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30.1.12

Deslocamentos Populacionais - Mal do século




                                Já há mais refugiados ambientais que refugiados de guerra


Um relatório publicado em Genebra pela Organização Internacional de Migrações, juntamente com o Instituto de Desenvolvimento Sustentável e de Relações Internacionais, informa sobre este novo fenômeno que afeta todos os continentes. O relatório apresenta um quadro de cifras significativo: em 2008, 4,6 milhões de pessoas tiveram que se deslocar dentro de seus países em razão de um conflito armado enquanto outras 20 milhões tiveram que fazer o mesmo devido a uma catástrofe natural.

Eduardo Febbro - Direto de Paris

Paris - Os deslocamentos populacionais ligados a desastres climáticos e ambientais superaram os provocados por conflitos armados. O que parecia uma ficção reservada a filmes de grande espetáculo se tornou uma realidade durante a primeira década do século XXI.

Um relatório publicado em Genebra pela Organização Internacional de Migrações, OIM, juntamente com o Instituto de Desenvolvimento Sustentável e de Relações Internacionais, IDDRI, informa sobre este novo fenômeno que afeta todos os continentes. O relatório, State of Environmental Migration 2010, apresenta um quadro de cifras significativo: em 2008, 4,6 milhões de pessoas tiveram que se deslocar dentro de seus países em razão de um conflito armado enquanto outras 20 milhões tiveram que fazer o mesmo devido a uma catástrofe natural.

As cifras não pararam de aumentar: em 2009 houve 15 milhões de refugiados “ambientais” e em 2010 a cifra subiu para 38 milhões. Hoje, o deslocamento climático ou ambiental é a primeira causa das migrações humanas. Estas cifras podem ser contrastadas com o número de refugiados políticos que existe no mundo: 16 milhões de pessoas, 12 milhões sem contar os palestinos.

As destruições ambientais destacadas neste exaustivo trabalho não dizem respeito somente às que poderiam ser denominadas naturais e violentas, mas também os processos mais lentos, que acabam modificando a relação do ser humano com o lugar onde vive. Um exemplo de deslocamento climático involuntário é o que ocorreu no Nepal, com a desaparição dos glaciais do Himalaya. Os glaciais foram derretendo, a água transbordou os chamados rios glaciais e isso acarretou em poderosas inundações que obrigaram às populações ao deslocamento.

Tsumamis, terremotos, inundações na Tailândia, China ou Filipinas, seca no Sudão, o acidente de Fukushima, tempestades na Europa, todos estes acidentes naturais violentos provocaram massivos deslocamentos. E o futuro não se anuncia melhor. O investigador do IDDRI e coordenador do relatório François Gemenne, prevê que “em 2011 as cifras sejam similares as de 2010”. A degradação paulatina do meio ambiente provocada pelo homem tem também uma influência determinante neste fluxo migratório.

Um exemplo disso é o que ocorre no Brasil. O relatório da Organização Internacional de Migrações cita o exemplo do que ocorre no Norte do Brasil. No Amazonas, o desmatamento trouxe consigo a ocupação das terras, mas depois, uma vez que os solos arrasados chegaram ao limite de sua capacidade, as populações que se instalaram ali não obtém mais recursos e devem migrar.

Os deslocamentos ambientais têm um caráter mais dramático que as migrações econômicas. Em primeiro lugar, em muitos casos, os países que se encontram com esses problemas não são diretamente responsáveis pelas mudanças climáticas que induzem ao deslocamento populacional. Em segundo, ao contrário do que ocorre com os migrantes econômicos que partem em busca de uma vida melhor, os já quase refugiados ambientais não entendem o que acontece com eles e esperam sempre poder regressar a suas terras, o que é praticamente impossível.

Em ambos os contextos, um dos maiores desafios consiste em conseguir com que os países diretamente responsáveis pelas mudanças climáticas e, por conseguinte, da migração ambiental, alimentem um fundo para ajudar os países vítimas de variações climáticas. O dispositivo já foi evocado durante a Conferência das Nações Unidas sobre o clima, celebrada em Cancún (México), em 2010. O artigo 14-F se refere às migrações e deslocamentos conectados com as mudanças climáticas e abrange um pacote de medidas que deveriam ser financiada com um “Fundo Verde”.

Entretanto, existe o artigo, mas o fundo está vazio. Os países ricos se comprometeram em contribuir com 100 bilhões de dólares por ano com tal fundo, mas recém a partir de 2020. A um ritmo de quase 40 milhões de migrantes ambientais por ano, dentro de oito anos haverá 320 milhões de refugiados sem assistência internacional alguma. A arquitetura jurídica internacional existente não ampara esses refugiados.

A convenção de Genebra sobre os refugiados, adotada em 1952, não contempla o esquema da migração ambiental, em especial porque esses refugiados se movem quase exclusivamente dentro das fronteiras de seus países. Em junho de 2011, o Alto Comissário das Nações Unidas para os refugiados Antonio Guterres, havia interferido a fim de que se adotassem “novas medidas para enfrentar os deslocamentos de populações gerados por mudanças climáticas e catástrofes naturais”.

Todos os especialistas se preparam para um futuro climático acidentado. François Gemenne adianta que “é preciso refletir agora sobre um contexto de forte aquecimento, o que vai implicar em uma nova distribuição das populações na superfície do globo. Existem zonas que deixarão de ser habitáveis e seus habitantes deverão migrar”. Dois relatórios simultâneos sustentam a tese de que o amanhã será pior. Um, se trata de um estudo estatístico elaborado pelo Centro de Investigações de Epidemiologia do Desastre (CRED) da Universidade católica de Louvain (Bélgica) e que mostra como, desde 1970, os desastres vêm em constante aumento. O segundo trabalho é o relatório especial publicado em novembro passado pelo GIEC, o Grupo de Especialistas Intergovernamental sobre a Evolução do Clima. O GIEC prevê que os acidentes meteorológicos extremos aumentarão constantemente nos próximos anos.

O relatório State of Environmental Migration analisou situações climáticas extremas, inclusive nos países ricos, neste caso a França. O trabalho se concentrou muito especialmente nas crises climáticas que estouraram em 2010 no Paquistão (Inundações), na Rússia (incêndios florestais), no Haiti e no Chile (terremotos) e na França (tempestades). O caso francês ilustra que nem sequer os países ricos estão ao resguardo dos deslocamentos de populações obrigados pelo clima. A tempestade Xinthia assolou a costa atlântica francesa entre 26 de fevereiro e primeiro de março de 2010. Seu passo deixou um saldo de 59 mortos e milhares de refugiados permanentes. Dada a exposição de várias zonas a possíveis tempestades futuras, o Governo francês as decretou inabitáveis. Com isso, milhares de pessoas que viviam nestas zonas se viram obrigadas a deixar suas casas e suas terras para sempre.

Neste contexto preciso e após analisar os erros cometidos pelos poderes públicos franceses na gestão desta crise, a OIM destaca a importância da preparação das políticas públicas para administrar as catástrofes climáticas maiores. É lícito citar o desastre, ao mesmo tempo climático e político, que provocou o Furacão Katrina, que golpeou Nova Orleans em 2005. 1.200.000 pessoas foram deslocadas e um terço dos habitantes nunca regressou a seus lares.

Tradução: Liborio Junior

Cuba, dias de hoje



                                                      
                                        A Cuba que Dilma visita

Emir Sader

Assim que Fidel e seus companheiros tomaram o poder e o governo dos EUA acentuou suas articulações para tratar de derrubar o novo poder, a grande burguesia cubana e uma parte da classe média alta foram se refugiar em Miami. Bastava esperar que mais um governo rebelde capitulasse diante das pressões norte-americanas ou fosse irremediavelmente derrubado. Afinal, nenhum governo latinoamericano rebelde tinha conseguido sobreviver. Poucos anos antes Getulio Vargas tinha se suicidado e Peron tinha abandonado o governo. Os dois governos da Guatemala que tinham ousado colocar em prática uma reforma agrária contra a United Fruis – hoje reciclada no nome para Chiquita -, sofreram um violento golpe militar.

Como um governo cubano rebelde, em plena guerra fria, a 110 quilômetros do império, conseguiria sobreviver? Cuba era o modelo do “pátio traseiro” dos EUA. Era ali que a burguesia cubana passava suas férias como se estivesse numa colônia sua. Era ali que os filmes de Hollywood encontravam os cenários para os seus melosos filmes sentimentais. Era ali que um aristocrata cubano tinha importado Esther Williams para inaugurar sua casa no centro de Havana, mergulhando numa piscina cheia de champanhe. Era em Cuba que os milionários norteamericanos desembarcavam com seus iates diretamente aos hotéis com cassinos ou às suas casas, sem sequer passar pelas alfândegas. Era ali que os marinheiros norteamericanos se embebedavam e ofendiam os cubanos de todas as formas possíveis. Era para Cuba que a Pan American inaugurou seus vôos internacionais. Era ali que as construtoras de carros norte-americanas testavam seus novos modelos, um ano antes de produzi-los nos EUA. Foi em Cuba que a máfia internacional fez seu congresso mundial no fim da segunda guerra, para repartir os seus mercados internacionais, evento para o qual contrataram o jovem cantor Frank Sinatra para animar suas festas. Em suma, Cuba era um protetorado norteamericano.

Os que abandonaram o país deixaram suas casas intactas, fecharam as portas, pegaram o dinheiro que ainda tinham guardado e foram esperar em Miami que o novo governo fosse derrubado e pudessem retomar normalmente sua vida num país de que se consideravam donos, associados aos gringos.

Há um bairro em Miami que se chama Little Havana, onde os nostálgicos ficam olhando para o sul, cada vez menos esperançosos de que possam retornar a uma ilha que já não podem reconhecer, pelas transformações radicais que sofreu. Participaram das tentativas de derrubada do regime, a mais conhecida delas a invasão na Baía dos Porcos, que durou 72 horas, mesmo se pilotada e protagonizada pelos EUA – presidido por John Kennedy naquele momento. Os EUA tiveram que mandar alimentos para crianças para conseguir recuperar os presos da invasão, numa troca humanitária.

Cuba mudou seu destino com a revolução, conseguiu ter os melhores índices sociais do continente, mesmo como país pequeno, pobre, ao lado dos EUA, que mantem o mais longo bloqueio da história – há mais de 50 anos -, tentando esmagar a Ilha.

