Lugar de Pensar

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Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome. Clarice Linspector
“Não somos seres humanos vivendo uma experiência espiritual, somos seres espirituais vivendo uma experiência humana.” Teilhard de Chardin
A solidão não existe! Tenho um mundo inteiro dentro de mim.
Seja bem-vindo.

30.6.12

A lente sensível de Sebastião Salgado






































IMAGENS DE SEBASTIÃO SALGADO



Sebastião Ribeiro Salgado Júnior (Aimorés, 8 de fevereiro de 1944) é um fotógrafo brasileiro reconhecido mundialmente por seu estilo único de fotografar. Nascido em Minas Gerais, é um dos mais respeitados fotojornalistas da atualidade. Nomeado como representante especial do UNICEF em 3 de abril de 2001, dedicou-se a fazer crônicas sobre a vida das pessoas excluídas, trabalho que resultou na publicação de dez livros e realização de várias exposições, tendo recebido vários prêmios e homenagens na Europa e no continente americano. "Espero que a pessoa que entre nas minhas exposições não seja a mesma ao sair" diz Sebastião Salgado. "Eu acredito que uma pessoa comum pode ajudar muito, não apenas doando bens materiais, mas participando, sendo parte das trocas de ideias, estando realmente preocupada sobre o que está acontecendo no mundo".

Nascido em 1944, o mineiro Sebastião Salgado é um dos grandes nomes da fotografia mundial, com uma premiada obra marcada pelo olhar original e pela preocupação com as camadas mais desfavorecidas da sociedade. Entre seus livros destacam-se: Outras Américas (1986), que retrata as condições de vida dos camponeses latino-americanos; Trabalhadores (1993); e Terra (1997), que trata da questão agrária no Brasil. Em 2000, deflagra o projeto Êxodos, em que percorre o mundo expondo fotos, realizadas em 47 países, sobre a migração do campo para as cidades.

Ao longo dos anos, Sebastião Salgado tem contribuído generosamente com organizações humanitárias incluindo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, (ACNUR), a Organização Mundial da Saúde (OMS), a ONG Médicos sem Fronteiras e a Anistia Internacional.Com sua mulher, Lélia Wanick Salgado, apoia atualmente um projeto de reflorestamento e revitalização comunitária em Minas Gerais. Em setembro de 2000, com o apoio das Nações Unidas e do UNICEF, Sebastião Salgado montou uma exposição no Escritório das Nações Unidas em Nova Iorque, com 90 retratos de crianças desalojadas extraídos de sua obra Retratos de Crianças do Êxodo. Essas impressionantes fotografias prestam solene testemunho a 30 milhões de pessoas em todo o mundo, a maioria delas crianças e mulheres sem residência fixa. Em outras colaborações com o UNICEF, Sebastião Salgado doou os direitos de reprodução de várias fotografias suas para o Movimento Global pela Criança e para ilustrar um livro da moçambicana Graça Machel, atualizando um relatório dela de 1996, como Representante Especial das Nações Unidas sobre o Impacto dos Conflitos Armados sobre as Crianças. Atualmente, em um projeto conjunto do UNICEF e da OMS, ele está documentando uma campanha mundial para a erradicação da poliomielite.

Sebastião Salgado foi internacionalmente reconhecido e recebeu praticamente todos os principais prêmios de fotografia do mundo como reconhecimento por seu trabalho. Fundou em 1994 a sua própria agência de notícias, "As Imagens da Amazônia" , que representa o fotógrafo e seu trabalho.

INSTITUTO TERRA



Fonte: informações wikipédia (texto) internet (imagens)

29.6.12

Perspe.


















O fotógrafo italiano Gustavo Willeit faz imagens de belíssimas vilas, típicas de seu país, praias, pequenas ilhas e rochas criadas com simetria através de manipulação digital.

Com a série chamada Perspe, Willeit cria o que ele chama de "universo paralelo", mostrando um ambiente que parece real, mas, na verdade, foi inventado.

O observador consegue reconhecer a origem natural da foto. Mas o observador sempre ficará em dúvida sobre a veracidade do que é mostrado pelo fotógrafo.

Willeit criou a série Perspe a partir de um efeito simples, que dá a impressão de uma imagem reproduzida quase à perfeição em frente a um espelho.

No entanto, a simetria não é totalmente perfeita, já que alguns objetos e pessoas da imagem ficam de fora do "efeito espelho".

E estes são alguns dos elementos mais intrigantes nas imagens criadas por Willeit. Em uma das imagens um ônibus percorre algo que parece ser uma rotatória, penínsulas idênticas cercam vilas típicas italianas, com casas coloridas, pessoas caminham por praias espelhadas ou caminhos que parecem se estender em um círculo.

Ao descrever seu trabalho, Willeit afirma que o elemento humano, frequente nas imagens, nunca é colocado de forma aleatória, "mas tem a tarefa de dar ao observador um elemento para se reconhecer (na imagem), criando um equilíbrio entre a verdade e a falsidade".

Para o fotógrafo, o tema do espelho "sempre fascinou o homem, e as fotos da série Perspe são muito sugestivas, possuem um senso de mistério, existindo em algum lugar na fronteira entre a ilusão e a realidade". 




Fonte: http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2012/06/120628_simetria_galeria_fn.shtml


27.6.12

As mulheres de Gustav Klimt





















Gustav Klimt (Baumgarten, Viena, 14 de julho de 1862 — Viena, 6 de fevereiro de 1918) foi um pintor simbolista austríaco.

Em 1876 estudou desenho ornamental na Escola de Artes Decorativas. Associado ao simbolismo, destacou-se dentro do movimento Art nouveau austríaco e foi um dos fundadores do movimento da Secessão de Viena, que recusava a tradição académica nas artes, e do seu jornal, Ver Sacrum. Klimt foi também membro honorário das universidades de Munique e Viena. Os seus maiores trabalhos incluem pinturas, murais, esboços e outros objetos de arte, muitos dos quais estão em exposição na Galeria da Secessão de Viena.

