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25.3.12

Domitila Barrios de Chungara


Homenaje a Domitila Barrios de Chungara 

(Pulacayo,1 Bolivia, 7 de mayo de 19372 - Cochabamba, Bolivia, 13 de marzo de 2012)


DOMITILA....ouvimos.




Revolucionária boliviana lutou contra a doença nos últimos anos




Morreu na quarta-feira (14/3) a revolucionária e feminista boliviana Domitila Barrios de Chungara. Ela estava com 75 anos e lutava contra um câncer de pulmão.

Em setembro de 2010, Caros Amigos publicou a última entrevista da lutadora a um veículo brasileiro. Domitila recebeu a jornalista Fania Rodrigues no hospital de Cochabamba, em Cuba, onde estava internada.

Leia abaixo a íntegra da entrevista feita pela jornalista Fania Rodrigues.



Guerreira da Paz



Por Fania Rodrigues


Uma mulher das minas, dona de casa e com pouca escolaridade desafiou a ditadura militar em seu país na década de 1970, os preconceitos da comunidade internacional e principalmente os seus próprios medos. O ano era 1975, quando a boliviana Domitila Barrios de Chungara, dirigente sindical do Comité de Amas de Casa del Distrito Minero Siglo XXlI, foi enviada à conferência mundial do Ano Internacional das Mulheres, na Cidade do México, com a missão de denunciar os massacres e a violação diária dos Direitos Humanos nas minas da Bolívia. Trouxe a público, por exemplo, o massacre de San Juan, em 1967, quando o ditador René Barrientos ordenou o ataque do exército contra as comunidades mineras de Catavi e Llalagua. Dezenas de trabalhadores foram mortos, e Domitila, que estava grávida, foi presa e torturada até perder seu filho. Seu discurso calou o público elitista da conferência e entrou para a história. A educadora brasileira Moema Viezzer estava presente, entendeu a importância do que ouvia e gravou tudo o que disse a líder sindical boliviana. O depoimento resultou no livro “Si me permiten hablar” que conta um pouco da história e das condições sociais das minas, que enriqueceu tantos países, mas que só deixou miséria e monções de pobreza ao povo boliviano. O livro foi traduzido em todos os idiomas e a trajetória de luta de Domitila Chungara correu o mundo. A coragem e força dessa mulher foi tão grande que, no Natal de 1978, foi a La Paz, com mais quatro mulheres lutar pelos direitos que seus maridos, que, por trabalharem até a exaustão, não tinham tempo nem energia para lutar.

Juntas, essas cinco mulheres e uma penca de filhos, saíram de suas casas dizendo que iriam derrubar a ditadura. Era difícil de acreditar. Foram às ruas e iniciaram uma greve de fome. Um sacerdote se juntou a elas. Mas derrubar uma ditadura ainda faltava muito. No entanto, mais pessoas se juntaram à causa e em pouco tempo tinham mais de 1.500 pessoas. Depois de algumas horas, a notícia correu e os manifestantes pacíficos já eram milhares. 23 dias depois das cinco bravas mulheres começarem a greve de fome, as ruas, as diferentes cidades da Bolívia foram ocupadas por manifestantes. Outro governo militar chegava ao fim.

Mesmo doente, Domitila Chungara aceitou nos receber no hospital cubano de Cochabamba, onde estava internada há mais de 10 dias. Confira agora a entrevista exclusiva concedida pela ex-líder sindical, hoje com 73 anos, já com o corpo cansado e maltratado pela vida, mas com uma mente bastante lúcida e um senso crítico apurado.

Caros Amigos – Pode nos contar um pouco de sua trajetória e como surgiu a idéia de publicar um livro?
Domitila Chungara – Em 1975 foi realizada, no México, a Tribuna del Año Internacional de la Mujer. Essa foi a primeira vez que participamos de uma conferência mundial. Como diziam que era um evento que representava mulheres de diferentes povos pensei que iria encontrar camponesas, donas de casas, mulheres trabalhadoras e pobres. Entretanto, não foi assim. As mulheres presentes eram quase todas com formação acadêmica e completamente diferentes de nós (bolivianas), donas de casa e mulheres das minas. Enviada pelo Sindicato de Mineiros, do qual pertencia, minha tarefa era denunciar o que acontecia nas minas: os salários injustos, as precárias habitações e a insuficiência de alimento para nossos filhos, que quase nunca tomavam leite. Aproveitamos a tribuna para denunciar tudo isso. Mas os organizadores e participantes dessa conferência não estavam interessados em nossos problemas sociais.

Quando chegou minha vez de falar na tribuna todos começaram a gritar dizendo que meu discurso era político e que o que nós estávamos fazendo era nada mais que política. Mas, do que mais poderíamos falar se essa era a nossa realidade? Nesse momento, também percebi que tinha uma mulher gravando tudo o que eu falava, tratava-se de Moema Viezzer. Depois do evento, fui visitar uma comunidade de bolivianos na Cidade do México. Era 6 de agosto, data do nosso aniversário pátrio (Dia da Pátria) e havia uma comemoração. Encontrei-me com Moema novamente nesse dia. Conversamos e depois disso estabeleceu-se então uma amizade. Visitamos alguns bairros bolivianos e Moema seguia gravando. Por fim, ela me disse: “Domitila tudo o que disse aqui é muito lindo. Eu gostaria de fazer um documento e enviar ao seu sindicato para mostrar como foi bem representado.” No entanto, resultou que tudo o que havia gravado, depois de transcrito, totalizou 800 páginas. Então nasceu a idéia de escrever um livro. A embaixada cubana no México se propôs a publicar as 800 páginas na íntegra. Publicamos e ganhamos um prêmio com esse livro. Nessa mesma época a Editora Século XXI nos propôs que fosse reduzido a 200 páginas. Eles queriam publicar o livro em todos os idiomas. Nesse momento (década de 1970), vivíamos uma ditadura militar na Bolívia, não tínhamos liberdade para nada e era preciso contar ao mundo o que se passava no nosso país. Então, decidimos pela proposta da Século XXI. Reduzimos o livro e publicamos.

