Lugar de Pensar

Se você é um ser que somente consegue ler 140 caracteres... fuja daqui rapidamente.
Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome. Clarice Linspector
“Não somos seres humanos vivendo uma experiência espiritual, somos seres espirituais vivendo uma experiência humana.” Teilhard de Chardin
A solidão não existe! Tenho um mundo inteiro dentro de mim.
Seja bem-vindo.

31.8.11

Opiniões: Prepotência e Silêncio (mundo acadêmico)

 
Prepotência e silêncio
 
 

 
   
Escrito por Lincoln de Abreu Penna 
 




As universidades no Brasil estão a refletir um fenômeno que é mundial, mas que entre nós tem assumido um caráter mais perverso, a combinar os atos e atitudes de prepotência com o silêncio obsequioso dos que não querem se incomodar, voltados que estão em seus afazeres docentes. Essa dupla conjugação tem nos levado a situações cada vez mais desastrosas para a vida universitária, de modo a influir decisivamente no comportamento dos estudantes e das gerações mais jovens de docentes, a exibirem com vaidade os resultados de suas pesquisas e a quantificarem o número de vezes que seus ensaios são publicados e citados pelos colegas.
A importância desmedida concedida aos números de participações em eventos e no atendimento às exigências da vida acadêmica, se por um lado revela o quanto se avançou na busca de uma atividade regular nos meios universitários, por outro lado tem levado a uma perigosa evasão da realidade, como se as contravenções nos diversos campos da sociedade e também dos dirigentes das comunidades universitárias fossem irrelevantes diante do objetivo principal, isto é, os resultados dos projetos de pesquisa. Com isso, se cultiva o desprezo por tudo que diz respeito à vida das coletividades, algo como um comportamento esquizóide no qual só é levado em conta o que se faz com vistas à obtenção de reconhecimento de mérito, centrado apenas em si. 
Em nosso meio acadêmico a vaidade é, seguramente, componente inerente aos seus membros. Há, no entanto, a vaidade como um sentimento de orgulho próprio pelo que podemos fazer em benefício dos outros, sobretudo dos mais necessitados, refletindo sobre os seus destinos e os destinos das comunidades em geral; e a vaidade que se manifesta na excessiva valorização do eu, profundamente indiferente em relação aos outros. Desse modo, temos no primeiro caso a prevalência do altruísmo. No segundo, a presença de um tipo de narcisismo absolutamente inaceitável porque marcado pela vaidade em si, a semear o individualismo egoísta dos que se propõem unicamente a exaltar o exercício egocêntrico junto a todos com quem se convive num ambiente cuja vocação deveria ser o da comunhão fraternal, próprio a uma comunidade de destino.    
Por que esse fenômeno está a ocorrer entre nós com tanta freqüência? Há pelo menos duas explicações que se entrelaçam. Uma de natureza mais geral, e tem a ver com o advento de uma etapa mais agressiva e ao mesmo tempo mais caótica do capitalismo em sua fase neoliberal, responsável pelo desprezo de valores sociais. O outro se situa na nossa realidade histórica e cultural, a exibir a simbiose do conservadorismo produzida por nosso passado colonial e reafirmada mais modernamente no estágio neocolonial de nossa formação social, com a acomodação que tem nos conduzido a adiar as soluções radicais, tais como as transformações substantivas de nossas estruturas. Ao abdicar desta tarefa, os docentes têm reproduzido valores distantes dos compromissos de fazer de suas ocupações instrumento de real intervenção na vida dos cidadãos.        
E qual é o papel das universidades, como comunidades destinadas à reflexão, produção e difusão do conhecimento enquanto erudição do patrimônio da humanidade e de criação de novos saberes? Instigar e incomodar o que se tem como sabido. Preservar, contudo, os valores caros à humanidade, porque estes são permanentes e definem o que entendemos como direitos inalienáveis do ser humano, tais como as liberdades, em seus mais variados sentidos, principalmente o sentido da libertação. E isso se faz dentro de normas de respeito a opiniões divergentes, porque além da liberdade como libertação – só possível nos ambientes democráticos – é preciso cultivar a idéia de que é no ambiente universitário que se deve praticar o encontro das diferenças, do contraditório em busca do novo, mesmo que para tanto as contradições gerem conflitos e os conflitos, confrontos, porque só assim estaremos desenvolvendo a democracia.   
Essa digressão decorre de fatos que vêm se acumulando nos meios universitários a envolver mandos e desmandos de colegas detentores de cargos e mandatos em suas Instituições de Ensino Superior (IES). Quase sempre a adotarem decisões arbitrárias ou excessivamente centralizadas, as quais invariavelmente descambam para uma prepotência de estirpe, porque centrada em argumentos de autoridade. Ao manipular os órgãos colegiados ou simplesmente desprezá-los, essas atitudes têm se reproduzido tanto nas IES particulares quanto públicas. E a democracia que invocam ou está baseada no controle desses colegiados ou na referência meramente a decisões institucionais.         
Essas condutas além de intoleráveis atingem o centro nervoso das IES, porque as tornam verdadeiras empresas ou repartições voltadas exclusivamente para o funcionamento harmonioso de seus quadros funcionais. Criam e recriam profissionais zelosos pelos seus trabalhos, submetidos a constantes verificações, e inibem as manifestações de descontentamentos tidas como impertinentes às atividades desses centros orgânicos de produção. Tudo o que escapa à normalidade dos funcionamentos previsíveis é, por princípio, condenado ou pelo menos visto com os reparos angustiados dos zelosos cumpridores das expectativas institucionais. As vozes dissonantes costumam ser objeto de censura quando não de repressão simbólica ou mesmo efetiva, subtraindo-as do ambiente por serem corrosivas ao bom andamento da pax acadêmica.        
É preciso reagir ao marasmo, à indolência, à acomodação, ao silêncio comprometedor que se espraia nos campi universitários, sob pena de sermos cúmplices dessa mesmice, mesmo sendo críticos em relação ao que se passa nos meios acadêmicos. Para tanto, torna-se imperioso que se constituam núcleos de debate aonde for possível constituí-los para a introdução de uma prática de contestação aos abusos, e a toda sorte de violência que ocorra. Mas não apenas núcleos destinados a identificar esses atos, mas que tenham por objetivo criar espaços de debates e de germinação de idéias novas a serem exercitadas com vistas a democratizar a democracia formal existente.        
Democratizar a democracia formal consiste basicamente em fazer aprofundar a essência do sentido de democracia. E isto só se consegue fazendo, discutindo, questionando o que existe, por vezes até transgredindo as normas que se considerarem obsoletas ou restritivas ao bom desenvolvimento dos processos de libertação. Essas condutas não precisam e nem devem adotar meios violentos, senão a palavra e a força das idéias, instrumento básico e eficaz para fazer valer as concepções inovadoras e libertárias. Porque a democracia não é um produto fechado e limitado ao sabor dos interesses meramente institucionais avessos ao contraditório. Deve ser um processo que se alimenta na discussão dos contrários e cresce na medida em que se contestam os limites de sua existência.
Nesse sentido, a democracia é sempre um vir-a-ser, aquela utopia que se corre atrás e se tem a sensação de que jamais a alcançaremos. O objetivo, todavia, não é necessariamente alcançá-la em sua plenitude, mas continuar a persegui-la sem cessar. Essa é a luta dos que desejam uma democracia radical com vistas a uma sociedade de iguais.     

Lincoln de Abreu Penna é professor aposentado da UFRJ, demitido arbitrariamente do Programa de Mestrado em História da Universidade Salgado de Oliveira – UNIVERSO. 

Samir Amin sobre a Primavera Árabe: ''Este é um movimento duradouro''

 
 
 
 
Samir Amin sobre a Primavera Árabe: ''Este é um movimento duradouro''


Pambazuka - [Tradução de Diário Liberdade] Hassane Zerrouky: Como você o que está acontecendo no mundo árabe seis meses após a queda de Ben Ali na Tunísia e de Hosni Mubarak no Egito?

Samir Amin: Nada será o mesmo que antes – isto é certo. Isto porque o levante não é apenas sobre a derrocada de ditadores reinantes, mas também é um movimento de protesto duradouro desafiando, ao mesmo tempo, várias dimensões da ordem social interna, especialmente evidenciando as desigualdades na distribuição de renda, e a ordem internacional, o lugar dos países árabes na ordem econômica global – em outras palavras buscando um fim para sua submissão ao neoliberalismo e aos ditados dos Estados Unidos e da OTAN na ordem global política. Este movimento, cuja ambição é também para democratizar a sociedade, demandando justiça social e uma nova nação e (eu diria) uma sociedade e política econômica anti-imperialista, irá portanto durar anos – o que com certeza terá altas e baixas, avanços e recuos – pois não será capaz de achar sua própria resolução em um período de semanas ou meses.

Hassane Zerrouky: Você está surpreso que os levantes terem sido protagonizados por novos participantes, particularmente os jovens?

Samir Amin: Não, isto é muito positivo. Novas gerações se politizaram novamente. No Egito, por exemplo, a juventude está muito politizada. A juventude tem seu próprio modo, fora dos partidos opositores tradicionais os quais, no Egito, são partidos pertencentes à tradição marxista. Mas este despertar político não é contra aqueles partidos. Eu posso lhe dizer que, justo agora, há uma profunda e espontânea simpatia entre as pessoas jovens e os partidos da esquerda marxista radical, o que significa dizer os partidos vindos das tradições socialistas e comunistas.

Hassane Zerrouky: Você diz que este é um movimento duradouro, mas, se nós tomarmos o Egito como exemplo, não há risco da revolução ser sabotada pelas forças conservadoras?

