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25.5.13

com a palavra, Costa-Gavras


Constantin Costa-Gavras ,80 anos, cineasta.


 Constantin Costa-Gavras* descarta a bandeira de "cineasta político". "Faço filmes sobre o que vejo", diz. "Mas todos os filmes são políticos. Não há nada mais político do que um filme de super-herói."

Com 80 anos de idade e 55 de cinema, ele se tornou conhecido ao filmar o caso real do assassinato de um político grego em "Z" (1969), longa que lhe rendeu o Oscar de filme estrangeiro.
Sua vasta filmografia inclui ainda críticas a regimes militares -- "Estado de Sítio" (1972) e "Desaparecido - Um Grande Mistério" (1982)--, mas seu inimigo parece ter trocado as armas pelos labirintos do sistema financeiro.

Em 2012, Gavras adaptou o romance "Le Capital", do francês Stéphane Osmont. O resultado, "O Capital", retrata a sobreposição dos bancos à democracia pela perspectiva de um ambicioso executivo e tem previsão de estrear no Brasil no próximo dia 31.

 Ao tecer um retrato da crise financeira que assola o continente desde 2008, o cineasta greco-francês é enfático: "A Europa se tornou um grande supermercado".
Costa-Gavras lamenta os rumos atuais da União Europeia ao lembrar sua chegada à França em 1954, filho de um imigrante que lutara na ala esquerdista da Resistência Grega aos nazistas na Segunda Guerra Mundial (1939-45).

As atividades políticas de seu pai tornaram insuportável a vida na Grécia, então sob um regime militar, e a tentativa de emigrar para os Estados Unidos seria impossível com as duras leis do macarthismo --período de caça implacável a suspeitos de ligações com o comunismo.

Leia a seguir trechos da entrevista que ele concedeu por telefone à Folha da casa em que vive há 50 anos em Paris.

*

Folha - De onde nasceu a ideia para filmar "O Capital"?
Costa-Gavras - O filme começou a ser produzido antes da crise de 2008, pois queria retratar os riscos de endividamento que a Europa enfrenta já há vários anos. Essa preocupação levou-me a ler muitos romances com viés econômico, entre eles o de Osmont, que era assessor financeiro de algumas das maiores empresas da Europa.

O que há de marxista no filme?
Nada muito além do título. Nos dois casos, fala-se do dinheiro e do perigo da sua acumulação, mas o filme não é uma condenação ao capitalismo, apenas ao modelo atual. O dinheiro é um instrumento extraordinário, permite a comunicação, as trocas. Mas também é um mecanismo de corrupção.

O sistema financeiro criou uma nova estrutura de poder?
Em parte, sim e a obscenidade dessa nova forma de poder me causa indignação. A situação da Grécia, por exemplo, é realmente trágica.

Os países ricos da Europa estimularam o endividamento dos mais pobres, com o único objetivo de vender seus produtos. O capitalismo europeu não é tão agressivo quanto o americano, mas a Europa se tornou um grande supermercado.

A União Europeia está condenada se seguir assim. Os criadores do bloco queriam uma Europa política, social, cultural e econômica.

As maiores indústrias do continente hoje, porém, são as de produtos inacessíveis à maioria das pessoas. Quando eu era jovem, dizia-se que era preciso uma classe média forte para garantir a estabilidade, mas a classe média está cada vez menor e mais endividada.

 Mas é possível enxergar uma solução para essa crise?
As soluções devem partir dos economistas e das pessoas em quem votamos. Um cineasta apenas faz as perguntas certas. Nem todo político é corrupto, ainda que eles costumem ter uma debilidade que resulta de pensar apenas em ser eleitos.

Suas obras costumam ser identificadas como filmes políticos. Isso o incomoda?
É um conceito estranho, pois todos os filmes são políticos. Não há nada mais político do que um filme de super-herói, com um carro potente e salvando mocinhas indefesas. O impacto que o cinema de puro entretenimento exerce sobre as gerações é incalculável. Faço filmes sobre o que me inquieta. E só.

Suas inquietações se enquadram em alguma ideologia?
Minha mãe sempre me dizia: "Nunca se meta com política!". Jamais pertenci a um partido ou defendi uma ideologia, mas é preciso se posicionar, deixar claro se você está do lado do mais forte ou do mais fraco. A indiferença é confortável, mas paga-se um preço muito alto por ela.

