Lugar de Pensar

Se você é um ser que somente consegue ler 140 caracteres... fuja daqui rapidamente.
Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome. Clarice Linspector
“Não somos seres humanos vivendo uma experiência espiritual, somos seres espirituais vivendo uma experiência humana.” Teilhard de Chardin
A solidão não existe! Tenho um mundo inteiro dentro de mim.
Seja bem-vindo.

28.7.11

Caí no mundo e não sei como voltar, Eduardo Galeano

 
 
CAÍ NO MUNDO E NÃO SEI COMO VOLTAR - Eduardo Galeano


O que acontece comigo é que não consigo andar pelo mundo pegando coisas e trocando-as pelo modelo seguinte só por que alguém adicionou uma nova função ou a diminuiu um pouco…

Não faz muito, com minha mulher, lavávamos as fraldas dos filhos, pendurávamos na corda junto com outras roupinhas, passávamos, dobrávamos e as preparávamos para que voltassem a serem sujadas.

E eles, nossos nenês, apenas cresceram e tiveram seus próprios filhos se encarregaram de atirar tudo fora, incluindo as fraldas. Se entregaram, inescrupulosamente, às descartáveis!

Sim, já sei. À nossa geração sempre foi difícil jogar fora. Nem os defeituosos conseguíamos descartar! E, assim, andamos pelas ruas, guardando o muco no lenço de tecido, de bolso.

Nããão! Eu não digo que isto era melhor. O que digo é que, em algum momento, me distraí, caí do mundo e, agora, não sei por onde se volta.

O mais provável é que o de agora esteja bem, isto não discuto. O que acontece é que não consigo trocar os instrumentos musicais uma vez por ano, o celular a cada três meses ou o monitor do computador por todas as novidades.

Guardo os copos descartáveis! Lavo as luvas de látex que eram para usar uma só vez.

Os talheres de plástico convivem com os de aço inoxidável na gaveta dos talheres! É que venho de um tempo em que as coisas eram compradas para toda a vida!

É mais! Se compravam para a vida dos que vinham depois! A gente herdava relógios de parede, jogos de copas, vasilhas e até bacias de louça.

E acontece que em nosso, nem tão longo matrimônio, tivemos mais cozinhas do que as que haviam em todo o bairro em minha infância, e trocamos de refrigerador três vezes.

Nos estão incomodando! Eu descobri! Fazem de propósito! Tudo se lasca, se gasta, se oxida, se quebra ou se consome em pouco tempo para que possamos trocar.
Nada se arruma. O obsoleto é de fábrica.

Aonde estão os sapateiros fazendo meia-solas dos tênis Nike? Alguém viu algum colchoeiro encordoando colchões, casa por casa? Quem arruma as facas elétricas? o afiador ou o eletricista? Haverá teflon para os funileiros ou assentos de aviões para os talabarteiros?


Tudo se joga fora, tudo se descarta e, entretanto, produzimos mais e mais e mais lixo. Outro dia, li que se produziu mais lixo nos últimos 40 anos que em toda a história da humanidade.

Quem tem menos de 30 anos não vai acreditar: quando eu era pequeno, pela minha casa não passava o caminhão que recolhe o lixo! Eu juro! E tenho menos de ... anos! Todos os descartáveis eram orgânicos e iam parar no galinheiro, aos patos ou aos coelhos (e não estou falando do século XVII). Não existia o plástico, nem o nylon. A borracha só víamos nas rodas dos autos e, as que não estavam rodando, as queimávamos na Festa de São João. Os poucos descartáveis que não eram comidos pelos animais, serviam de adubo ou se queimava..

Desse tempo venho eu.  E não que tenha sido melhor.... É que não é fácil para uma pobre pessoa, que educaram com "guarde e guarde que alguma vez pode servir para alguma coisa", mudar para o "compre e jogue fora que já vem um novo modelo".

Troca-se de carro a cada 3 anos, no máximo, por que, caso contrário, és um pobretão. Ainda que o carro que tenhas esteja em bom estado... E precisamos viver endividados, eternamente, para pagar o novo!!! Mas... por amor de Deus!

Minha cabeça não resiste tanto. Agora, meus parentes e os filhos de meus amigos não só trocam de celular uma vez por semana, como, além disto, trocam o número, o endereço eletrônico e, até, o endereço real.

E a mim que me prepararam para viver com o mesmo número, a mesma mulher e o mesmo nome (e vá que era um nome para trocar). Me educaram para guardar tudo. Tuuuudo! O que servia e o que não servia. Por que, algum dia, as coisas poderiam voltar a servir.

Acreditávamos em tudo. Sim, já sei, tivemos um grande problema: nunca nos explicaram que coisas poderiam servir e que coisas não. E no afã de guardar (por que éramos de acreditar), guardávamos até o umbigo de nosso primeiro filho, o dente do segundo, os cadernos do jardim de infância e não sei como não guardamos o primeiro cocô.

Como querem que entenda a essa gente que se descarta de seu celular a poucos meses de o comprar? Será que quando as coisas são conseguidas tão facilmente, não se valorizam e se tornam descartáveis com a mesma facilidade com que foram conseguidas?

Em casa tínhamos um móvel com quatro gavetas. A primeira gaveta era para as toalhas de mesa e os panos de prato, a segunda para os talheres e a terceira e a quarta para tudo o que não fosse toalha ou talheres. E guardávamos...

Como guardávamos!! Tuuuudo!!! Guardávamos as tampinhas dos refrescos!! Como, para quê?  Fazíamos limpadores de calçadas, para colocar diante da porta para tirar o barro. Dobradas e enganchadas numa corda, se tornavam cortinas para os bares. Ao fim das aulas, lhes tirávamos a cortiça, as martelávamos e as pregávamos em uma tabuinha para fazer instrumentos para a festa de fim de ano da escola.

Tudo guardávamos! Enquanto o mundo espremia o cérebro para inventar acendedores descartáveis ao término de seu tempo, inventávamos a recarga para acendedores descartáveis. E as Gillette até partidas ao meio se transformavam em apontadores por todo o tempo escolar. E nossas gavetas guardavam as chavezinhas das latas de sardinhas ou de corned-beef, na possibilidade de que alguma lata viesse sem sua chave.

E as pilhas! As pilhas das primeiras Spica passavam do congelador ao telhado da casa. Por que não sabíamos bem se se devia dar calor ou frio para que durassem um pouco mais. Não nos resignávamos que terminasse sua vida útil, não podíamos acreditar que algo vivesse menos que um jasmim. As coisas não eram descartáveis. Eram guardáveis.

Os jornais!!! Serviam para tudo: para servir de forro para as botas de borracha, para por no piso nos dias de chuva e por sobre todas as coisa para enrolar.

Às vezes sabíamos alguma notícia lendo o jornal tirado de um pedaço de carne!!! E guardávamos o papel de alumínio dos chocolates e dos cigarros para fazer guias de enfeites de natal, e as páginas dos almanaques para fazer quadros, e os conta-gotas dos remédios para algum medicamento que não o trouxesse, e os fósforos usados por que podíamos acender uma boca de fogão (Volcán era a marca de um fogão que funcionava com gás de querosene) desde outra que estivesse acesa, e as caixas de sapatos se transformavam nos primeiros álbuns de fotos e os baralhos se reutilizavam, mesmo que faltasse alguma carta, com a inscrição a mão em um valete de espada que dizia "esta é um 4 de bastos".

As gavetas guardavam pedaços esquerdos de prendedores de roupa e o ganchinho de metal. Ao tempo esperavam somente pedaços direitos que esperavam a sua outra metade, para voltar outra vez a ser um prendedor completo.

Eu sei o que nos acontecia: nos custava muito declarar a morte de nossos objetos. Assim como hoje as novas gerações decidem matá-los tão-logo aparentem deixar de ser úteis, aqueles tempos eram de não se declarar nada morto: nem a Walt Disney!!!

E quando nos venderam sorvetes em copinhos, cuja tampa se convertia em base, e nos disseram: Comam o sorvete e depois joguem o copinho fora, nós dizíamos que sim, mas, imagina que a tirávamos fora!!! As colocávamos a viver na estante dos copos e das taças. As latas de ervilhas e de pêssegos se transformavam em vasos e até telefones. As primeiras garrafas de plástico se transformaram em enfeites de duvidosa beleza. As caixas de ovos se converteram em depósitos de aquarelas, as tampas de garrafões em cinzeiros, as primeiras latas de cerveja em porta-lápis e as cortiças esperaram encontrar-se com uma garrafa.

E me mordo para não fazer um paralelo entre os valores que se descartam e os que preservávamos. Ah!!! Não vou fazer!!!

Morro por dizer que hoje não só os eletrodomésticos são descartáveis; também o matrimônio e até a amizade são descartáveis. Mas não cometerei a imprudência de comparar objetos com pessoas.

Me mordo para não falar da identidade que se vai perdendo, da memória coletiva que se vai descartando, do passado efêmero. Não vou fazer.

Não vou misturar os temas, não vou dizer que ao eterno tornaram caduco e ao caduco fizeram eterno.

Não vou dizer que aos velhos se declara a morte apenas começam a falhar em suas funções, que aos cônjuges se trocam por modelos mais novos, que as pessoas a que lhes falta alguma função se discrimina o que se valoriza aos mais bonitos, com brilhos, com brilhantina no cabelo e glamour.

Esta só é uma crônica que fala de fraldas e de celulares. Do contrário, se misturariam as coisas, teria que pensar seriamente em entregar à bruxa, como parte do pagamento de uma senhora com menos quilômetros e alguma função nova. Mas, como sou lento para transitar este mundo da reposição e corro o risco de que a bruxa me ganhe a mão e seja eu o entregue...

*Eduardo Galeano  - Jornalista e escritor uruguaio

Recebido através da amiga Maria Toscano

23.7.11

A [ESTRANHA?] E EXTRAORDINÁRIA ARTE DE LUCIAN FREUD










Obras de Lucian Freud
 
 
Londres - O pintor britânico Lucian Freud, conhecido por seus retratos realistas, morreu nesta quarta-feira em Londres, aos 88 anos, segundo informou nesta quinta-feira seu agente nova-iorquino, William Acquavella.