Samir Amin: Há certamente muitos riscos, incluindo, em médio prazo, o risco de que uma alternativa islâmica reacionária possa prevalecer. Isto, no entanto, é o plano dos EUA, desafortunadamente também apoiada pela Europa, ao menos no que concerne ao Egito. O plano é estabelecer uma aliança entre as forças reacionárias egípcias e a Irmandade Muçulmana; isto é também uma aliança apoiada pelos aliados de Washington na região, liderada pela Arábia Saudita – apoiada até mesmo por Israel. Então isto se sucederá? É possível que isso funcione em um médio prazo, mas não trará nenhuma solução para os problemas do povo egípcio. Então, o movimento de protesto, a luta, continuará e engrandecerá. Adicionalmente, deve se observar que a Irmandade Muçulmana está em crise.

Hassane Zerrouky: Esta questão é relacionada para o que você acabou de dizer: o que você pensa sobre o que está ocorrendo na Síria, primeiramente, onde o regime de Bashar al-Assad acabou de autorizar um sistema multipartidário, na esperança de restaurar a calma?


Samir Amin: A situação na Síria é extremamente complexa. O regime Ba'ath, que desfrutou de legitimidade por muito tempo, não é mais aquilo que foi: tornou-se mais e mais autocrático, aumentando o Estado policial, e, ao mesmo tempo, substancialmente fez uma concessão gigantesca ao liberalismo econômico. Não acredito que este regime possa se transformar em um regime democrático. Hoje está sendo forçado a fazer concessões, o que é algo positivo, dado que uma intervenção estrangeira como foi feita na Líbia – felizmente isto não é possível no caso da Síria – seria outra catástrofe. Por isso, comparado com o Egito e a Tunísia, o ponto fraco na Síria é que os movimentos de protesto são muito diversos. Muito – não quero generalizar – não tem nem mesmo um programa político para além de protestos, não fazendo ligação entre o regime político de ditadura e sua escolha por uma política econômica liberal.

Hassane Zerrouky: Você não teme uma implosão na Síria dado o risco de um conflito sectário entre os sunitas de um lado e os alauitas, drusos e cristãos por outro lado?


Samir Amin: Há este risco. Causar implosões nos Estados do Oriente Médio é um plano dos EUA e Israel. Mas não será tão fácil porque o sentimento nacional é um fator poderoso na Síria, o que existe em todos os movimentos que desafiam o regime hoje, apesar de estarem em desacordo com eles.

Hassane Zerrouky: E sobre o Iêmen, um regime aliado dos Estados Unidos?

Samir Amin: Os Estados Unidos apoiam o regime de Ali Abdullah Saleh. O motivo é que este teme o povo iemenita, especialmente o povo do sudeste do Iêmen. O Sudeste do Iêmen já teve um regime marxista progressista, desfrutando de legitimidade e poderoso apoio popular, forças das quais agora estão ativamente envolvidas no movimento social de protestos. Washington e seus aliados por outro lado temem uma partição do país rumo ao restabelecimento de um regime progressista no Sudeste do Iêmen. Este é o porque o regime iemenita, com a aprovação dos EUA, está permitindo a Al Qaeda – que é uma arma extensivamente manipulada pelos Estados Unidos – ocupar cidades no sul, desejando espalhar medo nos corações dos estratos sociais progressistas, para fazê-los aceitar manter Saleh no poder.

Hassane Zerrouky: No que diz respeito à situação na Líbia, onde está o risco de implosão?

Samir Amin: A situação é trágica, muito diferente daquela do Egito ou Tunísia. Nenhum lado na Líbia é melhor que o outro. O presidente do Conselho Nacional Transitório (CNT) – Mustafa Abdel-Jalil – é um democrata muito curioso: ele foi o juiz que sentenciou enfermeiras búlgaras à morte antes de ser promovido para o Ministério da Justiça por Kadafi. O CNT é um bloco de forças ultrarreacionárias. Como para os Estados Unidos, não se trata apenas do petróleo que obterão após – isto eles já possuem. Seu objetivo é colocar a Líbia sob sua tutela para estabelecer o Africom (Comando Militar dos Estados Unidos para a África) – o qual está hoje baseado em Stuttgart, na Alemanha, desde que os países africanos, não importa o que se pense sobre eles, rejeitaram seu estabelecimento na África – no país. Sobre o risco de separação da Líbia em dois ou três Estados nacionais, Washington deverá certamente optar pela fórmula Iraque, o que significa dizer, a manutenção de uma unidade formal sob a proteção militar ocidental.

Samir Amin é famoso economista marxista egípcio vinculado à Monthly Review.

* A entrevista original “Samir Amin «C’est un mouvement qui va durer des mois et des années»" foi publicada em L'Humanité em 1º de agosto de 2011.
Traduzido do francês para o inglês por Yoshie Furuhashi para Pambazuka
Traduzido do inglês para o português por Lucas Morais para Diário Liberdade

A Arte em sépia e p/b de Emil Schildt












Emil Schildt nasceu na Dinamarca em 1958, onde teve formação musical. Começou a fotografar em 1980 e desde 1987 que é fotógrafo profissional. Especializou-se em pintura com luz e emulsões líquidas e é adepto de técnicas antigas.

30.8.11

O poder desnudado por suas próprias crises

 
 
 
 
 
O poder desnudado por suas próprias crises


por Denis Duclos


A crise econômica iniciada em 2008, o acidente nuclear de Fukushima e as revoltas populares no mundo árabe convergem para um questionamento do capitalismo mundial. Apesar das diferenças que guardam entre si, os três grandes acontecimentos que agitam o mundo revelam de maneira gritante os limites de uma mesma lógica


Três grandes crises agitam o mundo e não se deixarão reduzir a assuntos que espiamos rapidamente antes de passar para o próximo: o grande pânico financeiro iniciado no final de 2008; o acidente nuclear em Fukushima, ocorrido em 11 de março de 2011; e a crise de regime em muitos Estados árabes, onde o povo se rebela desde o fim de 2010.

A priori, não é razoável comparar tais crises, já que elas se referem a campos muito diferentes. A primeira, que parece produzir-se em um mundo virtual, trata da evaporação de trilhões de dólares; a segunda decorre de um acidente gravíssimo relacionado a uma tecnologia que visa à produção de energia abundante; e a terceira nasce de uma revolta popular em massa contra ditaduras militarizadas. Também não seria decente justapô-las como puras catástrofes, sendo uma o efeito do “triunfo da ganância”1 e outra o resultado de um desastre natural imprevisível, com sofrimentos que assumem o sentido – desejável – de uma “primavera dos povos”.

Contudo esses eventos distintos convergem para um mesmo questionamento do sistema capitalista mundial. E a resultante poderia não ser o caos global anunciado por um impressionante concerto de pessimistas, mas uma evolução libertadora – um “parto da história”, retomando a clássica metáfora marxista.



Pontos em comum

Essas crises têm três pontos em comum. Elas fragilizam pilares cruciais do sistema: sua base energética, seu modo de orientação do trabalho humano pelo dinheiro e sua necessidade de estabilidade política, especialmente na periferia dos centros liberais. Em cada área respectiva, as crises são a manifestação do mesmo estilo do excesso, que conduz ao perigo tecnológico inaceitável, ao risco financeiro incontrolável ou ao poder autoritário insuportável. E revelam o poder das tendências que se opõem à manutenção do próprio sistema: dinâmicas ambientais e resistências humanas de sociedades inteiras que se recusam a submeter-se à incompetência, à poluição ou a autoridades delinquentes.

Em primeiro lugar, destaca-se um conjunto coerente de condições de sobrevivência do mecanismo dominante: a submissão do homem e da natureza ao controle e à exploração do melhor mercado, pelo maior rendimento possível. Assim, a tutela financeira da economia não é uma divagação especulativa: ela ordena as atividades humanas pela lógica do rendimento. A economia virtual constitui, portanto, menos uma aberração que um campo de manobra da autoridade mundializada, capaz de deslocar fábricas e trabalhadores; de criar economias “emergentes”, impérios-fábrica e continentes-escritório; de prever a produtividade e desenvolver o consumo cativo que lhes serão irreversivelmente necessários. Em outras palavras, a financeirização é a criação do quadro – muito caro – de uma economia-mundo. Daí que sua crise em enormes bolhas de insolvência desqualifica a governança geral do trabalho humano no sistema.



Imprevisibilidade e desordem

Sem o petróleo – mesmo três vezes mais caro que em 2000 e dez vezes mais que em 1990 –, deveríamos dividir por quatro a produção global de alimentos. A intendência que ainda fornece energia barata não pode desprezar nenhum de seus recursos fósseis, orientando cada setor a um uso preferencial: energia nuclear para a produção industrial; carvão liquefeito e gás para o aquecimento; e petróleo principalmente para deslocar um bilhão de veículos.2 Questionar o setor nuclear (e planejar seu abandono, como propõe a Alemanha até 2022) não será, portanto, apenas uma lição que incentiva a reorientar pelo menos 14% da produção elétrica mundial para a energia eólica, solar ou para a biomassa, mas um ataque a um segmento essencial do mecanismo global.

Enfim, sem esmagar as liberdades políticas num anel de países em torno das democracias de mercado supostamente regidas pelo Estado de direito, centenas de milhões de pessoas seriam desenfreadamente atraídas para mercados de trabalho distantes de seu local de vida; conflitos sociais ou religiosos adiariam indefinidamente a própria possibilidade de uma mundialização dócil das trocas.

Esses mesmos democratas puderam ver na solidez dos regimes eufemisticamente considerados “moderados” um escudo contra um conflito mundial oriundo do barril de pólvora do Oriente Médio. É por isso que as legítimas exigências dos povos rebelados não suscitam apenas a espontânea solidariedade (como na Líbia), mas também uma grande preocupação, mais ou menos disfarçada de expectativa.

