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25.3.12

DOMITILA....ouvimos.




Revolucionária boliviana lutou contra a doença nos últimos anos




Morreu na quarta-feira (14/3) a revolucionária e feminista boliviana Domitila Barrios de Chungara. Ela estava com 75 anos e lutava contra um câncer de pulmão.

Em setembro de 2010, Caros Amigos publicou a última entrevista da lutadora a um veículo brasileiro. Domitila recebeu a jornalista Fania Rodrigues no hospital de Cochabamba, em Cuba, onde estava internada.

Leia abaixo a íntegra da entrevista feita pela jornalista Fania Rodrigues.



Guerreira da Paz



Por Fania Rodrigues


Uma mulher das minas, dona de casa e com pouca escolaridade desafiou a ditadura militar em seu país na década de 1970, os preconceitos da comunidade internacional e principalmente os seus próprios medos. O ano era 1975, quando a boliviana Domitila Barrios de Chungara, dirigente sindical do Comité de Amas de Casa del Distrito Minero Siglo XXlI, foi enviada à conferência mundial do Ano Internacional das Mulheres, na Cidade do México, com a missão de denunciar os massacres e a violação diária dos Direitos Humanos nas minas da Bolívia. Trouxe a público, por exemplo, o massacre de San Juan, em 1967, quando o ditador René Barrientos ordenou o ataque do exército contra as comunidades mineras de Catavi e Llalagua. Dezenas de trabalhadores foram mortos, e Domitila, que estava grávida, foi presa e torturada até perder seu filho. Seu discurso calou o público elitista da conferência e entrou para a história. A educadora brasileira Moema Viezzer estava presente, entendeu a importância do que ouvia e gravou tudo o que disse a líder sindical boliviana. O depoimento resultou no livro “Si me permiten hablar” que conta um pouco da história e das condições sociais das minas, que enriqueceu tantos países, mas que só deixou miséria e monções de pobreza ao povo boliviano. O livro foi traduzido em todos os idiomas e a trajetória de luta de Domitila Chungara correu o mundo. A coragem e força dessa mulher foi tão grande que, no Natal de 1978, foi a La Paz, com mais quatro mulheres lutar pelos direitos que seus maridos, que, por trabalharem até a exaustão, não tinham tempo nem energia para lutar.

Juntas, essas cinco mulheres e uma penca de filhos, saíram de suas casas dizendo que iriam derrubar a ditadura. Era difícil de acreditar. Foram às ruas e iniciaram uma greve de fome. Um sacerdote se juntou a elas. Mas derrubar uma ditadura ainda faltava muito. No entanto, mais pessoas se juntaram à causa e em pouco tempo tinham mais de 1.500 pessoas. Depois de algumas horas, a notícia correu e os manifestantes pacíficos já eram milhares. 23 dias depois das cinco bravas mulheres começarem a greve de fome, as ruas, as diferentes cidades da Bolívia foram ocupadas por manifestantes. Outro governo militar chegava ao fim.

Mesmo doente, Domitila Chungara aceitou nos receber no hospital cubano de Cochabamba, onde estava internada há mais de 10 dias. Confira agora a entrevista exclusiva concedida pela ex-líder sindical, hoje com 73 anos, já com o corpo cansado e maltratado pela vida, mas com uma mente bastante lúcida e um senso crítico apurado.

Caros Amigos – Pode nos contar um pouco de sua trajetória e como surgiu a idéia de publicar um livro?
Domitila Chungara – Em 1975 foi realizada, no México, a Tribuna del Año Internacional de la Mujer. Essa foi a primeira vez que participamos de uma conferência mundial. Como diziam que era um evento que representava mulheres de diferentes povos pensei que iria encontrar camponesas, donas de casas, mulheres trabalhadoras e pobres. Entretanto, não foi assim. As mulheres presentes eram quase todas com formação acadêmica e completamente diferentes de nós (bolivianas), donas de casa e mulheres das minas. Enviada pelo Sindicato de Mineiros, do qual pertencia, minha tarefa era denunciar o que acontecia nas minas: os salários injustos, as precárias habitações e a insuficiência de alimento para nossos filhos, que quase nunca tomavam leite. Aproveitamos a tribuna para denunciar tudo isso. Mas os organizadores e participantes dessa conferência não estavam interessados em nossos problemas sociais.

