Lugar de Pensar

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Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome. Clarice Linspector
“Não somos seres humanos vivendo uma experiência espiritual, somos seres espirituais vivendo uma experiência humana.” Teilhard de Chardin
A solidão não existe! Tenho um mundo inteiro dentro de mim.
Seja bem-vindo.

20.12.11

Carta aberta ao Senhor Primeiro Ministro

 
Fonte:http://entreasbrumasdamemoria.blogspot.com/2011/12/carta-aberta-ao-senhor-primeiro.html#more
(Blog Entre as brumas das mamória)
                           

 
Carta aberta ao Senhor Primeiro Ministro


Este texto foi publicado hoje no Facebook por alguém que conheço pessoalmente. Tal como conheço o pai. Foi escrito pela Myriam, como podia ter sido escrito por dezenas de pessoas com quem lido diariamente ou quase. Sinto uma enorme revolta, mas pouco mais posso fazer do que dar-lhe este espaço.

Exmo Senhor Primeiro Ministro

Começo por me apresentar, uma vez que estou certa que nunca ouviu falar de mim. Chamo-me Myriam. Myriam Zaluar é o meu nome "de guerra". Basilio é o apelido pelo qual me conhecem os meus amigos mais antigos e também os que, não sendo amigos, se lembram de mim em anos mais recuados.

Nasci em França, porque o meu pai teve de deixar o seu país aos 20 e poucos anos. Fê-lo porque se recusou a combater numa guerra contra a qual se erguia. Fê-lo porque se recusou a continuar num país onde não havia liberdade de dizer, de fazer, de pensar, de crescer. Estou feliz por o meu pai ter emigrado, porque se não o tivesse feito, eu não estaria aqui. Nasci em França, porque a minha mãe teve de deixar o seu país aos 19 anos. Fê-lo porque não tinha hipóteses de estudar e desenvolver o seu potencial no país onde nasceu. Foi para França estudar e trabalhar e estou feliz por tê-lo feito, pois se assim não fosse eu não estaria aqui. Estou feliz por os meus pais terem emigrado, caso contrário nunca se teriam conhecido e eu não estaria aqui. Não tenho porém a ingenuidade de pensar que foi fácil para eles sair do país onde nasceram. Durante anos o meu pai não pôde entrar no seu país, pois se o fizesse seria preso. A minha mãe não pôde despedir-se de pessoas que amava porque viveu sempre longe delas. Mais tarde, o 25 de Abril abriu as portas ao regresso do meu pai e viemos todos para o país que era o dele e que passou a ser o nosso. Viemos para viver, sonhar e crescer.

Cresci. Na escola, distingui-me dos demais. Fui rebelde e nem sempre uma menina exemplar mas entrei na faculdade com 17 anos e com a melhor média daquele ano: 17,6. Naquela altura, só havia três cursos em Portugal onde era mais dificil entrar do que no meu. Não quero com isto dizer que era uma super-estudante, longe disso. Baldei-me a algumas aulas, deixei cadeiras para trás, saí, curti, namorei, vivi intensamente, mas mesmo assim licenciei-me com 23 anos. Durante a licenciatura dei explicações, fiz traduções, escrevi textos para rádio, coleccionei estágios, desperdicei algumas oportunidades, aproveitei outras, aprendi muito, esqueci-me de muito do que tinha aprendido.

Cresci. Conquistei o meu primeiro emprego sozinha. Trabalhei. Ganhei a vida. Despedi-me. Conquistei outro emprego, mais uma vez sem ajudas. Trabalhei mais. Saí de casa dos meus pais. Paguei o meu primeiro carro, a minha primeira viagem, a minha primeira renda. Fiquei efectiva. Tornei-me personna non grata no meu local de trabalho. "És provavelmente aquela que melhor escreve e que mais produz aqui dentro." - disseram-me - "Mas tenho de te mandar embora porque te ris demasiado alto na redacção". Fiquei.

Aos 27 anos conheci a prateleira. Tive o meu primeiro filho. Aos 28 anos conheci o desemprego. "Não há-de ser nada, pensei. Sou jovem, tenho um bom curriculo, arranjarei trabalho num instante". Não arranjei. Aos 29 anos conheci a precariedade. Desde então nunca deixei de trabalhar mas nunca mais conheci outra coisa que não fosse a precariedade. Aos 37 anos, idade com que o senhor se licenciou, tinha eu dois filhos, 15 anos de licenciatura, 15 de carteira profissional de jornalista e carreira 'congelada'. Tinha também 18 anos de experiência profissional como jornalista, tradutora e professora, vários cursos, um CAP caducado, domínio total de três línguas, duas das quais como "nativa". Tinha como ordenado 'fixo' 485 euros x 7 meses por ano. Tinha iniciado um mestrado que tive depois de suspender pois foi preciso escolher entre trabalhar para pagar as contas ou para completar o curso. O meu dia, senhor primeiro ministro, só tinha 24 horas...

Cresci mais. Aos 38 anos conheci o mobbying. Conheci as insónias noites a fio. Conheci o medo do amanhã. Conheci, pela vigésima vez, a passagem de bestial a besta. Conheci o desespero. Conheci - felizmente! - também outras pessoas que partilhavam comigo a revolta. Percebi que não estava só. Percebi que a culpa não era minha. Cresci. Conheci-me melhor. Percebi que tinha valor.

Senhor primeiro-ministro, vou poupá-lo a mais pormenores sobre a minha vida. Tenho a dizer-lhe o seguinte: faço hoje 42 anos. Sou doutoranda e investigadora da Universidade do Minho. Os meus pais, que deviam estar a reformar-se, depois de uma vida dedicada à investigação, ao ensino, ao crescimento deste país e das suas filhas e netos, os meus pais, que deviam estar a comprar uma casinha na praia para conhecerem algum descanso e descontracção, continuam a trabalhar e estão a assegurar aos meus filhos aquilo que eu não posso. Material escolar. Roupa. Sapatos. Dinheiro de bolso. Lazeres. Actividades extra-escolares. Quanto a mim, tenho actualmente como ordenado fixo 405 euros X 7 meses por ano. Sim, leu bem, senhor primeiro-ministro. A universidade na qual lecciono há 16 anos conseguiu mais uma vez reduzir-me o ordenado. Todo o trabalho que arranjo é extra e a recibos verdes. Não sou independente, senhor primeiro ministro. Sempre que tenho extras tenho de contar com apoios familiares para que os meus filhos não fiquem sozinhos em casa. Tenho uma dívida de mais de cinco anos à Segurança Social que, por sua vez, deveria ter fornecido um dossier ao Tribunal de Família e Menores há mais de três a fim que os meus filhos possam receber a pensão de alimentos a que têm direito pois sou mãe solteira. Até hoje, não o fez.