É possível fazer filmes sem financiamento do governo?
Não há cinema sem apoio público. Nem nos Estados Unidos. Vejo, porém, uma geração de cineastas se valendo das facilidades tecnológicas para criar vozes próprias. Alguns são tão competentes que o Estado vai buscá-los.

Seus filmes já falaram de ditaduras, do Holocausto e do capitalismo. O que resta filmar?
Políticos têm carreiras, cineastas têm paixões. É a dúvida que move um diretor, a vontade de dividir os dilemas que ele carrega sozinho. E sempre haverá uma história a ser contada. Tenho 80 anos e não consigo imaginar minha vida sem fazer filmes.


 Costa-Gavras* -Lutrá Iréas, Arcádia, 12 de fevereiro de 1933) é um cineasta grego, naturalizado francês, que se notabilizou por seus filmes de denúncia política e, mais recentemente, de ficção social.



VIDA
Nasceu na península do Peloponeso, sul da Grécia, em 12 de fevereiro de 1933. Mudou-se para Paris em 1954, para estudar literatura na Sorbonne, curso que mais tarde trocou pelo de cinema. É casado e pai dos cineastas Julie e Romain Gavras. É naturalizado francês

CARREIRA
Dirigiu seu primeiro filme, o curta-metragem "Les Rates", em 1958. Presidiu a Cinemateca Francesa na década de 1980 e é presidente de honra da instituição desde 2007. Seus filmes tocam em temas de cunho histórico e social

PRÊMIOS
Ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro pelo longa "Z" (1969) e o de melhor roteiro adaptado por "Desaparecido - Um Grande Mistério" (1982), além da Palma de Ouro em Cannes. No mesmo festival, levou o prêmio de melhor diretor por "Sessão Especial de Justiça" (1975). Ganhou o Urso de Ouro do Festival de Berlim por "Muito Mais que um Crime" (1989)
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Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2013/05/1281860-aos-80-costa-gavras-fala-sobre-o-capital-filme-em-que-discute-poder-e-a-crise-na-europa.shtml

A síndrome da militância arrogante




A síndrome da militância arrogante


By, Marília Moschkovich

Parte dos oprimidos adota, previsivelmente, a ideologia do opressor. Mas nem por isso feminismo, ou outros movimentos libertários, deveriam julgar-se superiores


A situação não é nada nova: mulheres reforçando o machismo. Isso sempre existiu e existirá, enquanto houver machismo. Ser mulher não torna ninguém automaticamente revolucionária, feminista. Estar na condição de oprimido não torna ninguém necessariamente contra a opressão. Aqueles que lutaram e lutam pelo socialismo no mundo todo sabem bem disso. Se essa condição fosse suficiente para derrubarmos as opressões, definitivamente não teríamos saído da guerra fria como majoritariamente capitalistas, no mundo todo. Quem eram (e quem são) os soldados estadunidenses nas guerras contra “o comunismo”? Donos de empresas? A classe que tem os meios de produção? (eu realmente preciso responder essas perguntas pra vocês?)

A lógica é relativamente simples: existe uma forma dominante de pensar, que defende sempre os interesses de quem domina. Marx chamou isso de ideologia, Gramsci foi mais longe e pensou numa hegemonia, Althusser explicou que esse negócio se difunde por “aparelhos ideológicos” responsáveis em transmitir essas maneiras de pensar e reforçá-las (e, depois, dirá Foucault, a coagir e controlar as pessoas para que as executem). Essa é, substancialmente, a maneira pela qual quem concentra poder mantém o poder concentrado e a sociedade funciona como funciona. As opressões de classe, raça e gênero têm ainda uma série de ferramentas próprias para que se mantenham.

Por isso, não é de se espantar que mulheres reforcem o machismo, ou que pessoas negras reforcem o racismo, ou que pessoas mais pobres defendam os interesses de pessoas mais ricas, e daí em diante. Como militantes, porém, temos duas formas de lidar com essa situação.

A primeira forma é um tanto contraditória, mas extremamente popular entre militantes de diversas causas, infelizmente. Frustrados com essa contradição gerada pelos próprios sistemas de opressão, muitos de nós acabam descontando a frustração nas pessoas que, em tese, estaríamos defendendo. Há algumas semanas, várias companheiras feministas compartilharam no Facebook uma imagem que apontava alguns motivos pelos quais as mulheres deveriam reconhecer o feminismo. No fim da imagem, um pequeno asterisco estragava todo o propósito de militância, com os seguintes dizeres: “Mas se você prefere continuar lavando louça, provavelmente você deve ser mais útil na cozinha. Então fique lá, enquanto outras lutam por você. Não precisa expor sua ignorância para toda a rede”.