Acquavella explicou em comunicado que o artista morreu ontem à noite em sua residência londrina após uma doença, sem dar mais detalhes.

O agente descreveu Freud como "um dos grandes pintores do século XX" e disse que "vivia para pintar e pintou até o dia de sua morte, afastado do barulho do mundo da arte".

Freud se tornou no pintor vivo mais cotado quando em 2008 seu trabalho "Benefits Supervisor Sleeping" (1995), no qual aparecia uma mulher obesa recostada em um sofá, foi leiloado por US$ 33,6 milhões na sede nova-iorquina da Christie's.

Após se informar da notícia de sua morte, o diretor do grupo de galerias britânicas Tate, Nicholas Serota, louvou a genialidade do artista.

"A vitalidade da nudez, a intensidade de suas naturezas mortas e a presença de seus retratos garantem a Lucian Freud um lugar único no panteão da arte do século XX tardio", declarou.

Neto do psicanalista Sigmund Freud, Lucian nasceu em Berlim em 1922 e migrou para o Reino Unido acompanhado da sua família em 1933, quando tinha 10 anos, escapando do início do nazismo.

Fonte  do texto: http://exame.abril.com.br/estilo-de-vida/arte/noticias/morre-artista-britanico-lucian-freud-aos-88-anos-3

22.7.11

Móbiles de Sandy Calder









Alexander Calder (Lawton, Pensilvânia, 22 de julho de 1898 - New York, 11 de novembro de 1976), também conhecido por Sandy Calder, foi um escultor e artista plástico estadunidense famoso por desenvolver seus móbiles.

19.7.11

A doença de ser normal

A doença de ser normal



Prof. José Hermógenes de Andrade Filho*

Todo mundo quer se encaixar num padrão. Só que o padrão propagado não é exatamente fácil de alcançar. O sujeito “normal” é magro, alegre, belo, sociável, e bem-sucedido. Bebe socialmente, está de bem com a vida, não pode parecer de forma alguma que está passando por algum problema.

Quem não se “normaliza”, quem não se encaixa nesses padrões, acaba adoecendo. A angústia de não ser o que os outros esperam de nós gera bulimias, depressões, síndromes do pânico e outras manifestações de não enquadramento.

A pergunta a ser feita é: quem espera o quê de nós? Quem são esses ditadores de comportamento a quem estamos outorgando tanto poder sobre nossas vidas? Eles não existem. Nenhum João, Zé ou Ana bate à sua porta exigindo que você seja assim ou assado. Quem nos exige é uma coletividade abstrata que ganha presença através de modelos de comportamento amplamente divulgados. Só que não existe lei que obrigue você a ser do mesmo jeito que todos, seja lá quem for “todos”. Melhor se preocupar em ser você mesmo.

A normose não é brincadeira. Ela estimula a inveja, a auto-depreciação e a ânsia de querer o que não se precisa.

Você precisa de quantos pares de sapato? Comparecer em quantas festas por mês? Pesar quantos quilos até o verão chegar?

Não é necessário fazer curso de nada para aprender a se desapegar de exigências fictícias. Um pouco de auto-estima basta. Pense nas pessoas que você mais admira: não são as que seguem todas as regras instintivamente, e sim, aquelas que desenvolveram personalidade própria e arcaram com os riscos de viver uma vida a seu modo. Criaram o seu “normal” e jogaram fora a fórmula, não patentearam, não passaram adiante. O normal de cada um tem que ser original.

Não adianta querer tomar para si as ilusões e desejos dos outros.

É fraude. E uma vida fraudulenta faz sofrer demais.

Eu simpatizo cada vez mais com aqueles que lutam para remover obstáculos mentais e emocionais, e a viver de forma mais íntegra, simples e sincera. Para mim são os verdadeiros normais, porque não conseguem colocar máscaras ou simular situações. Se parecem sofrer, é porque estão sofrendo. E se estão sorrindo, é porque a alma lhes é iluminada.

Por isso divulgo o alerta: a normose está doutrinando erradamente muitos homens e mulheres que poderiam, se quisessem, ser bem mais autênticos e felizes.

As palavras de Antonio Calado

 
 
 
“O socialismo é uma doutrina triunfante”



Aos 93 anos, Antonio Candido explica a sua concepção de socialismo, fala sobre literatura e revela não se interessar por novas obras.

Joana Tavares, da Redação

Crítico literário, professor, sociólogo, militante. Um adjetivo sozinho não consegue definir a importância de Antonio Candido para o Brasil. Considerado um dos principais intelectuais do país, ele mantém a postura socialista, a cordialidade, a elegância, o senso de humor, o otimismo. Antes de começar nossa entrevista, ele diz que viveu praticamente todo o conturbado século 20. E participou ativamente dele, escrevendo, debatendo, indo a manifestações, ajudando a dar lucidez, clareza e humanidade a toda uma geração de alunos, militantes sociais, leitores e escritores.

Tão bom de prosa como de escrita, ele fala sobre seu método de análise literária, dos livros de que gosta, da sua infância, do começo da sua militância, da televisão, do MST, da sua crença profunda no socialismo como uma doutrina triunfante. “O que se pensa que é a face humana do capitalismo é o que o socialismo arrancou dele”, afirma.


Brasil de Fato Nos seus textos é perceptível a intenção de ser entendido. Apesar de muito erudito, sua escrita é simples. Por que esse esforço de ser sempre claro?
Antonio Candido – Acho que a clareza é um respeito pelo próximo, um respeito pelo leitor. Sempre achei, eu e alguns colegas, que, quando se trata de ciências humanas, apesar de serem chamadas de ciências, são ligadas à nossa humanidade, de maneira que não deve haver jargão científico. Posso dizer o que tenho para dizer nas humanidades com a linguagem comum. Já no estudo das ciências humanas eu preconizava isso. Qualquer atividade que não seja estritamente técnica, acho que a clareza é necessária inclusive para pode divulgar a mensagem, a mensagem deixar de ser um privilégio e se tornar um bem comum.

O seu método de análise da literatura parte da cultura para a realidade social e volta para a cultura e para o texto. Como o senhor explicaria esse método?

Uma coisa que sempre me preocupou muito é que os teóricos da literatura dizem: é preciso fazer isso, mas não fazem. Tenho muita influência marxista – não me considero marxista – mas tenho muita influência marxista na minha formação e também muita influência da chamada escola sociológica francesa, que geralmente era formada por socialistas. Parti do seguinte princípio: quero aproveitar meu conhecimento sociológico para ver como isso poderia contribuir para conhecer o íntimo de uma obra literária. No começo eu era um pouco sectário, politizava um pouco demais minha atividade. Depois entrei em contato com um movimento literário norte-americano, a nova crítica, conhecido como new criticism. E aí foi um ovo de colombo: a obra de arte pode depender do que for, da personalidade do autor, da classe social dele, da situação econômica, do momento histórico, mas quando ela é realizada, ela é ela. Ela tem sua própria individualidade. Então a primeira coisa que é preciso fazer é estudar a própria obra. Isso ficou na minha cabeça. Mas eu também não queria abrir mão, dada a minha formação, do social. Importante então é o seguinte: reconhecer que a obra é autônoma, mas que foi formada por coisas que vieram de fora dela, por influências da sociedade, da ideologia do tempo, do autor. Não é dizer: a sociedade é assim, portanto a obra é assim. O importante é: quais são os elementos da realidade social que se transformaram em estrutura estética. Me dediquei muito a isso, tenho um livro chamado “Literatura e sociedade” que analisa isso. Fiz um esforço grande para respeitar a realidade estética da obra e sua ligação com a realidade. Há certas obras em que não faz sentido pesquisar o vínculo social porque ela é pura estrutura verbal. Há outras em que o social é tão presente – como “O cortiço” [de Aluísio Azevedo] – que é impossível analisar a obra sem a carga social. Depois de mais maduro minha conclusão foi muito óbvia: o crítico tem que proceder conforme a natureza de cada obra que ele analisa. Há obras que pedem um método psicológico, eu uso; outras pedem estudo do vocabulário, a classe social do autor; uso. Talvez eu seja aquilo que os marxistas xingam muito que é ser eclético. Talvez eu seja um pouco eclético, confesso. Isso me permite tratar de um número muito variado de obras.

Teria um tipo de abordagem estética que seria melhor?

Não privilegio. Já privilegiei. Primeiro o social, cheguei a privilegiar mesmo o político. Quando eu era um jovem crítico eu queria que meus artigos demonstrassem que era um socialista escrevendo com posição crítica frente à sociedade. Depois vi que havia poemas, por exemplo, em que não podia fazer isso. Então passei a outra fase em que passei a priorizar a autonomia da obra, os valores estéticos. Depois vi que depende da obra. Mas tenho muito interesse pelo estudo das obras que permitem uma abordagem ao mesmo tempo interna e externa. A minha fórmula é a seguinte: estou interessado em saber como o externo se transformou em interno, como aquilo que é carne de vaca vira croquete. O croquete não é vaca, mas sem a vaca o croquete não existe. Mas o croquete não tem nada a ver com a vaca, só a carne. Mas o externo se transformou em algo que é interno. Aí tenho que estudar o croquete, dizer de onde ele veio.

O que é mais importante ler na literatura brasileira?


Machado de Assis. Ele é um escritor completo.

É o que senhor mais gosta?

Não, mas acho que é o que mais se aproveita.

E de qual o senhor mais gosta?

Gosto muito do Eça de Queiroz, muitos estrangeiros. De brasileiros, gosto muito de Graciliano Ramos... Acho que já li “São Bernardo” umas 20 vezes, com mentira e tudo. Leio o Graciliano muito, sempre. Mas Machado de Assis é um autor extraordinário. Comecei a ler com 9 anos livros de adulto. E ninguém sabia quem era Machado de Assis, só o Brasil e, mesmo assim, nem todo mundo. Mas hoje ele está ficando um autor universal. Ele tinha a prova do grande escritor. Quando se escreve um livro, ele é traduzido, e uma crítica fala que a tradução estragou a obra, é porque não era uma grande obra. Machado de Assis, mesmo mal traduzido, continua grande. A prova de um bom escritor é que mesmo mal traduzido ele é grande. Se dizem: “a tradução matou a obra”, então a obra era boa, mas não era grande.