Não é de surpreender, portanto, que essas três crises convoquem as mais altas instituições internacionais nem que corram a tentar debelá-las. Como disse o californiano especialista em energia nuclear Najmedin Meshkat sobre o acidente em Fukushima: “Isso vai muito além do que um país pode gerir. É algo que deve ser discutido pelo Conselho de Segurança da ONU. [...] É uma questão mais importante que a zona de exclusão aérea sobre a Líbia.”3

Em segundo lugar, cada uma dessas três falhas sistêmicas designa a mesma tendência do sistema a “forçar” o curso das coisas: forçar o trabalho humano pelo constrangimento financeiro; forçar a natureza por meio de tecnologias perigosas; forçar o processo político, enquadrando as massas quando elas ainda não se disciplinaram pela lógica taylorista (que foi e continua sendo a faceta civil da disciplina militar).

A indústria financeira usou a garantia dos Estados liberais para beneficiar dívidas públicas, manipular ofertas de crédito e empurrar devedores para contratos injustos ou armadilhas invisíveis. Quanto aos regimes autoritários, eles exibem sua natureza em seus uniformes e nas suas barreiras rodoviárias, em prisões políticas e “estados de exceção”, na arrogância de suas classes nepotistas monopolizadoras. Por fim, a indústria nuclear cerca-se, desde suas origens, de uma cultura da segurança, policial e militar, para impor suas escolhas em nome dos interesses nacionais estratégicos.

 Nos três casos também, a duplicidade serve como ferramenta de gestão cotidiana. Depois de escamotear os pontos fracos – impossibilidade de “titularizar” as dívidas sem tirar a solvibilidade do sistema financeiro; necessidade permanente de resfriar uma central nuclear; separação inelutável entre os povos e os serviços de segurança –, camufla-se a extensão dos danos. O programa de recuperação dos ativos bancários nos Estados Unidos, votado em outubro de 2008, cobria apenas US$ 300 bilhões (com um custo final de US$ 25 bilhões para os contribuintes), ou seja, menos de um décimo das perdas reais. O desastre nuclear de Fukushima foi e continua sendo constantemente minimizado pela operadora Tepco e pelas autoridades japonesas e internacionais, mesmo depois de ter sido considerado de gravidade equivalente à do acidente de Chernobyl. Isso sem falar nos desaparecimentos, torturas, prisões e abusos de todo tipo, ignorados pela mídia nos regimes principescos ou nas ditaduras militar-policiais ainda consideradas “moderadas”.

Esses excessos revelam agora seu limite comum. A falta de previsão, a confusão e a paralisia aparecem e perduram, apesar das afirmações infundadas e da insistência no erro. A incapacidade de pensar acompanha como uma sombra a vontade de impor uma ordem a despeito de qualquer razão: quando se decide construir uma indústria nuclear, não se pode incluir a prioriuma “preparação para um acidente grave” cuja simples possibilidade se nega (com apoio do cálculo de probabilidades). Assim, a França e o Reino Unido recusaram-se a incluir os ataques terroristas nos “testes de resistência” das centrais nucleares europeias.

No mundo financeiro, se acredita no mercado (que é sua fonte de vida), você não pode pensar o crescimento como uma bolha que vai “suicidá-lo” – e isso menos de um século após a última grande crise, e exatamente como previu o economista John Kenneth Galbraith.4 As elites ditatoriais parecem incapazes de imaginar, até o último segundo, que um buraco pode se abrir em seus palácios e que seus privilégios podem ser abolidos, tanto pela rua (que desprezam) como pelo congelamento de seus bens tão cuidadosamente expatriados. Considerando a impotência para resolver problemas, a analogia entre a crise nuclear e a financeira fica ainda mais evidente. Como observa Paul Jorion,5 a crise financeira assemelha-se à de Fukushima: em um caso, é necessário jogar água incessantemente para resfriar os núcleos danificados da central; no outro, é necessário jogar dinheiro incessantemente para remediar a implosão da bolha.

Mas, assim como será difícil esconder e reduzir por muito tempo o grau de endividamento ao qual conduziu a excessiva criação de moeda por meio do crédito – pois essas perdas acabarão sendo absorvidas pelos contribuintes –, também será impossível estabilizar por muito tempo a difusão mundial (por ar, mar e pelos produtos exportados) de substâncias radioativas de longa duração, como o césio 137, ou muito tóxicas, como o plutônio – pois os tanques de muitos reatores estão danificados. Do mesmo modo, já não se pode mais esconder que, para além das zonas de evacuação, o Japão está ameaçado por uma nova degradação dos reatores de Fukushima, pelo estado de outras centrais abaladas pelo terremoto ou pela radioatividade subavaliada que impregna o solo, os produtos agrícolas, os contêineres. Também não se pode mais esconder que outros milhões de pessoas serão afetados pelo agravamento da crise econômica e do desemprego, em decorrência do desastre.


Uma ideologia em declínio

É verdade que persiste a atitude de conduzir as coisas à força, com imposições financeiras, tecnológicas e policiais. Esses constrangimentos contam até mesmo com uma solidariedade corporativa mundializada: a definição, pelas instituições nucleares do mundo inteiro, do que se pode saber; o impedimento, pelos lobbiesfinanceiros, da restrição de seu poder de orientar o futuro; o socorro mútuo dos regimes autoritários (príncipes sunitas reprimindo juntos os manifestantes no Bahrein, ou cartéis militares do Magreb apoiando secretamente o coronel Muamar Kadafi); e a desconfiança ocidental implícita para com a juventude árabe.

Mas a estratégia de forçar o mundo não pode mais atuar como ideologia global. Ela não aparece mais como um mal necessário, revelando-se pelo que é: um estilo de governo arbitrário, perigoso e predatório, a serviço de três tipos de agentes de dominação, em detrimento da liberdade de cada um dispor de seu trabalho, desfrutar da natureza sem destruí-la (verdadeiro objetivo da economia, de acordo com o matemático e bioeconomista Nicholas Georgescu-Roegen) e participar sem entraves da comunidade política humana.

As três crises que manifestam os mesmos constrangimentos excessivos do dinheiro, da tecnologia e do poder têm como resposta a expectativa das “três libertações”: a de um trabalho humano que não deve ser apenas relocalizado, reformulado e orientado para o lucro máximo, mas sim rediversificado, em uma lógica de maior autonomia; a da natureza que não deve ser submetida ou torturada para obter sua máxima utilidade; e por fim a da livre participação na vida política do “povo planetário”, contrária tanto à dominação dos regimes militares (ou das fatwas aterrorizantes cada vez mais rechaçadas no mundo muçulmano) como ao fechamento xenófobo que sentimos crescer no Ocidente, presumido lar do liberalismo.

Em todas essas áreas, uma formidável batalha de ideias está sendo travada, especialmente na internet. Ela se mostra tão difícil no setor de energia como no campo financeiro – em que cada protagonista deve iniciar-se nos arcanos do funcionamento dos mercados –, e mesmo assim cresce em camadas cada vez mais amplas, apesar dessa dificuldade. A intuição de uma possibilidade de viver de outra forma, mais simples e livre, é o argumento que enfrentam agora os experts, sem que eles possam imediatamente tachar tais alternativas regressivas ou irrealistas.

Denis Duclos
- antropólogo, é diretor de pesquisa do Centre National de la Recherche Scientifique – CNRS.


1 Joseph Stiglitz, Le triomphe de la cupidité [O triunfo da ganância], Les Liens qui Libèrent, Paris, 2010.
2 Temos 1,290 bilhão de veículos particulares e utilitários, ou seja, uma frota duplicada em quatro anos, de acordo com a avaliação em tempo real da associação Carfree.
3 C itado por Kiyoshi Takenaka e Yoko Kubota, “Le Japon se résigne à une longue crise nucléaire” [Japão resignado a uma longa crise nuclear], Reuters Online, 28 de março de 2011.
4 John Kenneth Galbraith, La crise économique de 1929: Anatomie d’une catastrophe financière [A crise econômica de 1929: Anatomia de uma catástrofe financeira], Petite Bibliothèque Payot, Paris, 2008.
5 V er seu blog de notícias financeiras: www.pauljorion.com/blog/.
 




29.8.11

Patricia Highsmith




Calçada da Memória


José Geraldo Couto



Arredia, dura, intratável, a norte-americana Patricia Highsmith (1921-1995) viveu longe dos sets de filmagem. Mas suas tramas amorais e seus personagens mentalmente perturbados assombram as telas do mundo.

Filha de artistas que se separaram pouco antes de seu nascimento, ela descobriu anos depois que tinha sobrevivido a um aborto frustrado. Durante toda a vida manteve com a mãe – e com todo o gênero humano – uma relação difícil.

Formada em língua inglesa, começou escrevendo roteiros e diálogos para histórias em quadrinhos. Seu primeiro romance, Strangers on a Train (1950), que Hitchcock transformou no clássico Pacto Sinistro, chamou a atenção para sua escrita rigorosa e sua fina percepção da psicologia humana. Não por acaso, seus autores de cabeceira eram Dostoiévski, Kafka e Camus.

O segundo romance, The Price of Salt (1952), saiu sob o pseudônimo Claire Morgan. Era uma história de lesbianismo, de inspiração ligeiramente autobiográfica, e Patricia não queria ser rotulada de “autora lésbica”. Ao longo da vida teve relações breves e tempestuosas com homens e mulheres.

Em 1955 surgiu seu personagem mais famoso, no romance O Talentoso Mr. Ripley. O vigarista frio e sexualmente ambíguo Tom Ripley reapareceria em quatro outros livros e em um punhado de filmes, na pele de Alain Delon, Dennis Hopper, Matt Damon e John Malkovich.

Acusada de não gostar de negros e de ser antissemita, Patricia era tida também como antiamericana. Morou na Europa desde 1963, convivendo mais com animais que com humanos. “Minha imaginação funciona muito melhor quando não tenho de falar com gente.”

