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28.9.11

o Rio Grande do Sul


Por que o RS optou pelo pior
 
 
Artigo de Cristóvão Feil
 


O Rio Grande do Sul porta uma riqueza cultural única no Brasil, que resulta da contribuição de múltiplas nacionalidades e etnias - algumas autóctones, como as diversas nações etnolinguísticas que tivemos e temos (sem jamais esquecer o holocausto do bravo povo Charrua, que preferiu o sacrifício da vida a se deixar evangelizar pelos jesuítas); outras, exóticas, como europeus, asiáticos e africanos. Temos comunidades representativas de todos os continentes, que aqui se expressam, se miscigenam, e de alguma maneira contribuem para o nosso vasto painel cultural chamado Rio Grande do Sul.

Todavia, somos conhecidos como "gaúchos". Ou melhor, o pensamento político hegemônico achou cômodo e funcional adequar um velho vocábulo marginal e desprestigiado - o gaúcho - para identificar de forma grosseira e imperfeita o tipo humano mais meridional do Brasil. Logo, mesmo a muque, somos gaúchos. Um gentílico reciclado e remodelado para representar o povo sulino, portanto, um locativo arbitrário e insuficiente - reducionista e ficcional.

O significado das palavras é histórico, porque muda conforme as ondulações do tempo e das vontades. Camões (ao lado) dizia que mudam-se os tempos e mudam-se as vontades. Gaúcho já foi o tipo marginal, uma espécie de andarilho em busca de um porto seguro, e que desconhecia as normas sociais estabelecidas. É, inclusive, uma expressão multinacional, comum à região platino-pampeana. "Gauchos" (pronuncia-se gáu-tchos) são os uruguaios e grande parte dos argentinos.

Assim, se a imprecisão avulta, cresce também a necessidade de emprestar mais atributos identitários ao gentílico, a fim de definir os contornos de uma personalidade singular e exclusiva.

Que tal trazer do passado recortes plásticos para dar-lhe espessura e densidade histórica? A guerra civil de 1835-1845 contra o Império da família Bragança pode ser uma boa ideia. Tem muitos ingredientes épicos, tintas republicanas, espírito indômito, traços libertários, uma subjetividade não contaminada pela cultura etnocêntrica, etcetera, que podem formar um nexo neste constructo mítico que se está moldando meio às cegas.

Como em toda mitologia, foram sendo costurados elementos portadores de significado e que representam a realidade. É a bricolagem de Claude Lévi-Strauss. Uma vasta colcha de retalhos do real, improvisados de forma a combinar um todo que guarda coerência com o passado, mesmo que parte deles seja ficção, parte metalinguagem, parte historiografia, parte contingência, parte realidade transfigurada, parte ideologia, parte má consciência, parte fetichismo, parte gabolice, e por aí vai. O gaúcho, portanto, é uma obra em aberto, e por isso, em disputa. Uma obra que flutua, uma "ideia feita" (Flaubert) e refeita constantemente pelos seus sustentadores (ou mesmo adversários, por que não?).

Brincando um pouco, é possível dizer que o gaúcho (à moda de Michel Foucault no prefácio de As palavras e as coisas, onde cita Jorge Luis Borges) está catalogado como “uma certa enciclopédia chinesa onde está escrito que os animais [os gaúchos] se dividem em: a) pertencentes ao imperador, b) embalsamados, c) domesticados, d) leitões, e) sereias, f) fabulosos, g) cães em liberdade, h) incluídos na presente classificação, i) que se agitam como loucos, j) inumeráveis, k) desenhados com um pincel muito fino de pelo de camelo, l) etcetera, m) que acabam de quebrar a bilha, n) que de longe parecem moscas”.

Quer dizer, cabe qualquer disparate para identificar esse "tipo ideal" (Weber) do bloco no poder sul-rio-grandense.

Semanas atrás, uma empresa midiática familial sulina, de grande influência no poder e no senso comum local, achou por bem em consultar os seus leitores/consumidores sobre quais seriam os principais personagens históricos do Estado, como se o senso comum dominasse de forma segura esse universo historiográfico e a partir disso pudesse fazer a classificação do panteão pretendido pela empresa de entretenimento. Por óbvio, havia uma cartela de nomes passíveis de representarem a farsa midiática, quase todos de ficção, alguns de ficção romanesca mesmo, como uma certa namorada do mercenário italiano Giuseppe Garibaldi, que hoje está entronizada como figura fundante da nossa "pequena pátria" (Comte).

Já se vê, pois, que há permissão para que qualquer indivíduo ou grupo incida nessa bricolagem mítica que é o constructo do gaúcho. É evidente que o pensamento hegemônico tira vantagem nessa disputa, afinal, detém a quase absoluta totalidade das mídias conhecidas, o Parlamento, o Executivo, o Judiciário, as Universidades, a publicidade, e uma formidável capilaridade no meio social, através da escola formal, clubes, associações, igrejas, entidades patronais, e mesmo sindicatos de empregados, etc.

Mas tem um componente neurótico nessa opção pelo tradicionalismo. Sim, porque entre dois tradicionalismos, escolheu-se o mais rústico e rasteiro. A que tradicionalismo nos referimos? Ora, o tradicionalismo vencedor é aquele filiado à corrente farroupilha de Bento Gonçalves da Silva, a tradição hegemonizada, portanto subalterna, é a de Julio Prates de Castilhos (ao lado), o responsável por um movimento político burguês que ainda no século 19 projetou o Rio Grande do Sul no século 20.

Hoje, predomina um ethos que corresponde à tradição imposta por um antigo ladrão de equínos e bovinos, Bento Gonçalves da Silva. São esses traços psicossociais que estão no poder no Estado, agora. A tradição representada pelo burguês modernizador, revolucionário (no estrito senso do vocábulo), austero e incorruptível, que foi Castilhos, está subordinada ao pragmatismo mais rebaixado e deletério. Informe-se que Julio de Castilhos preferiu as dificuldades materiais e contingentes do que advogar para sobreviver, depois que foi alijado do poder. Alegava que não poderia - moralmente - sequer peticionar a um magistrado que fora nomeado por ele quando chefe do Executivo estadual.

Esse modelo político-moral está arquivado no Rio Grande, em favor de um padrão inspirado no abigeato e na apropriação indébita do público e do privado.

Se o Rio Grande chegou primeiro ao século 20 (antes mesmo do resto do País), hoje, sai por último do mesmo século. O Brasil, aos trancos e barrancos, e de forma parcial, já chegou ao século 21, mas o RS se arrasta e se enxovalha no pântano a que foi conduzido pela hipertrofia do pragmatismo maragato, cuja matriz político-ideológica foi forjada durante o século 19, depois da guerra civil de 1835, e se estendeu até 1891, no dia 14 de julho quando é proclamada a Constituição castilhista que induz a modernização burguesa e a promoção geral e complexa da província fronteiriça sulina.

O castilhismo-borgismo promoveu uma autêntica revolução burguesa no Estado. Algo que o próprio Brasil experimentaria somente depois de 1930, com a chegada de Getúlio Vargas (ao lado) ao poder. Se nós tivemos uma revolução burguesa do tipo clássica, cruenta, que modificou radicalmente o poder regional, modernizando-o e aportando valores republicanos, ainda que não-democráticos, o Brasil não a teve. A modernização do País e a institucionalização do Estado, bem como o processo de industrialização, foram conquistas, não da burguesia, mas da iniciativa do próprio Vargas - forjado e projetado no sistema castilhista sul-rio-grandense.

Assim, festejamos o 20 de Setembro, por um capricho rançoso dos perdedores de 1893 (e que estiveram no poder durante toda a segunda metade do século 19 e só souberam se apropriar de terras devolutas do Estado monárquico, especialmente na região da Campanha).

Por que não festejamos o 14 de Julho de 1891? Justo a data da proclamação da Constituição republicana. Esta data é o dia fundante da verdadeira república rio-grandense. Por que festejamos a outra, a república farrapa, que admitia o escravagismo e tolerava todas as religiões, desde que fosse a católica romana? Uma falsa república fundada por falsos líderes, os mesmos que assinam o vergonhoso pacto de Ponche Verde com o Império dos Bragança, e de quebra recebem uma polpuda "indenização". É caso único no mundo, o vencido receber indenização do vencedor. A rigor, o Império comprou a "rebeldia" dos farroupilhas, e estes se venderam pelo vil metal.


México em chamas

México ruma para se tornar um Estado policial








O presidente Felipe Calderón enviou à Câmara de Deputados uma iniciativa para renovar o código penal do país, que daria margem legal para realizar detenções arbitrárias em caso de urgência, incorporaria ao marco legal um sistema de investigação sem autorização judicial, incluindo a batida em residências por denúncia anônima, a revista de pessoas e veículos e a intervenção em comunicações particulares. O artigo é de Luis Hernández Navarro.

Luis Hernández Navarro - Correspondente da Carta Maior na Cidade do México

As luzes de alarme já acenderam. O México caminha para a instauração de um Estado policial. No dia 21 de setembro, o presidente Felipe Calderón enviou à Câmara de Deputados uma iniciativa para renovar o Código de Procedimentos Penais que daria margem legal para realizar detenções arbitrárias em caso de urgência, incorporaria ao marco legal do país um sistema de investigação sem autorização judicial, incluindo a batida em residências por denúncia anônima, a revista de pessoas e veículos e a intervenção em comunicações entre particulares. Também assentaria as bases para a criação de um corpo de agentes infiltrados.

A medida se soma a outras já anunciadas. Em agosto, a Anistia Internacional advertiu que a situação do México está na fronteira de uma repressão generalizada como resultado da suposta responsabilidade do Exército nos casos de desaparecimentos forçados. O país, assinalou o organismo, do ponto de vista dos direitos humanos, poderia viver circunstâncias similares às verificadas nas ditaduras militares do Cone Sul nas décadas de 1970 e 1980.

Longe de melhorar a segurança pública, as reformas legais propostas pelo chefe do Executivo são um passo na direção da instalação de um Estado policial, da criminalização das dissidências políticas e sociais e de uma maior insegurança da sociedade em seu conjunto. A criminalidade não será reduzida pela via da diminuição ou da suspensão de direitos, liberdades e garantias e abrirá brechas jurídicas por onde podem prosperar com impunidade a repressão, a vingança política e outras condutas ilegais, abusivas e autoritárias.

A situação é grave. De acordo com a Comissão Nacional de Direitos Humanos (CNDH), entre janeiro de 2005 e maio de 2011, foram assassinados 27 defensores de direitos humanos e oito foram vítimas de desaparecimentos forçados. Além disso, foram abertos 5234 expedientes por supostas violações de direitos contra eles.

A agressão aos defensores de direitos humanos tem como pano de fundo a aberta hostilidade das Forças Armadas contra eles. Segundo o almirante Mariano Francisco Saynez, secretário da Marinha, as quadrilhas de criminosos tratam de manchar o prestígio e o bom nome das instituições utilizando-se de grupos de cidadãos e da bandeira dos direitos humanos, com o fim malévolo de obstruir a participação das mesmas na luta contra elas e, assim, ficar com o terreno livre para cometer seus crimes.

A iniciativa de reforma do presidente Calderón pretende restringir e mesmo impedir a difusão de informações relacionadas com sequestros que ponham em risco a intimidade e a privacidade da vítima, de testemunhos de menores de idade, com o objetivo de garantir sua proteção. Na prática, a interpretação dessa norma poderia se traduzir em uma proibição geral de informar sobre a comissão de sequestros, modalidade delituosa que aumentou no atual governo, e não por culpa dos meios de comunicação.