Durante um tempo Cuba pode apoiar-se na integração ao planejamento conjunto dos países socialistas, dirigida pela URSS, que lhe propiciava petróleo e armamento, além de mercados para seus produtos de exportação. O fim da URSS e do campo socialista aparecia, para alguns, como o fim de Cuba. Depois da queda sucessiva dos países do leste europeu, a imprensa ocidental se deslocou para Cuba, instalou-se em Havana Livre, ficaram tomando mojitos e daiquiris, esperando para testemunhar a ansiada queda do regime cubano. (Entre eles estava Pedro Bial e a equipe da Globo.)

Passaram-se 23 anos e o regime cubano está de pé. Desde 1959, 10 presidentes já passaram pela Casa Branca e tiveram que conviver com a Revolução Cubana – de que todos eles previram o fim.

Cuba teve que se reciclar para sobreviver sem poder participar do planejamento coletivo dos países socialistas. Cuba teve que fazer um imenso esforço, sem cortar os direitos sociais do seu povo, sem fechar camas de hospitais, nem salas de aulas, ao invés da URSS de Gorbachev, que introduziu pacotes de ajuste e terminou acelerando o fim do regime soviético.

É essa Cuba que a Dilma vai encontrar. Em pleno processo de reciclagem de uma economia que necessita adaptar suas necessidades às condições do mundo contemporâneo. Em que Cuba intensificou seu comércio com a Venezuela, a Bolívia, o Equador – através da Alba -, assim como com a China, o Brasil, entre outros. Mas que necessita dar um novo salto econômico, para o que necessita de mais investimentos.

Necessita também aumentar sua produtividade, para o que requer incentivar o trabalho, de acordo com as formulações de Marx na Critica do Programa de Gotha, de que o principio do socialismo é o de que “a cada um conforme o seu trabalho”, afim de gerar as condições do comunismo, em que a fartura permitira atender “a cada um conforme suas necessidades”.

Cuba busca seus novos caminhos, sem renunciar a seu profundo compromisso com os direitos sociais para toda a população, a soberania nacional e a solidariedade internacional. Cuba segue desenvolvendo suas políticas solidárias, que permitiram o fim do analfabetismo na Venezuela e na Bolívia e o avanço decisivo nessa direção em países como o Equador e a Nicarágua.

Cuba mantem sempre, há mais de dez anos, a Escola Latinoamericana de Medicina, que já formou na melhor medicina social do mundo, de forma gratuita, a milhares de jovens originários de comunidades carentes todo o continente – incluídos os EUA. Cuba promove a Operação Milagre, que ja’ permitiu que mais de 3 mil latino-americanos pudessem recuperar plenamente sua visão.

Cuba é um sociedade humanista, que privilegia o atendimento das necessidades dos seus cidadãos e dos de todos os outros países necessitados do mundo. Que busca combinar os mecanismos de planejamento centralizado com incentivos a iniciativas individuais e a atração de investimentos, na busca de um novo modelo de crescimento, que preserve os direitos adquiridos pela Revolução e permite um novo ciclo de expansão econômica.

Aqueles que se preocupam com o sistema politico interno de Cuba, tem que olhar não para Havana, mas para Washington. Ninguém pode pedir a Cuba relaxar seus mecanismos de segurança interna, sendo vítima do bloqueio e das agressões da mais violenta potência imperial da história da humanidade. A pressão tem que se voltar e se concentrar sobre o governo dos EUA, para o fim do bloqueio, a retirada da base naval de Guantanamo do território cubano e a normalização da relação entre os dois países.

É essa Cuba que a Dilma vai se encontrar, intensificando e ampliando os laços de amizade e os intercâmbios econômicos com Cuba. Não por acaso o Brasil só restabeleceu relações com Cuba depois que a ditadura terminou, intensificando essas relações no governo Lula e dando continuidade a essa política com o governo Dilma.

27.1.12

A arte de Nick Lepard









 Os retratos orgânicos de Nick Lepard


 
Rostos que parecem desconstruções pictóricas em movimento ou superposições de faces em camadas quase vivas. As pinturas de Nick Lepard são retratos orgânicos que ultrapassam a simples retratação de um rosto.

O caráter fugaz da contemporaneidade nos impele a correr de um momento a outro sem prestar muita atenção em praticamente nenhum deles. É raro pararmos e concentrarmos nosso olhar numa peça e, se o fazemos, logo somos acometidos por uma urgência que nos atropela de ansiedade. Parece que perdemos tempo ao analisarmos algo de perto, e essa noção costuma desfragmentar nossas vivências em camadas dinâmicas de tempo. O filósofo francês Gilles Lipovetsky, em seu “Tempos Hipermodernos”, discorre sobre a sensação de que quanto mais depressa se vai, menos tempo se tem. Essa contração do tempo é responsável por criar uma rejeição ao ócio. Essa repulsa dialoga com nossa aversão ao ato de se permitir degustar algo demoradamente. Os retratos de Nick Lepard capturam essa essência da forma como vivemos o efêmero.

Diz o artista em uma entrevista "Pintar é como tentar solucionar um mistério. O mistério, pra mim, é como criar uma pintura que capture a atenção do público e a mantenha pelo maior tempo possível".

A arte do retrato, que antigamente ocupava-se de copiar fielmente as formas humanas e imortalizá-las, principalmente nas telas, adquiriu novos contornos com o advento da fotografia, que tornou obsoleta a representação realista da pintura a óleo. Diz-se que um retrato fala mais do artista do que do retratado. Conseguimos identificar os traços do artista nos traços de sua obra. Um retrato de Modigliani, com seus rostos simplificados e alongados, por exemplo, é inconfundível. O mesmo acontece com o trabalho de Nick Lepard. Capturamos uma identidade muito forte logo que batemos o olho em suas pinturas.

Nick Lepard, natural de Vancouver, Canadá, estudou no Instituto de Arte e Design Emily Carr, e não acha que o mundo acadêmico e o real precisam ser opostos. O jovem artista (nascido em 1983) sabe mesclar muito bem a técnica formal ao talento puro e cru. Como diz em seu site, as imagens que compõe possuem um toque macabro e grotesco. Isso advém do jogo de camadas que desfigura o rosto, ao mesmo tempo em que transforma o retrato numa pintura viva que transborda organicidade. Os retratos pintados majoritariamente a óleo (e alguns com tinta acrílica) não reproduzem apenas um rosto, mas um momento daquela pessoa em simbiose com o espaço e o tempo que a cercam e a ultrapassam.

Alguns dos trabalhos de Nick, como This Is Nowhere e The Long Now, são mais sólidos, mais preenchidos de forma natural. Os rostos possuem o estilo característico do artista, mas estão relativamente inteiros e não tão desfigurados. Aqui, os traços livres do pincel e as cores utilizadas em conjunto com a expressão nos rostos protagonizam o sentido da pintura. Os lábios cheios e generosos chamam a atenção, assim como os olhos, mornos e contemplativos. Os rostos são grandes e ocupam quase a tela inteira. Apesar da falta de bordas, que mistura o rosto com o fundo abstrato, experimentamos uma sensação temporária de completude ao observarmos o rosto preenchendo o espaço da tela.

Outros retratos do artista abusam mais do jogo orgânico de multicamadas e multifacetas e caem na desconstrução em si, nos apresentando uma maravilhosa profusão de diferentes momentos pintados em diferentes partes do mesmo quadro. Não somente as formas se sobrepõem num jogo desordenado, mas as cores escorrem despreocupadas e sem se ater a bordas definidas. Alguns pedaços da pintura parecem mesmo inacabados, contribuindo para a noção de fugacidade que banha as expressões pinceladas. Diferentes nacos de olhos, bocas e narizes parecem não combinar, numa colagem de diversas feições interconectadas.

Já trabalhos como Somewhere e Monkey in Red priorizam a deformidade e a exploração de camadas mais internas. O aspecto dos rostos desfigurados é cadavérico, mas está longe de possuir qualquer sinal de secura ou estabilidade características da morte. Pelo contrário, as imagens vibram com movimento e vida. As cores parecem mimetizar tecidos e a obra ganha um ar quase anatômico. O retrato é aprofundado para os subníveis da carne. Somos tragados pela dissecação ao mesmo tempo que podemos perceber as camadas internas como sobreposições que cobrem e escondem um rosto inteiro, totalmente camuflado ou corrompido.

A multiplicidade de percepções nas pinturas de Nick Lepard transmite toda a turbulência de um mundo hipermoderno que desfigura nosso rosto (e identidade) numa histeria temporal.

Fonte:  http://obviousmag.org/archives/2012/01/os_retratos_organicos_de_nick_lepard.html

25.1.12

Galeano em Cuba: “Quero ser proibido como o país onde estou”

Galeano em Cuba: “Quero ser proibido como o país onde estou”

O escritor uruguaio Eduardo Galeano esteve em Cuba ao longo da semana, onde presidiu a premiação da Casa de las Américas, tradicional instituição cultural cubana. Na ocasião , ele falou à imprensa sobre temas variados e comentou seus mais recentes livros:
 
 
Espelhos e Os filhos dos dias
 
Eis os principais trechos da entrevista.



“Lamentavelmente, é uma visita muito curta. Gostaria de ter ficado mais tempo, mas pude reencontrar-me com velhos amigos, que continuamos gostando uns dos outros como se o tempo não tivesse passado e também pude percorrer mais profundamente a cidade de Havana, o que é um prazer à parte”.

“Eu já tinha feito isso antes, na companhia de Eusébio, “O Criador”, e desta vez pude confirmar que ele merece um capítulo do Gênesis para substituir o que está na Bíblia, porque Deus criou o mundo em uma semana, mas ele em poucos anos fez a Havana Velha. Merece um texto sagrado que reconheça o trabalho criador desse louco lindo que com tropical loucura tornou belíssimo o bairro de Havana, que parecia condenado à ruína e que ele levantou com ese impulso criador que tem conseguido multiplicá-la , descobrindo a energia que eu não sabia que continha. Isso foi a coisa mais alentadora que encontrei, além da Casa de las Américas, que como disse nas palavras de abertura da premiação, também é minha casa”.

“Cuba está vivendo um período, mais que um momento, um período apaixonante de mudanças. Creio que eram mudanças que a realidade foi incubando, que não nasceram como Atenas da cabeça de nehum deus, nasceram da energia acumulada por uma sociedade que é capaz de mudar, e essa é a prova de que está viva. É evidente que tinha chegado por um caminho que teve seu sentido e foi imposto pelas circunstâncias, porque a Revolução Cubana fez o que pôde e não o que quis; por causa do bloqueio e mil e uma formas de limitações impostos de fora ao desenvolvimento de sua energia criadora, até chegar aos días de hoje, tentando heroicamente comunicar-me pela Internet desde o hotel onde estou”.

