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5.7.11

ainda Edward Hopper



Edward Hopper
(Artista moderno)

1882-1967



Nascido em uma pequena cidade de classe média banhada pelo rio Hudson, Hopper é tido como o maior pintor da vida moderna americana. Embora gostasse de pintura desde muito jovem, estudou desenho publicitário e trabalhou para publicações comerciais até os 42 anos, quando se sentiu seguro o suficiente para dedicar-se à arte em tempo integral. Nessa época chegara a um estilo bastante peculiar, ao mesmo tempo realista e simbólico. O artista, porém, modificaria pouco este estilo ao longo de sua carreira.
Viveu e produziu durante o apogeu do abstracionismo, sem nunca abandonar a tradição da pintura figurativa realista. Embora sua ascensão tenha sido lenta, a América o cobriu de honras. Hopper, porém, seria sempre um homem reservado, de hábitos simples, dedicado às viagens e à sua arte.

Edward Hopper era um garoto solitário, dedicado aos livros e um tanto isolado das outras crianças, talvez devido à sua altura desproporcional: subitamente atingiu 1,80 m aos 12 anos. Seu corpo tornou-se adulto antes de seu espírito. Nascera em 22 de julho de 1882, em Nyack, perto de Nova York. A casa dos Hopper era voltada para o rio Hudson, e Eddie, como então o chamavam, desde cedo gostou de barcos e construiu um para si aos 15 anos.

Encorajado pela mãe, logo começou a demonstrar seu talento para o desenho. Aos 17 anos, ingressou na Escola de Ilustração por Correspondência de Nova York; no ano seguinte, transferiu-se para a Escola de Arte de Nova York, inicialmente estudando ilustração publicitária e depois pintura. O professor que mais o inspirou foi Robert Henri, estimulando nele o gosto pelos temas do cotidiano da vida urbana nos Estados Unidos, assim como o respeito pelos grandes mestres retratistas do passado: Velázquez, Goya, Daumier, Manet e Degas.

Em 1906/7, com o dinheiro de trabalhos como ilustrador numa agência publicitária e com mais alguma ajuda dos pais, Hopper pôde realizar o sonho de conhecer a capital artística do mundo: Paris. Passou alguns meses ali, levando uma vida bastante regrada, longe das reuniões boêmias que sempre caracterizaram o cotidiano dos turistas nessa cidade. E que seus pais haviam tomado providências, por intermédio da Igreja Batista, para que ele fosse hóspede de uma "recomendável família burguesa". Tampouco parece ter-se interessado pelos artistas ou pelas obras de vanguarda. Em vez disso, encantou-se com o Impressionismo, desenvolvendo o interesse pelos efeitos de luz que o acompanharia ao longo de toda sua carreira. Hopper visitaria Paris novamente em 1909 e 1910. Depois disso, nunca mais retornaria à Europa.


Elizabeth Hopper

O SUCESSO CHEGA LENTAMENTE

De volta à América em 1907, Hopper começou a expor regularmente em Nova York, não na conservadora Academia Nacional de Desenho, que rejeitara seu trabalho, mas em peque-nas mostras antiacadêmicas organizadas por Robert Henri e por ex-alunos no Clube MacDowell. Só que nenhum crítico ou colecionador demonstrou interesse mais substancial por ele. Is-so significava que viver da pintura estava absolutamente fora de questão. Mas Hopper possuía aquela firmeza de propósitos que em geral caracteriza os tipos calados e nunca abandonou sua arte, até que, em 1924, conseguiu se tornar pin-tor em tempo integral: contava então 42 anos.

Até essa data, ele se sustentara com o desenho comercial e com trabalhos rotineiros de ilustração, dedicando três dias da semana a agências de publicidade e a periódicos como The Farmer's Wife, The Country Gentleman e System the Magazine of Business. Quando necessário, completava sua renda lecionando arte para crianças em sua cidade, Nyack, o que detestava.