Tenho a dizer-lhe o seguinte, senhor primeiro-ministro: nunca fui administradora de coisa nenhuma e o salário mais elevado que auferi até hoje não chegava aos mil euros. Isto foi ainda no tempo dos escudos, na altura em que eu enchia o depósito do meu renault clio com cinco contos e ia jantar fora e acampar todos os fins-de-semana. Talvez isso fosse viver acima das minhas possibilidades. Talvez as duas viagens que fiz a Cabo-Verde e ao Brasil e que paguei com o dinheiro que ganhei com o meu trabalho tivessem sido luxos. Talvez o carro de 12 anos que conduzo e que me custou 2 mil euros a pronto pagamento seja um excesso, mas sabe, senhor primeiro-ministro, por mais que faça e refaça as contas, e por mais que a gasolina teime em aumentar, continua a sair-me mais em conta andar neste carro do que de transportes públicos. Talvez a casa que comprei e que devo ao banco tenha sido uma inconsciência mas na altura saía mais barato do que arrendar uma, sabe, senhor primeiro-ministro. Mesmo assim nunca me passou pela cabeça emigrar...

Mas hoje, senhor primeiro-ministro, hoje passa. Hoje faço 42 anos e tenho a dizer-lhe o seguinte, senhor primeiro-ministro: Tenho mais habilitações literárias que o senhor. Tenho mais experiência profissional que o senhor. Escrevo e falo português melhor do que o senhor. Falo inglês melhor que o senhor. Francês então nem se fale. Não falo alemão mas duvido que o senhor fale e também não vejo, sinceramente, a utilidade de saber tal língua. Em compensação falo castelhano melhor do que o senhor. Mas como o senhor é o primeiro-ministro e dá tão bons conselhos aos seus governados, quero pedir-lhe um conselho, apesar de não ter votado em si. Agora que penso emigrar, que me aconselha a fazer em relação aos meus dois filhos, que nasceram em Portugal e têm cá todas as suas referências? Devo arrancá-los do seu país, separá-los da família, dos amigos, de tudo aquilo que conhecem e amam? E, já agora, que lhes devo dizer? Que devo responder ao meu filho de 14 anos quando me pergunta que caminho seguir nos estudos? Que vale a pena seguir os seus interesses e aptidões, como os meus pais me disseram a mim? Ou que mais vale enveredar já por outra via (já agora diga-me qual, senhor primeiro-ministro) para que não se torne também ele um excedentário no seu próprio país? Ou, ainda, que venha comigo para Angola ou para o Brasil por que ali será com certeza muito mais valorizado e feliz do que no seu país, um país que deveria dar-lhe as melhores condições para crescer pois ele é um dos seus melhores - e cada vez mais raros - valores: um ser humano em formação.

Bom, esta carta que, estou praticamente certa, o senhor não irá ler já vai longa. Quero apenas dizer-lhe o seguinte, senhor primeiro-ministro: aos 42 anos já dei muito mais a este país do que o senhor. Já trabalhei mais, esforcei-me mais, lutei mais e não tenho qualquer dúvida de que sofri muito mais. Ganhei, claro, infinitamente menos. Para ser mais exacta o meu IRS do ano passado foi de 4 mil euros. Sim, leu bem, senhor primeiro-ministro. No ano passado ganhei 4 mil euros. Deve ser das minhas baixas qualificações. Da minha preguiça. Da minha incapacidade. Do meu excedentarismo. Portanto, é o seguinte, senhor primeiro-ministro: emigre você, senhor primeiro-ministro. E leve consigo os seus ministros. O da mota. O da fala lenta. O que veio do estrangeiro. E o resto da maralha. Leve-os, senhor primeiro-ministro, para longe. Olhe, leve-os para o Deserto do Sahara. Pode ser que os outros dois aprendam alguma coisa sobre acordos de pesca.

Com o mais elevado desprezo e desconsideração, desejo-lhe, ainda assim, feliz natal OU feliz ano novo à sua escolha, senhor primeiro-ministro.

E como eu sou aqui sem dúvida o elo mais fraco, adeus.

Myriam Zaluar, 19/12/2011


(recebi por email com a recomendação expressa de divulgar entre meus amigos. tarefa cumprida)

18.12.11

Toda mudez será ... revelada

 
 
A privataria tucana


O ruído virtual do silêncio

 Rodrigo Martins


Em apenas quatro dias, a primeira edição estava esgotada, com 30 mil exemplares vendidos. As primeiras 15 mil cópias de A Privataria Tucana, livro do jornalista Amaury Ribeiro Jr., desapareceram em menos de 24 horas das principais livrarias do País, um sucesso inegável. O êxito editorial é um reconhecimento do esforço de apuração do repórter, que passou mais de dez anos investigando as maracutaias das privatizações na era Fernando Henrique Cardoso. “Mas se esta mesma obra tivesse sido lançada dez ou 15 anos atrás, ela poderia ter amargado um fracasso de vendas”, especula o jornalista e sociólogo Venício Artur de Lima, professor aposentado da Universidade de Brasília. “A chamada grande mídia ignorou solenemente as denúncias do livro e, não fosse pela repercussão na internet, em blogs e redes sociais, dificilmente teria entrado para o debate público como ocorreu.”
A omissão dos principais veículos de comunicação revelou, sobretudo, a seletividade da mídia tradicional na cobertura dos escândalos políticos. As exceções,comode hábito, foram raras. 

