemos no país em que nascemos, existe também esse processo de aculturação. Há 35 anos que vivo aqui e me sinto quebequense, mas nem sempre. O Haiti ainda vive em mim. E os países que não conheço também ocupam um espaço importante em meu imaginário. Esse é o enigma da vida.

País sem Chapéu
Dany Laferrière
Trad.: Heloísa Alves Moreira

Vénus Noire - Sarah Baartman, a Vênus Hotentote,





A história real da africana Sarah Baartman, a Vênus Hotentote, exibida como atração em uma jaula na Europa do século 19. (Drama)
Nome original: Vénus Noire
País: França/2010
Direção: Abdellatif Kechiche
Com: Elina Löwensohn, Olivier Gourmet e Jean-Christophe Bouvet
Duração: 159 minutos
Classificação: Não recomendado para menores de 16 anos.


Saartjie "Sarah" Baartman (1789-1815) foi a mais famosa de, pelo menos, duas mulheres hotentotes usadas como atracções secundárias de circo na Europa do século XVIII sob o nome de Vénus Hotentote.

Saartjie Baartman nasceu no seio de uma família khoisan em Gamtoos Valley, na actual província do Cabo Oriental, na África do Sul. Esta é a forma africânder do seu nome; o seu nome original não é conhecido. Saartjie (pronunciado "Sarqui") é traduzido como "Pequena Sarah".

Baartman servia fazendeiros holandeses que moravam perto da Cidade do Cabo. Hendrick Cezar, irmão do patrão de Baartman, sugeriu que ela se exibisse na Inglaterra, prometendo que isso a tornaria rica. Lord Caledon, governador do Cabo, permitiu a viagem, embora tenha lamentado isso após saber o seu verdadeiro propósito.

Ela foi para Londres em 1810, tendo viajado por toda a Inglaterra exibindo as suas "inusitadas" dimensões corporais, segundo a perspectiva europeia - formando-se a opinião que estas eram típicas entre os hotentotes.

Senhora de volumosas nádegas (esteatopigia), o que era considerado estranho e perturbador para o europeu à época, os seus exibidores permitiam aos visitantes tocar as suas nádegas mediante um pagamento extra.

Por outro lado, ela possuia o sinus pudoris, também conhecido por "tablier", "cortina da vergonha" ou "bandeja", em referência aos longos lábios da genitália de algumas Khoisan. Segundo Stephen Jay Gould, "os pequenos lábios, ou lábios internos, dos genitais da mulher comum, são extremamente longos nas mulheres Khoi-San e podem sobressair entre 7,62 a 10,16 cm a partir da vagina, se a mulher estiver de pé, dando a impressão de uma distinta e envolvente cortina de pele." (Gould, 1985). Saartjie nunca permitiu que este seu derradeiro traço fosse exibido enquanto viveu.

A sua exibição em Londres causou escândalo tendo a benevolente sociedade African Association sido criticada pela sua iniciativa. Baartman foi interrogado em tribunal na Holanda, tendo declarado que a mulher não estava restringida e entendia perfeitamente que eram seus metade dos proveitos das exibições. O resultado não foi satisfatório por causa de contradições com outras investigações, e por isso a exposição da mulher em Londres tornou se impossível. No fim de 1814 ela foi vendida a um domador de animais francês, que agora viu a chance dele para enriquecer fácil. Já que ela foi vendida como uma prostituta ou escrava, o novo dono a mantinha em condições bem mais rudes. Foi exposta em Paris e tinha que aceitar para exibir-se completamente nua, em contradição à sua palavra que jamais exibisse seus lábios da genitália. As celebrações da reintronização de Napoleão Bonaparte no início de 1815 implicaram festas noturnas, a exposição ficou aberta a noite toda e os muitos visitantes bêbados se divertiram tocando em todas as partes da moça indefesa. Depois desses dias ela foi exposta para multidões, que zombaram dela, era alvo de caricaturas, mas chamou também o interesse de cientistas e pintores. Foi visitada pelo anatomista francês Georges Cuvier e outros naturalistas, tendo sido objecto de inúmeras ilustrações científicas no Jardin du Roi. O corpo todo foi investigado e medido e o tamanho das nádegas, clitóris, [[lábios, mamilos etc. registrado para institutos zoológicos, científicos e museus. Com a nova derrota de Napoleão, o fim de seu governo e a conquista da França pelas tropas aliadas em junho 1815 as exposiçãoes tornaram-se impossíveis e Saartje foi feita prostituta. Bebeu muito e morreu já em dezembro de 1815, depois de um estãgio de 15 meses na França, supostamente de esgotamento, sífilis ou pneumonia.

Legado

Saartjie Baartman morreu a 29 de Dezembro de 1815 de uma doença inflamatória. A sua autópsia foi conduzida e os resultados publicados por Henri de Blainville em 1816 e por Cuvier em Memoires du Museum d'Histoire Naturelle em 1817. Cuvier anotou, nessa monografia, que ela era uma mulher inteligente, que possuia uma excelente memória e falava holandês fluentemente. Para não pagar pelo enterramento o domador de animais vendeu o corpo morto ao Musée de l'Homme (Museu do ser humano), em Paris, onde ela foi empalada como um animal e exposta nua. Com as decadas o corpo estragou e o museu guardou só as partes mais "interessantes". O seu esqueleto, órgãos genitais e cérebro, conservados, estiveram em exibição até 1985.

A partir da década de 1940, houve apelos esporádicos pelo regresso dos seus restos mortais, mas o caso só ganhou relevância após o biólogo norte-americano Stephen Jay Gould ter pubicado The Hottentot Venus na década de 1980.

Quando Nelson Mandela se tornou presidente da República da África do Sul, requereu formalmente à França o regresso dos restos mortais de Saartjie Baartman. Após inúmeros debates e questiúnculas legais, a Assembléia Nacional francesa acedeu ao pedido em 6 de Março de 2002.

Os restos mortais foram devolvidos à sua terra natal, Gamtoos Valley, a 3 de Maio de 2002.

 Fontes

Gilman, Sander L. (1985). Black Bodies, White Bodies: Toward an Iconography of Female Sexuality in Late Nineteenth-Century Art, Medicine, and Literature. In: Gates, Henry (Ed.) Race, Writing and Difference. Chicago: University of Chicago Press. p. 223-261.
Gould, Stephen Jay (1985). The Hottentot Venus. In: The Flamingo's Smile. New York: W.W. Norton & Company. p. 291-305
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26.6.11

Hobsbawm e a Direita Européia

 
 
Sobre o marxismo hoje
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Por Beppe Grillo, de Roma     
Tradução do Colectivo da Vila Vude


Eric Hobsbawm, um dos maiores historiadores europeus prevê, aos 94 anos, que em breve a Europa será inteiramente governada pela direita.

Esse blog entrevistou Eric Hobsbawm, um dos maiores historiadores europeus vivos, e marxista. A entrevista aconteceu no dia de seu 94º aniversário, quando esteve em Roma para o lançamento da tradução italiana de seu livro How to Change the World - Why rediscover the inheritance of Marxism. Hobsbawm analisa a possibilidade de uma deriva rumo à direita nos próximos anos na Europa, por razões conectadas à depressão econômica, à ânsia por segurança e à estagnação da União Europeia, arcada sob o peso da obrigação de ser cada vez maior e maior e pela falta de visão política comum. Além disso, os grupos militantes desenvolvem-se mais em regiões onde haja maior número de jovens – por exemplo no norte da África e nos países em desenvolvimento, não na Europa.

Eric Hobsbawm – que se apressa em esclarecer que é historiador, não futurólogo – fala sobre o que o marxismo passou a ser em nossos dias e os efeitos da mudança.

(1) Sobre o marxismo hoje

Eric Hobsbawm: Meu nome é Eric Hobsbawm. Sou historiador muito velho. Estou falando com vocês no dia do meu 94º aniversário. Durante toda a minha vida escrevi principalmente sobre a história de movimentos sociais, a história geral da Europa e o mundo dos séculos 19 e 20. Acho que todos os meus livros estão traduzidos para o italiano e são acessíveis; e alguns foram bastante bem recebidos.

Blog: Nossa primeira pergunta é sobre seu livro. O marxismo é considerado um fenômeno pós-ideológico. O senhor pode nos explicar por quê? E quais serão as consequências dessa mudança?

Eric Hobsbawm: Eu não escrevi a expressão “fenômeno pós-ideológico” sobre o marxismo, mas é verdade que, no momento, o marxismo deixou de ser o principal sistema de crenças associado aos grandes movimentos políticos de massa em toda a Europa. Apesar disso, acho que sobrevivem alguns pequenos movimentos marxistas.

Nesse sentido, houve grande mudança no papel político que o marxismo desempenha na política da Europa. Há algumas partes do mundo, por exemplo, a América Latina, em que as coisas não se passaram do mesmo modo. A consequência daquela mudança, na minha opinião, é que agora todos podemos concentrar-nos mais e melhor nas mudanças que o marxismo provocou, nas conquistas permanentes do marxismo. Essas conquistas permanentes, na minha opinião, são as seguintes:

Primeiro, Marx introduziu algo que foi considerado novidade e ainda não se realizou completamente, a saber; a crença de que o sistema econômico que conhecemos não é permanente nem destinado a durar eternamente; que é apenas uma fase, uma etapa no desenvolvimento histórico que acontece de um determinado modo e deixará de existir e converter-se-á em outra coisa ao longo do tempo.

Segundo, acho que Marx concentrou-se na análise do específico modus operandi, do modo como o sistema operou e desenvolveu-se. Concentrou-se, sobretudo, no estudo de como o sistema produziu crises enormes.

A principal vantagem da análise que o marxismo permite fazer é que considera o capitalismo como sistema que abriga contradições internas que periodicamente geram crises de diferentes tipos; e essas crises têm de ser superadas mediante uma transformação básica ou alguma modificação menor do sistema. Trata-se dessa descontinuidade, a assunção de que o capitalismo opera não como sistema que tende a se autoestabilizar, mas que é sempre instável e eventualmente, portanto, pode gerar grandes mudanças. Esse, me parece, é o principal elemento que ainda sobrevive do marxismo.

Terceiro, e acho que aí está a preciosidade do que se poderia chamar de um fenômeno ideológico, o marxismo é baseado, para muitos marxistas, num senso profundo de injustiça social, de indignação contra a desigualdade social entre os pobres e os ricos e poderosos.

Quarto, e último, acho que talvez se deva considerar um elemento – sobre o qual Marx talvez não concordasse comigo –, mas que esteve sempre presente no marxismo: um elemento de utopia. A crença de que, de um modo ou de outro, a sociedade chegará a uma sociedade melhor, mais humana, do que a sociedade na qual todos vivemos atualmente. Acho que respondi sua pergunta.