“Percebo uma indubitável boa vontade de todos para ajudar-me, mas temos nos chocado sempre com os problemas derivados de uma das formas de bloqueio, o bloqueio das comunicações, que raras vez se menciona mas que é muito importante. Então, me deparei com esse pequeno cartaz que diz “You want to enter from a forbidden country” (Você quer entrar vindo de um país proibido). Então, pensei: Como estou orgulhoso de ser quase um compatriota dos habitantes desse país proibido, porque a questão está em perguntar-se, proibido por quem, proibido por quê? Talvez proibido porque apesar de todas as suas contradições e dificuldades, continua sendo um exemplo de dignidade nacional para os outros países, às vezes desprezados, pobres, pequenos, que não têm direito ao patriotismo porque o patriotismo é privilégio dos países mandões, dos ricos, dos poderosos, que são os que julgam os demais e emitem sentenças”.

“Também proibido pelo perigoso exemplo da solidariedade, porque Cuba tem sido e continua sendo capaz de praticá-la, apesar de suas condições de vida muito difíceis. Eu creio que esses dois contágios têm posto tantas travas, tantos paus nas rodas dos processos de mudanças que esta Revolução necessita levar adiante e que daí advém o ‘”forbidden country” (país proibido). Se é por isso, eu também quero ser proibido, como o país onde estou”.

Espelhos tenta recuperar o arco-íris terrestre


“Agora em Cuba será publicado meu novo livro, que já deveria ter saído mas os gráficos nunca cumprem os prazos, em nenhum país do mundo. É gente muito boa, a mim me apaixona o ofício de impresor. Se eu tivesse nascido em outras vidas, teria querido ser Gutemberg, ou algum dos chineses que o precederam, porque a arte da impressão me enlouquece e sempre a pratiquei em Montevidéu, em Buenos Aires e outros lugares. Mas apesar de que reconheço e quero bem aos profissionais da impressão, também sei por experiencia que nunca cumprem os prazos, então se te dizem outubro, seria necessário precisar de que ano, porque nunca fica claro e parece que o livro não está pronto”.

O livro se chama Espelhos; é nada mais nada menos que uma tentativa de escrever uma história universal com o mundo visto através do olho de uma fechadura, através de pequenas histórias, histórias pequeninas que não dão importâancia às fronteiras do mapa nem do tempo e que tentam contribuir para a recuperação do arco-íris terrestre. Eu sou daqueles que creem que o arco-íris terrestre é mais belo e deslumbrante do que o arco-íris celeste, mas estamos cegos dessas cores, essas cores que nos demonstram que somos mais do que nos dizem que somos, porque carregamos uma herança de mutilações, que vem da época colonial e continua viva; mutilações universais, como, por exemplo o machismo, o racismo, o militarismo e outros ismos que nos deixam cegos de nós mesmos. Este livro tenta recuperar essas cores, esses fulgores”.

“Vou apresentar também alguns pequenos trechos de outro libro que ainda não foi publicado mas que vai sair espero que em março na Espanha, Uruguai, Argentina e México. Chama-se Os filhos dos dias e se parece muito com Espelhos, está guiado pela mesma intenção de recuperar o arco-íris terrestre, mas tem uma estrutura diferente. É como um calendário e a cada dia corresponde uma história que pode ter ocorrido em qualquer ano e em qualquer lugar do mundo. Então se mesclam coisas que ocorreram duzentos anos antes de Cristo com coisas queocorreram no ano pasado. A cada dia corresponde uma história, e se chama Os filhos dos dias porque eu tinha guardado há alguns anos algumas coisas que escrevi quando estava na Guatemala, há muitos anos, ali por volta de 1966 ou 1967 e têm a ver com a cultura maia, que é deslumbrante; é uma cultura onde o tempo funda o espaço. Eu tentara fazer uma síntese do que tinha escutado nas comunidades para ver se alguma vez podia ajudar o mundo a se tocar com esas coisas. Por certo, é uma cultura muito manipulada por quem a usa mal, não os maias, mas pelos que a usaram para vender horóscopos falsos ou para vender medo, com toda esta história de que os maias disseram que em 2012 o mundo vai acabar; é um disparate total, nunca nenhum maia disse semelhante coisa”.

“Eu tinha feito algumas anotações, algumas síntesis e as guardei. Agora uma delas serve de introdução a este livro, diz o seguinte: ‘E os dias caminharam e eles, os dias, nos criaram. Nós, os filhos dos dias, os averiguadores, os buscadores da vida’ ”.

Roque foi assassinado por ser como era

“Roque foi meu amigo e para mim esse é um novo capítulo da história universal da infâmia (referindo-se à recente isenção de culpa aos assassinos de Roque Dalton), para a qual tanto contribuiu e continua contribuindo nossa América Latina. Lamentavelmente, é mais um capítulo a agregar aos muitos que nossos amos foram redigindo e no caso de Roque é um escândalo. Roque foi assassinado por ser como era, um tipo com um evidente, notório sentido do humor e do amor, muto ‘foda’, muIto divertido, e era absolutamente incapaz de obediência. Foi assassinado por alguns de seus compaheiros da guerrilha de El Salvador, que para mim são criminosos, porque creio que são tão criminosos os revolucionários que matam para castigar a discrepância como os militares que matam para perpetuar a injustiça.”

Não queremos morrer nem de fome nem de tédio

“Trabalhou-se na busca da unidade que é um camino que se pode discutir, diria que é imprescindível unir-se em um mundo no qual isto é necessário e somente unidos podemos defender-nos, mas sabendo que são procesos muito complexos, porque o motor da vida é a contradição. Queremos uma unidade latino-americana sem desconhecer que a América Latina é também um espelho das desigualdades do mundo, e muitas vezes essas desigualdades se projetam mal entre os países latino-americanos. Não se trata de que o Norte seja mau e o Sul bom; os dois têm contradições e se não entendemos ou tratamos de compreender essas contradições, não as poderemos superar para construir uma síntese diferente. As contradições existem, por isso é tão difícil que nos ponhamos de acordo em coisas tão obviamente necessárias, como esta iniciativa de Hugo Chávez que é o Banco do Sul e é difícil levá-la adiante justamente por essas contradições que há entre os países mais poderosos e mais débeis dentro do próprio espaço latino-americano”.


“Mas não se deve ter medo da contradição, ela é o motor da vida; somos contraditórios, por isso estamos vivos. Essa união de diversidades é complexa, mas será a única maneira de reconhecermo-nos a nós próprios em todas as nossas infinitas possibilidades de criação e de mudança, a partir do reconhecimento da diversidade, a partir da celebração da quantidade de mundos que o mundo contém, que é o melhor que o mundo tem e o melhor que nós temos. Por sorte somos diversos; mais de um iluminado em um debate público me dizia: ‘Que América Latina. O que um argentino tem a ver com um haitiano?’’. Eu o olhava com lástima, com pena. Pobre homem, ele não sabe que o melhor que te pode ocorrer é ser diverso, e nossa grande virtude é que contemos todas as cores, as cores do mundo na América Latina, na diversidade latino-americana. Se não fosse assim, estaríamos condenados a aceitar o que o sistema nos obriga a obedecer: ‘vamos ver, escolhe – de que queres morrer, de fome ou de tédio?’. Eu creio que temos que responder: ‘não queremos morrer, nem de fome nem de tédio’.

Fonte: Cubadebate

22.1.12

Ensaio da amizade



                                                        Ensaio da amizade


Para nos conhecer é necessário ver-nos em um amigo. O amigo é nosso outro eu. Há amigos cujas almas se misturam e se confundem tanto com as nossas, e tanto que, quando nos damos conta não conseguimos encontrar mais a costura que as juntou. A amizade é virtude ou implica em virtude, disse Montaigne. Por vezes certos amigos nos estendem tanto a sua amizade que desafia a moderação, transcende o amor de tal forma que nos parece que esse amor sempre esteve conosco. É tamanha a fusão que por vezes carregam, facilmente, consigo nossas dores, nossos sentimentos de tristeza, nossos temores. E de repente nada mais é seu ou meu. Vontades se misturam, toques reúnen-se, não há mais distinções. Laços diversos atam-nos para sempre e a amizade torna-se união perfeita, sem fissuras, sem brechas, sustentáveis por si só. 

A amizade é mesmo um mistério. 

Como pensar que é possível uma ligação assim, perfeita e completa, quando vivemos num mundo transitório e passageiro, um mundo de movimento e finitude? 

Cabe, nesse mundo coincidência tão absoluta de uma identificação tão plena? 


Cabe. Misteriosamente cabe. Posto que a amizade é o mais belo lugar e meio.

A amizade é uma aliança, uma sociedade que fazemos pura e simplesmente por escolha e vontade própria, onde não rivalizamos, não dispersamos. Buscamos o prazer pelo significativo prazer de ser e ter amigos. 

A semelhança da afinidade, convivência forte das coisas, identidade abençoada pelo Cosmos, torna-nos o princípio e o gênero de todas as espécies quando buscamos o amigo, nosso parente espiritual. O consolidamos como vínculo de sangue e damos qualidade e forma a esse convívio intenso e marcado para sempre em nossas vidas: queremos o amigo por ele mesmo, por ele ser quem é e o que é.

Assim é o amor e a amizade que me une a meu pai. Porque procedendo dele sou o seu outro, o outro ele mesmo. Só por isso pude descobrir quem eu era no dia que perdi meu pai. Ao ve-lo, sem vida entendi quem eu era. Aquele momento foi de mudança e movimento. Percebi a multiplicidade tênue e inconstante da própria vida, no meu espaço e no meu tempo. Percebi a existência a que desejava pra mim. Meu pai, ali naquele intante fora o espelho onde identifiquei-me. 

Nítido me fez acordar de um tempo em que me mantive adormecida. Um tempo que não sei contar porque fora muito tempo. E senti, cruelmente o momento - esse que deparei-me privada do amigo mais caro e mais íntimo. Aquele do laço consaguíneo, aquele da costura sem emendas, transcedente, sem fissuras e brechas, o amigo perfeito e completo. Esse amigo que olhei para nele reconhecer-me. Alcancei minha solda fraterna. Clarificados tornaram-se dali por diante meus conflitos, meus laços, minhas experiências. 