Esta iniciativa deve ser avaliada no contexto mais amplo das agressões que os jornalistas têm sofrido. O México se converteu em um dos países mais arriscados para essa atividade. Os profissionais da imprensa vivem em uma situação muito difícil na hora de exercer sua profissão. De 2005 para cá, foram assassinados 68 jornalistas e outros 13 estão desaparecidos. Cerca de 89% desses crimes estão impunes. Segundo Irina Bukova, diretora geral da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco), os ataques e homicídios contra os comunicadores atentam gravemente contra o direito da cidadania à informação, além de gerar medo na sociedade.

Senadores de vários partidos de oposição assinalaram que o novo código penal que o presidente Calderón quer aprovar é “fascista”. Trata-se de uma colagem de propostas que o Congresso já havia rechaçado. O projeto busca emendar e proporcionar uma justificação legal para os atropelos policiais e militares cometidos na guerra contra o crime.

Independentemente da aprovação ou não da iniciativa presidencial, o que fica claro é o rumo que o poder Executivo quer imprimir ao país: avançar na direção da instauração de um Estado policial.

Tradução: Katarina Peixoto

26.9.11

Uma pedrada no lago da ciência





Uma pedrada no lago da ciência

Miguel Oliveira


Um pedaço de uma civilização calado nas sombras da História. Segredos petrificados em caracteres espalhados nos templos e papiros sussurravam o Egipto – a estória desta “nossa” Humanidade. Das 7000 línguas deste mundo, os hieróglifos eram a saliva por provar. Até que um dia um soldado de Napoleão atirou uma pedra ao lago da ciência, na cidade de Roseta.

A história da Pedra de Roseta é um must para se contar na mesa do café. Entre cigarros, café e pastéis de nata, podemos cavaquear que sem esta pedra seria certo que os Anunnaki construíram as pirâmides do Egipto. É isto que a ciência (supostamente) faz: “leave no stone unturned”. E, neste caso, literalmente.

A pedra de Roseta deu muito que falar. Hoje, a Roseta tem mais para ver, vitrinada a salvo dos dedos alheios num recanto do Museu Britânico, e muito mais para reflectir.
Podemos partir do princípio de que é a língua que nos une. Salvando com fugacidade a sexy realidade da frase anterior, rectifico a palavra para “Língua”. Estamos unidos pela Língua, também porque “no princípio era o Verbo” e sem Ele nem eu nem o leitor nem este texto existiriam, mas essencialmente porque sem Ela, a Língua, somos mudos. E porque também sem essa nuance da comunicação muito se perde.

A Língua une-nos ao Passado, numa lambidela contínua que condensa a nossa História, tantas vezes áspera, errante, desenxabida. Tantas vezes cuspida. E é a Língua que torna possível essa mesma História, tal como a concebemos hoje. Engraçado pensar nisto assim tão incisivamente, mas é verdade: a Pedra de Roseta constrói-Nos. É uma ponte de pedra para o evidentemente nosso e ainda misterioso e místico (quase fantasioso) Egipto.

Observando a imagem acima podemos constatar, entre muitas, duas coisas: 1) que há na parede um tipo de escrita, aparentemente “algo naïf” – os hieróglifos; 2) que o cinema veio acrescentar uma importante dimensão à imagem que tínhamos da vivência dos egípcios – é sabido que até então tudo teria acontecido num único plano geométrico, com mulheres e homens de eyeliner (muito avant-garde), em filas “indianas” (!), bracejando estaticamente uma dança serpenteada.

A deveras ingénua primeira abordagem aos hieróglifos serve de mote para flutuarmos momentaneamente no imbróglio que foi entender (decifrar) o que raio significavam aqueles complexíssimos e aparentemente aleatórios conjuntos de ícones meticulosamente alinhados. Algo mágico pairava sobre as paredes, e à luz de uma vela uma gloriosa história vivia, oculta, no ventre de cada decalque, nos contornos de cada pincelada.

Um dia, um soldado de Napoleão Bonaparte, durante a árdua tarefa de destruir e recolher paredes antigas da cidade de Rashid (Roseta), para ampliar o Forte Julien para as suas tropas, deparou-se com uma pedra. Fumou então um pensativo cigarro e teve uma óptima ideia …

Todos sabemos que o génio de Bonaparte ia para além do militarismo táctico. A campanha egípcia, no final do século XVIII, permitiria à França uma maior influência no Oriente; conquistar este país era da maior importância estratégica. Podemos dizer que, “felizmente”, os ingleses não gostaram muito deste movimento bélico francês e, assim que as tropas napoleónicas desembarcaram na costa do Egipto, em 1798, a marinha britânica destruiu todos os navios inimigos. Os franceses ficaram sitiados nas margens do Nilo durante 19 anos. Nada mau, penso.

Felizmente, também, Napoleão terá lido Sun Tzu e sabia que para governar um país é preciso saber tudo sobre o seu espaço e a sua cultura e criou, durante o isolamento, uma Comissão Científica e Artística – o Instituto do Egipto – ao qual o nosso soldado-herói-ocasional entregou o estranho fragmento polido encontrado na cidade de Roseta (foi esta a óptima ideia do referido soldado, conforme dito atrás).

Bem… contextualizada a descoberta, vamos lá perceber o que é que esta pedra tem de tão especial e qual a “revelação” que incrusta.

Assim à primeira vista, de especial, nada. Um fragmento granítico de uma estela, 118 cm de altura, 77 cm de largura e 30 cm de espessura. Uns 700 quilos e umas inscrições. E, efectivamente, nada de extrema relevância se pode lá ler. Muito resumidamente, o que se passou foi que, cerca de 200 anos a.C., o faraó Ptolomeu V Epifânio concedeu ao “seu” povo uma série de benesses, e os sacerdotes, em sinal de agradecimento, ergueram uma estátua e, para que ficasse registado para a posteridade este acto de bondade, gravaram o acontecimento em diversas estelas comemorativas e mandaram colocar nos templos mais importantes – excelente ideia, diremos nós. De mais, o que se salienta com alguma curiosidade neste texto “estelar” (passo a errada aplicação da palavra) é o prolixo panegírico ao (já nem sei como o introduzir) faraó Ptolomeu. Cá vai uma breve recolha:
“(…) senhor das coroas, glorioso, que criou o Egipto, e é piedoso com os deuses, superior a seus inimigos, que recuperou a vida civilizada do homem, senhor dos Banquetes de Trinta Anos (…); um rei, como o Sol, o grande rei das regiões altas e baixas; descendente dos Deuses Philopatores, aquele que foi aprovado por Hefesto, a quem o Sol deu a vitória, a imagem viva de Zeus, filho do Sol, Ptolomeu eterno, amado de Ptah (…); o rei, de acordo com a lei.”

Como as primeiras vistas, assim como as primeiras impressões, rareiam de profundidade (e até de verdade), um olhar mais cuidado denota que algo de mais relevante estava ali a acontecer para além da vontade dos sacerdotes de inscrever a mensagem para um vasto rol de leitores (e até, quiçá, prevendo a necessidade de uma chave de leitura para o tal misterioso desconhecido: afinal, quem eram estes ilustres sacerdotes?). Portanto, e agora que urge perceber porque, por exemplo, falamos da descodificação da cadeia de ADN como uma pedra de Roseta, e porque fica bem desvendar o essencial do conteúdo no final, passamos a explicar o porquê de todo este rebuliço. A Pedra de Roseta contém a referida mensagem em três línguas diferentes: em grego, em demótico e em hieróglifo. Ora, se o grego e o demótico eram inteligíveis, com os hieróglifos até os próprios gregos se viam gregos. A decifração surgiu em 1822 pela cabeça do pai da egiptologia, o linguista francês Jean-François Champollion, génio que aos dezasseis anos dominava 12 línguas. A Pedra de Roseta serviu de glossário de tradução dos hieróglifos – a “escrita (glyfus) sagrada (hiero)”. De alguma forma, podemos concluir que esta pedra foi a lápide que encerrou mais de 1400 anos de incompreensão de segredos do Egipto Antigo.

Esta pedra é um importantíssimo marco (ou alicerce) para a construção da Humanidade, principalmente da identidade egípcia. E não nos enganemos (eis a reflexão) – nós somos reflexo dos resquícios dos Passado, a descobrir nas lacunas uma nova e excitante identidade, a empilhar novas Pedras de Roseta.

Por fim, saberemos agora inferir que de todas as pedras que poderia encontrar no caminho, a Pedra de Roseta foi uma das mais preciosas em que a Ciência pôde tropeçar. E se as apanhar todas e um dia quiser construir um castelo, que não seja o de Kafka, porque desses castelos já sabemos nós. Desta vez, que seja uma pirâmide.

Ela sabe

 carlos vieira


Ela sabe

Ela sabe todas as coisas
como posso eu negar
ela sabe do meu amor pelo rio
ela sabe do meu amor pelo mar
ela sabe todas as coisas
como posso eu negar
toda a dor que me atravessa
ela me ensina a lidar
ela sabe o dom de me acalmar
ela sabe como me alegrar
ela sabe todas as coisas
como posso eu negar
até o vazio que me dá
todo o meu caminhar
meus arrepios, leveza de ar
ela sabe todas as coisas
como posso eu negar
ela é água a me completar.
d-p.

25.9.11

Sigi, o tirano

 
 
 
Sigi, o tirano



Cartas trocadas entre Freud e Martha Bernays, de 1882 ao casamento, em 1886, revelam o protótipo do amor não realizado.

Quando Freud conheceu Martha, de 20 anos, uma amiga de suas irmãs, na primavera de 1882, ele acabara de concluir os estudos de medicina. E, como as circunstâncias externas o impediam de prosseguir a carreira universitária, aspirava tornar-se neurologista no Hospital Geral de Viena.

Logo depois de seu noivado, que inicialmente foi mantido em segredo, a mãe de Martha, viúva, decidiu mudar-se com as duas filhas para Wandsbek, perto de Hamburgo. Durante quase quatro anos de separação, o casal comprometido trocou cartas quase diariamente, um vasto volume de correspondência.

Na época, 1882, ninguém era mais feliz que ele. Esse é o tom subjacente. Freud não escreve para se convencer; não precisa disso. Desde o início seu relacionamento fora declarado como uma etapa que levaria ao casamento, uma união baseada na razão.

O rumo da relação romântica em si foi tão problemático quanto é para qualquer pessoa. Mas Freud tinha resolvido o problema em duas frentes. Ele conseguiu se dedicar plenamente à continuação de sua educação científica e médica e, ao mesmo tempo, encontrar-se, sem ter de vagar muito longe.

Havia um relacionamento social entre as duas famílias judias, os Freud e os Bernays, durante a fase de emancipação dele. O casal também desempenhou o papel de cupido. Anna, uma das cinco irmãs de Freud, ficou noiva um ano depois do irmão de Martha, Eli.

Posição social

Freud estava muito entusiasmado com Martha e avaliou com precisão suas qualidades. Da parte desta, tudo nele era importante, não apenas como o personagem do “homem”, como as garotas o chamam, mas também a posição na sociedade que a aguardava e o papel que ela desempenharia a seguir.

A existência de inúmeras cartas de noivado escritas durante os anos que precederam o casamento pode ser explicada pelos ditames da convenção, que Sigmund Freud geralmente respeitava.

Eram as obrigações de praxe, e as boas famílias de classe média faziam questão de que fossem observadas. O objetivo do amor era o casamento, e este era complementado pelo nascimento de filhos, o que exigia uma renda regular. Freud ainda não era capaz de provê-la, o que explica a duração de sua correspondência.

No entanto, esse período pode ser interpretado de maneira muito diferente pela perspectiva do noivo. A convenção adquire seu verdadeiro significado em outro lugar.