(2) Uma deriva à direita, na Europa?


Blog: No norte da África e em alguns países europeus – Espanha, Grécia e Irlanda – alguns movimentos de jovens que nasceram na internet e usam redes, por exemplo, Twitter e Facebook, estão se aproximando da política. São movimentos que exigem mais envolvimento e mudanças radicais nas escolhas das sociedades. Mas, ao mesmo tempo, a Espanha tende à direita; a Dinamarca votou pelo fechamento das fronteiras com a Hungria; e na Finlândia, e até mesmo na França, com Marie Le Pen, estão surgindo partidos nacionalistas de ultradireita. Não lhe parece que haja alguma contradição?

Eric Hobsbawm: Não, não acho. Acho que são fenômenos diferentes. Acho que, na maioria dos países ocidentais hoje, os jovens são minoria politicamente ativa, largamente por efeito de como a educação é construída. Por exemplo: os estudantes sempre foram, ao longo dos séculos, elementos ativistas. Ao mesmo tempo, a juventude educada hoje é muito mais familiarizada com modernas tecnologias de informação, que transformaram a agitação política transnacional e a mobilização política transnacional.

Mas há uma diferença entre (a) esses movimentos de jovens educados nos países do ocidente, onde, em geral, toda a juventude é fenômeno de minoria, e (b) movimentos similares de jovens em países islâmicos e em outros lugares, nos quais a maioria da população tem entre 25 e 30 anos. Nesses países, portanto, muito mais do que na Europa, os movimentos de jovens são politicamente muito mais massivos e podem ter maior impacto político.

O impacto adicional na radicalização dos movimentos de juventude acontece porque os jovens hoje, em período de crise econômica, são desproporcionalmente afetados pelo desemprego e portanto, estão desproporcionalmente insatisfeitos. Mas não se pode adivinhar que rumos tomarão esses movimentos. No todo, os movimentos dessa juventude educada não são, politicamente falando, movimentos da direita. Mas eles só, eles pelos seus próprios meios, não são capazes de definir o formato da política nacional e todo o futuro. Creio que, nos próximos dois meses, assistiremos aos desdobramentos desse processo.

Os jovens iniciaram grandes revoluções, mas não serão eles que necessariamente decidirão a direção geral pela qual andarão aquelas revoluções. Cada direção, é claro, depende do país e da região. Obviamente as revoluções serão muito diferentes nos países islâmicos, do que são na Europa ou, claro, nos EUA.

E é verdade que na Europa e provavelmente nos EUA pode haver uma deriva para a direita, na política. Mas isso, me parece, será assunto da terceira pergunta.

(3) A crise econômica

Blog: Sim senhor. A próxima pergunta é sobre a crise econômica em que vivemos desde 2008. As crises de 29, 33, levaram o fascismo ao poder. O se senhor prevê algum risco de a crise atual ter os efeitos que tiveram as crises de 28, 29, 33?

Eric Hobsbawm: Bem, não há dúvidas de que a crise, a crise econômica que se arrasta desde 2008, tem muito a ver com a deriva à direita na Europa. Acho que, hoje, só quatro economias na Europa, na União Europeia, estão sob governos de centro ou de esquerda. Algumas daquelas devem perder. A Espanha provavelmente também se moverá em direção à direita. Nesse sentido, parece verdade.

Não acho que haja aí qualquer risco de ascensão do fascismo, como nos anos 1930s. O perigo do fascismo nos anos 1930 foi, em grande medida, resultado de cada país ter-se ido convertendo ao fascismo, um por vez, e num país politicamente decisivo, a Alemanha sob Hitler. Não há sinal de que nada disso esteja acontecendo hoje. Nenhum dos países importantes , me parece dá qualquer sinal nessa direção. Nem nos EUA, onde há um forte movimento direitista, pode-se concluir que aquele movimento ganhe poder nas urnas. Nem, tampouco, no caso dos partidos e movimentos de ultradireita nos países europeus.

Embora sejam movimentos fortes em alguns casos, continuam a ser minoritários, sem qualquer sinal de que se tornem majoritários. Mas, sim, creio que, no futuro próximo, praticamente todos ou quase todos os países europeus serão governados por governos de direita, de um tipo ou de outro tipo. Lembre que um dos efeitos de longo prazo da crise econômica dos anos 1930s foi que praticamente toda a Europa passou a ser governada por partidos Democratas e de esquerda, como jamais antes acontecera. Mas levou algum tempo. Quero dizer: há um risco, mas não é o mesmo risco que havia nos anos 1930. O risco principal é, sobretudo, que nada se fez em face dos problemas básicos que o capitalismo dos últimos 40 anos criou e que o renascimento de estudos marxistas destacou.

Blog: O que o senhor pensa sobre a União Europeia e sobre o que já foi conseguido? A União Europeia conseguirá consolidar-se, ou voltará a ser simples reunião de estados?

Eric Hobsbawm: Acho que a esperança de que a União Europeia venha a ser algo mais que uma aliança de estados e área de livre comércio, essa, não tem grande futuro. Não irá muito além do que já foi até aqui, mas não acho que seja destruída.

Acho que o que já se fez, um grau de livre comércio, um grau muito mais importante de jurisprudência comum e lei comum permanecerão. A principal fraqueza, me parece, da União Europeia, razão do fracasso, foi o conflito entre a economia e a base social da União Europeia, conflito que levou a tentar eliminar a guerra entre França e Alemanha e unificar economicamente as partes mais ricas e desenvolvidas da Europa. Esse objetivo foi alcançado.

Mas em seguida misturou-se a um objetivo político, associado ainda à Guerra Fria e ao desenvolvimento desde o final da Guerra Fria, a saber, o objetivo de estender as fronteiras da Europa para todo o continente e além do continente. Esse processo dividiu a Europa em partes, que não são facilmente coordenáveis.

Economicamente, as grandes crises são ambas muito parecidas, nas aquisições para a União Europeia desde os anos 1970s – Grécia, Portugal, Irlanda, por exemplo. Mesmo politicamente, as diferenças entre os antigos estados comunistas e os antigos estados não comunistas da Europa enfraqueceram a capacidade de a Europa continuar a desenvolver-se. Não sei se a Europa continuará a conseguir manter-se como está.

Não creio, contudo, que a União Europeia deixe de existir e deve vir a existir uma Europa mais coordenada que a que conhecemos, digamos, desde a II Guerra Mundial.

De qualquer modo, devo dizer que você me faz perguntas sobre o futuro. Sou historiador e, infelizmente, os historiadores sabem tanto sobre o futuro quanto qualquer outra pessoa. Por isso, minhas previsões nada têm de especial e valem praticamente nada, como quaisquer previsões.

Fonte: ViaPolítica/Rede Castorphoto/Beppe Grillo’s Blog
Entrevista de Beppe Grillo, publicada em seu blog
Tradução pelo Colectivo Vila Vudu/Rede Castorphoto

25.6.11

Angústia...

O mal-estar no mundo


Caio Liudvik



Para Kierkegaard, Heidegger, Sartre e Camus, angústia e ansiedade constituem dados inerentes ao ser humano
Assim como na obra do pai da psicanálise, a “ansiedade” como problema filosófico central do existencialismo mantém uma fina imbricação terminológica com a noção de angústia, encontrada mais nos textos dos pensadores e comentadores.

É o que se vê no exemplo paradigmático do uso por Martin Heidegger – talvez o principal nome associado a essa corrente– do termo Angst, traduzível à francesa como angoisse ou, mais próximo da nossa “ansiedade”, como anxiety em inglês.

Na prática, são termos que se mostraram intercambiáveis como formas de nomear uma questão existencialista por excelência: a inquietude radical do homem moderno diante da obrigação de ser livre, de se defrontar com um futuro sempre inseguro, da necessidade de fazer escolhas todo o tempo (a única escolha proibida é não escolher), e órfão de toda crença judaico-cristã num sentido transcendente da vida, já que “Deus está morto”, segundo o célebre diagnóstico de Nietzsche.

Exemplo notável dessa superposição semântica é como Jean-Paul Sartre, outro dos gigantes do existencialismo, desliza de um termo a outro tratando de uma mesma questão e num mesmo parágrafo de seu O Existencialismo É um Humanismo (1945):

“O existencialista declara frequentemente que o homem é angústia [angoisse]. Tal afirmação significa o seguinte: o homem que se engaja e que se dá conta de que não é apenas aquele que escolheu ser, mas também um legislador que escolhe simultaneamente a si mesmo e a humanidade inteira – e não consegue escapar de sua total e profunda responsabilidade. É fato que muitas pessoas não sentem ansiedade [ne sont pas anxieux], porém nós estamos convictos de que essas pessoas mascaram sua angústia, fogem dela”.

Desamparo

Assim, Sartre opõe a angústia e a ansiedade à tranquilidade, mas em detrimento dessa última, se por “tranquilidade” entendermos o apaziguamento de consciência forjado pela má-fé. Por má-fé Sartre entende toda desculpa, todo pretexto (por exemplo, o sujeito que agiu de modo covarde ou egoísta e se justifica apelando para as leis de Darwin) que, forjando algum determinismo, implica o escamoteamento da liberdade. Fuga também do desamparo radical do homem ante um mundo neutro, senão hostil, para o qual não pedimos para vir, no qual não escolhemos nossa família, língua, classe social de origem, mas no qual somos inteiramente responsáveis por nós mesmos.

Fazendo suas escolhas, cada indivíduo inventa a si mesmo e, tal qual o agente moral kantiano, projeta um valor que deve ser avaliado como se fosse proposto a toda a humanidade; mais que isso, projeta uma imagem normativa de humanidade, na falta de qualquer “natureza humana” a priori.

É nessa mesma conferência – destinada a popularizar a linguagem mais hermética do clássico O Ser e o Nada (Vozes) – que Sartre afirma que a existência precede a essência.

A angoisse sartriana é diretamente esculpida sob inspiração do sentimento existencial de Angst (angústia ou ansiedade) discutido por Heidegger em Ser e Tempo (Vozes) e na conferência “Que É Metafísica?”, de1929. Nesta, vemos a tendência típica das filosofias da existência à “despatologização” – para não dizer exaltação filosófica – da angústia: ela seria um dado originário da condição humana, abafado enquanto “dormimos” na caverna da inautencidade, das hipnóticas ocupações e preocupações e do falatório superficial da cotidianidade.

Em posfácio de 1943, já sob a influência da célebre “virada” que o fez abandonar o horizonte existencialista de reflexão para se voltar para a busca do ser em geral, Heidegger mantém, contudo, o elogio da ansiedade como portal privilegiado rumo à verdade do ser e do nada.

