Lugar de Pensar

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Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome. Clarice Linspector
“Não somos seres humanos vivendo uma experiência espiritual, somos seres espirituais vivendo uma experiência humana.” Teilhard de Chardin
A solidão não existe! Tenho um mundo inteiro dentro de mim.
Seja bem-vindo.

28.4.12

Os Saveiros de Pierre Verger







Pierre Edouard Leopold Verger (Paris, 4 de novembro de 1902 — Salvador, 11 de fevereiro de 1996) foi um fotógrafo e etnólogo autodidata franco-brasileiro. Assumiu o nome religioso Fatumbi.

Era também babalawo (sacerdote Yoruba) que dedicou a maior parte de sua vida ao estudo da diáspora africana - o comércio de escravo, as religiões afro-derivadas do novo mundo, e os fluxos culturais e econômicos resultando de e para a África.

Após a idade de 30 anos, depois de perder a família, Pierre Verger levou a carreira de fotógrafo jornalístico. A fotografia em preto e branco era sua especialidade. Usava uma máquina Rolleiflex que hoje se encontra na Fundação Pierre Verger.

Durante os quinze anos seguintes, ele viajou os quatro continentes e documentou muitas civilizações que seriam apagadas logo através do progresso.

Fomte: Wikipédia

15.4.12

Nina Simone


Nina Simone - Four women - Montreux Jazz 89

Fonte: Youtube


Corrupção e sociedade




Corrupção: crime contra a sociedade

Leonardo Boff


          Segundo a Transparência Internacional, o Brasil comparece como um dos países mais corruptos do mundo. Sobre 91 analisados, ocupa o 69% lugar. Aqui ela é histórica, foi naturalizada, valedizer, considerada com um dado natural, é atacada só posteriormente quando já ocorreu e tiver atingido  muitos milhões de reais e goza de ampla impunidade. Os dados são estarrecedores: segundo aFiesp (Federação das Indústrias de São Paulo) anualmente ela representa 84.5 bilhões de reais. Se esse montante fosse aplicado na saúde subiriam em 89% o número de leitos nos hospitais; se na educação, poder-se-iam abrir 16 milhões de novas vagas nas escolas; se na construção civil,  poder-se-iam construir 1,5 milhões de casas.

         Só estes dados denunciam a gravidade do crime contra a sociedade que a corrupção representa. Se vivessem na China muitos corruptos acabariam na forca por crime contra a economia popular. Todos os dias, mais e mais fatos são denunciados como agora com o contraventor Carlinhos Cachoeira que para garantir seus negócios infiltrou-se corrompendo gente do mundo político, policial e até governamental. Mas não adianta rir nem chorar. Importa compreender este perverso processo criminoso.

         Comecemos com a palavra corrupção. Ela tem origem na teologia. Antes de se falar em pecado original,  expressão que não consta na Bíblia mas foi criada por Santo Agostinho no ano 416 numa troca de cartas com São Jerônimo, a tradição cristã dizia que o ser humano vive numa situação de corrupção. Santo Agostinho explica a etimologia: corrupção é ter um coração (cor)  rompido (ruptus) e pervertido. Cita o Gênesis: “a tendência do coração é desviante desde a mais tenra  idade”(8,21). O filósofo Kant fazia a mesma constatação ao dizer:“somos um lenho torto do qual não se podem tirar tábuas retas”. Em outras palavras: há uma força em nós que nos incita ao desvio que é a corrupção. Ela não é fatal. Pode ser controlada e superada, senão segue suatendência.

         Como se explica a corrupção no Brasil? Identifico três razões básicas entre outras: a histórica, a política e a cultural.

         A histórica: somos herdeiros de uma perversa herança colonial e escravocrata que marcou nossos hábitos. A colonização e a escravatura são instituições objetivamente violentas e injustas. Então as pessoas para sobreviverem e guardarem a mínima liberdade eram levadas a corromper. Quer dizer: subornar, conseguir favores mediante trocas, peculato (favorecimentoilícito com dinheiro público) ou nepotismo. Essa prática deu  origem ao jeitinho brasileiro, uma forma de navegação dentro de uma sociedade desigual e injusta e à lei de Gerson que é tirar vantagem pessoal de tudo.

         A política: a base da corrupção política reside no patrimonialismo, na indigente democracia e no capitalismo sem regras. No patrimonialismo não se distingue a esfera pública da privada. As elites trataram a coisa pública como se fosse  sua e organizaram o Estado com estruturas e leis que servissem a seus interesses sem pensar no bem comum. Há um neopatrimonialismo na atual política que dá vantagens (concessões, médios de comunicação) a apaniguadospolíticos.