Pensamento especulativo


Nesse contexto, há uma constante reflexão sobre os pré-requisitos – especialmente na primeira etapa –, que se tornam o principal tema de discussão. Ela determina o ritmo segundo o qual o impulso intelectual é constante e repetidamente levado a questionar todas as consequências do relacionamento.

Freud reconhecera em Martha Bernays a personalidade incomum que ela realmente era, o que não significava que ele não a rejeitasse sob outra perspectiva. Como se ela fosse mais madura e radical – o fato de ela não ter sido foi algo que, depois, ele lamentou várias vezes.

O rumo do intercâmbio equipara-se à dinâmica do pensamento especulativo de Freud. A desconfiança era inerente ao método. No entanto, a decisão impulsiva do noivado, que foi posta em prática em 17 de junho de 1882, era definitiva.

Era da natureza de Martha ser incomum, como o próprio Freud era e se reconheceu como tal desde cedo. Isso forneceu a base inicial para a exploração conjunta de seu relacionamento.

Nas biografias de Freud – e não apenas na importante e quase oficial, a de Ernest Jones (A Vida e a Obra de Sigmund Freud, Imago) –, lemos que Freud provavelmente teve poucas experiências eróticas pessoais. Todas as coisas culturais tinham prioridade sobre as sexuais, o que, muitas vezes, é mal compreendido.

Contra esse pano de fundo puritano, o amor a que ele decide se dedicar aos 26 anos tem algo de decisão preconcebida, como se ele previsse sua vida posterior e as descobertas que marcariam época. Seu casamento também pertence a esse horizonte.

Portanto, devemos ver esses longos (e para a época não raros) anos de espera como a verdadeira experiência do amor realizado-não realizado, apesar da abstinência e de todas as queixas sobre restrições.

Um pequeno número dessas cartas já havia sido publicado. Mas hoje podemos ler o início de um grande, ou mesmo gigantesco, empreendimento e encontrar Freud em um mundo nada conhecido, em que o vemos livre e desimpedido, embora às vezes inseguro.

Martha foi obrigada a suportar muitas coisas sombrias e difíceis (nas palavras dela) do “tirano”. Ela sinceramente tentou preencher as expectativas dele, mas muitas vezes chegou perto do desespero.

Como sua companheira – e, portanto, pertencente a ele em todos os sentidos –, Freud exigia que Martha abandonasse seus hábitos cotidianos, o que era quase impraticável.

Aula e noivado

O período de noivado havia se tornado uma aula? Havia algo que ela não precisasse aprender? Ela cedeu aos desejos dele em tudo o que foi possível. O relacionamento foi duradouro porque Martha vencera. Freud havia se decidido por ela.

Eles tinham um acordo, segundo o qual todos os problemas deveriam ser decididos em comum acordo. Assim, ele também tinha de se conter em suas críticas, e ela precisava moderar as suas, quando chegava a expressá-las. Para os dois, o amor em si não era difícil; era a base, a fundação sólida.

Ele é o “homem” e, somente por essa razão, superior. Não apenas ela, mas ele também tem de aceitar isso – como se acreditava em geral na época, eram diferenças naturais. Ela deve admirá-lo por isso, como realmente faz. A garota, a amada, deve pagar um preço por colocá-lo em um pedestal; a diferença no sexo era o esteio da vantagem social dele.

Não podemos realmente falar de igualdade. Mas aqui justamente o superior dos dois tenta igualar as coisas. E não é esse um privilégio de Eros, que supera todos os obstáculos? Freud apela ao amor, evocando-o o como sua libertação e salvação.

No entanto, ele insiste em uma forma de igualdade intelectual e fisiológica que ninguém mais é capaz de alcançar. Ele deseja ser somente dela. Todas as outras pessoas no círculo de sua noiva barram seu caminho. E, assim, ele justifica seu ciúme. A exclusão dos outros é vista pela amada como uma exigência estranha e necessária. Ele é o seu escolhido.

Para Freud, a igualdade dos sexos deve-se à qualidade única de um casal baseado na boa vontade mútua e ilimitada. Sua constante autoanálise enraizada em uma busca de conhecimento, que apesar de tudo ainda deve ser compartilhada por ambos, como ele postula.

Martha Bernays escreve naquilo que considera um estilo informal. Ela realmente preferiria se deixar levar, mas, para fazer jus às expectativas de seu parceiro, se contém. Às vezes ela se pergunta como é possível que o amor – e em sua posição isso significa seu futuro como mãe de família–, pode exigir tal intensidade de livre vontade e compulsão social.

Simplicidade

Por que essa declaração de sentimento mútuo deveria obrigá-la a suportar esse cabresto? A dualidade de Freud reflete-se nas reações adversas de Martha. Ele exige isso dela, e depois lamenta ter exigido. Ele a ama em parte pelo que ela é e em parte pelo que não é e, na opinião dele, deveria ser.

Ele se preocupa com a constituição do self da amada. Ele a compreende como uma consequência da “ternura” (palavra repetida infinitamente) que sente por ela. Por mais que ele admirasse isso, a transformação daquele ser mostra-se uma contraoferta obrigatória aos sentimentos dele, quase exigindo uma recriação da personalidade dela.

Mas a verdadeira realidade da simplicidade da pessoa dela, à qual ele está unido firmemente, não pode se reconciliar com essa exigência. Existe um personagem duplo em ação por parte de Freud.

Dois pontos de vista

Essa contradição em última instância caracteriza o relacionamento dos amantes. Um ideal e uma expectativa exagerados em contraste com a inevitável aceitação da realidade. Um dos dois não é menos lúcido do que o outro; mas um julga, enquanto o outro perdoa e oferece reconhecimento.

A garota amada defende-se e resiste, porque sabe que a ligação é forte e que seu amado de vez em quando se excede. Martha compreende claramente que deve se subjugar a ele de modo geral.

Essa compreensão nítida dita seus próprios vaivéns, que em sua proximidade e separação não passam de uma reação às contradições metodológicas e também maravilhosas de Freud. Isso dá a ela uma contrassuperioridade própria.

Martha Bernays vivia em uma família respeitadora das tradições. A religião é citada nas cartas, embora não seja um tema de discussão importante. Para Freud, a tradição judaica estava ultrapassada em relação a seu amor.

Sua união de casamento foi outra promessa solene, que segundo Freud a trouxera para o reino do espírito. Para ele, a fé judaica havia aberto um meio positivo de investigar objetivamente a realidade. O judaísmo não precisava se dissociar do cristianismo.

O acadêmico Jacob Bernays, tio de Martha, havia morrido um ano antes de os dois se conhecerem. Ele nunca se casara. Hoje, sua orientação homossexual é conhecida, e as cartas recém-publicadas que escreveu ao poeta Paul Heyse são prova eloquente disso.

Ao mesmo tempo, ele permaneceu um judeu respeitador da lei e lia o Talmude todos os dias. Seu irmão Michael Bernays, possivelmente o mais famoso estudioso de literatura alemã da época e um especialista na juventude de Goethe, havia se distanciado do judaísmo.

Assim, a união de Freud e Martha foi confrontada com os dois pontos de vista. Os pais de Martha viviam na tradição de Jacob, o filólogo clássico, e seu pai, Isaac, um rabino esclarecido.

Freud não era menos judeu do que sua noiva, embora tivesse se dissociado da religião. Ele não era menos sujeito ao antissemitismo (na verdade, talvez ainda mais) que os judeus praticantes. Considerava seu judaísmo uma vantagem nos campos das ciências duras e humanas, pois lhe permitia superar falsas suposições.

A sete chaves

Durante muito tempo as cartas foram guardadas a sete chaves pelos executores do espólio de Freud, pois não pareciam pertencer à obra do psicanalista. A atual publicação põe em perspectiva essas reservas.

Um ano antes de morrer, em 1982, Anna Freud liberou as cartas para publicação no início do terceiro milênio. O extraordinário trabalho de edição ficou a cargo da renomada especialista em Freud Ilse Grubrich-Simitis, com a ajuda dos pesquisadores Gerhard Fichtner e Albrecht Hirschmüller.

A edição é exemplar em todos os sentidos, particularmente nos comentários e no material suplementar.

Não menos importante é o fato de que Ernst, o filho mais moço de Freud, um arquiteto, manifestou uma opinião diferente da família desde o início.

Cinquenta anos atrás, ele supervisionou a publicação de um volume das cartas de Freud (Briefe 1873-1939), em que se dedicou um grande espaço à correspondência com Martha, e ele também levou ao grande público uma seleção dessas cartas (Sigmund Freud, Brautbriefe, Fischer-Bücherei, 1968).

Na introdução, acrescenta: “Freud escreveu cerca de 1.500 cartas para sua noiva, que dificilmente poderiam ser mais esclarecedoras em termos de sua autobiografia”.

Esse comentário foi muito restritivo. No entanto, ele se refere aos 60 anos ou mais em que toda a coleção permaneceu inédita.

Talvez ainda hoje alguns psicanalistas se oponham à publicação das cartas. O material parece se situar além do domínio psicanalítico e, por esse motivo, projeta nova luz sobre ele.

Intimidade e reputação


Como um executor de mentalidade aberta, Ernst Freud sentiu-se obrigado a explicar aos leitores o prolongado período de noivado: “Afinal devemos a existência das ‘cartas de noivado’ à intervenção enérgica da mãe de Martha. (…) Apesar de toda a resistência do casal, ela insistiu em voltar com sua família para Wandsbek, para esperar lá que o noivo obtivesse o diploma acadêmico e a habilitação para se tornar independente”.

Ernest Jones teve livre acesso a todas as cartas e utilizou-as amplamente em sua biografia.

Ele escreveu que, além de qualquer objetivo documental, a correspondência poderia ser considerada uma valiosa contribuição para o tema do amor à literatura. Na época não foi possível considerar a publicação das cartas.

No entanto, sabia-se que Freud havia destruído seus primeiros manuscritos, com exceção dessas cartas, que o casal poupou. Após sua morte, Martha pensou em destruí-las, mas sua filha a convenceu do contrário.

Uma situação íntima, confidencial, repetida em intermináveis variações, aparentemente não combinava com a reputação do autor, fundador da interpretação dos sonhos. Tentou-se evitar destruir sua poderosa estatura e influência, especialmente porque este não era mais o período preliminar dos anos 1890. Agora o autor das cartas já era “Sigmund Freud”.

Sociedade complexa

Contudo, a correspondência deve ser lida de uma perspectiva diferente da psicanálise que surgiria depois. As cartas de amor foram criadas na turbulência da era pós-vitoriana.

Para nós, 130 anos depois, elas servem como um poderoso testemunho de uma sociedade complexa, organizada segundo regras estritas, que se abria mas que ainda permanecia fechada.

Este é o primeiro volume de cinco planejados. O leitor finalmente é admitido e rapidamente transportado como se lesse um romance.

O relacionamento entre “Sigi” e “Marthachen” tem sua própria história dramática. A novela epistolar existiu desde Rousseau, com Julia ou a Nova Heloísa (1761). As “cartas de noivado” são até certo ponto uma inversão realista dela.

Consistem em roteiros mais leves ou pesados que giram em torno da vida cotidiana. Seguem um anseio de realidade imediata, que, por sua vez, se enquadra em um contexto multifacetado e uma unidade espiritual única.

Essa conversa entre companheiros de jogo demonstra um método de ambos os lados; esse é o bom Freud, de nosso ponto de vista contemporâneo.

Nas primeiras cartas o encontramos como alguém que não conhecemos, como um Freud diferente, que talvez seja mais facilmente entendido como alguém que procura, encontra e planeja a si próprio, questionando a si mesmo e a sua parceira.