CA - Essa foi primeira vez que uma mulher das minas, camponesa e de origem indígena foi escutada em uma conferência mundial. Foi difícil quebrar as barreiras e preconceitos?

DC - Para mim, não foi muito difícil, porque tive a ajuda do meu pai. Ele me tirou esse complexo de ser mulher. Sempre me disse que homens e mulheres podem fazer as mesmas coisas. Minha maior dificuldade era falar para o público. Quando não sabemos, temos medo. Mas, no transcorrer da vida, se vai aprendendo e isso vai te dando mais segurança. É um aprendizado diário, tanto dos povos, quando dos dirigentes.

CA - Seus pais de onde eram? Em que trabalhavam?

DC - Meu pai foi camponês, era do município de Toledo, Departamento de Oruro. Ele lutou na Guerra do Chaco, contra o Paraguai. Quando regressou à casa, depois do fim dos conflitos, sua mãe estava morta, suas coisas haviam desaparecido. Então, foi às minas buscar trabalho, fazer dinheiro e voltar a sua região. Mas, nunca pode voltar, porque a promessa de riqueza que faziam os patrões era mentira. Se prometiam pagar 10 bolivianos, depois de estar trabalhando pagavam 5 bolivianos. Então, eram só dívidas. Porque a empresa fornecia os alimentos e 70% do que ganhava um trabalhador era descontado em despesas alimentares. Além disso, os alimentos eram muito pouquinho e de má qualidade. Como nunca sobrava dinheiro para comprar mais comida, os trabalhadores sempre estavam devendo à empresa, e quando havia reclamação ou protestos realizavam os massacres. Desde 1923 que existem massacres contra os trabalhadores das minas, como o de 1942 e o de 1965. Principalmente a Século XX, que era a maior mina da Bolívia, realizou muitos massacres.

CA - Atualmente há minas em funcionamento na Bolívia?

DC - Sim, existem. Mas, são outros setores que estão voltando a abri-las. Hoje há pessoas que trabalham por sua conta, independentes. Mas as empresas como existiam antes estão em ruínas.

CA - Gostaria de mudar um pouco de tema para falar do cenário político na Bolívia. Quais foram as mudanças depois da vitória de Evo Morales, em dezembro de 2005?

DC - Nesse momento, a Bolívia está caminhando em direção às mudanças que tanto buscamos há muitos anos atrás. Alguns falam de 500 anos, outros de 200 anos e há outros que falam de 10 anos. Mas, eu acredito que todas as vezes que lutamos contra as injustiças, os salários injustos, a falta de alimentos corretos, por uma educação para nossos filhos, por saúde, em todas essas lutas, estávamos buscando as mudanças que vemos agora na Bolívia. Pela primeira vez, estão apresentando uma real oportunidade de mudança. Antes, somente os mineiros estavam lutando. Havia nossa central de trabalhadores com quem podíamos fazer muitas coisas, inclusive derrubar ditaduras. Mas depois que entramos no século 21, essa central de trabalhadores quase desapareceu, porque incluíram trabalhadores de todos os setores, não somente das minas. Decretaram que o patrão tem o direito à “livre contratação” de seus trabalhadores (contratos temporários) e, com isso, milhares de operários perderam seus postos de trabalho. Se você andar pelas ruas, seguramente no Brasil acontece o mesmo, vai ver crianças que pedem nas ruas, que não têm família, que dormem debaixo das pontes. Isso foi parido pelo neoliberalismo, porque obrigou os pais de família deixarem o país para procurarem trabalho na Argentina ou em outros lugares. Enquanto isso, a mãe e os filhos ficaram sem casa. Essa foi a pior situação que vivemos na Bolívia. E, ansiávamos por mudança. Com Evo conseguimos, pela primeira vez, unir todos os povos. Foi com a candidatura de Evo que tivemos a oportunidade de dialogar e conhecer os indígenas que sempre escutamos falar.

CA - O governo do presidente Evo Morales sofre algumas críticas por muitas vezes concentrar o poder.