Em Heidegger, ela toma dimensões mais amplas, é quase “mística”, em comparação com Sartre: “A disposição para a angústia é o sim à insistência para realizar o supremo apelo, o único que atinge a essência do homem. (…) A clara coragem para a angústia essencial garante a misteriosa possibilidade da experiência do ser. Pois, próximo à angústia essencial, como espanto do abismo, reside o respeito humilde”.

Angústia decaída

Cabe também lembrar a distinção entre Angst (termo cuja raiz indo-europeia se refere a “apertar” e “amarrar”) e Furcht, ou temor, que para Heidegger é uma “angústia decaída no mundo”, mascarada, inautêntica, porque se restringe ao ôntico, não ao ontológico.

Isto é, o Furcht tem um objeto específico – a broca do dentista, a violência urbana, o avião –, enquanto a angústia é sem objeto, é o sentimento generalizado da “nadificação” de tudo e do desabrigo radical de nosso pequeno ser ante o ser sem rosto de um real no qual somos hóspedes mas também “estrangeiros”.

Essa metáfora, como se sabe, foi base de uma das obras-primas da literatura do século 20, O Estrangeiro, de Albert Camus. Ao lado de A Náusea, de Sartre, ele constitui o emblema literário maior do existencialismo e de sua filosofia da angústia/ansiedade.

Mas, como reitera Olgária Matos, professora de filosofia na USP, a matriz ética do desespero ante o absurdo do mundo na obra de Camus é mais remota – vem dos gregos antigos, sobretudo de Epicuro.

O epicurismo é a exaltação do prazer, da amizade e da alegria cujo pano de fundo é o lamento profundo por nosso destino de morrer. O epicurismo como iniciação filosófica da alma para a capacidade de não sucumbir às superstições religiosas e aflições com que os homens “inautênticos” daquela época tentavam apaziguar os terrores (ansiedades) da morte – e de uma vida social cada vez mais instável e insegura, passado o apogeu da democracia ateniense.

Ainda da Antiguidade, cabe destacar a reflexão de grandes filósofos da Roma Antiga, como Cícero (106-
-43 a.C.) – sobre a falta de tempo (angustia temporis) e o “ânimo covarde” (angustus animus) – e ainda Sêneca (4 a.C.-65 d.C.), em especial seu pequeno tratado Da Tranquilidade da Alma, em que a serenidade estoica se contrapõe como remédio anímico à “inconstância de humor” e à atitude (“ansiosa”, diríamos hoje) daqueles que “se viram e reviram como as pessoas que não conseguem dormir”.

Homens acorrentados

A genealogia existencialista do problema da angústia/ansiedade tem outro itinerário obrigatório: a voz atormentada do pensador dinamarquês Soren Kierkegaard.

É dele que Heidegger e seus discípulos colherão uma das mais poderosas afirmações do sentimento da angústia e do desespero como constitutivos da existência como forma peculiarmente humana de ser – forma peculiarmente humana de ser, distinta da “feliz” inconsciência das coisas e demais animais, bem como da inumana onipotência do espírito absoluto de Hegel.

Kierkegaard critica o racionalismo hegeliano por tentar “explicar” a realidade empírica dessas inquietudes, encaixando-as como um momento passageiro e necessário no devir lógico da razão na história.

Ser um sujeito, protesta Kierkegaard, é estar sujeito à angústia e ao desespero, algo que ele associa à culpa mítica de nossos primeiros pais e de sua “queda” do paraíso. O homem esbarra sempre em seus próprios limites, verifica e sente que o mundo inteiro não pode completá-lo e que ele também não pode completar-se a si mesmo. A angústia é a voz da consciência e epifania sombria da liberdade, como em Heidegger e Sartre. Em Kierkegaard, ela também é ouvida no concerto das dores do drama religioso do homem, como ser finito, e seu anseio pelo infinito divino. “A angústia é a forma que toma essa consciência, e o desespero é o termo a que ela conduz. Como tal, o desespero desarraiga o homem de si mesmo, como ser finito, e entrega-o a si mesmo naquilo que tem de eterno.”

Os antecedentes filosóficos dessa odisseia espiritual – que tem na ansiedade, angústia, angina (termo latino que remete também à sensação de sufocamento, aperto) seu ingrediente constitutivo – também podem ser encontrados nas obras dos filósofos cristãos Pascal e Santo Agostinho.

A obra agostiniana também foi um dos marcos da construção da própria ideia de “interioridade” subjetiva do homem ocidental e, logo, dessa forma específica de fragilidade do indivíduo voltado para si mesmo e destituído, cada vez mais, dos laços primitivos da “participação mística” com o real.

Já Pascal, um dos principais ancestrais das modernas filosofias da existência, talvez tenha sido o que melhor captou e testemunhou a incipiente autoconsciência ontologicamente “ansiosa” do homem da moderna era científica. “Que se imagine grande número de homens acorrentados e todos condenados à morte, sendo todos os dias uns deles degolados à vista dos outros; aqueles que restam veem sua própria condição naquela de seus semelhantes, e olhando-se uns aos outros com dor e sem esperança, esperam a sua vez. Essa é a imagem da condição dos homens”.

Como não se afligir, indaga, a esse respeito, André Comte-Sponville, um dos maiores filósofos franceses da atualidade, que também minimiza distinções escolásticas entre ansiedade e angústia:

“Que seria o homem sem a angústia? A arte, sem a angústia? O pensamento, sem a angústia? Depois, a vida é pegar ou largar, e é disso também que a angústia, dolorosamente, nos lembra. Que não há vida sem risco. Não há vida sem sofrimento. Não há vida sem morte. A angústia marca a nossa impotência, é nisso que é verdadeira também, e definitivamente. Fazem-me rir os nossos pequenos gurus, que querem proteger-nos dela. Ou nossos pequenos psis, que querem nos curar dela”.

Caio Liudvik é doutor 
em filosofia pela USP, autor de Sartre e o Pensamento Mítico (Loyola) e tradutor de As Moscas (Nova Fronteira) , de Jean-Paul Sartre

24.6.11

Baianos...

Quatro baianos porretas


Silvio Tendler

Le Monde Diplomatique

Silvio Tendler gosta de rebeldes. Os baianos, para ele, concentram uma carga comum de "genialidade libertária", forjada pela geografia, pelos costumes e pelo entorno histórico daquele Estado brasileiro. No livro "Quatro Baianos Porretas", lançado em maio, o documentarista compila quatro dos seus roteiros sobre rebeldes, os baianos justamente: Castro Alves, Milton Santos, Carlos Marighella e Glauber Rocha. Na poesia, na filosofia, na política e no cinema, em momentos históricos diferentes, Tendler tenta mostrar que baiano entende, sim, de utopia.

O documentarista parte da estética (discutível) do doc.drama para traduzir em imagens a poesia de Castro Alves e a partir dessa paixão castro-alvista dividida entre o geógrafo Milton santos, o guerrilheiro Mariguella e o cineasta Glauber Rocha amarra a história desses quatro nomes da história nacional.

Umas das célebres frase de Glauber Rocha, "A historia é feita pelo povo e escrita pelo poder", foi também subvertida por Silvio Tendler. Autor de mais de 40 filmes, entre curtas, média e longas-metragens, Tendler especializou-se em biografias históricas de cunho social, entre elas os sucessos de bilheteria (pouco comuns no cinema brasileiro para o gênero documentário): "Jango" teve 1 milhão de espectadores, "Anos JK", 800 mil, e seu último filme, "Utopia e Bárbarie", também encheu as salas. O livro, além de revisitar a história desses quatro brasilerios, é um ótimo exemplo da linguagem documental, dado o didatismo de cada obra e o tom de "aula" que Tendler imprime.

"É muito fácil reconhecer o trabalho do ficicionista, na medida em que você tem todo o processo de criação. Você escreve o roteiro de uma forma arbitrária, pensa a cenografia, os figurinos, a interpretação, tudo é arbitrário. No documentário, não. Você tem como matéria prima bruta a realidade, e é muito mais difícil saber separar o processo de criação daquela realidade que se apresenta." Na parte final do livro, em entrevista a Miguel Pereira sobre cinema, história e política, as palavras do autor deixam claro que os "quatro baianos porretas" da tela são também, em alguma medida, a visão dele próprio sobre seus "personagens. O livro é vendido tanto individualmente quanto com o box dos quatro filmes. Uma oportunidade para conhecer mais a história (rebelde) do Brasil.

19.6.11

Hobsbawm e a crise

 
 
 
 
Eric Hobsbawm: crise econômica explica deriva à direita na Europa



O blog do italiano Beppe Grillo entrevistou Eric Hobsbawm, um dos maiores historiadores marxistas vivo. A entrevista aconteceu no dia do seu 94º aniversário, quando esteve em Roma para o lançamento da tradução italiana de seu livro How to Change the World - Why rediscover the inheritance of Marxism.
Hobsbawm analisa a possibilidade de uma deriva rumo à direita nos próximos anos na Europa, por razões relacionadas com a depressão econômica, a ânsia por segurança e a estagnação da União Europeia, arcada sob o peso da obrigação de ser cada vez maior e maior e pela falta de visão política comum. Além disso, os movimentos de resistência têm crescido mais em regiões onde há um maior número de jovens – por exemplo no norte da África e nos países em desenvolvimento, não na Europa. Mas, acima de tudo, Hobsbawm, que faz questão de dizer que é um historiador, não um futurologista – fala-nos sobre o que é hoje o marxismo e sobre os seus efeitos.


Marxismo hoje


Eric Hobsbawm: Sou o Eric Hobsbawm. Sou um historiador muito velho. Como tal, telefona-me no dia do meu 94º aniversário. Durante toda a minha vida escrevi principalmente sobre a história dos movimentos sociais, a história geral da Europa e do mundo dos séculos 19 e 20. Acho que todos os meus livros estão traduzidos para italiano e alguns foram até bastante bem recebidos.


Blog de Beppe Grillo: A nossa primeira pergunta é sobre o seu livro. O marxismo é considerado um fenômeno pós-ideológico. Poderia explicar-nos porquê? E quais serão as consequências dessa mudança?

Eric Hobsbawm: Eu não usei exatamente a expressão “fenômeno pós-ideológico” para marxismo, mas é verdade que, no momento, o marxismo deixou de ser o principal sistema de crenças associado aos grandes movimentos políticos de massa em toda a Europa. Apesar disso, acho que sobrevivem alguns pequenos movimentos marxistas. Nesse sentido, houve uma grande mudança no papel político que o marxismo desempenha na política da Europa. Há algumas partes do mundo, por exemplo, a América Latina, em que as coisas não se passaram do mesmo modo. A consequência daquela mudança, na minha opinião, é que agora todos podemos concentrar-nos mais e melhor nas mudanças permanentes que o marxismo provocou, nas conquistas permanentes do marxismo.