Calçada da Memória
José Geraldo Couto

Pacto Sinistro (1955)
Um rico desocupado (Robert Walker) conhece por acaso em um trem um tenista profissional (Farley Granger) e propõe a ele um estranho pacto: ele mata a mulher do outro, e em troca este mata seu pai. Um dos filmes mais perfeitos de Hitchcock, que contou com a participação de Raymond Chandler e Ben Hecht na escrita do roteiro.

O Sol por Testemunha (1960)
Milionário americano contrata Tom Ripley (Alain Delon) para buscar na Europa seu filho playboy Philippe (Maurice Ronet). Forma-se entre Ripley, Philippe e a namorada deste um intrincado jogo de parceria, traição e sedução. Noir colorido e solar de René Clement. Delon foi considerado “o Ripley ideal” por Highsmith.

O Amigo Americano (1977)
Ripley (Dennis Hopper), que vende quadros falsos na Europa, tenta convencer um moldureiro alemão (Bruno Ganz), diagnosticado com câncer, a matar um homem de quem ele precisa se livrar. Filme crucial na carreira de Wim Wenders, que utiliza no elenco dois de seus mestres americanos, Nicholas Ray e Samuel Fuller.

27.8.11

Verdade, Mentira. Verdades, Mentiras.



Eduardo Galeano, em um congresso na Itália em 2004, analisa algumas questões do mundo atual...

26.8.11

Opinião, Robert Fisk

 
 
Robert Fisk: “Eles só conseguem sobreviver pendurados em nossos umbigos ocidentais”

 
Robert Fisk: A História se repete, com erros do Iraque ensaiados de novo
Com Gaddafi à solta, uma guerra de guerrilha erodindo os novos poderes é inevitável

Condenados a lutar sempre a última guerra, estamos repetindo de novo o velho pecado na Líbia.

Muammar Gaddafi desaparece depois de prometer lutar até a morte. Não foi isso o que Saddam Hussein fez? E, naturalmente, quando Saddam desapareceu e as tropas dos Estados Unidos sofreram as primeiras baixas dos insurgentes iraquianos em 2003, nos foi dito, pelo proconsul dos Estados Unidos Paul Bremer, pelos generais e diplomatas e pelos decadentes “especialistas” televisivos — que os atiradores da resistência eram “fanáticos” que não se davam conta de que a guerra tinha terminado. E se Gaddafi e seu filho aloprado continuarem soltos — e se a violência não acabar — quando tempo vai demorar para que a gente seja apresentado aos “fanáticos” que simplesmente não entendem que os caras de Benghazi estão agora no controle e que a guerra acabou? Na verdade,  15 minutos — literalmente — depois de eu escrever as palavras acima (2 da tarde de ontem), um repórter da Sky News reinventou os “fanáticos” como definição para os homens de Gaddafi. Vocês me entendem?

Não é preciso dizer, tudo está se saindo melhor que o melhor dos mundos no que concerne aos interesses do Ocidente. Ninguém desmontou o exército líbio e ninguém está dispensando os defensores de Gaddafi de um papel no futuro do país.  Ninguém vai cometer os mesmos erros cometidos no Iraque. E as botas [ocidentais] não estão no terreno.  Nenhum zumbi ocidental vivendo em uma cidade murada como a Zona Verde está tentando governar o futuro da Líbia. “Isso é com os líbios” se tornou um refrão dos Departamento de Estado/Foreign Office/Quai d’Orsay. Nada a ver conosco!

Mas, naturalmente, a presença maciça de diplomatas ocidentais, representantes dos barões do petróleo, mercenários altamente remunerados e militares sombrios britânicos e franceses — todos pretendendo ser “assessores”  em vez de participantes — equivale a uma Zona Verde em Benghazi. Pode não haver, ainda, muros em torno deles, mas eles estão de fato governando a Líbia através de vários heróis e traidores que se estabeleceram como chefes políticos locais. Podemos esquecer do assassinato do próprio comandante militar destes chefes políticos — por alguma razão, ninguém menciona mais o nome de Abdul Fatah Younes, embora ele tenha sido liquidado em Benghazi apenas um mês atrás –, mas eles só conseguem sobreviver pendurados nos nossos umbigos ocidentais.

Naturalmente, esta guerra não é a mesma guerra que nossa pervertida invasão do Iraque. A captura de Saddam apenas incentivou a resistência a promover infinitamente mais ataques contra as tropas ocidentais — porque aqueles que se negavam a participar da insurgência por medo de que os americanos colocassem Saddam de novo no poder perderam qualquer inibição.  Mas a prisão de Gaddafi junto com Saif com certeza reduziria a resistência dos pró-Gaddafi contra os rebeldes. O verdadeiro temor do Ocidente — neste momento, o que pode mudar rapidamente — deveria ser a possibilidade de que o autor do Livro Verde consiga chegar de volta ao terreno conhecido de Sirte, onde a lealdade tribal pode se mostrar mais forte que o medo da força líbia apoiada pela OTAN.

Sirte, onde Gaddafi,  bem no início da sua ditadura, fez com os campos de petróleo o primeiro grande leilão internacional para investidores estrangeiros depois da revolução de 1969, não é Tikrit [cidade de Saddam Hussein, no Iraque]. É a sede da primeira conferência da União Africana, a apenas 20 quilômetros do lugar de nascimento de Gaddafi, uma cidade e uma região que se beneficiaram fortemente de seu governo de 41 anos. Strabo, o geógrafo grego, escreveu que os pontos dos acampamentos no deserto ao sul de Sirte formavam na Líbia o desenho da pele de um leopardo. Gaddafi deve ter gostado da metáfora. Quase 2 mil anos mais tarde, Sirte era basicamente a conexão entre as duas colonias italianas da Tripolitânia e da Cyrenaica.

E em Sirte os “rebeldes” foram derrotados pelos “legalistas” nesta guerra de seis meses; nós, sem dúvida, teremos de brevemente trocar estes rótulos — quando aqueles do Conselho de Transição Nacional apoiados pelo Ocidente deverão ser chamados de legalistas e os rebeldes pró-Gaddafi se tornarão os “terroristas” quando atacarem o novo governo líbio amigável ao Ocidente. De qualquer forma, Sirte, cujos habitantes estão agora supostamente negociando com os inimigos de Gaddafi, pode se tornar em breve uma das cidades mais interessantes da Líbia.

Então, o que Gaddafi está pensando agora? Desesperado, acreditamos que ele está. Mas, realmente? Já escolhemos muitos adjetivos para ele no passado: irrascível, demente, louco, magnético, incansável, teimoso, bizarro, estadista (descrição de Jack Straw [ex-ministro britânico]), enigmático, exótico, bizarro, doido, idiossincrásico e — mais recentemente — tirânico, assassino e selvagem. Mas, com sua visão distorcida e astuta do mundo líbio, Gaddafi faria melhor se sobrevivesse e vivesse para continuar o conflito civil-tribal e assim consumir os novos amigos líbios do Ocidente no pântano de uma guerra de guerrilhas — tirando aos poucos a credibilidade do novo poder “transitório”.

A natureza imprevisível da guerra líbia significa que as palavras raramente sobrevivem ao ato de escrevê-las. Talvez Gaddafi se esconda num túnel sob o porão do hotel Rixos — ou na sala-de-estar de uma das villas de Robert Mugabe [no Zimbábue]. Duvido. Desde que o Ocidente não tente lutar a mesma guerra que precedeu esta.

Thursday, 25 August 2011, no diário britânico Independent

A desigualdade global, por Mino Carta


Orwell: infelizmente, estava certo. Foto: AP


 
 
A desigualdade global



Mino Carta


Frases feitas afirmam-se periodicamente. Depois da queda do Muro de Berlim vingou a ideia de que também ruíra a ideologia como se a nova crença não fosse altamente ideológica. No momento, se você observa que nem tudo no Brasil anda às mil maravilhas, ouvirá de bate-pronto que o mundo inteiro está em crise. Alguém acrescentará: nesta moldura de franca decadência, até que nós estamos em condições menos graves. Em parte, é verdade. Factual, como indicam os índices de crescimento do País, ainda bastante razoáveis.

No imanente e no contingente, verdades factuais de diversos pesos têm de ser registradas, a começar pela crise econômica e financeira e pelas responsabilidades dos senhores da Terra, impávidos na repetição dos erros que provocaram o desastre de 2008 e que, três anos depois, precipitam a recaída. Recaídas sempre agudizam a doença.

Há, em contrapartida, os avanços científicos e tecnológicos. São passos importantes, e mesmo assim têm duas faces como Janus bifronte, e se prestam a aprofundar as desigualdades, em um mundo que se povoa de velhos nos países ditos ricos e cresce à desmesura nos países pobres. Somos hoje 7 bilhões de terráqueos e seremos 10 bilhões em poucas décadas. Pergunta óbvia e imediata: haverá comida para todos? Surgem, porém, outras perguntas, igualmente pertinentes: qual será o tamanho da contribuição desse aumento populacional ao desequilíbrio ambiental? Previsões sombrias: as temperaturas crescerão 4 graus. Ah, sim, vai faltar água.

Estamos de acordo quanto ao fato de que George Orwell foi um infatigável pessimista. Leonardo da Vinci imaginou o helicóptero, Verne o submarino, Orwell o Grande Irmão, a nos espreitar dia e noite. Os três anteciparam os eventos. Propuseram o teorema e o provaram. Talvez valha considerar como a evolução tecnológica e a chamada cultura de massa acabaram por dar razão a Orwell. A humanidade bombardeada pelas versões midiá-ticas comandadas pelos Murdoch da vida, titulares e aspirantes, espionada até nos recessos mais recônditos, tolhida fatalmente à prática do espírito crítico, emburrece em progresso inexorável.