24.6.12

Cuba, in Rio+20

Cuba aspira que o bom senso e a inteligência humana se imponham sobre a irracionalidade e a barbárie.



Discurso pronunciado pelo presidente dos Conselhos de Estado e de Ministros, general-de-exército Raúl Castro Ruz, na Cúpula Rio+20, no Rio de Janeiro, Brasil, em 21 de junho de 2012.

Senhor presidente;

Excelências:

HÁ 20 anos, em 12 de junho de 1992, neste mesmo local, o líder da Revolução Cubana Fidel Castro Ruz expressou, e cito: "Uma importante espécie biológica está em risco de desaparecer, por causa da rápida e progressiva liquidação de suas condições naturais de vida: o homem". Fim da cita. O que poderia ter sido considerado alarmista é agora uma realidade inegável. A incapacidade de transformar modelos de produção e consumo insustentáveis atenta contra o equilíbrio e a regeneração dos mecanismos naturais que sustentam a vida no planeta.

Os efeitos não podem ser escondidos. As espécies estão morrendo em uma velocidade cem vezes mais rápida que as indicadas em registros fósseis, mais de cinco milhões de hectares de florestas se perdem a cada ano e quase 60% dos ecossistemas estão degradados.

Apesar da importância que teve a Convenção das Nações Unidas sobre Mudança Climática, as emissões de dióxido de carbono se incrementaram em 38%, entre 1990 e 2009. Agora vamos rumo a um aumento da temperatura global que porá em risco, em primeiro lugar, a integridade e existência física de numerosos Estados insulares em desenvolvimento e produzirá graves consequências em países da África, Ásia e a América Latina.

Um profundo e detalhado estudo realizado durante os últimos cinco anos pelas nossas instituições científicas, coincide no fundamental com os informes do Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática a confirma que no presente século, caso se manterem as atuais tendências, se produzirá uma paulatina e considerável elevação do nível médio do mar no arquipélago cubano. Esta previsão inclui a intensificação dos eventos meteorológicos extremos, como os furacões tropicais, e o aumento da salinização das águas subterrâneas. Tudo isso terá sérias consequências, especialmente em nossas costas, pelo que temos iniciado a adoção das medidas correspondentes.

Este fenômeno terá, igualmente, fortes implicações geográficas, demográficas e econômicas para as ilhas do Caribe que, aliás, devem enfrentar as inequidades de um sistema econômico internacional que exclui os mais pequenos e vulneráveis.

A paralisia das negociações e a falta de um acordo que permita deter a mudança climática global são um reflexo nítido da falta de vontade política e da incapacidade dos países desenvolvidos para atuar conforme as obrigações que derivam de sua responsabilidade histórica e sua posição atual.

Isto se tornou evidente nesta reunião, apesar do extraordinário esforço feito pelo Brasil e que agradecemos.

Aumenta a pobreza, crescem a fome e a desnutrição, aumentando a desigualdade agravada nas últimas décadas como consequência do neoliberalismo.

Durante estes vinte anos, se travaram guerras de novo tipo, concentradas na conquista de fontes energéticas, como a ocorrida em 2003 sob o pretexto das armas de extermínio em massa que nunca existiram, e a que recentemente se produziu no norte da África. Às agressões que continuam agora contra países do Oriente Médio se acrescentarão outras, a fim de controlar o acesso à água e a outros recursos em vias de esgotamento. Portanto deve-se denunciar que tentar uma nova divisão do mundo desencadeará uma espiral de conflito com consequências incalculáveis ​​para o planeta já severamente inseguro, e aliás doente.

O gasto militar total cresceu nestas duas décadas à astronômica cifra de 1,74 trilhão de dólares, quase o dobro que em 1992, o que leva a corrida armamentista para outros estados que se sentem ameaçados. A duas décadas do fim da guerra fria, contra quem serão usadas essas armas?

Deixemos as justificativas e egoísmos e procuremos soluções. Desta vez, todos, absolutamente todos, pagaremos as consequências da mudança climática. Os governos dos países industrializados que atuam desta forma não deveriam cometer o grave erro de pensar que podem sobreviver um pouco mais às nossas custas. Seria impossível de parar as ondas de milhões de pessoas famintas e desesperadas do Sul para o Norte e a revolta dos povos perante tamanha indolência e injustiça. Nenhum hegemonismo será possível então. Que cesse o saque, cesse a guerra e avancemos para o desarmamento e a destruição de arsenais nucleares.

Temos urgência de uma mudança transcendental, e a alternativa é construir sociedades justas, estabelecer uma ordem internacional mais equitativa, baseada no respeito a todos; assegurar o desenvolvimento sustentável às nações, especialmente do Sul, e pôr os avanços da ciência e a tecnologia a serviço da salvação do planeta e da dignidade humana.

Cuba aspira que o bom senso e a inteligência humana se imponham sobre a irracionalidade e a barbárie.

Muito obrigado (Aplausos).

23.6.12

Pan




Jan Garbarek - Pan from album "Rites" 1998

Golpe branco no Paraguai?



Artigo

Golpe branco no Paraguai?

Emir Sader

Fernando Lugo esteve praticamente durante todo seu mandato sob ameaça de impeachment da oposição. Era um reflexo da fragilidade de apoio ao governo no Congresso. Essa fragilidade nasceu já na campanha eleitoral, quando Lugo aparecia como o único líder capaz de derrotar a ditadura de mais de 30 anos do Partido Colorado, mas os movimentos sociais não acreditavam nessa possibilidade e se mantiveram distanciados da campanha quase até o seu final.