Como levar a grande literatura para quem não está habituado com a leitura?

É perfeitamente possível, sobretudo Machado de Assis. A Maria Vitória Benevides me contou de uma pesquisa que foi feita na Itália há uns 30 anos. Aqueles magnatas italianos, com uma visão já avançada do capitalismo, decidiram diminuir as horas de trabalho para que os trabalhadores pudessem ter cursos, se dedicar à cultura. Então perguntaram: cursos de que vocês querem? Pensaram que iam pedir cursos técnicos, e eles pediram curso de italiano para poder ler bem os clássicos. “A divina comédia” é um livro com 100 cantos, cada canto com dezenas de estrofes. Na Itália, não sou capaz de repetir direito, mas algo como 200 mil pessoas sabem a primeira parte inteira, 50 mil sabem a segunda, e de 3 a 4 mil pessoas sabem o livro inteiro de cor. Quer dizer, o povo tem direito à literatura e entende a literatura. O doutor Agostinho da Silva, um escritor português anarquista que ficou muito tempo no Brasil, explicava para os operários os diálogos de Platão, e eles adoravam. Tem que saber explicar, usar a linguagem normal.

 O senhor acha que o brasileiro gosta de ler?

Não sei. O Brasil pra mim é um mistério. Tem editora para toda parte, tem livro para todo lado. Vi uma reportagem que dizia que a cidade de Buenos Aires tem mais livrarias que em todo o Brasil. Lê-se muito pouco no Brasil. Parece que o povo que lê mais é o finlandês, que lê 30 volumes por ano. Agora dizem que o livro vai acabar, né?

O senhor acha que vai?

Não sei. Eu não tenho nem computador... as pessoas me perguntam: qual é o seu... como chama?

 E-mail?

Isso! Olha, eu parei no telefone e máquina de escrever. Não entendo dessas coisas... Estou afastado de todas as novidades há cerca de 30 anos. Não me interesso por literatura atual. Sou um velho caturra. Já doei quase toda minha biblioteca, 14 ou 15 mil volumes. O que tem aqui é livro para visita ver. Mas pretendo dar tudo. Não vendo livro, eu dou. Sempre fiz escola pública, inclusive universidade pública, então é o que posso dar para devolver um pouco. Tenho impressão que a literatura brasileira está fraca, mas isso todo velho acha. Meus antigos alunos que me visitam muito dizem que está fraca no Brasil, na Inglaterra, na França, na Rússia, nos Estados Unidos... que a literatura está por baixo hoje em dia. Mas eu não me interesso por novidades.

E o que o senhor lê hoje em dia?

Eu releio. História, um pouco de política... mesmo meus livros de socialismo eu dei tudo. Agora estou querendo reler alguns mestres socialistas, sobretudo Eduard Bernstein, aquele que os comunistas tinham ódio. Ele era marxista, mas dizia que o marxismo tem um defeito, achar que a gente pode chegar no paraíso terrestre. Então ele partiu da ideia do filósofo Immanuel Kant da finalidade sem fim. O socialismo é uma finalidade sem fim. Você tem que agir todos os dias como se fosse possível chegar no paraíso, mas você não chegará. Mas se não fizer essa luta, você cai no inferno.

O senhor é socialista?

Ah, claro, inteiramente. Aliás, eu acho que o socialismo é uma doutrina totalmente triunfante no mundo. E não é paradoxo. O que é o socialismo? É o irmão-gêmeo do capitalismo, nasceram juntos, na revolução industrial. É indescritível o que era a indústria no começo. Os operários ingleses dormiam debaixo da máquina e eram acordados de madrugada com o chicote do contramestre. Isso era a indústria. Aí começou a aparecer o socialismo. Chamo de socialismo todas as tendências que dizem que o homem tem que caminhar para a igualdade e ele é o criador de riquezas e não pode ser explorado. Comunismo, socialismo democrático, anarquismo, solidarismo, cristianismo social, cooperativismo... tudo isso. Esse pessoal começou a lutar, para o operário não ser mais chicoteado, depois para não trabalhar mais que doze horas, depois para não trabalhar mais que dez, oito; para a mulher grávida não ter que trabalhar, para os trabalhadores terem férias, para ter escola para as crianças. Coisas que hoje são banais. Conversando com um antigo aluno meu, que é um rapaz rico, industrial, ele disse: “o senhor não pode negar que o capitalismo tem uma face humana”. O capitalismo não tem face humana nenhuma. O capitalismo é baseado na mais-valia e no exército de reserva, como Marx definiu. É preciso ter sempre miseráveis para tirar o excesso que o capital precisar. E a mais-valia não tem limite. Marx diz na “Ideologia Alemã”: as necessidades humanas são cumulativas e irreversíveis. Quando você anda descalço, você anda descalço. Quando você descobre a sandália, não quer mais andar descalço. Quando descobre o sapato, não quer mais a sandália. Quando descobre a meia, quer sapato com meia e por aí não tem mais fim. E o capitalismo está baseado nisso. O que se pensa que é face humana do capitalismo é o que o socialismo arrancou dele com suor, lágrimas e sangue. Hoje é normal o operário trabalhar oito horas, ter férias... tudo é conquista do socialismo. O socialismo só não deu certo na Rússia.

 Por quê?

Virou capitalismo. A revolução russa serviu para formar o capitalismo. O socialismo deu certo onde não foi ao poder. O socialismo hoje está infiltrado em todo lugar.
 
O socialismo como luta dos trabalhadores?

O socialismo como caminho para a igualdade. Não é a luta, é por causa da luta. O grau de igualdade de hoje foi obtido pelas lutas do socialismo. Portanto ele é uma doutrina triunfante. Os países que passaram pela etapa das revoluções burguesas têm o nível de vida do trabalhador que o socialismo lutou para ter, o que quer. Não vou dizer que países como França e Alemanha são socialistas, mas têm um nível de vida melhor para o trabalhador.

 Para o senhor é possível o socialismo existir triunfando sobre o capitalismo?

Estou pensando mais na técnica de esponja. Se daqui a 50 anos no Brasil não houver diferença maior que dez do maior ao menor salário, se todos tiverem escola... não importa que seja com a monarquia, pode ser o regime com o nome que for, não precisa ser o socialismo! Digo que o socialismo é uma doutrina triunfante porque suas reivindicações estão sendo cada vez mais adotadas. Não tenho cabeça teórica, não sei como resolver essa questão: o socialismo foi extraordinário para pensar a distribuição econômica, mas não foi tão eficiente para efetivamente fazer a produção. O capitalismo foi mais eficiente, porque tem o lucro. Quando se suprime o lucro, a coisa fica mais complicada. É preciso conciliar a ambição econômica – que o homem civilizado tem, assim como tem ambição de sexo, de alimentação, tem ambição de possuir bens materiais – com a igualdade. Quem pode resolver melhor essa equação é o socialismo, disso não tenho a menor dúvida. Acho que o mundo marcha para o socialismo. Não o socialismo acadêmico típico, a gente não sabe o que vai ser... o que é o socialismo? É o máximo de igualdade econômica. Por exemplo, sou um professor aposentado da Universidade de São Paulo e ganho muito bem, ganho provavelmente 50, 100 vezes mais que um trabalhador rural. Isso não pode. No dia em que, no Brasil, o trabalhador de enxada ganhar apenas 10 ou 15 vezes menos que o banqueiro, está bom, é o socialismo.


O que o socialismo conseguiu no mundo de avanços?


O socialismo é o cavalo de Troia dentro do capitalismo. Se você tira os rótulos e vê as realidades, vê como o socialismo humanizou o mundo. Em Cuba eu vi o socialismo mais próximo do socialismo. Cuba é uma coisa formidável, o mais próximo da justiça social. Não a Rússia, a China, o Camboja. No comunismo tem muito fanatismo, enquanto o socialismo democrático é moderado, é humano. E não há verdade final fora da moderação, isso Aristóteles já dizia, a verdade está no meio. Quando eu era militante do PT – deixei de ser militante em 2002, quando o Lula foi eleito– era da ala do Lula, da Articulação, mas só votava nos candidatos da extrema esquerda, para cutucar o centro. É preciso ter esquerda e direita para formar a média. Estou convencido disso: o socialismo é a grande visão do homem, que não foi ainda superada, de tratar o homem realmente como ser humano. Podem dizer: a religião faz isso. Mas faz isso para o que são adeptos dela, o socialismo faz isso para todos. O socialismo funciona como esponja: hoje o capitalismo está embebido de socialismo. No tempo que meu irmão Roberto – que era católico de esquerda – começou a trabalhar, eu era moço, ele era tido como comunista, por dizer que no Brasil tinha miséria. Dizer isso era ser comunista, não estou falando em metáforas. Hoje, a Federação das Indústrias, Paulo Maluf, eles dizem que a miséria é intolerável. O socialismo está andando... não com o nome, mas aquilo que o socialismo quer, a igualdade, está andando. Não aquela igualdade que alguns socialistas e os anarquistas pregavam, igualdade absoluta é impossível. Os homens são muito diferentes, há uma certa justiça em remunerar mais aquele que serve mais à comunidade. Mas a desigualdade tem que ser mínima, não máxima. Sou muito otimista. (pausa). O Brasil é um país pobre, mas há uma certa tendência igualitária no brasileiro – apesar da escravidão - e isso é bom. Tive uma sorte muito grande, fui criado numa cidade pequena, em Minas Gerais, não tinha nem 5 mil habitantes quando eu morava lá. Numa cidade assim, todo mundo é parente. Meu bisavô era proprietário de terras, mas a terra foi sendo dividida entre os filhos... então na minha cidade o barbeiro era meu parente, o chofer de praça era meu parente, até uma prostituta, que foi uma moça deflorada expulsa de casa, era minha prima. Então me acostumei a ser igual a todo mundo. Fui criado com os antigos escravos do meu avô. Quando eu tinha 10 anos de idade, toda pessoa com mais de 40 anos tinha sido escrava. Conheci inclusive uma escrava, tia Vitória, que liderou uma rebelião contra o senhor. Não tenho senso de desigualdade social. Digo sempre, tenho temperamento conservador. Tenho temperamento conservador, atitudes liberais e ideias socialistas. Minha grande sorte foi não ter nascido em família nem importante nem rica, senão ia ser um reacionário. (risos).
 
