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11.2.12

Antanas Sutkus



A foto célebre de Sartre, por Antanas Sutkus

“Em julho de 1965, Sartre e Simone de Beauvoir estavam em visita à Lituânia,  patrocinada pelo governo soviético. O casal intelectual mais celebrado de Paris passou algum tempo fazendo turismo, cercado de um grupo admirado de escritores, estudantes e as inevitáveis autoridades de Moscou.

Durante um jantar oficial, Sartre reparou em mim no meio da comitiva. ‘E então’, ele perguntou, presumindo que eu era mais um escritor frustrado esperando por um fragmento de sabedoria, ‘você trabalha com prosa ou poesia?’. ‘Na realidade’, respondi, ‘sou um fotógrafo’. Eu tinha apenas 26 anos à época. Viajamos pela Lituânia por cinco dias.

A foto foi absolutamente espontânea. Ele não prestou atenção ao jovem rapaz com uma câmera. Depois, quando revelei as fotografias e as enviei a ele, ele ficou satisfeito e as usou em diversas publicações.

Sartre teve um profundo impacto em mim, como personalidade. Comunicava-se muito democraticamente comigo. Era inesperado para mim que Sartre, um dos meus gurus, o ganhador do Prêmio Nobel, passasse tantas horas conversando comigo, apenas um rapaz jovem com uma câmera.

Apesar disso, durante todo o tempo em que esteve acompanhado por diversas pessoas, parecia ser alguém solitário. O tempo todo estava ocupado consigo mesmo e seus pensamentos.”





À luz de uma lenda



Mito vivo da fotografia, o lituano Antanas Sutkus, 72, fala da mostra que inaugura em Curitiba e da célebre foto de Sartre

Marília Kodic

Quando tinha 1 ano de idade, seu pai se suicidou depois de sofrer intensa perseguição política. Em seguida, a mãe foi forçada a esconder-se e a criança passou a viver com seus avós. O ambiente político da Lituânia em que Antanas Sutkus cresceu era hostil, e a profissão de fotógrafo foi dificultada pela censura durante décadas.


Apesar disso, hoje, aos 72 anos, ele parece ser a antítese daquele cenário sinistro de sua juventude, algo que transparece em sua filosofia de vida: “Meu credo é amar as pessoas”. Ele é objeto da exposição Antanas Sutkus: um Olhar Livre, que reúne 120 de seus trabalhos no Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba, e fica em cartaz até 20 de maio.


Em entrevista concedida por e-mail à CULT, Sutkus fala sobre sua infância no campo e também de seu ofício – sobretudo retratos em preto e branco de cidadãos lituanos comuns – e da censura que sofreu. Também explica a relação que mantém com cada indivíduo que retrata: “A fotografia é uma forma de penetração na alma humana e uma capacidade de compreendê-la”, diz.


Sutkus também descreve o momento em que fez uma de suas imagens mais conhecidas, a do filósofo Jean-Paul Sartre andando nas dunas de Nida, no sudoeste da Lituânia, em 1965. E explica por que não fotografa mais: “O ambiente social mudou, não posso ver meus heróis”.

CULT – Como o interior da Lituânia o inspirou a começar a fotografar?

Antanas Sutkus – A minha infância foi o meu professor na vida. Nada me influenciou mais do que aquilo que vivi até os meus 16 anos no interior da Lituânia. Cresci e fui educado pelos meus avós, porque a minha mãe teve de se esconder por razões políticas.

Na realidade, os melhores fotógrafos contemporâneos lituanos tiraram suas primeiras fotos no campo. Uma missão muito importante para o fotógrafo é capturar e preservar coisas que vão inevitavelmente desaparecer. Muitas coisas mudaram consideravelmente, e só podemos achar o antigo espírito do povo interiorano nas fotografias. Quando uma era termina, os traços de seu povo também se vão.

Disse ter crescido com seus avós. O que houve com seus pais?

Nasci na aldeia de Kluoniskiai, em Kaunas [segunda maior cidade da Lituânia]. Meu pai trabalhava num pântano; era um livre-pensador e apoiava os esquerdistas. Durante os primeiros cinco anos de ocupação soviética, o novo governo o envolveu em um processo de reestruturação política.

