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12.9.11

Simone Weil


 
"A atenção é uma forma alta de generosidade" Simone Weil
 
 
Irmã mais jovem do matemático André Weil, Simone nasceu numa família judia não-praticante; ela e o irmão cresceram agnósticos. Revelando precocemente uma inteligência notável e uma personalidade excêntrica (recusava-se freqüentemente a comer por razões "idealísticas" e estava determinada a permanecer virgem), Simone já falava grego arcaico aos doze anos de idade. Aos 15, obteve um bacharelado em filosofia e passou três anos preparando-se para o concorrido exame da Ecole Normale Supérieure sob a supervisão do filósofo anticonformista "Alain" (que a apelidou - por causa das roupas estranhas que ela costumava usar - de "Marciana"). Uma das primeiras mulheres a estudar na instituição, existem controvérsias se ela teria se formado em primeiro (segundo algumas fontes) ou segundo lugar (conforme afirmam outras). Todavia, todas as fontes são unânimes em afirmar que ela graduou-se imediatamente à frente de outra Simone - a de Beauvoir.

Em 1931, Simone Weil tornou-se professora numa escola secundária para moças em Le Puy, onde ganhou outro apelido exótico: "Virgem Vermelha", algo como um misto de freira e anarquista. Compartilhava a prosaica atividade do magistério com períodos exaustivos trabalhando em fazendas e fábricas, método pelo qual encontraria "o tempo como condição e o espaço como objeto" de sua ação, pois segundo seu pensamento, o mundo é o lugar adequado para um intelectual estar, ajudando as pessoas a refinarem seus poderes de observação e capacidade crítica; e que o papel apropriado para a ciência é permanecer integrada com a vida produtiva, sem a qual, torna-se meramente um sistema remoto de sinais vazios. Depois de dizer para suas alunas que "a família é prostituição legalizada... a esposa é uma amante reduzida à escravidão", foi transferida de escola e de cidade.

O Ópio do Povo

Durante suas férias de verão em 1932, Simone viajou até a Alemanha para descobrir por si mesma porque o partido nazista estava subindo ao poder. Na volta, ela escreveu "L'Allemagne en attente" ("A Alemanha à espera") para o jornal sindicalista La Révolution Prolétarienne, e a série em dez partes "La situation en Allemagne" ("A situação na Alemanha") para o L'École Émancipée, órgão do sindicato dos professores. Para horror de seus colegas comunistas, às voltas com a contra-revolução stalinista, Weil argumentou que o capitalismo estatal, centralizado e burocrático da Rússia, era em todos os seus principais aspectos, indistinguível do programa fascista. Seu artigo herético "Allons-nous vers la révolution prolétarienne?" ("Estamos realmente a caminho de uma revolução proletária?"), publicado nesta época, insistia que a maioria dos assim chamados revolucionários estava, na melhor das hipóteses, perigosamente equivocados, e na pior, eram mártires em busca da morte. Talvez, como ela observou posteriormente, "não é a religião, mas sim a revolução, o ópio do povo".

Filósofa militante

Em 1934, Simone licenciou-se por dois anos do magistério para tentar viver como e entre operários. Todavia, sua resistência física só lhe permitiu levar o projeto até agosto de 1935, quando, trabalhando na linha de montagem de carros da Renault, caiu doente com uma inflamação na pleura. O "Journal d'usine" ("Diário da fábrica") que ela manteve durante esse período observa que "a exaustão me fez esquecer finalmente as verdadeiras razões pelas quais estou na fábrica; ela faz quase invencível a tentação que esta vida traz consigo: não mais pensar". Ela ficou tão traumatizada por sua experiência fabril, que abandonou imediatamente quaisquer noções românticas que ainda tivesse sobre o proletariado e sua (ou de quem quer que fosse) habilidade para ajudá-lo. Ela descobriu que a opressão não resulta em rebelião, mas em obediência e apatia - e até mesmo na internalização dos valores do opressor.

Com base em sua experiência pessoal, ela argumenta no ensaio "Expérience de la vie d'usine" ("Vivendo a vida da fábrica"), que a automação é uma boa coisa ao eliminar trabalho penoso e servil, mas que a superautomação transforma um trabalhador qualificado em nada mais que um intermediário entre o maquinário e as coisas a serem processadas: "coisas fazem o papel de homens, homens o papel de coisas. Aí jaz a raiz do mal". A única solução possível, segundo Simone, não seria um retorno ao modo rude da manufatura - uma noção neo-ludita que ela achava grotesca - mas automatizar somente as tarefas mais ingratas, e para todas as outras, empregar a "máquina-instrumento", a qual combina a precisão da máquina com a assistência habilitada do trabalhador, exigindo do operador, proatividade, iniciativa e uma apreensão inteligente das partes operacionais.