CartaCapital- antecipou aos leitores, em reportagem de capa com 12 páginas, as principais denúncias feitas por Ribeiro Jr., fartamente documentadas no livro, além de -divulgar com exclusividade trechos da obra. A TV Record, que emprega o repórter-autor, também dedicou parte significativa do seu noticiário ao tema, assim como a revista eletrônica Terra Magazine, editada por Bob Fernandes. Ficou por aí. Enquanto os principais jornais e telejornais se calavam, quem cuidou de manter o debate aceso foram os internautas, tanto em textos publicados em blogs,como nos incalculáveis comentários que se alastraram pelo Facebook, Twitter e outras redes sociais. Diante da dificuldade de encontrar o livro nas prateleiras das livrarias, multiplicaram-se os boatos sobre um possível boicote. E também versões -digitalizadas da obra na web. “Muita gente baixou cópias. O livro impresso deve chegar ao Acre (se chegar) em 2012”, tuitou o jornalista acriano Altino Machado.
 
O silêncio dos jornalões impressionou até mesmo profissionais calejados, acostumados a combater o jogo rasteiro da mídia tradicional. “Sete ministros da presidenta Dilma já caíram, sempre em razão de denúncias de corrupção ou de tráfico de influência. Em todos os casos, a mídia cumpriu o seu papel. Investigou e mancheteou. Impiedosamente. A oposição botou a boca no trombone,comolhe cabe fazer. Mas, desde sexta-feira 9, o que se ouve é um estrondoso silêncio”, criticou Fernandes no Jornal da Gazeta, três dias após o lançamento do livro.
 
“Alguém invocou a credibilidade do Sombra, aquele que recebia e pagava (propina) e que levou à queda do governador José Roberto Arruda (do Distrito Federal)? Ou dos motivos que levaram Roberto Jefferson a denunciar o mensalão? E o policial João Dias, que recebia dinheiro,comoconfessou há pouco, mas levou à queda do ministro do Esporte, Orlando Silva?”, indagou. “Os citados no livro A Privataria Tucana seguem em profundo silêncio. A mídia, sempre pronta a investigar e manchetear,comoé de seu ofício, também segueem silêncio. Umsilêncio estrondoso. Se continuar assim, um silêncio revelador.”
 
Entrincheirado em seu blog, o jornalista econômico Luis Nassif foi um dos primeiros a repercutirem a última reportagem de capa de CartaCapital e esmiuçar as denúncias do livro, ao lado de Luiz Carlos Azenha, Paulo Henrique Amorim e Rodrigo Vianna. “Ao juntar todas as peças do quebra-cabeça e acrescentar documentos relevantes, Amaury escancara a história recente do País. Fica claro por que os jornais embarcaram de cabeça na defesa de Daniel Dantas, Gilmar Mendes e outros personagens que os indispuseram com seus próprios leitores”, escreveu. Na avaliação de Nassif, a mídia firmou um grande pacto com Serra em 2005, com duplo objetivo: um, não alcançado, de ajudá-lo a se tornar presidente da República; o outro, levado a cabo, foi a blindagem contra qualquer tipo de denúncia. “Foi um comprometimento tão amplo, orgânico, que agora a velha mídia não repercute mais nada que deponha contra Serra. De um modo geral, a imprensa brasileira sempre teve uma cobertura partidarizada, mas havia um espaço mínimo de debate. Um colunista podia, eventualmente, discordar da linha editorial do jornal. Havia mais sensibilidade para oferecer informações de interesse do leitor. Goste ou não do livro do Amaury, não se pode ignorá-lo. Deve ser debatido nem que seja para rebater o que está escrito lá. Isso expôs os próprios jornalistas da mídia tradicional ao ridí-culo. Quem tem perfil em redes sociais está sendo cobrado pelos leitores.”
 
De fato, sobram exemplos de jornalistas constrangidos na web. No Twitter, por exemplo, diversos colunistas e analistas políticos perderam a esportiva quando indagados por internautas sobre o seu silêncio em relação às denúncias. Lúcia Hippolito, comentarista da Rádio CBN, justificou que ainda não havia tido tempo para ler o livro e disparou contra um seguidor do seu microblog: “Por favor, não gosto de ser pautada. Não gostava na ditadura, não vou aceitar na democracia. Vou ler o livro com atenção e comentar”. Ricardo Noblat, colunista do jornal O Globo, afirmou que comprou um exemplar, mas o lê “sem pressa”. Cobrado por leitores, fugiu pela tangente: “Lula disse mais de uma vez que a grande imprensa não forma opinião. Não é levadaem conta. Portanto, o livro do Amaury não precisa de resenhas na grande imprensa para vender bem. As redes sociais se encarregarão disso. Não é?” Também Dora Kramer, colunista do Estado- de S. Paulo, viu-se numa saia justa diante das cobranças na internet: “Se a ‘mídia golpista’ não tem a menor importância, por que querem tanto que a imprensa comente o livro?” A jornalista perguntou e ela própria sabe qual é a resposta.
 
Na avaliação de VenícioLima, esse tipo de embate deve se intensificar ainda mais, conforme a internet é popularizada no Brasil. “A verdade é que a mídia perdeu o monopólio para ditar a pauta do debate público. Novas fontes de informação política surgiram na web, com a possibilidade de interação com os leitores, e essas fontes são consultadas. Independentemente da vontade da grande mídia, o tema tem sido debatido intensamente nos últimos dias, o que forçou alguns jornais, como a Folha de S.Paulo e o Estadão, a se pronunciarem, ainda que timidamente, numa tentativa de desqualificar o autor do livro”, afirma. “Eles sabem que precisam entrar nesse debate, porque o que está em jogo é a credibilidade deles. Não dá para continuar atuandocomoum partido político, atacando os rivais e protegendo os amigos, porque esse tipo de postura é denunciado na internet. Não é à toa que há muito tempo eles perdem leitores e audiência.”
 
Para o jornalista Paulo Henrique Amorim, apresentador do Domingo Espetacular, da TV Record, e editor do site Conversa Afiada, o fenômeno pode ser comparado à Primavera Árabe. Apenas a sua página na internet viu a audiência crescer 20% desde o lançamento do livro de Amaury, passando de 42 mil acessos diários para mais de 52 mil. “A internet ajudou a desmascarar Serra e a imprensa golpista, que está se enterrando agarrada às entranhas do nosso Mubarak. Digo isso porque o Serra está com a mesma saúde política do Mubarak. As farsas do tucano durante a campanha de 2010,comoo espetáculo da bolinha de papel, foram desmascaradas na web. A mídia sempre deu respaldo às calhordices dele, e agora perdeu a credibilidade.”
 