         Devemos dizer que o capitalismo aqui e no mundo é em sua lógica, corrupto, embora aceito socialmente. Ele simplesmente impõe a dominação do capital sobre o trabalho, criando riqueza com a exploração do trabalhador e com a devastação da natureza. Gera desigualdades sociais que, eticamente, são injustiças, o que origina permanentes conflitos  de classe. Por isso, o capitalismo é por natureza antidemocrático, pois  a democracia supõe uma igualdade básica dos cidadãos e direitos garantidos, aqui violados pela cultura capitalista. Se tomarmos tais valores como critérios, devemos dizer que nossa democracia é anêmica, beirando a farsa. Querendo ser representativa, na verdade, representa os interesses das elites dominantes e não os gerais da nação. Isso significa que não temos um Estado de direito consolidado e muito menos um Estado de bem-estar social. Esta situação configura uma corrupção  já estruturada e faz com que ações corruptas campeiem livre e impunemente.

         Cultura: A cultura dita regras socialmente reconhecidas. Roberto Pompeu de Toledo escreveu em 1994 na Revista Veja: “Hoje sabemos que a corrupção faz parte de nosso sistema de poder tanto quanto o arroz e o feijão de nossas refeições”. Os corruptos são vistos como espertos e não como criminosos que de fato são. Via de regra podemos dizer:  quanto mais desigual e injusto é um Estado e ainda por cima centralizado e burocratizado como o nosso, mais se cria um caldo cultural que permite e tolera a corrupção.

         Especialmente nos portadores de poder se manifesta a tendência à corrupção. Bem dizia o católico  Lord Acton (1843-1902): ”o poder  tem a tendência a se corromper e o absoluto poder corrompe absolutamente”. E acrescentava:”meu dogma é a geral maldade dos homens portadores de autoridade; são os que mais se corrompem”.

         Por que isso? Hobbes  no seu Leviatã (1651)  nos acena para uma resposta plausível: “assinalo, como tendência geral de todos os homens, um perpétuo e irrequieto desejo de poder e de mais poder que cessa apenas com a morte; a razão disso reside no fato de que não se pode garantir o poder senão buscando ainda mais poder”. Lamentavelmente foi o que ocorreu com o PT. Levantou a bandeira da ética e das transformações sociais. Mas ao invés de se apoiar no poder da sociedade civil e dos movimentos e criar uma nova hegemonia, preferiu o caminho curto das alianças e dos acordos com o corrupto poder dominante. Garantiu a governabilidade  a preço de mercantilizar as relações políticas e abandonar a bandeira da ética. Um sonho de gerações foi frustrado. Oxalá  possa ainda ser resgatado.

         Como combater a corrupção? Pela transparência total, pelo aumento dos auditores confiáveis que atacam antecipadamente a corrupção. Como nos informa o World Economic Forum, a Dinamarca e a Holanda possuem 100 auditores por 100.000 habitantes; o Brasil apenas, 12.800 quando precisaríamos pelo menos de 160.000. E lutar para umademocracia menos desigual e injusta que a persistir assim será sempre corrupta e corruptora.

Leonardo Boff é teólogo, filósofo e escritor

2.4.12

O "poder" da Resenha


27.03.2012

A RESENHA 



O jornalismo não morreu


Privataria Tucana prova que a reportagem de investigação está viva e José Serra, aparentemente, morto

Celso de Castro Barbosa


Engana-se quem imagina morta a reportagem de investigação no Brasil. Embora os jornalões, revistas semanais e emissoras de TV emitam precários sinais vitais do gênero, ele está vivíssimo, como prova A Privataria Tucana, livro do premiado repórter Amaury Ribeiro Jr.

Lançado em dezembro e recebido pela grande imprensa com estridente silêncio, seguido de críticas que tentaram desqualificar a reportagem e o autor, o sucesso do livro, já na terceira edição e no topo das listas dos mais vendidos, não se deve a suposto sentimento antitucano.  Até porque os fatos objetivos relatados não poupam o PT. Não há santos na Privataria.

Com base em documentos oficiais, da CPI do Banestado e outros que o autor conseguiu em cartórios, Amaury torna pública a relação de dirigentes do PSDB e a abertura de contas no exterior de empresas de fachada, responsáveis pelo retorno ao Brasil do dinheiro sujo da corrupção. Dinheiro que voltou, naturalmente, limpo.