A Teresina, que inspirou um livro com seu nome, o senhor conheceu depois?

Conheci em Poços de Caldas... essa era uma mulher extraordinária, uma anarquista, maior amiga da minha mãe. Tenho um livrinho sobre ela. Uma mulher formidável. Mas eu me politizei muito tarde, com 23, 24 anos de idade com o Paulo Emílio. Ele dizia: “é melhor ser fascista do que não ter ideologia”. Ele que me levou para a militância. Ele dizia com razão: cada geração tem o seu dever. O nosso dever era político.


E o dever da atual geração?
Ter saudade. Vocês pegaram um rabo de foguete danado.

 No seu livro “Os parceiros do Rio Bonito” o senhor diz que é importante defender a reforma agrária não apenas por motivos econômicos, mas culturalmente. O que o senhor acha disso hoje?

Isso é uma coisa muito bonita do MST. No movimento das Ligas Camponesas não havia essa preocupação cultural, era mais econômica. Acho bonito isso que o MST faz: formar em curso superior quem trabalha na enxada. Essa preocupação cultural do MST já é um avanço extraordinário no caminho do socialismo. É preciso cultura. Não é só o livro, é conhecimento, informação, notícia... Minha tese de doutorado em ciências sociais foi sobre o camponês pobre de São Paulo – aquele que precisa arrendar terra, o parceiro. Em 1948, estava fazendo minha pesquisa num bairro rural de Bofete e tinha um informante muito bom, Nhô Samuel Antônio de Camargos. Ele dizia que tinha mais de 90 anos, mas não sabia quantos. Um dia ele me perguntou: “ô seu Antonio, o imperador vai indo bem? Não é mais aquele de barba branca, né?”. Eu disse pra ele: “não, agora é outro chamado Eurico Gaspar Dutra”. Quer dizer, ele está fora da cultura, para ele o imperador existe. Ele não sabe ler, não sabe escrever, não lê jornal. A humanização moderna depende da comunicação em grande parte. No dia em que o trabalhador tem o rádio em casa ele é outra pessoa. O problema é que os meios modernos de comunicação são muito venenosos. A televisão é uma praga. Eu adoro, hein? Moro sozinho, sozinho, sou viúvo e assisto televisão. Mas é uma praga. A coisa mais pérfida do capitalismo – por causa da necessidade cumulativa irreversível – é a sociedade de consumo. Marx não conheceu, não sei como ele veria. A televisão faz um inculcamento sublimar de dez em dez minutos, na cabeça de todos – na sua, na minha, do Sílvio Santos, do dono do Bradesco, do pobre diabo que não tem o que comer – imagens de whisky, automóvel, casa, roupa, viagem à Europa – cria necessidades. E claro que não dá condições para concretizá-las. A sociedade de consumo está criando necessidades artificiais e está levando os que não têm ao desespero, à droga, miséria... Esse desejo da coisa nova é uma coisa poderosa. O capitalismo descobriu isso graças ao Henry Ford. O Ford tirou o automóvel da granfinagem e fez carro popular, vendia a 500 dólares. Estados Unidos inteiro começou a comprar automóvel, e o Ford foi ficando milionário. De repente o carro não vendia mais. Ele ficou desesperado, chamou os economistas, que estudaram e disseram: “mas é claro que não vende, o carro não acaba”. O produto industrial não pode ser eterno. O produto artesanal é feito para durar, mas o industrial não, ele tem que ser feito para acabar, essa é coisa mais diabólica do capitalismo. E o Ford entendeu isso, passou a mudar o modelo do carro a cada ano. Em um regime que fosse mais socialista seria preciso encontrar uma maneira de não falir as empresas, mas tornar os produtos duráveis, acabar com essa loucura da renovação. Hoje um automóvel é feito para acabar, a moda é feita para mudar. Essa ideia tem como miragem o lucro infinito. Enquanto a verdadeira miragem não é a do lucro infinito, é do bem-estar infinito
 
 
Sobre Antonio Candido


Antonio Candido de Mello e Souza nasceu no Rio de Janeiro em 24 de julho de 1918, concluiu seus estudos secundários em Poços de Caldas (MG) e ingressou na recém-fundada Universidade de São Paulo em 1937, no curso de Ciências Sociais. Com os amigos Paulo Emílio Salles Gomes, Décio de Almeida Prado e outros fundou a revista Clima. Com Gilda de Mello e Souza, colega de revista e do intenso ambiente de debates sobre a cultura, foi casado por 60 anos. Defendeu sua tese de doutorado, publicada depois como o livro “Os Parceiros do Rio Bonito”, em 1954. De 1958 a 1960 foi professor de literatura na Faculdade de Filosofia de Assis. Em 1961, passou a dar aulas de teoria literária e literatura comparada na USP, onde foi professor e orientou trabalhos até se aposentar, em 1992. Na década de 1940, militou no Partido Socialista Brasileiro, fazendo oposição à ditadura Vargas. Em 1980, foi um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores. Colaborou nos jornais Folha da Manhã e Diário de São Paulo, resenhando obras literárias. É autor de inúmeros livros, atualmente reeditados pela editora Ouro sobre Azul, coordenada por sua filha, Ana Luisa Escorel.

Publicado originalmente na edição 435 do Brasil de Fato.

7.7.11

Colômbia : escravidão

 
 
 
Colômbia :  As crianças escravas de Cartagena

 
 
Libardo Muñoz

Jornalista colombiano - PacoCol
Tradução: ADITAL
Essas crianças de Cartagena são vítimas da injustiça social de uma cidade governada pelos interesses classistas dos poderosos da privatização neoliberal, que já fez o Estado desaparecer. Estão privatizados a água, a energia elétrica, o gás, a iluminação pública, a saúde, a telefonia, os portos marítimos, o aeroporto, as estradas e grande parte da educação, de tal maneira que os prédios do Governo e da Prefeitura, hoje transformados em ninhos de burocratas de origem provinciana, onde se conversa coisas inúteis, logo serão hoteis para multimilionários.

As figuras do governador e do prefeito somente estão para receber comissões e adjudicar contratos de construção de mega apartamentos, de acordo com o Plano de Ordenamento Territorial (POT), dando as melhores terras aos especuladores e jogando os pobres cada vez mais para a periferia, para invadir os pântanos.

O ponto central de exploração silenciosa da infância trabalhadora de Cartagena é o Mercado de Bazurto, sob o calor e o sol escaldantes, para onde vão em busca de qualquer ofício para obter uma moedas: carregar sacos mais pesados que seus corpos; empurrar carretas cheias de bananas; carregar bolsas de compras até o táxi... A maioria são meninos amáveis.

Pode-se afirmar que o mercado de Cartagena, com sua pestilência e seu ruído intermináveis, retratam um sistema imposto sobre toda legislação que proíbe a exploração infantil.

As demais crianças trabalhadoras de Cartagena se espalha pelos semáforos e nos cruzamentos mais perigosos para vender água e pendurar-se nos estribos dos ônibus, maltrapilhos.

Outras crianças trabalhadoras de Cartagena cantam canções de letras destinadas a comover o coração dos passageiros, para em seguida, recolher uma colaboração que quase sempre é generosa; é uma mendicidade patética, maquiada, praticada por uma infância que não freqüenta a escola.

Calcula-se que pouco mais de 4 mil crianças estão espalhadas pela cidade capital de Bolívar, que tem o mais elevado índice populacional vinda do campo, de camponeses que fogem dos paramilitares e dos latifundiários do dendê, que estão apoderando-se das melhores terras dos Montes de María.

Vemos crianças trabalhadoras nos carros de mula, de ajudantes de seus pais, fazendo mudanças, levando areia, lixo ou envolvidos na reciclagem.

A infância trabalhadora de Cartagena passa despercebida ante os olhos dos transeuntes; o meio os assimilou como parte de uma paisagem urbana submersa na desordem e no "nada me importa”, no rebusque generalizado imposto pelas leis do mercado neoliberal.

As emissoras a todo volume fazem seu ofício com locutores que vociferam bobagens e palavras que não levam a nada. Os governantes locais são eleitos, chegam, passam e se vão de uma Cartagena paradisíaca na qual nem eles mesmos acreditam.

A Colômbia figura em uma lista que nos envergonha, juntamente com a Romênia, Rússia, Brasil, Nigéria, Equador, Serra Leoa, Bulgária e Ucrânia, onde as crianças, em uma quantidade de 8.500.000, estão submetidos a trabalhos forçados, muito similares à escravidão.
 
Fonte: Pátria Latina

5.7.11

ainda Edward Hopper



Edward Hopper
(Artista moderno)

1882-1967



Nascido em uma pequena cidade de classe média banhada pelo rio Hudson, Hopper é tido como o maior pintor da vida moderna americana. Embora gostasse de pintura desde muito jovem, estudou desenho publicitário e trabalhou para publicações comerciais até os 42 anos, quando se sentiu seguro o suficiente para dedicar-se à arte em tempo integral. Nessa época chegara a um estilo bastante peculiar, ao mesmo tempo realista e simbólico. O artista, porém, modificaria pouco este estilo ao longo de sua carreira.
Viveu e produziu durante o apogeu do abstracionismo, sem nunca abandonar a tradição da pintura figurativa realista. Embora sua ascensão tenha sido lenta, a América o cobriu de honras. Hopper, porém, seria sempre um homem reservado, de hábitos simples, dedicado às viagens e à sua arte.