Amorim foi um dos primeiros a revelarem que Ribeiro Jr. preparava um livro contundente sobre as maracutaias das privatizações. Quando ficou sabendo da disputa interna na cúpula da campanha de Dilma, entre os grupos de Rui Falcão e de Fernando Pimentel, procurou Amaury para perguntar sobre o suposto dossiê que preparava contra Serra. “Ele negou a existência de um dossiê, mas confirmou que estava escrevendo um livro sobre as privatizações. Na época, cheguei a publicar um prefácio da obra, que nem chegou a ser aproveitado na versão final, mas que resumia as denúncias. Desde então, passei a ser alvo de intensos ataques. Não faltou quem dissesse que o livro não existia, era uma peça de ficção, mas eu voltei a conversar com ele diversas vezes e ele me mostrava documentos, provas do que dizia e às vezes deixava eu ler um capítulo concluído”, afirma. “Pois bem, não era ficção. O livro está aí. E a mídia se recusa a falar sobre ele, até porque não sabecomorebater as -acusações. Essa é a pior imprensa de todas as novas democracias. E sempre foi assim, covarde, partidária. É a mesma imprensa caluniosa do tiro no peito de Getúlio Vargas, o boletim interno da Casa Grande.”
 
Na avaliação do jornalista Rodrigo Vianna, que mantém o blog O Escrevinhador, “o livro fatalmente ficaria restrito aos poucos veículos de comunicação mais críticos se os internautas não fizessem barulho na web”. A audiência em seu blog cresceu de 20% a 30% após noticiar o caso, um crescimento semelhante ao do site de CartaCapital. Em ambas as páginas, os textos relacionados à “privataria tucana” foram recordistas de comentários. “É evidente que a grande mídia tem um peso muito forte para mobilizar a opinião pública. Consegue derrubar ministros e motivar investigações oficiais com facilidade, mas ela não detém mais o monopólio da agenda pública. Não consegue mais esconder um tema como esse. -CartaCapital chegou às bancas na sexta-feira 9 e em menos de 12 horas o Brasil inteiro discutia a sua matéria de capa e o livro do Amaury. Quem tem acesso à internet não ficou sem informação. Já os leitores da velha mídia não tiveram a mesma sorte. Essa omissão pode sair caro.”

16.12.11

A Canção de Amor de J. Alfred Prufrock

 
 
 
The Love Song of J. Alfred Prufrock (original)




 de T.S Eliot

S’i credesse che mia risposta fosse
A persona che mai tornasse al mondo,
Questa fiamma staria senza più scosse.
Ma però che già mai di questo fondo
Non torno vivo alcun, s’i’odo il vero,
Sanza tema d’infamia ti rispondo.

(Dante Alighieri, La Divina Commedia, Inferno)




Let us go then, you and I,
When the evening is spread out against the sky
Like a patient etherized upon a table;
Let us go, through certain half-deserted streets,
The muttering retreats
Of restless nights in one-night cheap hotels
And sawdust restaurants with oyster-shells:
Streets that follow like a tedious argument
Of insidious intent
To lead you to an overwhelming question. . .
Oh, do not ask, “What is it?”
Let us go and make our visit.

In the room the women come and go
Talking of Michelangelo.

The yellow fog that rubs its back upon the window-panes
The yellow smoke that rubs its muzzle on the window-panes
Licked its tongue into the corners of the evening
Lingered upon the pools that stand in drains,
Let fall upon its back the soot that falls from chimneys,
Slipped by the terrace, made a sudden leap,
And seeing that it was a soft October night
Curled once about the house, and fell asleep.

And indeed there will be time
For the yellow smoke that slides along the street,
Rubbing its back upon the window-panes;
There will be time, there will be time
To prepare a face to meet the faces that you meet;
There will be time to murder and create,
And time for all the works and days of hands
That lift and drop a question on your plate;
Time for you and time for me,
And time yet for a hundred indecisions
And for a hundred visions and revisions
Before the taking of a toast and tea.

In the room the women come and go
Talking of Michelangelo.

And indeed there will be time
To wonder, “Do I dare?” and, “Do I dare?”
Time to turn back and descend the stair,
With a bald spot in the middle of my hair -
[They will say: "How his hair is growing thin!"]
My morning coat, my collar mounting firmly to the chin,
My necktie rich and modest, but asserted by a simple pin -
[They will say: "But how his arms and legs are thin!"]
Do I dare
Disturb the universe?
In a minute there is time
For decisions and revisions which a minute will reverse.

For I have known them all already, known them all;
Have known the evenings, mornings, afternoons,
I have measured out my life with coffee spoons;
I know the voices dying with a dying fall
Beneath the music from a farther room.
So how should I presume?

And I have known the eyes already, known them all -
The eyes that fix you in a formulated phrase,
And when I am formulated, sprawling on a pin,
When I am pinned and wriggling on the wall,
Then how should I begin
To spit out all the butt-ends of my days and ways?
And how should I presume?

And I have known the arms already, known them all -
Arms that are braceleted and white and bare
[But in the lamplight, downed with light brown hair!]
Is it perfume from a dress
That makes me so digress?
Arms that lie along a table, or wrap about a shawl.
And should I then presume?
And how should I begin?

Shall I say, I have gone at dusk through narrow streets
And watched the smoke that rises from the pipes
Of lonely men in shirt-sleeves, leaning out of windows? . . .

I should have been a pair of ragged claws
Scuttling across the floors of silent seas.

And the afternoon, the evening, sleeps so peacefully!
Smoothed by long fingers,
Asleep . . . tired . . . or it malingers,
Stretched on the floor, here beside you and me.
Should I, after tea and cakes and ices,
Have the strength to force the moment to its crisis?
But though I have wept and fasted, wept and prayed,
Though I have seen my head (grown slightly bald) brought in upon a platter,
I am no prophet–and here’s no great matter;
I have seen the moment of my greatness flicker,
And I have seen the eternal Footman hold my coat, and snicker,
And in short, I was afraid.

