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26.5.12

Livros

O historiador Robert Darnton fala sobre o futuro do livro

DANIEL SILVEIRA

O trabalho conjunto de mais de 40 instituições de ensino e pesquisa dos Estados Unidos vai inaugurar, em abril do próximo ano, uma biblioteca pública com 2 milhões de livros em formato digital, acessíveis em qualquer parte do mundo.

A Digital Public Library of America (DPLA) vai ser criada para buscar a democratização do conhecimento, um objetivo “revolucionário”, afirma o historiador Robert Darnton, um dos principais envolvidos na empreitada.

Professor da Universidade Harvard (EUA) e um dos mais proeminentes pesquisadores sobre o Iluminismo e a história dos livros, Darnton chega ao Brasil neste mês para participar do 4º Congresso Internacional CULT de Jornalismo Cultural.

Na entrevista abaixo, ele diz que o desenvolvimento da tecnologia, que permite a comunicação sem fronteiras, faz com que o momento atual seja análogo às Luzes do século 18. “Temos a capacidade técnica de realizar o sonho do Iluminismo, de realmente disponibilizar o conhecimento para as pessoas e nos comunicarmos abertamente por todo o mundo”, disse.

De volta ao país após participação na Feira Literária Internacional de Paraty (Flip) em 2010, Darnton exalta na entrevista abaixo a intelectualidade brasileira, que, afirma, ainda não tem o reconhecimento que mereceria internacionalmente.

“Quando viajo ao Brasil, me pego envolvido em conversas que acho mais interessantes do que as que tenho na margem esquerda do Sena, em Paris”, diz.

CULT – O senhor trabalhou como jornalista do New York Times no início da carreira. Como vê o atual momento da imprensa mundial, com a crise dos jornais impressos, o crescimento da internet, a propagação dos tablets e a premiação de um agregador de notícias, o Huffington Post,  no Pulitzer deste ano?

Robert Darnton – Preciso confessar que estou pessimista com o declínio dos jornais diários impressos. O problema está na estrutura dessa indústria. Um exemplo disso são os classificados, que sempre serviram como parte da renda de um jornal, mas que estão migrando totalmente para a internet. Os jornais diários não são mais economicamente viáveis.

Há apenas algumas exceções, poucos jornais que vão continuar prosperando. Sempre haverá espaço para o New York Times, por exemplo, pois é um jornal de excelente qualidade, que satisfaz uma necessidade de leitores que buscam cobertura de correspondentes em todo o mundo, com aprofundamento e qualidade.

Ao mesmo tempo, vamos ter que aprender como o jornalismo digital realmente irá funcionar. Não podemos questionar a importância do jornalismo online independente que se desenvolveu no Egito e nos outros países da região durante a Primavera Árabe. A questão é saber se o jornalismo de blog e de agregadores, como o Huffington Post, irá se consolidar.

O que achou do Pulitzer dado ao Huffington Post?

Eles operam de forma completamente diferente. Já publiquei textos ali a convite deles e descobri que têm um lado bastante sério. Da mesma forma, a New York Review of Books, para a qual contribuo regularmente, tem um blog em que são publicados textos jornalísticos de alto nível.

Acho que o espectro de reportagem online é muito amplo. Muito do material é amador e inadequado, mas há publicações mais sérias e de qualidade.

A questão que fica em aberto é a economia por trás disso tudo. Não se pode saber o que vai acontecer a longo prazo.

Daqui a um ano a DPLA estará no ar, com 2 milhões de obras disponíveis na internet. O senhor sempre pesquisou a história dos livros e agora está envolvido neste projeto que vai moldar o futuro deles.  O que acontece agora é comparável aos avanços ocorridos durante o Iluminismo, no século 18?

Acho que podemos, sim, comparar com o Iluminismo, mas não funciona em todos os aspectos.

Para os filósofos, o Iluminismo dependia da comunicação, especialmente da palavra impressa, como motor do progresso. Entretanto, no século 18 as taxas de alfabetização eram muito baixas, e o desenvolvimento econômico não apoiava um mercado editorial vibrante.

Hoje, com a internet, parece que temos a capacidade técnica de realizar o sonho do Iluminismo. Neste ponto, os séculos 18 e 21 se complementam, quanto ao sonho de realmente disponibilizar o conhecimento para as pessoas e nos comunicarmos abertamente por todo o mundo.

A diferença que existe é que os filósofos do Iluminismo associavam esta fé na palavra impressa ao seu próprio programa de defesa de igualdade perante a lei, à qualidade social, ao fim da censura, à restrição ao poder da Igreja Católica, etc.

Hoje não temos nada assim. Temos muitas pessoas, com diferentes interesses, tentando se comunicar pela internet. Isso não é a mesma coisa que o engajamento intelectual que era central ao Iluminismo. Era uma tentativa dos intelectuais de usarem a mídia para mudar a sociedade.

Isso acontece em torno de nós hoje, claro, mas não é o trabalho de intelectuais de vanguarda com um programa específico em mente.

O New York Times disse que a DPLA estava atrasada em relação a projetos semelhantes de bibliotecas digitais da Europa. Que diferenciais o projeto norte-americano irá trazer?

Já avançamos bem no desenvolvimento tecnológico da DPLA. Estamos trabalhando para que ela seja ligada ao sistema da Europeana, que é a biblioteca digital europeia.

É verdade que a Europeana veio antes e que fez um trabalho excelente com livros, museus e documentos digitalizados. Eles mostraram o caminho para catalogar e relacionar documentos digitalizados, mas o problema da Europeana é que ela tem fundos limitados, um orçamento de 5 milhões de euros por ano, pagos pela União Europeia, o que não é muito para este tipo de operação.