Ler as cartas nos faz conhecer a força de sua personalidade, seu domínio das situações difíceis, das pessoas e da psicanálise.

Ao longo dessa história às vezes dramática, a “confiança” surge como um motivo central; algo se estabelece que permite a união e a solidariedade.

Esta última pede uma análise minuciosa das circunstâncias que a cercam, como, por exemplo, os conflitos desafiadores com a mãe (o pai havia morrido) e o irmão, o homem da família, todos vivendo em um pequeno espaço e com suas respectivas doses de neurose.

Escrevendo um romance


Freud descreve essas coisas como episódios de uma novela, e escreve como se fosse autor, e não personagem central. Também se poderia facilmente descrever isso como a composição de um épico. Uma conquista foi feita, linhas foram traçadas. Então surgem os problemas: a batalha pode começar.

O escritor põe-se à prova, como em uma obra literária. Nessa correspondência, suas representações são brilhantemente elaboradas.

Freud sabe contar histórias e é hábil em todas as situações em termos de estilo e composição. A estreita conexão entre suas capacidades linguísticas e seu talento natural para a psicologia, ainda não desenvolvido, fica evidente aqui.

Muitas vezes, ele escreve as cartas em sua mesa de trabalho no laboratório, interrompendo experimentos
zoológicos ou médicos. Uma correlação ideal desenvolve-se entre a precisão do discurso científico focado em um objeto de estudo e seu talento artístico apartado do trabalho profissional.

Freud também escreve as cartas para si mesmo. O olhar ousado, livre, penetrante do cientista junta-se a seu amplo conhecimento da tradição cultural, ou de múltiplas tradições, como base para a verdadeira assimilação.

Portanto, o que temos à frente é um documento emocionante, altamente revelador, que também é uma prosa magnífica.

Jean Bollack, é filólogo, filósofo e autor da biografia Jacob Bernays – Un Homme entre Deux Mondes [Um homem entre dois mudos, 1998]. Este artigo foi publicado no Süddeutsche Zeitung.



Sei mein, wie ich mir’s denke. Die Brautbriefe (Seja Minha Como Eu Imagino – As Cartas à Noiva), volume 1.
Sigmund Freud e Martha Bernays
Editado por Gerhard Fichtner, Ilse Grubrich-Simitis e Albrecht Hirschmüller
Editora Fischer -625 págs. 48 euros




Obras

O que sairá de Freud no Brasil - Em novembro

A Interpretação dos Sonhos (Companhia das Letras)

O que já saiu de Freud no Brasil

Pela Companhia das Letras
O Caso Schreber e Outros Textos
Ensaios de Metapsicologia e Outros Textos
O Homem dos Lobos e Outros Textos
Psicologia das Massas e Análise do Eu e Outros Textos
O Eu e o ID, Autobiografia e Outros Textos
O Mal-Estar na Civilização e Outros Textos

Pela Imago
Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud (24 volumes)
Obras Psicológicas de Sigmund Freud – Escritos sobre o Inconsciente
(3 volumes)
Obras Psicológicas de Sigmund Freud – Escritos sobre a Sociedade e Religião (3 volumes)

Pela L&PM
O Futuro de uma Ilusão
O Mal-Estar na Cultura

Correspondência

Gérard Castello-Lopes








Gérard Maria José Leveque de Castello-Lopes (Vichy, 1925 — Paris, 12 de Fevereiro de 2011) foi um fotógrafo, crítico e distribuidor de cinema, português.

Dois

Rong Rong & Inri

Drummond

 
 
 
 
Drummond, tradutor “Deus sabe como”


Publicação revela detalhes ocultos da produção de Drummond
LUÍS ANTÔNIO GIRON



Quanto mais produtivo o autor, maior a probabilidade de que fique para a posteridade o trabalho de organizar seu material. Por essa razão óbvia, as obras dos escritores se tornam campo aberto à pesquisa e às especulações póstumas. Uma “obra completa” não passa de uma construção contestada e refeita de geração em geração. As marginálias dos escritores renomados surgem à medida que suas obras despertam interesse. O sonho dos estudiosos é conseguir que a marginália altere as ideias adquiridas sobre os textos principais do escritor, o seu cânone.

Não surpreende, portanto, que a obra do mineiro Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), um dos poetas basilares da língua portuguesa, continue a estimular o apetite da posteridade. Sua “obra completa” – 45 títulos publicados em vida – acaba de trocar de editora. Por vontade dos herdeiros, ela passou da editora Record para a Companhia das Letras. A reedição de Drummond começará a sair em 2012, com novos estudos sobre sua produção, além de uma prometida e gorda marginália.

Impulsionada pela movimentação, a editora CosacNaify se adianta com um título inédito: Poesia traduzida (448 páginas, R$ 78). A organização e as notas, dos professores Augusto Massi e Júlio Castañon Guimarães, são resultado de uma pesquisa realizada na Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro, depositária do arquivo Drummond. O trabalho, que durou cinco anos, revelou uma dimensão meio oculta na produção drummondiana: a do tradutor de poesia. São 64 textos compilados em jornais e revistas entre os anos 1940 e 1960, feitos diretamente do espanhol, do francês e do inglês e, indiretamente, de poemas alemães, noruegueses e poloneses.

A edição poderia consistir apenas no ajuntamento de uma produção eventual e sem importância. Até porque o próprio Drummond se definia como um “tradutor Deus sabe como”, “bissexto” e “jornalístico”. Muitos textos ele verteu por necessidade econômica, como os poemas curtos das americanas Dorothy Parker e Carmen Bernos de Gasztold, por encomenda da revista Seleções do Reader’s Digest. O volume, no entanto, contém duas descobertas que realizam o sonho de qualquer investigador de marginália. A primeira é que Drummond pretendia lançar uma coletânea de traduções, que intitularia Poesia errante (traduções). Massi e Guimarães encontraram a referência à obra, jamais publicada, na primeira edição de Claro enigma (1951).

O projeto o levou a trabalhar intensamente com tradução, com ótimos resultados. Nos anos 1940 e 1950, além de verter romances franceses como Ligações perigosas, de Chordelos de Laclos, e A fugitiva, de Marcel Proust, Drummond colaborou semanalmente para o suplemento literário do Correio da Manhã, traduzindo e elaborando ensaios sobre poetas. Revisou muitas de suas traduções ao longo da carreira. Os pesquisadores buscaram nesses perió­dicos os textos que, supõem, comporiam o volume. A segunda descoberta, mais importante, está na escolha que Drummond fez dos poemas que traduziu. Ela permite redimensionar suas influências e seu perfil intelectual.

Era crença que a influência de Drummond repousava apenas na poesia francesa, sobretudo poetas não alinhados a “ismos”, como André Verdet (1913-2004) e Charles Vildrac (1882-1971). Ele traduziu poemas desses autores, que constam da compilação. Mas os pesquisadores descobriram outras preferências do autor. Uma delas é pelo romanceiro da Guerra Civil Espanhola (1936-1939), um gênero popular que serviu como veículo de informação e protesto nos anos da ditadura franquista. “Acreditava-se que Drummond havia rompido de maneira brusca com a militância de esquerda, a partir de Claro enigma”, diz Massi. “Mas foi um processo lento, que ele misturou ao trabalho literário.” Massi afirma que Drummond queria reunir poemas militantes franceses e alemães, como os de Paul Claudel e Bertolt Brecht, e de espanhóis, como Federico García Lorca (1898-1936). “Ele não foi um intelectual retraído e afrancesado, e sim um entusiasta da poesia social”, diz. Outra surpresa foi como Drummond se dedicou ao precursor do surrealismo Guillaume Apollinaire (1880-1918). O poeta mineiro se debruçou sobre poemas densos como “A casa dos mortos”, de 1913, e “Colinas”, de 1918. “As traduções dos poemas de Apollinaire revelam um tradutor de altíssima qualidade, um mestre”, diz Guimarães.

Assim, contrariando a imagem consagrada, Drummond sofreu tanto influência francesa como espanhola. Adotou e expandiu em seus textos a forma do romanceiro, com redondilhas e versos livres, e abordou temas semelhantes aos dos poetas sociais e surrealistas de seu tempo. “O exame dessas traduções vai alterar a leitura de Drummond”, afirma Massi. “Ao atingir a maturidade, converteu sua poesia em um meio de resistência ao totalitarismo e de reflexão sobre o mundo.” Por isso, Drummond deve ser reconhecido como um homem que traduziu seu tempo. Um poeta universal.

Crack X Trabalho: Mais uma vergonha nacional

 
 
 
Cortadores de cana usam crack para suportar jornada de 14 horas


Relatório produzido pela Frente Parlamentar de Enfrentamento ao Crack e Outras Drogas apresenta realidade das drogas no estado de São Paulo


Jorge Américo

Durante visitas feitas aos municípios paulistas, deputados estaduais receberam denúncias de que usineiros estão incentivando o uso do crack entre os cortadores. O objetivo é aumentar a produtividade. Em muitos casos, o trabalho nas lavouras de cana-de-açúcar se estende por até 14 horas, sem interrupções.

Essa prática foi revelada pelo deputado Donisete Braga (PT), na apresentação de um relatório produzido pela Frente Parlamentar de Enfrentamento ao Crack e Outras Drogas, nesta terça-feira (20).

O relatório traz dados gerais sobre de consumidores da droga no estado. Os números indicam que jovens com idade entre 16 e 25 anos representam 57% dos usuários da droga em São Paulo.

Para Daniel Adolpho Assis, advogado do Centro de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente (CEDECA), a situação é resultado da disseminação do crack no interior e faixa litorânea do país. Ele acrescenta que os jovens são as maiores vítimas da superexploração do trabalho.

“Ainda não foi exterminado o trabalho forçado e o trabalho escravo propriamente dito no Brasil. Há muita gente que ainda morre por exaustão. Ou seja, por efeito negativo e danoso na saúde a partir da exploração do trabalho. O crack vem para anestesiar, sendo uma droga potente e extremamente aditiva, que causa dependência rapidamente.”

O crack é consumido no mesmo percentual que o álcool em municípios com população entre 50 mil e 100 mil habitantes. Apenas 12% dessas localidades recebem recursos federais para programas de enfrentamento ao problema. Já os repasses estaduais chegam em apenas 5% dos municípios.

Uma pedra de crack pode ser comprada por até R$ 2. O uso crônico provoca perda de peso e aumenta o risco de infecções. O usuário pode apresentar quadros de psicose, agressividade, paranóia e alucinações.

24.9.11

Comissão da Verdade: o primeiro passo




Comissão da Verdade: o primeiro passo

Emir Sader 



“Foi bonita a festa, pá!” Podemos estar contentes com a aprovação da Comissão Nacional da Verdade pela Câmara de Deputados ontem. Consagrou o método de combinar acordos políticos com mobilização popular. E esta demonstrou como os artistas e intelectuais continuam demonstrando uma grande sensibilidade para as maiores causas nacionais.

O que conquistamos foi a aprovação da Câmara e, quando tivermos a do Senado, teremos conquistado apenas um passo inicial: a construção de um espaço de busca da verdade sobre o que ocorreu durante a ditadura militar e a versão oficial do Brasil sobre o que ocorreu naquele período. Foi uma construção política, que abre um importante espaço de disputa. Agora se trata da aprovação no Senado e da composição da Comissão.