And would it have been worth it, after all,
After the cups, the marmalade, the tea,
Among the porcelain, among some talk of you and me,
Would it have been worth while,
To have bitten off the matter with a smile,
To have squeezed the universe into a ball
To roll it toward some overwhelming question,
To say: “I am Lazarus, come from the dead,
Come back to tell you all, I shall tell you all”
If one, settling a pillow by her head,
Should say, “That is not what I meant at all.
That is not it, at all.”

And would it have been worth it, after all,
Would it have been worth while,
After the sunsets and the dooryards and the sprinkled streets,
After the novels, after the teacups, after the skirts that trail along the floor -
And this, and so much more? -
It is impossible to say just what I mean!
But as if a magic lantern threw the nerves in patterns on a screen:
Would it have been worth while
If one, settling a pillow or throwing off a shawl,
And turning toward the window, should say:
“That is not it at all,
That is not what I meant, at all.”

No! I am not Prince Hamlet, nor was meant to be;
Am an attendant lord, one that will do
To swell a progress, start a scene or two
Advise the prince; no doubt, an easy tool,
Deferential, glad to be of use,
Politic, cautious, and meticulous;
Full of high sentence, but a bit obtuse;
At times, indeed, almost ridiculous -
Almost, at times, the Fool.

I grow old . . . I grow old . . .
I shall wear the bottoms of my trousers rolled.

Shall I part my hair behind? Do I dare to eat a peach?
I shall wear white flannel trousers, and walk upon the beach.
I have heard the mermaids singing, each to each.

I do not think they will sing to me.

I have seen them riding seaward on the waves
Combing the white hair of the waves blown back
When the wind blows the water white and black.

We have lingered in the chambers of the sea
By sea-girls wreathed with seaweed red and brown
Till human voices wake us, and we drown.

11.12.11

O Breve Olhar de Willy













Fotógrafo francês Willy Ronis, (Paris, 14 agosto de 1910 - 12 de setembro de 2009) conhecido por retratar o cotidiano pós-guerra nas cidades de Paris e de Provença. Pertenceu a Association des Artistes et écrivains Révolutionnaires , e permaneceu um homem de esquerda. Ronis parou de fotografar aos 91 anos.  .


http://www.vogue.it/en/people-are-talking-about/art-photo-design/2010/04/willy-ronis-humanist

Pesquise para conhecer mais sobre a fotografia. Google Image: Willy Ronis




10.12.11

giorgio de Chirico



Poesia dell'estate, de De Chirico. Fonte: Flickr



Exposição  -  A inquietude sem lógica


Orlando Margarido


Cedo, giorgio de Chirico (1888-1978) indagava o que deveria amar senão o enigma. A frase, inscrita em latim num autorretrato de 1911, condensa o pensamento do artista de origem grega criado na Itália e confere à sua obra uma espécie de epíteto. Como se verificou depois, a sentença juvenil não deu conta das nuanças de uma trajetória pródiga em inovações, mas também de um retorno à ordem clássica da arte. Essa aparente contradição se tornou o fato mais inquietante nos estudos sobre o pintor que detonou a chamada corrente metafísica para então dela se distanciar por uma visão mais pura do ofício e, por fim, recuperá-la numa empreitada derradeira. É nesse último ato que se estrutura em grande parte a exposição De Chirico – O sentimento da arquitetura, que tem início sexta 9 na Fundação Iberê Camargo, em Porto Alegre, e depois seguirá em março para a Casa Fiat de Cultura, em Belo Horizonte, e Museu de Arte de São Paulo, o Masp, no fim de maio.

A razão de contemplar  a jornada final do artista se explica pela procedência dos 122 trabalhos aqui reunidos. Trata-se de um dos lotes mais significativos da Fondazione Giorgio e Isa de Chirico, sediada em Roma. Se não inclui a pintura dos anos 10 a 30, de efervescência criativa e conceitual, a seleção reflete o estilo num espelhamento das principais características do pintor, ressurgidas intactas na sua produção tardia. No chamado período neometafísico, o pintor recriou obras anteriores e avançou com traços originais em outras, o que poderá ser constatado nos 45 óleos sobre tela e nas 11 esculturas dos anos 50 aos 70 expostos. No conjunto estão as figuras míticas (Edipo e la Sfinge, 1968), híbridas como manequins sem feições (Archeologi, 1968), os arcos das galerias de passagem e praças (Termopili, 1971) que tanto o marcaram e se justificam por uma formação pessoal desde a infância. Únicos exemplares da fase de 1930, 66 litografias inspiradas nos caligramas de Guillaume Apollinaire completam a mostra.

O conceito de arquitetura a que alude o título da exposição não é apenas o óbvio registro das arcadas e da piazza de Florença ou de Turim. Para De Chirico, a manifestação arquitetônica é essencial ao consolidar a cultura na história, como lembra a curadora Maddalena D’Alfonso, “porque representa para o indivíduo a dimensão civil, exprimindo-se com maior evidência na -praça urbana”. Esse lugar ideal de que ela nos fala, e visível seja num templo ou torre, seja numa sala nas telas, será o território predileto para o exercício do enigma na obra do artista, entendendo-se por enigmáticos “a dúvida e o interrogar humano constantes”.

É da reflexão consumada mais tarde em obras também presentes na mostra como Piazza d’Italia (ou Monumento ao Poeta, 1969) e Piazza d’Italia con Statua di Cavour (1974) que o artista parte para um enfrentamento inesperado na arte. Sentado na praça Santa Croce florentina, no início de 1910, diante da basílica ladeada por pórticos e arcos, ele teria atinado para a falta de um sentido no mundo. Conforme escreve o pintor em Sull’arte Metafisica (1919), em trecho lembrado pela estudiosa Elena Pontiggia, a obra de arte deixava naquele momento de ser uma representação para se tornar revelação, algo que ainda está para ser descoberto e, portanto, novo.

Cita o arco, por exemplo, como um círculo interrompido, “a encerrar algo de misterioso, que ainda deverá cumprir-se”. Ao defender a partir dali o mistério e o estranho, antes que o exposto e o consolidado, ele retoma as conotações de uma filosofia grega, aquela da expressão “para além das coisas físicas”, ou seja, a metafísica. Seu primeiro trabalho da futura série de praças italianas, de sintomático título O Enigma de uma Tarde de Outono (1910), em nada traz a figuração tradicional daqueles espaços. O templo católico é substituído por outro de linhas gregas. No centro, onde estaria uma possível fonte, surge uma estátua apolínea de costas e sem cabeça. A melancolia torna-se sentimento recorrente. Exemplar inicial do que a curadora assinala como a cidade metafísica, em detrimento de outras como a renascentista e a -moderna criadas pelo pintor, a tela introduz características amadurecidas em trabalhos pródigos como Muse Inquietanti, de 1924, que pode ser vista no lote na versão revisitada de 1974, e também na forma de escultura.