Lugo buscou o apoio do principal partido opositor, o Partido Liberal, moderado, mas sem unificar todas as forças anti-coloradas, seria impossível terminar com a ditadura. Os movimentos sociais, por seu lado, não gostavam dessa aliança, sem oferecer alternativa a Lugo.

Quando finalmente os movimentos sociais – ou grande parte deles – se decidira a participar do processo eleitoral, haviam chegado tarde, com pouco tempo para campanha, além de que foram às eleições divididos e só conseguiram eleger dois parlamentares. Lugo começou o governo sem base parlamentar própria, dependente do Partido Liberal e com um vice, deste partido, que rapidamente foi passando a se opor a seu governo, embora, naquele momento, a maioria do Partido Liberal o apoiasse.

Essas travas políticas dificultaram muito o governo de Lugo, que só mais recentemente assumiu uma postura mais decidida, buscando avançar na reforma agrária e em outras medidas, às quais se opuseram todos os partidos tradicionais.

Foram se seguindo enfrentamentos grandes, especialmente no campo, com a resistência dos grandes proprietários de terras, quase todos ligados à produção de soja com transgênicos para exportação, diante das reivindicações dos movimentos camponeses. O sangrento episódio desta semana foi mais um, o mais selvagem, com 11 camponeses e 5 policiais mortos.

Foi a gota d’agua que a oposição esperava para tentar derrubar Lugo, ante mesmo do final do seu mandato, no primeiro semestre do ano próximo. O Partido Liberal decidiu a saída dos membros do partido do governo, praticamente esvaziando-o e somando-se à tentativa de impeachment, que pretende uma via rápida, um golpe branco para derrubar o primeiro presidente popular em tantas décadas da sofrida historia paraguaia.

Mesmo acusando Lugo pelos sangrentos enfrentamentos e criticando a substituição dos ministros diretamente responsáveis por eles por outros ainda piores, os movimentos populares – a grande maior camponeses – se deram conta de como a situação é usada pela direita para tentar terminar com o governo Lugo, circunstância em que eles seriam as principais vitimas e se mobilizam para tentar impedir o impeachment.

Esse é o cenário hoje em Assunçao: o Congresso tentando uma derrubada rápida de Lugo, que apresentou sua defesa. Movimentos populares concentrados na praça central da cidade, em frente ao Congresso. Chanceleres dos países da Unasul presentes no país, ameaçando o isolamento de um eventual novo governo, caso se configure um golpe branco contra Lugo. As próximas horas serão decisivas no futuro do país.

Da mesma forma que Hugo Chavez, Lula, Evo Morales, Rafael Correa, Cristina Kirchner, Lugo pode se valer dos ataques golpistas da oposição para virar o jogo a seu favor. Ou ser derrubado pela direita, que colocará um governo provisório até as eleições do ano que vem, que ganhará contornos de enfrentamentos abertos entre as forças de Lugo e a oposição. Espera-se que desta vez aquelas marchem unidas desde o começo e possam destravar os empecilhos que bloqueiam o governo de Lugo e ameaçam derrubá-lo.

15.6.12

Entendendo a Síria

Oriente Médio

Iminente golpe de estado na Síria - A OTAN prepara uma vasta operação de intoxicação

por Thierry Meyssan

Os estados membros na OTAN e do CCG preparam um golpe de Estado e um genocídio sectário na Síria. Caso pretendam opor-se a estes crimes, ajam quanto antes; façam circular estes artigos na Net e alertem os vossos conhecidos. Dentro de poucos dias, talvez a partir de s exta-feira 15 de Junho ao meio-dia, os sírios que pretenderem ver as cadeias de televisão nacionais terão estas substituídas nos écrans por televisões criadas pela CIA. Imagens realizadas em estúdio mostrarão cadáveres imputados ao governo, manifestações populares, ministros e generais apresentarão a sua demissão, o presidente el-Assad tratando de fugir, os rebeldes reunindo-se no coração das grandes cidades e um novo governo instalando-se no palácio presidencial. Esta operação, diretamente monitorizada a partir de Washington por Ben Rhodes, conselheiro adjunto da segurança nacional dos Estados Unidos, visa desmoralizar os sírios e preparar um golpe de Estado. A OTAN, que esbarrou no duplo veto da Rússia e da China, conseguiria assim conquistar a Síria sem ter de atacar ilegalmente. Qualquer que seja o julgamento sobre os atuais acontecimentos na Síria, um golpe de Estado poria fim a toda a esperança de democratização.

De maneira absolutamente formal, a Liga Árabe pediu aos operadores de satélite Arabsat e Nilesat para cortarem a transmissão dos media sírios, públicos e privados (Syria TV, Al-Ekbariya, Ad-Dounia, Cham TV, etc.). Existe um precedente, dado que a Liga Árabe tinha já procedido à censura de televisão líbia de forma a impedir os dirigentes da Jamahiriya de comunicarem com o seu povo. Não existe rede hertziana na Síria, onde as televisões são exclusivamente captadas por satélite. Mas este corte não deixaria os écrans apagados. De fato, esta decisão é apenas a parte emersa do iceberg. Segundo informações de que dispomos, diversas reuniões internacionais foram levadas a cabo na semana passada para coordenar a operação de intoxicação. As duas primeiras, de natureza técnica, tiveram lugar em Doha (Qatar), a terceira, política ocorreu em Riade (Arábia Saudita).