Minha imagem agora sustentava-se, sustenta-se de tal forma que a leveza vive a me rondar, posto que, saber-se torna tudo tão mais original, compreensível e sólido, tal qual a solidez de ter sido forjada dentro do corpo forte de meu pai.

O medo perde a importância, a obediência tem outro valor, o redor que temporariamente me pareceu estranho, retorna familiarmente em seu momento original. 

A cidade que naqueles dias era tão fria e distante, tão cinza, reencontra-se comigo trazendo uma infinita paz com seus coloridos e seus ruídos de amanhecer. Perdi a ingenuidade e me sinto melhor. Entendi que a vida não precisa ser entendida, precisa ser apreciada e aceita. 

Entretanto, ao perceber quem sou, a inquietude terminou; aprendi o que é separação, vida; aprendi que preciso aprender a viver e sobretudo a morrer. Porque agora sei para onde encaminha-se o meu conhecimento, os meus desejos, o meu mistério. Assim, tornei-me diferente para ser exatamente como me sinto, dentro de mim: igual; tornei-me mais tolerante, mais generosa, cuidadosa com a razão e a emoção. 

Vivo um dia por vez, um dia a cada dia, conhecendo o elemento singular do que é viver, existencialmente. 

Hoje, exatamente, dedico boa parte dos meus dias a escrever, para consagrar também a lembrança, a lembrança de um mútuo amor, um amor amigo, em nome desse laço que aponta-me a verdade e a vontade determinada, que aponta-me uma incrível força. 

Força que transporta-me para além de tudo que eu possa dizer e ser. D-P

(Baía, outono 2006)

(image Emília Couto)

18.1.12

A doutrina do choque, Naomi Klein



A doutrina do choque


O tema do novo livro da ativista Naomi Klein    

Escrito por Naomi Klein  


Reproduzimos entrevista com Naomi Klein, que lançou um livro interessante. Pretende unir vários acontecimentos do século  XX com mudanças econômicas, tais como as propagadas por figuras como Milton Friedman e Friedrich Hayek. Daí o título das mudanças econômicas associadas a outros acontecimentos: "A doutrina do choque".

O golpe de Pinochet no Chile. O massacre da Praça de Tiananmen. O Colapso da União Soviética. O 11 de setembro de 2001. A guerra contra o Iraque. O tsunami asiático e o furacão Katrina. O que todos esses acontecimentos têm em comum? É o que a ativista canadense antiglobalização Naomi Klein explica em seu novo livro The Shock Doctrine: The Rise of Disaster Capitalism [A doutrina do choque: O auge do capitalismo do desastre] – ainda sem tradução para o português. Naomi Klein em uma longa entrevista para o sítio La Haine, 27-09-2007, afirma que a história do livre-mercado contemporâneo foi escrita em choques e que os eventos catastróficos são extremamente benéficos para as corporações. Ao mesmo tempo a autora revela que os grandes nomes da economia liberal, como Milton Friedman, defendem o ‘capitalismo do desastre’. A tradução é do Cepat.

O que é exatamente a doutrina do choque?

A doutrina do choque como todas as doutrinas é uma filosofia de poder. É uma filosofia sobre como conseguir seus próprios objetivos políticos e econômicos. É uma filosofia que sustenta que a melhor maneira, a melhor oportunidade para impor as idéias radicais do livre-mercado é no período subseqüente ao de um grande choque. Esse choque poder ser uma catástrofe econômica. Pode ser um desastre natural. Pode ser um ataque terrorista. Pode ser uma guerra. Mas, a idéia é que essas crises, esses desastres, esses choques abrandam a sociedades inteiras. Deslocam-nas. Desorientam as pessoas. E abre-se uma ‘janela’ e a partir dessa janela se pode introduzir o que os economistas chamam de ‘terapia do choque econômico’.

É uma espécie de extrema cirurgia de países inteiros. E tudo de uma vez. Não se trata de um reforma aqui, outra por ali, mas sim uma mudança de caráter radical como o que vimos acontecer na Rússia nos anos noventa, o que Paul Bremer procurou impor no Iraque depois da invasão. De modo que é isso a doutrina do choque. E não significa que apenas os direitistas em determinada época tenham sido os únicos que exploraram essa oportunidade com as crises, porque essa idéia de explorar uma crise não é exclusividade de uma ideologia em particular. Os fascistas também se aproveitaram disso, os comunistas também o fizeram.

Explique quem é Milton Friedman, a quem ataca energicamente nesse livro?

Bem, ataco Milton Friedman porque é o símbolo da história que estou abordando. Milton Friedman morreu no ano passado. Morreu em 2006. E quando morreu, vimos como o descreveram em tributos pomposos como se fosse provavelmente o intelectual mais importante do período pós-guerra. Não apenas o economista mais importante, mas o intelectual mais importante. E é verdade que se pode construir um argumento contundente nesse sentido. Foi conselheiro de Thatcher, de Nixon, de Reagan, do atual governo Bush. Deu aulas a Donald Rumsfeld no início de sua carreira. Assessorou Pinochet nos anos setenta. Também assessorou o Partido Comunista da China no período chave da reforma ao final dos anos oitenta.
Sendo assim, teve uma influência enorme. Falei outro dia com alguém que o descreveu como o Karl Marx do capitalismo. E acredito que não é uma comparação ruim, mesmo que esteja segura de que Marx não gostaria nem um pouco. Mas foi realmente um popularizador dessas idéias.

Tinha uma visão de sociedade na qual o único papel aceitável para o Estado era o de implementar contratos e proteger fronteiras. Tudo o demais deve ser entregue por completo ao mercado, seja a educação, os parques nacionais, os correios, tudo o que poderia produzir algum lucro. E realmente viu, suponho, que as compras – a compra e a venda – constituem a forma mais elevada de democracia, a forma mais elevada de liberdade. O seu livro mais conhecido é Capitalism and Freedom [Capitalismo e liberdade].

Quando da sua morte no ano passado, percebemos o como essas idéias radicais de livre mercado chegaram a dominar o mundo, de como varreram a antiga União Soviética, a América Latina, a África, de como essas idéias triunfaram durante os últimos trinta e cinco anos. E isso me impressionou muito, porque já estava escrevendo esse livro. Nessas idéias - que tanto se falou quando da morte de Friedman -, nunca ouvimos falar de violência, nunca ouvimos falar de crises e nunca ouvimos falar de choques. Ou seja, a história oficial é de que estas idéias triunfaram porque desejávamos que assim o fosse, que o Muro de Berlim caiu porque as pessoas exigiram ter seus Big Macs junto com a sua democracia. E a história oficial do auge dessa ideologia passa por Margaret Thatcher dizendo: “Não há alternativa”, à Francis Fukuyama afirmando que “a história terminou, o capitalismo e a liberdade caminham juntos”.

Portanto, o que procuro fazer nesse livro é contar a mesma história, a conjuntura crucial nos qual essa ideologia entrou com força, mas re-introduzo a violência, re-introduzo os choques e, digo que existe uma relação entre os massacres, entre as crises, entre os grandes choques e os duros golpes contra vários países e a capacidade de imposição de políticas que são rejeitadas pela grande maioria das pessoas desse planeta.

Você fala de Milton Friedman. Qual a relação com a ‘Escola de Chicago’?

A influência de Milton Friedman provém do seu papel como o popularizador real do que é conhecido como a ‘Escola de Chicago’. Ele foi professor na Universidade de Chicago. Estudou na Universidade de Chicago e na seqüência foi professor nessa instituição. O seu mentor foi um dos economistas mais radicais do livre mercado da nossa época, Friedrich Von Hayek que foi professor na Universidade de Chicago.

A Escola de economia de Chicago representa essa contra-revolução contra o Estado de bem estar social. Nos anos cinqüenta, Harvard e Yale e as oito escolas mais prestigiadas dos EUA estavam dominadas por economistas keynesianos, pessoas como John Kenneth Galbraith, que acreditava que depois da grande depressão, era crucial que a economia funcionasse com uma força moderadora do mercado. E foi a partir daí que nasceu um ‘novo contrato’, a do Estado de bem estar social e tudo isso que faz com que o mercado seja menos brutal e se tenha uma espécie de sistema público de saúde, seguro desemprego, assistência social, etc.

A importância do Departamento de Economia da Universidade de Chicago é que realmente ele foi um instrumento de Wall Street, que financiou muito, muito consideravelmente a Universidade de Chicago. Walter Wriston, o chefe do Citibank era muito amigo de Milton Friedman e a Universidade de Chicago se converteu em uma espécie de ponto de partida da contra-revolução contra o keynesianismo e o novo contrato social com o objetivo de desmanchá-lo.

Qual a relação da Escola de Chicago com o Chile?

Depois da eleição de Salvador Allende, a eleição de um socialista democrático, em 1970, houve um complô para derrubá-lo. Nixon disse genialmente: “Que a economia grite”. E o complô teve numerosos elementos, embargos, etc e finalmente o apoio para o golpe de Pinochet em setembro de 1973. Escutamos muito falar nos ‘Chicago Boys’ no Chile, mas não sabemos detalhes sobre o que foram na realidade.

O que faço no livro é contar esse capítulo da história. (...) Em 11 de setembro de 1973, enquanto os tanques rodavam pelas ruas de Santiago e o palácio presidencial ardia e Salvador Allende era morto, um grupo dos assim chamados ‘Chicagos Boys’, assumia o controle da economia. Economistas chilenos que haviam sido levados para a Universidade de Chicago para estudar com bolsas do governo dos EUA como parte de uma estratégia deliberada para orientar a direita latino-americana.

Tratou-se de um programa ideológico financiado pelo governo dos EUA, parte do que o ex-ministro do exterior chama de “um projeto de transferência ideológica deliberada”, ou seja, levar esses estudantes a uma escola distante, na Universidade de Chicago e doutriná-los num tipo de economia que era marginal nos EUA na época e enviá-los de volta para casa como guerreiros ideológicos.

Falemos do choque no sentido da tortura...