Para entender a “revelação” e os elementos de referência que passam a integrar o universo do artista, é necessário buscar sua trajetória pessoal. De Chirico nasceu em Volos, na Grécia, de pais italianos. A região onde cresceu está no centro de muitas das lendas da mitologia grega, com as quais conviveu desde criança. Esse legado permaneceria para sempre em sua pintura, no formato de figuras heroicas como Ulisses (Ritorno di Ulisse, 1968), Orfeu (Orfeu Trovatore Stanco, 1970) e Orestes (Il Rimorso di Oreste, 1969, e Oreste Solitario, 1974), musas inspiradoras como Ariadne, viajantes e exploradores, a exemplo dos argonautas, e a própria acepção da viagem lendária, comumente representada por mastros e velas de embarcações.

O ato de viajar seria definidor para De Chirico na construção de seu conhecimento. Entre idas e vindas à Itália, ele estudou em Munique e conheceu a pintura de realismo mágico e sombria de Arnold Böcklin, com seus temas alegóricos, e o trabalho de Max Klinger de cunho simbolista, que se apresentaria ao pintor como uma ligação ao surrealismo mais tarde. Viveu entre 1888 e 1889 na Turim percorrida pelo filósofo Nietzsche, de quem o pintor diz ter assimilado a noção de refutar a realidade. O artista se encantaria igualmente com a arquitetura da cidade, tomada por construções com arcos e galerias de passagem, além de praças desenhadas com precisão, já motivo de suas pinturas naquele momento.

Os encontros decisivos, no entanto, viriam da temporada parisiense a partir de 1911 e na volta à Itália, período no qual prestou serviço militar durante a I Guerra Mundial. Em Paris, De Chirico fez as primeiras exibições importantes e conheceu nomes em torno dos salões de arte, como Pablo Picasso e Apollinaire, poeta para quem fará os caligramas anos mais tarde. A descoberta do trabalho do ítalo-grego é um acontecimento para esse círculo intelectual, o que abrirá as portas da Europa para o artista. Mas estava para se dar ainda o marco fundamental do movimento que seria iniciativa em muito conflitante com as vanguardas existentes.

Inapto para o front e com a saúde -delicada,- De Chirico passou longa temporada internado em um hospital de Ferrara, onde voltou a pintar. Junto, desde Paris, estava seu irmão também pintor, Andrea, de codinome Alberto Savinio. Ali conheceriam Carlo Carrà, Fillippo di Pisis e Giorgio Morandi, com quem lançariam entre os anos de 1917 e 1919 as bases do que viria a ser a corrente metafísica. Morandi teria breve percurso no grupo, mas Carrà seria considerado por breve tempo quase um mentor ao escrever o livro Pintura Metafísica naquele momento, sem citar o colega, que detinha a origem do pensamento. Maddalena D’Alfonso lembra o episódio, que terminaria em rompimento de ambos, para pontuar a reflexão inicial do artista, em muito baseada em outro filósofo, Arthur Schopenhauer. “A metafísica é para De Chirico uma ordem da realidade que ele colhe, num instante de suspensão do visível, do aparente, em um olhar fugaz sobre a realidade objetiva das coisas em si mesmas. E se manifesta como revelação.”

A articulação inicial da metafísica pode ser sintetizada na intenção de fazer de uma realidade não lógica algo crível. Esse pensamento iria contra as tendências dominantes, como o Futurismo. Diferentemente de buscar novas formas na arte, procurava, isto sim, seu significado. Num texto de 1927 publicado em um boletim da Galeria L’Effort Moderne, de Paris, De Chirico explicava simbolicamente sua inspiração:  “É estranho ver móveis como camas, guarda-roupas, poltronas e mesas jogados numa estrada, em um cenário que normalmente não são vistos. Parecem ganhar uma nova luz, investidos de uma estranha solidão, o que gera uma intimidade entre eles”. Num contexto mais amplo, a proposta da metafísica era justamente não subverter nada, mas fazer ver o que estava presente, mas escondido. “É um fato novo”, apontou o crítico Giulio Carlo Argan em ensaio sobre a arte moderna, “um fato antirrevolucionário e contraditório”, pois segue contra a tendência das demais correntes artísticas do período de transformação social.

A arte metafísica  teve grande aceitação entre os surrealistas e influenciou este e movimentos seguintes, como o Dadaísmo. Isto até 1919, quando De Chirico abandonou a tese por um ideal de arte clássica, em muito inspirado por uma antiga influência barroca e artistas como Rafael e Rubens. Num artigo famoso na publicação Valores Plásticos, preconizou um retorno a velhos métodos de pintura e ao estudo de personagens e temas. Tornou-se um opositor feroz da arte moderna. Os surrealistas o declararam morto e a crítica o execrou. Para muitos, porém, continuou respeitado e um pintor de grande conhecimento do ofício, a quem recorrerão diversos aprendizes, entre eles o gaúcho Iberê Camargo, nos anos 40. De Chirico nunca se conformou com o tratamento por sua opção de mudança. Na etapa final da carreira, falsificava a si mesmo, recriando suas telas iniciais nas décadas de 60 e 70 com datas anteriores, como se verá em alguns exemplares desta mostra. Lucrou com a diatribe, mas também vingou-se, talvez a única atitude que em toda a vida lhe pareceu lógica.

4.12.11

Brasil X Corrupção

 
 
Duas visões: o Brasil é hoje um país mais corrupto?

Rafael Spuldar
Da BBC Brasil em São Paulo

Tema quase permanente nas discussões sobre ética e política no Brasil, a corrupção é objeto de um estudo da ONG Transparência Internacional, divulgado nessa quarta-feira, que coloca o país em 73º lugar em um ranking de percepção de corrupção, dentre 182 nações pesquisadas.