Ai. Essa me doeu na alma.

Doeu porque é uma postura muito comum: o militante, ou a militante, sente-se de alguma maneira superior porque consegue enxergar além do véu da ideologia dominante (como diria o barbudo alemão, Marx). Esse ar de superioridade faz com que ele ou ela sinta-se no direito de falar por grupos dos quais muitas vezes ele/ela não fazem parte e, muito pior que isso, excluir as próprias pessoas em situação de opressão da luta contra essa opressão. Acham-se no direito de determinar que sua luta “serve” apenas para algumas pessoas – aquelas iluminadas como ele/a, que enxergam os mesmos grilhões. Que raio de militância é essa?

Pessoalmente, prefiro uma segunda atitude possível diante dessa frustração. A bem da verdade, ela inibe o próprio sentimento de frustração. Consiste em enxergar, na existência de oprimidos que agem contra seus próprios interesses, um resultado inevitável do próprio sistema de opressão. Isso permite entender que, enquanto nossos movimentos (negro, feminista, de trabalhadores, etc) existirem, essa contradição existirá, já que a partir do momento em que acabarmos com a opressão, nossa própria militância perde o propósito de existir. Quer dizer: lutamos para acabar com uma opressão; enquanto essa opressão existir, existirá essa contradição que frustra muitos e muitas de nós; quando conseguirmos acabar com a opressão, conseguiremos acabar com a contradição; mas então, nosso próprio movimento deixará de existir.

O fim último de todo movimento contra opressões é que, como resultado de seu próprio trabalho, ele deixe de ser necessário. Que ele deixe de ser necessário precisa ser um objetivo geral, que valha para absolutamente todas as pessoas envolvidas nesses sistemas de opressão. Não dá pra pensar um feminismo que quer incluir apenas as feministas no processo e no resultado da luta. Não dá, gente. Não dá.

Ou o feminismo será para todas e todos, ou não será.


Marília Moschkovich é socióloga, editora do site Mulher Alternativa e co-editora de Blogueiras Feministas.

FONTE: http://www.outraspalavras.net/2013/05/21/a-sindrome-da-militancia-arrogante/

O Enigma do Quatro



 Na fogueira de Savonarola

O Enigma do Quatro tece história policial em torno de misterioso livro renascentista

artigo de Federico Mengozzi

TÍTULO -O Enigma do Quatro
AUTORES - Ian Caldwell e Dustin Thomason
TRADUÇÃO - Lea P. Zylberlicht
EDITORA - Planeta

Só existe um brasileiro que, se quiser, pode ler O Enigma do Quatro, de Ian Caldwell e Dustin Thomason, e cotejar as referências, muitas, ao clássico Hypnerotomachia Poliphili num exemplar original. É José Mindlin, proprietário de uma das mais importantes bibliotecas existentes no Brasil, que comprou o célebre livro impresso pelo veneziano Aldo Manuzio no mercado londrino, nos anos 70. O fato de O Enigma ser um best-seller, um exemplar do filão que se convencionou chamar de smart thriller, ou policial inteligente, não o incomoda. ''O importante, para gostar de ler, é começar a ler. Seja o que for'', diz Mindlin, com a convicção de quem, ao longo de seus 91 anos, que completa em setembro, leu de 7 mil a 8 mil obras. Ele conhece a edição em inglês do livro, que mistura, à moda de O Código Da Vinci, de Dan Brown, passado e presente, história e teologia, com o Renascimento ao fundo.

Mais do que um suspense esperto, O Enigma do Quatro tem pretensões a policial erudito. Se O Código elege a obra de Leonardo da Vinci para armar um qüiproquó que mistura Jesus com Maria Madalena, Santo Graal com Opus Dei, o livro dos americanos Caldwell e Thomason escolhe uma obra de igual status, mas conhecida de poucos. Portanto, ainda mais erudita. A par do aspecto literário, a indecifrável e obscura história de Polifilo à procura de sua amada, Polia, em italiano arcaico com intervenções gregas e latinas, com 171 xilogravuras da escola de Andrea Mantegna, é considerada um dos mais belos livros que existem. ''É um dos grandes livros de todos os tempos'', enfatiza Mindlin. ''Foi impresso em 1499, em Veneza, e assinalou uma revolução na arte editorial, em termos tipográficos, em relação às ilustrações, à diagramação. Se fosse publicado hoje, ainda seria um belo livro. Atual e moderno.''