DC - Antes de qualquer coisa, gostaria de destacar a importância desse processo de mudanças. Depois explicar que o MAS (Movimento al Socialismo), ao qual pertence Evo Morales, nasceu há dez anos e não se trata de um partido político, mas sim um movimento. E em um movi- mento entra todo tipo de gente. Porque se fosse um partido e tivesse uma ideologia... esse seria o caminho. Alguns colaboradores (integrantes do MAS) estão fazendo as coisas bem, mas outros só estão tirando proveito da situação (em que o MAS está no poder). Por isso é que eu digo que estou de acordo com o que está fazendo o presidente. Ele tem um caráter bem forte, uma conduta firme. Também tem alguns colaboradores muito bons. Agora, esse é um momento de definição. Por isso, todos, de todos os lados, temos que ajudar. Um exemplo: o governo doa um terreno para que seja construído um galpão para a escola. Contrata-se uma empresa e nunca ninguém vai ver se a construção é de boa qualidade, se os materiais utilizados são adequados e em três meses o galpão está caindo. Então diz: “porque o presidente nos enganou...” Mas eu me pergunto: onde estavam os pais de famílias que não se organizaram e não fiscalizaram quanto e como o cimento foi gasto? Há muita falta de compromisso pessoal. Tem que fiscalizar. Tem que ajudar. Essas são algumas das dificuldades que enfrentamos, por um lado. E, por outro lado, também temos a oposição, que estava com planos de dividir nosso país. Estava trazendo mercenários para fazer uma guerra civil. Esses mercenários que encabeçavam (os conflitos) são pessoas que estiveram na Bósnia (na guerra) e em muitos lugares, atuando nisso. Algumas vezes, já surpreenderam o exército boliviano e houve enfrentamento. Agora, está acontecendo um julgamento e se está descobrindo que todos esses ricachones (o contrario de pobretones – pobretões) estão metidos nesses conflitos.

CA - A senhora está se referindo ao movimento pela independência de Santa Cruz?

DC - Sim. Mas, não somente de Santa Cruz, mas também querem tornar independente os departamentos (equivalente a estado no Brasil) de Sucre, Tarija, Beni e Pando.

CA - Bolívia teve seus territórios roubados de tantas formas e ainda estão tentando dividi-la?

DC - Sim, e a maioria dessas pessoas que pedem independência é estrangeira. O empresário croata (Branko) Marinkovic é uma dessas pessoas interessadas na subdivisão do território boliviano. Ele até cercou uma lagoa para que a população não se aproximasse, como se fosse dono da lagoa. Marinkovic foi acusado pela Fiscalía (promotoria de justiça) boliviana como cúmplice e financiador de uma célula terrorista desmontada em abril de 2009. Segundo a justiça da Bolívia, o croata planejava um atentado contra o presidente Evo Morales.

CA - Como mudar o sistema de poder que sempre teve o domínio das oligarquias políticas?

DC - O melhor que fizemos pelo nosso país foi aprovar a nova Constituição. Se ela for aplicada à Bolívia, há de ser muito melhor. Mas sim, eles ainda têm muito poder e continuam cometendo fraudes. Em Beni, nas últimas eleições, o MAS tinha uma candidata mulher a governadora. E na contagem de votos, quando abriram a urna onde ela tinha votado não havia um único voto para o MAS. Isso nos mostra que estão cometendo fraudes. Isto foi denunciado e estão pedindo anulação das eleições nesse departamento.

CA - Qual seria a solução para acabar com esse tipo de corrupção?

DC - Sabemos que essa briga não é apenas entre os bolivianos. Existe muitos interesses internacionais, como os do Fundo Monetário Internacional, do Banco Mundial, dos países imperialistas e dos ricachones. Espanha sempre levou nosso petróleo praticamente de presente. Considerando que nossos países, tanto Brasil quando Bolívia, são ricos em recursos naturais, então pode-se entender os interesses dessa gente, porque nos países europeus já não há quase nada.

CA - Mudando um pouco de tema. Neste ano a Bolívia comemorou os 10 anos da Guerra da Água, em Cochabamba. Que consequências políticas teve essa luta?

DC - No ano 2000, o governo estava privatizando todos os serviços públicos e entregando nossas riquezas naturais às empresas estrangeiras. No bairro onde vivia, em Cochabamba, não havia água encanada. Eu tinha que comprar da cisterna, que muitas vezes fornecia água suja. Mas a gente não tinha outra opção, então consumíamos daí. Um galão de 20 litros custava mais ou menos quatro bolivianos (o equivalente a R$ 1,14). Um dia recebo um boleto dizendo que estava devendo 70 bolivianos (R$ 20) de água. Quando perguntamos aos vizinhos ficamos sabendo que todos haviam recebido seus boletos e estavam devendo 70, 80 e alguns 100 bolivianos (R$ 30). A gente se perguntava de que água estavam se referindo. Então descemos para a cidade para reclamar e quando chegamos na empresa já havia muita gente fazendo o mesmo. A justificativa que nos deram foi que essa empresa estrangeira necessitava de capital para instalar a rede de água nos bairros. Mas, como a gente podia pagar se não havia uma gota de água? Foi então que começaram os protestos e as mobilizações. Todos os dias haviam pessoas nas ruas reivindicando seus direitos. O governo enviou o exército, houve enfrentamento e mortes. No final, a cidade inteira de Cochabamba mobilizou-se. Também foram enviadas tropas especiais, conhecidas popularmente por “os dálmatas”, devido a seus uniformes de cor branca com manchas negras. Com isso, os conflitos tornaram-se ainda mais violentos. As ruas foram bloqueadas pelos manifestantes e toda a cidade parou. Nos bairros de classe média alta nos jogavam bolsas com água, mas fazia tanto calor que para nós isso já não era um insulto, mas “solidariedade”. Então, esse foi o início de uma nova luta, uma luta de todo o povo. Nossa central de trabalhadores, que estava enfraquecida, ganhou forças novamente depois desse problema da privatização da água. O povo percebeu que podia unir-se, não se importam com as balas e com nada. Depois da Guerra da Água, tivemos a Guerra do Gás, em 2001, dessa vez em La Paz. Foram muitas mobilizações que resultaram na renúncia do presidente da Bolívia.