De acordo com o ranking, em uma escala de zero (muito corrupto) a dez (muito limpo), o Brasil obteve nota 3,8.

No Brasil, o assunto se mantém como centro das discussões políticas. Desde a posse da presidente Dilma Rousseff, em janeiro, seis ministros deixaram o governo - destes, cinco foram alvos de denúncias e suspeitas de corrupção.

Entrevistados pela BBC Brasil, o jurista e professor emérito da Faculdade de Direito da USP (Universidade de São Paulo) Dalmo Dallari e o filósofo e professor emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP José Arthur Giannotti falaram sobre o tema da corrupção no Brasil, tanto em sua manifestação no meio político partidário quanto na vida cotidiana da população.

Dallari e Giannotti responderam, entre outros tópicos, se é possível erradicar a corrupção no Brasil, se o país é mais corrupto do que outros e se o Brasil tornou-se mais corrupto do que anteriormente.

    José Arthur Giannotti
    Dalmo Dallari


BBC Brasil: Assim como o governo fala em ter como objetivo erradicar a pobreza extrema, o senhor acha possível que o Brasil possa erradicar a corrupção, ou pelo menos transformar este fenômeno em algo insignificante?

José Arthur Giannotti: A corrupção sempre vai existir, esse é o argumento básico. No caso do Brasil, a corrupção é um dos esteios da nossa formação. O Brasil era terra de ninguém. Os governadores que vinham para cá enfiavam a mão nos cofres públicos, porque para eles interessava voltar a Portugal com dinheiro.

Os movimentos contra a corrupção se instalam no país sempre do ponto de vista moral e do ponto de vista da eficácia da máquina administrativa. O raciocínio é: se quisermos uma máquina administrativa e uma política eficaz, nós temos de reduzir ao máximo esse nível de corrupção.

A corrupção no Brasil tem agora uma forma diferente. À medida em que as esquerdas, e principalmente o PT, vieram para o centro, a corrupção começa dizendo: "nós temos que nos apropriar de fundos públicos, ou receber propinas grandes de nossos companheiros capitalistas, para que nós possamos fazer a revolução".

Assim, na medida em que veio com a ideia de que vai realizar uma reforma social, uma coisa formidável que nunca foi realizada, que as elites sempre deixaram de lado, a corrupção vira, para o governo, um instrumento que certamente será apagado do curso da história.

BBC Brasil: Esta forma de corrupção que o senhor percebe é algo novo?
Giannotti: Isso é um fenômeno novo, é uma corrupção entranhada na prática de governar. A governança está corrupta, e isso se expandiu de tal maneira que vale para o governo, que é quase toda a política, e para alguns pedaços da oposição.

BBC Brasil: O Brasil é hoje um país mais corrupto do que já foi antes?
Giannotti: Se você quiser apontar corrupção, até nos chefes tupis você vai encontrar. Não é uma questão de eu ou aquela pessoa roubar, não é uma questão de haver maior ou menor número de ladrões, é uma questão da permeabilidade da corrupção no exercício da função pública.

Eu não tenho uma medida do que foi a corrupção no governo Lula, e também nos governos do PSDB e do DEM, porque todo mundo entra na mesma jogada, mas eu sei que a forma da corrupção entranhou o próprio ato do governo, entranhou a maneira pela qual se exerce o poder no Brasil, e não ao lado, marginalmente.

BBC Brasil: É possível dizer que o Brasil é mais corrupto que outros países?
Giannotti: Eu acho que o Brasil é mais corrupto que outros na medida em que estamos passando por essa forma de fazer política. Mas (a corrupção) é um fenômeno geral. Na Europa, tem aumentado o número de governantes corruptos, e o (ex-primeiro-ministro italiano Silvio) Berlusconi é o exemplo máximo.

Assim mesmo, a forma da corrupção no Brasil é diferente do que é na Itália. O Berlusconi aparece mais como uma espécie de grande empresário que, pelos seus feitos, encontra maneiras de ganhar dinheiro. Já aqui no Brasil, as pessoas estão chafurdando porque estão dirigindo o país.

BBC Brasil: Em um artigo publicado na Folha de S.Paulo em 2001, o senhor afirmava que era necessária ao jogo democrático uma "zona cinzenta de amoralidade", na qual os atores políticos articulam manobras em meio a falhas do sistema. O senhor não acha que, em termos práticos, a linha que separa a amoralidade da imoralidade é muito tênue?
Giannotti: Certamente a diferença entre imoralidade e amoralidade é tênue. A ação política implica certa aposta na amoralidade.

Quando Napoleão se lança em uma luta para massacrar um povo, isso é imoral, mas depois, se ele tivesse conseguido construir a Europa, os próprios europeus diriam: "nós passamos por isso, foi imoral, mas foi algo importante, válido". Então, esta ação terá se constituído em algo amoral.

Na ação política, existem certas faixas em que não se distingue o que é amoral e imoral. O estadista entra nessa faixa: vai se decidir se a sua ação é amoral ou não de acordo com o êxito da sua política.

O que acontece é que essa ideia passou para que qualquer vereador se veja na construção de um grande Brasil. Mas ele não constrói nada, apenas se aproveita do país, se dizendo acima do bem e do mal.

Além disso, o êxito de uma política é extremamente relativo. Pode se dizer que (sem ações imorais) não teríamos feito a integração de tantas pessoas no mercado de trabalho e de consumo, mas não é porque isso foi feito que todas as imoralidades praticadas no governo possam ser justificadas.

BBC Brasil: Como o senhor vê a corrupção em sua manifestação mais cotidiana, como, por exemplo, os pequenos subornos, praticados por pessoas comuns? Pode se dizer que, em termos práticos, ela chega a ser aceitável?
Giannotti: Para mim, isso não é aceitável, isso vai ser sempre uma imoralidade. Mas quando os heróis nacionais são corruptos e a corrupção não chega à imagem deles, é natural que o guarda da esquina ache que vai acontecer o mesmo com ele.

BBC Brasil: Isso quer dizer que a corrupção do cidadão comum é resultado da corrupção no meio político?

Giannotti: (A corrupção do cidadão comum) não é resultado, mas é alimentada (pela corrupção na política). Ela sempre existe, óbvio, mas nós não temos a camisa da moralidade do Estado para segurar a sociedade hoje.