O seguinte quesito exige uma resposta rápida: anima-nos constatar que líderes globais se chamem Cameron, Sarkozy, Obama, Berlusconi, Merkel etc. etc.? Houve tempos melhores, e eis mais um sinal da decadência, sem falar de Trichet, Bernanke e companhia. Sim, o mundo é cada vez mais medíocre, para não dizer incompetente. Inepto em geral, e mesmo na inépcia, desigual. Não me refiro, está claro, à desigualdade econômica e social ou mesmo estética, como se tivesse a pretensão de comparar o Sambódromo carioca com o Coliseu, a anacrônica Sé de São Paulo com a Catedral de Chartres.

Jean Clair, o mais importante crítico de arte francês, acaba de publicar um livro em que investe contra a chamada arte contemporânea. Digamos, ao acaso, a do inglês Hirst, que vende por 12 milhões de dólares um cadáver de tubarão mergulhado em um cubo de vidro cheio de formol, a fingir uma intacta ferocidade. Clair denuncia os assassinos da arte, de fato mestres em marketing. Na Europa, instigado pela própria crise, desenrola-se um intenso debate sobre a validade de empulhações variadas propostas por bienais e outras tertúlias pretensamente artísticas, e sobre os preços impostos pelo mercado em delírio. Por aqui, continuamos a importar vezos, modas, besteiras inomináveis.

O Reino Unido produz uma televisão como a BBC, aqui é a treva. Quem se der a comparar os jornalões nativos com The Guardian ou o La Reppublica não poderá deixar de cair em depressão. Também não são nativos os irmãos Coen, Seamus Heaney ou Philip Roth. Em compensação os nababos brasileiros, sobretudo paulistanos, assemelham-se aos emires do Golfo, e um dos países de pior distribuição de renda do mundo baseia em São Paulo a segunda maior frota de helicópteros do globo.

A maioria dos brasileiros não possui a consciência da cidadania e até hoje 1% da população é dona de 50% das terras férteis. Temos um povo resignado e uma elite, salvo raras exceções, exibicionista, ignorante, mal-educada e terrivelmente provinciana. Não é assim em outros cantos, e são estes pontos que convém ressaltar se o assunto é a desigualdade global. E o Brasil, sempre para ficar nos exemplos, é também o país onde um assassino contumaz como Cesare Battisti recebe asilo e, no momento, do Ministério da Justiça os documentos que o habilitam como livre cidadão a viver e trabalhar entre nós.

Não é por acaso que quaisquer estudos, pesquisas e estatísticas sobre o ensino no Brasil exibem a precariedade do próprio. No fundo, o Caso Battisti é, antes de mais nada, a prova de uma enorme, abissal ignorância, exibida à larga, até com empáfia, em nome da soberania nacional. Avulta a ignorância de autoridades, juristas e juízes (?) que ao enfrentarem o problema nem se dignaram a inteirar-se da história da Itália do pós-Guerra.

Encerrado o lamentável capítulo, na esteira acaba de vir a derradeira decisão: turistas italianos poderão permanecer 90 dias por ano, improrrogáveis, em lugar dos 180 dias anteriores, proporcionados a todos os europeus. Soa como represália aos protestos de Roma, retoque final à altura da história toda.

Mino Carta

Mino Carta é diretor de redação de CartaCapital. (redacao@cartacapital.com.br)

Crise

 
 
 
Como sair da crise
 
Vitor Bento


O “como” do “sair da crise” pode ser visto por dois ângulos. O dos meios – o que fazer para conseguir sair da crise – e o do resultado – em que estado se consegue sair da crise.

Juntando os dois ângulos, poderemos equacionar o desafio da seguinte forma: que meios deverá o País utilizar para sair da crise no melhor estado possível, envolvendo a melhor combinação entre custos imediatos e perspectivas de progresso duradouro?

Para responder ao desafio, o País terá que resolver três grandes problemas: 1) tornar sustentável a situação financeira, quer do Estado, quer da economia; 2) ajustar-se - finalmente! - ao regime monetário resultante da adopção do euro, tornando a economia flexível e concorrencial para ser eficiente e poder competir (com uma moeda que não controla), assegurando o retorno á convergência económica; e 3) preservar as condições necessárias para que a comunidade nacional não perca os instrumentos essenciais para continuar a controlar o seu destino e a oferecer oportunidades de realização plena aos seus cidadãos.

A solução dos dois primeiros problemas está a ser articulada através do memorando subscrito com a ‘troika'. Depende das nossas acções, mas depende também das acções das autoridades europeias, no contexto sistémico daqueles problemas, e depende da evolução do contexto económico internacional. A solução de ambos é fundamental para o primeiro ângulo do "como". A solução do terceiro problema, articulada com a do segundo, é fundamental para o outro ângulo.

Os dois primeiros problemas têm uma grande interdependência, que envolve o risco de ‘feedbacks' negativos e estreita o espaço de sucesso. As condições de sustentabilização financeira envolvem um aperto simultâneo da política orçamental e das condições monetárias. O efeito, inevitavelmente recessivo, dessa tenaz poderá exigir reforços de austeridade, que apertarão mais a tenaz ... e assim sucessivamente.

O primeiro problema só será apropriadamente resolvido com a restauração das condições de crescimento. No curto prazo, porém, estas são negativamente afectadas por aquela solução e estão praticamente dependentes apenas das reformas estruturais contempladas pela solução do segundo problema. Mas estas, se tiverem sucesso, demoram tempo a produzir os resultados desejados e podem, no imediato e transitoriamente, ter efeitos indesejados. Pelo que "o entretanto" - o tempo entre os efeitos adversos da austeridade e do primeiro impacto de algumas reformas e os efeitos favoráveis das reformas estruturais - será um tempo de tensão que poderá erodir a base social e política de resposta ao desafio.

Para facilitar "o entretanto" é fundamental, pois, que as autoridades europeias sejam um elemento facilitador e não introduzam adversidades adicionais. Conta-se com a sua solidariedade para que disponibilizem os meios financeiros, a custo que não agrave a insustentabilidade da situação e pelo tempo necessário a que o País se concentre no ajustamento interno e recupere as condições de solvabilidade duradoura, sem ter que atender à lufa-lufa da pressão dos mercados. E que consigam articular a política económica do conjunto da zona euro, por forma a evitar uma envolvente também recessiva.

Neste particular ponto, conviria recordar duas coisas. A primeira é que, no actual contexto, a inflação é o menor dos problemas com que a Europa (e o mundo) tem que se preocupar. E a segunda é que as duas últimas subidas de juros por parte do BCE foram dois ‘faux pas', tomados quase na véspera da emergência de sérios sinais recessivos.

Por outro lado e ao atender aos dois primeiros problemas, convém ter o cuidado necessário na medicação para que esta, debelando a urgência aguda, não deixe o organismo demasiado debilitado para vida pós-crise. E daí a importância de uma boa solução também para o terceiro problema.

Para isso, deve ter-se presente que as teorizações económicas se desenvolvem frequentemente num espaço político-social abstracto e indiferenciado. Mas as economias "reais" funcionam em espaços político-sociais concretos e diferenciados. O que significa que o que é previsto para o primeiro espaço nem sempre funciona da mesma forma quando se aplica aos segundos e às respectivas interacções.

A economia é uma actividade social, que opera em sociedades concretas, com instituições, história e cultura próprias. Essas sociedades, por sua vez, articulam-se, funcionam e interagem politicamente. E, neste contexto, as instituições da organização económica e a riqueza que esta produz são, em última instância, instrumentos estratégicos de acção política.

Tendo isso presente, e apesar da vulnerabilidade estratégica a que nos conduziu a longa acumulação de défices externos, é importante não descurar o terceiro problema, que é relevante para o estado em que sairmos da crise.
____

Vitor Bento, Economista

24.8.11

Guerra Fria, Guerra Santa, Guerras, Guerras...

JORNALISMO LAICO
Depois da Guerra Fria, a Guerra Santa

Por Alberto Dines


A questão religiosa está nas manchetes, capas, telinhas e monitores da mídia mundial. Há mais tempo, com mais destaque e mais espaço do que a crise econômica mundial (formalmente iniciada em setembro de 2008) e os conflitos bélicos propriamente ditos.

O mapa-múndi contemporâneo é na realidade um registro cartográfico das fogueiras acesas depois da queda do Muro de Berlim. O fogo sagrado inviabiliza o Afeganistão (Ásia Central), divide a dividida Indonésia, inflama o Irã, sangra o Iraque e todo o Oriente Médio (Israel inclusive), espalha-se pelo Magreb, vai ao centro da África, cruza o Mediterrâneo, volta a se aninhar no habitat natural da Península Ibérica, infiltra-se em quase toda a Europa, Países-Baixos, Escandinávia (o Massacre de Oslo foi um pogrom religioso), atravessa o Atlântico e instala-se no sistema linfático dos Estados Unidos. A América Latina não escapa da grande conflagração embora os adversários (católicos e protestantes) identifiquem-se como soldados de Cristo.

Esclarecimento, ponderação

Não se trata de um enfrentamento litúrgico ou teológico, Deus não está em discussão, nem a conquista territorial dos Estados conflagrados como aconteceu na Guerra dos Trinta Anos (1618-1648). O objetivo das cruzadas do século 21 é a conquista dos corações e mentes (mais aqueles do que estas) dentro desses Estados.

O que estamos testemunhando sem perceber não é o “choque de civilizações” como o previu Samuel P. Huntington, mas uma tentativa de paralisar o processo civilizacional que marca a humanidade há alguns milênios. Gigantesca guerrilha política, a primeira no gênero, verdadeiramente global, disfarçada em conflito confessional com o objetivo de trocar o ser humano pleno, soberano, em mero adorador de imagens e rituais.

A consagração da sinistra Michele Bachman, a verdadeira feiticeira de Salem, como líder do Tea Party (ou Hate Party, dá no mesmo) liquida o conservadorismo político americano e obriga os republicanos – todos os republicanos – a se aproximarem de uma forma ou de outra da arcaica Ku-Klux-Klan.