Para provar a revolução que o livro representou, Mindlin coteja uma edição dos Triunfos, de Petrarca, de 1488, com o livro de Manuzio, o ponto alto de sua biblioteca. A diferença é gritante. É o ontem e o hoje das artes tipográficas. O exemplar de Mindlin pertenceu a um certo sir David Lion Goldsmind-Stern-Salomon e está impecável. Folheiam-se as páginas encorpadas - é papel feito de trapos - com o prazer de estar manipulando a História. Mindlin o tinha na mira, procurou-o por 20 anos e, ao ordenar a compra, reconhece que fez uma ''extravagância''. Ele não revela quanto pagou, mas o livro se paga cada vez que é manuseado. ''Dá satisfação estética'', diz. Existem, se tanto, 200 exemplares no mundo e, até onde o bibliófilo sabe, nenhum outro no Brasil.

Hypnerotomachia Poliphili, ou ''O Combate de Amor de Polifilo num Sonho'', romance alegórico de autoria incerta, talvez do dominicano Francesco Colonna (1433-1527), é a razão de ser de O Enigma do Quatro. Em seis meses, o romance vendeu mais de 1 milhão de exemplares nos Estados Unidos, foi publicado em mais de 30 países e traduzido para 30 línguas. Em janeiro, a Warner comprou os direitos para o cinema. No Brasil, em pouco mais de um mês, apoiado por forte campanha publicitária e distribuição do primeiro capítulo em jornais, bateu a marca dos 60 mil exemplares vendidos. Semanalmente, segundo Pascoal Soto, diretor da Editora Planeta, são reimpressos mais 20 mil exemplares. O livro ocupa o terceiro lugar na lista dos mais vendidos de ÉPOCA. Segundo Soto, é O Código da hora. ''É o mesmo universo, o Renascimento, que assinala a mudança do pensamento medieval para o humanismo. É uma ficção bem urdida, com atmosfera fascinante.''

As comparações com O Código, mas também com outros livros que seguem a mesma linha, como O Último Segredo de Da Vinci (Novo Século), de David Zurdo e Ángel Gutiérrez, e A Irmandade do Santo Sudário (Ediouro), de Julia Navarro, são gentilmente dispensadas por Caldwell-Thomason. Eles começaram a escrever o livro em 1998, quando ainda não havia sombra do O Código. Se influência há, reconhecem as de O Nome da Rosa, de Umberto Eco, e A História Secreta, de Donna Tartt. A dupla de escritores junta estudantes universitários, o dia-a-dia do campus e um livro estranho, o ''último grande mistério'' do Renascimento. Como toda história policial, há o que se vê e o que se oculta, e mortes começam a ocorrer. A ação se passa no campus da Universidade de Princeton, em New Jersey.

Como O Código, a preocupação maior de O Enigma é tecer uma teia lógica sobre uma série de pontos inverossímeis - ou de pouca verossimilhança. Aspectos importantes de um romance, como a psicologia dos personagens, ficam em segundo plano em detrimento da ação, que, no caso, é lenta. Embalados em antigos mistérios, envoltos em teorias conspiratórias, os personagens inferem que o romance é, na verdade, um mapa que pode levar a tesouros de arte salvos à ira do reformador Girolamo Savonarola (1452-1498), que queria queimar todos os sinais do paganismo. Ao tentar decifrar o livro, Tom Sullivan e Paul Harris mexem, quase literalmente, com fogo.

Amigos de infância, Caldwell estudou História; Thomason, Antropologia e Medicina. Hoje, ambos com 29 anos, definem-se escritores e estão trabalhando no segundo livro. Thomason, que fala pela dupla, disse a ÉPOCA que o sucesso os surpreendeu. ''Escrevemos esse livro porque tínhamos uma história para contar. Quem escreve um livro quer que as pessoas o leiam. Mas há sempre uma margem de risco.'' Ele diz que a dupla desenvolveu uma maneira de escrever a quatro mãos e espera que a procura por temas e histórias do gênero não seja um modismo. ''A história é rica em matéria-prima para os escritores. O romance é uma homenagem ao Renascimento, esse incrível momento da História. O Enigma pode incentivar os leitores a abrir uma porta para esse rico passado.''