Uma primeira reunião juntou os oficiais de guerra psicológica “embedded” em certas cadeias de satélite, entre as quais Al-Arabiya, Al-Jazeera, BBC, CNN, Fox, France 24, Future TV, MTV. Sabe-se que desde 1998 os oficiais da United States Army's Psychological Operations Unit (PSYOP) foram incorporados na redação da CNN; a partir daí, esta prática foi estendida pela OTAN a outras estações estratégicas. Redigiram antecipadamente falsas informações, segundo um “storytelling” elaborado pela equipa de Ben Rhodes na Casa Branca. Um procedimento de validação recíproca foi posto em marcha, cada media devendo citar os outros de forma a contribuir para torná-los credíveis aos ouvidos dos telespectadores. Os participantes decidiram igualmente requisitar não apenas as cadeias da CIA para a Síria e o Líbano (Barada, Future TV, MTV, Orient News, Syria Chaab, Syria Alghad), mas também outras quarenta cadeias religiosas wahhabitas, as quais apelarão ao massacre confessional aos gritos de “Os cristãos para Beirute, os alauitas para o túmulo!”

A segunda reunião juntou engenheiros e realizadores, visando planear a fabricação de imagens de ficção, misturando uma parte em estúdio a céu aberto e uma parte de imagens de síntese. Os estúdios foram arranjados durante as últimas semanas na Arábia Saudita, de modo a reconstituir aos dois palácios presidenciais sírios e os principais lugares de Damasco, Alepo e Homs. Já havia estúdios deste tipo em Doha, mas eram insuficientes.

A terceira reunião agrupou o general James B. Smith, embaixador do EUA, um representante do Reino Unido e o príncipe Bandar Bin Sultan (a quem o presidente George Bush pai designou como seu filho adotivo, ao ponto de a imprensa norte-americana o ter designado como “Bandar Bush”). Tratava-se de coordenar a ação dos media e a do “Exército Sírio Livre”, do qual os mercenários do príncipe Bandar formam o grosso dos efetivos.

A operação, em gestação desde há meses, foi precipitada pelo conselho de segurança nacional dos EUA, depois de o presidente Putin ter notificado a Casa Branca de que a Rússia se oporia pela força a toda a intervenção militar ilegal da OTAN na Síria.

Essa operação compreende dois vetores simultâneos: por um lado, diversificar as falsas contra-informações; por outro lado, censurar toda e qualquer a possibilidade de lhes responder.

A interdição das TVs por satélite como forma de conduzir uma guerra não é uma novidade. De fato, sob pressão de Israel, os EUA e a União Europeia impuseram sucessivas interdições a cadeias libanesas, palestinas, iraquianas e líbias. Nenhuma censura foi imposta a cadeias de satélite provenientes de outras partes do mundo.

Tão-pouco a difusão de notícias falsas constitui uma estreia. Entretanto, quatro novos passos significativos foram dados na arte da propaganda durante o decurso das últimas décadas:

- Em 1994 uma estação de música Pop, a “Radio Libre des Mille Collines” (RTML) deu o sinal para o genocídio no Ruanda apelando a “Matar as baratas!”.

- Em 2001 a OTAN utilizou os media para impor uma interpretação dos atentados de 11 de Setembro e justificar os ataques ao Afeganistão e ao Iraque. Nesta altura, já Ben Rhodes tinha sido encarregado pela administração Bush de redigir o relatório da Comissão Kean/Hamilton sobre os atentados.

- Em 2002 a CIA utilizou cinco cadeias, Televen, Globovision, Meridiano, ValeTV et CMT, para fazer crer que manifestações monstruosas tinham forçado o presidente eleito da Venezuela, Hugo Chávez, a demitir-se, dado que tinha sido vítima de um golpe de Estado.

- Em 2011, quando da batalha de Trípoli, a OTAN fez realizar em estúdio e difundir pela Al-Jazeera e pela Al-Arabiya imagens de rebeldes líbios entrando na praça central da capital enquanto eles realmente ainda se encontravam longe da cidade, de forma que os habitantes, persuadidos de que a guerra estava perdida, cessaram toda a resistência.

Doravante, os media já não se contentam em apoiar a guerra, eles praticam-na diretamente. Este dispositivo viola os princípios básicos do direito internacional, a começar pelo artigo 19 de Declaração Universal dos Direitos do Homem relativo ao facto de “receber e difundir, sem consideração de fronteiras, as informações e as ideias por qualquer meio de informação”. Sobretudo, ele viola também as resoluções da Assembleia-Geral da ONU, adotadas no final da Segunda Guerra Mundial, para evitar as guerras. As resoluções 110, 381 e 819 interdizem “os obstáculos à livre troca de informações e de ideias” (no caso vertente, o corte das cadeias sírias) e “a propaganda de natureza a provocar ou encorajar toda a ameaça à paz, rotura da paz ou outro ato de agressão”.

No direito, a propaganda da guerra é um crime contra a paz, o mais grave dos crimes, dado que ele torna possíveis os crimes de guerra e os genocídios.

10/Junho/2012

O original encontra-se em www.domenicolosurdo.blogspot.pt

 Tradução de JCG.

Este artigo encontra-se em http://resistir.info

5.6.12

O Amor da Amizade

 
 
Reza a lenda que os quatro elementos criaram a Flor de LÓTUS. O fizeram no dia em que separaram-se. Resolveram criar algo especial, tinha de ter harmonia, assim expressaria suas diferenças e sua independência e serviria de símbolo e exemplo ao homem. Uma planta, cujas raízes estivessem no fundo de um lago, portanto presa a terra;a haste na água e as flores e folhas, teriam brisa do vento e calor do fogo. Lótus tornou-se o símbolo da expansão espiritual, do sagrado, do puro. Ela vem ser a síntese do mais profundo e do mais elevado: suas raízes estão na profundidade deste mundo e sua cabeça erguida na totalidade da luz.

A lótus se encaixa perfeitamente no meu conceito de amizade. É profundo e luminoso o meu conceito de amor e amizade. Ser assim é natural, é intenso porque é aí que reside o verdadeiro poder de viver ...e enfrentar ...e amar.