Edward Hopper era um garoto solitário, dedicado aos livros e um tanto isolado das outras crianças, talvez devido à sua altura desproporcional: subitamente atingiu 1,80 m aos 12 anos. Seu corpo tornou-se adulto antes de seu espírito. Nascera em 22 de julho de 1882, em Nyack, perto de Nova York. A casa dos Hopper era voltada para o rio Hudson, e Eddie, como então o chamavam, desde cedo gostou de barcos e construiu um para si aos 15 anos.

Encorajado pela mãe, logo começou a demonstrar seu talento para o desenho. Aos 17 anos, ingressou na Escola de Ilustração por Correspondência de Nova York; no ano seguinte, transferiu-se para a Escola de Arte de Nova York, inicialmente estudando ilustração publicitária e depois pintura. O professor que mais o inspirou foi Robert Henri, estimulando nele o gosto pelos temas do cotidiano da vida urbana nos Estados Unidos, assim como o respeito pelos grandes mestres retratistas do passado: Velázquez, Goya, Daumier, Manet e Degas.

Em 1906/7, com o dinheiro de trabalhos como ilustrador numa agência publicitária e com mais alguma ajuda dos pais, Hopper pôde realizar o sonho de conhecer a capital artística do mundo: Paris. Passou alguns meses ali, levando uma vida bastante regrada, longe das reuniões boêmias que sempre caracterizaram o cotidiano dos turistas nessa cidade. E que seus pais haviam tomado providências, por intermédio da Igreja Batista, para que ele fosse hóspede de uma "recomendável família burguesa". Tampouco parece ter-se interessado pelos artistas ou pelas obras de vanguarda. Em vez disso, encantou-se com o Impressionismo, desenvolvendo o interesse pelos efeitos de luz que o acompanharia ao longo de toda sua carreira. Hopper visitaria Paris novamente em 1909 e 1910. Depois disso, nunca mais retornaria à Europa.


Elizabeth Hopper

O SUCESSO CHEGA LENTAMENTE

De volta à América em 1907, Hopper começou a expor regularmente em Nova York, não na conservadora Academia Nacional de Desenho, que rejeitara seu trabalho, mas em peque-nas mostras antiacadêmicas organizadas por Robert Henri e por ex-alunos no Clube MacDowell. Só que nenhum crítico ou colecionador demonstrou interesse mais substancial por ele. Is-so significava que viver da pintura estava absolutamente fora de questão. Mas Hopper possuía aquela firmeza de propósitos que em geral caracteriza os tipos calados e nunca abandonou sua arte, até que, em 1924, conseguiu se tornar pin-tor em tempo integral: contava então 42 anos.

Até essa data, ele se sustentara com o desenho comercial e com trabalhos rotineiros de ilustração, dedicando três dias da semana a agências de publicidade e a periódicos como The Farmer's Wife, The Country Gentleman e System the Magazine of Business. Quando necessário, completava sua renda lecionando arte para crianças em sua cidade, Nyack, o que detestava.

Em 1913, conseguiu vender um quadro por 250 dólares na famosa Mostra Armory, e, em 1918, recebeu um prêmio de 300 dólares da Ma-rinha Mercante por um cartaz publicitário intitulado Destrua o Huno. Mas isso era tudo.
Neste mesmo ano, em 1913, Hopper alugou o estúdio de Washington Square North, 3, em Nova York, que ocuparia pelo resto de sua vida, alugando espaços adicionais para moradia e trabalho na medida de suas possibilidades. Nunca, porém, iria alterar o aspecto despojado e espartano do local.
O hábito da frugalidade, incutido pela educação e aprofundado pela escassez dos primeiros anos de carreira, parece nunca tê-lo abandonado, mesmo depois de se tornar um homem rico: comia nos bares e restaurantes mais pobres, vestia suas roupas até que estivessem gastas e comprava carros de segunda mão, que utilizava até se desintegrarem. Não era sovina: apenas não se importava com dinheiro.
Hopper fez sua primeira exposição individual em 1920, apresentando dezesseis óleos pintados em Paris e durante viagens de verão à rochosa e árida Monhegal Island, no Maine. Nem um único trabalho sequer foi vendido, mas o local era auspicioso — o Clube Whitney Studio. Fundado por Gertrude Vanderbilt Whitney, esse clube seria o precursor do famoso Museu Whitney de Arte Americana. No mesmo ano de sua inauguração, 1931, esse museu adquiriu Manhã de Domingo para seu acervo. Hopper ficaria estreitamente associado ao Whitney por toda sua vida.

POR UM CAMINHO INESPERADO

Em 1923, abandonou temporariamente o óleo para fazer experiências com aquarela. Embora os temas fossem os mesmos, a mudança de técnica coincidiu com a chegada da fama. No final desse ano o Museu do Brooklyn iria aceitar seis paisagens para uma exposição; foram favoravelmente recebidas pelos críticos, e o museu comprou uma delas por 100 dólares. Em 1924, após uma exposição de aquarelas ainda mais bem-sucedida (na Galeria Frank K. M. Rehn, cujo proprietário se tornaria seu marchand), Hopper enfim sentiu-se seguro o bastante para se dedicar exclusivamente à pintura.

Em 9 de julho de 1924, casou-se com Josephine (Jo) Verstille Nivison. Os dois haviam sido alunos de Robert Henri e encontraram-se casualmente em visitas ao Maine e Massachusetts. Jo pretendia ser atriz antes de se voltar para a pintura, e era tão loquaz quanto Hopper era taciturno. Uma mulher pequena, de caráter forte, que detestava afazeres domésticos e adorava gatos. Jo também era possessiva — e, claro, ciumenta —, sempre insistindo para que Hopper abandonasse os desenhos de modelos nus, a não ser que fosse ela quem posasse. Como resultado, muitas das mulheres de seus quadros e todos os seus nus são retratos de Jo.

Em meados da década de 20, Hopper forjou seu estilo pessoal, necessariamente associado a seu nome, e sua obra iria sofrer poucas modificações desde aquele momento. Foi quando fugiu do academismo para ocupar-se simplesmente do homem urbano e do cenário despojado de seu cotidiano, desnudando-os pela luz.

Sua crescente reputação já se refletia nas mostras cada vez mais prestigiadas que lhe dedicavam: uma exposição individual na Galeria Frank K. M. Rehn, cm 1929, retrospectivas no Museu de Arte Moderna, em 1933, no Museu Whitney, em 1950, e uma grande retrospectiva, também no Museu Whitney, em 1964, que iria depois para outros grandes salões

Hopper acumulou, também, prêmios e honras: em 1932, a Academia Nacional de Desenho elegeu-o sócio, o que o artista prazerosamente recusou, já que a Academia o rejeitara em seus anos de luta e obscuridade. Em 1935, a Academia de Belas Artes da Pensilvânia ofereceu-lhe a Medalha de Ouro. Era a primeira de uma série de homenagens que lhe seriam outorgadas por academias e museus americanos. Em 1952, foi um dos quatro artistas escolhidos para representar os EUA na Bienal de Veneza.

Em 1934, Hopper estava em condições de construir uma casa-estúdio, longe de tudo, em South Truro, Cape Cod, onde ele e Jo passariam uma parte de quase todos os seus verões. O sucesso também lhe permitiu outra coisa de que gostava muito: viajar.

Não é por acaso que tantos quadros de Hopper retratam hotéis, motéis, bares e a vida rodoviária — em 1941, ele e a esposa fizeram uma grande viagem de automóvel durante três meses, cruzando o país até a Costa Oeste. Em 1943, a escassez do petróleo os impediu de viajar de carro e, então, partiram de trem para o México. Esta seria a primeira de uma série de temporadas "mexicanas".

Os prazeres da vida nunca foram extravagantes em Hopper: gostava de teatro, de cinema e de livros. Tinha uma bagagem literária excepcional, que não se restringia à literatura inglesa: era capaz de citar fluentemente Goethe e os poetas simbolistas franceses no original.

CULTO AO " SELF-MADE MAN "

Apesar de seu gosto literário um tanto sofisticado, Hopper cultivava a imagem pública da self-made man de pés no chão, que atribuía pouca importância às idéias fantasiosas. Ao ser entrevistado, ele se recusava a identificar conteúdos intelectuais ou pessoais em seus quadros, afirmando que apenas trabalhava conforme a tradição realista americana, pintando nada além ou aquém do que via à sua volta.

Hopper sentia-se integralmente comprometido com a arte figurativa realista e assistiu com desalento à ascensão da pintura expressionista abstrata nas décadas de 50 e 60. Era membro do grupo de pintores realistas que, em 1953, lançou o jornal Reality como porta-voz de suas opiniões, participando por algum tempo de seu conselho editorial. Em 1960, ele e seus colegas do Reality protestaram, junto ao Museu Whitney e ao Museu de Arte Moderna, contra as "engrimançadas influências" da arte abstrata em seus acervos.

Curiosamente, os pintores abstratos não expressavam nada além de admiração por Hopper, em cuja obra viam um interesse pela forma pura e pelo jogo entre o espaço e o plano que antecipava suas próprias experiências.
Nas palavras de um amigo, ele transmitia "um senso de presença geológica que redefinia a inércia". Era vagaroso e lacônico em seu trabalho, completando apenas dois ou três óleos por ano, e mantinha-se mais reservado ainda em seu comportamento social. Achava que uma conversa era mera tagarelice e que não valia o esforço físico necessário para produzi-la. A idéia de preencher momentos constrangedores com conversas fúteis parecia-lhe tão absurda quanto preencher com decorações os espaços vazios das paredes em suas obras.

DEFESA DA PRIVACIDADE

Baseados na atmosfera solitária que permeia tantos quadros de Hopper, os críticos inferiram que o próprio artista fosse um solitário. Certamente ele passava boa parte de seu tempo sozinho, fosse pintando, lendo ou mergulhado em seus pensamentos, mas era por opção. Prezava a solidão e em geral não procurava companhias, exceto a de sua mulher. "O próprio ar sisudo e desconfiado que seus olhos revelam nas fotos faz-nos sentir intrusos em sua privacidade tão zelosamente cultivada. De certa forma, esse olhar também nos faz sentir constrangedoramente pequenos: o isolamento de Hopper em relação ao mundo baseava-se num pessimismo profundo", comentou um amigo do artista. "Ele encara seu semelhante como uma construção frágil e normalmente trivial. Não se tratava de presunção, era uma constatação inevitável."