O projeto requer reparos, de vários pontos de vista, mas uma parte das objeções levantadas não tem fundamento. O primeiro problema é a extensão no tempo, retrocedendo a 1946. É certo que essa é uma data de origem das articulações golpistas que desembocaram em 1964, depois de várias tentativas de dar o golpe - 1954 e 1961, entre outras. Foi naquele momento que os oficiais das FFAA regressando da participação na guerra na Itália, passaram a ser influenciados diretamente pela oficialidade norteamericana. Em concreto, Golbery do Couto e Silva – que posteriormente seria peça chave na articulação do golpe e em governos da ditadura – fundou a Escola Superior de Guerra, desde onde se difundiu a nefasta Doutrina de Seguranca Nacional, que orientou as ditaduras do continente, no espírito da guerra fria, conforme a visão norteamericana.

Porém, as violações dos direitos humanos, como as entendemos, se concentraram claramente – tornando-se uma política de Estado – a partir de 1964 e ao longo de todo o período ditatorial, sobre o qual a Comissão deveria concentrar-se. Ainda mais que ela não tem uma duração muito longa – 2 anos – e nao dispõe, pelo menos inicialmente, de recursos próprios para trabalhar. Mas isso a Comissão pode redimensionar no seu programa de trabalho, para não desconcentrar-se do centro mesmo das suas investigações.

Quanto ao acesso a documentos e informações, a Comissão terá amplos direitos de requisitá-los de órgãos ou entidades do Poder Público, mesmo os que são classificados em qualquer grau de sigilo. Além disso, a Comissão poderá convocar, de forma obrigatória, as pessoas para prestarem esclarecimentos sobre as violações dos direitos humanos. Uma emenda posterior ampliou ainda mais as fontes de que vai dispor a Comissão, porque agrega que qualquer pessoa que considere que tem informação relevante a prestar para esclarecer essas violações, pode solicitar ser ouvida pela Comissão.

Quanto aos recursos, a Casa Civil da Presidência dará o suporte técnico, administrativo e financeiro necessários para as atividades da Comissão.

Em relação à objeção do número relativamente limitado de membros da Comissão – sete -, e’ preciso levar em conta que, além do fato de que serão criados 14 cargos em comissão para assessor os trabalhos da Comissão, ela se apoiará em grande quantidade de entidades que têm desenvolvido, há muito tempo, pesquisas sobre o tema.

Mas mesmo em comparação com Comissoes de outros países, constatamos que no Chile ela teve 8 membros, na Argentina, 13, na Guatemala e em El Salvador 3 e no Peru, 12. O que revela que a composição brasileira se ajusta ao número de membros dos outros países.

Quanto aos critérios da nomeação dos seus membros, foram aprovados critérios que excluem a possibilidade de participação de pessoas com cargos políticos públicos, com mandatos ou que tivessem estado diretamente vinculados ao fatos analisados.

Quanto à duração, a Comissão poderá dispor de grande quantidade de pesquisas e acervos acumulados nas ultimas décadas, seu trabalho não começará do zero.

Assim, o que foi conquistado é um espaço para a busca e sistematização das informações que permitam esclarecer, com o máximo de rigor possível, as violações dos direitos humanos durante a ditadura militar e formular a narrativa oficial do Estado brasileiro sobre a ditadura militar que vitimou o país de 1964 a 1985. Um primeiro e grande passo, que rompe a inércia em que estávamos antes dessa iniciativa. Só podemos saudá-la, apostar no seu trabalho e mobilizar-nos para que ela cumpra da melhor forma possível seus objetivos, assim que for aprovada pelo Senado e sancionada pela Presidência.

23.9.11

Natureza



Imagem de I. Góomez

Fonte: http://www.flickr.com/photos/igomez/6173164662/sizes/l/in/photostream/

Forty Ekephants: O Temível Gang Feminino




Uma das Forty Elephants, Florrie Holmes.


Maggie Hughes, também das Forty Elephants, foi presa em 1923 por roubar anéis de diamantes.




Elephant and Castle - as Forty Elephants aliaram-se a vários deles nas suas operações.



Forty Ekephants: O Temível Gang Feminino

Diana Ribeiro


Embora se atribua o papel de grandes vilões a grupos e gangs organizados por homens, um deles foi liderado por mulheres e conduziu a maior operação de roubos na história de Inglaterra. As Forty Elephants controlaram o submundo dos gangs, aproveitando a sua condição feminina para escapar ilesas. A história foi recentemente revelada por Brian McDonald no livro “Gangs of London”.

As “Forty Elephants” eram o maior pesadelo dos lojistas de Londres. Este gang, contrariamente ao habitual, era constituído e liderado por mulheres que assaltavam as grandes casas de comércio de luxo. Ficaram tão conhecidas e temidas (sobretudo na década de 20 do século passado), que “expandiram o negócio” para o resto do país. Os artigos roubados serviam para pagar os vestidos de seda que gostavam de usar e as grandes festas que organizavam nos pubs e nos clubes da moda.

Consta que o grupo foi criado em 1873 e se manteve activo até 1950. Porém, alguns testemunhos afirmam que já existia desde o século XVIII. A sua história foi recentemente descortinada por Brian McDonald, no livro “Gangs of London” (Dezembro de 2010). Sobrinho de antigos líderes do gang “Elephant and Castle”, conta também como os seus tios estiveram envolvidos na maior operação de furtos de Inglaterra.

“As Forty Elephants” aproveitavam a sua condição feminina para facilmente roubar os objectos. Brian explica no livro como o faziam: entravam nas lojas, fechavam-se nos provadores de roupa e iam vestindo as peças umas sobre as outras. É claro que quando saiam estavam visivelmente “mais gordas”. Mas nesta época havia um grande pudor em revistar as mulheres e os donos nada faziam. De seguida, iam até ao pub mais próximo, onde as despiam e entregavam a outros elementos que as esperavam cá fora, protegidas por homens armados. Esses vestidos, casacos, saias, smokings, chapéus e jóias eram transaccionados com feirantes e casas de penhores, para além de outras lojas que substituíam as etiquetas e faziam remodelações nas roupas.


Eram os seus aliados “Elephant and Castle”, (liderado pelos irmãos McDonald), que tratavam da venda. Em 1910, a casa de Ada McDonald foi inspeccionada pela polícia. Encontraram nos quartos vários desses objectos roubados. Porém, ela não perdeu a calma e apresentou as facturas de todas as peças. Falsas, claro, mas que convenceram os agentes.

Na década de 20, usavam também carros para escapar. Se por acaso fossem alcançadas, nada levavam consigo. É que a mercadoria já tinha sido levada para outros carros, conduzidos pelos seus aliados. Nesta época, o gang foi liderado por Annie “Diamond”. Tinha 20 anos e era conhecida pelo seu punho certeiro: deixava a cara de quem alcançasse marcada pelos seus anéis de diamante. Foi apelidada pela polícia como “o mais inteligente dos ladrões”. Em Londres, apenas ao avistar-se qualquer elemento das “Forty Elephants” o pânico instalava-se. Annie organizou então o grupo e dividiu-o em pequenas células para realizar vários assaltos ao mesmo tempo e em vários pontos do pais.

Acabou por ser presa, sempre com nomes falsos. Assim que era libertada, voltava ao gangue. A sua melhor amiga, Maggie Hughes, foi apanhada com apenas 14 anos e esteve presa durante três, por roubo de anéis de diamante. A maior parte destas mulheres pertencia a famílias muito pobres onde o pai não trabalhava. “Tinham pouca educação, mas vontade de subir na vida”, refere Brian. “Sonhavam com um estilo de vida igual às estrelas de cinema de Hollywood, cheia de glamour. Queriam imitá-las”.


Fonte: Obvious http://obviousmag.org/archives/2011/09/forty_elephants_o_temivel_gang_feminino.html

Meus pais são bipolares - Cotardo Calligaris

Meus pais são bipolares
 Cotardo Calligaris   (FOLHA SP)


Hoje, a bipolaridade não é só um transtorno para alguns mas um traço da personalidade de todos nós

O termo “bipolar” se tornou corriqueiro na boca dos adolescentes. Não é que eles citem diagnósticos psiquiátricos, no estilo “sabe, minha mãe toma remédio porque os médicos dizem que ela é bipolar”.
Nada disso; para eles, o termo é a descrição genérica de um estado de espírito dominado por altos e baixos radicais. Além disso, muitos adolescentes acham que, hoje, ser bipolar é a regra.
Não acho ruim que termos clínicos se vulgarizem e entrem na linguagem comum. Só me preocupa o fato de que, às vezes, psiquiatras e psicólogos adotam essa vulgarização, confundindo a tristeza banal com o transtorno depressivo ou, então, variações do humor banais com o transtorno bipolar.
Com isso, claro, a indústria farmacêutica faz a festa, pois vende antidepressivos a pessoas que estão apenas tristonhas ou morosas e estabilizadores do humor a pessoas que são apenas mais alegres pela manhã do que à noite. Seja como for, talvez os adolescentes tenham razão. Talvez a bipolaridade, além de um transtorno para alguns, seja hoje um traço da personalidade de todos nós. Por quê? Um pequeno desvio para responder.
Existe um grupo de trabalho encarregado de revisar o “Manual Estatístico e Diagnóstico de Transtornos Mentais”, cuja quinta versão (”DSM V”) será publicada em 2013. Esse grupo manifesta periodicamente suas decisões e seus pensamentos no site www.dsm5.org. Foi assim que em 2010, se não me engano, soubemos que o “transtorno da personalidade narcisista” sumiria da próxima versão do “Manual”. Tanto mais bizarro que, aos olhos de muitos (assim como aos meus), a personalidade narcisista, longe de estar extinta, é a que melhor resume a subjetividade contemporânea. Antes de defini-la, vamos ver quais foram as reações.
A más línguas observaram que sempre somem os transtornos contra os quais a indústria farmacêutica não tem remédios para vender (não existe pílula para transtorno narcisista, enquanto existem várias para bipolaridade e depressão).
Outros, considerando que o transtorno da personalidade narcisista coincidiria com o espírito de nossa época, acharam normal que ele não fosse mais considerado como uma patologia.
Enfim, muitos psicanalistas (sobretudo alunos de Heinz Kohut e de Otto Kernberg, grandes intérpretes do narcisismo) protestaram, e eis que, numa revisão de 21 de junho passado, o transtorno narcisista reapareceu no “DSM” (http://migre.me/5JNlu).
Em síntese, o narcisista não é, como sugere a vulgata do mito de Narciso, alguém apaixonado por si mesmo ou por sua imagem no espelho. Ao contrário, o problema do narcisista é que ele depende totalmente dos outros para se definir e para decidir seu próprio valor: ele se orienta na vida só pela esperança de encontrar a aprovação do mundo.
Infelizmente, nunca sabemos por certo o que os outros enxergam em nós. Às vezes, o narcisista se exalta com visões grandiosas de si, ideias infladas do amor e da apreciação dos outros por ele; outras vezes, ao contrário, ele despenca no desamparo, convencido de que ninguém o ama ou aprecia.
Ora, a modernidade é isso: um mundo sem castas fixas, onde cada um pode subir ou descer na vida justamente porque seu lugar no mundo depende da consideração (variável e sempre um pouco enigmática) que os outros têm por ele.
Ou seja, a modernidade nos predispõe a um transtorno narcisista permanente e, no coração dessa personalidade narcisista (sina de nosso tempo), há uma oscilação bipolar.
O adolescente tem razão: a bipolaridade talvez seja especialmente manifesta nos pais. Como disse, na sociedade moderna, só somos o que os outros reconhecem que sejamos, e os pais não são uma exceção a essa regra.
Nem lei simbólica, nem legado divino, nem provas genéticas bastam para me transformar em pai ou mãe de meus filhos. Hoje, para eu ser pai ou mãe, é preciso que os filhos me reconheçam como tal, ou seja, sem o amor e o respeito de meus filhos, eu não serei nem pai nem mãe.
Consequência: todo pai moderno é condenado à bipolaridade, entre a felicidade de ser genitor e uma consternadora queda do alto dessa nuvem. Se ele tenta educar, corre o risco de não ser mais amado e, portanto, de não ser mais pai.
Se desiste de educar para ser amado, corre o risco de não ser mais respeitado -ou seja, novamente, de não ser mais pai. É isso: os pais são bipolares.

ccalligari@uol.com.br

22.9.11

Dilma Rousseff e a ONU

Integra do discursso da presidenta Dilma Rousseff na abertura dos trabalhos da ONU

 
 
 
Senhor presidente da Assembleia Geral, Nassir Abdulaziz Al-Nasser,
Senhor secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon,
Senhoras e senhores chefes de Estado e de Governo,


Senhoras e senhores,

Pela primeira vez, na história das Nações Unidas, uma voz feminina inaugura o Debate Geral. É a voz da democracia e da igualdade se ampliando nesta tribuna que tem o compromisso de ser a mais representativa do mundo.