CA - Em Cochabamba, as pessoas têm a cultura de ir à praça central discutir política, todos os dias. Muita gente sai de seus trabalhos no final do dia e antes de ir para a casa vai à praça ouvir, falar e discutir a política. Vi um povo politizado e organizado. E depois de estar na Bolívia um tempo percebi que nós brasileiros ainda sabemos muito pouco sobre esse país.

DC  - Claro. Todos os povos nos conhecem através das campanhas turísticas. Os turistas adoram tirar fotos de camponês descalço, de uma criança desabrigada e levar para seus países essa imagem estereotipada, mas isso também tem suas consequências. Outro dia, veio ao hospital uma senhora que mora debaixo de uma ponte. Disse que sua filhinha estava mal e um paciente comentou comigo: “Que senhora porca, porque não se limpa?”. Mas ela vive deixo de uma ponte! Não tem casa. Não tem nada! Então só veem o que querem ver. Os turistas não veem as pessoas que constroem a Bolívia, os trabalhadores.

CA - Os problemas sociais tanto na Bolívia quanto em outros países da América do Sul permanecem. Mas algumas coisas começaram a mudar depois de alguns governos de esquerda e progressistas. Como a senhora analisa o cenário político na América do Sul?

DC - Sabemos que a direita não vai querer perder. Vão usar qualquer motivo para voltar ao poder. Aqui em Cochabamba temos canais de televisão. Mas é uma imprensa mentirosa. Eles nunca mostram as coisas boas que está fazendo o governo. Esse é o começo de algo. Sabemos disso. Mas se todos não participarmos desse processo vão nos liquidar. Temos que formar novos quadros políticos, novos dirigentes, para que assim possam responder com responsabilidade.

CA - Na opinião da senhora, faltam novos líderes políticos e novas vozes na América Latina?

DC - Sim, seguramente. Os dirigentes que surgiram na Bolívia foram quase todos assassinados pelas ditaduras. Nós, poucos, que sobrevivemos estamos todos velhos. Agora temos que formar uma nova geração. Temos que formar e capacitar novas pessoas. Eu e meu companheiro temos uma escola de formação política. Uma vez veio um bom grupo. Estávamos muito felizes com esse grupo de jovens. Passamos primeiro o que tem que saber: a história do nosso país, para saber o que aconteceu e como aconteceu. Depois temos que estudar economia, para saber como funciona a questão com o Fundo Monetário Internacional, entre outras coisas. Então quando leram o programa nos disseram: “Essas coisas todas nós sabemos. O que queremos saber é como podemos ser senadores, deputados e como ser alcalde (prefeito).” Mas eu nunca fui senadora, nem deputada, nem alcalde. As pessoas estão vendo a possibilidade de ser um líder político, uma oportunidade de chegar ao poder e ganhar dinheiro. Então falta muito interesse político. Ao MAS também falta muita coisa, como por exemplo, ter um projeto político, um documento. Dizem: “Vamos ao Socialismo”, mas falta dizer como vão ao socialismo. Isso nos faz muita falta.

CA - Como funciona essa escola de formação política, existe há quanto tempo?

DC - Quando saí das minas (1986) queria seguir participando, porque era dirigente sindical. Nessa época, uma pessoa me convidou para ir ao departamento de Tarija para falar na Federação de Camponeses. Depois, surgiram outros convites e me dei conta que as pessoas não conheciam a histórias das minas. Com o tempo, recebemos convites em todo o país. Comecei a falar não apenas da história das minas, mas também a explicar porque na Bolívia, um país tão rico em recursos naturais e minerais, a gente vive tão pobre. Levam nossa matéria prima quase de graça e depois as devolve a nosso país em forma de produtos, bastante caros. Também falava sobre a dívida externa e tantas outras coisas. Depois de explicar tudo isso sempre diziam: “bom, já sabemos que é assim, mas e agora? O que fazemos?” Durante as eleições percebemos que as pessoas necessitavam de capacitação política. Por isso, decidimos criar essa escola e damos cursos a quem esteja interessado em aprender. Inclusive o atual ministro de Justiça nos convidou a dar alguns cursos em várias cidades bolivianas. Agora, temos um pequeno grupo que está estudando. O que nos falta algumas vezes são recursos, porque não recebemos nenhum tipo de ajuda financeira.

CA - Onde funciona essa escola? E quando tempo dura o curso?

DC - A escola funciona na minha casa. E cursos duram até dois anos. Muitas vezes vêm grupos de longe, de 10 ou 15 pessoas, não apenas para estudar, mas também para dormir e cozinhar na minha casa. Nesses casos, damos pequenos cursos de 15 dias e selecionamos os conteúdos principais, mas é muito resumido. Para um curso de formação política é necessário mais tempo. Não cobramos nada dos alunos, mas tem que trazer para comer, porque não podemos oferecer.

CA - As escolas públicas não ensinam política, nem em Bolívia, nem no Brasil. A senhora acha que as crianças poderiam ter formação política?

