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22.1.12

Ensaio da amizade



                                                        Ensaio da amizade


Para nos conhecer é necessário ver-nos em um amigo. O amigo é nosso outro eu. Há amigos cujas almas se misturam e se confundem tanto com as nossas, e tanto que, quando nos damos conta não conseguimos encontrar mais a costura que as juntou. A amizade é virtude ou implica em virtude, disse Montaigne. Por vezes certos amigos nos estendem tanto a sua amizade que desafia a moderação, transcende o amor de tal forma que nos parece que esse amor sempre esteve conosco. É tamanha a fusão que por vezes carregam, facilmente, consigo nossas dores, nossos sentimentos de tristeza, nossos temores. E de repente nada mais é seu ou meu. Vontades se misturam, toques reúnen-se, não há mais distinções. Laços diversos atam-nos para sempre e a amizade torna-se união perfeita, sem fissuras, sem brechas, sustentáveis por si só. 

A amizade é mesmo um mistério. 

Como pensar que é possível uma ligação assim, perfeita e completa, quando vivemos num mundo transitório e passageiro, um mundo de movimento e finitude? 

Cabe, nesse mundo coincidência tão absoluta de uma identificação tão plena? 


Cabe. Misteriosamente cabe. Posto que a amizade é o mais belo lugar e meio.

A amizade é uma aliança, uma sociedade que fazemos pura e simplesmente por escolha e vontade própria, onde não rivalizamos, não dispersamos. Buscamos o prazer pelo significativo prazer de ser e ter amigos. 

A semelhança da afinidade, convivência forte das coisas, identidade abençoada pelo Cosmos, torna-nos o princípio e o gênero de todas as espécies quando buscamos o amigo, nosso parente espiritual. O consolidamos como vínculo de sangue e damos qualidade e forma a esse convívio intenso e marcado para sempre em nossas vidas: queremos o amigo por ele mesmo, por ele ser quem é e o que é.

Assim é o amor e a amizade que me une a meu pai. Porque procedendo dele sou o seu outro, o outro ele mesmo. Só por isso pude descobrir quem eu era no dia que perdi meu pai. Ao ve-lo, sem vida entendi quem eu era. Aquele momento foi de mudança e movimento. Percebi a multiplicidade tênue e inconstante da própria vida, no meu espaço e no meu tempo. Percebi a existência a que desejava pra mim. Meu pai, ali naquele intante fora o espelho onde identifiquei-me. 

Nítido me fez acordar de um tempo em que me mantive adormecida. Um tempo que não sei contar porque fora muito tempo. E senti, cruelmente o momento - esse que deparei-me privada do amigo mais caro e mais íntimo. Aquele do laço consaguíneo, aquele da costura sem emendas, transcedente, sem fissuras e brechas, o amigo perfeito e completo. Esse amigo que olhei para nele reconhecer-me. Alcancei minha solda fraterna. Clarificados tornaram-se dali por diante meus conflitos, meus laços, minhas experiências. 

Minha imagem agora sustentava-se, sustenta-se de tal forma que a leveza vive a me rondar, posto que, saber-se torna tudo tão mais original, compreensível e sólido, tal qual a solidez de ter sido forjada dentro do corpo forte de meu pai.

O medo perde a importância, a obediência tem outro valor, o redor que temporariamente me pareceu estranho, retorna familiarmente em seu momento original. 

A cidade que naqueles dias era tão fria e distante, tão cinza, reencontra-se comigo trazendo uma infinita paz com seus coloridos e seus ruídos de amanhecer. Perdi a ingenuidade e me sinto melhor. Entendi que a vida não precisa ser entendida, precisa ser apreciada e aceita. 

Entretanto, ao perceber quem sou, a inquietude terminou; aprendi o que é separação, vida; aprendi que preciso aprender a viver e sobretudo a morrer. Porque agora sei para onde encaminha-se o meu conhecimento, os meus desejos, o meu mistério. Assim, tornei-me diferente para ser exatamente como me sinto, dentro de mim: igual; tornei-me mais tolerante, mais generosa, cuidadosa com a razão e a emoção. 

Vivo um dia por vez, um dia a cada dia, conhecendo o elemento singular do que é viver, existencialmente. 

Hoje, exatamente, dedico boa parte dos meus dias a escrever, para consagrar também a lembrança, a lembrança de um mútuo amor, um amor amigo, em nome desse laço que aponta-me a verdade e a vontade determinada, que aponta-me uma incrível força. 

Força que transporta-me para além de tudo que eu possa dizer e ser. D-P

(Baía, outono 2006)

(image Emília Couto)

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