É com humildade pessoal, mas com justificado orgulho de mulher, que vivo este momento histórico.

Divido esta emoção com mais da metade dos seres humanos deste Planeta, que, como eu, nasceram mulher, e que, com tenacidade, estão ocupando o lugar que merecem no mundo. Tenho certeza, senhoras e senhores, de que este será o século das mulheres.

Na língua portuguesa, palavras como vida, alma e esperança pertencem ao gênero feminino. E são também femininas duas outras palavras muito especiais para mim: coragem e sinceridade. Pois é com coragem e sinceridade que quero lhes falar no dia de hoje.

Senhor Presidente,

O mundo vive um momento extremamente delicado e, ao mesmo tempo, uma grande oportunidade histórica. Enfrentamos uma crise econômica que, se não debelada, pode se transformar em uma grave ruptura política e social. Uma ruptura sem precedentes, capaz de provocar sérios desequilíbrios na convivência entre as pessoas e as nações.

Mais que nunca, o destino do mundo está nas mãos de todos os seus governantes, sem exceção. Ou nos unimos todos e saímos, juntos, vencedores ou sairemos todos derrotados.

Agora, menos importante é saber quais foram os causadores da situação que enfrentamos, até porque isto já está suficientemente claro. Importa, sim, encontrarmos soluções coletivas, rápidas e verdadeiras.

Essa crise é séria demais para que seja administrada apenas por uns poucos países. Seus governos e bancos centrais continuam com a responsabilidade maior na condução do processo, mas como todos os países sofrem as conseqüências da crise, todos têm o direito de participar das soluções.

Não é por falta de recursos financeiros que os líderes dos países desenvolvidos ainda não encontraram uma solução para a crise. É, permitam-me dizer, por falta de recursos políticos e algumas vezes, de clareza de ideias.

Uma parte do mundo não encontrou ainda o equilíbrio entre ajustes fiscais apropriados e estímulos fiscais corretos e precisos para a demanda e o crescimento. Ficam presos na armadilha que não separa interesses partidários daqueles interesses legítimos da sociedade.

O desafio colocado pela crise é substituir teorias defasadas, de um mundo velho, por novas formulações para um mundo novo. Enquanto muitos governos se encolhem, a face mais amarga da crise – a do desemprego – se amplia. Já temos 205 milhões de desempregados no mundo. 44 milhões na Europa. 14 milhões nos Estados Unidos. É vital combater essa praga e impedir que se alastre para outras regiões do Planeta.

Nós, mulheres, sabemos, mais que ninguém, que o desemprego não é apenas uma estatística. Golpeia as famílias, nossos filhos e nossos maridos. Tira a esperança e deixa a violência e a dor.

Senhor Presidente,

É significativo que seja a presidenta de um país emergente, um país que vive praticamente um ambiente de pleno emprego, que venha falar, aqui, hoje, com cores tão vívidas, dessa tragédia que assola, em especial, os países desenvolvidos.

Como outros países emergentes, o Brasil tem sido, até agora, menos afetado pela crise mundial. Mas sabemos que nossa capacidade de resistência não é ilimitada. Queremos – e podemos – ajudar, enquanto há tempo, os países onde a crise já é aguda.

Um novo tipo de cooperação, entre países emergentes e países desenvolvidos, é a oportunidade histórica para redefinir, de forma solidária e responsável, os compromissos que regem as relações internacionais.

O mundo se defronta com uma crise que é ao mesmo tempo econômica, de governança e de coordenação política.

Não haverá a retomada da confiança e do crescimento enquanto não se intensificarem os esforços de coordenação entre os países integrantes da ONU e as demais instituições multilaterais, como o G-20, o Fundo Monetário, o Banco Mundial e outros organismos. A ONU e essas organizações precisam emitir, com a máxima urgência, sinais claros de coesão política e de coordenação macroeconômica.

As políticas fiscais e monetárias, por exemplo, devem ser objeto de avaliação mútua, de forma a impedir efeitos indesejáveis sobre os outros países, evitando reações defensivas que, por sua vez, levam a um círculo vicioso.

Já a solução do problema da dívida deve ser combinada com o crescimento econômico. Há sinais evidentes de que várias economias avançadas se encontram no limiar da recessão, o que dificultará, sobremaneira, a resolução dos problemas fiscais.

Está claro que a prioridade da economia mundial, neste momento, deve ser solucionar o problema dos países em crise de dívida soberana e reverter o presente quadro recessivo. Os países mais desenvolvidos precisam praticar políticas coordenadas de estímulo às economias extremamente debilitadas pela crise. Os países emergentes podem ajudar.

Países altamente superavitários devem estimular seus mercados internos e, quando for o caso, flexibilizar suas políticas cambiais, de maneira a cooperar para o reequilíbrio da demanda global.

Urge aprofundar a regulamentação do sistema financeiro e controlar essa fonte inesgotável de instabilidade. É preciso impor controles à guerra cambial, com a adoção de regimes de câmbio flutuante. Trata-se, senhoras e senhores, de impedir a manipulação do câmbio tanto por políticas monetárias excessivamente expansionistas como pelo artifício do câmbio fixo.

A reforma das instituições financeiras multilaterais deve, sem sombra de dúvida, prosseguir, aumentando a participação dos países emergentes, principais responsáveis pelo crescimento da economia mundial.

O protecionismo e todas as formas de manipulação comercial devem ser combatidos, pois conferem maior competitividade de maneira espúria e fraudulenta.

Senhor Presidente,

O Brasil está fazendo a sua parte. Com sacrifício, mas com discernimento, mantemos os gastos do governo sob rigoroso controle, a ponto de gerar vultoso superávit nas contas públicas, sem que isso comprometa o êxito das políticas sociais, nem nosso ritmo de investimento e de crescimento.

Estamos tomando precauções adicionais para reforçar nossa capacidade de resistência à crise, fortalecendo nosso mercado interno com políticas de distribuição de renda e inovação tecnológica.

Há pelo menos três anos, senhor Presidente, o Brasil repete, nesta mesma tribuna, que é preciso combater as causas, e não só as consequências da instabilidade global.

Temos insistido na interrelação entre desenvolvimento, paz e segurança; e que as políticas de desenvolvimento sejam, cada vez mais, associadas às estratégias do Conselho de Segurança na busca por uma paz sustentável.

É assim que agimos em nosso compromisso com o Haiti e com a Guiné-Bissau. Na liderança da Minustah, temos promovido, desde 2004, no Haiti, projetos humanitários, que integram segurança e desenvolvimento. Com profundo respeito à soberania haitiana, o Brasil tem o orgulho de cooperar para a consolidação da democracia naquele país.

Estamos aptos a prestar também uma contribuição solidária, aos países irmãos do mundo em desenvolvimento, em matéria de segurança alimentar, tecnologia agrícola, geração de energia limpa e renovável e no combate à pobreza e à fome.

Senhor Presidente,

Desde o final de 2010, assistimos a uma sucessão de manifestações populares que se convencionou denominar “Primavera Árabe”. O Brasil é pátria de adoção de muitos imigrantes daquela parte do mundo. Os brasileiros se solidarizam com a busca de um ideal que não pertence a nenhuma cultura, porque é universal: a liberdade.

É preciso que as nações aqui reunidas encontrem uma forma legítima e eficaz de ajudar as sociedades que clamam por reforma, sem retirar de seus cidadãos a condução do processo.

Repudiamos com veemência as repressões brutais que vitimam populações civis. Estamos convencidos de que, para a comunidade internacional, o recurso à força deve ser sempre a última alternativa. A busca da paz e da segurança no mundo não pode limitar-se a intervenções em situações extremas.

Apoiamos o Secretário-Geral no seu esforço de engajar as Nações Unidas na prevenção de conflitos, por meio do exercício incansável da democracia e da promoção do desenvolvimento.

O mundo sofre, hoje, as dolorosas consequências de intervenções que agravaram os conflitos, possibilitando a infiltração do terrorismo onde ele não existia, inaugurando novos ciclos de violência, multiplicando os números de vítimas civis.

Muito se fala sobre a responsabilidade de proteger; pouco se fala sobre a responsabilidade ao proteger. São conceitos que precisamos amadurecer juntos. Para isso, a atuação do Conselho de Segurança é essencial, e ela será tão mais acertada quanto mais legítimas forem suas decisões. E a legitimidade do próprio Conselho depende, cada dia mais, de sua reforma.

Senhor Presidente,

A cada ano que passa, mais urgente se faz uma solução para a falta de representatividade do Conselho de Segurança, o que corrói sua eficácia. O ex-presidente Joseph Deiss recordou-me um fato impressionante: o debate em torno da reforma do Conselho já entra em seu 18º ano. Não é possível, senhor Presidente, protelar mais.

O mundo precisa de um Conselho de Segurança que venha a refletir a realidade contemporânea; um Conselho que incorpore novos membros permanentes e não-permanentes, em especial representantes dos países em desenvolvimento.

O Brasil está pronto a assumir suas responsabilidades como membro permanente do Conselho. Vivemos em paz com nossos vizinhos há mais de 140 anos. Temos promovido com eles bem-sucedidos processos de integração e de cooperação. Abdicamos, por compromisso constitucional, do uso da energia nuclear para fins que não sejam pacíficos. Tenho orgulho de dizer que o Brasil é um vetor de paz, estabilidade e prosperidade em sua região, e até mesmo fora dela.

No Conselho de Direitos Humanos, atuamos inspirados por nossa própria história de superação. Queremos para os outros países o que queremos para nós mesmos.

O autoritarismo, a xenofobia, a miséria, a pena capital, a discriminação, todos são algozes dos direitos humanos. Há violações em todos os países, sem exceção. Reconheçamos esta realidade e aceitemos, todos, as críticas. Devemos nos beneficiar delas e criticar, sem meias-palavras, os casos flagrantes de violação, onde quer que ocorram.

Senhor Presidente,

Quero estender ao Sudão do Sul as boas vindas à nossa família de nações. O Brasil está pronto a cooperar com o mais jovem membro das Nações Unidas e contribuir para seu desenvolvimento soberano.

Mas lamento ainda não poder saudar, desta tribuna, o ingresso pleno da Palestina na Organização das Nações Unidas. O Brasil já reconhece o Estado palestino como tal, nas fronteiras de 1967, de forma consistente com as resoluções das Nações Unidas. Assim como a maioria dos países nesta Assembléia, acreditamos que é chegado o momento de termos a Palestina aqui representada a pleno título.