DC - Claro que sim. O ser humano assim como deve aprender a ler e escrever também tem que aprender “Nós, poucos, que sobrevivemos estamos todos velhos. Agora temos que formar uma nova geração.” Todos nós, desde que nascemos, somos seres políticos, mas muita gente não se dá conta.

CA - Agora, na Bolívia, o governo está exigindo que os funcionários públicos estudem pelo menos um dos idiomas indígenas oficiais do país.

DC - Isso é muito importante. Imagine a situação dos indígenas camponeses que vem do campo, que não sabem falar uma palavra de castelhano e não o atendem. Por mais que o funcionário tenha boa vontade, não entende o que esses indígenas camponeses falam. Esse é um grande avanço, porque as escolas estão ensinado inglês e francês, mas quando vamos praticar o inglês e o francês? Deveríamos estar estudando Quéchua e Aymara (as duas línguas indígenas mais faladas na Bolívia).

CA - A senhora acredita que isso também passa por uma questão da legitimação da identidade cultural desse povo? Muita gente tem vergonha de falar os idiomas originários e muitos bolivianos ainda acreditam que as pessoas falam espanhol são melhores que essas que ainda conservam seus idiomas originários. Os meios de comunicação o que te dizem?

DC - Essa é uma informação que recebemos diariamente. Quando trabalhava nas minas todos os dias a gente assistia um filme. A gente terminada de jantar e ia para o cinema. E o que nos mostra esses filmes? As melhores pessoas, os heróis eram os gringos, os norte-americanos. O mal, o maldito e o drogadinho sempre tinha nossa cara. Era gordo, bigodudo, cabelo negro. Então você no espelho e sua cara não é igual a do jovem ou da garota do filme. Mas sim a cara do bandido ou da bandida. Então, a gente começa a ter vergonha da gente mesmo. No nosso acampamento de mineiros a gente fez uma análise sobre isso. Nossos filhos começaram a pintar os cabelos, a querer mudar as cores dos olhos e se o mocinho tinha cabeça raspada queriam raspar também, se as calças eram mais largas queriam imitar. Começam a negar suas origens indígenas, porque sempre estão fazendo com que tenhamos vergonha disso. Você viu esse filme dos norte-americanos chamado Avatar?

Ca - Sim.

DC - Bem, o que você achou?

CA - Li muitas críticas que diziam que era filme que está na contramão dos interesses do império capitalista. Mas, na película o herói, o de coração bom e forte é o norte- americano. Isso não mudou.

DC - Claro, querem que pensemos que está na contramão do império. Mas no filme quem vai salvar os indígenas do império? Não são os verdadeiros avatares, mas o herói norte-americano. Então continuam nos discriminando, nos subestimando. Esse filme para mim é discriminatório e soberbo. Porque o povo da floresta poderia ter se organizado e lutado. Entretanto, nos mostra que sem o gringo não poderiam ter ganhado a guerra. No entanto, acredito que há um novo despertar. Claro que algumas pessoas ainda não têm muito claro quem é o verdadeiro inimigo e pensa que o inimigo é o trabalhador. Mas temos que deixar claro. Onde está o inimigo principal?

CA - Na opinião da senhora, hoje, qual é o principal inimigo do povo boliviano?

DC - É o que chamamos de meia-lua. Essa é nossa principal inimiga.

CA - O que é a meia-lua?

DC - São essas pessoas que estão organizadas para se- parar nosso país. Sempre estiveram divididos. Eles são os patrões, o “terratenetes”, grandes milioná- rios, que estão claramente separados daqueles que não tem nada. Agora eles querem ficar com as me- lhores zonas, de clima tropical, onde tem bastan- te vegetação e água. Tiraram as terras dos guara- nis e da maioria dos povos indígenas dessa região. Para finalizar, gostaria de deixar alguma mensagem? Agora estamos discutindo o problema de como salvar a nossa Madre Tierra (Mãe Terra). Salvar o meio ambiente da contaminação. As águas potá- veis estão desaparecendo. E, isso é conseqüência desse sistema que tem desgastado tanto as matérias primas. A Terra está morrendo e os autores desses crimes não querem assumir suas responsabilidades, por isso a Cumbre sobre los Câmbios Climáticos y los Derechos de la Mãe Tierra foi muito importan- te. Porque a Terra não tem dono, ela é de todos. Eu me pergunto: seria tão tonto o ser humano que em vez de preservar a terra para produzir alimen- tos para seus filhos e netos, por algumas notas de dólar, esse papel sujo, estão tratando de fazer mais e mais riquezas? Afinal, para que vai servir os dó- lares quando não houver mais alimentos? Temos que adotar medidas, porque não se trata apenas de salvar os “pobrezinhos do terceiro mundo”, mas de salvar toda a Humanidade, inclusive os filhos e ne- tos desses burgueses que não querem entender que estão matando nossa Pachamama (Mãe Terra, nos idiomas Quéchua e Aymara).


Reflexões de Fidel: Os caminhos que conduzem ao desastre



Fidel Castro Ruz  21 de março de 2012, 19h35



ESTA Reflexão poderá ser escrita hoje, amanhã ou qualquer outro dia sem risco de equívoco. Nossa espécie se defronta com problemas novos. Quando expressei há 20 anos, na Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento, no Rio de Janeiro, que uma espécie estava em perigo de extinção, tinha menos razões do que hoje para advertir sobre um perigo que via talvez à distância de 100 anos.