O qualificativo que invariavelmente emerge nas recordações dos que conheceram Hopper é o de "puritano". De fato, ele vinha de um meio protestante anglo-saxão: seus pais eram de origem holandesa e inglesa, ambos batistas devotos. Os amigos comentam que ele sempre passava a impressão de sentimentos fortes mantidos rigorosamente sob controle, e de desprezo a qualquer tipo de sentimentalismo.

Em 1965, Hopper pintou seu último quadro, Dois Comediantes, retratando um casal que lembra ele mesmo e Jo, fazendo a última reverência antes de deixar o palco. Morreu em seu estúdio na Washington Square North, 3, em 15 de maio de 1967, aos 84 anos. Jo morreu no ano seguinte, legando todo o acervo artístico, que incluía mais de 2 000 obras, entre óleos, aquarelas, desenhos e gravuras de Hopper, ao Museu Whitney de Arte Americana.
No início de 1967, Hopper fora convidado para encabeçar a IX Bienal de São Paulo. Ele perguntou se sua participação era mesmo importante. Era. Mas, infelizmente, acabou se transformando em homenagem póstuma.

Fonte: NETSaber

Edward Hopper


Os detalhes de: 

Edward Hopper  (1882-1967)











Edward Hopper (Nyack, 22 de julho de 1882 — 15 de maio de 1967) foi um pintor norte-americano mais lembrado por suas misteriosas representações realistas da solidão na contemporaneidade. Em ambos os cenários urbanos e rurais, as suas representações de reposição fielmente recriadas reflecte a sua visão pessoal da vida moderna americana.


Fontes:
http://www.artchive.com/artchive/H/hopper.html
http://www.ibiblio.org/wm/paint/auth/hopper/
http://pt.wikipedia.org/wiki/Edward_Hopper

A Era Foucault



Meu Foucault


O filósofo italiano Antonio Negri explica como interpretou a obra 
do pensador francês e defende que o século 21 será foucaultiano

Antonio Negri

Em sua última edição do ano de 1978, a revista Aut Aut – a primeira na península a ter se interessado por Michel Foucault – publicou um artigo que eu, na realidade, havia escrito um ano antes, cujo título era “Sobre o Método da Crítica da Política”.

Era um texto em que eu avaliava a influência que os trabalhos de Foucault tinham tido até então – a última leitura foucaultiana até aquela data tinha sido a de Vigiar e Punir, traduzida na Itália em 1976 – sobre o pensamento da esquerda revolucionária italiana na qual eu militava naqueles anos.

Nessa época eu tinha começado a me debruçar sobre Marx, e em particular sobre os Grundrisse: entre 1977 e 1978, de fato, a convite de Althusser, eu tinha dado um curso sobre “Marx para Além de Marx”, na Escola Normal Superior [em Paris]. Se recordo esses elementos, é porque é importante chamar atenção para a coincidência entre minha leitura de Foucault e um período de meu trabalho em que procuro retomar e resumir uma longa experiência de “revisão” da leitura dos textos marxistas.

Essa revisão não é de maneira alguma uma recusa de Marx, como é frequentemente o caso no final dos anos 1970. Pelo contrário, ela se coloca sob o signo de uma adesão plena aos conceitos fundamentais da economia política, dentro de uma militância revolucionária.

Aliança com a direita

Por que, então, eu me interessei por Foucault? Porque, naqueles mesmos anos, o Partido Comunista Italiano (PCI) e os sindicatos, com os quais os “movimentos” de contestação social e política viviam um conflito intenso, estavam no processo de programar uma aliança com as forças da direita no terreno social e parlamentar – aquilo a que se deu o nome de “compromisso histórico”.

O PCI insistia na hipótese de que os proletários poderiam, daquele momento em diante, conquistar o poder soberano e que as forças da esquerda não poderiam desprezar essa série de compromissos difíceis, mas necessários. Em suma: a política era autônoma e indiferente aos valores: apenas a força contava.

Para o PCI, como eu gostaria de mostrar aqui, o culto da soberania e a “razão de Estado” andavam de mãos dadas. Como se poderia fazer para desmistificar essa ideia tão bizarra, para os comunistas, de que o poder e a soberania correspondiam a lugares autônomos, que representavam instrumentos indiferentes – em suma, que compunham um verdadeiro plano transcendental? E que a luta não poderia emergir senão a partir desse transcendental?

Nós, ao contrário, pensávamos que a materialidade do poder e da construção política era extremamente bem determinada, marcada pelas políticas neoliberais, e que essa condição era tudo menos indiferente.

Para resistir, era preciso, portanto, recusar: era preciso denunciar essa suposta indiferença do poder e afirmar um ponto de vista crítico e materialmente determinado. Era preciso negar a indiferença, porque cada um de nós representava uma diferença – determinada, real, politicamente definida e incapaz de disfarçar-se de outra coisa senão ela mesma.

Com Foucault, podíamos dizer: “O ser humano não se caracteriza por certa relação com a verdade, mas ele a possui, como que pertencente a ele por direito próprio, ao mesmo tempo oferecida e oculta, uma verdade”.

Isso não era o bastante para transformar a recusa de um desastre político anunciado – o desastre das políticas da esquerda italiana – na construção de um novo horizonte de lutas. Era preciso reorganizar nossa análise e repensar nossa própria organização. Era necessário dar àquele momento de consciência uma potência de expansão e dotá-lo de um fundamento teórico inédito. E Foucault podia nos fornecer uma ajuda preciosa.

Desde o começo nos pareceu que Foucault se situava no interior de uma tradição “ontológica” do pensamento francês que não havia cedido às seduções de uma filosofia da vida e da ação.

Meu artigo ressaltava, de um lado, a força da relação que se percebia entre ontologia e antropologia e, de outro, o fato de que a construção do objeto histórico sempre era extremamente realista – porque o objeto histórico nunca era subtraído de qualquer coisa que se teria dado fora do imediatismo da experiência.

Horizonte de lutas

Ao libertar-se do “esquematismo da Razão” kantiana ou da intencionalidade de Husserl, Foucault construía no interior de um horizonte concreto que era feito de lutas e estratégias.

Acontece que, para mim, na época, “o horizonte da estratégia, do conjunto das estratégias, corresponde ao entrecruzamento entre a vontade de conhecer e os dados concretos, entre a ruptura e o limite da ruptura. Toda estratégia é uma luta, toda síntese é um limite. Aqui há mais dialética do que na Dialética, há mais astúcia do que na Razão e há mais concretude do que na Ideia. O Poder é finalmente levado à rede dos atos que o constituem”.

E ainda:

“A realidade se apresenta, a todo instante, como cindida; a heteronomia dos fins pode ser afirmada, e aquilo que temos sob nossos olhos deve abandonar qualquer característica de unidimensionalidade. Porque o que muda é um ponto de vista sobre as coisas que modifica a pesquisa e confere a ela um frescor novo (…). As lutas são aquilo que reveste necessidades e pontos de vista, projeções e vontade, desejos e expectativas. A síntese não é delegada a nada nem a ninguém. A ciência se liberta daquilo que a comandava e se oferece à ação, à contingência concreta e à determinação prática.”

O que se passa, então, em torno dessa decisão? Alguma coisa que é ao mesmo tempo elementar e de uma dificuldade enorme. É preciso reconquistar a totalidade para negá-la, mas fazê-lo porque o poder não consegue compreender nele próprio a vida, o ponto de vista das singularidades, o dispositivo que o desejo organiza.

No final dos anos 1950, eu tinha trabalhado muito sobre o historicismo alemão e foi Dilthey quem chamou minha atenção em especial. Havia ali “épocas” nas quais o saber se organizava de maneira unitária, mas que sempre terminavam por ser rompidas, épocas na descontinuidade (…).

Leitura modificada

Foi onde o bloqueio aparentava ser mais forte, nas análises de Vigiar e Punir, que tudo acabou por se abrir. Os termos utilizados por Foucault para nomear a nova economia do poder – uma economia que caracterizávamos precisamente como “pan-óptico”, que se confundia a partir de então com a exploração da vida e com a exploração da força física dos indivíduos, com a gestão de seus corpos e o controle de suas necessidades, em suma: com a normalização daquilo que os homens são e fazem – iriam rapidamente se desdobrar.

Nossa leitura, assim, se veria totalmente modificada e relançada: era preciso pensar ao mesmo tempo nos biopoderes e na biopolítica. E, em lugar de pensar as duas noções como equivalentes e indistintas, considerá-las como diferentes. Foi por meio dessa imposição da diferença biopoderes/biopolítica que eu, na realidade, “ingeri” Foucault em minhas próprias análises.

O problema era o seguinte. Enquanto se mantinha a indistinção entre o biopoder e a biopolítica, a resistência à captação da vida e a sua gestão normativa não parecia ser possível: porque mais nenhuma exterioridade era garantida e porque nenhum contrapoder poderia ser, na melhor das hipóteses, senão a reprodução simétrica e inversa daquilo de que, justamente, procurávamos nos libertar.

É a partir disso que as leituras “liberais” de Foucault se sentiram “autorizadas” – ou seja, que elas desenvolveram a gestão normativa de um ser vivo organizado em populações, uma classificação dos indivíduos no interior de macrossistemas dessubjetivantes e homogêneos, um verdadeiro cálculo atuarial da vida (…).

Tudo isso é suficiente? Podemos falar de verdade sem falar também, imediatamente, de práxis, de resistência? Em 1977, minha resposta foi a seguinte: “(…) isso não basta. E isso tampouco bastava para Foucault, ao que parece. Em seu ‘Prefácio’ ao livro de B. Jackson, ele propõe, concretamente, uma leitura do mundo como espaço de circulação do comando, da exclusão e da violência e propõe uma imagem muito crítica do capital como prisão”.