Ao refletir sobre a máquina-instrumento, a qual - diferentemente da máquina automática - requer que seu operador reconheça certos limites físicos do que pode e do que não pode ser feito, Simone começou a avançar o desenvolvimento de sua visão do "equilíbrio do homem consigo mesmo e do homem com a realidade". Não mais percebemos as dificuldades diretamente, nem conscientemente nos aplicamos à sua solução, ela observou em seu diário. Em vez disso, vemos apenas sintomas, e empregamos apenas "resultados (ou seja, das tentativas anteriores de resolver o problema) cristalizados" em máquinas, "álgebra" (sua abreviatura para ciência divorciada da vida) e dinheiro. Para Simone, a lei da sociedade em desequilíbrio é quantidade tornada possível pela eficiência. O trabalho pela causa da sobrevivência é substituído pela produção pela causa do lucro. Por esta razão, divagava, "em muitas áreas não podemos escapar exceto pela privação".

Enxaquecas e êxtase


Em julho de 1936, com a eclosão da Guerra Civil Espanhola, Simone juntou-se à causa republicana. Mesmo sendo míope e frágil, recebeu um rifle e foi incorporada a uma unidade de anarquistas. Sem nenhum preparo para a vida militar, ela quase que imediatamente enfiou o pé numa panela de óleo fervente e teve de ser resgatada por seus pais, que a mandaram para Assis, na Itália, para recuperar-se. Desanimada com as atrocidades que havia visto seu próprio lado cometer, Simone reafirmou seu pacifismo.

Ela escreveu "Ne recommençons pas la guerre de Troie" ("Não vamos recomeçar a guerra de Tróia") para a revista Nouveaux Cahiers, lamentando que, "embora vivamos entre realidades mutáveis, diversas e determinadas pelo jogo volúvel de necessidades externas, agimos, lutamos, sacrificamos a nós e a outros em nome de abstrações cristalizadas, isoladas" (como nação, capitalismo, comunismo e fascismo).

Forçada a parar de lecionar por causa de constantes enxaquecas, Simone tornou-se crescentemente obcecada por questões metafísicas. Em acréscimo ao seu conhecimento enciclopédico que ia da poesia de Homero às últimas descobertas em teorias matemáticas, ela começou a estudar os maniqueus, gnósticos, pitagóricos, estóicos, taoísmo e budismo. Devorou o Livro dos Mortos egípcio, e ficou tão impressionada com o Bhagavad Gita que começou a aprender sânscrito por conta própria. Posteriormente, ao ouvir um canto gregoriano num mosteiro beneditino enquanto sua enxaqueca estava no auge, ela "experimentou a alegria e amargura da paixão de Cristo como um evento real" - e pela primeira vez começou a pensar em si mesma como uma pessoa religiosa.

Vindima e ascese

Com o início dos conflitos entre França e Alemanha em setembro de 1939, Simone deixou claro em diversos artigos para o Nouveaux Cahiers que apesar do medo e da raiva que os nazistas lhe causavam, era uma irresponsabilidade que políticos e jornalistas franceses os retratassem como bárbaros desumanos, visto que "todo povo que se torna uma nação submetendo-se a um estado centralizado, burocrático e militarizado, subitamente torna-se e permanece um flagelo para seus vizinhos e para o mundo", ou seja, a França não era diferente deles. Em 1940, quando os alemães entram em Paris, ela foge para Marselha onde passa a colaborar, sob o pseudônimo de Emile Novis, com o jornal Les Cahiers du Sud organizado por um grupo de escritores fugitivos.

É lá também que conhece o padre católico Joseph-Marie Perrin, que fica tão impressionado com os pensamentos dela sobre a cristandade que a convida a batizar-se. Simone, todavia, recusa a oferta afirmando que "não quero ser adotada por um círculo, viver entre pessoas que dizem ‘nós’ e ser parte de uma ‘gente’, descobrir que ‘estou em casa’ em quaisquer cercanias humanas, sejam lá quais forem... sinto que é necessário e ordenado que eu deva permanecer só, uma estranha e uma exilada em relação a qualquer círculo humano, sem exceção". O padre Perrin a apresenta então a Gustave Thibon, um teólogo leigo que administrava uma colônia agrícola católica. Lá, distante dos pais que estavam em segurança nos Estados Unidos, ela pode praticar o ascetismo do modo como sempre havia desejado: trabalhou nos campos e vinhedos durante a colheita ao lado dos camponeses, dormia num saco de dormir no chão e se alimentava somente de cebolas e tomates. E também escreveu - muito. O resultado de sua tentativa de fundir antigas idéias gregas sobre o impessoal e o contemplativo com o catolicismo, é um corpo de pensamento que parece ao mesmo tempo insano e verdadeiro.

