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5.6.11

A Espanha de Pérez-Reverte

 
 
Arturo Pérez-Reverte - "Espanha é um país frustrado"

 Rui Lagartinho


A história vai levantando os cercos, mas há uns mais difíceis de levantar do que outros, e capacidades de resistência mais trágicas do que outras: "Um romance é sempre uma consequência da tua visão sobre a sociedade que nele conflui. E a minha é amarga e pessimista. Espanha é um país historicamente frustrado. Teve reis incapazes, aristocratas corruptos e bispos fanáticos. E hoje a classe política herdou tudo isso. É analfabeta, medíocre e qualquer visão de futuro que se atreva a ter está sempre condicionada pelas eleições seguintes. Conseguiram acabar com um Estado que levou 500 anos a construir. Quando falo com gente jovem do meu país e me pedem conselhos sobre o futuro, só lhes consigo dar duas hipóteses de escolha: ou aprendem inglês para que possam sair de Espanha ou aprendem a fazer um cocktail molotov".

Brutal, mesmo para quem acredita que os livros nos podem ir salvando: "Um mundo sem livros seria um mundo órfão. Os livros ajudam a que morras de forma tranquila. Dão-te um olhar sereno e relativo sobre o mundo. Uma biblioteca é um projecto de vida. Dá-te consolo, esperança. É a possibilidade de nunca estares só. Escrever permite-me prolongar a minha vida: conhecer mais mulheres, eliminar outros inimigos. Sem escrever tudo isso teria já terminado para mim."

Percebe-se que mesmo enredado e apostado em inventar personagens novas, desta vez o desafio era que o mais abjecto dos polícias despertasse simpatias no leitor. Pérez-Reverte nunca deixou de ser repórter. Quanto mais não seja de si mesmo: "Escrevo com o que vivi. Quando conto, recordo experiências. Ou transformo imagens. Foi o que fiz quando me inspirei numa das minhas avós para criar Lolita Palma, a heroína audaz, pragmática e levemente romântica de 'O assédio'. Nisso sou bem diferente dos romancistas que são capazes de imaginar o mundo sem sairem de casa. Talvez eles sim, sejam os verdadeiros romancistas. Estou a lembrar-me do meu amigo Javier Marías". Ele, mais do que um romancista, é "um leitor que às vezes escreve romances": "Nunca perco de vista essa perspectiva de leitor. Antes e depois de começar a escrever. Sempre que tenho um problema técnico, recorro aos meus mestres - Conrad, Tosltói, Dumas - para humildemente perceber como o resolveram. E os meus leitores percebem que têm à sua frente um leitor como eles, um irmão."

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