Quando chegou minha vez de falar na tribuna todos começaram a gritar dizendo que meu discurso era político e que o que nós estávamos fazendo era nada mais que política. Mas, do que mais poderíamos falar se essa era a nossa realidade? Nesse momento, também percebi que tinha uma mulher gravando tudo o que eu falava, tratava-se de Moema Viezzer. Depois do evento, fui visitar uma comunidade de bolivianos na Cidade do México. Era 6 de agosto, data do nosso aniversário pátrio (Dia da Pátria) e havia uma comemoração. Encontrei-me com Moema novamente nesse dia. Conversamos e depois disso estabeleceu-se então uma amizade. Visitamos alguns bairros bolivianos e Moema seguia gravando. Por fim, ela me disse: “Domitila tudo o que disse aqui é muito lindo. Eu gostaria de fazer um documento e enviar ao seu sindicato para mostrar como foi bem representado.” No entanto, resultou que tudo o que havia gravado, depois de transcrito, totalizou 800 páginas. Então nasceu a idéia de escrever um livro. A embaixada cubana no México se propôs a publicar as 800 páginas na íntegra. Publicamos e ganhamos um prêmio com esse livro. Nessa mesma época a Editora Século XXI nos propôs que fosse reduzido a 200 páginas. Eles queriam publicar o livro em todos os idiomas. Nesse momento (década de 1970), vivíamos uma ditadura militar na Bolívia, não tínhamos liberdade para nada e era preciso contar ao mundo o que se passava no nosso país. Então, decidimos pela proposta da Século XXI. Reduzimos o livro e publicamos.

CA - Essa foi primeira vez que uma mulher das minas, camponesa e de origem indígena foi escutada em uma conferência mundial. Foi difícil quebrar as barreiras e preconceitos?

DC - Para mim, não foi muito difícil, porque tive a ajuda do meu pai. Ele me tirou esse complexo de ser mulher. Sempre me disse que homens e mulheres podem fazer as mesmas coisas. Minha maior dificuldade era falar para o público. Quando não sabemos, temos medo. Mas, no transcorrer da vida, se vai aprendendo e isso vai te dando mais segurança. É um aprendizado diário, tanto dos povos, quando dos dirigentes.

CA - Seus pais de onde eram? Em que trabalhavam?

DC - Meu pai foi camponês, era do município de Toledo, Departamento de Oruro. Ele lutou na Guerra do Chaco, contra o Paraguai. Quando regressou à casa, depois do fim dos conflitos, sua mãe estava morta, suas coisas haviam desaparecido. Então, foi às minas buscar trabalho, fazer dinheiro e voltar a sua região. Mas, nunca pode voltar, porque a promessa de riqueza que faziam os patrões era mentira. Se prometiam pagar 10 bolivianos, depois de estar trabalhando pagavam 5 bolivianos. Então, eram só dívidas. Porque a empresa fornecia os alimentos e 70% do que ganhava um trabalhador era descontado em despesas alimentares. Além disso, os alimentos eram muito pouquinho e de má qualidade. Como nunca sobrava dinheiro para comprar mais comida, os trabalhadores sempre estavam devendo à empresa, e quando havia reclamação ou protestos realizavam os massacres. Desde 1923 que existem massacres contra os trabalhadores das minas, como o de 1942 e o de 1965. Principalmente a Século XX, que era a maior mina da Bolívia, realizou muitos massacres.

CA - Atualmente há minas em funcionamento na Bolívia?

DC - Sim, existem. Mas, são outros setores que estão voltando a abri-las. Hoje há pessoas que trabalham por sua conta, independentes. Mas as empresas como existiam antes estão em ruínas.

CA - Gostaria de mudar um pouco de tema para falar do cenário político na Bolívia. Quais foram as mudanças depois da vitória de Evo Morales, em dezembro de 2005?