Em Madri, o papa Bento 16 diante da maior concentração religiosa na história do país adverte energicamente aos jovens que foram ouvi-lo na Jornada Mundial da Juventude que só existem duas opções de vida: casar-se ou ingressar em conventos. Sua Santidade não explicou o que devem fazer aqueles que não querem ou não podem se casar e os que recusam encarcerar-se numa ordem religiosa. Suicidar-se ou cair na gandaia?

As Organizações Globo declaram-se laicas em seus Princípios Editoriais, mas não conseguiram cobrir – de forma isenta ou engajada – o que se passou na Espanha antes, durante e depois da visita do papa. Apenas a Folha de S.Paulo, nos minguados espaços entre colunas assinadas e anúncios de imóveis, ofereceu uma pálida idéia das manifestações em defesa do Estado secular na Espanha.

Laicismo não é sinônimo de omissão. Jornalismo laico é obrigatoriamente esclarecedor, ponderado, ajuizado. Sobretudo tolerante. Defender o Estado secular não significa investir contra as religiões ou crenças, queimar templos, livros sagrados ou desrespeitar devoções. Significa apenas defender o Estado de Direito democrático e isonômico.

Mais luz


O mundo maometano fragmenta-se irremediavelmente: a divisão entre xiitas e sunitas ultrapassou a rivalidade entre seitas e dinastias que conflitam há 1.500 anos. Gerou um processo incontrolável de disputas e fragmentações menores que, longe de pacificar o Islã para fortalecê-lo, sangra-o em batalhas fratricidas perenes. O Islã surgiu como um processo conciliador – isso precisa ser mostrado ao leitor, ouvinte, telespectador.

O Estado de Israel foi criado a despeito da oposição da maioria dos religiosos ortodoxos que só admitiam a Redenção pelas mãos do Messias. O fundamentalismo religioso judaico está corroendo não apenas os fundamentos da democracia israelense como os do próprio sionismo. Nas comunidades judaicas da Diáspora o apoio aos governos de Israel deixou de ser automático, natural. Isto é bom para revitalizar os fundamentos éticos e culturais do judaísmo. E quem O Globo designa para opinar sobre o Oriente Médio na sua nobre página de opinião? O cônsul honorário de Israel no Rio de Janeiro, religioso, declaradamente de direita.

Os movimentos desta Guerra Santa Mundial precisam ser detectados e explicados, senão nas apressadas edições diárias, pelo menos nos fins de semana. O jornalismo impresso entrou em decadência porque voluntariamente abriu mãos das suas vantagens intrínsecas.

Um jornalismo laico como o preconizado nas diretrizes das Organizações Globo pede mais luzes, mesmo que hoje o Iluminismo seja confundido com uma marca de lâmpadas.

Fonte: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/depois-da-guerra-fria-a-guerra-santa

(Des)Ordem

 
 
 
Diante da (des)ordem mundial

Celso Amorim
*

“Tudo que é sólido desmancha no ar”, a célebre frase do Manifesto Comunista de Marx, utilizada como título de um dos raros best sellers de filosofia, de autoria do norte-americano- Marshall Berman, bem poderia descrever a realidade do mundo em que vivemos. Logo depois do espetáculo circense – com malabarismos algo pobres, é verdade – oferecido pelo Congresso norte-americano, uma agência chinesa de avaliação de risco e depois uma norte-americana decretaram o rebaixamento dos títulos dos Estados Unidos. O fato, noticiado quase com naturalidade por boa parte da mídia, se ocorrido 20 anos atrás, no auge da euforia com o “Fim da História”, teria soado como um exercício de ficção científica, um daqueles filmes de apocalipse político dos anos 1950.

Quem poderia prever, logo após a queda do Muro de Berlim, quando o Ocidente celebrava o fim do comunismo e a vitória final do capitalismo e da democracia liberal? E que, em duas décadas, o mundo estaria envolto em incertezas, que os pressupostos que haviam embasado todas as crenças e convicções teriam caído por terra, que o recém-expandido (para acomodar a Rússia) G-8 teria sido substituído por um (então) inimaginável G-20 como o principal fórum para coordenação de política econômica global?

E, para passar do terreno da economia política para o da paz e da segurança, quem imaginaria, não há 20 anos, mas há dois ou três, que Washington assistiria, impassível, ao julgamento, com possível condenação à morte, do seu grande aliado no mundo árabe, o exemplo de “líder moderado” egípcio, Hosni Mubarak? Enquanto a Líbia em chamas (não só pelas atrocidades de Muamar Kadaffi, mas também pelos bombardeios da Otan) aguarda que um lampejo de coragem e sensatez ajude a encontrar uma saída negociada para a guerra civil em que está submersa.

Ao mesmo tempo, conceitos que nos acostumamos a considerar como inabaláveis – mas nem por isso menos sujeitos à manipulação – como o de “ocidente”, passam a inspirar ações terroristas, levianamente atribuídas (e de certa forma descartadas) à loucura de um indivíduo.  Seria preciso recordar o nosso Euclides da Cunha, que, ao comentar as medições feitas no crânio de Antônio Conselheiro, após o massacre de Canudos, recordava que ainda não havia um método para medir as “loucuras das civilizações”. É que, na nossa visão particularista do mundo, somente a religião do “outro” poderia conduzir a atos de barbárie.

E mesmo que se diga, talvez com razão, que se trata de um ato isolado, que não faz parte de uma conspiração ou de um movimento organizado, como separar tal ação do crescimento da extrema-direita- europeia-, fomentado por uma cultura de exclusão do “estrangeiro”, visto como bárbaro invasor. E a mesma atitude de desprezo – que facilmente se transforma em ódio – diante do mundo, revela-se na irresponsabilidade com que o Congresso dos Estados Unidos tratou da questão da dívida, pouco se importando que, em consequência da batalha por ganhos eleitorais, a incerteza sobre a economia mundial pudesse se transformar em crise profunda, que levaria à bancarrota o sistema financeiro internacional, mas, sobretudo, espalharia a fome e a pobreza pelo mundo, em uma escala provavelmente muito maior do que ocorreu durante a Grande Depressão, por causa mesmo da interdependência gerada pela globalização.

Tudo isso faz pensar em uma crise de valores, que vai muito além de um fenômeno puramente econômico ou político e que nos obriga a uma reflexão profunda. Minha geração, que cresceu no pós-Guerra, foi formada em torno de certezas que não mais se sustentam. A esquerda via no socialismo a esperança de salvação não só do proletariado, mas de toda a humanidade. Teve de ajustar seu discurso e, mais que isso, sua visão do mundo a uma realidade sem paradigmas concretos a serem seguidos. De alguma maneira, reinventou-se com base em movimentos de trabalhadores e na defesa de outras causas nobres, como a igualdade de raça e de gênero, a defesa de padrões sustentáveis de vida e o exercício de uma práxis solidária, tida por muitos como irrealista.

Essa atitude teve impacto nos sistemas políticos internos e, de alguma forma, chegou ao cenário internacional, em que pese à resistência conservadora. Não é uma adaptação fácil. Como manter o idea-lismo transformador sem ter mais no horizonte o “socialismo científico” ou outra forma semelhante de utopia? E o que fazer, no mundo de hoje, de conceitos como o de “Ocidente”, que, de Voltaire a Marx, de Bertrand Russel a Sartre, serviram de inspiração para os jovens das décadas de 1950 e 1960, que, já na idade madura, veriam esboroar, juntamente com o Muro de Berlim e a certeza na força do capitalismo norte-americano, os “tijolos” da construção de um novo mundo.  Não é uma coincidência talvez que analistas políticos hoje estejam em busca de novos BRICS.

Essas reflexões aparentemente abstratas não são irrelevantes quando se considera o lugar do Brasil no mundo. Acostumamos a nos ver como um país ocidental, parte de uma civilização que alguns dentre nós queriam transformar e outros conservar, mas cujos alicerces não contestávamos. Hoje, quando assistimos às consequências desastrosas do particularismo, seja muçulmano, cristão ou judeu, seja de qualquer outra índole, devemos nos perguntar se a ideia do não alinhamento, surgida durante a Guerra Fria, como resposta à bipolaridade, não deve ser aprofundada e levada às suas consequências lógicas.

Essencialmente, trata-se de encarar o mundo como ele é, sem os confortos de uma inserção automática, de um lado ou de outro do espectro político. Àquela época, feita a escolha inicial (ou, na maioria das vezes, aceita a condição que decorria de nossa situação no centro ou na periferia), éramos “poupados” de escolhas subsequentes. Nesse “admirável mundo novo”, que sucedeu não só a Guerra Fria, mas de certa forma o “pós-Guerra Fria”, não há agendas prefixadas nem opções predefinidas.  Em política externa, como queria Sartre para os indivíduos, estamos “condenados” a ser livres. Há algo de muito positivo nisso, como vimos no caso das negociações da Alca ou mesmo do Acordo -Mercosul-União -Europeia, em que nossa atitude firme impediu, de forma surpreendente para muitos, que embarcássemos  em arranjos comerciais que teriam, no mínimo, agravado os efeitos da crise financeira de 2008. Naqueles dois casos e na ênfase na integração da América do Sul e na busca de diversificação de parcerias, ficou claro que nosso País tinha não só a capacidade de posicionar-se sobre os temas de uma agenda imposta de fora, como também de – algo novo para nós, pelo menos nessa escala – de “criar” nossa própria agenda.