Essas conquistas permanentes, na minha opinião, são as seguintes: Primeiro, Marx introduziu algo que foi considerado novidade e ainda não se realizou completamente, a saber, a crença de que o sistema econômico que conhecemos não é permanente nem destinado a durar eternamente; que é apenas uma fase, uma etapa no desenvolvimento histórico que acontece de um determinado modo e deixará de existir e converter-se-á noutra coisa ao longo do tempo.

Segundo, acho que Marx concentrou-se na análise do específico modus operandi, do modo como o sistema operou e se desenvolveu. Em particular, concentrou-se no curioso e descontinuo modo através do qual o sistema cresceu e desenvolveu contradições, que por sua vez produziram grandes crises.

A principal vantagem da análise que o marxismo permite fazer é que considera o capitalismo como um sistema que origina periodicamente contradições internas que geram crises de diferentes tipos que, por sua vez, têm de ser superadas mediante uma transformação básica ou alguma modificação menor do sistema. Trata-se desta descontinuidade, deste reconhecimento de que o capitalismo opera não como sistema que tende a se auto-estabilizar, mas que é sempre instável e eventualmente, portanto, requere grandes mudanças. Esse é o principal elemento que ainda sobrevive do marxismo.

Terceiro, e acho que aí está a preciosidade do que se poderá chamar de fenômeno ideológico, o marxismo é baseado, para muitos marxistas, num senso profundo de injustiça social, de indignação contra a desigualdade social entre os pobres e os ricos e poderosos.

Quarto, e último, acho que talvez se deva considerar um elemento – que Marx talvez não reconhecesse – mas que esteve sempre presente no marxismo: um elemento de utopia. A crença de que, de um modo ou de outro, a sociedade chegará a uma sociedade melhor, mais humana, do que a sociedade na qual todos vivemos atualmente.
Deriva à direita na Europa

Blog: No norte da África e em alguns países europeus – Espanha, Grécia e Irlanda – alguns movimentos de jovens que nasceram na internet e usam redes, por exemplo Twitter e Facebook, estão aproximando-se da política. São movimentos que exigem mais envolvimento e mudanças radicais nas escolhas das sociedades. Mas, ao mesmo tempo, a Espanha tende à direita; a Dinamarca votou pelo encerramento das fronteiras com a Hungria; e na Finlândia, e até mesmo na França, com Marie Le Pen, estão surgindo partidos nacionalistas de extrema-direita. Não é isto uma contradição?

Eric Hobsbawm: Não, não acho. Acho que são fenômenos diferentes. Acho que, na maioria dos países ocidentais, hoje, os jovens são uma minoria politicamente ativa, largamente por efeito de como a educação é construída. Por exemplo: os estudantes sempre foram, ao longo dos séculos, elementos ativistas. Ao mesmo tempo, a juventude educada hoje é muito mais familiarizada com modernas tecnologias de informação, que transformaram a agitação política transnacional e a mobilização política transnacional.

Mas há uma diferença entre esses movimentos de jovens educados nos países do ocidente, onde, em geral, toda a juventude é fenômeno de minoria, e movimentos similares de jovens em países islâmicos e em outros lugares, nos quais a maioria da população tem entre 25 e 30 anos. Nesses países, portanto, muito mais do que na Europa, os movimentos de jovens são politicamente muito mais massivos e podem ter maior impacto político. O impacto adicional na radicalização dos movimentos de juventude acontece porque os jovens hoje, em período de crise econômica, são desproporcionalmente afetados pelo desemprego e, portanto, estão desproporcionalmente insatisfeitos. Mas não se pode adivinhar que rumos tomarão esses movimentos. No todo, os movimentos dessa juventude educada não são, politicamente falando, movimentos da direita. Mas eles só, eles pelos seus próprios meios, não são capazes de definir o formato da política nacional e todo o futuro. Creio que, nos próximos dois meses, assistiremos aos desdobramentos desse processo.

Os jovens iniciaram grandes revoluções, mas não serão eles que necessariamente decidirão a direção geral pela qual andarão aquelas revoluções. Cada direção, claro, depende do país e da região. Obviamente as revoluções serão muito diferentes nos países islâmicos, do que são na Europa ou, claro, nos EUA.

E é verdade que na Europa e provavelmente nos EUA pode haver uma deriva para a direita, na política. Mas isso, parece-me, será assunto da terceira pergunta.
Crise econômica

Blog: Sim, a próxima pergunta é sobre a crise econômica em que vivemos desde 2008. As crises de 29, 33, levaram o fascismo ao poder. Prevê algum risco de a crise atual ter os efeitos que tiveram as crises de 28, 29, 33?

Eric Hobsbawm: Bem, não há dúvidas de que a crise, a crise econômica que se arrasta desde 2008, tem muito a ver com a deriva à direita na Europa. Acho que, hoje, só quatro economias na Europa, na União Europeia, estão sob governos de centro ou de esquerda. Algumas daquelas devem perder. A Espanha provavelmente também se moverá em direção à direita. Nesse sentido, parece verdade. Não acho que haja aí qualquer risco de ascensão do fascismo, como nos anos 1930s. O perigo do fascismo nos anos 1930s foi, em grande medida, resultado da conversão de um país em particular, um país decisivo politicamente, nomeadamente a Alemanha sob a alçada de Hitler.

Não há sinal de que nada disso esteja a acontecer hoje. Nenhum dos países importantes, segundo me parece, dá qualquer sinal nessa direção. Nem nos EUA, onde há um forte movimento direitista, pode-se concluir que aquele movimento ganhe poder nas urnas. Nem, tampouco, no caso dos partidos e movimentos de extrema-direita nos países europeus. Apesar de serem fortes, têm-se mantido como fortes minorias sem grandes hipóteses de se tornarem maiorias. Mas, sim, creio que, no futuro próximo, praticamente todos ou quase todos os países europeus serão governados por governos de direita, de um tipo ou de outro. Recorde-se que um dos efeitos logo termo da crise econômica dos anos 1930 foi que praticamente toda a Europa tornou-se democrata e de esquerda, como jamais antes acontecera. Mas isso levou algum tempo. Portanto, há um risco, mas não é o mesmo risco que havia nos anos 1930. O risco é antes o de não se agir o suficiente para lidar com os problemas básicos, enaltecidos pelo capitalismo dos últimos 40 e enfatizados pelo renascimento dos estudos marxistas.

Blog: O que pensa sobre a União Europeia e sobre o que já foi conseguido? A União Europeia conseguirá consolidar-se ou voltará a ser uma simples reunião de estados?

Eric Hobsbawm: Acho que a esperança de que a União Europeia venha a ser algo mais que uma aliança de estados e área de livre comércio, essa, não tem grande futuro. Não irá muito além do que já foi até aqui, mas não acho que seja destruída.

Acho que o que já se fez, um grau de livre comércio, um grau muito mais importante de jurisprudência comum e lei comum permanecerão. A principal fraqueza da União Europeia, parece-me, razão do fracasso, foi o conflito entre a economia e a base social da União Europeia. Um conflito que resultou da tentativa para eliminar a guerra entre a França e a Alemanha e unificar economicamente as partes mais ricas e desenvolvidas da Europa. Esse objetivo foi alcançado. Tal foi misturado em seguida com um objetivo político associado à Guerra Fria e ao desenvolvimento após o fim deste período, nomeadamente o objetivo de extensão das fronteiras a todo o continente e mais além. Este processo dividiu a Europa em partes que já não são facilmente coordenáveis.

Economicamente, as grandes crises são ambas muito parecidas no que diz respeito às aquisições para a União Europeia desde os anos 1970, na Grécia, em Portugal e na Irlanda, por exemplo. Mesmo politicamente, as diferenças entre os antigos estados comunistas e os antigos estados não comunistas da Europa enfraqueceram a capacidade de a Europa continuar a desenvolver-se. Se a Europa continuará a conseguir manter-se como está, eu não o sei. Não creio, contudo, que a União Europeia deixe de existir e acho que continuaremos a viver numa Europa mais coordenada do que a que conhecemos, digamos, desde a II Guerra Mundial.

De qualquer modo, devo dizer que está fazendo-me perguntas enquanto historiador mas sobre o futuro. Infelizmente, os historiadores sabem tanto sobre o futuro quanto qualquer outra pessoa. Por isso, as minhas previsões não são fundadas em nenhuma especial vocação que eu tenha para prever o futuro.


Fonte: Carta Maior
(Tradução: Coletivo Vila Vudu)

imagem da chuva


Autor da imagem: Danny Santos e o projecto “Bad Weather”

18.6.11

Piñera

 
 
 
 
Milhares de estudantes e professores protestam contra Piñera



Protestos massivos realizados em Santiago e em outras cidades chilenas deixaram claro o descontentamento com a situação da educação pública no Chile. Manifestantes pediram mudanças como o fim do lucro, maior equidade e gratuidade de ensino. Cresce o descontentamento com o governo conservador.

Christian Palma – Página/12


A imagem mais imponente que se repetirá nesta sexta-feira nas capas de todos os jornais chilenos serão as 70 mil pessoas, segundo cifras oficiais (100 mil, segundo os manifestantes), que ontem saíram para protestar na principal avenida de Santiago: a Alameda. A cena se repetiu em Valparaíso, Concepción, Temuco, Valdivia, Arica, San Antonio, Chillán e Antofagasta, as mais importantes cidades chilenas e onde a cidadania se encarregou – mais uma vez – de recordar ao governo direitista de Sebastian Piñera que há descontentamento, frustração e raiva; que o governo de excelência que prometeram não existe.

A convocatória da Confederação de Estudantes do Chile (Confech), que agrupa a todas as universidades tradicionais do país, juntamente com o Colégio de Professores, superou todas as expectativas, que giravam em torno de 20 mil pessoas. Mas pouco a pouco, por volta das 11 horas, começou a chegar muita gente à Praça Itália, lugar que separa a Santiago mais rica da cidade da classe média e centro nevrálgico de manifestações na capital. Em seguida, a massa humana caminhou tranquilamente até a Praça dos Heróis, muito próximo do Palácio de La Moneda. Ali se realizou um ato central, os discursos foram pronunciados quase nas barbas no ministro d Educação, Joaquín Lavín, e do próprio Piñera.

A manifestação de ontem une-se a outras marchas convocadas pelos ambientalistas e onde a cidadania em geral participou no rechaço ao projeto que pretende construir hidroelétricas na Patagônia, e ao menos massivo, mas também muito significativo, protesto dos estudantes secundaristas realizado na semana passada e quem reuniu cerca de 7 mil “pinguins” (apelido desses estudantes).