Em abril de 1942, ela deixa seus diários com Thibon e emigra para os Estados Unidos, de onde começa a planejar seu retorno à Europa. Escreve para o governo provisório francês exilado em Londres, expressando sua ânsia em pular de pára-quedas sobre a França ocupada numa "missão secreta, preferivelmente perigosa". Também começou a escrever uma nova série de diários, que Albert Camus, que a chamava de "o único grande espírito do nosso tempo", eventualmente publicou como "Cahiers d'Amerique" ("Diários da América") na coleção "La Connaissance Surnaturelle" ("Conhecimento Sobrenatural"). Valendo-se dos seus contatos, Simone finalmente conseguiu ser chamada à Londres, onde viu-se encarregada de analisar todas as sugestões de como organizar a França depois da guerra. Desapontada com o nacionalismo antiquado dos gaullistas, logo renunciou ao cargo, e afirmando que não tinha o direito de comer mais do que seus camaradas na França ocupada, deixou-se passar fome até que teve de ser hospitalizada.

Depois de sua recuperação, ela fez um último esforço para compilar suas idéias sobre a tão sonhada "sociedade sem opressão". O resultado é "L'Enracinement" ("A Necessidade de Raízes"), a qual o poeta e crítico Kenneth Rexroth, por exemplo, dispensa como um produto da "agonia intelectual e espiritual, espasmódica e moribunda" de sua autora. Apesar do tom histérico, Simone reafirma seu posicionamento: antes que a sociedade possa ser regenerada, devemos reconhecer que cada problema social é um sintoma de uma profunda "desenraibilidade" (um estado "mais ou menos similar à vida puramente vegetativa"), produzida por - naturalmente - dinheiro, "mecanismo", ciência e tecnologia divorciadas da vida e o uso da força. A política deve ser algo mais do que impor uma ideologia sobre a tática particular de um grupo social que queremos levar adiante, conclui Simone. Deveria ser uma reflexão inteligente sobre a realidade, conduzida por pensadores profundos.

Pouco depois de terminar "A Necessidade de Raízes", ela escreveu em seu diário: "dado o dilema geral e permanente da humanidade neste mundo, comer até que se esteja saciado é um abuso (E eu tenho sido culpada muitas vezes.)". Aparentemente abraçando o ideal cátaro de morrer antes de sucumbir às tentações da carne e ao desejo de poder, Simone recebeu um diagnóstico de tuberculose em abril de 1943. Enviada para um sanatório no campo, recusou-se a se alimentar, insistindo que suas refeições deveriam ser mandadas para a França. Morreu de parada cardíaca aos 34 anos de idade no Sanatório Grosvenor, em Ashford, Kent. Uma rua da cidade foi batizada com o seu nome.

Bibliografia

    * 1947 - La Pesanteur et la Grâce, prefácio de Gustave Thibon, Paris, Plon.
    * 1949 - L'enracinement. Prélude à une déclaration des devoirs envers l'être humain. Paris: Éditions Gallimard, 1949, 382 páginas. Collection idées.
    * 1949 - Attente de Dieu, introdução de Joseph-Marie Perrin, O. P. Paris, La Colombe, Éd. du Vieux Colombier ; Paris, Fayard, 1966.
    * 1950 - La connaissance surnaturelle, Coll. Espoir, Paris, Gallimard.
    * 1951 - Intuitions pré-chrétiennes, Paris, La Colombe, Éd. du Vieux-Colombier, 1951.
    * 1951 - Cahiers, I, Coll. L'Épi, Paris, Plon, 1951 ; edição revista e aumentada, 1970.
    * 1951 - Lettre à un religieux, Coll. Espoir, Paris, Gallimard 1951 ; Coll. « Livre de Vie », Paris, Éd. du Seuil, 1974.
    * 1951 - La condition ouvrière. Paris: Éditions Gallimard, 1951. Collection idées, 375 páginas. (Coletânea de textos escritos entre 1934 e 1942).
    * 1953 - La Source grecque, Paris, Gallimard.
    * 1953 - Cahiers, II, Coll. L'Épi, Paris, Plon, 1953 ; edição revista e aumentada, 1972.
    * 1955 - Oppression et liberté, Coll. Espoir, Paris, Gallimard, 1955.
    * 1955 - Venise sauvée, Gallimard.
    * 1956 - Cahiers, III, Coll. L'Épi, Paris, Plon, 1956 ; edição revista e aumentada, 1974.
    * 1957 - Écrits de Londres et dernières lettres, Coll. Espoir, Paris, Gallimard.
    * 1959 - Leçons de philosophie (Roanne 1933-1934), transcritas e apresentadas por Anne Reynaud-Guérithault, Paris, Plon 1959 ; Coll. 10/18, Paris, UGD, 1970.
    * 1960 - Écrits historiques et politiques (Coletânea de textos). Collection Espoir. Paris: Éditions Gallimard, 1960, 413 páginas.
    * 1962 - Pensées sans ordre concernant l'amour de Dieu, Paris, Gallimard.
    * 1966 - Sur la science, Paris, Gallimard.
    * 1988 - Œuvres complètes, Paris, Gallimard. Tomo 1 : Premiers écrits philosophiques, Tomo 2 : Écrits historiques et politiques.


http://pt.wikipedia.org/wiki/Simone_Weil

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