Então uns poucos líderes dos países mais poderosos dirigiam o mundo. Aplaudiram por mera cortesia minhas palavras e continuaram placidamente cavando a sepultura de nossa espécie.

Parecia que em nosso planeta reinava o senso comum e a ordem. Há tempos que o desenvolvimento econômico apoiado pela tecnologia e a ciência parecia ser o Alfa e o Ômega da sociedade humana.

Agora tudo está muito mais claro. Verdades profundas foram abrindo caminho. Quase 200 Estados, supostamente independentes, constituem a organização política à qual teoricamente corresponde a tarefa de reger os destinos do mundo.

Cerca de 25 mil armas nucleares em mãos de forças aliadas ou antagônicas dispostas a defender a ordem em mutação, por interesse ou por necessidade, reduzem virtualmente a zero os direitos de bilhões de pessoas.

Não cometerei a ingenuidade de atribuir à Rússia ou à China a responsabilidade pelo desenvolvimento desse tipo de armas, depois da monstruosa matança de Hiroshima e Nagasaki, ordenada por Truman, após a morte de Roosevelt.

Tampouco cairia no erro de negar o holocausto que significou a morte de milhões de crianças e adultos, homens e mulheres, principalmente judeus, ciganos, russos e de outras nacionalidades, que foram vítimas do nazismo. Por isso, repugna a política infame dos que negam ao povo palestino seu direito a existir.

Alguém pensa por acaso que os Estados Unidos serão capazes de atuarem com a independência que o preserve do desastre inevitável que os espera?

Em poucas semanas os US$ 40 milhões que o presidente Obama prometeu arrecadar para sua campanha eleitoral só servirão para demonstrar que a moeda de seu país está muito desvalorizada e que os Estados Unidos, con sua insólita e crescente dívida pública que se aproxima dos US$ 20 trilhões, vivem do dinheiro que imprimem e não do que produzem. O resto do mundo paga o que eles dilapidam.

Ninguém crê tampouco que o candidato democrata seja melhor ou pior que seus adversários republicanos: chame-se Mitt Romney ou Rick Santorum. Anos-luz separam os três de personagens tão relevantes como Abraham Lincoln ou Martin Luther King. É realmente inusitado observar uma nação tão poderosa tecnologicamente e um governo ao mesmo tempo tão órfão de ideias e valores morais.

O Irã não possui armas nucleares. Acusa-se o país de produzir urânio enriquecido que serve como combustível energético ou componente de uso médico. Queira-se ou não, sua posse ou produção não é equivalente à produção de armas nucleares. Dezenas de países utilizam o urânio enriquecido como fonte de energia, mas este não pode ser empregado na confecção de uma arma nuclear sem um processo prévio e complexo de purificação.

Contudo, Israel, que com a ajuda e a cooperação dos Estados Unidos fabricou o armamento nuclear sem informar nem prestar contas a ninguém, até hoje sem reconhecer a posse destas armas, dispõe de centenas delas. Para impedir o desenvolvimento das pesquisas em países árabes vizinhos, atacou e destruiu os reatores do Iraque e da Síria. E declarou o propósito de atacar e destruir os centros de produção de combustível nuclear do Irã.

Em torno desse crucial tema tem girado a política internacional nessa complexa e perigosa região do mundo, onde se produz e fornece a maior parte do combustível que move a economia mundial.

A eliminação seletiva dos cientistas mais eminentes do Irã, por parte de Israel e de seus aliados da Otan, se converteu em uma prática que estimula os ódios e os sentimentos de vingança.

O governo de Israel declarou abertamente seu propósito de atacar a usina produtora de urânio enriquecido no Irã, e o governo dos Estados Unidos investiu centenas de milhões de dólares na fabricação de uma bomba com esse propósito.

Em 16 de março de 2012 Michel Chossudovsky e Finian Cunningham publicaram um artigo revelando que "um importante general da Força Aérea dos EUA descreveu a maior bomba convencional – a antibunkers de 13,6 toneladas – como ‘grandiosa’ para um ataque militar contra o Irã".

"Um comentário tão loquaz sobre um artefato assassino em massa teve lugar na mesma semana na qual o presidente Barack Obama se apresentou para advertir contra a ‘fala leviana’ sobre uma guerra no Golfo Pérsico."

"…Herbert Carlisle, vice-chefe do Estado Maior para operações da Força Aérea dos EUA. [...] agregou que provavelmente a bomba seria utilizada em qualquer ataque contra o Irã ordenado por Washington."

"O MOP, ao qual também se referem como ‘a mãe de todas as bombas’, está projetado para perfurar através de 60 metros de concreto antes de detonar sua bomba. Acredita-se que é a maior arma convencional, não nuclear, no arsenal estadunidense."

"O Pentágono planifica um processo de ampla destruição da infraestrutura do Irã e massivas vítimas civis mediante o uso combinado de bombas nucleares táticas e monstruosas bombas convencionais com nuvens em forma de cogumelo, incluídas a MOAB e a maior GBU-57A/B ou Massive Ordenance Penetrator (MOP), que excede a MOAB em capacidade de destruição."

"A MOP é descrita como ‘uma poderosa nova bomba que aponta diretamente para as instalações nucleares subterrâneas do Irã e Coreia do Norte. A imensa bomba – maior do que que 11 pessoas colocadas ombro a ombro, ou mais de 6 metros desde a base até a ponta."