                                                                              ***

Trecho do livro O Enigma do Quatro, de Ian Caldwell e Dustin Thomason

NOTA HISTÓRICA

O Hypnerotomachia Poliphili é um dos livros mais preciosos e menos compreendidos dos primórdios da imprensa ocidental. Dele sobraram menos cópias do que da Bíblia de Gutenberg. Os estudiosos continuam a discutir a identidade e o intento do misterioso autor do Hypnerotomachia, Francesco Colonna. Somente em dezembro de 1999, quinhentos anos depois da impressão do texto original, e meses depois dos eventos descritos em O Enigma do Quatro, apareceu a primeira tradução completa em inglês do Hypnerotomachia.

Gentil leitor, ouça Poliphilo contar seus sonhos,
sonhos enviados pelo mais alto dos céus.
Seu esforço não será vão, nem o ouvir o enfastiará,
porque essa maravilhosa
obra é rica em muitas coisas.
Se, sério e sisudo, você despreza histórias de amor,
saiba, lhe imploro, que as coisas
aqui estão em boa ordem.
Você recusa? Mas ao menos o estilo,
com sua nova linguagem,
discurso sério e sensato, merece atenção.
Se recusar isso, também, repare na geometria,
as muitas coisas antigas
expressas em sinais nilóticos...
Aqui você verá os palácios perfeitos dos reis,
a veneração das ninfas, fontes e ricos banquetes.
A dança das sentinelas,
vestidas com roupas coloridas, e o todo
da vida humana está expresso
em escuros labirintos.

Elegia Anônima ao Leitor,
Hypnerotomachia Poliphili



PRÓLOGO

Acho que, como muitos de nós, meu pai passou toda a sua vida reunindo fragmentos de uma história que nunca compreenderia. Essa história começou quase cinco séculos antes de eu ir para a universidade, e terminou muito após a sua morte. Em novembro de 1497, dois mensageiros cavalgaram, certa noite, das sombras do Vaticano até uma igreja chamada San Lorenzo, fora dos muros da cidade de Roma. O que aconteceu naquela noite mudou seus destinos, e meu pai acreditava que poderia mudar o seu também.

Nunca coloquei muita fé em suas crenças. Um filho é a promessa que o tempo faz a um homem, a garantia que cada pai recebe de que tudo quanto considera precioso será algum dia visto como tolo, e que a pessoa que mais ama no mundo o interpretará mal.

Mas meu pai, um estudioso da Renascença, nunca se assustou com a possibilidade de renascimento. Ele contou com tanta freqüência a história dos dois mensageiros que jamais pude esquecê-la, por mais que tentasse. Ele sentia que nela havia uma lição, uma verdade que acabaria por nos atrair.

Os mensageiros haviam sido enviados a San Lorenzo para entregar uma carta a um nobre, sendo advertidos para não abri-la sob pena de morte. A carta estava lacrada quatro vezes com cera preta, e supostamente continha um segredo que o meu pai levaria três décadas tentando descobrir. Mas a escuridão havia caído sobre Roma naqueles dias, sua glória tinha surgido e desaparecido e ainda não havia retornado. Um céu estrelado ainda estava pintado no teto da Capela Sistina, e chuvas apocalípticas inundaram o rio Tibre, em cujas margens apareceu, segundo reclamações de velhas viúvas, um monstro com corpo de mulher e cabeça de burro. Os dois ávidos cavaleiros, Rodrigo e Donato, não prestaram atenção ao aviso de seu senhor. Eles aqueceram os lacres de cera com uma vela e abriram a carta para conhecer seu conteúdo. Antes de partir para San Lorenzo, tornaram a lacrar a carta de maneira impecável, copiando o sinete do nobre com tanto cuidado que a adulteração ficava impossível de ser detectada. Se seu mestre não fosse um homem extremamente sábio, os dois mensageiros certamente teriam sobrevivido.

Porque não seria o lacre a arruinar Rodrigo e Donato e sim, a cera preta onde os lacres haviam sido pressionados. Quando chegaram a San Lorenzo, os mensageiros foram recebidos por um maçom que sabia o que havia na cera: um extrato de uma erva venenosa chamada erva-moura mortal, que, quando aplicada aos olhos, dilata a pupila. Hoje o composto é empregado na medicina, mas naqueles tempos era utilizado pelas mulheres italianas como cosmético, uma vez que pupilas dilatadas eram tidas como sinal de beleza. Foi essa prática que deu à planta seu outro nome: "mulher bonita" ou beladona. Durante o tempo em que Rodrigo e Donato ficaram a derreter cada lacre, a fumaça da cera ardente aderiu-lhes aos olhos. Quando chegaram a San Lorenzo, o maçom os conduziu até um candelabro próximo ao altar. E como suas pupilas não se contraíram, ele soube o que haviam feito. E embora os homens se esforçassem para reconhecê-lo com seus olhos desfocados, o maçom fez como lhe havia sido dito: pegou sua espada e os decapitou.