DC - Nesse momento, a Bolívia está caminhando em direção às mudanças que tanto buscamos há muitos anos atrás. Alguns falam de 500 anos, outros de 200 anos e há outros que falam de 10 anos. Mas, eu acredito que todas as vezes que lutamos contra as injustiças, os salários injustos, a falta de alimentos corretos, por uma educação para nossos filhos, por saúde, em todas essas lutas, estávamos buscando as mudanças que vemos agora na Bolívia. Pela primeira vez, estão apresentando uma real oportunidade de mudança. Antes, somente os mineiros estavam lutando. Havia nossa central de trabalhadores com quem podíamos fazer muitas coisas, inclusive derrubar ditaduras. Mas depois que entramos no século 21, essa central de trabalhadores quase desapareceu, porque incluíram trabalhadores de todos os setores, não somente das minas. Decretaram que o patrão tem o direito à “livre contratação” de seus trabalhadores (contratos temporários) e, com isso, milhares de operários perderam seus postos de trabalho. Se você andar pelas ruas, seguramente no Brasil acontece o mesmo, vai ver crianças que pedem nas ruas, que não têm família, que dormem debaixo das pontes. Isso foi parido pelo neoliberalismo, porque obrigou os pais de família deixarem o país para procurarem trabalho na Argentina ou em outros lugares. Enquanto isso, a mãe e os filhos ficaram sem casa. Essa foi a pior situação que vivemos na Bolívia. E, ansiávamos por mudança. Com Evo conseguimos, pela primeira vez, unir todos os povos. Foi com a candidatura de Evo que tivemos a oportunidade de dialogar e conhecer os indígenas que sempre escutamos falar.

CA - O governo do presidente Evo Morales sofre algumas críticas por muitas vezes concentrar o poder.

DC - Antes de qualquer coisa, gostaria de destacar a importância desse processo de mudanças. Depois explicar que o MAS (Movimento al Socialismo), ao qual pertence Evo Morales, nasceu há dez anos e não se trata de um partido político, mas sim um movimento. E em um movi- mento entra todo tipo de gente. Porque se fosse um partido e tivesse uma ideologia... esse seria o caminho. Alguns colaboradores (integrantes do MAS) estão fazendo as coisas bem, mas outros só estão tirando proveito da situação (em que o MAS está no poder). Por isso é que eu digo que estou de acordo com o que está fazendo o presidente. Ele tem um caráter bem forte, uma conduta firme. Também tem alguns colaboradores muito bons. Agora, esse é um momento de definição. Por isso, todos, de todos os lados, temos que ajudar. Um exemplo: o governo doa um terreno para que seja construído um galpão para a escola. Contrata-se uma empresa e nunca ninguém vai ver se a construção é de boa qualidade, se os materiais utilizados são adequados e em três meses o galpão está caindo. Então diz: “porque o presidente nos enganou...” Mas eu me pergunto: onde estavam os pais de famílias que não se organizaram e não fiscalizaram quanto e como o cimento foi gasto? Há muita falta de compromisso pessoal. Tem que fiscalizar. Tem que ajudar. Essas são algumas das dificuldades que enfrentamos, por um lado. E, por outro lado, também temos a oposição, que estava com planos de dividir nosso país. Estava trazendo mercenários para fazer uma guerra civil. Esses mercenários que encabeçavam (os conflitos) são pessoas que estiveram na Bósnia (na guerra) e em muitos lugares, atuando nisso. Algumas vezes, já surpreenderam o exército boliviano e houve enfrentamento. Agora, está acontecendo um julgamento e se está descobrindo que todos esses ricachones (o contrario de pobretones – pobretões) estão metidos nesses conflitos.

CA - A senhora está se referindo ao movimento pela independência de Santa Cruz?

DC - Sim. Mas, não somente de Santa Cruz, mas também querem tornar independente os departamentos (equivalente a estado no Brasil) de Sucre, Tarija, Beni e Pando.

CA - Bolívia teve seus territórios roubados de tantas formas e ainda estão tentando dividi-la?

DC - Sim, e a maioria dessas pessoas que pedem independência é estrangeira. O empresário croata (Branko) Marinkovic é uma dessas pessoas interessadas na subdivisão do território boliviano. Ele até cercou uma lagoa para que a população não se aproximasse, como se fosse dono da lagoa. Marinkovic foi acusado pela Fiscalía (promotoria de justiça) boliviana como cúmplice e financiador de uma célula terrorista desmontada em abril de 2009. Segundo a justiça da Bolívia, o croata planejava um atentado contra o presidente Evo Morales.

CA - Como mudar o sistema de poder que sempre teve o domínio das oligarquias políticas?

