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9.12.12

Com a palavra: a jornalista Tina Brown

Homem se sente ameaçado diante de mulher forte

Por Raul Juste Lores



Lendária editora das revistas Vanity Fair e New Yorker, atual diretora da Newsweek e criadora do site Daily Beast, a jornalista Tina Brown chega ao Brasil pelo seu lado ativista.

Ela vem para realizar a conferência Women in the World [Mulheres no mundo], que lançou em 2010 para debater desafios de direitos igualitários e educação para mulheres no planeta.

Desde a primeira conferência, Brown reuniu de ativistas africanas e asiáticas a celebridades amigas, como Hillary Clinton, Meryl Streep e Angelina Jolie.

“Fico muito estimulada quando escuto as mulheres de países onde cada direito ainda precisa ser batalhado. Acho que as americanas ficaram complacentes, mais passivas, já não marcham mais”, diz a britânica naturalizada americana.

Ela recebeu a Folha na sede do conglomerado IAC, o icônico primeiro prédio do arquiteto Frank Gehry em Nova York, atrás do High Line.

Um dos temas na campanha presidencial americana foi a chamada “guerra contra as mulheres” de alguns candidatos conservadores. Ainda é guerra?

Tina Brown – Esta eleição se tornou muito importante porque a Corte Suprema está a apenas um juiz de mudar a maioria que sustenta a aprovação do aborto. Mais um juiz conservador e a lei pode ser revertida.

Mulheres podem achar os EUA uma terra de oportunidades, de abertura, de se vestir como quiser, falar o que quiser, mas havia esse risco de um grande salto para trás na política reprodutiva.

Nós nem marchamos mais sobre políticas contraceptivas. Liberdades podem ser demolidas e desaparecer muito rapidamente.

Ainda temos talebans texanos tentando interferir na saúde da mulher.

As mulheres ocidentais estão lutando menos?

T.B. – Nunca me vi como feminista, mas vendo o que acontece aqui e no Egito penso que deveríamos estar fazendo muito mais. Uma ativista liberiana riu de nós, perguntando, “onde estão as mulheres americanas, que não estão marchando para a Casa Branca?”.

De Angela Merkel a Dilma Rousseff, é comum subordinados e mesmo a mídia se referirem a elas como mulheres duras ou “damas de ferro”. As mulheres se endurecem muito nesses cargos?

T.B. – Thatcher era uma mulher muito calorosa pessoalmente, sexy, sedutora, eu a conheci. Mas os adjetivos são sempre pejorativos.

Demos uma capa sobre trabalhos militares pesados e a estrela da reportagem era uma mulher que descia de um helicóptero em operações de risco de resgate.

Ela é divorciada, tem um filho de dez anos. Ela me contou que, quando a reportagem saiu, seu ex-marido ligou para ela e disse que ainda bem que não eram mais casados. Disse que sentia que seu 'órgão' pareceria menor depois disso. O sucesso dela encolhia sua masculinidade. Incrível como os homens ainda se sentem ameaçados diante de mulheres fortes.

Mas os homens não estão mudando?

T.B. – Olha, precisamos de aliados e normalmente eles são bons pais. O pai da [paquistanesa que sofreu um atentado] Malala a apoiou para estudar. Parte do movimento é de pais mais iluminados, homens que lutam pelos direitos femininos. As mães nesses países não têm direitos.

Ainda há resistência a uma mulher presidente nos EUA? Ou Hillary pode ser?

T.B. – Vocês já têm a sua, incrível, nós nada ainda. Trágico que não tenhamos. Foi mais fácil eleger um afroamericano que uma mulher. E ela deveria ter sido antes dele, era a hora dela. Ela teria sido uma grande presidente.

Os EUA deveriam exigir mais respeito aos direitos das mulheres de aliados como Arábia Saudita e Egito?

T.B. – O mais importante é não ser culturalmente desastrado, como foi o governo Bush. E nisso os EUA vão muito mal. Chegar em um país e tentar impor, sai tudo errado.

As americanas são obcecadas com a ideia de que as sauditas não possam dirigir. Mas, para elas, o acesso à educação é muito importante. Não poder usar um tailleur não é tão relevante para elas. Não dá pra consertar de fora, nós não conseguimos consertar nem nosso próprio país.

A redação do New York Timesé dirigida por uma mulher e Arianna Huffington e você estão entre as mais poderosas mulheres da mídia. Há menos machismo?

T.B. – Está um pouquinho mais equilibrado, mas onde estão as mulheres na presidência dos meios de comunicação? Só lembro da Marissa Meyer, do Yahoo. Mulheres recebem muito mais escrutínio que homens. Hillary foi atirada no lixo pela mídia, foi muito maltratada. Somos muito analisadas, criticadas.

Michelle Obama precisa ser muito cuidadosa e evitar qualquer polêmica. Ela só pode cuidar da sua horta, fazer campanha para que as pessoas se exercitem mais.

Ela deve ficar louca por não poder falar de nada mais substantivo, mas seria uma gritaria se ela falasse.

O que espera ver no Brasil?

T.B. – Essa conferência que estamos fazendo é bem internacional, tem grandes mulheres e todo o mundo compartilhando histórias. As mulheres saem dali querendo fazer revoluções. Nizan Guanaes me ajudou a levar a conferência para o Brasil. E vocês têm mulheres incríveis.

Em tempos que, com qualquer probleminha, as pessoas vão chorar no sofá da Oprah, acho incrível mulheres que sofreram tanto, como Dilma e Michelle Bachelet, virarem presidentes na América do Sul.

Negócios no Brasil à vista?

T.B. – Adoraria ter o Daily Beast em português. Farei contatos. A Newsweek tem uma marca forte no Brasil e já decidimos que, das três sucursais que manteremos no mundo, a do Rio é uma delas. Mac Margolis é um grande correspondente.

Com o fim da versão impressa da Newsweek, quais são seus planos para o digital?

T.B. – Agora o que queremos é ter mais e mais assinantes no tablet e no celular. É um tempo de muitos desafios para a mídia. Decidimos que não dava para continuar no impresso. Custava US$ 40 milhões só para imprimir a Newsweek. Era um atraso gastar todo esse dinheiro quando as pessoas queriam ler online.

Vivemos um período muito turbulento, a mídia foi atingida duramente por todos os lados.

Todo mundo quer saber como fazer dinheiro, como fazer o negócio ser sólido financeiramente.

Sou otimista aqui em casa, a audiência do Daily Beast cresceu 85% em um ano e esperamos ter um público de 400, 500 mil usuários pagos na Newsweek digital.

A Newsweek é mais global, mais reflexiva, analítica, o Daily Beast é mais imediatista, rápido, divertido.

Como vai pagar essa operação?

T.B. – Teremos patrocínio para a Newsweek no iPad e teremos um medidor de acesso. Quem ler diversas reportagens vai poder pagar pelo que consumir. Não dá para distribuir seu trabalho de graça. É um erro que a imprensa já cometeu antes.

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[Raul Juste Lores, da Folha de S.Paulo]


Fonte: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/_ed723_homem_se_sente_ameacado_diante_de_mulher_forte

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