O Amor da Amizade...

O amor é um ato da alma
não é uma definição
é uma constatação
a alma aspira pelo amor
e por ele sobrevive
usa a sua transparência.
não pode, não consegue esconder
é canto e voz da alma amar e realizar
a alma conhece o seu objeto elementar
espaço sem timidez
fiel e místico transforma contrários
instinto despertado não deixa escapar
reconstroe o desejo que se esgotou
refaz dores em alternativas
para quem o amor seja vivido
não freia os impulsos eróticos
e numa atmosfera de permissão,
continuamente age
como criadora dos desejos
não aceita contradição/negação
quando ama a alma não separa
igual aos caminhos sinuosos
move-se na ênfase a enveredar-se
ao encontro do equilíbrio visível,
para que assim...finalmente vencidos,
maravilhosamente vencidos,
possamos nos entregar
como se participássemos do último
e mais intenso momento de nossas vidas.
pode durar num olhar ou um tempo inteiro
a alma manterá o amor no limiar da vida
não importa se acertará ou errará
importa que a alma amará...
presa na profundidade da terra,
livre na luminosidade do ar.

Assim é a minha alma,

assim é o meu amor,

assim é minha amizade

tal como a flor de Lótus,
enraizada e profunda,
livre e iluminada.

della-porther

3.6.12

“Há muitos cânceres na sociedade que precisam ser extirpados”

“Há muitos cânceres na sociedade que precisam ser extirpados”

Para o presidente do Paraguai Fernando Lugo, muito foi feito, mas muito ainda resta para se fazer

Nilton Viana e Marcelo Netto Rodrigues,de Assunção (Paraguai)

Em uma das propagandas da recém-lançada TV Pública Paraguay – Jajotopa, um lutador de Jiu-Jitsu, uma “patricinha” com piercings e um indígena reforçam o orgulho de se falar guarani. No comercial seguinte, uma mulher pede que os políticos liberem mais recursos para que os desaparecimentos do seu esposo e de outras 500 militantes durante a ditadura militar (1954-1989) sejam esclarecidos. Por fim, surge uma outra vinheta sobre um programa chamado “35”, que abordará os anos em que Stroessner ficou no poder.

Só isso já seria suficiente para perceber que desde 2008 – quando o até então bispo católico Fernando Lugo assumiu a presidência após derrotar o Partido Colorado, no poder havia 61 anos – o vizinho com quem talvez tenhamos mais dívidas históricas vive um momento novo.

Nesta entrevista exclusiva ao Brasil de Fato, Lugo – hoje já dispensado completamente de suas funções eclesiais, mas nem por isso distante dos princípios da Teologia da Libertação – explica, entre outras coisas, por que não seguiu os passos de Chávez, Correa e Evo e alterou a Constituição para que pudesse se reeleger, comenta os limites institucionais aos quais está atrelado e fala sobre o câncer que acaba de enfrentar.

Apesar de Lugo não citar nominalmente os seis candidatos de esquerda que pleiteiam ser seu candidato nas eleições em 2013, vale ressaltar que duas mulheres encontram-se na disputa.


Brasil de Fato Presidente, agradecemos a disposição de falar com o Brasil de Fato, que é, como o senhor sabe, atrelado às lutas do povo e dos movimentos sociais.

Fernando Lugo – Com muito prazer. A alegria é minha também, de com partilhar ideais comuns. Vejo aqui na capa de uma das edições do jornal que vocês me trouxeram de presente uma matéria sobre o Xingu. Isso me faz lembrar de alguns bispos do Brasil que trabalharam muito pelas reivindicações dos mais desfavorecidos. O Xingu é um paradigma de luta.

 Muitos bispos como dom Pedro Casaldáliga e tantos outros da Teologia da Libertação... Por falar nisso presidente, quando da sua eleição no dia 20 de abril de 2008, o nosso jornal deu como manchete: “A Teologia da Libertação chega ao poder no Paraguai”. Após quase 4 anos de mandato, podemos dizer que os princípios dela continuam a influenciar o governo Lugo?

A Teologia da Libertação tem me ajudado como pastor, sacerdote, bispo a ter uma visão diferente da sociedade. Uma visão com suas contradições, desequilíbrios, iniquidades. E, sobretudo uma visão com o desafio e o compromisso de poder reverter essa situação. Eu acredito que os princípios básicos desta Teologia, ao se partir da realidade, nos têm levado, nesse governo, a elaborar 12 programas emblemáticos para, de alguma maneira, dar resposta à gente mais desfavorecida do país: as mulheres, crianças de rua, camponeses, pessoas da terceira idade, desempregados, jovens, indígenas. Quer dizer, eu creio que esses princípios, entre eles, o de não aceitar passivamente uma realidade que é escandalosa, estão muito presentes nesses programas. Esse fosso que os bispos em Medellín [em 1968, na segunda Conferência Episcopal da América Latina e do Caribe (Celam)] diziam existir entre ricos e pobres, entre pessoas que têm possibilidade e acesso ao mercado, à tecnologia, ao estudo. Esse fosso digital que continua sendo ainda hoje escandaloso... De modo que eu creio que, sim, esses programas são inspirados profundamente nos princípios da Teologia da Libertação.

Como tem sido a posição da Igreja Católica em relação ao seu governo?

