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26.8.11

Crise

 
 
 
Como sair da crise
 
Vitor Bento


O “como” do “sair da crise” pode ser visto por dois ângulos. O dos meios – o que fazer para conseguir sair da crise – e o do resultado – em que estado se consegue sair da crise.

Juntando os dois ângulos, poderemos equacionar o desafio da seguinte forma: que meios deverá o País utilizar para sair da crise no melhor estado possível, envolvendo a melhor combinação entre custos imediatos e perspectivas de progresso duradouro?

Para responder ao desafio, o País terá que resolver três grandes problemas: 1) tornar sustentável a situação financeira, quer do Estado, quer da economia; 2) ajustar-se - finalmente! - ao regime monetário resultante da adopção do euro, tornando a economia flexível e concorrencial para ser eficiente e poder competir (com uma moeda que não controla), assegurando o retorno á convergência económica; e 3) preservar as condições necessárias para que a comunidade nacional não perca os instrumentos essenciais para continuar a controlar o seu destino e a oferecer oportunidades de realização plena aos seus cidadãos.

A solução dos dois primeiros problemas está a ser articulada através do memorando subscrito com a ‘troika'. Depende das nossas acções, mas depende também das acções das autoridades europeias, no contexto sistémico daqueles problemas, e depende da evolução do contexto económico internacional. A solução de ambos é fundamental para o primeiro ângulo do "como". A solução do terceiro problema, articulada com a do segundo, é fundamental para o outro ângulo.

Os dois primeiros problemas têm uma grande interdependência, que envolve o risco de ‘feedbacks' negativos e estreita o espaço de sucesso. As condições de sustentabilização financeira envolvem um aperto simultâneo da política orçamental e das condições monetárias. O efeito, inevitavelmente recessivo, dessa tenaz poderá exigir reforços de austeridade, que apertarão mais a tenaz ... e assim sucessivamente.

O primeiro problema só será apropriadamente resolvido com a restauração das condições de crescimento. No curto prazo, porém, estas são negativamente afectadas por aquela solução e estão praticamente dependentes apenas das reformas estruturais contempladas pela solução do segundo problema. Mas estas, se tiverem sucesso, demoram tempo a produzir os resultados desejados e podem, no imediato e transitoriamente, ter efeitos indesejados. Pelo que "o entretanto" - o tempo entre os efeitos adversos da austeridade e do primeiro impacto de algumas reformas e os efeitos favoráveis das reformas estruturais - será um tempo de tensão que poderá erodir a base social e política de resposta ao desafio.

Para facilitar "o entretanto" é fundamental, pois, que as autoridades europeias sejam um elemento facilitador e não introduzam adversidades adicionais. Conta-se com a sua solidariedade para que disponibilizem os meios financeiros, a custo que não agrave a insustentabilidade da situação e pelo tempo necessário a que o País se concentre no ajustamento interno e recupere as condições de solvabilidade duradoura, sem ter que atender à lufa-lufa da pressão dos mercados. E que consigam articular a política económica do conjunto da zona euro, por forma a evitar uma envolvente também recessiva.

Neste particular ponto, conviria recordar duas coisas. A primeira é que, no actual contexto, a inflação é o menor dos problemas com que a Europa (e o mundo) tem que se preocupar. E a segunda é que as duas últimas subidas de juros por parte do BCE foram dois ‘faux pas', tomados quase na véspera da emergência de sérios sinais recessivos.

Por outro lado e ao atender aos dois primeiros problemas, convém ter o cuidado necessário na medicação para que esta, debelando a urgência aguda, não deixe o organismo demasiado debilitado para vida pós-crise. E daí a importância de uma boa solução também para o terceiro problema.

Para isso, deve ter-se presente que as teorizações económicas se desenvolvem frequentemente num espaço político-social abstracto e indiferenciado. Mas as economias "reais" funcionam em espaços político-sociais concretos e diferenciados. O que significa que o que é previsto para o primeiro espaço nem sempre funciona da mesma forma quando se aplica aos segundos e às respectivas interacções.

A economia é uma actividade social, que opera em sociedades concretas, com instituições, história e cultura próprias. Essas sociedades, por sua vez, articulam-se, funcionam e interagem politicamente. E, neste contexto, as instituições da organização económica e a riqueza que esta produz são, em última instância, instrumentos estratégicos de acção política.

Tendo isso presente, e apesar da vulnerabilidade estratégica a que nos conduziu a longa acumulação de défices externos, é importante não descurar o terceiro problema, que é relevante para o estado em que sairmos da crise.
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Vitor Bento, Economista

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