O “tac tac” dos passos soava em uníssono, enquanto a maré humana avançava sob o olhar atento dos carabineiros que esperavam o primeiro sinal de desordem para reprimir. A longa fila estava colorida de diversos cartazes, faixas, lenços e batucadas, deixando claro, ruidosamente, o descontentamento com a educação pública e exigindo mudanças como o fim do lucro nas escolas, maior igualdade e gratuidade no ensino.

Um dos rostos visíveis era de Jaime Gajardo, presidente do Colégio de Professores, secundado por Camila Vallejos, presidenta da Federação de Estudantes da Universidade do Chile (FECH) e por um grande número de estudantes secundaristas que, desde a semana passada, se mantem mobilizados ocupando quase 240 estabelecimentos escolares e se negando a suspender as ocupações para sentar-se e conversar como propôs o governo. “Exigimos o mesmo, educação pública para o Chile, pelo fim do lucro na educação, que o Estado recupere seu papel, que se privilegie o público sobre o privado, mais democracia nas escolas e universidades e que se avance rumo a uma educação de qualidade e não elitista como é agora”, detalhou Gajardo.

Neste sentido, fez uma comparação com a grande rebelião contra o sistema educacional protagonizada em 2006 pelos estudantes secundaristas, fato conhecido como “puingüinazo” e que custou a cabeça de um ministro, pôs em xeque a administração de Bachelet e conseguiu colocar na agenda política do país o tema educacional.

“A diferença é que, agora, participam todos os setores da educação”, disse ainda Gajardo. “Aqui se expressa o movimento social, uma expressão que é transversal, legítima, de mais de 100 mil manifestantes”, acrescentou Camila Vallejos. “Alguns disseram que o povo não quer manifestações, mas hoje são mais de 100 mil pessoas dizendo que querem se manifestar, sim, que querem participar para recuperar a educação pública e para que o Estado assuma seu papel de garantir o direito à educação”, agregou.

A dirigente universitária disse ainda que “hoje não nos serve dialogar porque as coisas são claras. Nós exigimos que se respeite a lei, que diz que não se pode lucrar com a educação e isso não está sendo respeitado e não tem havido vontade política para que seja respeitada”.

No ato central estiveram presentes representantes da oposição e dos ecologistas. “É como se todo o Chile estivesse na marcha. Há gente de todo tipo que está reclamando, isso me parece maravilhoso”, sustentou María José, uma jornalista recém egressa de uma universidade privada e que está desempregada. José Luis, motorista de caminhão, de passagem por Santiago, afirmou: “tenho quatro filhos e só posso pagar universidade para um, o resto deverá começar a trabalhar assim que puder. Por isso venho reclamar e apoiar esses jovens”. Mas como tem sido a tônica das últimas manifestações, grupos isolados de manifestantes se enfrentaram com os carabineiros, que os reprimiu com cassetetes, jatos de água e bombas de gás lacrimogêneo, em plena Alameda, próximo ao Ministério da Educação.

As desordens se aproximaram do Palácio de La Monde onde alguns “encapuzados” lançaram pedras, paus e bombas molotov contra o pessoal das Forças Especiais.

Agora os estudantes avaliam a marcha e seguem analisando os caminhos a seguir, uma jornada que está longe de ser concluída, enquanto as portas do Ministério da Educação não se abram sem condições.

Tradução: Katarina Peixoto

17.6.11

Frei Betto

 
 
 
 
Frei Betto: ‘Lamento que líderes do PT deem consultoria aos donos do dinheiro

 
 
Fernando Galo
Jornalista Estado de São Paulo

[Sete anos após deixar o governo Lula, no qual foi assessor especial da Presidência, o escritor e assessor de movimentos sociais Frei Betto é um entusiasta da experiência do PT no poder e crítico ferrenho dos dirigentes da sigla. Em meio à crise política e ao impacto do lançamento do programa Brasil sem Miséria, Frei Betto falou ao Estado. Ele elogiou o plano social e não poupou ataques à direção petista no caso Antonio Palocci: "Já não encontro os dirigentes dando consultoria a movimentos sociais".
A entrevista é de Fernando Gallo e publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 12-06-2011].

Eis a entrevista.


Como o sr. analisa a saída de Antonio Palocci do governo?

O governo demorou a agir diante da crise que se instalou a partir da constatação desse surpreendente aumento do patrimônio. Isso gerou muitas dúvidas. Dilma, diante de casos como esse, deveria seguir o exemplo do ex-presidente Itamar Franco, que licenciou o Hargreaves (Henrique Hargreaves, ministro da Casa Civil acusado de irregularidades no cargo) até que as coisas ficassem claras. Comprovada sua total inocência, foi reintegrado. No caso do Palocci, houve uma suspeita que os próprios correligionários abraçaram. O fato de a Executiva do PT não emitir uma nota de apoio, de solidariedade, era sintoma de que no partido pairavam dúvidas. Ali foi o momento em que Dilma deveria ter tomado a providência de afastá-lo.

O episódio pode ser considerado um indicativo de que o PT mudou seus ideais ao virar governo?


Exatamente. Nunca me filiei a nenhum partido político, mas ajudei a construir o PT, assessorei muitos movimentos que formaram lideranças que hoje integram o PT e a política profissional. Lamento que os dirigentes do PT hoje deem consultoria aos donos do dinheiro. Andando pelo Brasil, já não encontro esses dirigentes prestando consultoria a movimentos sociais.

O PT revisou o seu projeto?

Ah, sim! No conjunto do partido, salvo exceções de honrosos militantes, o PT trocou um projeto de Brasil por um projeto de poder. Quando se estende demasiadamente o bloco de alianças, há que fazer concessões. Elas levaram o PT a ter grande prestígio eleitoral, mas não é mais, infelizmente, o partido representativo dos movimentos sociais. Já não identificam nele o partido que vai enfrentar as forças que impedem reformas de estrutura no Brasil.

Em um olhar mais geral, para além da crise, que avaliação o sr. faz do governo Dilma?


Ainda é muito cedo para uma avaliação. A equipe de governo é boa. Tem muita gente que vem do governo Lula, já calejada. O governo está mantendo a política externa do Lula, que eu considero brilhante, e está aprofundando os programas sociais, o que é muito positivo. Não gosto do lema "País rico é país sem miséria". Devia ser "país digno", não "rico". Os Estados Unidos são ricos, mas têm 30 milhões de miseráveis. A China é rica e tem milhões de miseráveis.

O sr. vê alternativa fora das alianças feitas pelo PT?

É difícil governar sem alianças, concordo. Mas elas têm de ser feitas em cima de princípios, não de interesses. Quando os interesses aparecem, como no caso do Código Florestal, as divergências também transparecem. A posição do PT e a do governo não coincidiam com a de muitos membros da base, sobretudo a do PMDB.

Como viu a atuação do governo na votação do Código Florestal?

O PT ficou isolado, mas nesse assunto Dilma tem muita clareza e firmeza. Ela sabe que o Brasil vai abrigar no ano que vem uma importante conferência ambiental. Ela foi a Copenhague acompanhando Lula e assumiu compromissos internacionais. Espero que continue com essa posição firme de não ceder frente às flexibilizações da proposta aprovada na Câmara, que parecem prejudicar o meio ambiente e favorecer os desmatadores, aqueles que praticam assassinatos no campo, invadem a Amazônia com o agronegócio e derrubam árvores para fazer pasto.

O sr. já criticou o governo por suspender o kit anti-homofobia.


Pode ser um recuo tácito, mas o tema está em pauta. Você não pode ignorar uma questão que atinge milhões de brasileiros que têm uma opção de vida amorosa e sexual. Como a questão do aborto, também. O governo pode colocar debaixo do tapete, mas uma hora ela vai ter de vir à tona. São questões relevantes para a sociedade no mundo inteiro. Como um feliz ING que sou hoje - "indivíduo não governamental" -, penso que esses temas terão de ser encarados. Espero que Dilma, que tem passado de combatividade, venha a acabar com tabus e trazer mais luz a esses temas.

O governo se omitiu no assassinato dos líderes do Pará?

Para ser generoso, acho que agiu muito timidamente. Tinha de ter mandado ministros, o do Desenvolvimento Agrário, a dos Direitos Humanos. Deveriam ter ido à região, participado dos enterros, cobrado pessoalmente do governo do Pará, que não abre inquéritos. Deveria ter tido atuação mais rigorosa. No enterro do Chico Mendes, foi todo mundo. As pessoas que estão no governo se mexiam. As coisas são vistas pela TV, pelo jornal. Isso é inconcebível. Os mandantes e assassinos estão convencidos da impunidade. Você tem 98 mandantes e assassinos identificados e apenas um preso, que é o Bida, assassino da Dorothy Stang. Liberou geral o faroeste.

Apesar das críticas, o sr. disse que a experiência do PT no poder é a melhor da história brasileira.

Considero o governo Lula o melhor da história republicana, porque gosto muito do governo de d. Pedro II. Espero que o governo Dilma seja o prosseguimento do governo Lula, principalmente por causa dos avanços do ponto de vista social e à política externa. Minha expectativa é de que o governo consiga transformar políticas de governo, como o combate à miséria e a questão ambiental, em políticas de Estado. Que promova as sonhadas reformas de estrutura: política, tributária, agrária. Isso é urgente. Desde o início dos anos 60 o Brasil clama por isso.

Qual a sua avaliação sobre o plano Brasil sem Miséria?


Vejo com bons olhos. Ao menos no papel é um avanço em relação ao Bolsa Família. Espero, e desconfio, como bom mineiro, que o Brasil sem Miséria seja uma reedição do Fome Zero, que era um programa emancipatório. O Bolsa Família é um programa compensatório. Prova disso é que esse programa até agora não tem porta de saída. Quem entra não sabe como sair assegurando a própria renda e condições dignas de vida. O Brasil sem Miséria não só aumenta o número de famílias e os benefícios de três para cinco filhos até 15 anos, como abre perspectivas de funcionamento da porta de saída. Vamos ver na prática se funciona.

Por que o projeto seria uma reedição do Fome Zero?

O Bolsa Família foi introduzido no lugar do Fome Zero por questões eleitorais. O dinheiro não passava pelas prefeituras e os prefeitos se rebelaram. Pressionaram e conseguiram ganhar a guerra. Eles têm o controle do cadastro e evitam que surjam lideranças populares ameaçadoras das minioligarquias municipais. Além disso, segundo o TCU, há indícios de corrupção em 70% das prefeituras do Brasil. Para bom entendedor, meia palavra basta.

