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16.6.13

Outras opiniões : ainda sobre a esquerda.


O futuro da esquerda, segundo um crítico marxista
T.J. CLARK

tradução JOSÉ VIEGAS

RESUMO A série em que a "Ilustríssima" adianta os principais lançamentos do ano traz trecho de "Por uma Esquerda sem Futuro", de T.J. Clark, a sair pela Editora 34. O crítico e professor de história da arte, convidado da próxima Flip, procura redefinir o papel da esquerda como opositora do capitalismo diante da crise atual.


Os intelectuais de esquerda, como a maioria dos intelectuais, não são bons políticos; especialmente se entendermos por política, como pretendo argumentar que deveríamos fazer, os detalhes comezinhos, o trabalho sem lustro e o brilho da performance.

Os intelectuais se atrapalham na hora de ler a partitura. Desafinam quando estão no palco. Mas talvez sirvam para uma coisa: mantendo a analogia musical, eles são, por vezes, os contrabaixistas da fila de trás, cujo resmoneio dá momentaneamente o tom da política e chega mesmo a indicar uma possível nova configuração para ela. Vez por outra, pode inclusive acontecer de a sobrevivência de uma tradição de pensamento e ação depender exatamente disso de que a política seja submetida a uma mudança de tom. É o que me parece estar acontecendo com a esquerda hoje.

Estes apontamentos dirigem-se essencialmente (lamentavelmente) à esquerda do antigo centro do capitalismo a esquerda da Europa. Mas pode ser que ecoem em outros lugares. Nada têm a dizer a respeito da invulnerabilidade do capitalismo a longo prazo e não emitem julgamento que louco se atreveria a fazê-lo nas circunstâncias atuais? sobre a eficiência com que esse sistema gere seus domínios globais ou sobre a eficácia de seu humanismo militar.

O único veredicto implícito no que segue é um veredicto negativo quanto à possibilidade de que a esquerda atual a esquerda realmente existente, como costumávamos dizer ofereça uma perspectiva em que os defeitos do capitalismo, e os dela própria, façam algum sentido. Por "perspectiva", entendo uma retórica, uma tonalidade, uma imagística, uma argumentação e uma temporalidade.

Por "esquerda", entendo uma oposição radical ao capitalismo. Mas essa oposição, como sustento a seguir, nada tem a ganhar com previsões arrogantes e irrealistas sobre o fim próximo do capitalismo. A radicalidade é estabelecida no presente. Quanto mais profundos os esforços preparatórios de um movimento político, tanto maior o seu foco no aqui e agora.

É evidente que existe uma alternativa à ordem atual das coisas. Mas isso não leva a nada nada que mereça ser considerado político. Tem-se a impressão de que a esquerda está imobilizada, no nível da teoria e por conseguinte no da prática, pela ideia de que deve ficar o tempo todo revolvendo as entranhas do presente em busca de sinais de catástrofe e salvação. É melhor olhar para o "pescrai" e para o "maruflicchio"* com ironia infinita uma ironia camponesa, com seu justificado desdém pelo futuro do que apostar em uma política fundada, ainda outra vez, em uma multidão de terracota que espera a hora de sair marchando do túmulo do imperador.

*
É uma visão pessimista? Admito que sim. Mas, à luz dos últimos dez anos, que outra tonalidade parece possível? Como se espera que entendamos a materialização de uma derrocada para valer a ordem financeira mundial ("Essa joça pode ir pro brejo", como disse George W. Bush a seus auxiliares em setembro de 2008) e o quase total fracasso da esquerda em fazer com que suas respostas a isso tivessem uma repercussão mais ampla e não fossem ouvidas só entre fileiras dos fiéis? Ou, visto de outra maneira: se a década passada não é prova da inexistência de qualquer circunstância capaz de reconstituir a esquerda nas formas que ela assumiu nos séculos 19 e 20, o que se entende então por prova?

É um momento amargo. A política, em boa parte do velho e anteriormente inamovível centro, parece tomar, a cada mês que passa, uma forma mais e mais "total" um caráter de tudo ou nada para os que a vivenciam. E na realidade (que não se confunde com o mundo fantasioso das conferências marxistas) isso é tão desanimador para a esquerda quanto para qualquer outra corrente política.

A esquerda está igualmente despreparada para enfrentar a situação. O silêncio dos esquerdistas gregos, por exemplo sua incapacidade de apresentar um programa alternativo de política econômica que contemplasse de forma efetiva e convincente a opção pela moratória, incluindo uma projeção, ano a ano, das consequências de uma saída "ao estilo argentino" é sintomático. E digo isso sem o menor sarcasmo.