Em 1913, conseguiu vender um quadro por 250 dólares na famosa Mostra Armory, e, em 1918, recebeu um prêmio de 300 dólares da Ma-rinha Mercante por um cartaz publicitário intitulado Destrua o Huno. Mas isso era tudo.
Neste mesmo ano, em 1913, Hopper alugou o estúdio de Washington Square North, 3, em Nova York, que ocuparia pelo resto de sua vida, alugando espaços adicionais para moradia e trabalho na medida de suas possibilidades. Nunca, porém, iria alterar o aspecto despojado e espartano do local.
O hábito da frugalidade, incutido pela educação e aprofundado pela escassez dos primeiros anos de carreira, parece nunca tê-lo abandonado, mesmo depois de se tornar um homem rico: comia nos bares e restaurantes mais pobres, vestia suas roupas até que estivessem gastas e comprava carros de segunda mão, que utilizava até se desintegrarem. Não era sovina: apenas não se importava com dinheiro.
Hopper fez sua primeira exposição individual em 1920, apresentando dezesseis óleos pintados em Paris e durante viagens de verão à rochosa e árida Monhegal Island, no Maine. Nem um único trabalho sequer foi vendido, mas o local era auspicioso — o Clube Whitney Studio. Fundado por Gertrude Vanderbilt Whitney, esse clube seria o precursor do famoso Museu Whitney de Arte Americana. No mesmo ano de sua inauguração, 1931, esse museu adquiriu Manhã de Domingo para seu acervo. Hopper ficaria estreitamente associado ao Whitney por toda sua vida.

POR UM CAMINHO INESPERADO

Em 1923, abandonou temporariamente o óleo para fazer experiências com aquarela. Embora os temas fossem os mesmos, a mudança de técnica coincidiu com a chegada da fama. No final desse ano o Museu do Brooklyn iria aceitar seis paisagens para uma exposição; foram favoravelmente recebidas pelos críticos, e o museu comprou uma delas por 100 dólares. Em 1924, após uma exposição de aquarelas ainda mais bem-sucedida (na Galeria Frank K. M. Rehn, cujo proprietário se tornaria seu marchand), Hopper enfim sentiu-se seguro o bastante para se dedicar exclusivamente à pintura.

Em 9 de julho de 1924, casou-se com Josephine (Jo) Verstille Nivison. Os dois haviam sido alunos de Robert Henri e encontraram-se casualmente em visitas ao Maine e Massachusetts. Jo pretendia ser atriz antes de se voltar para a pintura, e era tão loquaz quanto Hopper era taciturno. Uma mulher pequena, de caráter forte, que detestava afazeres domésticos e adorava gatos. Jo também era possessiva — e, claro, ciumenta —, sempre insistindo para que Hopper abandonasse os desenhos de modelos nus, a não ser que fosse ela quem posasse. Como resultado, muitas das mulheres de seus quadros e todos os seus nus são retratos de Jo.

Em meados da década de 20, Hopper forjou seu estilo pessoal, necessariamente associado a seu nome, e sua obra iria sofrer poucas modificações desde aquele momento. Foi quando fugiu do academismo para ocupar-se simplesmente do homem urbano e do cenário despojado de seu cotidiano, desnudando-os pela luz.

Sua crescente reputação já se refletia nas mostras cada vez mais prestigiadas que lhe dedicavam: uma exposição individual na Galeria Frank K. M. Rehn, cm 1929, retrospectivas no Museu de Arte Moderna, em 1933, no Museu Whitney, em 1950, e uma grande retrospectiva, também no Museu Whitney, em 1964, que iria depois para outros grandes salões

Hopper acumulou, também, prêmios e honras: em 1932, a Academia Nacional de Desenho elegeu-o sócio, o que o artista prazerosamente recusou, já que a Academia o rejeitara em seus anos de luta e obscuridade. Em 1935, a Academia de Belas Artes da Pensilvânia ofereceu-lhe a Medalha de Ouro. Era a primeira de uma série de homenagens que lhe seriam outorgadas por academias e museus americanos. Em 1952, foi um dos quatro artistas escolhidos para representar os EUA na Bienal de Veneza.

Em 1934, Hopper estava em condições de construir uma casa-estúdio, longe de tudo, em South Truro, Cape Cod, onde ele e Jo passariam uma parte de quase todos os seus verões. O sucesso também lhe permitiu outra coisa de que gostava muito: viajar.