14.6.11

Mulher - Natureza




A mulher e a natureza: uma mística recorrente

Imbuídas do sentimento de estarem ligadas aos ritmos da natureza, as mulheres compreendiam a interconexão entre esta e os seres humanos. A prevenção contra a destruição ambiental tinha seu ponto forte nesse vínculo. Assim, essa identificação tornou-se um projeto positivo, que as alçou ao nível de guardiãs da ecologia.

por Janet Biehl*

Seriam as mulheres mais ecológicas do que os homens? Teriam elas uma relação particular com a natureza, ou um ponto de vista privilegiado em relação aos problemas da ecologia? Ao longo das últimas décadas, mulheres que se dizem feministas responderam a essas perguntas de modo afirmativo.

De fato, essa posição é praticamente tão antiga quanto o aparecimento do movimento ecologista moderno. Em 1968, em seu livro The Population Bomb1(“A bomba populacional”), o biólogo e educador norte-americano Paul R. Ehrlich afirmou que a superpopulação estava levando o planeta à ruína. Ele acrescentou que a melhor coisa que poderia ser feita em benefício da Terra era a recusa em reproduzir-se. Anos mais tarde, uma feminista radical francesa, Françoise d’Eaubonne, constatou que metade da população não tinha o poder de optar por isso: as mulheres não controlavam sua fertilidade. O “sistema macho” patriarcal, conforme ela o chamava, as queria descalças, grávidas e reprodutoras.

Contudo, d’Eaubonne também acrescentava que as mulheres podiam e deviam responder, exigindo a liberdade de reprodução: o acesso fácil ao aborto e à contracepção. Com isso, elas teriam condições de emancipar-se e, ao mesmo tempo, salvar o planeta da superpopulação. “A primeira consequência da relação entre a ecologia e a liberação das mulheres”, escreveu a autora, “é a de que as mulheres devem reapoderar-se do crescimento demográfico e, assim fazendo, reapoderar-se do seu corpo”. Em seu livro publicado em 1974, Le féminisme ou la mort(“O feminismo ou a morte”), ela deu à essa ideia o nome de “ecofeminismo”.

Os defensores estadunidenses do meio ambiente retomaram seu pensamento, embora eles também lhe atribuíssem um sentido diferente. Recordaram-se de que a autora de Silent Spring (“Verão silencioso”), o livro que inspirara a luta em defesa da ecologia em 1963, era uma mulher: Rachel Carson.2 Eles constataram que as mulheres haviam tomado a frente das manifestações contra as centrais nucleares e daquelas contra o lixo tóxico – como fizera Lois Gibbs em Love Canal, no estado de Nova York. Uma mulher, Donella Meadows, figurava entre os autores do influente relatório The Limits to Growth3(“Os limites do crescimento”), publicado em 1972. Petra Kelly era uma figura emblemática dos movimentos ecologistas na Alemanha. No Reino Unido, um grupo denominado Women for Life on Earth (“As mulheres em prol da vida na Terra”) organizou um “acampamento da paz” na base aérea de Greenham Common para protestar contra a disseminação de mísseis de cruzeiro pela Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).

Muitas participantes se proclamavam ecofeministas; mas a sua militância não se inscrevia numa luta pela liberdade de reprodução. As pessoas começaram a enxergar uma relação específica, sui generis, entre as mulheres e a natureza. Esta se manifestava na própria língua: as palavras “natureza” e “Terra” são do gênero feminino, as florestas são “virgens”, a natureza, que é a nossa “mãe”, é “mais sábia”. As mulheres podem ser “selvagens” encantadoras.

 Um insulto transformado em elogio

Fazendo contraste com essas afinidades, as forças que tentavam “domar a natureza” e “violentar a Terra” eram as da ciência, da tecnologia e da razão, todas as quais eram frutos de projetos masculinos. Há milênios, Aristóteles definiu a racionalidade como masculina; ele pensava que as mulheres eram menos aptas a raciocinar e, por conta disso, menos humanas. Ao longo dos dois milênios que se seguiram, a cultura europeia havia considerado as mulheres como intelectualmente deficientes, e havia tentado dominar a Terra, no que ela seguiu os preceitos da Gênese. Então, as Luzes – outro projeto aparentemente masculino – haviam encontrado novas maneiras de destruir a natureza por meio da ciência, da tecnologia e das usinas. Os autores dessa destruição do meio ambiente foram homens que reduziram a natureza a um conjunto de recursos que eles podiam explorar e transformar em mercadorias. Ao buscar dominar a natureza e glorificando a razão ao mesmo tempo, o projeto das Luzes destruiu o planeta, segundo afirma a filosofia da Nova Era e do ecofeminismo. Essa era a tese de autores como Frijtof Capra e Charlene Spretnak.4

Mas, conforme garantiram as feministas durante os anos 1970, as mulheres tinham as mãos limpas. Além disso, o mundo precisava de menos racionalidade destruidora da natureza; portanto, se as mulheres eram mais intuitivas e mais emocionais do que os homens, elas eram o antídoto. Imbuídas do sentimento de estarem ligadas aos ritmos da natureza, elas compreendiam intuitivamente a interconexão entre esta última e os seres humanos. A prevenção contra a destruição do meio ambiente tinha o seu ponto forte precisamente nesse vínculo específico. Assim, identificar as mulheres com a natureza tornou-se um projeto positivo, que as alçou ao nível de guardiãs da mensagem ecologista. A sua abordagem acabou sendo legitimada pelos estudos da psicóloga Carol Gilligan, que sugeriu que o desenvolvimento moral específico das mulheres fazia com que elas fossem portadoras de uma “ética do cuidar dos outros”,5 ou care.6 Algumas delas, como Mary Daly, chegaram até mesmo a sugerir que a natureza era uma deusa, imanente em todas as criaturas vivas, e que as mulheres participavam da sua essência.7

Por sua vez, as feministas, ao menos as que lutam para garantir uma melhora no plano dos seus direitos, ficaram horrorizadas com essa concepção. Elas rebateram que o ecofeminismo veiculava estereótipos patriarcais: para elas, ele se apoderara de um insulto muito antigo, que ela passara a apresentar como uma virtude. No século 19, esses estereótipos haviam servido para justificar a ideologia das “esferas separadas”, que haviam limitado ao universo doméstico as opções de vida das mulheres, ainda que pintassem de ouro as grades da sua prisão lançando mão de homenagens esfuziantes à sua superioridade moral. O ecofeminismo não passava de uma recriação desses estereótipos opressivos. Por mais renovados e “esverdeados” que fossem, não havia espaço para estes últimos na luta feminista; eles nada faziam senão abrir a porta para uma nova iteração da “mística feminina”. Além disso, na realidade, nos anos 1970, muitos defensores do meio ambiente eram homens.

Nesse meio-tempo, as ecofeministas ocidentais passaram a se interessar pelo Terceiro Mundo, onde projetos de desenvolvimento financiados pelo Banco Mundial estavam em vias de realização. Engenheiros construíam barragens em rios para produzir energia hidráulica e, assim fazendo, devastavam inúmeras comunidades. O agronegócio transformava em monoculturas terras que havia muito vinham sendo cultivadas de maneira sustentável, produzindo colheitas exclusivamente destinadas a serem exportadas no mercado mundial; derrubava florestas que, por muito tempo, forneceram aos moradores de pequenas cidades frutas, combustível e material próprio para o artesanato, e que haviam protegido as águas subterrâneas e os animais. Esse “mau desenvolvimento”, conforme era chamado pelos seus opositores – um capitalismo internacional explorador, descontrolado –, estava destruindo não apenas as florestas, os rios e as terras, como também comunidades e modos de vida ecologicamente sustentáveis.

Povos autóctones lutaram contra essas devastações. No norte da Índia, mais particularmente, quando uma companhia planejou dedicar-se à exploração florestal, as mulheres da aldeia se opuseram ao projeto, agarrando-se fisicamente às árvores para impedir que fossem derrubadas. Durante a década seguinte, o seu movimento, que foi batizado de Chipko, alastrou-se por todo o subcontinente.

O movimento Chipko estimulou a imaginação das ecofeministas ocidentais, enquanto a realidade dos fatos sociais contribuiu para reforçar a mística, associando a mulher com a Terra. Nas regiões rurais da África, da Ásia e da América Latina, Vandana Shiva e muitas outras explicaram que as mulheres são as jardineiras e as cultivadoras das hortas; elas possuem um saber e uma perícia ímpares em relação aos processos da natureza.

A fascinação do ecofeminismo pelo movimento Chipko aproximava-se de uma idealização da agricultura de subsistência. Como ficavam então as mulheres que aspiravam à educação, a uma vida profissional e a uma plena cidadania política? As ecofeministas pareciam achar preferível que elas mantivessem seus papéis antigos, ficando descalças e jardinando. Sem esquecer o fato de que também havia homens envolvidos no movimento Chipko...

Contudo, esse interesse teve o mérito de evidenciar de quais maneiras particulares a destruição do meio ambiente deixa as mulheres abaladas. Quando terras agrícolas produtivas são convertidas à monocultura, muitas delas, que praticam maciçamente a agricultura de subsistência, são transferidas para morros onde as terras são menos férteis, o que provoca o desmatamento e a erosão dos solos e as condena à pobreza.8

O aquecimento climático também atinge as mulheres em primeiro lugar: a inferioridade da sua condição e dos seus diferentes papéis sociais aumenta sua vulnerabilidade aos desastres – tempestades, incêndios, enchentes, secas, ondas de calor, doenças e penúrias alimentares. Todo ano, segundo um relatório da Women’s Environmental Network (WEN – Rede Ambiental das Mulheres), uma organização baseada no Reino Unido, mais de 10 mil mulheres morrem em desastres relacionados à mudança do clima, contra 4.500 homens. As mulheres representam 80% dos refugiados de catástrofes naturais; dos 26 milhões de pessoas que perderam sua habitação e seus meios de sobrevivência em razão da mudança climática, 20 milhões são mulheres.9

Nos Estados Unidos, a interpretação romântica da relação entre a mulher e a natureza conheceu recentemente outro renascimento após o desmoronamento financeiro provocado pela ganância de Wall Street: “As mulheres estão voltadas para relações e estratégias de longo prazo que dão prioridade para as gerações futuras”, escreve Shannon Hayes em seu livro dedicado às radical homemakers (“donas de casa radicais”).10 Essas novas encarnações da Mãe Terra renunciam às vantagens econômicas que poderiam lhes proporcionar um alto nível de educação e uma carreira profissional: elas optam por ficar em casa para cuidar da sua família e dar aos seus filhos uma alimentação saudável, a partir de alimentos saborosos que elas mesmas cultivam no seu jardim. Elas também cultivam suas relações com os outros, privilegiam a simplicidade e a autenticidade. Independente e autônomo, o seu lar passa a ser uma rede de segurança contra um eventual desastre econômico. Além disso, o seu consumo de carbono é muito reduzido. Dessa forma, elas conseguem ter um desenvolvimento virtuoso no plano pessoal e conferir um sentido para a sua vida – ao menos à primeira vista.