Dado o entrelaçamento da presente ordem mundial, se e quando a economia de um país entra em crise, o que alguém, seja quem for, tem para dizer com um mínimo de detalhes que não façam a pessoa cair no ridículo sobre o "socialismo em um só país", ou mesmo sobre o "capitalismo não dirigido pelo capital financeiro num pseudo-Estado-nação em situação de parcial isolamento"? (Por acaso a esquerda pretende se associar aos eurocéticos em sua longa marcha? Ou apostar suas fichas no proletariado de Guangdong?)

A questão do capitalismo justamente porque o próprio sistema está se colocando de novo a questão (se torturando com ela), fazendo assim que ela, com toda a sua enormidade, ofusque o teatro de sombra dos partidos tem de ser deixada temporariamente de lado. Não há como dotá-la de caráter político. A esquerda faria melhor voltando sua atenção para aquilo a que esse caráter ainda pode ser conferido.

*
É difícil pensar historicamente sobre a crise atual, mesmo em termos gerais comparações com 1929 não parecem ajudar, de modo que não há como saber em que vai dar essa mistura de caos e "rappel à l'ordre". O gás lacrimogêneo é colírio nos olhos dos investidores; a greve geral dos gregos está em todas as bocas; o Goldman Sachs faz e acontece no mundo.

Talvez possamos estabelecer um paralelo entre o que vem se passando de 1989 para cá e o momento posterior a Waterloo na Europa o momento da restauração e da Santa Aliança, da aparente imobilidade histórica mundial (apesar da vigorosa reconstelação das forças produtivas) no período que vai de 1815 a 1848.

Considerando o projeto do Iluminismo meu tema continua a ser o da resposta do pensamento político a transformações em larga escala das circunstâncias, esses anos foram um interregno desprovido de paradigmas. O longo arco da crítica racional e filosófica o arco que passa por Hobbes, Descartes, Diderot, Jefferson e Kant havia chegado ao fim. Retrospectivamente, pode-se dizer que, sob o verniz da restauração, formavam-se já os elementos de uma nova visão da história: mutações peculiares no utilitarismo e na economia política; as especulações de Saint-Simon; os contrafáticos de Fourier; a energia intelectual dos jovens hegelianos.

Mas, na época (à sombra de Metternich, de Ingres e do segundo Coleridge), era extremamente difícil tomar esses elementos pelo que eles de fato eram, quanto mais vislumbrar a possibilidade de que viessem a fundir-se em uma forma de oposição uma compreensão nova daquilo a que era preciso se opor e uma intuição sobre o novo ponto de vista a partir do qual a oposição poderia avançar.

É nisso que a Europa de Castlereagh1 se assemelha à Europa de hoje: na sensação de que caíram por terra uma linguagem e um conjunto de postulados até então tidos como conducentes à emancipação, e também na dúvida, bastante realista, de que os elementos de uma nova linguagem possam de fato ser encontrados no espetáculo geral de uma política engessada, de uma economia impiedosa e de um entusiasmo generalizado (como sempre) pela mais recente e estúpida novidade tecnológica.

*
Em outras palavras, a questão para a esquerda no momento é: quão fundo tem de ir a sua reconstrução do projeto do Iluminismo? "Quão para baixo?" Entre nós, há quem pense: "Sete níveis do mundo"2. Tenho a sensação de que o livro que deveríamos estar lendo em vez de "L'Insurrection qui Vient"3 é "The Experience of Defeat", de Christopher Hill.

Ou seja, as heterogêneas, inesperadas e sem dúvida perigosas vozes de que me socorro nestes apontamentos Nietzsche, apesar de tudo; as páginas de Bradley sobre a tragédia; o aterrorizante "Homo Necans", de Burkert; o que Hazlitt e Bruegel têm de mais implacável; Moses Wall nas trevas de 1659; Benjamin em 1940 só em momentos de verdadeiro fracasso histórico vêm à mente como recursos de que a esquerda pode se valer. Só lhes damos ouvidos quando os fatos nos obrigam a perguntar o que, em nossas anteriores encenações da transfiguração, levou à derrocada atual.

O uso que faço da palavra "esquerda" remete, claro, a uma tradição política de que quase já não há traço algum nos governos e oposições que temos hoje. (Parece uma excentricidade perder tempo agora com os tipos de diferença assinalados no passado pelo prefixo "ultra" que essa tradição comportava. Depois que o sol se põe, todos os gatos são pardos.) "Esquerda", portanto, é um termo que denota uma ausência; e essa quase não existência precisa estar explícita em uma nova forma de pensar a política.