Começo o livro estudando dois laboratórios para a doutrina do choque. Como disse anteriormente, considero que há diferentes formas de choque. Um deles é o choque econômico e o outro o choque corporal, os choques nas pessoas. E nem sempre acontecem juntos, mas estiveram presentes em conjunturas cruciais. Assim que um dos laboratórios para essa doutrina foi a Universidade de Chicago nos anos cinqüenta, quando todos esses economistas latino-americanos foram treinados para se converter em terapeutas do choque econômico. Outro – e não se trata de uma espécie de grandiosa conspiração – foi a Universidade McGill nos anos cinqüenta.

A Universidade McGill foi o ponto de partida para os experimentos que a CIA financiou para aprender sobre tortura. Quero dizer, foi chamado ‘controle da mente’ na época ou ‘lavagem cerebral’. Agora compreendemos, graças ao trabalho de gente como Alfred McCoy, que consta em seu programa que o que realmente pesquisavam nos anos cinqüentas sob o programa MK-ULTRA, foram experimentos de eletrochoques extremos, LSD, PCP, extrema privação sensorial, sobrecarga sensorial, tudo isso que vemos hoje utilizados em Guantánamo e Abu Ghraib. Um manual para desfazer personalidades, para a regressão total de personalidades. (...) McGill realizou parte dos seus experimentos fora dos EUA, porque assim considerava melhor a CIA.

Em Montreal?

Sim. McGill em Montreal. Na época então, o chefe de psiquiatria era um individuo chamado Ewen Cameron. Na realidade se tratava de um cidadão estadunidense. Foi anteriormente chefe da Associação de Psiquiatria Estadunidense. Foi para McGill para ser chefe de psiquiatria e para dirigir um hospital chamado de Allan Memorial Hospital, que era um hospital psiquiátrico. Recebeu financiamento da CIA e transformou o Allan Memorial Hospital em um laboratório extraordinário para o que agora consideramos técnicas alternativas de interrogatório. Dopava os seus pacientes com estranhos coquetéis de drogas, como LSD e PCP. Os fazia dormir, uma espécie de estado de coma durante um mês. Colocou alguns dos seus pacientes em uma situação de privação sensorial extrema e a intenção era que perdessem a idéia de espaço e tempo. Ewen Cameron dizia acreditar que a doença mental poderia ser tratada tomando pacientes adultos e reduzindo-os ao estado infantil. (...) Foi esta a idéia que atraiu a atenção da CIA, a de induzir deliberadamente uma regressão extrema.

Você falou do Chile, falemos do Iraque da privatização da guerra no Iraque - O governo iraquiano anulou a licença da companhia de segurança estadunidense Blackwater.

Esta é uma notícia extraordinária. Quero dizer, é a primeira vez que uma dessas firmas mercenárias é realmente considerada responsável. Como escreveu Jeremy Scahill em seu incrível livro ‘Blackwater: The Rise of the [Word´s] Most Powerful Mercenary Army’, o verdadeiro problema é que nunca houve processos. Essas companhias trabalham em uma ‘zona cinzenta’, ou são boy scouts e nada lhes acontecia. (...) Isso significa que se o governo iraquiano realmente expulsar Blackwater do Iraque, poderia ser um fato e tanto para submeter essas companhias à lei e questionar toda premissa de porque até agora se permitiu que se tivesse lugar este nível de privatização e de ilegalidade.

(...) Algo em que eu penso pela pesquisa que eu fiz para o livro No Logo se entrecruza com esta etapa do capitalismo do desastre em que estamos metidos agora. Rumsfeld [ex-Secretário de Defesa de Bush] aproveitou a revolução de percepção das marcas dos anos noventa, na qual a projeção de marcas corporativas – no sentido do que descrevo em No Logo – em que essas companhias deixaram de produzir produtos e anunciaram que já não produziam produtos, mas produziam marcas, produziam imagens e deixam que outros, terceirizados, façam o trabalho sujo de fabricar as coisas. E essa foi a espécie de revolução na sub-contratação e esse foi o paradigma da corporação ‘vazia’.

Rumsfeld se encaixa nessa tradição. E quando se tornou Secretário de Defesa, agiu como age um novo executivo da nova economia que se viu na tarefa de reestruturações radicais. Mas, o que fez foi adotar essa filosofia da revolução no mundo corporativo e aplicá-la à forças-armadas. (...) essencialmente o papel do exército é criar a percepção de marca, é comercializar, é projetar a imagem de força e dominação no globo – porém sub-contratando cada função, da atenção à saúde – administrando a atenção de saúde aos soldados – à construção de bases militares, que já estava acontecendo durante o governo de Clinton, ao papel que Blackwater desempenha e companhias como DynCorp, que como se sabe, destacou Jeremy, participam realmente em combates.

Comente a destruição do Iraque, do ‘Choque e Pavor’, da terapia econômica do choque de Paul Bremer, o choque da tortura, assim como a junção de todas essas coisas no Iraque.

Como já disse, no Chile, vimos esta fórmula do triplo choque. E eu penso que vemos a mesma fórmula do triplo choque no Iraque. Primeiro foi a invasão, a invasão militar de ‘choque e pavor’ – muitas pessoas pensam no tema apenas como se tratasse de um montão de bombas, um montão de mísseis, mas é realmente uma doutrina psicológica que em si é um crime de guerra, porque se diz que na primeira Guerra do Golfo, o objetivo foi atacar a infraestrutura de Sadam, mas sob uma campanha de ‘choque e pavor’, o objetivo é a sociedade em escala maior. È um princípio da doutrina ‘choque e pavor’.

Agora, o ataque de sociedades em escala maior é castigo coletivo, o que constitui crime de guerra. Não é permitido que os exércitos ataquem às sociedades em escala maior, apenas é permitido que ataquem os exércitos. A doutrina é verdadeiramente surpreendente, porque fala de privação sensorial em escala massiva. Fala de cegar, de cortar os sentidos de toda uma população. E o que vimos durante a invasão, o apagão de luzes, o corte de toda a comunicação, o emudecimento dos telefones e logos os saques, que não acredito que façam parte da estratégia, mas imagino que não fazer nada faz parte da estratégia, porque sabemos que houve uma série de advertências que falava em proteger os museus, as bibliotecas e nada se fez. E depois temos a famosa declaração de Donald Rumsfeld quando foi confrontado com este fato: “Essas coisas passam”.

(...) O objetivo, usando a famosa frase do colunista do New York Times, Thomas Friedman, não é o de construir a nação, mas sim “criar a nação”, que é uma idéia extraordinariamente violenta.

Nova Órleans?

Nova Órleans é um exemplo clássico do que eu chamo de doutrina do choque do capitalismo do desastre porque houve um primeiro choque que foi o alagamento da cidade. E como se sabe, não foi um desastre natural. E a grande ironia do caso é que realmente foi um desastre dessa mesma ideologia de que estávamos falando, o abandono sistemático da esfera pública. Eu penso que cada vez mais vamos ver acontecimentos assim. Quando se têm vinte e cinco anos de contínuo abandono da infra-estrutura pública e do esqueleto do Estado – o sistema de transporte, as estradas, os diques. A sociedade de engenheiros civis estadunidense calculou que colocar em condições o esqueleto do Estado custaria 1,5 bilhões de dólares. Portanto, o que temos é uma espécie de tormenta perfeita, na qual o debilitado Estado frágil se entrecruza com um clima cada vez pior, que diria que também faz parte desse mesmo frenesi ideológico em busca de benefícios a curto prazo e crescimento a curto prazo. E quando estes dois entram em coalizão, vem um desastre. É o que ocorreu em Nova Órleans.

O que a mais horrorizou ao pesquisar a doutrina do choque?

Horrorizou-me o fato que se tem por aí muita literatura que eu não sabia que existia e que os economistas a admitem. Uma quantidade de citações de propugnadores da economia de livre-mercado, todos desde Milton Friedman a John Williamson, que é o homem que cunhou a frase ‘Consenso de Washington’, admitindo entre eles, não em público, mas sim entre eles, como em documentos tecnocráticos, que nunca conseguiram impor uma cirurgia radical do livre-mercado se não acontece uma crise em grande escala, ou seja, as mesmas pessoas que propugnam que o mito central da nossa época, que a democracia e o capitalismo caminho juntos, sabe que se trata de uma mentira e o admitem por escrito.

14.1.12

"O Brasil dói"





                                 “O Brasil é afetivo, encantador, violento e tenebroso”


Para Maria Rita Kehl, o importante é que quem está se mobilizando tenha inteligência política suficiente para saber que pontos políticos podem mobilizar 
  

Áurea Lopes

Dois pesos: a psicanálise e o jornalismo. Foi a partir dessa parruda união de forças e percepções que Maria Rita Kehl produziu as crônicas de sua mais recente obra, entre muitos escritos em outros livros e jornais – incluindo o artigo que resultou na escandalosa suspensão de sua coluna no jornal O Estado de S. Paulo por ter defendido políticas do governo Lula, quando o jornal (que faz campanha contra a censura) apoiava o candidato à presidência José Serra.   

“Eu até gostaria de fazer crônicas mais literárias, mas os temas da atualidade acabam me roubando... e é pra isso que eu vou”, diz a intelectual, que nesta entrevista exclusiva ao Brasil de Fato fala sobre “as dores do Brasil”, eixo agregador dos temas abordados em "18 crônicas e mais algumas", publicação da Boitempo Editorial lançada em novembro.   

Indignada com o descaso dos governos e a indiferença da população diante das mazelas sociais (“restos não resolvidos de 300 anos de escravidão”), Maria Rita fala sobre o engajamento dos jovens nas lutas populares (“ainda é pouco”), a violência policial (“resultado de uma ditadura que termina impune”) e afirma que os recursos para aplacar as dores do país estão na militância: “É hora de fazer política”.     

Brasil de Fato – Uma frase que do seu último livro que chamou muito a atenção e teve grande repercussão foi “O Brasil dói”. A pergunta inevitável é: quais as dores do Brasil que você considera mais preocupantes?

Maria Rita Kehl – Bem, não que seja uma frase genial, ao contrário, acho até banal. Mas talvez tenha chamado tanto a atenção porque corresponda ao sentimento de muita gente. A dor que o Brasil sente eu já intuía, mas aprendi com o meu ex-companheiro, o historiador Luís Felipe Alencastro, que é um estudioso da escravidão no Brasil. Uma parte do que se chama de um difuso mal estar tem a ver com os restos não resolvidos politicamente de 300 anos de escravidão. Quer dizer, não há explicitamente uma política de segregação no Brasil, mas nunca houve uma abolição, de fato. A abolição se deu porque economicamente o sistema já estava falido.     