Voltar às “esferas separadas”?


A defesa do meio ambiente já existe há tempo suficiente para que os pesquisadores em ciências sociais tenham conseguido elaborar estudos a respeito da atitude respectiva dos homens e das mulheres em relação à ecologia e constatar eventuais diferenças. Desde os anos 1980, uma maioria dentre eles chegou à conclusão de que, nos países industrializados, as mulheres se mostram efetivamente mais preocupadas do que os homens com a destruição do meio ambiente.

Segundo certos estudos, elas têm de fato uma pegada ecológica mais reduzida. Um relatório sueco indica que os homens participam no aquecimento global de maneira desproporcional se comparados com as mulheres, pois eles circulam em distâncias mais longas: três quartos do trânsito automobilístico na Suécia são atribuídos a homens.11

Como fica então a ação política motivada pelas questões ambientais? No nível nacional, segundo o Institute for War & Peace Reporting (IWPR),12 a participação e o papel dirigente das mulheres nessa ação específica são mais reduzidos que os dos homens: as diretorias das grandes organizações ecologistas nacionais são essencialmente masculinas. Mas, no nível local, nos grupos constituídos para combater uma ameaça particular contra o meio ambiente, a saúde ou a segurança da comunidade, a participação das mulheres, tanto atuando como membros quanto como líderes, é mais importante que a dos homens. Cerca da metade de todos os grupos de cidadãos que se constituíram para lutar contra desastres ecológicos, tais como os que envolvem emissões perigosas provenientes de usinas ou de incidentes nucleares, é dirigida por mulheres ou por uma maioria delas.

Mas será o caso de considerar todos esses fatos como sendo provas de uma diferença essencial, ressuscitando os estereótipos patriarcais? Será o caso de aceitar que os homens predominem nos comandos dos movimentos ecologistas nacionais, ou que as mulheres assumam sozinhas as tarefas que implicam em cuidar dos outros? E o que devemos pensar dessa falta de reconhecimento que mulheres infligem a si próprias em nome do feminismo?

Pois existe o risco de retornarmos às “esferas separadas”. Mesmo para as “donas de casa radicais”, a esfera doméstica acaba perdendo parte da sua alegria, conforme sublinha a ensaísta feminista Peggy Orenstein, se os seus companheiros não estiverem envolvidos nela e não dividirem suas tarefas em partes iguais. “Se [as mulheres] não estiverem vivenciando isso como uma relação verdadeiramente igualitária”, alerta, elas podem acabar sofrendo de “uma perda do respeito de si mesmas, uma perda de vitalidade e uma incapacidade de se reinserir no mundo e de nele encontrar suas referências”.13 Quando os homens ganham quase todo o dinheiro do casal e as mulheres cuidam do lar, praticamente sozinhas, isso provoca um desequilíbrio do poder no âmbito das famílias que é nocivo para as mulheres e as crianças. Uma mudança para valer, isto é, tanto social quanto ecológica, poderá mesmo ocorrer sem que ninguém se preocupe com isso?

*Janet Biehl - Militante no campo da ecologia social, radicada em Burlington (Vermont, EUA). Autora de Rethinking Ecofeminism Politics, South End Press, Cambridge (Estados Unidos), 1991.
1 Publicado na França sob o título Paul Ehrlich, La Bombe P: Sept milliards d’hommes en l’an 2000, Fayard, Paris, 1972. Nos Estados Unidos: The Population Bomb, Ballantine Books, 1968.
2 Rachel Carson, Silent Spring, Houghton Mifflin, Boston, 1962.
3 Donella H. Meadows, Dennis L. Meadows, Jørgen Randers e William W. Behrens III, The Limits to Growth, Universe Books, Nova York, 1972. Publicado na França sob o título Halte à la croissance?
4 Fritjof Capra, The Turning Point, Simon & Schuster, Nova York, 1982; Green Politics: The Global Promise (com Charlene Spretnak), Dutton, Nova York, 1984.
5 Carol Gilligan, In a Different Voice, Harvard University Press, 1982.
6 Ler Evelyne Pieiller, “Rumo a uma sociedade do cuidado”, Le Monde Diplomatique Brasil, setembro de 2010.
7 Mary Daly, Gyn/Ecology: The Metaethics of Radical Feminism, Beacon Press, Boston, 1978.
8 Jodi Jacobson, “Women’s Work”, Third World, n° 94/95, McGraw-Hill, Nova York, janeiro de 1994.
9 “Gender and the Climate Change Agenda”, www.wen.org.uk, 2010.
10 Shannon Hayes, Radical Homemakers: Reclaiming Domesticity from a Consumer Culture, Left to Write Press, Richmondville (Estados Unidos), 2010.
11 “Are men to blame for global warming?”, New Scientist, Londres, 10 de novembro de 2007.
12 Vide o site http://iwpr.net.13 Peggy Orenstein, “The Femivore’s Dilemma”, The
New York Times, 11 de março de 2010.

Escândalos...

 
 
 
Strauss-Kahn, a leniência e a histeria

Por Lilia Diniz


Três ingredientes explosivos ocupam a mídia de todo o mundo desde o início do caso Dominique Strauss-Kahn: sexo, dinheiro e poder. Acusado de estuprar a camareira do hotel onde estava hospedado em Nova York, DSK − como é conhecido o ex-diretor-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI) − foi detido na noite de 14 de maio quando já estava a bordo de um voo para a França.

O escândalo logo ganhou os holofotes da mídia e a promissora carreira de DSK, até então nome forte para a sucessão do presidente francês Nicolas Sarkozy, sofreu um grave revés. Enquanto a mídia francesa, tradicionalmente mais reservada quando o assunto envolve a vida privada e seguidora do princípio da presunção da inocência, evitou expor DSK, a imprensa dos Estados Unidos não deu trégua ao então dirigente do FMI. Fotografias de DSK algemado e detalhes do caso foram estampados nos jornais, causando perplexidade na população francesa.

Advogados contra “frenesi”

Teorias da conspiração passaram a ocupar as páginas dos jornais, alimentadas por uma declaração antiga de DSK admitindo que poderia ser pego em uma armadilha envolvendo mulheres. Mantido em prisão domiciliar em Nova York, DSK foi indiciado e negou as acusações de ato sexual criminoso, tentativa de estupro, abuso sexual e cárcere privado.

Ele está montando uma equipe de especialistas em diversas áreas para combater essas acusações e seus advogados criticam duramente o “frenesi” da mídia em torno do assunto. Reclamam dos constantes vazamentos de dados da polícia de Nova York para a mídia e ponderam que o repasse das informações pode prejudicar a imparcialidade do julgamento. O Observatório da Imprensa exibido ao vivo na terça-feira (31/05) pela TVBrasil discutiu a cobertura da mídia neste polêmico episódio.

Alberto Dines recebeu no estúdio do Rio de Janeiro dois correspondentes estrangeiros: Mac Margolis, da revista americana Newsweek, e Marie Naudascher, que trabalha para a Rádio RTL-France, a emissora mais popular do país. Margolis trabalha para a Newsweek há quase três décadas e escreve uma coluna semanal para O Estado de S. Paulo. Colaborou em The Washington Post e The Economist e recebeu o prêmio Maria Moors Cabot, da Universidade de Columbia. Marie Naudascher estudou jornalismo em Nova Déli, na Índia. Formada em 2008 na Escola de Jornalismo da Sciences Po, em Paris, Marie trabalha também como produtora de televisão para documentários franceses no Brasil.

O convidado no estúdio de São Paulo foi Fábio Zanini, editor do caderno Mundo da Folha de S. Paulo. Zanini Foi correspondente do jornal na África do Sul e em Londres e repórter de política em São Paulo e em Brasília. Formado em jornalismo pela Escola de Comunicações e Artes da USP, Zanini tem mestrado em Relações Internacionais pela Universidade de Londres.

Pré-julgamento

A reportagem exibida antes do debate ouviu as opiniões do jornalista Carlos Eduardo Lins da Silva e do antropólogo Roberto DaMatta, que viveram nos Estados Unidos. Para o jornalista, a Justiça americana é “mais cega” do que a de outros países, como o Brasil. Lá, ricos e famosos têm o mesmo tratamento de pobres e anônimos. “No entanto, esta situação também mostra uma das piores coisas da sociedade americana, inclusive da mídia, que é a condenação precoce de acusados por algum crime”, afirmou Carlos Eduardo.

A simples exposição de DSK algemado e sendo levado para a prisão, na avaliação do jornalista, pode interferir na opinião daqueles que irão julgar o caso. Carlos Eduardo considera hipócrita a visão da cultura americana sobre a sexualidade e avaliou que aquela sociedade ultrapassou os limites do bom-senso nesta questão. Brincadeiras e comentários pueris podem ser são confundidos com assédio até entre crianças de três anos, como ocorreu com seu filho quando frequentava o jardim de infância.

O que choca mais

O antropólogo Roberto DaMatta explicou que a mídia francesa guarda as mesmas características da brasileira quando aborda a vida erótica das autoridades. “Nós somos tão discretos quanto os franceses. Somos mais parecidos com a imprensa americana no que diz respeito a escândalos envolvendo enriquecimento ilícito, corrupção, tráfico de influência e, sobretudo, ‘disse-me-disse’”, comparou Da Matta.

Nos Estados Unidos a “secular” visão do gênero masculino encarado como o “bandido da história” ganha força, ao contrário do Brasil, onde a mulher é rotulada de sedutora e, em muitos casos, vista como provocadora do assédio. No caso DSK, alguns fatores contribuem para tornar a história ainda mais impactante nos Estados Unidos: a diferença profissional e de prestígio entre denunciante e denunciado.

Autocrítica francesa

O Observatório mostrou a opinião de dois correspondentes brasileiros no exterior. De Paris, Deborah Berlinck contou que o caso DSK levou a mídia francesa a uma reflexão sobre seus procedimentos e à autocrítica. Políticos e jornalistas tinham conhecimento do comportamento pouco usual, desrespeitoso e, em muitos casos, indecente, do então diretor do FMI em relação às mulheres.

“Ninguém falou, ninguém publicou. E, hoje, esta imprensa começa a se questionar e a ver até que ponto a reverência ao poder ou o respeito à liberdade privada impediu que uma parte importante da personalidade de um futuro candidato [à presidência] da França fosse discutida ou revelada aos eleitores franceses”.

Berlinck contou que recentemente uma jornalista francesa revelou uma história chocante passada há alguns anos: ao entrar em um elevador com DSK, teve seus seios apalpados pelo economista. “Ela me disse: ‘Bom, isto não foi feito de maneira agressiva mas, de qualquer forma, mostra um lado da personalidade de Dominique Strauss-Kahn que não podia ter sido ocultado durante tantos anos’ ”, relembrou Berlinck.