Disso não se segue, porém, que a esquerda deva continuar a exaltar a própria marginalidade, como seus integrantes frequentemente se sentem inclinados a fazer exultando no glamour de sua grande recusa e relegando à escuridão que reina lá fora o resto de um mundo impenitente. Desse lado fica o intelectualismo4.

A única abordagem política de esquerda que faz jus ao nome é, como sempre, a que olha nos olhos de sua insignificância, mas cujo interesse está todo voltado para aquilo que pode transformar o vestígio, lenta ou repentinamente, no começo de um "movimento". Muitas e amargas serão as coisas sacrificadas as ideias grandiosas, a estilística revolucionária no processo.

Notas

* Uma das epígrafes do livro, aqui suprimida, foi extraída de "Cristo Parou em Eboli", de Carlo Levi. O trecho explica que, embora haja no dialeto termos distintos para falar de dias futuros (amanhã é "crai", depois de amanhã é "pescrai", até o sétimo, "maruflicchio"), eles costumam ser usados juntos, provando a "inutilidade de se querer enxergar alguma coisa no eterno nevoeiro do 'crai'".

1. Chanceler do Reino Unido entre 1812 e 1822, Robert Stewart, o visconde de Castlereagh [1769-1822] teve atuação decisiva na administração da coalizão internacional que derrotou Napoleão e foi o principal diplomata britânico no Congresso de Viena. [N.E.]
2. Alusão ao poema "Lovely Shall Be Choosers", de Robert Frost [1874-1963], em que, num diálogo travado em uma espécie de além-mundo, decide-se submeter uma mulher a uma série de (sete) duras frustrações na vida. Uma voz ("A Voz") diz: "Joguem-na para baixo!" [Hurl her down!], ao que outras vozes ("As Vozes") indagam: "Quão para baixo?" [How far down?], e a Voz responde: "Sete níveis do mundo" [Seven levels of the world].[N.E.]

3. Ensaio-manifesto que faz uma análise radical da sociedade ocidental e propõe uma insurreição mundial em moldes anarquistas, defendendo a sabotagem a todas as instâncias de representação e a formação de comunas. Foi publicado em 2007 pelo Comité Invisible, um grupo de ativistas franceses que permanecem no anonimato. [N.E.]

4. No original: That way literariness lies, alusão à frase: This way madness lies ["Desse lado fica a loucura"] com que o rei Lear, na peça homônima de Shakespeare, indica a direção do castelo onde se encontram as duas filhas cuja ingratidão o põe ensandecido. [N.E.]

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2013/06/1294782-o-futuro-da-esquerda-segundo-um-critico-marxista.shtml

2.6.13

INtrovertidos e EXtrovertidos, eis a questão


O Poder dos Quietos*

SUSAN CAIN


tradução ANA CAROLINA BENTO RIBEIRO 


Nossas vidas são moldadas tão profundamente pela personalidade quanto pelo gênero ou código genético. E o aspecto mais importante da personalidade "o norte e o sul do temperamento", como diz um cientista é onde cada um se localiza no espectro introversão-extroversão. 
Nosso lugar nesse contínuo influencia como escolhemos amigos e colegas, como levamos uma conversa, resolvemos diferenças e demonstramos amor. Afeta a carreira que escolhemos e se seremos ou não bem-sucedidos nela. Governa o quanto temos tendência a nos exercitar, a cometer adultério, a funcionar bem sem dormir, a aprender com nossos erros, a fazer grandes apostas no mercado de ações, a adiar gratificações, a ser bons líderes e a perguntar: "E se?"
Isso se reflete nos caminhos do nosso cérebro, nos neurotransmissores e nos cantos mais remotos do nosso sistema nervoso. Atualmente, introversão e extroversão são dois dos aspectos mais pesquisados na psicologia da personalidade, despertando a curiosidade de centenas de cientistas. 

Apesar de descobertas animadoras, esses pesquisadores, auxiliados pela tecnologia mais avançada, fazem parte de uma longa e histórica tradição. Poetas e filósofos têm pensado sobre introvertidos e extrovertidos desde o início dos tempos. Os dois tipos de personalidade aparecem na Bíblia e nos escritos de doutores gregos e romanos, e alguns psicólogos evolucionistas dizem que a história desses comportamentos vai muito além: o reino animal também apresenta "introvertidos" e "extrovertidos", como veremos, de moscas da fruta a peixes e macacos. 