Era um teste de confiança, tinha dito seu senhor, e os mensageiros haviam falhado.

O que aconteceu com Rodrigo e Donato, meu pai só soube por meio de um documento que descobriu pouco antes de morrer. O maçom cobriu os corpos dos homens e os arrastou para fora da igreja, absorvendo seu sangue com tecido grosseiro de algodão e trapos. Colocou as cabeças em duas sacolas, uma de cada lado da sela de seu cavalo de montaria; os corpos, ele os amarrou no dorso dos cavalos dos dois mensageiros, e em seguida prendeu os animais a reboque do seu próprio cavalo. Encontrou a carta no bolso de Donato e queimou-a, porque era uma fraude e não havia destinatário real a quem entregá-la. Então, antes de partir, curvou-se em penitência diante da igreja, horrorizado com o pecado que havia cometido em nome de seu senhor. Aos seus olhos, as seis colunas de San Lorenzo formavam dentes negros por causa dos vãos entre elas e o simplório maçom admitiu que tremeu quando viu isso, porque em criança ele ficou sabendo, no colo das viúvas, como o poeta Dante tinha visto o inferno e como a punição do maior dos pecadores foi a de ser mastigado para todo o sempre pelas mandíbulas de lo ‘mperador del doloroso regno.

É possível que o velho São Lourenço, de sua tumba, ao ver o sangue nas mãos do pobre homem, tenha arregalado os olhos e, por fim, o tenha perdoado. E pode ser que não houvesse perdão a ser dado e, como os santos e mártires de hoje, Lourenço tenha permanecido impenetravelmente silencioso. Naquela mesma noite, mais tarde, o maçom, seguindo as ordens de seu senhor, levou os corpos de Rodrigo e de Donato a um açougueiro. É melhor não adivinhar o destino de suas carcaças. Seus restos foram espalhados pelas ruas e recolhidos pelas carroças de lixo, espero, ou devorados por cães antes que pudessem ser assados como recheio de torta.

Mas o açougueiro deu outro destino às duas cabeças dos homens. Um padeiro que vivia na cidade, um homem com um toque do demônio em si, levou as cabeças e as colocou em seu próprio forno, onde as deixou durante a noite. As viúvas do lugar tinham o costume de emprestar o forno do padeiro, ao anoitecer, enquanto as brasas do dia ainda estavam quentes; naquela ocasião, quando lá chegaram, as mulheres começaram a gritar e quase desmaiaram diante da visão grotesca que as aguardava.

À primeira vista este parece ser um destino vulgar, ser usado como meio de pregar uma peça em mulheres idosas. Mas imagino que Rodrigo e Donato ficaram muito mais famosos morrendo dessa maneira do que se tivessem permanecido vivos. Porque as viúvas, em todas as civilizações, são as mantenedoras da memória, e as que encontraram as cabeças no forno do padeiro certamente nunca esquecerão o acontecido. Mesmo quando o padeiro confessou o que havia feito, as viúvas devem ter continuado a contar a história de sua descoberta para as crianças de Roma, as quais, durante toda uma geração, se recordaram do conto das cabeças milagrosas tão vividamente quanto do monstro expelido pelas enchentes do Tibre.

E, embora a história dos dois mensageiros fosse eventualmente esquecida, uma única coisa era certa. O maçom executou seu trabalho a contento. O segredo de seu senhor, qualquer que fosse, jamais deixou San Lorenzo. Na manhã seguinte ao assassinato de Rodrigo e Donato, quando o lixeiro ajuntou lixo e vísceras em seu carrinho de mão, pouco se soube sobre a morte de dois homens. O lento ciclo que avança da beleza para o declínio e de novo para a beleza prosseguiu e, como os dentes da serpente que Cadmus semeou, o sangue do mal regou a terra romana e provocou o Renascimento. Quinhentos anos decorreram antes que alguém descobrisse a verdade. Quando os cinco séculos se passaram, e a morte encontrou um novo par de mensageiros, eu estava terminando o meu último ano na universidade de Princeton.

FONTE: http://revistaepoca.globo.com/Epoca/0,6993,EPT931590-1655,00.html