DC - O melhor que fizemos pelo nosso país foi aprovar a nova Constituição. Se ela for aplicada à Bolívia, há de ser muito melhor. Mas sim, eles ainda têm muito poder e continuam cometendo fraudes. Em Beni, nas últimas eleições, o MAS tinha uma candidata mulher a governadora. E na contagem de votos, quando abriram a urna onde ela tinha votado não havia um único voto para o MAS. Isso nos mostra que estão cometendo fraudes. Isto foi denunciado e estão pedindo anulação das eleições nesse departamento.

CA - Qual seria a solução para acabar com esse tipo de corrupção?

DC - Sabemos que essa briga não é apenas entre os bolivianos. Existe muitos interesses internacionais, como os do Fundo Monetário Internacional, do Banco Mundial, dos países imperialistas e dos ricachones. Espanha sempre levou nosso petróleo praticamente de presente. Considerando que nossos países, tanto Brasil quando Bolívia, são ricos em recursos naturais, então pode-se entender os interesses dessa gente, porque nos países europeus já não há quase nada.

CA - Mudando um pouco de tema. Neste ano a Bolívia comemorou os 10 anos da Guerra da Água, em Cochabamba. Que consequências políticas teve essa luta?

DC - No ano 2000, o governo estava privatizando todos os serviços públicos e entregando nossas riquezas naturais às empresas estrangeiras. No bairro onde vivia, em Cochabamba, não havia água encanada. Eu tinha que comprar da cisterna, que muitas vezes fornecia água suja. Mas a gente não tinha outra opção, então consumíamos daí. Um galão de 20 litros custava mais ou menos quatro bolivianos (o equivalente a R$ 1,14). Um dia recebo um boleto dizendo que estava devendo 70 bolivianos (R$ 20) de água. Quando perguntamos aos vizinhos ficamos sabendo que todos haviam recebido seus boletos e estavam devendo 70, 80 e alguns 100 bolivianos (R$ 30). A gente se perguntava de que água estavam se referindo. Então descemos para a cidade para reclamar e quando chegamos na empresa já havia muita gente fazendo o mesmo. A justificativa que nos deram foi que essa empresa estrangeira necessitava de capital para instalar a rede de água nos bairros. Mas, como a gente podia pagar se não havia uma gota de água? Foi então que começaram os protestos e as mobilizações. Todos os dias haviam pessoas nas ruas reivindicando seus direitos. O governo enviou o exército, houve enfrentamento e mortes. No final, a cidade inteira de Cochabamba mobilizou-se. Também foram enviadas tropas especiais, conhecidas popularmente por “os dálmatas”, devido a seus uniformes de cor branca com manchas negras. Com isso, os conflitos tornaram-se ainda mais violentos. As ruas foram bloqueadas pelos manifestantes e toda a cidade parou. Nos bairros de classe média alta nos jogavam bolsas com água, mas fazia tanto calor que para nós isso já não era um insulto, mas “solidariedade”. Então, esse foi o início de uma nova luta, uma luta de todo o povo. Nossa central de trabalhadores, que estava enfraquecida, ganhou forças novamente depois desse problema da privatização da água. O povo percebeu que podia unir-se, não se importam com as balas e com nada. Depois da Guerra da Água, tivemos a Guerra do Gás, em 2001, dessa vez em La Paz. Foram muitas mobilizações que resultaram na renúncia do presidente da Bolívia.

CA - Em Cochabamba, as pessoas têm a cultura de ir à praça central discutir política, todos os dias. Muita gente sai de seus trabalhos no final do dia e antes de ir para a casa vai à praça ouvir, falar e discutir a política. Vi um povo politizado e organizado. E depois de estar na Bolívia um tempo percebi que nós brasileiros ainda sabemos muito pouco sobre esse país.

DC  - Claro. Todos os povos nos conhecem através das campanhas turísticas. Os turistas adoram tirar fotos de camponês descalço, de uma criança desabrigada e levar para seus países essa imagem estereotipada, mas isso também tem suas consequências. Outro dia, veio ao hospital uma senhora que mora debaixo de uma ponte. Disse que sua filhinha estava mal e um paciente comentou comigo: “Que senhora porca, porque não se limpa?”. Mas ela vive deixo de uma ponte! Não tem casa. Não tem nada! Então só veem o que querem ver. Os turistas não veem as pessoas que constroem a Bolívia, os trabalhadores.

CA - Os problemas sociais tanto na Bolívia quanto em outros países da América do Sul permanecem. Mas algumas coisas começaram a mudar depois de alguns governos de esquerda e progressistas. Como a senhora analisa o cenário político na América do Sul?