Peço ao leitor que me desculpe por esta complicada linguagem do jargão militar.

Como se pode verificar, tais cálculos partem do pressuposto de que os combatentes iranianos, que totalizam milhões de homens e mulheres conhecidos por seu fervor religioso e suas tradições de luta, se renderão sem disparar um só tiro.

Em dias recentes os iranianos viram como os soldados dos Estados Unidos que ocupam o Afeganistão, em apenas três semanas, urinaram sobre os cadáveres de afegãos assassinados, queimaram os livros do Corão e assassinaram mais de 15 cidadãos indefesos.

Imaginemos as forças dos Estados Unidos lançando monstruosas bombas sobre instituições industriais capazes de penetrar 60 metros de concreto. Jamais semelhante aventura tinha sido concebida.

Não é preciso uma palavra mais para compreender a gravidade de semelhante política. Por esse caminho nossa espécie será conduzida inexoravelmente para o desastre. Se não aprendemos a compreender, não aprenderemos jamais a sobreviver.

De minha parte, não abrigo a menor dúvida de que os Estados Unidos estão a ponto de cometer e conduzir o mundo ao maior erro de sua história.

 http://www.patrialatina.com.br/editorias.php?idprog=97f832f6f334d64de3e89769806e56b8&cod=9521

17.3.12

O Cinema de Tarkovski




As iluminações de Tarkovski



Antonio Gonçalves Filho - O Estado de S.Paulo

Diário do cineasta russo (1932-1986) e o roteiro de sua última produção, 'O Sacrifício', abrem a coleção de textos do gênio que enfrentou a burocracia da URSS e era obcecado pela morte

A lista de realizações do cineasta russo Andrei Tarkovski (1932- 1986) seria com certeza mais longa se o câncer e o boicote do Estado soviético não tivessem interrompido a carreira do premiado diretor de O Sacrifício (1986). Ele teria, por exemplo, feito um filme sobre a vida de Dostoievski, adaptado seus livros O Idiota e Crime e Castigo, transformado Hamlet e, ainda dado sua versão de A Morte de Ivan Ilitch, de Tolstoi, José e Seus Irmãos, de Thomas Mann, A Peste, de Albert Camus, e O Lobo da Estepe, de Hermann Hesse, entre outros projetos não filmados, dos quais três roteiros inéditos serão lançados pela É Realizações. A editora acaba de firmar acordo com o Institut International Andrei Tarkovski, dirigido pelo filho do cineasta, que tem o mesmo nome do pai, para lançar, além desses inéditos, quase todos os roteiros filmados pelo cineasta - a exceção é Andrei Roublev, de 1966, já publicado pela Editora Martins/Martins Fontes - e mais o Diário que ele manteve entre 30 de abril de 1970 e 15 de dezembro de 1986, duas semanas antes de morrer.

O Diário e o roteiro de O Sacrifício, último filme do diretor - ambos ilustrados com fotos -, serão os primeiros livros da série dedicada a Tarkovski, que faria 80 anos em abril. O lançamento de ambos está previsto para outubro. Os outros roteiros foram agrupados em quatro volumes e devem sair em 2013. No primeiro estarão o do média-metragem de estreia do cineasta (O Violinista e o Rolo Compressor, 1960) e seu primeiro longa (A Infância de Ivan, 1962). O segundo volume vai trazer os roteiros de Solaris (1972) e O Espelho (1974). O terceiro reunirá Stalker (1979) e Nostalgia (1983). Finalmente, o quarto volume será dedicado aos roteiros não filmados: o faroeste Sardor, a ficção Le Vent Clair (baseado em Ariel, romance do russo Alexandre Beliaev sobre um garoto capaz de voar sem asas) e Hoffmanniana (sobre o imaginário do escritor e compositor romântico alemão E.T.A. Hoffmann, que, à beira da morte, vê o fantasma de Gluck e conversa com os personagens da ópera Don Giovanni, de Mozart).

A lista de seus filmes irrealizados é extensa. Mais longa ainda é a lista de reclamações de Tarkovski, em seu Diário, contra os burocratas da extinta URSS. O cineasta os acusa das piores estratégias para impedir a produção de seus filmes, hoje considerados obras-primas pela crítica internacional. O Diário é um muro das lamentações contra o desprezo com que foi tratado pelos diretores das instituições oficiais soviéticas - seus filmes eram invariavelmente lançados na surdina, sem cartazes e em salas de pouca importância, apesar dos prêmios conquistados no estrangeiro. Além disso, Tarkovski vivia modestamente e dependeu da bondade dos amigos para morar na Itália e na França (na fase terminal, durante o tratamento quimioterápico), sendo ainda obrigado a suplicar a intervenção de presidentes (Mitterrand e até Reagan) para obter vistos de saída da URSS e trazer o filho Andrei e a sogra para o Ocidente.

Não surpreende que o cineasta mostrasse interesse pela vida de Hoffmann a ponto de escrever um roteiro sobre ele. Os dois tinham em comum uma história de exílio, brigas com autoridades, obsessão pela morte e falta de dinheiro crônica - o escritor alemão vivia pedindo empréstimos a amigos, passou fome e a filha morreu durante a ocupação de Berlim pelas tropas napoleônicas. No entanto, o roteiro do filme Hoffmanniana não trafega pelo mundo real do escritor e compositor, embora toque em dois aspectos importantes para entender o universo macabro do autor: seus delírios de alcoólatra e a agitada vida sexual que o tornou sifilítico, levando-o à morte aos 46 anos.