A Igreja é muito institucional no Paraguai. Mas também há um conceito de Igreja enquanto “povo de Deus”. E esta Igreja é a que tem nos ajudado fundamentalmente enquanto base popular do eleitorado paraguaio que nos ajudou a chegar à presidência em 2008. Além dela, dessa Igreja de Comunidades de Base, existem agentes pastorais, líderes, inclusive alguns ministros, que sem se apartarem da fonte essencial dos seus sermões, nos têm ajudado na conscientização do povo. Inclusive até com alguns bispos, continuamos tendo conversas bem fluidas porque há uma coincidência muito grande. A Igreja sempre afirmou que não se pode identificar com nenhum projeto político temporal. O seu projeto é de longo prazo, mais definitivo. Mas em alguns aspectos coincide com projetos temporais, sociais sobretudo. E nesse sentido, temos uma comunicação fluida com pastores da Igreja Católica e não-católica também. Temos uma relação institucional importante. A Igreja continua desenvolvendo no Paraguai uma atividade complementar em termos de educação, saúde, que muitas vezes o Estado não tem a estrutura suficiente para responder eficientemente esses desafios.

Falando de futuro, sabemos que a legislação paraguaia não permite a reeleição. O senhor já tem em mente o candidato que vai apoiar?

O processo paraguaio tem etapas. Na primeira etapa não se pode fazer tudo. Eu creio que nessa etapa, de romper a partir de dentro, em um processo institucional, eleitoral, já foi difícil ganhar de um partido como o Colorado. O processo eleitoral foi transparente, limpo, legal, com um respaldo popular muito forte. E o mais importante que aparece nas conversas com o povo, nas bases populares, é a continuidade do processo. Um processo se iniciou em 2008. E agora temos que garanti-lo. Hoje, falamos muito dos perfis dos candidatos que podem garantir essa continuidade. Não de nomes específicos. Seguramente que com os meses, em outubro, novembro, dezembro, os cidadãos terão mais claro quem será essa pessoa.

Por que o senhor não tentou reformar a Constituição para que a reeleição fosse possível, como fizeram Chávez, Evo e Correa?

Porque cremos que a constituição das leis tem um caráter universal. E a princípio, estávamos em desacordo em transformar a lei para favorecer uma pessoa. Mas se isso for um desejo popular, uma resposta também institucional ao o que ocorre no país, eu acredito que hoje há um grande consenso que o próximo presidente que assuma em 15 de agosto de 2013 em dois ou três meses de governo, sem nenhuma dúvida, terá que convocar uma Assembleia Nacional Constituinte. Porque a nossa Constituição é de 1992. E em 20 anos muitas coisas mudam. Apesar de ser uma Constituição que, tendo sido escrita após a ditadura no Paraguai, também alterou certos aspectos e possui um conteúdo mais democrático. Da mesma forma, em 20 anos, o país mudou em muitas coisas.

O senhor soma-se aos já citados atuais presidentes progressistas da América Latina. Chávez, por sua vez, enfrentará as urnas novamente no final do ano. De que forma o senhor pretende apoiar a candidatura dele na Venezuela?

A América Latina, começando por alguns países também da América Central e também Venezuela, Brasil, Bolívia, Equador, em um momento Chile, Uruguai, Argentina e Paraguai, estamos como que embarcados em um primeiro momento num grande projeto de integração. Em um segundo momento de poder dinamitar certas condições de nossos países que não têm um crescimento equitativo. A eleição que Chávez enfrentará em outubro será o povo venezuelano que decidirá o futuro do seu país. Nós temos muito respeito com os processos nacionais. Mas, acredito que temos uma garantia, sem nenhuma dúvida. Que todos esses governos progressistas da América Latina, mesmo que com uma diferença abismal, são melhores do que aqueles governos ditatoriais que impuseram a pobreza a várias populações pelos países da América Latina. Acreditamos que esses governos progressistas, se não dão uma solução mágica porque não existe solução mágica em termos da política, em termos sociais, dão respostas eficientes de transparência, com a participação cidadã, que é a maior garantia de fortalecer e consolidar nossas democracias no continente.

Como outros governantes progressistas, o senhor apresentou um diagnóstico de câncer. Como está a sua saúde? Como o senhor vê tamanha coincidência de um quadro clínico semelhante ao seu acontecendo com Chávez, Lula, Dilma, Cristina (…).

Alencar [José Alencar]. Ele foi o primeiro que me visitou no Sírio Libanês. Um homem cheio de esperança. Eu o recordo com respeito e gratidão por suas visitas de solidariedade no hospital. O mesmo com Lula. Um grande companheiro, um grande irmão. Eu acredito que o poder de ter superado o câncer nos leva a muitas reflexões pessoais. Em primeiro lugar, como é possível que esses presidentes progressistas sejam acometidos desse mal. Há muitos cânceres na sociedade que precisam ser extirpados. Outros aniquilados com quimio e radioterapia. Cânceres da sociedade como o egoísmo de tanta gente. De uma sociedade preparada somente para favorecer a grupos muito pequenos de privilegiados. Os cânceres da pobreza, do analfabetismo. Os cânceres dos fossos digital e educacional. Quanto a minha saúde, ela vai muito bem. E ela é prova de que o câncer pode ser vencido. Que existem possibilidades reais de se vencer esses cânceres da sociedade. E que também atacaram pessoas individuais como Lula, Dilma, agora em Chávez, Alencar. É possível extirpar pela raiz esse mal que afeta a sociedade.

Como o senhor vê a proposta da Alba, que ultrapassa os acordos entre governos, mas também envolve iniciativas de integração popular, entre as organizações populares de todo continente?


Houve muitas tentativas de integração da América Latina. Desde a Aliança para o Progresso, na década de 1950 e 1960, que nos enviaram de fora e do Norte, e o que se quis fazer com a Alca. Mas existem outras experiências muito mais genuínas, mais populares, que dão mais garantias de integração cidadã. É nessa linha que eu vejo a Alba. A Alba não foi elaborada num grande laboratório, nasceu da experiência, da realidade, da necessidade de integração de cidadãos, artistas, trabalhadores, políticos, intelectuais, pequenos comerciantes. Tem o seu germe numa grande discussão regional e de pessoas e países que vivem em situações similares que necessitam da solidariedade internacional.