DC - Sabemos que a direita não vai querer perder. Vão usar qualquer motivo para voltar ao poder. Aqui em Cochabamba temos canais de televisão. Mas é uma imprensa mentirosa. Eles nunca mostram as coisas boas que está fazendo o governo. Esse é o começo de algo. Sabemos disso. Mas se todos não participarmos desse processo vão nos liquidar. Temos que formar novos quadros políticos, novos dirigentes, para que assim possam responder com responsabilidade.

CA - Na opinião da senhora, faltam novos líderes políticos e novas vozes na América Latina?

DC - Sim, seguramente. Os dirigentes que surgiram na Bolívia foram quase todos assassinados pelas ditaduras. Nós, poucos, que sobrevivemos estamos todos velhos. Agora temos que formar uma nova geração. Temos que formar e capacitar novas pessoas. Eu e meu companheiro temos uma escola de formação política. Uma vez veio um bom grupo. Estávamos muito felizes com esse grupo de jovens. Passamos primeiro o que tem que saber: a história do nosso país, para saber o que aconteceu e como aconteceu. Depois temos que estudar economia, para saber como funciona a questão com o Fundo Monetário Internacional, entre outras coisas. Então quando leram o programa nos disseram: “Essas coisas todas nós sabemos. O que queremos saber é como podemos ser senadores, deputados e como ser alcalde (prefeito).” Mas eu nunca fui senadora, nem deputada, nem alcalde. As pessoas estão vendo a possibilidade de ser um líder político, uma oportunidade de chegar ao poder e ganhar dinheiro. Então falta muito interesse político. Ao MAS também falta muita coisa, como por exemplo, ter um projeto político, um documento. Dizem: “Vamos ao Socialismo”, mas falta dizer como vão ao socialismo. Isso nos faz muita falta.

CA - Como funciona essa escola de formação política, existe há quanto tempo?

DC - Quando saí das minas (1986) queria seguir participando, porque era dirigente sindical. Nessa época, uma pessoa me convidou para ir ao departamento de Tarija para falar na Federação de Camponeses. Depois, surgiram outros convites e me dei conta que as pessoas não conheciam a histórias das minas. Com o tempo, recebemos convites em todo o país. Comecei a falar não apenas da história das minas, mas também a explicar porque na Bolívia, um país tão rico em recursos naturais e minerais, a gente vive tão pobre. Levam nossa matéria prima quase de graça e depois as devolve a nosso país em forma de produtos, bastante caros. Também falava sobre a dívida externa e tantas outras coisas. Depois de explicar tudo isso sempre diziam: “bom, já sabemos que é assim, mas e agora? O que fazemos?” Durante as eleições percebemos que as pessoas necessitavam de capacitação política. Por isso, decidimos criar essa escola e damos cursos a quem esteja interessado em aprender. Inclusive o atual ministro de Justiça nos convidou a dar alguns cursos em várias cidades bolivianas. Agora, temos um pequeno grupo que está estudando. O que nos falta algumas vezes são recursos, porque não recebemos nenhum tipo de ajuda financeira.

CA - Onde funciona essa escola? E quando tempo dura o curso?

DC - A escola funciona na minha casa. E cursos duram até dois anos. Muitas vezes vêm grupos de longe, de 10 ou 15 pessoas, não apenas para estudar, mas também para dormir e cozinhar na minha casa. Nesses casos, damos pequenos cursos de 15 dias e selecionamos os conteúdos principais, mas é muito resumido. Para um curso de formação política é necessário mais tempo. Não cobramos nada dos alunos, mas tem que trazer para comer, porque não podemos oferecer.

CA - As escolas públicas não ensinam política, nem em Bolívia, nem no Brasil. A senhora acha que as crianças poderiam ter formação política?

DC - Claro que sim. O ser humano assim como deve aprender a ler e escrever também tem que aprender “Nós, poucos, que sobrevivemos estamos todos velhos. Agora temos que formar uma nova geração.” Todos nós, desde que nascemos, somos seres políticos, mas muita gente não se dá conta.

CA - Agora, na Bolívia, o governo está exigindo que os funcionários públicos estudem pelo menos um dos idiomas indígenas oficiais do país.

