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2.9.11

O (des) caminho de Lars e Vinterberg*




Ateus Novos





Em 1995, os dinamarqueses Thomas Vinterberg e Lars Von Trier lançaram o manifesto “Dogma”. Seus dois filmes mais recentes, “Submarino” e “Melancolia”, permitem aferir o quanto eles se afastaram do movimento.

por José Geraldo Couto


Uma década e meia depois do Dogma 95, o cinema dinamarquês volta a espalhar a sua peçonha. O exemplar mais recente da safra é Submarino, de Thomas Vinterberg, um dos autores do célebre manifesto, ao lado do ciclotímico Lars Von Trier. Recém-lançado no Brasil, pouco depois de Melancolia, último rebento de Von Trier, o vigoroso Submarino de Vinterberg lança a questão: o que restou dos princípios do Dogma no cinema de seus dois idealizadores? Estavam certos os críticos que viram no manifesto apenas uma jogada de marketing? Ou seus preceitos de fato ajudaram a renovar a produção contemporânea?

Relembrando o que, há 16 anos, foi considerado uma revolução. O Dogma 95 listava preceitos rígidos: as filmagens tinham que ser feitas em locação (cenas em estúdio estavam proibidas), com câmera na mão; a única música permitida era a produzida em cena, dentro da história narrada; não podia haver nenhuma iluminação especial (no máximo, uma lâmpada em cima da câmera); efeitos artificiais, nem pensar. A rigor, poucos filmes seguiram à risca esse caderninho de regras espartanas. Mesmo os mais radicais do movimento – Festa de Família, de Vinterberg, e Os Idiotas, de Von Trier, ambos de 1998 – transgrediram algumas delas aqui e ali.

Entre os lançamentos recentes, Submarino é o mais fiel ou, no mínimo, o que menos se distancia da cartilha anunciada em 1995. No filme, o tema do abandono infantil – aliás, recorrente no atual cinema do país – é explorado de maneira quase clínica. A narrativa se divide em três partes. Na primeira, dois meninos negligenciados pela mãe junkie e alcoólatra são obrigados a cuidar do irmãozinho bebê. As outras duas partes mostram o que acontece com os dois na vida adulta. Ainda que a cena final possa sugerir uma nesga de esperança, Vinterberg não alivia: sua visão é sombria e angustiada. O retrato que ele faz do mundo é o de um lugar inóspito, ameaçador, povoado por gente solitária e doente de corpo e alma.

Mal-estar nórdico

Já Melancolia é, de todos os recentes filmes dinamarqueses – incluindo o oscarizado Em um Mundo Melhor, de Susanne Bier, e Tudo Ficará Bem, de Christoffer Boe –, o que mais se afasta dos mandamentos do manifesto. Vamos combinar: o que seria do longa de Von Trier sem a música de Wagner (da ópera Tristão e Isolda)? E sem a câmera lentíssima do prólogo, sem as fusões, sobreimpressões e efeitos que criam a atmosfera onírica que domina a obra? É esse arsenal de recursos “proibidos” que permite a Von Trier conferir ao drama de seus personagens uma dimensão cósmica e até metafísica. Em Melancolia, a desesperança assume tintas literalmente apocalípticas.

Talvez a radicalidade ascética do Dogma 95, bem como a estridência da sua divulgação, tenha sido necessária para sacudir um cinema internacional que tendia para a estagnação e a esclerose criativa, disfarçada pela perfeição técnica. Mas foi como rompante juvenil, uma destemperada revolta adolescente – embora Von Trier já tivesse quase 40 anos e meia dúzia de longas no currículo. Hoje, assentada a poeira da polêmica, os cineastas dinamarqueses parecem dispostos a lançar mão das mais diferentes formas narrativas que o cinema comporta, do melodrama (Em um Mundo Melhor) à fantasia apocalíptica (Melancolia), passando pelo falso thriller (Tudo Ficará Bem) e pela tragédia familiar (Submarino), para expressar sua angústia diante dos destinos humanos.

Pois o que esses filmes tão diferentes parecem transmitir, em conjunto, é o profundo mal-estar da civilização nórdica, a mesma que produziu a filosofia do dinamarquês Soren Kierkegaard, o teatro do norueguês Henrik Ibsen, o cinema do sueco Ingmar Bergman – e os atentados sangrentos do dinamarquês Anders Behring Breivik, que não tinha entrado na história.

José Geraldo Couto é crítico de cinema, tradutor

*(O título é meu)

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