Como outros pares complementares masculinidade e feminilidade, Ocidente e Oriente, liberais e conservadores, a humanidade seria irreconhecível, e imensamente diminuída, sem os dois estilos de personalidade. 

Veja a parceria de Rosa Parks e Martin Luther King Jr.: um formidável orador recusando-se a ceder seu lugar em um ônibus segregado não causaria o mesmo efeito de uma mulher modesta que claramente preferiria manter-se em silêncio, não fosse o que a situação exigia. E Parks não teria o necessário para eletrizar uma multidão se tivesse tentado se levantar e anunciar que tinha um sonho. Mas com a ajuda de Martin Luther King, ela não precisou fazê-lo. 

ESTILOS 

No entanto, hoje abrimos espaço para um número notavelmente limitado de estilos de personalidade. Dizem que para sermos bem-sucedidos temos que ser ousados, que para sermos felizes temos que ser sociáveis. 

Vemo-nos como uma nação de extrovertidos o que significa que perdemos de vista quem realmente somos. Dependendo de que estudo você consultar, de um terço a metade dos norte-americanos é introvertido em outras palavras, uma em cada duas ou três pessoas que você conhece. (Considerando que os EUA estão entre as nações mais extrovertidas, o número deve ser pelo menos tão alto quanto em outras partes do mundo.) Se você não for um introvertido, certamente está criando, gerenciando, namorando ou casado com um. 

Se essas estatísticas o surpreendem, provavelmente é porque muitas pessoas fingem ser extrovertidas. Introvertidos disfarçados passam batido em parquinhos, vestiários de escolas e corredores de empresas. Alguns enganam até a si mesmos, até que algum fato da vida uma dispensa, a saída dos filhos de casa, uma herança que permite que passem o tempo como quiserem os leva a avaliar sua própria natureza. 

Você só precisa abordar o tema deste livro com seus amigos e conhecidos para descobrir que mesmo as pessoas mais improváveis consideram-se introvertidas. 

Faz sentido que tantos introvertidos escondam-se até de si mesmos. Vivemos em um sistema de valores que chamo de "ideal da extroversão" a crença onipresente de que o ser ideal é gregário, alfa, sente-se confortável sob a luz dos holofotes. O típico extrovertido prefere a ação à contemplação, a tomada de riscos à cautela, a certeza à dúvida. Ele prefere as decisões rápidas, mesmo correndo o risco de estar errado. Ele trabalha bem em equipes e socializa em grupos. 

Gostamos de acreditar que prezamos a individualidade, mas muitas vezes admiramos um determinado tipo de indivíduo o que fica confortável sendo o centro das atenções. É claro que permitimos que solitários com talento para a tecnologia que criam empresas em garagens tenham a personalidade que quiserem, mas estes são exceções, não a regra, e nossa tolerância estende-se principalmente àqueles que ficaram incrivelmente ricos ou que prometem fazê-lo. 

DECEPÇÃO 

Introversão com suas companheiras sensibilidade, seriedade e timidez é, hoje, um traço de personalidade de segunda classe, classificada em algum lugar entre uma decepção e uma patologia. Introvertidos vivendo sob o ideal da extroversão são como mulheres vivendo em um mundo de homens, desprezadas por um traço que define o que são. A extroversão é um estilo de personalidade extremamente atraente, mas a transformamos em um padrão opressivo que a maioria de nós acha que deve seguir. 

O ideal da extroversão tem sido bem documentado em vários estudos, apesar dessa pesquisa nunca ter sido agrupada sob um único nome. Pessoas loquazes, por exemplo, são avaliadas como mais espertas, mais bonitas, mais interessantes e mais desejáveis como amigas. A velocidade do discurso conta tanto quanto o volume: colocamos aqueles que falam rápido como mais competentes e simpáticas que aqueles que falam devagar. 

A mesma dinâmica aplica-se a grupos, em que pesquisas mostram que os eloquentes são considerados mais inteligentes que os reticentes apesar de não haver nenhuma correlação entre o dom do falatório e boas ideias. Até a palavra "introvertido" ficou estigmatizada um estudo informal feito pela psicóloga Laurie Helgoe mostrou que os introvertidos descrevem a própria aparência física com uma linguagem vívida ("olhos verde-azulados", "exótico", "maçãs do rosto salientes"), mas quando se pede para descreverem introvertidos em geral eles delineiam uma imagem insossa e desagradável ("desajeitado", "cores neutras", "problemas de pele"). 