O que pretendemos fazer na DPLA é ir além disso. Queremos encorajar iniciativas independentes de bibliotecas espalhadas pelo país a digitalizarem trabalhos próprios, que interessem a públicos locais e sirvam a comunidades espalhadas.

Além disso, queremos trabalhar com a preservação de documentos.

A escala da operação e a profundidade do conteúdo da DPLA são sem precedentes, e isso irá crescer sem limites.

De qualquer forma, os projetos internacionais precisam ajudar uns aos outros, oferecendo recursos culturais para todo o mundo. Espero que o Brasil tenha um papel nisso. Sei que há um esforço de digitalização na sua Biblioteca Nacional e em coleções históricas de São Paulo, mas não sei o suficiente sobre o assunto e pretendo me informar melhor durante minha visita ao país.

Como iniciativas como essas irão mudar a forma como as pessoas lidam com livros?

Não queremos que a DPLA sirva apenas para pesquisas acadêmicas, por mais que de fato seja um trunfo para pesquisadores. Queremos que seja usada por um público amplo, e nos preocupamos com seu uso educacional.

Aqui nos EUA nós temos os community colleges, instituições que oferecem cursos de graduação de dois anos para estudantes mais pobres que não conseguiram vagas em cursos universitários completos, de quatro anos. Essas instituições são cruciais para o avanço intelectual e econômico para os menos privilegiados.

A DPLA irá tentar ajudar essas pessoas, servindo de biblioteca para essas instituições – que muitas vezes não têm estrutura – e oferecendo um acervo equivalente ao que pode ser encontrado em uma instituição como Harvard.

Esperamos que a DPLA tenha um papel na democratização do conhecimento, tornando os livros acessíveis ao público amplo. Isso é revolucionário, pois bibliotecas sempre foram muito fechadas ao público em geral.

Qual será o futuro das bibliotecas físicas? Elas continuarão existindo?

Elas terão que se adaptar e adquirir uma nova importância, pois irão mudar de função. As bibliotecas estão se tornando sistemas nervosos intelectuais. As pessoas as frequentam em grupos para estudar, discutir e trabalhar coletivamente de um modo que não existia antes. As bibliotecas de universidades estão cada vez mais vibrantes, por mais que tenham cada vez menos foco em apenas oferecer livros.

Os bibliotecários estão mudando de função também, passando a ajudar as pessoas que vão às bibliotecas a usar a internet, por exemplo. As pessoas se perdem facilmente no ciberespaço. Precisam de ajuda para usar bem a internet, e os bibliotecários estão se tornando consultores e curadores no novo mundo digital.

Com o crescimento do mercado de livros digitais aravés da Apple e Amazon, especialmente, cria-se um debate a respeito dos direitos do autor e da pirataria. Como a DPLA irá lidar com essa questão potencialmente explosiva?

Direitos autorais são sempre um enorme problema. Não vamos poder modificar os direitos autorais no nosso trabalho na DPLA por ser uma questão política muito complicada.

Pessoalmente, acho que os direitos autorais duram tempo demais, 70 anos. Isso impede que os livros caiam em domínio público, onde deveriam estar após exaurir seu apelo comercial.

Em princípio, sou a favor da revisão das leis de direito autoral, mas não acho que isso seja politicamente possível. Precisaremos achar uma forma de disponibilizar livros que são cobertos por direitos autorais, mas estão esgotados.

Claro que a própria ideia de “esgotado” está se tornando obsoleta, já que as editoras cada vez mais trabalham com livros digitais, que estarão disponíveis sempre, sem se esgotar.

De qualquer forma, a DPLA não vai infringir os direitos autorais. Há uma possibilidade de tentarmos rever a questão de direitos autorais de “livros órfãos”, que são livros cujos donos dos direitos autorais não podem ser encontrados. Há algo entre 1 milhão e 2 milhões de livros nas bibliotecas dos EUA que seriam cobertos pelos direitos autorais, mas cujos donos não podem ser encontrados por um ou outro motivo.

Queremos mudar a lei neste ponto para podermos disponibilizar esses livros.

Em entrevistas dadas nos últimos anos o senhor diz não ter se adaptado aos leitores digitais. Continua preferindo os livros impressos?

Pode parecer chocante, mas ainda não uso leitores digitais. Não tenho nada contra eles, e muito do meu trabalho já é oferecido em formato digital, mas eu sou tradicionalista, gosto do papel impresso e adoro livros, onde posso virar as páginas.

Mas o fato é que os leitores digitais estão ficando cada vez melhores e mais baratos e já oferecem muitas vantagens para quem os usa.

O senhor vem ao Brasil para participar do 4° Congresso Internacional CULT de Jornalismo Cultural. Que papel o Brasil pode ter no debate sobre a cultura? Apesar de a economia estar crescendo, qual o prestígio do Brasil em termos de artes, letras e comunicação?

O que mais me impressiona é a saúde do mercado editorial no Brasil, um território rico para livros e publicações sérias. As pessoas têm concepções erradas sobre o Brasil e ainda se prendem a clichês relacionados a praias e música popular, mas o que me impressiona é a qualidade da intelectualidade brasileira, que é rica e bem informada.

Quando viajo ao Brasil, me pego envolvido em conversas que acho mais interessantes do que as que tenho na margem esquerda do Sena, em Paris. A originalidade das publicações brasileiras vai falar por si só e vai exigir atenção do resto do mundo.

Vejo isso acontecendo especialmente na literatura histórica, onde várias pessoas, como [a antropóloga] Lilia Schwarcz, têm muitos leitores fora do Brasil.

Os escritores brasileiros sempre foram muito cosmopolitas em seus interesses e muito bem informados em relação ao que ocorre fora do país. E, agora, é a vez de os estrangeiros começarem a prestar atenção no que acontece no Brasil.

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