Como essa camisa é esfarrapada, todo mundo acha legítimo burlar a lei. Aí você entra com a velha ideia brasileira de que, se você endurecer a lei, resolve o problema, mas é assim que as pessoas burlam a lei de vez.

O político não é só aquele que faz acordos, que cria leis e que dirige o Estado: ele tem uma função normativa, como tem o padre, o professor e assim por diante. São pessoas que assumem funções normativas na sociedade contemporânea.

Mas quando a imagem do político é de um corrupto, assim como quando os padres se apresentam como corruptores diante de seus fiéis, ou quando os professores não têm mais dignidade diante de seus alunos, naturalmente as normas passam a ser transgredidas em uma frequência muito maior.

BBC Brasil: Qual seria a maneira mais eficaz de se combater a corrupção?
Giannotti: Em primeiro lugar, é necessário o aumento da transparência. Em segundo lugar, quando o corrupto for pego, ele precisa ser punido de imediato. Ele não precisa ser preso, senão o Brasil vira uma enorme cadeia, mas (é preciso) que ele tenha ou uma punição financeira, ou que tenha a sua figura exposta em praça pública.

Em terceiro lugar, eu creio que é preciso reformular as práticas políticas. Nós temos que mudar as nossas instituições políticas. Em um país democrático, é preciso haver governo e oposição, que a oposição não fique lambendo o rabo do governo e que o governo não incorpore a oposição, não liquefaça a oposição, ajudando a oposição a não ter discurso.

3.12.11

Diploma ? Verdades que o jornalismo não conta





Diploma de jornalista é idiotice

Gianni Carta

Como definir o jornalista? “Qualquer um que fizer jornalismo”, responde o escocês Andrew Marr no seu livro My Trade (Pan Books, 2005, 300 págs). Jornalista de mão cheia, ex-editor do diário The Independent e da Economist,  Marr diz quem são as pessoas mais propensas a mergulhar no jornalismo: “bêbados, disléxicos e algumas das pessoas menos confiáveis e mais perversas da Terra”.

Mas há consolo no livro de Marr, consagrado à história do jornalismo britânico. “Tirando o crime organizado, o jornalismo é a mais poderosa e agradável antiprofissão”.


Marr, de 51 anos, causaria um grande alvoroço no Senado brasileiro. Por dois motivos. Primeiro, porque sua ironia seria levada a sério pela maioria dos senadores. Em segundo lugar, Marr formou-se em Letras.

E aí mora o problema.

Marr, iconoclastia à parte, não seria considerado um jornalista pelos senadores brasileiros pelo fato de não ter estudado jornalismo.

O Senado acaba de aprovar uma proposta de emenda constitucional para tornar obrigatório o diploma de nível superior para o exercício do jornalismo. Haverá outra votação no Senado. Se a emenda for aprovada será analisada pelos deputados.

Claro, o Supremo Tribunal Federal (STF) derrubará a medida (se aprovada pelos deputados). Em junho de 2009, vale recapitular, o STF acabou com a exigência do diploma para jornalistas. A norma era incompatível com o princípio de liberdade de expressão.

Mas o senador Antônio Carlos Valadares (PSB-SE), autor da proposta, não concorda com o STF. “Todas as profissões têm o seu diploma reconhecido, menos o diploma de jornalista, o que é uma incoerência, uma distorção na legislação brasileira”, declarou.

E senadores, precisam de diploma? Nenhum.

Basta ter nacionalidade brasileira e mais de 35 anos de idade. Na França qualquer deputado graduou-se no mínimo em ciências políticas. E isso fica claro nos discursos na Assembleia Nacional e no Senado. Lá fala-se em ideologia partidária, entre outros temas aqui ignorados.

E aqui aproveito para fazer uma sugestão: já que jornalistas precisam, segundo os senadores, de diploma, por que não aplicar a mesma proposta para os senadores brasileiros? Os debates, quiçá, se tornariam mais fecundos.

Certo é que, de forma geral, os colegas formados por universidades de jornalismo a pipocar Brasil afora, quase todos a trabalhar para a mídia ultraconservadora, não têm contribuído para melhorar o nível da mídia.

Os grandes diários brasileiros, com colegas com canudo de jornalista ou não, são ilegíveis. Por exemplo, um dos destaques da Folha de São Paulo na quinta-feira 1º é que a apresentadora Fátima Bernardes “deve deixar a bancada do ‘Jornal Nacional’”. Ela estaria “cansada”.

Eis a questão: o nível das escolas de jornalismo é baixo, ou seriam os patrões que limitam o trabalho de apuração dos repórteres – e principalmente dos colunistas? Seriam as duas coisas? Como dizia o grande jornalista italiano Enzo Biagi (outro que não tinha diploma de jornalista): “Meus únicos patrões sempre foram meus leitores”.

Nos Estados Unidos e na Europa o canudo de jornalista não é necessário para exercer a profissão. Basta um diploma, isto é, uma especialização. Lá é comum estudantes com ambições jornalísticas trabalharem nos jornais das universidades enquanto se formam em história, ciências políticas, economia, etc. Na Universidade da Califórnia, em Los Angeles, por exemplo, alunos de diferentes departamentos trabalham no excelente diário Daily Bruin, distribuído gratuitamente no campus e nos bairros em torno de Westwood, onde fica a UCLA.

Na França e no Reino Unido ninguém precisa de diploma de jornalista para trabalhar na mídia. Marr, que especializou-se em literatura inglesa em Cambridge, oferece: “Tudo que o jornalista precisa é ser curioso e saber farejar uma boa história. E mesmo dominando a gramática, só se aprende a escrever escrevendo”.

Vale acrescentar: o jornalismo se aprende indo à rua. “É preciso tirar a bunda da cadeira”, martelava Reali Jr.

O repórter tem de continuar a praticar esse método inclusive para entender o que escreve. Precisa usar os fatos com honestidade, mas ao mesmo tempo tem de entender que o jornalismo tem seus limites, não é uma ciência. Ah, e sempre que possível o senso de humor ajuda. O diploma de jornalista só serve para enfeitar parede.

Fonte: http://www.cartacapital.com.br/politica/diploma-de-jornalista-e-idiotice/