“E, ao mesmo tempo, ele se surpreende e entusiasma com a realidade formidável da revolta, com a independência, a comunicação e a autovalorização que nascem no interior das próprias prisões. A ideia e a realidade do poder, da lei, da ordem, que atravessam as prisões e interligam as experiências mais terríveis nos relatos que os detentos fazem delas, começam aqui a vacilar; os acontecimentos, em seu caráter serial e regular, abrem-se para novas condições de possibilidade.”

“Não existe nisso nada de dialético: a dialética, em seu falso rigor, aprisiona a imaginação da possibilidade. A lógica analítica da separação, precisamente porque se concluiu, abre para uma estratégia da separação. A separação e a derrubada só se tornam reais na estratégia. O mundo da autovalorização passa a opor-se ao mundo da valorização do capital. A possibilidade se transforma aqui em potência. Essa ideia spinosiana da possibilidade entendida como potência força demais o pensamento de Foucault? Talvez. (…)”

“Essa ‘mobilidade’ metodológica que tanto nos seduz, que é tão adaptada à qualidade do trabalho intelectual que o capital determina hoje, e que é interna às modalidades e às finalidades revolucionárias atuais, apresenta um problema: pode ela basear-se em si mesma, ou ela precisa necessariamente se encarnar na determinação concreta do processo histórico, da força contra o poder, do proletário contra o capital?”

“Existe aqui a abertura de um contexto problemático ao qual apenas o movimento real das coisas pode trazer uma resposta. E o movimento real deve agradecer a Foucault por ter ao menos formulado esse conjunto de questões.”

Soberania

No final de 1983, cheguei à França após um longo período de encarceramento na Itália. E foi mais ou menos no momento da morte de Foucault que retomei o contato com Gilles Deleuze, com o qual conversei muito longamente sobre ele. Era preciso conseguir passar por cima das resistências que alguns dos amigos e colaboradores de Deleuze tinham com relação a Foucault.

Quanto a nós, que procurávamos entender o quadro do conjunto dessa formidável superação da tradição filosófica francesa que se dava no próprio interior de suas linhas, teríamos que aguardar a publicação, anos mais tarde, dos cursos de Foucault no Collège de France.

Apesar de tudo, já tínhamos compreendido na época que, se o século 20 tinha se tornado deleuziano, o século 21 sem dúvida seria foucaultiano. Algumas pessoas, contudo, fizeram muitos esforços para tentar barrar o caminho à conversão definitiva das análises foucaultianas – a produção da subjetividade – mais além dos biopoderes, por meio da biopolítica.

Eu me recordo, no início dos anos 1990, em um seminário que eu estava fazendo no Collège International de Philosophie, de um embate muito duro entre François Ewald e Pierre Macherey.

A polêmica girava em torno do individualismo, das diferentes determinações da liberdade e do senso de estética em Foucault, mas ambos não enxergavam que, na realidade, é a singularidade que Foucault opunha ao individualismo; que era preciso procurar na ética uma liberdade que não era apenas a liberdade do espírito, mas a dos corpos; e que sua ontologia era produtiva.

Eles não compreendiam realmente que a soberania em cujo interior os biopoderes (sejam liberais ou socialistas) têm suas raízes não é a única trama sobre a qual a ontologia pode ser construída ou medida. Porque, em Foucault, a soberania era, pelo contrário, incluída, ou seja, analisada e desconstruída no interior da biopolítica com base na relação entre as diferentes produções da subjetividade.

Sujeitos livres

Eis então o que Foucault escreveu:

“Quando definimos o exercício do poder como um modo de ação sobre a ação dos outros, quando o caracterizamos pelo ‘governo’ dos homens uns pelos outros – no sentido mais extenso dessa palavra –, incluímos nele um elemento importante: o da liberdade. O poder não se exerce senão sobre ‘sujeitos livres’, e, na medida em que são ‘livres’ – entendamos por isso sujeitos individuais ou coletivos que têm diante de si um campo de possibilidade ou diversas condutas –, diversas reações e diversos modos de comportamento podem ocorrer.”

“Onde as determinações são saturadas, não há relação de poder: a escravidão não é uma relação de poder quando o homem está acorrentado (trata-se então de uma relação física de coação), mas justamente quando ele pode se deslocar e, no limite, escapar. Não há, portanto, um enfrentamento entre o poder e a liberdade, tendo entre eles uma relação de exclusão (…). A relação de poder e a insubmissão da liberdade não podem, portanto, ser separadas. O problema central do poder não é o da ‘servidão voluntária’ (como poderíamos desejar ser escravos?): no cerne da relação de poder, ‘provocando-a’ sem parar, está a renitência do querer e a intransitividade da liberdade”.

Esse texto é de 1980. A partir daí, tudo que Foucault iria desenvolver se situaria dentro dessa perspectiva. Tratar-se-á de fato, creio, de aprofundar sem parar o caráter materialista da análise das determinações históricas, do conteúdo da episteme na passagem da “arqueologia” para a “genealogia”, mas também de aprofundar essa ideia da potência da “produção de subjetividade” – desde a resistência até as rebeliões, ou à expressão e à crítica da democracia política.

Este texto é parte de artigo publicado no Cahiers de L’Herne (Foucault). Copyright 
Éditions de L´Herne, 2011

Antonio Negri é um filósofo político italiano, tradutor de Hegel e especialista em Descartes, Kant, Espinosa, Leopardi, Marx e Dilthey. Em 1979, foi preso sob alegações de envolvimento com a organização terrorista comunista Brigadas Vermelhas, responsável pelo homicídio do líder da Democracia Cristã Italiana, Aldo Moro. Após cumprir quatro anos e meio em prisão preventiva e provar sua inocência na maioria das acusações, exilou-se na França, voltando voluntariamente à Itália em 1997 para cumprir mais seis anos e meio de detenção. Autor de diversos livros, Negri ganhou notoriedade com as obras Império e Multidão, lançadas no Brasil pela editora Record e escritas em coautoria com o norte-americano Michael Hardt, seu ex-aluno.

bê-á-bá de foucault

CORPO

Foucault é particularmente 
preocupado com as relações entre corpo e poder político. Descreve vários modos de treinar o corpo para torná-lo socialmente produtivo

CULTURA

Segundo A Hermenêutica do Sujeito, a cultura descreve uma “organização hierárquica de valores, acessível a todos, mas que, ao mesmo tempo, é a oportunidade para se manifestar um mecanismo de seleção e exclusão”

DESCONTINUIDADE

Princípio que, assim como os de ruptura e diferença, mina as noções filosóficas da essência imutável da história, como “homem” e “natureza humana”. A descontinuidade desafia as noções de causa, efeito, progresso, destino e influência na história

DISPOSITIVO

O termo costuma ser usado para designar as estruturas do conhecimento e os vários mecanismos institucionais, físicos e administrativos que propiciam e mantêm o exercício do poder dentro do corpo social

EPISTEMA

Apresentado em A Ordem das Coisas, refere-se às estruturas “inconscientes” que sublinham a produção do conhecimento científico em certo espaço e tempo. É um “campo epistemológico” que forma as condições de possibilidade para o conhecimento

HETEROTOPIA

Em oposição a utopia – espaço do virtual, do não real –, heterotopia significa um espaço apartado das instituições social e institucional cotidianas, como manicômios, prisões e cemitérios

NORMAL E PATOLÓGICO

A sociedade é baseada em noções médicas de norma, e não em noções legais de conformidade aos códigos e à lei – por isso, diz, os criminosos precisam ser “curados”. Há tensão insolúvel entre um sistema baseado 
na lei e outro em normas médicas

LIBERDADE

Em contraposição ao conceito existencialista de liberdade abstrata e de um sujeito “livre”, Foucault defende que a liberdade é uma prática, e não um objetivo a ser alcançado. O conhecimento, diz, começa com regras e restrições, e não com a liberdade

PAN-ÓPTICO

Conceito do filósofo Jeremy Bentham do fim do século 18, agrupava celas em torno de uma torre de observação central e foi usado como modelo para instituições como prisões. Para Foucault, é a metáfora do poder e da vigilância na sociedade

RAZÃO

Focault critica a ideia de que razão seja o mesmo que verdade e de que ofereceria a solução para os problemas sociais, pois, para ele, todos os sistemas de controle são racionais. Por outro lado, adverte sobre o perigo de considerar a razão como inimiga

VERDADE

Para Foucault, a verdade é algo que “acontece” e é produzido por várias técnicas, e não algo que existe previamente, aguardando para ser descoberto. Ele não quer “contar a verdade”, mas estimular as pessoas a terem elas mesmas uma experiência particular

SEXUALIDADE

Para o filósofo, o final do século 17 marcou o início de um regime repressivo de censura em relação à sexualidade. Já o século 19 viu grande proliferação de conhecimento e o desenvolvimento de múltiplos mecanismos de controle da sexualidade



Slavoj Žižek - Entrevista

O polêmico filósofo Slavoj Žižek



Programa Roda Viva - TV Educativa

Dossiê: Holocausto made in Brazil


 
 
Estudo revela que negros são maioria dentre jovens assassinados


Camila Maciel

Jornalista da Adital
Adital


De janeiro a maio deste ano, 391 jovens foram assassinados no estado do Espírito Santo (Brasil), dos quais 77% são negros. É o que aponta a pesquisa "Homicídio juvenil: de quem estamos falando?”, do Núcleo de Estudos sobre Violência, Segurança Pública e Direitos Humanos, da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). O estudo foi apresentado, no dia 30, durante a sessão especial da Assembleia Legislativa do Estado, que debateu o tema: "Juventude em Marcha Contra a Violência e o Extermínio”.

Os números apresentados ilustram o que a pesquisa "Mapa da Violência 2011” chama de "epidemia”, considerando a alta taxa de homicídios entre jovens brasileiros, de 15 a 29 anos. Em 20 anos, a taxa cresceu 22,9 pontos, alcançando a marca de 52,9 assassinatos no universo de 100 mil. O índice de homicídios entre negros, por sua vez, é 3,7 vezes maior em relação a um jovem branco, de acordo com Índice de Homicídios na Adolescência (2010), da Secretaria de Direitos Humanos, do governo federal.