A proposta do Celac (Comunidade dos Estados Latino-americanos e Caribenhos) seria uma forma eficiente de se contrapor à OEA?

Como disse, são muitas as tentativas. O Grupo do Rio, agora a Celac. Unasul, Mercosul. Celac é a experiência da inclusão na integração. Na OEA, não está Cuba. Na Celac, está. Para os chefes de Estado latino-americanos, a grande injustiça que se cometeu na OEA contra Cuba é como a pedra no sapato de muita gente. Onde há posturas quase irracionais e muito rígidas. Por isso, Celac é uma experiência de integração inclusiva especialmente pensando na república irmã de Cuba, que por mais de 50 anos segue suportando o seu bloqueio econômico irracional. De modo que a Celac pode ser um caminho. Não sei se suplantará totalmente o que é ou o que foi a OEA, que nasce em outro contexto, num outro tempo, e que cumpriu uma grande missão. Mas, hoje, por exemplo, até mesmo a Unasul, com uma estrutura muito mais flexível, também terá as suas comissões de fiscalização de eleições, que me parecem muito interessantes dentro do contexto do que é integração, de transparência nos processos democráticos.

 Retomando a questão mais interna do Paraguai, quais foram as principais dificuldades que o senhor encontrou para implementar as mudanças no governo após 60 anos de governo colorado?

Dificuldades pessoais em primeiro lugar. Chegamos ao governo, ao Palácio de López, como diziam muitos, sem ter a experiência de ser gerentes de um Estado como o Paraguai. Isso tem o seu pró e o seu contra. Chegamos sem preconceitos. Mas encontramos muitas dificuldades de caráter institucional. Instituições importantes, como o ministério da Educação e da Agricultura, destruídas, nas quais as práticas de gerenciamento do Estado estavam baseados no clientelismo, como se o saque fosse para ser repartido dentro de um grupo político determinado entre pessoas que compartilhavam os mesmos interesses. Romper com essa prática política é o mais difícil e paradigmático da grande tentativa que estamos fazendo dentro do governo. A outra coisa que temos que reconhecer é que não se veem técnicos excelentes em todos os postos e lugares porque chegamos ao governo como “Aliança Patriótica para a Mudança”, que é uma gama de movimentos e partidos, com uma variedade interessantíssima que é uma riqueza, mas possui também muitas debilidades. Nos custa muito construir o consenso. Muitas vezes para um cargo determinado, passamos horas inteiras discutindo quem é a pessoa exata para esse posto exato e que pode ter uma linha determinada na tarefa do gerenciamento do Estado. Sem dúvida, ter um Parlamento adverso não tem sido fácil para a governabilidade nesses três anos e meio. Se se revisa as atas do Parlamento sempre houve ameaças de processos políticos com o intuito de desestabilizar o governo. Se há um mérito nesse governo é o de haver sido aberto e inclusivo, de não perseguir ninguém.

Recentemente, no Brasil, foram anunciados os membros da Comissão da Verdade. Vimos que na TV Pública Paraguay há uma propaganda pedindo mais recursos para se esclarecer os 500 casos de desaparecidos durante a ditadura do Stroessner. Como se dá esse processo aqui?

Aqui também se constituiu uma Comissão de Verdade e Justiça. A ditadura paraguaia caiu em 1989 e foi só no nosso governo que encontramos as primeiras tumbas de desaparecidos políticos. Passaram-se 19 anos. E temos que reconhecer que é mérito de nossa vontade política. Aqui no Paraguai, ninguém se esquece que houve um plano Condor, de acordos entre os ditadores da época, de ter livre acesso e ação. Transformamos em museu um campo de concentração em Missones. Aqui mesmo há o Museu da Memória. Temos participado da busca de desaparecidos. Mas nem tudo depende do poder público. Há muitos processos que dependem da Justiça paraguaia. E oxalá que sejam agilizados para que se encontrem os culpados para que sejam submetidos à justiça.

A sua família também passou por perseguições...

Sim, meu pai foi preso 20 anos durante a ditadura. Todos os meus irmãos e minha mãe passaram por cárceres do ditador Stroessner. Eu tenho um irmão que faleceu no exílio. Há muitas pessoas que querem colocar um pano de esquecimento, mas não podemos pensar em um futuro sem escavar a memória do passado. Não com ares de vingança, mas de justiça. A justiça deve ser a base, um dos pilares da construção de um novo país.

Como se dá a sua relação com os militares?

Os militares no Paraguai talvez tenham sido os que mais se adaptaram à democracia. E temos tentado que as Forças Armadas tenham um novo tipo de relacionamento com a sociedade civil. Há pouco, tivemos uma experiência de emergência nacional e os militares se colocaram à disposição para o resgate de pessoas. E tem um orçamento, depois de 20 anos, mais razoável para construir estradas, levar água potável, acolher desabrigados. E o Paraguai participa nas Nações Unidas de um programa do Exército voltado para a paz. Assim, hoje, temos essa tendência: de preparar militares não para a guerra, mas para a paz em um Estado democrático.

Como as questões de gênero e indígena têm sido tratadas no seu governo?

Temos uma excelente ministra da mulher, que como já disse, não coincide comigo em muitos aspectos, mas tem as mãos livres para fazer o que a filosofia de gênero hoje exige no mundo moderno. Com os indígenas, existem 519 comunidades indígenas no Paraguai. Sem dúvida que não podemos solucionar o problema de décadas da noite para o dia. Temos denúncias internacionais para que povos possam recuperar suas terras ancestrais. É certo que podemos ver nas ruas de Assunção indígenas, mas a solução também passa por uma mudança cultural. Como fazer com que povos que eram caçadores possam ser agricultores ou tenham outras atividades dentro de suas comunidades.