O reconhecimento ao direito legítimo do povo palestino à soberania e à autodeterminação amplia as possibilidades de uma paz duradoura no Oriente Médio. Apenas uma Palestina livre e soberana poderá atender aos legítimos anseios de Israel por paz com seus vizinhos, segurança em suas fronteiras e estabilidade política em seu entorno regional.

Venho de um país onde descendentes de árabes e judeus são compatriotas e convivem em harmonia – como deve ser.

Senhor Presidente,

O Brasil defende um acordo global, abrangente e ambicioso para combater a mudança do clima no marco das Nações Unidas. Para tanto, é preciso que os países assumam as responsabilidades que lhes cabem.

Apresentamos uma proposta concreta, voluntária e significativa de redução [de emissões], durante a Cúpula de Copenhague, em 2009. Esperamos poder avançar já na reunião de Durban, apoiando os países em desenvolvimento nos seus esforços de redução de emissões e garantindo que os países desenvolvidos cumprirão suas obrigações, com novas metas no Protocolo de Quioto, para além de 2012.

Teremos a honra de sediar a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, em junho do ano que vem. Juntamente com o Secretário-Geral Ban Ki-moon, reitero aqui o convite para que todos os Chefes de Estado e de Governo compareçam.

Senhor Presidente e minhas companheiras mulheres de todo mundo,

O Brasil descobriu que a melhor política de desenvolvimento é o combate à pobreza. E que uma verdadeira política de direitos humanos tem por base a diminuição da desigualdade e da discriminação entre as pessoas, entre as regiões e entre os gêneros.

O Brasil avançou política, econômica e socialmente sem comprometer sequer uma das liberdades democráticas. Cumprimos quase todos os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, antes 2015. Saíram da pobreza e ascenderam para a classe média no meu país quase 40 milhões de brasileiras e brasileiros. Tenho plena convicção de que cumpriremos nossa meta de, até o final do meu governo, erradicar a pobreza extrema no Brasil.

No meu país, a mulher tem sido fundamental na superação das desigualdades sociais. Nossos programas de distribuição de renda têm nas mães a figura central. São elas que cuidam dos recursos que permitem às famílias investir na saúde e na educação de seus filhos.

Mas o meu país, como todos os países do mundo, ainda precisa fazer muito mais pela valorização e afirmação da mulher. Ao falar disso, cumprimento o secretário-geral Ban Ki-moon pela prioridade que tem conferido às mulheres em sua gestão à frente das Nações Unidas.

Saúdo, em especial, a criação da ONU Mulher e sua diretora-executiva, Michelle Bachelet.

Senhor Presidente,

Além do meu querido Brasil, sinto-me, aqui, representando todas as mulheres do mundo. As mulheres anônimas, aquelas que passam fome e não podem dar de comer aos seus filhos; aquelas que padecem de doenças e não podem se tratar; aquelas que sofrem violência e são discriminadas no emprego, na sociedade e na vida familiar; aquelas cujo trabalho no lar cria as gerações futuras.

Junto minha voz às vozes das mulheres que ousaram lutar, que ousaram participar da vida política e da vida profissional, e conquistaram o espaço de poder que me permite estar aqui hoje.

Como mulher que sofreu tortura no cárcere, sei como são importantes os valores da democracia, da justiça, dos direitos humanos e da liberdade.

E é com a esperança de que estes valores continuem inspirando o trabalho desta Casa das Nações que tenho a honra de iniciar o Debate Geral da 66ª Assembleia Geral da ONU.

Muito obrigada.

21.9.11

Hobsbawm - Trocando mitos por história

 
 
ERIC HOBSBAWM - Trocando mitos por história



Por Laura Greenhalgh*

O ataque às torres gêmeas do World Trade Center, há exatos dez anos, num atentado que não só amputou a paisagem de Nova York, mas acima de tudo tirou a vida de milhares de pessoas, acordando o mundo para tensões inauditas, foi a mais completa experiência de uma catástrofe de que se tem notícia, afirma com convicção o historiador britânico Eric Hobsbawm, nesta entrevista exclusiva ao Aliás. “Porque foi vista em cada aparelho de TV, nos dois hemisférios”, justifica em seguida. Mas, quando ele coloca a mesma catástrofe no plano maior da história das civilizações, daí faz com que afirmação superlativa submeta-se a outras associações de ideias, que nos convidam a pensar. E pensar muito.

Aos 94 anos, Eric John Ernest Hobsbawm mais uma vez dá provas de que o caminhar da humanidade se faz com passos que medem séculos e a melhor unidade da história, no seu jeito de ver o mundo, é a “era”, e não os dias, os anos, nem mesmo as décadas. Aqui mesmo, nestas páginas, ele nos contará por que acha que já entramos na “era do declínio americano”, sem em nenhum momento subestimar o país que por muito tempo ainda exportará seu formidável “soft power” - o cinema, a música, a literatura, a moda, os estilos de vida, enfim, todo um aparato cultural.

Hobsbawm concedeu esta entrevista dias atrás, de regresso a Londres depois do descanso de verão. Respondeu por escrito ao conjunto de perguntas. Ao construir as respostas, vê-se como selecionou os exemplos que melhor ilustram seu raciocínio, sempre com invejável disposição intelectual. Ao final do questionário, e depois de revelar até os projetos que gostaria de desenvolver “se fosse mais jovem”, terminou a entrevista com a seguinte afirmação: “Isso é tudo o que eu quero dizer”.

Autor de A Era das Revoluções, A Era do Capital, A Era dos Impérios e a A Era dos Extremos, em que tece uma “breve história” do século 20, questiona assimilações como a superioridade cultural do Ocidente, por vezes invólucro de uma arrogância histórica que hoje mal disfarça a incapacidade de entender, afinal de contas, o que vem a ser uma sociedade tribal ou um califado. Por outro lado, acha que a intensificação dos fluxos migratórios, levando incessantemente gente jovem de um canto a outro do planeta, embora gere muita xenofobia, gera também uma visão mais disseminada da diversidade do mundo. Visão que a geração de Hobsbawm, nascido em 1917 no Egito sob domínio inglês, numa família judia mais tarde perseguida pelo nazismo, definitivamente não teve.

Professor (emérito) da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, e da New School for Social Research, em Nova York, Hobsbawm só é capaz de compreender o historiador como um “observador participante”, além de se autodefinir também como um “viajante de olhos abertos e jornalista ocasional”. Chega a recomendar aos seus leitores que tentem tomar o que ele escreve “na base da confiança”, porque embora pesquise incansavelmente, se dispensa das referências bibliográficas sem fim e das enfadonhas exibições de erudição. Por isso, seguramente, seu estilo é inconfundível.

Marx, ele descobriu na juventude. Ao fixar-se em Londres, logo alistou-se no Partido Comunista e, depois, no exército britânico, para combater Hitler. Evidentemente Hobsbawm foi cobrado pelo método marxista de análise que ainda hoje utiliza, especialmente quando muitos dos seus pares trataram de rever posições, a partir do desmoronamento do mundo soviético. Em sua autobiografia, Tempos Interessantes(lançada em 2002 pela Companhia das Letras, assim como outros títulos importantes do autor), ele próprio já tratava de acalmar os fustigadores: “A história poderá julgar minhas opiniões políticas - na verdade em grande parte já as julgou - e os leitores poderão julgar meus livros. O que busco é o entendimento da história, e não concordância, aprovação ou comiseração”.

No livro Globalização, Democracia e Terrorismo, de 2007, o senhor passa para os leitores certo pessimismo ao lhes colocar uma perspectiva crucial e ao mesmo tempo desconfortante: ‘‘Não sabemos para onde estamos indo’’, diz, referindo-se aos rumos mundiais. Olhando as últimas décadas pelo retrovisor da história esse sentimento parece ter se intensificado. Em que outros momentos a humanidade viveu períodos marcados por essa mesma sensação de falta de rumos?

Eric Hobsbawm – Embora existam diferenças entre os países, e também entre as gerações, sobre a percepção do futuro - por exemplo, hoje há visões mais otimistas na China ou no Brasil do que em países da União Europeia e nos Estados Unidos -, ainda assim acredito que, ao pensar seriamente na situação mundial, muita gente experimente esse pessimismo ao qual você se refere. Porque de fato atravessamos um tempo de rápidas transformações e não sabemos para onde estamos indo, mas isso não constitui um elemento novo em tempos críticos. Tempos que nos remetem ao mundo em ruínas depois de 1914, ou mesmo a vários lugares daquela Europa entre duas grandes guerras ou na expectativa de uma terceira. Aqueles anos durante e após a 2ª Guerra foram catastróficos, ali ninguém poderia prever que formato o futuro teria ou mesmo se haveria algum futuro. Cruzamos também os anos da Guerra Fria, sempre assustadores pela possibilidade de uma guerra nuclear. E, mais recentemente, notamos a mesma sensação de desorientação ao vermos como os Estados Unidos mergulharam numa crise econômica que até parece ser o breakdown do capitalismo liberal.

Nações saíram empobrecidas, arruinadas mesmo, das guerras mundiais, mas é adequado pensar que havia naqueles escombros o desenho de um futuro?

E.H. – Sim. Se de um lado o futuro nos era desconhecido e cada vez mais inesperado, havia por outro lado uma ideia mais nítida sobre as opções que se apresentavam. No entreguerras, a escolha principal de um modelo se dava entre o capitalismo reformado e o socialismo com forte planejamento econômico - supremacia de mercado sem controle era algo impensável. Havia ainda a opção entre uma democracia liberal, o fascismo ultranacionalista e o comunismo. Depois de 1945, o mundo claramente se dividiu numa zona de democracia liberal e bem-estar social a partir de um capitalismo reformado, sob a égide dos EUA, e uma zona sob orientação comunista. E havia também uma zona de emancipação de colônias, que era algo indefinido e preocupante. Mas veja que os países poderiam encontrar modelos de desenvolvimento importados do Ocidente, do Leste e até mesmo resultante da combinação dos dois. Hoje esses marcos sinalizadores desapareceram e os “pilotos” que guiariam nossos destinos, também.

Como o senhor avalia o poder das imagens de destruição nos ataques do 11/9 a Nova York, tão repetidas nos últimos dias? Tornaram-se o símbolo de uma guinada histórica, apontando novas relações entre Ocidente e Oriente? Por que imagens do cenário de morte de Bin Laden surtiram menos impacto?

E.H. – A queda das torres do World Trade Center foi certamente a mais abrangente experiência de catástrofe que se tem na história, inclusive por ter sido acompanhada em cada aparelho de televisão, nos dois hemisférios do planeta. Nunca houve algo assim. E sendo imagens tão dramáticas, não surpreende que ainda causem forte impressão e tenham se convertido em ícones. Agora, elas representam uma guinada histórica? Não tenho dúvida de que os Estados Unidos tratam o 11/9 dessa forma, como um turning point, mas não vejo as coisas desse modo. A não ser pelo fato de que o ataque deu ao governo americano a ocasião perfeita para o país demonstrar sua supremacia militar ao mundo. E com sucesso bastante discutível, diga-se. Já o retrato de Bin Laden morto (que não foi divulgado) talvez fosse uma imagem menos icônica para nós, mas poderia se converter num ícone para o mundo islâmico. Da maneira deles, porque não é costume nesse mundo dar tanta importância a imagens, diferentemente do que fazemos no Ocidente, com nossas camisetas estampando o rosto de Che Guevara.

Mas além da chance de demonstrar poderio militar, os Estados Unidos deram uma guinada na sua política externa a partir de 2001, ajustando o foco naquilo que George W. Bush batizou como “war on terror”. Outro encaminhamento seria possível?