Contudo, ele nunca apoiou os comunistas, e as circunstâncias políticas o levaram a cometer suicídio. Eu tinha 1 ano de idade.

Em 1941, depois que os nazistas ocuparam a Lituânia, minha mãe me deixou com meus avós (ela precisava se esconder, por causa do meu pai). Não falavam comigo sobre meu pai e nunca me disseram por que minha mãe não podia morar conosco.

Nós a víamos ocasionalmente, mas eu sentia muito a falta do meu pai. Um pensamento doloroso me incomodava: se ele tinha se matado, não me amava. De qualquer modo, meus avós eram um alto exemplo da relação entre seres humanos, tolerância e sabedoria. Talvez seja por isso que eu conheça tão bem as pessoas simples e que elas sejam tão próximas a mim.

É por isso que seu trabalho é focado nelas, em detrimento das personalidades destacadas pela propaganda soviética à época?

Sim. No início, eu fotografava os artistas, pessoas famosas, porém depois deixei isso. Comecei a fotografar pessoas normais, camponeses, o povo lituano.

Pessoas famosas muitas vezes usam uma máscara e é difícil tirá-la. E, quando se quer fazer um bom retrato, isso é essencial. Assim, tento fotografar um camponês com o mesmo respeito com que faria se ele fosse um Prêmio Nobel.

Por exemplo, para mim, foi surpreendentemente fácil fotografar Sartre e Simone de Beauvoir.

Como era o contato com as pessoas que fotografava?

Se você tira um retrato de alguém, não é meramente um quadro, é um diálogo. Assim, durante esse contato, eu fotografo. Não gosto da sensação de paparazzi. Logo, as minhas melhores fotografias são de passeantes aleatórios, nas ruas da cidade ou no campo.

Trabalho usando meu subconsciente. Acho que o homem deve ser espiritualmente capaz de poder entrar em contato com outro homem, de enxergar sua alma; afinal, fotografar é um ato espontâneo.

Há um momento decisivo. Sempre estive com a minha câmera e, por isso, muitas vezes vivi esses momentos. Sempre confiei na minha intuição e trabalhei de forma absolutamente espontânea. Eu valorizo a fotografia pela penetração na alma do indivíduo. Meu credo é amar as pessoas.

Por que o senhor não fotografa mais?

Quando nasci, a fotografia celebrava seu 100º aniversário. Fotografei por 50 anos e agora não quero mais. O ambiente social mudou, não posso mais ver meus heróis. Passo a maior parte do tempo com meu arquivo de negativos.

De quando em quando, experimento a alegria de Fausto [personagem de Goethe]. Sou um homem recluso olhando para as fotografias de um tempo passado. Aqueles são os negativos de fotografias que não pude mostrar durante o regime soviético.

O senhor sofreu censura durante o regime soviético?

No campo, eu era livre para fazer o que quisesse. Mas, claro, tinha que ter cuidado com as milícias na cidade. Espaços públicos, exibições e a mídia estavam sob o controle da censura. Era proibido mostrar trabalhos psicológicos e imagens que pudessem perturbar a ordem social. Eram exigidos o otimismo e o patético.

Por exemplo, minha foto O Pioneiro ganhou o Prêmio Michelangelo d’Oro, na Itália, em 1970, e foi publicada na revista Sovetskoje Foto (Fotografia Soviética). Os leitores da publicação reclamaram ao Comitê Central de Moscou, chamando a foto de “mais um Soljenítsin [escritor russo que criticou o sistema de campos de trabalho forçados na União Soviética]”.

Meus colegas de Moscou me defenderam e explicaram que a foto não era perigosa para a sociedade. Depois dessa “avaliação”, parei de publicar meus trabalhos. Mantive tudo em negativos e comecei a revelar somente depois de 1990. Ainda tenho muitos negativos que nunca havia visto antes, aos quais só agora estou dando vida.

E como o restante do mundo via a fotografia lituana?