 Como o senhor lidou durante o mandato com as ameaças de morte?

As ameaças já haviam surgido quando eu ainda era bispo em San Pedro. Diziam que a experiência de dom Oscar Romero ia se repetir no Paraguai. Durante a campanha e quando iniciamos o governo também apareceram as ameaças. São os profetas do Apocalipse que somente anunciam destruição, sangue e morte. Que não faltam. Sempre estão aí presentes. A insegurança é um grande tema para todo o continente. Queremos melhores dias para o Paraguai. Algumas dessas ameaças não são sérias. Já outras, tem que se levar em conta, pois, acredito que o sistema de segurança das autoridades legitimamente constituídas dependem do Exército paraguaio. Eu, pelo menos, tenho a certeza da segurança oferecida porque são profissionais. Não é possível dizer que isso nunca vai ocorrer ou que pode ocorrer. Estamos, de alguma maneira, nas mãos de uma instituição importante para a vida nacional que é o Exército paraguaio.

 Qual tem sido a posição do governo dos Estados Unidos?

Assim que Obama foi eleito, gerou-se muita expectativa, ilusão. Ele mesmo anunciava que os Estados Unidos mudaria a sua política em relação à América Latina, o que é necessário. Nesse sentido, os Estados Unidos têm tido uma política exterior em referência ao Paraguai mais respeitável do que as anteriores. É um governo que nas suas relações internacionais tanto faz falar com a Argentina, com o Brasil ou com outro país do continente. Penso que os Estados Unidos entenderam que no Paraguai há um governo que se faz respeitar e que também respeita profundamente as políticas exteriores dos outros países e os seus processos histórico- sociais.

E as suas relações com o governo brasileiro? Quais dificuldades e avanços?

Facilitou muito essa espécie de feeling com o Lula. A sensibilidade com os mais humildes facilitou muito nossa relação com o Brasil. Mais que isso, nossas justas reivindicações que já levavam anos, décadas, em referência à soberania energética, em relação ao preço da energia de Itaipu, o companheiro presidente Lula nos ajudou muitíssimo porque entendeu que as razões que apresentavam os paraguaios eram razões de peso, que não se podia debater. E os seis grandes eixos que apresentamos foram aceitos pelo Brasil. Mais que isso, na região, como aliado estratégico, o Brasil é um país que tem uma liderança mundial, que é como se fosse capaz de sentir que, tanto para o Brasil quanto para Lula, a ninguém convinha ter um vizinho pobre. Essa experiência pessoal trasladada à uma política de Estado foi entendida pelos dois países.

Temos ouvido do movimento camponês paraguaio que a reforma agrária não avançou. Quais foram as dificuldades para isso?

A estrutura econômica do Paraguai é baseada na posse da terra, que é histórica. Um dos aspectos para iniciar a reforma agrária seria possuir um padrão de posse da terra, que não existe. Isso bloqueou bastante o processo de reforma agrária. Avançamos na discussão de que reforma agrária não é só repartir terras como tem sido feito historicamente, que tem outros componentes, como o sistema produtivo. As pequenas propriedades se inseriram no sistema produtivo paraguaio. Esse crescimento de 15,3% no ano de 2010 se deu em grande parte devido à multiplicação da produtividade dos pequenos agricultores do país.


Soubemos que o narcotraficante brasileiro, Fernandinho Beira- Mar tinha uma fazenda em nome de “laranjas” fruto dos crimes no Paraguai, e que o governo brasileiro e o Poder Judiciário disponibilizaram essa área para o governo do Paraguai. Qual foi o destino que foi dado à essa área?

O narcotráfico é um problema global. Conversei com a presidenta Dilma, em Caracas. Se não tivermos uma estratégia regional ou continental será muito difícil que países isoladamente possam superar esse grande flagelo. É preciso que esse assunto entre na agenda de discussão. Dentro desse marco, temos trabalhado muito bem com o Brasil, em referência à cooperação na luta contra o narcotráfico, o que fez com que pessoas como Fernandinho Beira-mar estejam presos. Mas falta uma questão: o que fazer dos seus bens? Em outros países a legislação favorece a confiscação dos seus bens, como Colômbia. Aqui, já foram confiscados veículos, aviões, que não se podem utilizar porque estão a cargo da Justiça. Falta uma lei para garantir que esses bens possam ser utilizados. Eu creio que o que foi adquirido ilegalmente, o Estado paraguaio ou qualquer Estado tem que ter a capacidade e o sustento legal para poder recuperar esses bens e colocar a serviço da comunidade.


O presidente Lugo deixará o governo com o sentimento de dever cumprido?

Muitos pensam de maneira quase pendular. Muitos dizem que Lugo já fez o seu papel e é suficiente. E outros dizem que Lugo não fez nada. Eu sempre digo que a virtude está no meio. Muito foi feito, mas muito ainda resta para se fazer. De alguma maneira, temos tomado parte de um processo de transformação do Estado paraguaio. Isso ninguém pode nos negar. Que 2008 é um capítulo especial na página da história política do país da qual somos partícipes e sujeitos. Por outro lado, há muita tarefa para se fazer, o ideal, a utopia, a lógica da equidade ainda está longe. Fernando Lugo, no dia 15 de agosto de 2013, seguramente que deixará a tarefa de governar o país para um grupo de patriotas, de diferentes partidos, que seja includente, aberto, democrático e seguirá participando, na medida que puder, ajudando o processo paraguaio de transformação. Um processo que tem que ser dinâmico, ter um movimento constante. Por isso, a grande preocupação é que esse processo não termine. Que se possa garantir o seu seguimento. E de alguma maneira, seguramente, que Fernando Lugo estará tranquilo, porque, pelos menos, temos sido partícipes, testemunhas e sujeitos de um processo de transformação que oxalá continue.


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