DC - Isso é muito importante. Imagine a situação dos indígenas camponeses que vem do campo, que não sabem falar uma palavra de castelhano e não o atendem. Por mais que o funcionário tenha boa vontade, não entende o que esses indígenas camponeses falam. Esse é um grande avanço, porque as escolas estão ensinado inglês e francês, mas quando vamos praticar o inglês e o francês? Deveríamos estar estudando Quéchua e Aymara (as duas línguas indígenas mais faladas na Bolívia).

CA - A senhora acredita que isso também passa por uma questão da legitimação da identidade cultural desse povo? Muita gente tem vergonha de falar os idiomas originários e muitos bolivianos ainda acreditam que as pessoas falam espanhol são melhores que essas que ainda conservam seus idiomas originários. Os meios de comunicação o que te dizem?

DC - Essa é uma informação que recebemos diariamente. Quando trabalhava nas minas todos os dias a gente assistia um filme. A gente terminada de jantar e ia para o cinema. E o que nos mostra esses filmes? As melhores pessoas, os heróis eram os gringos, os norte-americanos. O mal, o maldito e o drogadinho sempre tinha nossa cara. Era gordo, bigodudo, cabelo negro. Então você no espelho e sua cara não é igual a do jovem ou da garota do filme. Mas sim a cara do bandido ou da bandida. Então, a gente começa a ter vergonha da gente mesmo. No nosso acampamento de mineiros a gente fez uma análise sobre isso. Nossos filhos começaram a pintar os cabelos, a querer mudar as cores dos olhos e se o mocinho tinha cabeça raspada queriam raspar também, se as calças eram mais largas queriam imitar. Começam a negar suas origens indígenas, porque sempre estão fazendo com que tenhamos vergonha disso. Você viu esse filme dos norte-americanos chamado Avatar?

Ca - Sim.

DC - Bem, o que você achou?

CA - Li muitas críticas que diziam que era filme que está na contramão dos interesses do império capitalista. Mas, na película o herói, o de coração bom e forte é o norte- americano. Isso não mudou.

DC - Claro, querem que pensemos que está na contramão do império. Mas no filme quem vai salvar os indígenas do império? Não são os verdadeiros avatares, mas o herói norte-americano. Então continuam nos discriminando, nos subestimando. Esse filme para mim é discriminatório e soberbo. Porque o povo da floresta poderia ter se organizado e lutado. Entretanto, nos mostra que sem o gringo não poderiam ter ganhado a guerra. No entanto, acredito que há um novo despertar. Claro que algumas pessoas ainda não têm muito claro quem é o verdadeiro inimigo e pensa que o inimigo é o trabalhador. Mas temos que deixar claro. Onde está o inimigo principal?

CA - Na opinião da senhora, hoje, qual é o principal inimigo do povo boliviano?

DC - É o que chamamos de meia-lua. Essa é nossa principal inimiga.

CA - O que é a meia-lua?

DC - São essas pessoas que estão organizadas para se- parar nosso país. Sempre estiveram divididos. Eles são os patrões, o “terratenetes”, grandes milioná- rios, que estão claramente separados daqueles que não tem nada. Agora eles querem ficar com as me- lhores zonas, de clima tropical, onde tem bastan- te vegetação e água. Tiraram as terras dos guara- nis e da maioria dos povos indígenas dessa região. Para finalizar, gostaria de deixar alguma mensagem? Agora estamos discutindo o problema de como salvar a nossa Madre Tierra (Mãe Terra). Salvar o meio ambiente da contaminação. As águas potá- veis estão desaparecendo. E, isso é conseqüência desse sistema que tem desgastado tanto as matérias primas. A Terra está morrendo e os autores desses crimes não querem assumir suas responsabilidades, por isso a Cumbre sobre los Câmbios Climáticos y los Derechos de la Mãe Tierra foi muito importan- te. Porque a Terra não tem dono, ela é de todos. Eu me pergunto: seria tão tonto o ser humano que em vez de preservar a terra para produzir alimen- tos para seus filhos e netos, por algumas notas de dólar, esse papel sujo, estão tratando de fazer mais e mais riquezas? Afinal, para que vai servir os dó- lares quando não houver mais alimentos? Temos que adotar medidas, porque não se trata apenas de salvar os “pobrezinhos do terceiro mundo”, mas de salvar toda a Humanidade, inclusive os filhos e ne- tos desses burgueses que não querem entender que estão matando nossa Pachamama (Mãe Terra, nos idiomas Quéchua e Aymara).


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