Em Riga [capital da Letônia, que faz fronteira com o país], não havia censura. Nós mandávamos as fotografias para lá e eles as enviavam às exposições no exterior, aos concursos. Dessa forma, participávamos do mundo fotográfico no exterior.

Quase todos os fotógrafos eram repreendidos por autoridades soviéticas por algum motivo e tínhamos que usar estratégias. Queríamos mostrar que não éramos a União Soviética. Porque, no Ocidente, chamavam os lituanos de russos! E, mesmo agora, por hábito, ainda dizem: “Ah, a Lituânia é Rússia!”.

Além disso, para nós, o importante não era mostrar a “ideologia nacional”. O importante era mostrar a mentalidade nacional.

Algumas de nossas exposições eram permitidas em qualquer lugar e outras da Lituânia]. Certa vez, enviamos nossas fotografias para uma mostra internacional em Praga e elas acabaram no escritório da KGB [serviço secreto da União Soviética], pois as autoridades consideravam que expunham o lado negro da sociedade.

Às vezes, dávamos às exposições um título aparentemente grandioso e positivo a fim de passar pela censura. Mas o que exibíamos de fato poderiam ser coisas totalmente diferentes.

Em sua série de fotografias Pessoas da Lituânia, há uma seção dedicada ao gueto de Kaunas (criado pelos nazistas para conter os judeus lituanos da cidade). Por que decidiu fazer essa homenagem?

Reconsiderei ali o problema do Holocausto, um dos mais dolorosos temas da história mundial. Sempre senti vergonha e culpa em relação ao que aconteceu atrás dos portões do gueto, entre 1941 e 1944. Cerca de 200 mil homens, mulheres, crianças e idosos foram assassinados a tiro ou jogados em campos de extermínio.

Então, em 1988, comecei a fotografar judeus de Kaunas que haviam milagrosamente escapado da morte. Essas pessoas me aceitaram calorosamente.

Acredita que é papel do fotógrafo contribuir para melhorar a vida das pessoas?

Eu gostaria que as pessoas, olhando minhas fotografias, sentissem alguma coisa, que algo movesse suas almas. A fotografia é uma crônica espiritual contemporânea – por exemplo, pelos meus retratos realizados entre os anos de 1960 e 1980, é possível definir o espírito da sociedade daquela época.

Então a fotografia é uma forma de penetração na alma humana e uma capacidade de compreendê-la. Além disso, é muito democrática – é uma grande ponte entre culturas, pois as pessoas são, ao mesmo tempo, muito parecidas e muito distintas. A fotografia permite que se conheçam melhor. E ela fala uma língua universal, não necessita de tradução. Todos a compreendem, do faxineiro ao ministro.

Como vê o uso da tecnologia digital na fotografia?

Qualquer revolução técnica tem seu lado negativo. A fotografia digital é agora acessível a qualquer pessoa, e é possível fotografar o quanto quisermos e realizar impressões a preços acessíveis. Mas, com isso, perdeu- se a individualidade de cada fotógrafo, um não se diferencia do outro.

Há a possibilidade de tirar milhares de fotos sem responsabilidade, e não se pensa no que se faz. Quais são os valores da arte? Talento, individualidade, estilo próprio. Não sei qual será o futuro da fotografia digital. Eu acho que, dentro de cinco, dez anos, os rolos de filme poderão voltar à moda.

Há algo no Brasil que o faria voltar a fotografar?

É a primeira vez que visito seu país. Havia algumas músicas na minha infância sobre o Rio de Janeiro como uma cidade dos sonhos, onde as pessoas dançam, cantam, bebem bebidas exóticas, comem abacaxis e laranjas debaixo de palmeiras e avistam um oceano azul. É uma ideia de que o Rio vive somente no ritmo do Carnaval.

É paradoxal que eu tenha a oportunidade de visitar minha “terra dos sonhos” 60 anos depois, e sem tirar fotos. Contudo, tenho uma câmera comigo e espero recomeçar a tirá-las depois de tanto tempo.

Fonte:  http://revistacult.uol.com.br/home/2012/02/antanas/


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