Não é por acaso que tantos quadros de Hopper retratam hotéis, motéis, bares e a vida rodoviária — em 1941, ele e a esposa fizeram uma grande viagem de automóvel durante três meses, cruzando o país até a Costa Oeste. Em 1943, a escassez do petróleo os impediu de viajar de carro e, então, partiram de trem para o México. Esta seria a primeira de uma série de temporadas "mexicanas".

Os prazeres da vida nunca foram extravagantes em Hopper: gostava de teatro, de cinema e de livros. Tinha uma bagagem literária excepcional, que não se restringia à literatura inglesa: era capaz de citar fluentemente Goethe e os poetas simbolistas franceses no original.

CULTO AO " SELF-MADE MAN "

Apesar de seu gosto literário um tanto sofisticado, Hopper cultivava a imagem pública da self-made man de pés no chão, que atribuía pouca importância às idéias fantasiosas. Ao ser entrevistado, ele se recusava a identificar conteúdos intelectuais ou pessoais em seus quadros, afirmando que apenas trabalhava conforme a tradição realista americana, pintando nada além ou aquém do que via à sua volta.

Hopper sentia-se integralmente comprometido com a arte figurativa realista e assistiu com desalento à ascensão da pintura expressionista abstrata nas décadas de 50 e 60. Era membro do grupo de pintores realistas que, em 1953, lançou o jornal Reality como porta-voz de suas opiniões, participando por algum tempo de seu conselho editorial. Em 1960, ele e seus colegas do Reality protestaram, junto ao Museu Whitney e ao Museu de Arte Moderna, contra as "engrimançadas influências" da arte abstrata em seus acervos.

Curiosamente, os pintores abstratos não expressavam nada além de admiração por Hopper, em cuja obra viam um interesse pela forma pura e pelo jogo entre o espaço e o plano que antecipava suas próprias experiências.
Nas palavras de um amigo, ele transmitia "um senso de presença geológica que redefinia a inércia". Era vagaroso e lacônico em seu trabalho, completando apenas dois ou três óleos por ano, e mantinha-se mais reservado ainda em seu comportamento social. Achava que uma conversa era mera tagarelice e que não valia o esforço físico necessário para produzi-la. A idéia de preencher momentos constrangedores com conversas fúteis parecia-lhe tão absurda quanto preencher com decorações os espaços vazios das paredes em suas obras.

DEFESA DA PRIVACIDADE

Baseados na atmosfera solitária que permeia tantos quadros de Hopper, os críticos inferiram que o próprio artista fosse um solitário. Certamente ele passava boa parte de seu tempo sozinho, fosse pintando, lendo ou mergulhado em seus pensamentos, mas era por opção. Prezava a solidão e em geral não procurava companhias, exceto a de sua mulher. "O próprio ar sisudo e desconfiado que seus olhos revelam nas fotos faz-nos sentir intrusos em sua privacidade tão zelosamente cultivada. De certa forma, esse olhar também nos faz sentir constrangedoramente pequenos: o isolamento de Hopper em relação ao mundo baseava-se num pessimismo profundo", comentou um amigo do artista. "Ele encara seu semelhante como uma construção frágil e normalmente trivial. Não se tratava de presunção, era uma constatação inevitável."

O qualificativo que invariavelmente emerge nas recordações dos que conheceram Hopper é o de "puritano". De fato, ele vinha de um meio protestante anglo-saxão: seus pais eram de origem holandesa e inglesa, ambos batistas devotos. Os amigos comentam que ele sempre passava a impressão de sentimentos fortes mantidos rigorosamente sob controle, e de desprezo a qualquer tipo de sentimentalismo.

Em 1965, Hopper pintou seu último quadro, Dois Comediantes, retratando um casal que lembra ele mesmo e Jo, fazendo a última reverência antes de deixar o palco. Morreu em seu estúdio na Washington Square North, 3, em 15 de maio de 1967, aos 84 anos. Jo morreu no ano seguinte, legando todo o acervo artístico, que incluía mais de 2 000 obras, entre óleos, aquarelas, desenhos e gravuras de Hopper, ao Museu Whitney de Arte Americana.
No início de 1967, Hopper fora convidado para encabeçar a IX Bienal de São Paulo. Ele perguntou se sua participação era mesmo importante. Era. Mas, infelizmente, acabou se transformando em homenagem póstuma.

Fonte: NETSaber

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