A escravidão acabou assim, com miséria, com os escravos chutados dos lugares, ganhando subsalários. Mas não houve nada para proteger essas populações, que foram jogadas nas ruas, sem trabalho, sendo tratadas do mesmo jeito que antes porque a cor da pele não muda... e marcou durante décadas os escravos. Demorou muito para o negro ser visto como um trabalhador livre, como qualquer outro. E mesmo hoje, acho importantes as políticas públicas feitas no governo Lula e no governo Dilma, mas embora não haja preconceito explícito, que agora é ilegal, há, sim, diferenças. 

Outra coisa que dói, para pegar aquilo que me atinge, é a forma como a ditadura militar acabou. Igualzinho. De repente acabou, porque estava inviável mesmo... e não tem reparação, não tem investigação, julgamento de quem torturou, de quem matou... crimes de Estado ficaram impunes. Hoje há um movimento mais importante para tentar fazer alguma coisa, com muito esforço, conseguiu- se uma tímida comissão da verdade. Mas a indiferença da população é enorme. E dói também o desamparo de uma parte da população, quando tem inundação, quando desaba um morro... e você vê o modo como a verba pública é desviada, os mistérios não cumprem suas funções.... é isso que dói.       

Como essas “dores” atingem, em particular, os jovens? Quais as perspectivas de futuro para que as novas gerações mudem esse cenário? O acesso à educação aumentou, mas e as oportunidades de trabalho?

Pelo que eu vejo nas minhas viagens pelo país, o ProUni (Programa Universidade para Todos) – que foi tão criticado, as pessoas diziam que o governo estava fazendo a privatização do ensino, o que não é – abriu uma perspectiva enorme. Em 2008, por exemplo, eu viajei por uma região do rio São Francisco. Todo mundo que a gente conversava tinha um parente na universidade ou estava na universidade. Isso quer dizer que o cara vai ser um doutor, contratado por um alto salário de uma companhia? Não. Mas significa que a visão de mundo dele vai melhorar, o status dele para emprego vai melhorar. Se vai ter emprego, ou não, não dá pra saber. E o mais importante é que isso revela um interesse desse jovem pelo estudo. Eu lembro, em Barra de São Miguel (AL), o garçom dizendo “eu quero estudar história e meu irmão, filosofia”. O que isso vai melhorar na renda dele de garçom? Não tão grande coisa. Mas a visão de mundo será outra. Então, eu acho que melhorou, mas ainda falta muito.      

Como você a participação política dos jovens, hoje?

Acho que hoje há um distanciamento. Como havia antes. Na época da ditadura, a gente pensava que todo mundo estava dentro porque a gente estava dentro. Mas era uma minoria de estudantes, uma minoria de militantes. Eu acho, por exemplo, que o MST é o único movimento que atrai os jovens, hoje, inclusive os de classe média. Os partidos não atraem, a política não atrai, a política estudantil está tendo agora um crescimento, que eu acho importante, mas está minguada, comparando-se ao que já foi. Então, tem gente que diz que o jovem de hoje não está interessado em mudar o mundo. Não parece. Uma porção de jovens de classe média apoia o MST, milita, vai trabalhar lá... até mora embaixo da lona preta.           

É como na minha geração. Claro, os estudantes estavam nas ruas... mas quem foi lutar? Uma minoria. As pessoas estavam adorando que o Brasil estava se tornando uma sociedade de consumo. A grande maioria, enquanto teve o milagre brasileiro, estava indo para os shoppings.       

Talvez o que aconteça hoje, como não existe a ditadura, é que os jovens se envolvam em vários tipos de militância. A militância ecológica agrega muita gente. E não que eles tenham uma visão de esquerda, anticapitalista, revolucionária... talvez não tenham. Mas eles estão interessados na discussão política do meio ambiente. Porque está mais perto, é mais fácil de compreender, exige menos debate teórico, não sei por quê... mas esse é um campo de militância do jovem. Assim como as lutas pelos direitos individuais, antirracistas, por reconhecimento de homossexuais... Agora, essas lutas são fáceis do capitalismo absorver. A luta anticapitalista no Brasil ainda é confusa. O MST é uma exceção. Nessa crise, por exemplo, um grupo de estudantes acampou no Anhangabaú (Vale do Anhangabaú, no centro de São Paulo), tentando fazer algo como o que aconteceu em Wall Street, nos Estados Unidos. Mas aqui não tem efeito nenhum. Basta a imprensa ignorar e a polícia intimidar que o assunto não existe.      

E não precisa muito para a polícia, principalmente a de São Paulo, “intimidar”. O que significa: partir para a pancadaria?    
 

Olha, não existe mais um Doi-Codi aqui em São Paulo. Mas a polícia paulistana é tão violenta quanto. Mata, tortura e há uma indiferença da sociedade em relação a isso. Esse movimento que houve agora na USP não era, como muitos colunistas de jornal falaram, um movimento de jovenzinhos mimados. Eles estão lutando contra a falta de direitos. É confuso, evidente, porque não ter polícia no campus é controverso, pois teve até assassinato lá... Mas a questão é o modo como a polícia age. Não tem uma passeata que não seja dissolvida com porrada, gás de pimenta, cassetete... São Paulo, nesse ponto, é o estado mais conservador do país. E o que me assusta é que a violência é grave e a sociedade fica indiferente. No período militar, tinha uma parte da população que era indiferente também. Tinha uma parte que até apoiava a violência, achava ótimo que apanhassem os comunistas. Mas também tinha uma parte que não apoiava a violência, que não estava indiferente, mas que tinha medo. Hoje não é pra ter todo esse medo de se manifestar. Tudo bem, a polícia pode chegar, jogar gás de pimenta... mas pouca gente se manifesta. Na última passeata na avenida Paulista, não sei se foram uns 3 mil estudantes, mas é pouco. Podia ter uma passeata de 50 mil.       

A violência – e a indiferença da sociedade – são mais marcantes no campo, onde a luta de classes é mais selvagem?

A região do agronegócio é um assunto à parte. No livro O que resta da ditadura, uma série de ensaios publicados pela editora Boitempo – esse livro vale ser citado, o leitor que puder deve ler – faz uma análise exatamente disso. Como uma ditadura que termina sem nem um tipo de investigação, de punição, deixa muitos restos. Tem um dado de uma pesquisadora estadunidense que diz que o Brasil, de todos os países que passaram por uma ditadura na América Latina, é o único onde a violência policial aumentou, em vez de diminuir. Só que não é mais contra estudantes, não é mais contra supostos subversivos... é contra pretos, pobres, favelados, contra gente fumando maconha, é o cara do exército que se acha desacatado pelo menino do morro...   

A violência de classe no Brasil sempre existiu. Sérgio Buarque de Holanda nos mostrou o que os donos dos escravos faziam dentro de suas terras, por conta própria, a crueldade com os escravos... e a polícia não entrava. O fazendeiro, o senhor de engenho, dentro do seu pequeno feudo, fechado, era rei, policial, juiz. E o Estado não invadia, por uma questão de conluio. O pacto de classes no Brasil colonial e pós-colonial permitia, por exemplo, que o pai de família rural prendesse a filha desvirginada no quarto pro resto da vida... Sem falar nas revoltas populares que foram massacradas durante o período pré-independência. E a gente aprende na escola que a independência se deu sem sangue, dom Pedro lá, bonitinho, no cavalo... Por isso que eu coloquei no meu livro que o Brasil é afetivo, encantador, violento, tenebroso.   

A que causas você atribui o aumento da violência?


Eu não sei analisar se a violência está aumentando. O que me preocupa mais, como disse, é a indiferença das pessoas em relação à violência. O que talvez esteja mais acentuado, e eu acho que isso tem a ver com os apelos da sociedade de consumo, é a violência dita banal. A violência que tem a ver com o jovenzinho que para no farol e começa a disputar com o outro quem põe o som mais alto, e acaba em racha, e acaba em tiro... e atropela gente que não tem nada a ver com isso. A violência do sujeito que acha que para se incluir tem de ostentar algum tipo de poder que lhe é conferido por uma mercadoria. Então ele pode matar para roubar um tênis, ou, quando ele consegue um carro, tem que ir até o limite de velocidade e arrisca as pessoas, não agüenta um pequeno confronto de trânsito e já sai para brigar. É o modo como nós estamos cada vez mais definindo quem nós somos, a nossa qualidade humana, pelas mercadorias e as disputas que isso promove.        

E olha que interessante... no tempo do império, a segregação pelos signos de poder era tremenda. A roupa que cada um podia usar, o tecido que podia comprar, se andava de carruagem ou de cavalo... Ou seja, a segregação pelo que você pode ter existe em toda sociedade de classes. E talvez já tenha sido até mais forte. Muito poucos podiam ostentar ou desfrutar de benefícios e privilégios e a maioria não desfrutava nem de direitos. Os direitos estão se expandindo.    

Inclusive o direito a integrar a sociedade de consumo.

Isso é curioso. Há um ponto includente, na sociedade de consumo. Por exemplo, a não ser que seja um garoto que só compra roupas de marcas importadas, não tem muita diferença entre o que usa um filho de família de classe média e o filho da empregada dessa família. Essas evidências eram muito mais fortes antes, havia menos mercadoria quando as roupas eram muito caras. Talvez por isso é que as pessoas briguem com mais violência por aquilo que as distingue. O filhinho de papai porque tem outro cara com um carrão e ele quer se sobressair. Ou o jovem de classe C, que pode comprar seu primeiro carro, e de repente acha que pode sair perseguindo os outros... Eu digo carro porque, dentro da sociedade de consumo, a propaganda de carro eu acho um horror! Na propaganda de bebida, o máximo que pode ter de segregação é: você comprou a marca X porque não sabia que a marca Y era melhor, então você é um otário. Mas a cerveja qualquer um tem dinheiro pra comprar. Agora, o carro... o cara passa com o carro e todo mundo fica babando a pé... o flanelinha disputa com o outro o direito de guardar o carro do playboy... o cara adora provocar inveja... o carro lhe basta, o mundo pode estar caindo lá fora... é o máximo da convocação para você não ter nenhum tipo de solidariedade com ninguém.   

Uma apologia ao individualismo? E, daí, a indiferença em relação ao coletivo?