Para José Luis Bedoni, membro da coordenação estadual da Campanha contra Violência e Extermínio de Jovens, esse dado demonstra "uma grande exclusão da juventude negra, que, historicamente, tem menos oportunidades de acesso às políticas públicas”. O homicídio seria uma última etapa de uma série de violações cometidas contra esses jovens.

Durante a apresentação da pesquisa acadêmica, feita pela professora Eugênia Raizer, percebeu-se que há uma maior concentração de atos criminosos nas regiões carentes do estado capixaba. Por outro lado, os homicídios são quase inexistentes nos bairros conhecidos como de maior poder aquisitivo.

Foi para combater essa realidade que jovens de todo o Brasil, a partir das Pastorais de Juventude e de outros setores da sociedade, formaram a Campanha Contra Extermínio de Jovens. O evento da última semana, proposto pelo deputado Claudio Vereza (PT/ES), está integrado às atividades dessa mobilização nacional.

Além de caravanas e seminários, outra ação proposta pelas organizações que participam da Campanha Estadual é o projeto Juventude Pela Vida, apresentada ao Governo do Espírito Santo, mas ainda sem retorno sobre a execução. De acordo com José Luis, o projeto prevê o desenvolvimento de alternativas para o combate a violência, a serem promovidas pela própria juventude, a partir da realidade de cada território.

Os projetos selecionados, através de edital, trariam a discussão da violência contra juventude para dentro das comunidades. Com o recurso destinado a cada grupo de jovens, eles iriam colocar em prática as estratégias por eles pensadas. "Formaríamos grupos em diferentes bairros e que estariam articulados em uma grande frente contra o extermínio de jovens”, explica José Luis.

Violência contra jovens na América Latina

Na América Latina, de acordo com o Mapa da Violência, El Salvador lidera o ranking de homicídio de jovens, seguido por Ilhas Virgens, Venezuela, Colômbia e Guatemala. Cuba é o país com a menor taxa. O Brasil ocupa o sexto lugar. Em coerência com esse estudo, um relatório das Nações Unidas (ONU), de 2006, confirma que os jovens latino-americanos são os que mais correm riscos de serem assassinados, em todo o mundo.

Para mais informações: http://www.juventudeemmarcha.org

lavar as mãos



Garoto se refresca em fonte no centro de Moscou, Rússia - Dmitry Kostyukov/AFP

Ernest Hemingway


imagem de A.E. Hotchner/Library of Congres/Associated Press


..."Adormeceu quase imediatamente e sonhou com a Àfrica de quando era rapaz, com as longas praias douradas e as praias brancas, tão brancas qque magoavam os olhos, e com os cabos que se erguiam majestosamente sôbre o mar, e com as enormes montanhas castanhas. Agora vivia nessas costas todas as noites e, nos seus sonhos, ouvia o marulhar das ondas e via os barcos dos nativos que singravam as águas. Cheirava-lhe ao alcatrão e aos cabos da coberta e parecia-lhe sentir o aroma da África que a brisa da terra trazia pela manhã". O Velho e o Mar , de Ernest Hemingway -25 ed. 1985 Ed. Civilização Brasileira

O Velho e o Mar

Cresci com uma enorme fascinação pelos livros, e pelos papéis. Talvez o fato de ser filha única e ter aprendido a ler muito cedo, pois não havia companhias para as brincadeiras de menina, talvez porque me chamasse atenção o fato de alguém conseguir escrever tantas palavras... O certo é que perto de completar dez anos retirei de dentro da estante com portas de vidro, do meu pai, um livro não muito grosso, não muito envelhecido, com um título que me chamou a atenção - O velho e o mar -   e cujo nome do autor eu não conseguia pronunciar. Esse foi o primeiro livro que li na minha ainda tão curta vida. E que me marcaria para sempre. Fossem pelas lembranças de Santiago por sua adorada África, por sua força na luta para dominar aquele peixe, ou por sua vida simples de pescador, sem nenhum recurso...

 O livro "O Velho e o Mar" me transportou para um mundo longe, muito além do mar que via quando estava na praia. A minha cabeça, ainda cheia de fantasias próprias da infância pensava no heróico e no lutador daquelas páginas. Levei dias e dias com aquele livro embaixo do braço. Lembro-me de acordar bem cedinho e ainda deitada, de bruços com as mãos cruzadas embaixo do queixo, ficar ansiosa por saber se Santiago conseguiria derrotar aquele peixe, colocá-lo no barco e trazê-lo pra ilha.

Alguns anos depois, quando já pronunciava corretamente o nome de Ernest Hemingway, li tudo que ele escrevera e que estava disponível no meu idioma. Vi essas mesmas obras tornarem-se, algumas delas, grandes dramas do cinema. Conheci, mais tarde, a tragédia da vida de Ernest - ele mesmo a encerrara,  com a bala de um fuzil em julho de 1961  no Estado de Idaho, quatro meses antes de eu completar dois anos de idade.  Mas passados tantos anos, ainda guardo as lembranças daqueles dias de leituras...daqueles dias em que junto com Santiago eu também lutava contra aquele peixe e sonhava com os leões da velha África.
Salinas, 2006

Emília Couto Della-Porther




 --**--


Morte de Ernest Hemingway completa 50 anos neste sábado

DA EFE, EM WASHINGTON

Meio século se completa neste sábado desde que o escritor Ernest Hemingway apertou o gatilho de sua pistola e pôs um trágico fim a uma trajetória de vida na qual se consagrou como "modelo de escritor moral", ao relatar os horrores e paixões provocados pela guerra.

"Ele viveu com paixão e um enorme respeito pelas outras culturas, com compromisso e determinação em tempos de guerra. Tudo isso o transforma em um estupendo modelo moral", diz à Agência Efe James Meredith, presidente da Hemingway Society, dedicada a preservar o legado do escritor.

Autor de cinco romances e mais de 50 relatos, Hemingway cultivou uma imagem de viajante e aventureiro infatigável, com prolongadas viagens a França, Itália, Espanha, Cuba e África durante seus 61 anos de vida, nos quais testemunhou as duas guerras mundiais.

Nascido em 1899 em Oak Park, nos arredores de Chicago, a vocação de Hemingway não tardou a brotar. Pouco após terminar seus estudos, começou a trabalhar com apenas 17 anos como repórter no jornal "Kansas City Star".

Sua permanência no periódico mal durou um ano, mas Hemingway sempre lembrou o livro de estilo do jornal ("frases curtas, primeiros parágrafos curtos)" como guia para sua ágil escrita, que posteriormente inspiraria imitadores.

À primeira oportunidade que teve, o então jovem Hemingway abandonou os Estados Unidos e partiu ao front para trabalhar como motorista de ambulância na frente italiana durante a Primeira Guerra Mundial, de onde retornou ferido e com restos de estilhaços nas duas pernas.

Como correspondente do diário "Toronto Star", voltou à Europa e viveu em Paris durante a década de 1920 junto à chamada "Geração Perdida", um grupo de escritores americanos entre os quais estavam Gertrude Stein, Ezra Pound, John Dos Passos e F. Scott Fitzgerald.

Nessa época, uma das mais prolíficas de sua carreira, publicou dois de seus romances mais reconhecidos, "O Sol Também Se Levanta" (1926) e "Adeus às Armas" (1929).

A guerra, um dos grandes temas literários de Hemingway, voltou ao trabalho do escritor com a eclosão da Guerra Civil Espanhola (1936-39), conflito que ele cobriu como correspondente em Madri.

Hemingway já tinha então se casado duas vezes e comprado uma casa em Key West, ilha no sul da Flórida onde cultivava duas grandes paixões além da literatura: a bebida e a pesca.

Posteriormente, após o sucesso de "Por Quem os Sinos Dobram" (1940), voltaria à Europa para cobrir o Desembarque da Normandia na Segunda Guerra Mundial e a libertação de Paris da ocupação nazista.

"Todos os bons livros têm algo em comum, são mais verdadeiros que se as coisas tivessem realmente ocorrido", era uma de suas frases mais repetidas ao ser questionado sobre a veracidade de seus escritos.

Mulherengo, boêmio e nômade, encarnava a lenda do escritor errante na busca de histórias para sua máquina de escrever, que datilografava sempre de pé.

"Sempre faça sóbrio o que você disse que faria bêbado. Isso lhe ensinará a manter a boca fechada", era outro de seus irônicos lemas.

Casou-se pela terceira vez e foi viver em Cuba, na Finca Vigía, onde concluiu "O Velho e o Mar", breve e renomado romance sobre um dia no mar de um velho pescador cubano, pelo qual recebeu o Prêmio Pulitzer em 1953.

Nos anos 40, Hemingway descobriu o continente africano, aonde viajou várias vezes para praticar outro grande passatempo: a caça, numa época magnificamente retratada em um de seus relatos mais conhecidos, "As Neves do Kilimanjaro" (1960).

Esteve a ponto de morrer após sofrer acidentes aéreos, que o deixam seriamente ferido e o impediram de viajar a Estocolmo para receber em 1954 o Prêmio Nobel de Literatura.

Após Mark Twain e Jack London, Hemingway é o escritor americano mais traduzido a outros idiomas.

Em 1960, abandonou definitivamente Cuba, com a saúde debilitada, Hemingway ficou recluso em sua residência de Ketchum, no estado americano de Idaho. Um ano e meio depois, com três romances ainda pendentes, Hemingway cometeu suicídio.

Seu último livro veio à tona, paradoxalmente intitulado "Paris é uma Festa", uma jovial celebração de seu anos de juventude na capital francesa.

Nos Estados Unidos, seus fãs lembram seu legado nos chamados "Hemingway Days" no fim de julho, coincidindo com a data de seu nascimento (dia 21), com diversos eventos em Key West entre os quais está um sarau de contos promovido por sua neta, a também escritora Lorian Hemingway.