E.H. – Eu diria que a política externa americana, depois de 2001, foi parcialmente orientada para a guerra ao terror, e fundamentalmente orientada pela certeza de que o 11/9 trouxe para os EUA a primeira grande oportunidade, depois do colapso soviético, de estabelecer uma supremacia global, combinando poder político-econômico e poder militar. Criou-se a situação propícia para espalhar e reforçar bases militares americanas na Ásia central, ainda uma região muito ligada à Rússia. Sob esse aspecto, houve uma confluência de objetivos - combate-se o inimigo ampliando enormemente a presença militar americana. Mas, sob outro aspecto, esses objetivos conflitaram. A guerra no Iraque, que no fundo nada tinha a ver com a Al-Qaeda, consumiu atenção e uma enormidade de recursos dos EUA, e ainda permitiu à organização liderada por Bin Laden criar bases não só no Iraque, mas no Paquistão e extensões pelo Oriente Médio.

Os Estados Unidos lançaram-se nessa campanha sabendo o tamanho do inimigo?

E.H. – O perigo do terrorismo islâmico ficou exagerado, a meu ver. Ele matou milhares de pessoas, é certo, mas o risco para a vida e a sobrevivência da humanidade que ele possa representar é muito menor do que o que se estima. Exemplo disso são as importantes mudanças que ocorreram neste ano no mundo árabe, mudanças que nada devem ao terrorismo islâmico. E não só: elas o deixaram à margem. Agora, o mais duradouro efeito da war on terror, aliás, uma expressão que os diplomatas americanos finalmente estão abandonando, terá sido permitir que os Estados Unidos revivessem a prática da tortura, bem como permitir que os cidadãos fossem alvo de vigilância oficial. Isso, claro, sem falar das medidas que fazem com que a vida das pessoas fique mais desconfortável, como ao viajar de avião.

Diante dos problemas econômicos que hoje afligem os Estados Unidos, ainda sem um horizonte de recuperação à vista, o senhor diria que seguimos em direção a um tempo de declínio da hegemonia americana?

E.H. – Nós de fato caminhamos em direção à Era do Declínio Americano. As guerras dos últimos dez anos demonstram como vem falhando a tentativa americana de consolidar sua solitária hegemonia mundial. Isso porque o mundo hoje é politicamente pluralista, e não monopolista. Junto com toda a região que alavancou a industrialização na passagem do século 19 para o século 20, hoje a América assiste à mudança do centro de gravidade econômica do Atlântico Norte para o Leste e o Sul. Enquanto o Ocidente vive sua maior crise desde os anos 30, a economia global ainda assim continua a crescer, empurrada pela China e também pelos outros Brics. Ainda assim, não devemos subestimar os Estados Unidos. Qualquer que venha a ser a configuração do mundo no futuro, eles ainda se manterão como um grande país e não apenas porque são a terceira população do planeta. Ainda vão desfrutar, por um bom tempo, da notável acumulação científica que conseguiram fazer, além de todo o soft power global representado por sua indústria cultural, seus filmes, sua música, etc.

Não só por desdobramentos político-militares do 11/9, mas também pela emergência de novos atores no mundo globalizado, criam-se situações bem desafiadoras. Por exemplo, o que o Ocidente sabe do Islã? E dos países árabes que hoje se levantam contra seus regimes? Qual é o grau de entendimento da China? Enfim, o Ocidente enfrenta dificuldades decorrentes de uma certa superioridade cultural ou arrogância histórica?

E.H. – Ao longo de toda uma era de dominação, o Ocidente não só assumiu que seus triunfos são maiores do que os de qualquer outra civilização, e que suas conquistas são superiores, como também que não haveria outro caminho a seguir. Portanto, ao Ocidente restaria unicamente ser imitado. Quando aconteciam falhas nesse processo de imitação, isso só reforçava nosso senso de superioridade cultural e arrogância histórica. Assim, países consolidados em termos territoriais e políticos, monopolizando autoridade e poder, olharam de cima para baixo para países que aparentemente estavam falhando na busca de uma organização nas mesmas linhas. Países com instituições democráticas liberais também olharam de cima para baixo para países que não as tinham. Políticos do Ocidente passaram a pensar democracia como uma espécie de contabilidade de cidadãos em termos de maiorias e minorias, negando inclusive a essência histórica da democracia. E os colonizadores europeus também se acharam no direito de olhar populações locais de cima para baixo, subjugando-as ou até erradicando-as, mesmo quando viam que aqueles modos de vida originais eram muito mais adequados ao meio ambiente das colônias do que os modos de vida trazidos de fora. Tudo isso fez com que o Ocidente realmente desenvolvesse essa dificuldade de entender e apreciar avanços que não fossem os próprios.

Essa superioridade do Ocidente pode mudar com a emergência de uma potência como a China?

E.H. – Mas mesmo a China, que no passado remoto era tida como uma civilização superior, foi subestimada por longo tempo. Só depois da 2ª Guerra é que seus avanços em ciência e tecnologia começaram a ser reconhecidos. E só recentemente historiadores têm levantado as extraordinárias contribuições chinesas até o século 19. Veja bem, ainda não sabemos em que medida a cultura, a língua e mesmo as práticas espirituais da Pérsia, hoje Irã, enfim, em que medida aquele fraco e frequentemente conquistado império influenciou uma grande parte da Ásia, do Império Otomano até as fronteiras da China. Sabemos? Temos grande dificuldade em compreender a natureza das sociedades nômades, bem como sua interação com sociedades agrícolas assentadas, e hoje a falta dessa compreensão torna quase impossível traduzir o que se passa em vastas áreas da África e da região do Saara, por exemplo, no Sudão e na Somália. A política internacional fica completamente perdida quando confrontada por sociedades que rejeitam qualquer tipo de estado territorial ou poder superior ao do clã ou da tribo, como no Afeganistão e nas terras altas do sudoeste asiático. Hoje achamos que já sabemos muito sobre o Islã, sem nem sequer nos darmos conta de que o radicalismo xiita dos aiatolás iranianos e o sonho de restauração do califado por grupos sunitas não são expressões de um Islã tradicional, mas adaptações modernistas, processadas o longo século 20, de uma religião prismática e adaptável.

Com todos esses exemplos de ‘‘mundos’’ que se estranham, o senhor diria que a história corre o risco das distorções?

E.H. – Apesar de todos esses exemplos, sou forçado a admitir que a arrogância histórica ocidental inevitavelmente se enfraquece, exceto em alguns países, entre eles os EUA, cujo senso de identidade coletiva ainda consiste na crença de sua própria superioridade. Nos últimos dez anos, a história tomou outro curso, muito afetada pelas imigrações internacionais que permitem a mulheres e homens de outras culturas virem para os “nossos” países. Dou um exemplo: hoje a informação municipal na região de Londres onde vivo está disponível não apenas em inglês, mas em albanês, chinês, somali e urdu. A questão preocupante é que, como reação a tudo isso, surge também uma xenofobia de caráter populista, que se propaga até nas camadas mais educadas da população. Mas, inegavelmente, numa cidade como Londres ou Nova York, onde a presença dos imigrantes de várias partes é forte, existe hoje um reconhecimento maior da diversidade do mundo do que se tinha no passado. Turistas que buscam destinos na Ásia, África ou até mesmo no Caribe costumam não entender a natureza das sociedades que cercam seus hotéis, mas jovens mulheres e homens que hoje viajam, a trabalho ou estudos, para esses lugares, já criam outra compreensão. Em resumo, apesar da expansão de xenofobia, há motivos para otimismo porque a compreensão abrangente do nosso tempo complexo requer mais do que conhecimento ou admiração por outras culturas. Requer conhecimento, estudo e, não menos importante, imaginação.

Imaginação?

E.H. – Sim, porque essa compreensão abrangente é frequentemente dificultada pelo persistente hábito de políticos e generais passarem por cima do passado. O Afeganistão é um clamoroso exemplo do que estou dizendo. Temo que não seja o único.

Na sua opinião, estaríamos atravessando um momento regressivo da humanidade quando fundamentalismos religiosos impõem visões de mundo e modos de vida?

E.H. – O que vem a ser um momento regressivo? Esta é a pergunta que faço. Não acredito que nossa civilização esteja encarando séculos de regressão como ocorreu na Europa Ocidental depois da queda do Império Romano. Por outro lado, devemos abandonar a antiga crença de que o progresso moral e político seja tão inevitável quanto o progresso científico, técnico e material. Essa crença tinha alguma base no século 19. Hoje o problema real que se coloca, o maior deles, é que o poder do progresso material e tecnocientífico, baseado em crescente e acelerado crescimento econômico, num sistema capitalista sem controle, gera uma crise global de meio ambiente que coloca a humanidade em risco. E, à falta de uma entidade internacional efetiva no plano da tomada de decisão, nem o conhecimento consolidado do que fazer, nem o desejo político de governos nacionais de fazer alguma coisa estão presentes. Esse vazio decisório e de ação pode, sim, levar o nosso século para um momento regressivo. E certamente isso tem a ver com aquele “sentido de desorientação” que discutimos no início da entrevista.

Apoiado na sua longa trajetória acadêmica, que conselhos o senhor daria aos jovens historiadores de hoje?

E.H. – Hoje pesquisar e escrever a história são atividades fundamentais, e a missão mais importante dos historiadores é combater mitos ideológicos, boa parte deles de feitio nacionalista e religioso. Combater mitos para substituí-los justamente por história, com o apoio e o estímulo de muitos governos, inclusive. Se eu fosse jovem o suficiente, gostaria de participar de um excitante projeto interdisciplinar que recorresse à moderna arqueologia e às técnicas de DNA para compor uma história global do desenvolvimento humano, desde quando os primeiros Homo sapiens tenham aparecido na África oriental e como elas se espalharam pelo globo. Agora, se eu fosse um jovem historiador latino-americano, daí eu poderia ser tentado a investigar o impacto do meu continente sobre o resto do mundo. Isso, desde 1492, na era dos descobrimentos, passando pela contribuição material desse continente a tantos países, com metais preciosos, alimentos e remédios, até o efeito da América Latina sobre a cultura moderna e a compreensão do mundo, influenciando intelectuais como Montaigne, Humboldt, Darwin. E, evidentemente, eu pesquisaria a riqueza musical do continente, fosse eu um latino-americano. Isso é tudo o que eu quero dizer.

A roda bélica da história, por Hobsbawm
 
1ª Guerra, o banho de sangue – O tempo histórico era outro, avalia Hobsbawm. O mundo ficara quase um século sem um grande conflito e o conceito de “paz” fez-se sinômico de “antes de 1914”, ano em que Francisco Ferdinando, da Áustria, foi morto. Detonava-se o conflito que iria sangrar a Europa.
 
2ª Guerra, o mistério – O mundo sabia o que era uma guerra maciça, mas não uma guerra global. Eis a amarga contribuição da 2ª Guerra, conflito sem limites. Hobsbawm indaga: por que Hitler, esgotado na Rússia, declarou guerra aos EUA, permitindo que se associassem à Grã-Bretanha?

Guerra Fria, o absurdo – Como explicar 40 anos de tensão pela crença de que o planeta poderia explodir a qualquer momento e, contra a destruição total, só haveria a chance da dissuasão mútua? Para Hobsbawm, a Guerra Fria dos tempos de Kruchev carregou a inconclusão da Era da Catástrofe.

Guerra do Golfo, o lucro – Ao findar da Guerra Fria, lembra o historiador, a hegemonia econômica americana já estava abalada. E sua superioridade militar teve que ser financiada por apoiadores de Washington. Na guerra contra o Iraque, em 1991, a potência presidida por Bush pai realizou lucros.


*Laura Greenhalgh é jornalista do Estado de S.Paulo