Um pouco isso. Mas temos de ver que o individualismo tem suas vantagens. Por isso eu não usei essa palavra. Por exemplo, o individualismo que tem a ver com liberalismo eu acho que traz ganhos mesmo na sociedade pós-capitalista, que eu não vou chamar de comunista, mas talvez de socialista, no sentido amplo. Eu espero que esses direitos individuais não se percam. Nós, que somos mulheres, sabemos os ganhos que tivemos com o individualismo. Que cada um possa escolher seus destinos, que cada um possa fazer suas opções sexuais, decidir se vai formar família ou não, que se possa ser mãe solteira, ser mãe por inseminação artificial, não ser mãe... sem ser a escória da sociedade! Que gente rica possa escolher trabalhar com o MST ou ir para comunidades indígenas na Amazônia. A riqueza das diferenças individuais é um ganho do capitalismo liberal, que a gente chama de individualismo. Ao mesmo tempo, o individualismo é nefasto quando lança as pessoas em uma luta de todos contra todos.          

Os brasileiros e a sociedade brasileira têm recursos para trabalhar as “dores” do Brasil?

Sim, sem dúvida. Políticas públicas são saídas possíveis, mas precisa haver movimento social que pressione por essas políticas. Uma coisa que talvez tenha sido um problema no governo Lula é que muita gente que se mobilizava até então se sentiu assim: “ah... conseguimos eleger o Lula e as coisas vão acontecer”. Houve uma desmobilização e o próprio estilo de governar do Lula contribuiu para isso. “Deixa que eu cuido... calma, gente, as coisas não podem ser tão rápidas...” Esse estilo de governar eu acho um problema, politicamente. Embora ele tenha sido um grande governante do ponto de vista administrativo. Mas, politicamente, ele se colocar como um “pai” – aí vem aquela história... a gente não pode sempre dizer sim para os filhos. Enfim, ele ajudou muito a desmobilizar. Tudo bem, o papel dele não era mobilizar. Mas era acolher a mobilização. E tem também o crescimento econômico, que desmobiliza. Houve a inclusão econômica de muita gente, pelo menos da classe C, que contribuiu também para desmobilizar. As pessoas se interessam menos pelas outras lutas na hora em que elas começam a ter oportunidades individuais. Começam a cuidar de suas vidas, a fazer suas revoluções individuais. De um modo geral, as pessoas lutam muito pouco por idealismo. E, na maior parte das vezes, só quando a água bate no pescoço. Aí é que acontece a grande luta. O importante é que quem está se mobilizando tenha inteligência política suficiente para saber que pontos políticos podem mobilizar, como é que se dialoga com a sociedade mobilizada. Para articular, para angariar aliados. Senão ficam pequenos guetos de manifestações que ou são reprimidos ou não falam com ninguém. A questão toda, na essência, é fazer política.   

Dois Pesos

(Trecho do artigo que causou o cancelamento da coluna de Maria Rita Kehlno jornal O Estado de São Paulo)

“Depois do segundo turno de 2006, o sociólogo Hélio Jaguaribe escreveu que os 60% de brasileiros que votaram em Lula teriam levado em conta apenas seus próprios interesses, enquanto os outros 40% de supostos instruídos pensavam nos interesses do país. Jaguaribe só não explicou como foi possível que o Brasil, dirigido pela elite instruída que se preocupava com os interesses de todos, tenha chegado ao terceiro milênio contando com 60% de sua população tão inculta a ponto de seu voto ser desqualificado como pouco republicano. Agora que os mais pobres conseguiram levantar a cabeça acima da linha da mendicância e da dependência das relações de favor que sempre caracterizaram as políticas locais pelo interior do país, dizem que votar em causa própria não vale. Quando, pela primeira vez, os sem-cidadania conquistaram direitos mínimos que desejam preservar pela via democrática, parte dos cidadãos que se consideram classe A vem a público desqualificar a seriedade de seus votos.”

Trechos do livro

 Os vira-latas do Bumba

“No morro do Borel, 150 pessoas – somente desabrigados e seus familiares– fazem protesto contra a precariedade de sua condição e exigem a presença do poder público. Manifesto do Comitê de Mobilização e Solidariedade das Favelas de Niterói critica a especulação imobiliária que expulsa as famílias pobres dos bairros para as encostas e contribui para a deterioração do meio ambiente. E exige ‘... compromissos com os problemas públicos, que nos respeitem como cidadãos e seres humanos’. Não faltarão autoridades para acusar os poucos que se mobilizam para protestar de politizarem a questão. Uai: mas a questão não é política? Querem que acreditemos que viver sobre um velho lixão (há 17 mil pessoas emc ondições semelhantes na Grande São Paulo) é uma situação... natural? Nós somos os derrotados que não conseguem chorar. Vivemos, todos, sobre uma espécie de lixo mal soterrado. Antigamente se chamava entulhoautoritário. Somos o cachorrinho do morro do Bumba, salvos por um triz, sem entender o que temos a ver com aquela bagunça toda.”

Tortura, por que não

“Encaremos os fatos: a sociedade brasileira não está nem aí para a tortura cometida no país, tanto faz se no passado ou no presente. Pouca gente se manifestou a favor da iniciativa das famílias Teles e Merlino, que tentam condenar o coronel Ustra, reconhecido torturador de seus familiarese de outros opositores do regime militar. Em 2008, quando o ministro da Justiça Tarso Genro e o secretário de Direitos Humanos Paulo Vanucchi propuseram que se reabrisse no Brasil o debate a respeito da (não) punição aos agentes da repressão que torturaram prisioneiros durante a ditadura, as cartas de leitores nos principais jornais do país foram, na maioria, assustadoras: os que queriam apurar os crimes foram acusadosde ressentidos, vingativos, passadistas. A culpa pela ferocidade da repressão recaiu sobre as vítimas.”

Tristes trópicos

“A concentração de terras e a produtividade do agronegócio, boas para enriquecer algumas poucas famílias, não são necessárias para o aumento da riqueza ou para sua distribuição no campo. Nem para alimentar os brasileiros. A agricultura familiar – pasmem: emprega mais, paga melhor e produz mais alimentos para o consumo interno do que o agronegócio. Verdade que não rende dólares, nem aos donos do negócio nemaos lobistas do Congresso. Mas alimenta a sociedade. Vale então perguntar quantos brasileiros precisam perder seus empregos no campo, ser expulsosde seus sítios para viver em regiões já desertificadas e improdutivas,quantas gerações de filhos de ex-agricultores precisam crescer nas favelas, perto do crime, para produzir um novo-rico que viaja de jatinho e manda a família anualmente pra Miami. Quanto nos custa o novo agromilionário sem visão do país, sem consciência social, sem outra concepção política senão alimentar lobbies no Congresso e tentar extinguir a lutados sem-terra pela reforma agrária”


Fonte: http://www.brasildefato.com.br/node/8544


ainda o Código Florestal



Um bom momento para tomar juízo


Washington Novaes*

A nova discussão e votação do projeto de Código Florestal no Congresso, prevista para as semanas depois de terminado o recesso, poderá ser uma boa oportunidade para que os parlamentares, observando o que está acontecendo de desastres em razão de "eventos extremos" (chuvas, principalmente) nos Estados de Minas Gerais, do Espírito Santo e do Rio de Janeiro, entre outros pontos, possam rever dispositivos que reduzem áreas de preservação permanente à beira de rios, em encostas e topos de morros. O panorama naqueles Estados é muito claro: o desmatamento nas três situações reduz a infiltração de água no subsolo, aumenta a erosão e o carreamento de sedimentos para a calha dos rios - e nesta se reduz a capacidade de receber água e manter contido o fluxo hídrico. As enchentes não só afetam culturas como derrubam barragens, destroem pontes e aterros, inundam comunidades, desalojam dezenas de milhares de pessoas. O caso do Rio Muriaé, nestas últimas semanas, é bem típico.

Nada leva a crer que vá mudar o panorama de "eventos extremos". Estudos nas Universidades de Colúmbia e da Carolina do Norte, nos EUA (Forbes, 23/12/2011), publicados nos Proceedings of the National Academy of Sciences (agosto de 2009), preveem que impactos nos cultivos de milho, soja e algodão, em função de temperaturas mais altas neste século, serão pelo menos 25% a 30% maiores, antes de se iniciar um processo de declínio; as projeções mais pessimistas indicam perdas entre 63% e 82% até o fim do século 21. Também a Organização Meteorológica Mundial prevê que a temperatura terrestre continuará a elevar-se - 2010 foi um dos anos mais quentes desde 1850, entre 1998 e 2011 tivemos os 12 anos mais quentes desde que se registram temperaturas. E estas, se mais elevadas, podem influenciar chuvas mais fortes.

Mesmo no Brasil há informações inquietantes. Estudos do professor Paolo Alfredini, do Departamento de Engenharia Hidráulica e Ambiental da USP (Estado, 1.º/1), mostram que a elevação do nível do mar no litoral norte de São Paulo - segundo registros da Cia. Docas de Santos entre 1944 e 2007 - pode ser calculada em 74 centímetros em um século e deve acelerar-se em 20 anos, para chegar no final do século 21 a um metro nos pontos de menor declive. Água salgada pode comprometer sistemas de abastecimento urbano.

Em nosso país, escreve o correspondente Jamil Chade (Estado, 6/1), enchentes já provocaram prejuízos de R$ 5 bilhões em uma década - dados da seguradora Swiss Re -, além de 120 mortes por ano, entre os 19 milhões de pessoas expostas ao risco. Segundo a ONU, já somos o 13.º país mais vulnerável por esse ângulo, com 246 mil pessoas afetadas por ano, e o 18.º em prejuízos. Só nas últimas semanas, 2,5 milhões de pessoas foram atingidas pelas chuvas, diz o governo federal (Estado, 10/1) - sem falar nas secas extremas no Rio Grande do Sul, com prejuízos de R$ 2 bilhões nos cultivos de soja, milho e algodão.

Desde a década de 1980 o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), da ONU, vem advertindo para o agravamento dos desastres nessa área, mas parecemos surdos, cegos e céticos. Ao menos por aqui. Para ficar só nos fatos mais recentes, em 2010 a hoje presidente Dilma Rousseff prometeu que o governo federal tomaria medidas para evitar novos desastres. Mas quando se lê hoje sobre escândalos no Ministério da Integração Nacional, conclui-se que os interesses eleitorais prevaleceram sobre tudo. Em oito anos o Congresso Nacional autorizou a aplicação de R$ 2,8 bilhões em programas de prevenção de desastres nessa área, mas só foram aplicados R$ 695,4 milhões (O Globo, 3/1). No ano passado mais de 900 pessoas morreram nas inundações e nos deslizamentos de terras no Estado do Rio de Janeiro. Mas de lá para cá praticamente nada se fez para mudar o quadro - e as novas chuvas estão levando a novos desastres. Em Belo Horizonte dezembro foi o mês mais chuvoso na História, diz o Instituto Nacional de Meteorologia - e o panorama em Minas é desastroso, a começar pelas regiões banhadas ali (e no Estado do Rio de Janeiro) pelo Rio Muriaé. Nas proximidades de Campos, toda a população de Três Vendas, cerca de 4 mil pessoas, teve de abandonar suas residências.