Mas cometemos um erro grave ao abraçar o ideal da extroversão tão inconsequentemente. Algumas das nossas maiores ideias, a arte, as invenções desde a teoria da evolução até os girassóis de Van Gogh e os computadores pessoais vieram de pessoas quietas e cerebrais que sabiam como se comunicar com seu mundo interior e os tesouros que lá seriam encontrados. 

Sem introvertidos, o mundo não teria: a teoria da gravidade; a teoria da relatividade; "O Segundo Advento", de W.B. Yeats; Os "Noturnos" de Chopin; "Em Busca do Tempo Perdido", de Proust; Peter Pan; "1984" e "A Revolução dos Bichos, de George Orwell; "O Gato do Chapéu", do Dr. Seuss; Charlie Brown; "A Lista de Schindler", "E.T." e "Contatos Imediatos de Terceiro Grau", de Steven Spielberg; o Google; Harry Potter. 

ESTÍMULOS 

Como escreveu o jornalista científico Winifred Gallagher: "A glória da disposição que faz com que se pare para considerar estímulos em vez de render-se a eles é sua longa associação com conquistas intelectuais e artísticas. Nem o E=mc² de Einstein nem 'Paraíso Perdido', de John Milton, foram produzidos por festeiros." 

Mesmo em ocupações menos óbvias para os introvertidos, como finanças, política e ativismo, alguns dos grandes saltos foram dados por eles. Figuras como Eleanor Roosevelt, Al Gore, Warren Buffett, Gandhi e Rosa Parks conquistaram o que conquistaram não "apesar de", mas por causa de sua introversão. 

Mesmo assim, muitas das mais importantes instituições da vida contemporânea são criadas para aqueles que gostam de projetos em grupo e altos níveis de estímulo. Nas turmas infantis, cada vez mais as mesas das salas de aula são arrumadas em forma de concha, a melhor para encorajar o aprendizado em grupo, e pesquisas sugerem que a grande maioria dos professores acha que o aluno ideal é um extrovertido.
As crianças assistem a programas de TV em que os protagonistas não são crianças como qualquer uma, mas estrelas do rock, por exemplo, como Hannah Montana. 

Quando adultos, muitos de nós trabalhamos para empresas que insistem em que trabalhemos em grupo, em escritórios sem paredes, para supervisores que valorizam "um bom relacionamento interpessoal" acima de tudo. Para avançarmos em nossas carreiras, espera-se que nos promovamos descaradamente. 

Os cientistas cujas pesquisas conseguem financiamento muitas vezes possuem personalidades confiantes, talvez até demais. Os artistas cujos trabalhos adornam as paredes de museus de arte contemporânea posam de forma a impressionar nos vernissages. Os autores que têm seus livros publicados tidos no passado como uma raça reclusa hoje são avaliados pelos editores para assegurar que possam participar de programas de entrevistas. (Você não estaria lendo este livro se eu não tivesse convencido meu editor de que sou suficientemente pseudoextrovertida para promovê-lo.) 

DOR 

Se você é um introvertido, também sabe que o preconceito contra os quietos pode provocar uma profunda dor psicológica. Quando criança, pode ter ouvido seus pais se desculparem pela sua timidez. ("Por que você não pode ser mais parecido com os meninos Kennedy?", repetiam constantemente os pais de um homem que entrevistei.) Ou na escola você pode ter sido estimulado a "sair da sua concha" expressão nociva que não valoriza o fato de que alguns animais naturalmente carregam seu abrigo aonde quer que vão, assim como alguns humanos. 

"Ainda ouço todos os comentários da minha infância em minha cabeça, dizendo que eu era preguiçoso, burro, lento, chato", escreveu um membro de uma lista de e-mail chamada Refúgio dos Introvertidos. "Quando eu tive idade suficiente para entender que eu simplesmente era introvertido, a suposição de que algo estava inerentemente errado comigo já era parte do meu ser. Queria encontrar esse vestígio de dúvida e tirá-lo de mim." 

Agora que você é um adulto, talvez ainda sinta uma ponta de culpa quando recusa um convite para jantar para ler um bom livro. Ou talvez você goste de comer sozinho em restaurantes, podendo passar sem os olhares de pena dos outros clientes. Ou lhe dizem que você "fica muito na sua cabeça", uma frase muitas vezes utilizada contra os quietos e cerebrais. 

É claro que há outro nome para pessoas assim: pensadores. 

*O Poder dos Quietos
Autor: Cain, Susan
Editora: Agir