O que tem ocorrido recentemente no mundo corrobora essa reflexão. Do Irã à Síria, da Primavera Árabe à tragédia líbia, passando pelo reconhecimento do Estado Palestino, nosso País tem sido “obrigado” a posicionar-se de forma independente, frequentemente “inventando” soluções e criando novas coligações, como o IBAS e os BRICS.  Até porque não há mais um ou outro “lado” com o qual possamos ou queiramos nos alinhar. Nossa recente atitude no Conselho de Segurança em relação ao caso da Síria, de cautela em apoiar uma resolução que abrisse caminho para o eventual- uso da força, seguida de uma construtiva busca de consenso em torno da condenação do ataque indiscriminado a civis, é um exemplo desse “exercício da liberdade”, como antes, a nossa busca de um acordo que abrisse caminho para a solução do impasse em torno do programa nuclear iraniano, certamente teve um custo em termos de opinião pública, em geral vítima da desinformação imposta pelo simplismo direcionado da grande mídia. Mas ele é uma consequência inescapável da nossa por fim assumida grandeza, de um lado, e da fluidez da realidade internacional, de outro.

O mesmo, mutatis mutandis, se passará na esfera econômica. Não tenho a pretensão de sugerir saídas mágicas, como uma nova moeda ou a utilização mais intensa dos Direitos Especiais de Saque, como meios de troca e reserva de valor. -Falecem-me conhecimentos para isso. Mas se a força da moeda repousa, nesta era pós-padrão ouro, na “confiança” (não é outro, como é óbvio, o sentido da palavra “crédito”), alguma solução deve ser buscada para a irreversível perda de credibilidade dos que decidem sobre o futuro da maior economia do mundo (e, em certo grau, também sobre a economia europeia).

Não devemos rejeitar o que a tradição ocidental nos legou: a força da razão e a busca da justiça com liberdade.  Mas o Brasil é um país plural.  É sul-americano- (e não nos esqueçamos que a América do Sul é tão indígena e afrodescendente quanto europeia). É, também, parte do mundo em desenvolvimento, da mesma forma que nações de outros continentes, como a Índia e a África do Sul, com as quais temos interesses comuns e afinidades, como tem sido demonstrado em -foros econômico-comerciais (como o G-20 e a OMC) e políticos (como o Conselho de Segurança). Não podemos nos limitar a opções únicas. Ou, muito menos, deixarmo-nos cercear pelo pensamento único. Temos de nos relacionar de maneira diversificada, não só na economia, mas também na política. Temos de enfrentar a “angústia” sartriana da escolha e deixar para trás os preconceitos, que, além de eticamente duvidosos, já não são operacionais para atuar no mundo de hoje, em que, mais do que nunca, a evolução dos fatos varre velhas certezas.

*(O novo ministro da Defesa com este texto despede-se dos leitores de CartaCapital depois de ter sido titular de uma coluna, Radical Livre, por cinco meses.)



Fonte: Carta Capital

23.8.11

ruídos...

 
 
 
 
 
 
Selvagem seja o ruído que faz seu amor
E manso e terno sejam seus gestos
Mais involuntários
E na dúvida de tudo acontecer
Você se dê e me dê  em um encontro, em um ponto
Totalmente sem ritmo, sem compasso e sem normas
A canção dos seus dias,
Leves dias...
 
 
 D-P.
 
(excerto do texto O Tempo do meu sexo)

O Brasil, da ainda eterna brincadeira...de mau gosto


 Fonte:
 http://diariogauche.blogspot.com/

"Foto-Legenda: Este é o tratamento que o PIG (Partido da Imprensa Golpista) dedica à presidenta da República, Dilma Rousseff. A foto está na página A-7, de ontem, na edição impressa do Estadão. Dilma aparece levemente arqueada, e a espada de um cadete parece trespassar o corpo da presidenta. Isso representa uma zombaria grosseira para com o cargo mais alto da República. É a forma – debochada e desrespeitosa – como as mídias conservadoras enxergam as instituições democráticas no Brasil. Ademais, é uma manifestação subliminar gratuita, não há nada na presente conjuntura do País que sustente ou justifique essa brincadeira de mau gosto."

eu...


EU






Artista: Tiê
Canção : Eu


(vamos nos reencontrar)

Khadafi




Excentricidade e brutalidade marcam o governo de Khadafi na Líbia








Martin Asser  (BBC)

Em um período que se estende por quatro décadas, o líder líbio, Muamar Khadafi, desfilou pelo cenário internacional com um estilo tão peculiar e imprevisível que as palavras "excêntrico" ou "dissidente" talvez não consigam descrevê-lo com exatidão.

Com suas aparições em reuniões internacionais marcadas por roupas extravagantes e discursos sem rodeios, Khadafi foi visto como herói revolucionário, pária do cenário internacional, parceiro estratégico valorizado e novamente pária.

O líder líbio desenvolveu sua própria filosofia política, escrevendo um livro que é, pelo menos de acordo com o autor, tão influente que se destaca mais do que qualquer coisa feita por Platão, Marx ou Locke.

O início

Em 1969, quando tomou o poder em um golpe militar sem violência, e no início da década de 70, Muamar Khadafi era um jovem oficial do Exército, considerado bonito e carismático.

Discípulo do presidente Gamal Abdel Nasser, do Egito (ele até adotou a mesma patente militar de Nasser, se promovendo de capitão para coronel depois do golpe), Khadafi começou seu governo enfrentando o legado de injustiça econômica deixado pela dominação estrangeira na Líbia.

E a grande questão de Khadafi foi o petróleo.

No final da década de 50, reservas de petróleo foram descobertas na Líbia, mas a extração do produto era controlada por companhias estrangeiras, que estabeleciam os preços para dar vantagens aos consumidores de seus países de origem e ficavam com metade da renda.

Khadafi exigiu a renegociação dos contratos, ameaçando fechar a produção se as companhias petroleiras se recusassem. Ele desafiou os executivos destas companhias estrangeiras, afirmando que "pessoas que viveram sem petróleo por 5 mil anos podem viver sem isto de novo por alguns anos para conquistar seus direitos".

A estratégia funcionou e a Líbia se transformou no primeiro país em desenvolvimento a garantir uma fatia majoritária dos ganhos de sua própria produção de petróleo. Outros países logo seguiram o exemplo e o boom do petróleo árabe da década de 70 começou.

E a Líbia logo colheu os benefícios. Com os níveis de produção alcançando os de países do Golfo, e uma das menores populações da África (menos de 3 milhões de pessoas na época), o país enriqueceu rapidamente.

Outro caminho


Ao invés de seguir as doutrinas do nacionalismo árabe ou seguir os excessos consumistas dos países do Golfo, Khadafi preferiu seguir outro caminho.
Filho de pais beduínos, nascido em 1942, Muamar Khadafi era um homem inteligente e talentoso, mas ele não teve uma educação completa, a não ser pela leitura do Corão e pelo treinamento militar.

No entanto, no começo dos anos 70, ele resolveu ser um filósofo político, desenvolvendo o que chamou de terceira teoria universal, destacada em seu famoso Livro Verde.

A teoria alega resolver as contradições inerentes no capitalismo e comunismo (a primeira e segunda teorias), para colocar o mundo em um caminho de revolução política, econômica e social e libertar os povos oprimidos.

Na verdade, a teoria é uma série de críticas severas e é muito irônico que um texto cujo objetivo seria libertar os povos dos interesses de sistemas políticos dominantes tenha sido usado para dominar uma população inteira.

O resultado da teoria de Khadafi, marcada pela intolerância absoluta a opiniões dissidentes ou alternativas, foi o esvaziamento da sociedade líbia de todos os vestígios de constitucionalidade, sociedade civil ou participação política

autêntica.

O sistema


O livro de Khadafi afirma que a solução dos problemas da sociedade não está na representação eleitoral, descrita por ele como uma "ditadura" do maior partido, ou qualquer outro sistema político. Mas o estabelecimento de comitês do povo para governar todos os aspectos da vida.

Este novo sistema é apresentado em forma de um diagrama no Livro Verde, com os congressos populares mais básicos em volta da borda de uma roda, elegendo os comitês do povo, que influencia um secretariado do povo, no centro.

O povo líbio foi levado a participar dos congressos populares, que não tinham poder real, autoridade ou orçamento, com o conhecimento de que qualquer um que falasse fora de sua vez ou criticasse o regime seria levado para uma prisão.

Uma série de leis draconianas foi imposta em nome da segurança do país com penas que incluíam punições coletivas, morte para os que espalhassem teorias que visassem implementar mudanças na Constituição e prisão perpétua para os que disseminassem informações que prejudicassem a reputação do país.

As histórias de tortura, longas penas de prisão sem um tribunal justo, execuções e desaparecimentos se multiplicaram.

Muitos dos cidadãos mais bem educados e qualificados escolheram o exílio ao invés de servir o regime.

'Cachorro louco'

Sem as restrições, Khadafi foi capaz de espalhar sua campanha contra o imperialismo pelo mundo, financiando e apoiando grupos e movimentos de resistência.

Ele também atingiu líbios exilados e dezenas destes foram mortos por assassinos que pertenceriam a uma rede secreta global da Líbia.

Mas, se os governos de outros países não se importavam com a violação de direitos na Líbia e perseguição de dissidentes, a situação de Khadafi mudou em 1986, quando uma casa noturna usada por soldados americanos em Berlim foi atacada com bombas e a culpa recaiu em agentes líbios.

O então presidente americano, Ronald Reagan, ordenou ataques aéreos contra Trípoli e Benghazi, como retaliação pela morte de dois soldados e um civil, além das dezenas de feridos em Berlim, mesmo sem provas concretas do envolvimento da Líbia.

A retaliação visava matar o "cachorro louco do Oriente Médio", como Reagan o chamou na época. Mas, apesar dos danos, de um número desconhecido de mortos, incluindo daquela que seria a filha adotiva de Khadafi, o líder líbio escapou ileso.

O próximo incidente desfavorável foi a explosão do voo 103 da Pan Am, sobre a cidade escocesa de Lockerbie, em 1988, causando a morte de 270 pessoas, no pior atentado da história da Grã-Bretanha.