Muita gente deve explicações à Justiça que, nesse episódio como em outros envolvendo expressivos representantes da elite brasileira, move-se a passos de tartaruga. Ou simplesmente não se move. Pelo cargo que ocupou na época das tenebrosas transações, as privatizações da era FHC, José Serra, então ministro do Planejamento e depois duas vezes candidato à presidência, prefeito e governador de São Paulo, é quem tem a imagem mais chamuscada, para não dizer estorricada, ao fim da Privataria Tucana.

De origem humilde, o tucano paulista exibe patrimônio incompatível com os rendimentos de um político. Tudo em nome de sua filha, Verônica, que ao lado de Ricardo Sérgio, tesoureiro das campanhas de Serra e Fernando Henrique, emergem como principais parceiros do ex-governador no propinoduto que marcou a venda das empresas de telecomunicação.

Além de jogar uma pá de cal na aura de honestidade de certos tucanos, o livro de Amaury tem ainda o mérito de questionar, involuntariamente, a atuação da grande imprensa no país. Agindo como partido único, onde só é permitida uma única opinião, jornais, revistas e mídia eletrônica defenderam, com unhas e dentes, a privatização. O principal argumento era a vantagem que traria aos consumidores: eficiência e tarifas baixas por causa da concorrência. Passados mais de dez anos, o Brasil cobra tarifas de telefone das mais altas do planeta e as concessionárias são campeãs de reclamação nos Procons.

Não bastasse, ao ignorar o lançamento do livro, a imprensa hegemônica mostra sua face semelhante à dos piratas: um olho tapado, que nada vê, e outro atento à movimentação dos adversários.



   O "poder" DA RESENHA


Carta do jornalista Celso de Castro Barbosa narra episódio da demissão da Revista de História após resenha de livro

março 30, 2012

O leitor José Fernando enviou ao blog a carta redigida pelo jornalista Celso de Castro Barbosa após ser demitido da Revista de História da Biblioteca Nacional. Barbosa havia resenhado o livro A Privataria Tucana para a revista. O caso foi publicado ontem no Terceiro Caderno, em reprodução da coluna de Elio Gaspari na Folha de S.Paulo. Leia a reprodução completa da carta abaixo:


“Senhoras e senhores conselheiros da Revista de História da Biblioteca Nacional e da Sabin, sou Celso de Castro Barbosa, brasileiro, jornalista profissional, 54 anos, há 36 em atividade. A essa altura da minha carreira julgava ter visto de tudo. Quanta ingenuidade…
 
Entre 5 de setembro de 2011 e 29 de fevereiro de 2012 fui o editor de texto da revista, subordinado à editora assistente Viviani Fernandes de Lima e ao editor e professor Luciano Figueiredo.


Depois de ler ‘A Privataria Tucana’, livro do premiado repórter Amaury Ribeiro Jr., destaque em todas as listas dos mais vendidos no país, sugeri a publicação de uma resenha no site da revista, haja vista o silêncio estridente com que livro foi recebido pela grande imprensa. Sugestão aceita, o texto foi publicado em 24 de janeiro de 2012, permanecendo à disposição dos leitores por nove dias até ser censurado e retirado do ar. Fato que me fez lembrar da ditadura militar, quando os gorilas de plantão ordenavam o recolhimento de alguma publicação que não lhes agradasse, mas, por conta da burocracia própria dos incompetentes, demoravam tanto a cumprir a ordem que os leitores recolhiam antes.


Professor Luciano Figueiredo, demitido junto com Barbosa


O que passo a contar agora não encontra paralelo em tudo o que vi e vivi em ambiente de redação. Em 1º de fevereiro fui chamado à sala do editor, que me comunicou o seguinte: que concordava com praticamente todas as observações da minha resenha; que o sr. Gustavo Franco, ex-presidente do Banco Central no governo FHC, mobilizara o alto escalão tucano para protestar contra o texto; que redigiria uma nota assumindo toda a culpa pelo episódio.

Sob meu protesto, pois entendia e continuo entendendo que ninguém é culpado de rigorosamente nada, disse ao editor que achava absurda a ideia de alguém assumir culpa. Afinal vivemos num país democrático, cuja constituição garante a todos os brasileiros o direito a opinião, sem falar da liberdade de imprensa. Disse ainda que o PSDB tinha todo o direito de reclamar, assim como o PT, que também não foi poupado na resenha. O editor insistiu em assumir o que chamou de culpa e, sem mais, nossa conversa chegou ao fim.

No dia seguinte, ao ler O Globo, o que primeiro me chamou a atenção na longa matéria sobre o imbróglio foi o fato de Luciano Figueiredo não ter assumido culpa ou responsabilidade alguma. O que chegou ao jornal foi uma nota mentirosa da Sabin, onde se lê que, ao contrário do procedimento padrão da revista, meu texto não fora lido nem avaliado pelos editores. Ou seja, que publiquei por minha conta.