O show dos tabloides

Baseado em Nova York, Lucas Mendes disse que quem acompanhou o noticiário pela rede Fox e pelos os tabloides americanos pode achar que DSK é “o pior homem do mundo”, já que chegou a ser comparado pelos tabloides a um “chimpanzé no cio”. “O New York Post e a rede Fox, defensores de causas republicanas, conservadoras e patrióticas, lideram este surto de francofobia, que teve seu ponto alto quando a França foi contra a invasão do Iraque”, explicou Lucas Mendes.

Algemado e abatido, o ex-diretor do FMI passou pela exposição pública conhecida nos Estados Unidos como “caminhada do perpetrador”. “A motivação moral, política e circense da caminhada humilhante ganhou força nos tempos da luta contra a máfia de Al Capone, mas se tornou uma tradição em Nova York em um acordo entre a polícia e a imprensa. A imprensa precisa mostrar imagens, a polícia precisa mostrar serviço”, disse o correspondente.

Só vale o escrito

No debate ao vivo, Dines perguntou a Marie Naudascher como são os procedimentos das redações francesas nos casos que envolvem escândalos de autoridades. A jornalista explicou que, na França, vale a informação da Justiça. “Se tem uma pessoa que foi estuprada ou assediada, se não tiver um processo na Justiça, ninguém vai publicar nada, ninguém vai escrever nada”. Boatos e até histórias detalhadas não são levados em consideração pela imprensa: é preciso que a vítima entre com um processo para que o assunto seja abordado pela mídia. As escolas de jornalismo ensinam um código de ética onde a difamação tem destaque.

A correspondente relembrou que o presidente francês François Mitterrand tinha uma vida pessoal atribulada e conhecida no meio político e pela imprensa, mas o fato só foi publicado pelos jornais quando a filha concebida fora do casamento compareceu ao enterro do pai. A imprensa francesa tem um claro limite: a vida privada acaba na porta do quarto de uma pessoa pública ou ligada à política.

Naudascher contou um caso ocorrido há dois anos que exemplifica a relação da mídia com a vida íntima das autoridades. Um humorista francês que trabalhava em uma rádio pública fez uma crônica sobre a fama de Don Juan de Strauss-Kahn. Engraçada e muito exagerada, a peça advertia: “Cuidado que ele [DSK] está chegando por aqui! Mulheres, se escondam! Eu não quero ver nenhuma saia!”. Logo depois, a ousadia causou a demissão do humorista.

Tabu quebrado

Dines perguntou ao correspondente Mac Margolis se há um “aproveitamento político” do caso por parte da imprensa americana. Margolis explicou que há um “ranço” e uma raiva de longa data na postura dos americanos em relação aos franceses. “Esta é uma oportunidade para criticar os inimigos preferidos do cenário global. Depois do 11 de Setembro, os franceses disseram ‘não’ à invasão [do Iraque]. Os americanos derramaram vinho e rebatizaram a batata-frita, que nos Estados Unidos era ‘french fries’. Dali por diante, eram ‘as fritas da liberdade’. Chegou ao ridículo”, criticou Margolis.

O correspondente da Newsweek considera importante debater o direito à privacidade de figuras públicas que têm um cargo de confiança e chamou a atenção para o fato de que o tabu de ocultar as “indiscrições” de Strauss-Kahn foi quebrado em solo americano.

Margolis comentou que nos Estados Unidos há normas similares às da França, mas as regras são “testadas” diariamente pela imprensa. Um fator que contribui para que escândalos tenham destaque na imprensa norte-americana é a disputa entre os tabloides. Dines mostrou a fotografia do momento da prisão de DSK, onde o ex-diretor do FMI aparece algemado e perguntou se é possível, depois da publicação de imagens como essa em jornais de todo o mundo, que Strauss-Kahn retome a promissora vida pública.

Pavão e espanador

O jornalista Margolis relembrou uma divertida frase sobre a queda de personalidades: “Primeiro, pavão. Depois, espanador”. “A queda é muito brutal. Essa democratização radical da Justiça americana e da imprensa de mostrar todo mundo – seja o rei, seja o plebeu – em apuros tem um lado muito bom, mas tem um lado perigoso. Vai ser explorado em um tribunal por advogados milionários que vão dizer, com uma certa razão, que Strauss-Kahn foi pré-julgado na mídia”, advertiu Margolis.

Para Fábio Zanini, este é um momento definidor para a imprensa de vários países e, sobretudo, a francesa. Na avaliação do jornalista, houve dois choques na mídia da França neste episódio:

“O primeiro foi a imagem de Dominique Strauss-Kahn sendo transportado, escoltado e algemado por policiais americanos. Causou uma grande sensação no país. Mas eu acho que existe um segundo choque que está gerando uma autocrítica, um debate muito grande, da própria imprensa francesa, que é sobre se a imprensa não ‘cobriu de menos’ a vida pessoal de Strauss-Kahn e de outras autoridade políticas que, no passado, tiveram vidas pessoais atribuladas”.

Zanini acredita que o limite entre a vida pessoal e a pública de personalidades como presidentes e candidatos é cada vez mais tênue. “E a velha lei de que a vida privada dos políticos não interessa a ninguém está cada vez mais sendo flexibilizada”, sublinhou.

Novela real

Dines comentou que os desdobramentos do escândalo sexual estão desviando o foco das principais questões que deveriam ser discutidas após a renúncia de Strauss-Kahn: a sucessão no FMI e na presidência da França. O jornalista perguntou como Zanini administra esta peculiaridade no trabalho de edição do caderno Mundo.

O editor disse que o noticiário ligado ao FMI ou à política francesa é geralmente muito árido e específico. A partir do momento em que entra em cena um “escândalo policial e novelesco desta magnitude” é preciso ter cuidado para o aspecto de “folhetim” não “soterrar” o restante do noticiário internacional. A cobertura deve ser equilibrada, para que fatores essenciais não fiquem em segundo plano.

“São assuntos muito importantes, que ficam ofuscados neste momento por um caso que é de novela, de detetive, de seriado americano: é o ‘chefão’ que tenta assediar a camareira. Enredo de Hollywood, realmente”, exemplificou Zanini.

Fonte: Observatório da Imprensa

12.6.11

Sorria, Você Está Sendo Filmado!!



 
 
Sorria, Terceiro Mundo: EUA e Europa estão te observando


Aritz Recalde | Buenos Aires

"A humanidade conhece dois flagelos que a atormentaram em sua história:o imperialismo, que, ao suprimir a livre determinação dos povos, a soberania das nações e a independência econômica dos países, os priva de sua liberdade essencial; e as ditaduras, que, ao suprimir em parte a liberdade individual, ofuscam o homem. As ditaduras são de efeito limitado no tempo e no espaço, duram o que dura o homem que as exerce e alcançam apenas uma ação parcial. Os imperialismos são permanentes e alcançam a todos. Por isso a ditadura se abate por reação local; e o imperialismo só cede ante a ação de todos. (...) A guerra se produz por desígnio dos homens, nãoert por sua fatalidade. As causas de 90% das guerras suportadas pela humanidade, desde o mundo antigo até nossos dias, foram os imperialismos".  Juan Domingo Perón

"Ainda vivemos numa época em que o homem deve lutar e morrer para ter direito a transformar-se em cidadão de uma nação? (...) Não há nesta terra vontades suficientes para impor a razão à injustiça? (...) A morte do colonialismo é, ao mesmo tempo, a morte do colonizado e a morte do colonizador. (...) Queremos e faremos isso. Não acreditamos que exista força capaz de impedi-lo". Frantz Fanon

Sorria, Terceiro Mundo, os políticos norte-americanos estão olhando para você. Precisam de você para suas campanhas eleitorais. Precisam de você morto e televisionado para truinfar na eleição de seus candidatos a cada ano. Com você e sua família assassinados, vão apaziguar os temores e as frustrações de seus povos, sujeitos a uma campanha midiática e cinematográfica de terrorismo ideológico permanente. A indústria cultural lhes mostra que, fora de seus cálidos lares capitalistas, está a barbárie e esconde-se o perigo. Ensinam ao povo que aqui, em nossos continentes, abriga-se o mal e reproduz-se o terrorismo.

As ações promovidas pela barbárie ocidental nos últimos dois séculos devem nos servir de escola. Com essa experiencia, devemos detectar uma lei da divisão internacional do planeta, que estabelece que nós, os habitantes das nações do sul da terra, somos um objetivo militar, e que as metrópoles são nossos supostos legítimos executores. Cada um dos objetivos militares da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) ou da CIA, sejam soldados, presidentes ou crianças, é usado para manter a estabilidade política e econômica interna de seus Estados.

Os atos do terrorismo norte-americano e europeu contra o Terceiro Mundo não encontram limites. Bombardeiam países, destroem sua infraestrutura, seus patrimônios culturais, e matam as populações sob os mísseis ou pela fome resultante das conflagrações. Não importa se o assassinado a televisionar seja um socialista democrático como Salvador Allende ou se é preciso montar um documentário com o enforcado Saddam Hussein. Não interessa se matam soldados como Osama bin Laden, buscam assassinar presidentes como Evo Morales ou executam jovens e crianças à luz da opinião pública mundial, como é o caso do filho e dos três netos de Muamar Kadafi.

Em tempos de campanha, os políticos das metrópoles fazem apologia dos crimes de guerra mais atrozes, como o afundamento do cruzador General Belgrano nas Malvinas ou a execução das centenas de milhares de supostos comunistas na Operação Condor. Na hora de assassinar e promover as torturas, os desaparecimentos e os sequestros, certamente Margaret Thatcher, Ronald Reagan, George Bush ou atualmente Barack Obama observaram as pesquisas e escutaram seus assessores.


Pelo modo como agiram, é inegável que descobriram que matar brutalmente latino-americanos, africanos ou asiáticos alimenta o ego de boa parte da opinião pública das metrópoles. Para as potências, quando buscam seus interesses, não há leis, não há valores, não há processos judiciais, existe apenas a aplicação da força, que é o direito dos animais.

Tal qual estabeleceu e profetizou Juan Perón na epígrafe, o flagelo do imperialismo é um presente trágico para a Ásia, para a África ou para a América Latina. Sorria, Terceiro Mundo, as metrópoles pensam em você e, quando precisarem vencer uma eleição, você fará parte de sua plataforma eleitoral. Se, ao contrário do mandato criminoso que a OTAN e seus aliados nos impõem, acreditamos que a paz e a liberdade são a razão de nossos povos, retomemos a vontade de Fanon e, junto com ele, nos convençamos de que "não acreditamos que exista força capaz de impedi-lo".


*Artigo publicado originalmente no site Rebelión.