Inicialmente Khadafi se recusou a entregar os dois suspeitos líbios para a Justiça escocesa, o que resultou em um período de negociações e sanções da ONU. Isto acabou em 1999, quando eles foram entregues e julgados.

Um deles, Abdelbasset Ali al-Megrahi foi condenado à prisão perpétua.

Século 21

A resolução do caso Lockerbie, junto com a renúncia de Khadafi ao programa nuclear e de armas químicas, abriu

caminho para uma retomada das relações entre a Líbia e os países ocidentais no século 21.

A retomada das relações foi vista como um dos poucos resultados positivos da invasão militar do Iraque em 2003. Khadafi teria visto o destino de Saddam Hussein, enforcado pelos iraquianos depois de um processo liderado pelos americanos, e teria aprendido a lição.

Com as sanções internacionais suspensas, Trípoli voltou ao itinerário da política internacional e, com isso, líderes como ex-premiê britânico Tony Blair, entre outros, frequentaram a luxuosa tenda ao estilo beduíno de Khadafi, erguida no terreno de seu palácio. Uma tenda que Khadafi levava junto com todo o luxo em suas viagens.

Apesar dos protestos de familiares americanos das vítimas do atentado de Lockerbie, a Líbia continuou fechando contratos com companhias ocidentais.

Entre os árabes, Khadafi manteve sua fama de ovelha negra na primeira década do século 21, fazendo aparições extravagantes nas reuniões da Liga Árabe, acendendo cigarros e jogando a fumaça no rosto do vizinho, com seus discursos inflamados ou se proclamando "rei dos reis da África".

Rebelião

Quando as primeiras revoltas começaram nos países árabes, em dezembro de 2010, a Líbia não estava no topo da maioria das listas de apostas dos próximos países.

Khadafi se encaixava no perfil de líder autoritário há décadas no poder, mas não era visto como servo do Ocidente ou acusado de não privilegiar os interesses de seu próprio povo.

Ele tinha redistribuído a riqueza, apesar de ser difícil ignorar o enriquecimento de sua própria família com o petróleo do país.

Khadafi também promoveu grandes obras públicas e houve até uma chamada Primavera de Trípoli, na qual foi dado a entender aos exilados que eles poderiam voltar ao país sem o risco de ir para a prisão ou serem perseguidos.

E, quando os primeiros sinais de manifestações começaram no país, Khadafi prometeu protestar junto com o povo.

Mas as primeiras imagens da rebelião no país mostraram jovens líbios em Benghazi em frente a um prédio oficial, destruindo um monumento que simbolizava o Livro Verde de Khadafi.

E, enquanto a rebelião se espalhava, e a gravidade da ameaça ao seu regime ficava cada vez mais aparente, Khadafi mostrou que não tinha perdido nenhuma da brutalidade que mostrou contra dissidentes nas décadas de 70 e 80.

Desta vez, esta brutalidade foi direcionada contra cidades inteiras onde as pessoas ousaram pedir sua saída. As forças regulares do país, com o apoio de mercenários, quase subjugaram os grupos rebeldes, formados por militares desertores e milicianos com pouco treinamento.

Mas, a intervenção da Otan em março, autorizada pela resolução da ONU que pedia a proteção de civis líbios, evitou a aniquilação destes rebeldes. No entanto, eles ainda precisaram de meses para conseguir uma vantagem.

No momento em que este artigo foi escrito, os rebeldes chegaram a Trípoli e o regime de Khadafi parece ter se desintegrado. Mas, o último capítulo de sua carreira política ainda não foi escrito e o final poderá ser imprevisível.


Trechos do 'Livro Verde'


"Liberdade de expressão é o direito de cada pessoa, mesmo se a pessoa escolher se comportar irracionalmente, para expressar sua insanidade. (...) Mulheres, como os homens, são seres humanos. Isto é uma verdade incontestável... Mulheres são diferentes dos homens na forma, pois são fêmeas, como todas as fêmeas dos reinos vegetal e animal diferem dos machos de suas espécies... Segundo ginecologistas, as mulheres, diferente dos homens, menstruam todos os meses... Como os homens não podem engravidar, eles não passam pelas indisposições que as mulheres passam. "

http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2011/08/110822_khadafi_biografia_fn.shtml

Notícias da Líbia

 
 
 
Líbia: deputados brasileiros são barrados e denunciam carnificina


Daniel Favero

Um comitiva brasileira composta pelos deputados brasileiros Protógenes Queiroz (PCdoB-SP) e Brizola Neto (PDT-RJ) foi barrada ao tentar entrar na Líbia para onde seguiram em missão oficial para averiguar a situação naquele país, que desde fevereiro, sofre com a violência gerada por protestos pela derrubada do ditador Muammar Kadafi e pela intervenção de forças de coalizão da Otan. Protógenes disse que antes de sair da região previa que a Otan e as forças rebeldes (o Conselho Nacional de Transição) promoveriam uma carnificina na capital, Tripoli.

"Tenho certeza que a Otan vai intensificar esses bombardeiros em Trípoli, essas forças rebeldes vão avançar e vai ser uma carnificina", disse o deputado.

Segundo o parlamentar, que viajou a convite do governo líbio e de uma entidade internacional, no dia 14, a intensificação dos combates ocorrida neste final de semana impediu a entrada da delegação em território líbio, já que os rebeldes do Conselho Nacional de Transição entraram em conflito com o Exército da Tunísia pelo controle da fronteira. A escalada da violência dentro do território da Tunísia e a falta de alimentos e água, fizeram com que a delegação decidisse voltar.

"A Otan bombardeou esse acesso que fica na cidade de Bengardain (Tunísia), que fica a uma hora e meia de Trípoli (Líbia). Os rebeldes tomaram controle dessa fronteira e impediram a nossa passagem, se passasse seria metralhado. Teve a família de um médico que tentou passar com medicamentos e teve o carro metralhado", disse o parlamentar que considerou estranho o bombardeio ter ocorrido quando o grupo de observadores se preparava para atravessar a fronteira.

Segundo ele, a delegação, composta ainda por países europeus, latino-americanos e africanos, conversou com representantes do governo líbio, representantes do governo brasileiro, mas não conseguiu falar com a Otan, nem com o Conselho Nacional de Transição (CNT) para ouvir todos os lados envolvidos no conflito.

Mesmo com recomendações contrárias da chancelaria brasileira, Protógenes diz que alugou um carro e, acompanhado do deputado Brizola Neto, mais uma comitiva, seguiram para a região de fronteira para averiguar a situação de conflito. "Nos informaram que não teríamos condições de seguir viagem para fronteira porque estava muito perigoso e poderiam ter conflitos na fronteira da Tunísia com a Líbia, mas queriamos ver de perto a situação e os ataques que estavam sendo feitos, que aconteciam toda a madrugada", disse.

Segundo ele não foi possível passar porque os rebeldes já haviam tomado a fronteira, dentro do território da Tunísia, o que gerou conflitos. "Pegamos carona com um comboio do Exército da Tunísia e verificamos as atrocidades". Ele diz que na sexta feira, a Venezuela ofereceu um avião para retirara família de Muammar Kadafi do país, mas o ditador não aceitou, autorizou somente a saída de seis familiares do país.

Protógenes diz que ao invés de procurar um solução pacífica, as forças de coalizão, comandadas por países que passam por crise econômica, continuaram as investidas belicistas em busca de "uma janela de oportunidades", já com os olhos voltados para as reservas de petróleo líbias. "É interesse deles (Otan) aumentar o conflito para obter o controle da situação e criar uma janela de oportunidades para controlar toda a da economia da Líbia".

As constatações serão reunidas em um relatório que será encaminhado para o presidente da Câmara dos Deputados, Marco Maia (PT-RS), no qual os parlamentares apontam excessos cometidos pela Otan em território Líbio. Segundo ele, o documento pode sevir para que o governo brasilerio forme sua posição acerca do conflito no norte da África.

Líbia: de protestos contra Kadafi a guerra civil e intervenção internacional
Motivados pela onda de protestos que levaram à queda os longevos presidentes da Tunísia e do Egito, os líbios começaram a sair às ruas das principais cidades do país em meados de fevereiro para contestar o líder Muammar Kadafi, no comando do país desde a revolução de 1969. Mais de um mês depois, no entanto, os protestos evoluíram para uma guerra civil que cindiu a Líbia em batalhas pelo controle de cidades estratégicas.

A violência dos confrontos entre as forças de Kadafi e a resistência rebelde, durante os quais milhares morreram e multidões fugiram do país, gerou a reação da comunidade internacional. Após medidas mais simbólicas que efetivas, o Conselho de Segurança da ONU aprovou a instauração de uma zona de exclusão aérea no país. Menos de 48 horas depois, no dia 21 de março, começou a ofensiva da coalizão, com ataques de França, Reino Unido e Estados Unidos.

http://noticias.terra.com.br/brasil/noticias/0,,OI5307800-EI7896,00-Libia+deputados+brasileiros+sao+barrados+e+denunciam+carnificina.html

20.8.11

Rua de Sombras e Risos






Quis mais do que fui viajante

o tempo é bem menos largo

se olhamos suas sombras

quis-me aventureiro

no meu lugar agreste

mas lá o tempo arrastava-se

reduzia-me o apetite

instância dos meus desejos

todos os caminhos levavam

ao mesmo lugar

pouco adiantava fugir das sombras

mas havia uma rua

uma rua que nunca dormia

uma rua de implacáveis risos

onde era proibido ir

repleta de personagens

que viviam como lâminas

afiados e prontos para

lutar , viver ou jazer

muito mais tarde descobri

que lá na rua dos risos

havia muito mais romantismo

e liberdade que jamais

encontrei em outro lugar.

suas sombras possuíam vidas.

D-P.