Levantamento do Serviço Geológico do Brasil (O Globo, 3/1) indica que em 251 municípios há risco de acidentes por causa do clima, e 178,5 mil pessoas vivem em áreas de risco alto ou muito alto. Só na cidade de São Paulo 27,1 mil famílias, cerca de 100 mil pessoas, moram em regiões de alto risco. Quase 1 milhão de pessoas ocupam áreas inadequadas, inclusive de preservação permanente. Ainda há pouco o Ministério Público recorreu à Justiça para exigir que os órgãos estaduais e municipais promovam obras em 121 favelas onde 20 mil moradias correm o risco de sofrer com deslizamentos.

É preciso repetir: mudanças climáticas já são o mais grave problema a enfrentar, aqui e em toda parte. Há poucos dias, a Universidade de Louisiana (EUA) advertiu que são muito fortes os riscos para a população de 16 países no Sul da Ásia, com o derretimento de geleiras, que se verifica também no Ártico e nos Andes. O governo das Ilhas Maldivas, no Pacífico, anunciou que vai cuidar da transferência de parte de sua população para a Austrália por causa da elevação do nível do mar, que já está acontecendo e ameaça mais de 30 países-ilhas.

Iniciativas importantes estão ocorrendo nas áreas de energia, transportes, construção e outras para reduzir emissões de poluentes. De modo geral, entretanto, continuam a prevalecer, nos negócios públicos e em empresas, as lógicas financeiras imediatistas. Quando acordaremos? Poderíamos dar um bom exemplo ao mundo no caso do nosso Código Florestal, durante a próxima votação. Os cientistas já mostraram que não é preciso retroceder na proteção aos biomas para expandir a agropecuária. É preciso ouvi-los.

*Washington Novaes é jornalista.
E-mail: wlrnovaes@uol.com.br - O Estado de S.Paulo

Código Florestal Brasileiro

Código Florestal, para que Serve ?

Novo Código Florestal Brasileiro: Há Pontos Positivos e Negativos...
Afinal para que serve um Código Florestal ? Para que foi criado ?
Fora os profissionais de Engenharia Florestal, os Fazendeiros e os Ambientalistas, pouca gente sabe a resposta certa para estas perguntas.
O Código Florestal Brasileiro foi criado em 1965, com o objetivo de regularizar a exploração das Florestas no Brasil.
Elaborado por especialistas em Engenharia Florestal e Engenharia Ambiental, ele cuida principalmente da questão da Agricultura.
Afinal de contas, embora agricultura e alimentação sejam questões fundamentais tanto do ponto de vista social quanto econômico, temos que pensar também na Sustentabilidade.
Afinal, de que adianta produzir alimentos e esgotar as terras ?
De que adianta ganhar dinheiro e destruir o planeta ?
Considerado um dos Códigos Florestais mais avançados do mundo por profissionais de Engenharia Florestal, nosso Código Florestal busca equilibrar Agricutura e Ambientalismo.
Confira abaixo os principais pontos do Código Florestal do ponto de vista da Engenharia Florestal e também da Engenharia Ambiental.

Engenharia Florestal: Principais Pontos do Código Florestal

O principal ponto do Código Florestal que diz respeito a Engenharia Florestal é a questão das Reservas Legais.
As Reservas Legais são áreas de Floresta Natural ou Floresta Artificial dentro de uma fazenda ou propriedade que obrigatoriamente tem que ser preservadas.
É como se cada fazendeiro tivesse a obrigação de fazer a sua parte e preservar um pedaço das florestas das suas terras.
Todo projeto Industrial ou Agrícola de no Brasil, realizado em áreas consideradas Rurais ( fora das cidades ) deve obedecer a regra da Reserva Legal.
Segundo a definição dos profissionais de Engenharia Ambiental, a % de terras de floresta que devem ser preservadas varia de região para região.
Atualmente a regra é a seguinte:

Engenharia Florestal: Reservas Legais no Brasil

Amazônia Cerrado Resto do País *
80% das Florestas devem ser preservadas na propriedade 35% das Florestas devem ser preservadas na propriedade 20% das Florestas devem ser preservadas na propriedade
*: Como resto do país, estão o Litoral, a região da Mata Atlântica e as principais regiões Urbanas do Brasil.
Código Florestal: Reservas Legais e Ecossistemas no Brasil

Engenharia Ambiental: Principais Pontos do Código Florestal

O Código Florestal Brasileiro também cuida das questões ambientais, o principal ponto da Engenharia Ambiental no Código Florestal atual é a questão das Matas Ciliares.
Matas Ciliares são áreas de vegetação que ficam logo ao redor de cursos dágua, sejam eles cursos de água correntes ( rios ) ou então água parada ( lagos ).
Elas são importantes do ponto de vista da Engenharia Ambiental pelas seguintes razões:
  • Matas Ciliares servem de abrigo para animais na beira de cursos dágua
  • Servem como local de reprodução de diversas espécies, desde anfíbios até pássaros.
  • Frutos das Matas Ciliares podem cair nos cursos dágua e servir de alimento para os animais.
  • Matas Ciliares não deixam a terra desabar das encostas dentro dos cursos dágua.
Segundo o Código Floresta Brasileiro atual, os proprietários rurais devem preservar uma faixa de 30 metros de vegetação na beira de todos os cursos dágua.

Questões Mistas do Código Florestal Brasileiro

Além das questões específicas de Engenharia Florestal e Engenharia Ambiental citadas acima, o Código Florestal Brasileiro ainda cuida de algumas questões mistas:
  • Plantações em Topos de Morros
  • Preservação de Praias Particulares, Restingas, Dunas de Areia e Mangues
  • Ocupação de Bordas de Chapadas ou Desfiladeiros
  • Medidas para atenuar a Desertificação e conter avanço de Dunas
  • Ações para Evitar que animais raros entrem em extinção
  • Proteção de Patrimônios Natuais e Históricos ( pinturas em cavernas, ossos de dinossauros, ruínas, etc.. )
  • Proteção de Populações Indíginas Civilizadas ou não
  • Medidas para proteger nossas fronteiras.
Estas questões, que misturam a questão Social, Ambiental e também Florestal estão também todas inclusas no Código Florestal.

Afinal, que a Proposta para o Novo Código Florestal ?

Atualmente ( 2011 ), o Governo está trabalhando em medidas para modernizar nosso código Florestal.
Essas medidas que foram propostas por vários profissionais de Engenharia Florestal, Cientistas e Engenheiros Ambientais, estão sendo produzidas para flexibilizar o nosso Código Florestal e também deixar as regras mais claras.
Confira abaixo uma lista desta mudanças:
  • Pequenos Produtores Rurais: Os pequenos fazendeiros, de acordo com a nova proposta não precisam mais ter uma reserva legal em suas propriedades.
  • Topos de Morros: Atualmente o plantio de culturas em topos de morros é bem controlado, de acordo com a nova proposta essa prática será mais aberta.
  • Matas Ciliares: A proposta é reduzir o tamanho das matas ciliares de 30 metros para 15 metros
  • Reservas Legais: Atualmente a % de Reservas Legais e Matas Ciliares são computadas separadamente, com o nova proposta passaram a ser contabilizadas juntas.
  • Legislação: Boa parte das decisões relativas ao Código Florestal vão ser agora tomadas pelos Estados e Prefeitura, adaptando assim o Código Florestal as necessidades locais.

Posição das Entidades em Relação ao Novo Código Florestal

Como é de se esperar em toda discussão de mudança, muitas entidades são contra, muitas são a favor e muitas são neutras em relação as mudanças no Código Florestal.
Confira abaixo como as principais delas estão posicionadas.

A Favor do Novo Código Florestal

Entidades a Favor do Novo Código Florestal
Os principais defensores do Novo Código Florestal Brasileiro são compostos pelos Ruralistas e também pelos Fazendeiros de um modo geral.
Os Ruralistas, Deputados que por sinal em grande parte são também Fazendeiros, são aqueles que estão na Câmara dos Deputados e Senado para defender os interesses dos Produtores Rurais.
Representando um dos principais setores da Economia do Brasil, a Agricultura, os Ruralistas são a favor do novo Código Florestal pois ele vai liberar novas áreas para plantar.
Eles se apoiam no fator que o Código Florestal Brasileiro é um dos mais rígidos do mundo ( e realmente é ) e que uma flexibilização traria muitos benefícios econômicos e sociais, tais como maiores lucros e produção de mais comida.

Neutros em Relação ao Novo Código Florestal

Neutros em Relação ao Novo Código Florestal
Os Cientistas, profissionais de Engenharia Florestal e também o Governo formam o chamado Grupo Neutro em relação ao Novo Código Florestal.
Estes setores afirmam que há tanto positivos quanto negativos no código florestal e que para se chegar a uma solução definitiva vai ser necessário discutir um pouco mais.

Contra o Novo Código Florestal

Entidades Contra o Código Florestal
Os principais opositores do Novo Código Florestal são os Ambientalistas e também uma boa parte dos profissionais de Engenharia Ambiental.
Estes profissionais afirmam que a nova proposta vai abrir caminho para que muita área verde seja destruida e também que a flexibilização das Leis Ambientais vai favorecer grandes Fazendeiros interessados somente em lucro.
A questão dos pequenos produtores não precisarem mais de manter uma reserva legal, por exemplo, vai fazer que muitos deles, movidos pela ganância acabem destruindo toda a área verde de suas propriedades, causando um forte desequilíbrio.
Os ambientalistas afirmam que apesar do Código Florestal Brasileiro ser rígido ele é adequado a nossa realidade já que o Brasil tem amplas reservas naturais e também uma grande biodiversidade.



Matéria copiada para facilitar o entendimento do teor, trazida do site: http://www.guiadacarreira.com.br/artigos/atualidades/codigo-florestal-brasileiro/