Um personagem assim “lunático” como Hoffmann, criado num lar disfuncional, não poderia mesmo interessar ao Goskino (o comitê estatal que aprovava as produções de cinema entre 1963 e 1991, quando foi extinto com a URSS). Tarkovski amarga a decepção de uma carta recebida do comitê, de 1976, justificando a recusa de seu roteiro: ele não teria sido “bem-sucedido” no projeto. Má-fé e ausência de crítica andavam juntas no Goskino.

Hoffmanniana não é um roteiro genial como o de Andrei Roublev, que Tarkovski assinou com Konchalovski, ou de Solaris, parceria com Friederich Gorenstein, mas é fascinante, não só por Hoffmann ser o epítome das contradições do romantismo alemão como por sintetizar o eterno conflito dos artistas com autoridades estatais, que ele e Tarkovski involuntariamente encarnaram.

Sob a forma de collage, o cineasta relembra episódios da vida do escritor e localiza a ação em seu leito de morte, recorrendo à paráfrase hoffmanniana em sua fantasia sobre o mundo imaginário dos artistas. Nele, é possível conversar com personagens de óperas - como faz Hoffmann com Donna Anna, a filha do comendador seduzida em Don Giovanni - e até mesmo confundir Henriette Vogel, a amante suicida de Kleist, com a própria paixão extraconjugal, sua aluna Julia Mark, para concluir que é melhor ser feliz depois de morto do que infeliz nesta vida. Tarkovski busca num poema de Novalis a explicação para crença tão radical: “Para os amantes, a morte é uma noite de núpcias”.

Tarkovski sonhou repetidas vezes que estava morto, contemplava seu cadáver e ressuscitava. Seguia nesse mundo onírico o princípio condutor da vida do pai, o poeta Arseni Tarkovski (são dele os poemas de O Espelho). Para Arseni, não havia distinção entre os vivos e os mortos - o que explica a interação entre ambos na ficção Solaris. Tanto que O Sacrifício deveria se chamar O Eterno Retorno, mas, um dia depois do início das filmagens (em 1983), ele já havia desistido do título por considerar que Nietzsche não servia ao propósito do filme. Segundo ele, O Sacrifício deveria mostrar a existência de um outro mundo, miraculoso, além deste, e não abolir - como fez Zaratustra, o profeta de Nietzsche - a doutrina dos dois princípios morais do bem e do mal. Tarkovski diz, em seu Diário, que a Criação é a certeza - ainda que uma certeza que admite os erros que a acompanham, porém nunca a mentira. A arte, assim, defende ele, não operaria por meio da verdade, “mas pela imagem da verdade”.

Já na primeira anotação do Diário, feita em 1970, ano em que nasceu seu filho Andrei, Tarkovski diz que o homem que não aspira à grandeza da alma é “menos que nada, qualquer coisa como um rato”. A religião, conclui, é a única porta aberta pela criatura para o Todo-Poderoso - Deus é definido por Tarkovski conforme a filosofia taoista, do chinês Lao-tsé, ou seja, como o insondável, o invisível, aquele que está além do entendimento humano. Ele tanto acreditava na religião, na arte e na filosofia como os três pilares de sustentação do mundo que o Comitê Central do Partido Comunista da URSS exigiu mudanças em Andrei Roublev, cujo roteiro, aliás, ele quase perdeu num táxi (por milagre, o motorista o reencontrou na rua e lhe devolveu o manuscrito pela janela do carro).

“Deus, como é difícil trabalhar com a Mosfilm”, escreve, em 1971, reclamando das intervenções da produtora estatal no filme sobre o célebre pintor de ícones do século 15 - as autoridades soviéticas certamente não gostaram de se ver retratadas como tártaros invadindo com seus cavalos uma catedral em Andrei Roublev. “Como a vida é triste, como invejo aqueles que podem trabalhar sem o controle do Estado”, escreveria dois anos depois, quando Solaris estreou sem muita divulgação em Moscou. No ano seguinte, 1974, foi a vez de Tarkovski interceder em nome do amigo cineasta Paradjanov (A Cor da Romã) para que o Comitê Central do PC da Ucrânia o libertasse da prisão e o deixasse filmar. Sem sucesso. O comitê respondeu que Paradjanov era um criminoso (acusado de roubar ícones). Sete anos depois, em 1981, o mesmo comitê proibiu Stalker para estudantes, alegando se tratar de um filme “pernicioso” para a juventude.

As últimas palavras do Diário de Tarkovski são para Hamlet. Ele, que dirigiu uma montagem heterodoxa da peça (nela, todos ressuscitavam no final), queria tanto filmar a obra de Shakespeare como a vida de Santo Antonio - o cineasta se identificava com ele por não encontrar a harmonia dentro de si, mas, ainda assim, ouvir a beleza nascendo do universo a cada aurora, a cada raio de luz do outono. Os grandes do cinema são, segundo Tarkovski, como esses santos, capazes de dizer não ao mundo. Mas são poucos aqueles que não têm medo, o pior inimigo de um cineasta. Seu diretor preferido, o francês Robert Bresson, segundo o Diário, era um deles.

http://www.estadao.com.br/noticias/arteelazer,as-iluminacoes-de-tarkovski,849403,0.htm