Definitivamente, isto não é verdade. Meu texto foi, sim, lido e avaliado pelo editor do site, por minha chefe imediata e, ainda que depois de publicado, pelo próprio Luciano Figueiredo, que voltou de férias no dia 16. Com a publicação no dia 24 e permanência no ar na primeira página do site durante nove dias ele teve tempo mais que suficiente para ler, reler, avaliar e reavaliar.
 
Quem leu a matéria do Globo, reproduzida em jornais de todo o Brasil, há de concordar que fui exposto de forma vil, sem direito a defesa. Somente uma semana depois pude me manifestar na seção de cartas. Fui chamado, entre outros absurdos, de servidor público a serviço do aparelhamento do Estado. Lembro que embora cumprisse nove horas diárias de trabalho, não tinha sequer carteira assinada na Revista de História.

Gostar de um livro, senhoras e senhores conselheiros, não é crime. Já foi. Não é mais. Quanto à ameaça de processo por parte do PSDB, continuo aguardando uma decisão. Soube que desde que o livro foi lançado, em dezembro do ano passado, o presidente do partido ameaça processar o autor, mas, até agora, nada.

Esse episódio me levou a refletir sobre o papel de quem está no comando, especialmente porque tenho parâmetros. Fui chefiado por Marcos Sá Corrêa, para mim eterno exemplo de profissional correto e brilhante e de homem admirável. Não sou petista, muito menos entusiasta do governo Dilma e não tenho simpatia pela pessoa da presidente. Um fato, no entanto, me leva a admirá-la, ainda que parcialmente. O de não ter delatado seus companheiros de organização política, nos anos 1970, nem sob tortura. Admiração semelhante tenho por Roberto Marinho, que protegeu seus empregados sempre que foram atacados. Na ditadura e na democracia.

No caso da resenha, o que fez o professor Luciano Figueiredo? Fugiu de responsabilidades exclusivamente suas, ofereceu minha cabeça numa bandeja e sequer assinou a nota mentirosa da Sabin. É como se ele nada tivesse a ver com o episódio. E ele tem tudo a ver com o episódio. Não estou exagerando quando afirmo que imaginei já ter visto de tudo. De fato, é a primeira vez que vejo alguém mentir, mentir por escrito, e enviar a mentira, muito fácil de desmontar, aos jornais como fez o presidente da Sabin. Naturalmente, em defesa de minha honra, buscarei retratação e reparação.

Na verdade, apesar do pouco tempo de convivência, não foi essa a primeira manifestação de conduta, digamos, heterodoxa, do editor. Em dezembro ele já dera um sinal de sua maneira particularíssima de comandar, ao exorbitar do papel de editor e mandar que eu ajeitasse uma carta que pretendia enviar aos participantes de um festival de história que organizou em nome da revista. Tratava-se do comunicado de um calote. Os participantes, que se deslocaram até Diamantina simplesmente não receberiam o pagamento combinado. Luciano Figueiredo gostou tanto do texto final que me enviou esta mensagem: “Excelente. Até eu gostaria de receber um furo desse, edulcorado com essa prosópia.” A propósito, até a minha demissão, o editor jamais fez qualquer restrição ao meu trabalho como editor de texto da revista. Ao contrário.

Juntando os dois episódios – carta calote e nota da Sabin – apurei meu faro de repórter de forma a me proteger e saber com quem de fato estava lidando. Em consulta à página da Plataforma Lattes, do Cnpq, fiquei sabendo que o professor Luciano Figueiredo é contratado da Universidade Federal Fluminense em regime de dedicação exclusiva. Em consulta ao Gabinete do Reitor da UFFfui informado de que é vedado aos professores contratados sob este regime quaisquer atividades remuneradas, mesmo que relacionadas às suas áreas. E em consulta ao Ministério Público, fiquei sabendo que é crime acumular as duas funções.

Estou relatando esses fatos, senhoras e senhores conselheiros, porque considero o episódio da resenha muito grave, não só para a revista, mas para a democracia. E aproveito a oportunidade para propor uma reflexão. O que é mais grave: Luciano Figueiredo dirigir a Revista de História ou dar aulas na Universidade?

Na minha modesta opinião é muito mais grave ele dar aulas. Todos sabemos da grave crise educacional que o país vive há décadas. E de um professor, penso, não se espera que transmita apenas conhecimento. Ele também deve transmitir valores. Valores que o editor da Revista de História não cultiva e despreza.
 
Sem mais,
 
Celso de Castro Barbosa